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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O Que Ouvi de Interessante no Mês de Agosto – Por Bruno Vitorino


Agosto foi um mês de saxofonistas na minha escuta. Talvez por causa de certa preocupação e pesquisa das questões da melodia – motivos, tema, fraseados, articulação, etc. – tenha intuitivamente voltado meus ouvidos para estes instrumentistas. Separei aqui três dos discos que ouvi mês passado, todos projetos capitaneados por saxofonistas, mas que apontam caminhos estéticos diferentes entre si, atestando o quão pessoal pode ser a música em sua infinita variedade.


1.     Mark Turner Quartet – Lathe of Heaven:




Dos saxofonistas contemporâneos radicados em Nova Iorque, Mark Turner sempre me pareceu a menos badalado de seus pares em seu mundo da arte, atuando à sombra de figuras estelares como Chris Potter, Joe Lovano e Joshua Redman, recebendo pouca atenção da crítica especializada e desempenhando um papel relativamente discreto no circuito internacional do jazz. No entanto, o tenorista formado na Berklee College of Music e descoberto pelo trombonista/produtor Delfeayo Marsalis (o mais novo dos irmãos da dinastia Marsalis) no início dos anos 1990 vem conseguindo se sobrepor à subestima com um estilo de improvisação bastante particular que privilegia longas e bem arquitetadas linhas melódicas, o uso dos espaços e da variação motívica, saltos inesperados nos registros do sax notadamente a explorar os agudos como recurso provedor do clímax; sintetizando, com isso, numa espécie de dialética sonora, explosão emotiva e contenção racional de seus impulsos. Obviamente influenciado por John Coltrane e Sonny Rollins, pois são referências inescapáveis a qualquer saxofonista do gênero, seu estilo, entretanto, busca primordialmente reconectar o tenor à tradição de certa forma esquecida do contemplativo Cool Jazz, mais especialmente ao sax de Warne Marsh, daí a singularidade de sua sonoridade.

“Lathe of Heaven”, disco lançado em meados do ano passado pelo selo alemão ECM Records, documenta a maturidade de Turner enquanto solista decantada ao longo de sua carreira, além de enfatizar, pela primeira vez, a meu ver, seu talento inerente para a composição além dos esquemas convencionais de saxofonistas prolixos no qual um tema é estruturado por blocos que expõem uma melodia - geralmente complicada, cheia de notas e picotada por acentos rítmicos incomuns -  através de centros tonais que servem de guia para os músicos nos solos que giram indefinidamente sobre toda a forma. Neste sentido, o que se encontra no álbum do tenorista é a preocupação de um compositor inteiramente consciente de seus objetivos estéticos em enfatizar os silêncios, desenhar melodias vagarosas que se movem calmamente por meio de notas longas tocadas em contraponto que gravitam sobre uma seção rítmica bastante fluida e liberta dos constrangimentos impostos pela noção tradicional de swing em 4/4; valendo-se da ausência de um instrumento harmônico para, além de depositar mais responsabilidade sobre todos os envolvidos no delicado processo coletivo da interpretação em contextos de espaço amplo, articular seções ancoradas por um sentido harmônico (geralmente modal) a outras inteiramente abertas de improvisação coletiva. Com isso, Turner, Avishai Cohen (trompete), Joe Martin (contrabaixo) e Marcus Gilmore (bateria) conseguem a proeza de transitar com muita naturalidade entre tradição e o avant-garde numa música que propõe uma ideia pouco usual de lirismo que é, de alguma maneira, clássica, mas inteiramente nova. Disco altamente recomendado.





2.     Steve Lehman Octetc – Mise en Abîme:




O disco do Steve Lehman é uma porrada! É um trabalho que apresenta ao ouvinte sério e aos músicos interessados com os aspectos da composição, interpretação e improviso possibilidades inteiramente novas e inspiradoras. Desdobramento natural de sua tese de doutoramento em música na Universidade de Colúmbia (clique AQUI para ler), em “Mise em Abîme” o saxofonista depura sua abordagem musical baseada em três conceitos chave: a música espectral, que consiste basicamente em decompor uma nota musical em sua série harmônica e considerar todo esse halo sonoro nas escolhas da orquestração, harmonização e improviso; improvisação afrológica, que mais do que uma técnica ou estilo, sintetiza um conceito de improvisação, um ethos musical fundamentado na espontaneidade das decisões tomadas "na hora" durante a performance, no caráter colaborativo do ato de tocar, na preocupação em articular personalidade e perspectivas individuais através do som; e limiares rítmicos, ideia que foca na percepção cognitiva dos fenômenos rítmicos. Mas, calma! Não se assuste com todo esse embasamento teórico, pois não se trata de uma música científica, laboratorial e inorgânica, mero exercício formal e acadêmico da construção sonora. Há, isto sim, uma ousadia de se procurar novas maneiras de compor, improvisar e interpretar um tema por trás de todo este aparato conceitual que mais remete à música erudita de vanguarda que ao jazz. No entanto, Lehman tenta aqui erguer uma ponte entre estes dois mundos, fazendo com que se retroalimentem e se expandam enquanto linguagens e plataformas expressivas. E, ao fazer isso de maneira muito firme através de uma música inteligível e palatável, propõe uma outra sensibilidade, uma outra construção estética que defina um novo conceito de beleza bem distante daquela que se sedimentou em nossa memória auditiva. Música para mentes abertas, ouvidos inquietos e curiosos. Altamente recomendado!



                 
3. John Coltrane – Offering: Live at Temple University:




Em outubro de 1956, John Coltrane foi expulso do aclamado quinteto do trompetista Miles Davis. Miles, digamos usando um termo suave, estava “triste” com o comportamento do saxofonista. Seus problemas com o álcool e o vício em heroína faziam com que Trane estivesse sempre em más condições: chegava atrasado, cochilava no palco, errava as entradas dos temas, era displicente nos improvisos... Era o fundo do poço. Até que, em meados de 1957, Coltrane, nas palavras do próprio, experimentou, “pela graça de Deus, um despertar espiritual que me levou a uma vida mais rica, plena e mais produtiva”[1]. Por conta dessa epifania, o saxofonista entrou numa espécie de primeiro ciclo criativo que lhe rendeu as camadas de som (sheets of sounds), complexos esquemas harmônicos e os álbuns “Blue Train” e “Giant Steps”, ambos clássicos e obrigatórios. A partir de então, o aspecto espiritual passou a estar presente na concepção musical de John Coltrane, e, à medida que ele continuava sua busca por uma música que abarcasse todas as suas necessidades expressivas, este caráter religioso foi tomando um papel cada vez mais central em sua produção.

Lato sensu, “Offering: Live at Temple University” documenta um John Coltrane em sua última fase: absolutamente imerso naquela perspectiva transcendental de sua obra, de busca em não apenas se reconectar com uma Força Criadora através da música, como também em ampliar suas fronteiras estéticas para ainda mais longe. Olhando mais especificamente, o disco duplo traz o registro do concerto histórico dado por Coltrane e seu grupo em 11 de novembro de 1966 - quando ele já não mais se apresentava em clubes, e sim em igrejas e templos - em que, de maneira totalmente inesperada e espontânea, ele põe seu instrumento de lado e começa a cantar e bater no peito, inteiramente mergulhado num transe. Através deste precioso documento é possível identificar aspectos fundamentais da música do saxofonista em seu último estágio, isto é, sua preocupação com o ritmo pelo incremento de percussionistas;  o ainda vigoroso som do tenor e as intensas sessões de improvisação, a despeito da debilidade de sua saúde por causa do câncer no fígado que em 6 meses lhe retiraria a vida; e, o mais importante, como as composições serviam de plataforma para vôos individuais e coletivos pelas paisagens abstratas e rarefeitas do etéreo com o mais puro intuito de comunicar o sublime. Por isso, “Offering” é o testemunho de que Coltrane em seu mergulho na espiritualidade se entregou inteiramente a celebrar e agradecer ao Cosmo pela dádiva da vida, como se afirmasse um preceito dos sufis que defendiam que “a totalidade da criação é o som e que tudo surgiu e desenvolveu-se através do tom e do ritmo”[2]. Um disco obrigatório para os iniciados na liturgia de John Coltrane, mas, talvez, não adequado para aqueles que iniciam contato agora com sua obra.







[1] Trecho retirado do texto escrito pelo próprio Coltrane para o clássico “A Love Supreme”.
[2] KHAN, Musharaff Moulamia; “A Vida de Um Sufi”, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1973, pág. 119.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Pondo Os Pingos nos Is – Por Bruno Vitorino



O Jornal do Commercio publicou ontem (04/01) no Caderno C uma extensa matéria sobre a recém-lançada caixa do Miles Davis Quintet, “All of You: The Last Tour 1960”. Realmente, este lançamento é importante, já que documenta um período histórico muito interessante do combo, em que se ouve um Coltrane alucinado (e incompreendido) com suas frases incendiárias - as chamadas "sheets of sounds" -, experimentando progressões harmônicas intrincadas em plena improvisação e tendo total liberdade para transitar pela forma dos temas o quanto quisesse; e um Miles Davis que, se por um lado rompia com a tradição do hard bop estabelecendo os alicerces do jazz modal com sua linearidade e uso dos espaços, por outro não abria mão de standards conhecidos em seu repertório, sempre focando, contudo, no risco e na espontaneidade durante as performances.

É realmente incomum se deparar com um jornal pernambucano dando espaço ao jazz, essa música, via de regra, tão incompreendida e desprestigiada pelos grandes veículos de comunicação, e ter elaborado comentários a respeito de um lançamento notável e de artistas fundamentais para a música popular do século XX. Eis o mérito do artigo. Para isso digo: bravo!

No entanto, deparei-me com algumas inconsistências ao longo da matéria, de modo que tomei a liberdade de fazer algumas considerações que me parecem necessárias:

1) O autor do texto cita o caso em que Miles agride Coltrane nos bastidores e diz que "o saxofonista simplesmente foi embora". Não foi bem assim. Essa agressão famosa, digamos assim, no mundo do jazz aconteceu no "Café Bohemia" em outubro de 1956. O fato é que Miles ficou irritado com Coltrane, pois ele estava chapado de heroína, moribundo em pleno palco (em alguns momentos, cochilando) e errando as músicas. No intervalo entre os sets dessa gig, Miles perdeu a paciência e bateu em Coltrane, que estava ainda sob os efeitos da droga. No instante em que essa cena ocorreu, Thelonious Monk, que teve uma rusga séria com o trompetista logo após o Newport Jazz Festival de 1955, estava no camarim, viu tudo e disse para o saxofonista: "Você não precisa passar por isso. Venha tocar comigo". Mas, isso só aconteceu em abril de 1957, quando Miles finalmente demitiu Coltrane por conta dos problemas com a heroína, e este se juntou ao quarteto do pianista. Miles fala desse episódio em sua autobiografia "Miles Davis: A Autobiografia", escrita em parceria com o jornalista/poeta Quincy Troupe; o texto no encarte do disco "Thelonious Monk Quartet with John Coltrane at Carnegie Hall" também menciona o acontecimento; e, por fim, a biografia de Monk, "Thelonious Monk: The Life and Times of an American Original", também discorre sobre o caso.

2) O texto diz que "era evidente que Coltrane já havia criado seu próprio tipo de blues". Ao que parece, a intenção do jornalista neste trecho era promover uma espécie de trocadilho ou referência implícita entre “seu próprio tipo de blues” e “Kind of Blue” (e não Blues como está escrito em duas ocasiões), o icônico disco do Miles; mas dizendo, no fim das contas, que o saxofonista já encontrara sua identidade artística. Certo. Porém, em termos estritamente musicais, no que diz respeito ao gênero, Coltrane era tradicionalista, respeitando muito a "forma blues" - seus 12 compassos, seus pontos de apoio harmônicos, sua estrutura melódica na construção temática -, portanto, a rigor, ele não "criou seu próprio blues". A única exceção a essa rigidez na arquitetura sonora talvez seja um tema dele chamado "Locomotion" - que por sinal é de 1957, do obrigatório álbum "Blue Train" -, em que ele sobrepõe à forma blues clássica o turnaround disfarçado da estrutura "rhythm changes" no “B” (ou seja, insere uma seção de dominantes estendidas em movimento cromático descendente - Ab7 / G7 / Gb7 / F7), e termina a música sem resolver na tônica (Bb7), aterrissando na V (F7) após um giro harmônico descendente. Todavia, ainda assim ele não inventa uma nova estrutura blues, e sim acrescenta-lhe outra.

3) Num outro momento, o texto traz: "antes de partir para a turnê, o saxofonista lançou o álbum Giant Steps, em que muda de tenor para sax alto". Nada mais absurdo! Coltrane não muda para o alto nesse trabalho! Na realidade, este fora o seu instrumento de aprendizado quando muito jovem e tocava em bandas de rhythm’ n’ blues nos anos 1940. Mudou para o tenor influenciado por Lester Young. No entanto, Coltrane passou a tocar sax soprano na virada dos anos 1950/60 por conta do impacto que lhe causou Steve Lacy, que tocava exclusivamente o soprano, alternando-o eventualmente com o sax tenor. O disco "Avant-Garde", gravado em 1960, mas só lançado posteriormente, traz o primeiro registro desse instrumento por parte de Coltrane na música "The Blessing".

Além do mais, a relevância histórica de "Giant Steps" se dá pelo inédito horizonte harmônico que Coltrane abre ao inserir no jazz o sistema de tônicas desenvolvido por Nicolas Slonimsky, que, a grosso modo, tratava-se de dividir matematicamente a oitava de uma tonalidade em partes iguais (2, 3, 4, 6 ou 12 partes), estabelecendo "centros tonais" interdependentes (com o mesmo peso de "fundamental" na progressão), interligados por acordes cadenciais. O tema "Giant Steps", por exemplo, é dividido em três partes com os centros sendo Sol Maior, Si Maior e Mi Bemol Maior, num ciclo que se poderia repetir ad infinitum.

4) Ao final da matéria, encontra-se: "...enquanto Coltrane começaria sua revolução que, infelizmente, não se sabe até onde chegaria. Foi interrompida em 1967 pela heroína que quase termina a carreira de Miles nos anos 50." Errado! Coltrane se livra do vício no entorpecente durante o ano de 1957 (justamente quando começa a tocar com Monk) depois de ter quase chegado ao fundo do poço. Ele fala sobre a epifania que foi se livrar da dependência da droga inspirado, segundo ele, pela força divina no texto que escreve para sua obra-prima "A Love Supreme". Coltrane morre em 1967, dez anos depois de estar livre da heroína, em decorrência de um câncer de fígado. Há quem atribua a doença a abusos de álcool e narcóticos, enquanto outros chegam a mencionar inclusive o esforço sobre-humano que Coltrane fazia durante seus longos e intensos improvisos, mas são apenas ilações.

5) Por fim, sendo um tanto quanto detalhista, é "Bitches Brew", e não Biches, sem o “t”, como está escrito no artigo.

No mais, a matéria é bastante oportuna. Só acho, humildemente, que um pouco de acuidade tanto na pesquisa quanto na escrita não faz mal a ninguém.