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terça-feira, 3 de abril de 2018

Variações em 4/4 - Tribalistas




Na coluna deste mês, a escuta coletiva e os comentários dos editores do blog sobre o disco de retorno do grupo Tribalistas.

Boa leitura!


- Fernando Lucchesi:

Eis que 16 anos após o primeiro álbum, os Tribalistas (Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes) resolveram lançar novas composições. Obviamente, durante esse período a música passou por transformações diversas, principalmente no que concerne ao modo de consumi-la e principalmente com relação à execução radiofônica. Digo isso, pois o disco homônimo de 2001 foi um sucesso estrondoso, dentre outros fatores, pela execução maciça no rádio. Hoje, num rádio dominado por sertanejos, bregas e funks é improvável que esse disco tenha sequer metade da repercussão que o primeiro teve, apesar de ter uma levada pop bem acessível.

O disco tem início com duas faixas que se complementam tematicamente. A belíssima Diáspora que traz em sua letra questões como imigração e identidade (ou falta dela). Um Só propõe o discurso de que somos humanos, independente de fronteiras, ideologia ou religião. Essas duas músicas iniciais são um ótimo cartão de visitas. No entanto, o resto do disco oscila bastante.

Trabalivre utiliza a temática do retirante que chega à cidade grande. Há uma referência bem interessante daquele violão “percussivo”, muito bem utilizado por Lenine e com uma breve citação a Vida de Viajante de Luiz Gonzaga. Baião do Mundo também busca sair dessa fórmula “MPB” que termina por cansar o ouvinte. Feliz e Saudável (apesar de o título parecer propaganda de complexo vitamínico) é outra boa faixa que em alguns momentos lembra o Ben Jor do “sambalanço”. Fora da Memória tem aquela pegada bem “mpbística” (cadenciada, com violão e percussão lenta), típica de composição que foi feita pra tocar em lounges ou na Nova Brasil. Fazem parte desse mesmo estilo Aliança, Ânima e Os Peixinhos.

Esse novo trabalho aponta que os três tribalistas ainda possuem uma vertente pop bem afiada e diversificada, mas, em determinados momentos, se conformam com uma fórmula já batida e cansativa.

- Rógeres Bessoni:

Foi com interesse que me dirigi ao novo trabalho dos Tribalistas, mas após os primeiros 15 minutos, o ânimo já tinha desaparecido para terminar a audição do disco. Embora nunca tenha sido entusiasta do trio, o primeiro disco, lançado em 2002, foi uma contribuição bacana para o cenário da época, com uma junção de caminhos que parecia instigante e com possibilidades de bons frutos: Carlinhos Brown com uma trajetória percussiva, ligada a elementos afro-brasileiros e carregando também a herança musical nordestina, Arnaldo Antunes com o elemento rock and roll e sua poética rica e tão peculiar, e Marisa Monte com sua voz melodiosa e uma carreira consolidada como umas das intérpretes de MPB mais bem-sucedidas de sua geração. Bem, se uma produtiva reação química foi capaz de gerar um bom álbum de estúdio no início dos anos 2000, parece que qualquer “encanto” inicial se dissipou com o tempo.

O novo trabalho é desestimulante do começo ao fim. Embora com momentos melodicamente agradáveis (com destaque para Diáspora), o disco inteiro segue sem nenhum grande impacto e sem fascínio. Não apresentando grandes achados, seja nas composições, seja nos arranjos, emplaca uma sequência de músicas “fofinhas” que, em seu conjunto, repetindo sempre o mesmo padrão de interpretação “açucarada” de Marisa Monte e a voz grave e monocromática de Arnaldo Antunes, termina por ser monótona. O melhor fica por conta das letras, com uma variedade expressiva de temas, que vão do drama dos refugiados (sejam os do Oriente Médio, sejam os inúmeros refugiados da vida cotidiana) em Diáspora, passando pela rotina dura e desumanizante dos trabalhadores (Trabalivre), até a sacralidade da água (Baião do Mundo). Boas construções, algumas rimas criativas, mas, ainda assim, não chegam a salvar o disco, que se mantém no máximo “morno”, em toda a sua extensão.

Enquanto o primeiro Tribalistas foi muito bom (bom, mas também nada genial) no que apresentou em sua época, esse é um daqueles retornos que comprovam que a fórmula se esgotou no primeiro projeto (o que, no passado, aconteceu tanto no rock progressivo, por exemplo). O problema reside na sabedoria de perceber que não se tem uma “banda”, mas que foi um projeto com começo, meio e fim em sua primeira edição, e não mergulhar numa possível saudade de si mesmo, para materializar apenas uma versão pálida do que um dia foi um impulso criativo. De qualquer forma, é mais um momento em que constatamos nosso longo hiato na inventividade musical brasileira. Perdemos a inspiração para as grandes melodias, a engenharia das letras verdadeiramente de peso e a fúria (e/ou a paixão) para as performances incendiárias. Há muito que o fogo de El Duende não incendeia a arte por estas plagas…

- Bruno Vitorino:

Minha vida seria tão mais fácil se eu simplesmente aplaudisse e me deixasse encantar pelo frenesi que rege vastas manadas em busca não de pasto, mas de tendências para consumir, modos de vida para experimentar turisticamente e reconhecimento virtual quantificado em likes nas redes sociais. Mas, como tenho ao menos dez centavos de senso crítico e um “volume morto” (muito vivo) que posso chamar de alma, não consigo me adequar à massa disforme e conformista de indivíduos “transparentes”, para usar um termo de Byoung-Chul Han, facilmente encontrados hoje. Digo isso, porque, se assim fosse, eu deveria ter à época do anunciado retorno dos Tribalistas (foi em agosto do ano passado, mas parece um século, não?) berrado meu entusiasmo em timelines, “curtido, compartilhado e comentado” o disco do grupo da família no WhatsApp ao perfil do Twitter quando do lançamento e estar em contagem regressiva para a “tão esperada turnê” do trio por 10 cidades brasileiras – incluindo este vilarejo – para postar e afirmar meu “bom gosto musical” numa foto com filtro retrô no Instagram.

Aí é que está: como não me interesso por música pelo estilo de vida que ela endossa enquanto mercadoria simbólica, e sim pela substância artística que ela condensa, não encontro motivos para apreciar o último disco dos Tribalistas como obra de arte. Sim, sei que isso renderia discussões epopeicas e intermináveis sobre o conceito de “obra de arte” e a aplicabilidade no trabalho do trio, mas me sinto senil o bastante para não ter paciência em dourar a pílula, certo? Deixo isso para os digital influencers e jornalistas dos cadernos de cultura. Eles vivem disso, eu não.

Avante.

Comentei rapidamente na minha coluna passada que o novo álbum era um trabalho “impregnado por uma adolescência tardia e estagnada”, que se recusa a sair de sua redoma de cristal, fantasias e iPhone X para encarar o mundo. Ouça Feliz e Saudável e Um Só, por exemplo, e veja se me engano. Até mesmo quando abordam temas importantes e densos como o drama dos refugiados, a ocupação de escolas ou a vida dura de retirantes nos grandes centros, a perspectiva é juvenil e abobalhada, como escancaram letras de rara pobreza gramatical e poética. Dê uma conferida em Diáspora, Lutar e Vencer e Trabalivre e novamente diga se me engano. Além do mais, em termos estritamente musicológicos, o disco anda em círculos no que há de mais clichê, previsível e palatável com o objetivo, penso eu, de tornar o produto “Tribalistas” mais facilmente consumível pela maior quantidade de seguidores (fã é coisa do passado) que se possa imaginar. Bem, e como se sabe, seres da internet não gostam muito de realizar esforço. Tudo tem de estar pronto e diluído em papinha.

Por mais que eu não goste, devo admitir que até fazia sentido aquela alegria adolescente e certa inocência púbere do álbum de estreia. Estávamos em 2002, e os tempos eram um misto de otimismo, ingenuidade e euforia. Quinze anos depois, esta mesma atmosfera juvenil e “do bem” presente no novo disco me traz a impressão de que os integrantes do Tribalistas – todos hoje na casa dos 50 anos – não viveram o tempo histórico nem experienciaram a vida em sua multidimensionalidade entre 2002 e 2017. Na condição de tribalistas, foi como se por todo esse tempo tivessem encontrado refúgio na Terra do Nunca e voltado para casa depois de cansarem de brincar com Peter Pan e seus amiguinhos. O resultado é este: um disco para adolescentes de meia idade.

- Giba Carvalho:

Quinze anos é uma eternidade, visto que o mundo é célere e as informações são propagadas e absorvidas como o vento. Pois bem, esse período de tempo foi suficiente para que os Tribalistas jogassem sua fama adquirida pelo primeiro disco (2003) no lixo. Após reuniões secretas, negadas com veemência pelos assessores de Arnaldo, Marisa e Brown, foi lançado “Tribalistas” (2017).

O formato é o mesmo do primeiro trabalho. Porém, neste álbum encontramos um Arnaldo Antunes contido, cantando no limite de sua voz grave e recitando poemas. Nem perto do inquieto vocalista e compositor dos Titãs e dos bons discos em carreira solo. Carlinhos Brown parece oprimido no processo criativo, um mero coadjuvante. Ao que me parece, portanto, Marisa é quem puxa o bonde na formatação do disco, pois não resta dúvida que é uma cantora de altíssimo nível.

Creio também que o trio percebeu parcialmente que o mercado mudou. Vivemos a fase do pós-capitalismo e temos que compreender que o futuro será feito à mão. E é justamente nas quatro canções assinadas pelos Tribalistas (as outras seis são parcerias) que encontramos o ponto forte do álbum. Diáspora, que fala da questão dos refugiados é, com sobras, a melhor do disco. Em sua composição encontramos trechos bíblicos e citações de poemas de Castro Alves e Sousândrade. Melodicamente é muito interessante e é sem a menor dúvida o momento de maior destaque de Carlinhos Brown no trabalho. Lutar e Vencer tem tudo para tornar-se um hino da nova geração pois fala das ocupações das escolas (ainda que de um modo bastante adolescente), movimento este, bastante apoiado por Marisa Monte. Feliz e Saudável é uma canção bastante animada e dançante. Uma espécie de Passe em Casa paraguaia. Baião do Mundo é um tributo a água, tanto a sua presença, quanto a sua ausência no mundo.

O álbum não traz aos ouvintes nada do que não tenha sido visto anteriormente. No entanto, o brilho das boas canções pop do antecessor foi jogado à míngua. Conforme dito por algum pensador contemporâneo: “desta vez, a união não fez a força”, muito pelo contrário. Parece um disco feito exclusivamente para “luaus”, nos quais, as estrelas se divertem mais que o público.

sábado, 20 de janeiro de 2018

O Que Ouvi de Interessante em 2017 – por Bruno Vitorino

Musicalmente, 2017 foi o ano em que dei o braço a torcer. Explico. Até então eu era um daqueles colecionadores de discos incorrigíveis (e em extinção) que gostava de garimpar os catálogos das gravadoras e fazia questão de comprar os CD’s para ter fisicamente os álbuns. Entendia que possuir o CD, suporte por excelência da música gravada (nunca fui um purista do vinil), dava um sentido maior à fruição de seu conteúdo, pois ritualizava a escuta e me proporcionava também uma interação material/sensorial com os arredores do som: encarte, ficha técnica, arte gráfica, disco enquanto item colecionável; o que potencializava a experiência da audição. Além disso, o disco físico estava sempre lá, disponível para quando eu quisesse ouvi-lo. Nada mais fácil e prático. Até que eu resolvi experimentar o Spotify. Foi uma revolução.

Para um “viciado em música” como eu, ter acesso a um acervo gigantesco que me disponibilizava tudo (ou quase tudo) o que buscava era um sonho tornado realidade e foi o suficiente para transformar o meu jeito de ouvir música. Discos que eu procurei a vida toda estavam lá, como Skies of America, do Ornette Coleman; raridades do universo jazzístico também, feito Steve Lacy Plays Monk; discografias inteiras de artistas e bandas importantes, idem; selos europeus como a Deutsche Grammophon, Decca Classics e mais recentemente a ECM Records, cujos títulos só chegavam aqui a preço de ouro, igualmente estavam lá. Sem falar na infinidade de outros trabalhos a serem descobertos, algo que estimulava minha atividade de crítico. Mas, para não ser engolido pela plataforma de streaming e me perder na imensidão de playlists, precisei substituir minha empolgação pela disciplina: focava nos álbuns, ouvindo-os inteiros, respeitando sua construção narrativa, a história que contavam. Com isso, desviei dos perigos da banalização da escuta e ouvi muita música como nunca o fizera antes. Desse mundaréu de discos, selecionei quatro que realmente fizeram minha cabeça, para compartilhar com os leitores do blog.

Boa escuta!

PS: “Pra não dizer que não falei das flores”, coloquei na lista um disco que não está disponível no Spotify. Mas, este é um daqueles poucos que é preciso ter. Abro a coluna com ele.

1. Thelonious Monk – Les Liaisons Dangereuses (1960):



Pode-se dizer que este disco é fruto de um maravilhoso acaso. Os produtores Zev Feldman, Francoise Lê Xuân e Frédéric Thomas buscavam por material inédito do saxofonista francês Barney Wilen e por conta disso acabaram batendo nos arquivos de seu produtor nos anos 1950, Marcel Romano. Embrenhados no acervo, localizaram algumas fitas que traziam escrito apenas “Thelonious Monk”. Ficaram encucados. Quando ouviram os rolos, constataram que se tratava da íntegra da sessão de gravação da trilha sonora “perdida” do filme Les Liaisons Dangereuses, de Roger Vadim, proporcionada pelo Thelonious Monk Quartet acompanhado por Wilen, que dobrava o sax tenor com Charlie Rouse. Um verdadeiro tesouro.

O resultado desse achado é um primor de edição e som disposto em um álbum duplo. Cuidado este também dispensado ao livreto, diga-se, que, além de fotos da gravação, traz vários textos sobre a sessão e a importância de Monk para a cena jazzística francesa à época. Já a música é do mais alto nível. Temas do cânone de Thelonious tocados do modo mais espontâneo possível, no calor da hora, com direito a explorações de texturas, suspensão da melodia-tema e incursões às fronteiras do esquema chorus, no intuito, imagino, de dialogar com o filme. Destaque para a contundente mensagem straight ahead de Rhythm-a-Ning, que abre o primeiro disco; a conexão profunda e inesgotável de Monk com o blues expressa na improvisada peça solo Six in One; o arranjo não convencional da balada Light Blue; o desafio cromático descendente e ascendente de Well, You Needn’t; os acordes cortantes tão caros ao pianista; a coesão e swing da seção rítmica; a abordagem contrastante dos tenores nas improvisações.



2. Mônica Salmaso – Caipira:


No ano de 2017, a música brasileira que tem espaço garantido na Grande Mídia foi marcada pelo projeto de Anitta de conquistar o mundo intitulado “CheckMate”. Ousado mapeamento estratégico do mercado pop internacional, o projeto foi iniciado com Will I See You e concluído com chave de ouro, muitas visualizações, likes e buzz com Vai Malandra. Celulites à parte, na música dita “séria”, Os Tribalistas resolveram se juntar mais uma vez e nos brindar com um álbum novo, como se o Brasil já não tivesse problemas o suficiente. Neste disco do trio impregnado de uma adolescência tardia e estagnada, ouvimos versos “poderosos” como “Atravessamos pro outro lado / No Rio Vermelho do mar sagrado / Os center shoppings superlotados / De retirantes refugiados” (Diáspora); “Sou easy, eu não entro em crise / Tenho tempo livre / Pra me trabalhar” (Trabalivre); “Estamos dando aula / De organização / Reformando a sala / Dormindo no chão” (Lutar e Vencer). Sem esquecer também das “Sarradas no Ar” e outras bizarrices que viralizaram país à fora; e sem falar dos artistas locais que, via de regra, só existem para os seus pares, editais de fomento e o Bar Central.

Por sorte, na periferia da produção musical tupiniquim, encontrei abrigo e refúgio no delicado trabalho da cantora paulista Mônica Salmaso, Caipira. Neste disco, a artista nos convida a adentrar em seu imaginário “caipira”, por assim dizer, com sua interpretação do interiorano e seu entendimento desse universo simbólico. Apoiada por um timaço de instrumentistas (Teco Cardoso, Neymar Dias, Proveta, Toninho Ferragutti), Salmaso interpreta 14 canções que sondam as raízes da música popular brasileira e constrói, com isso, um mundo de beleza tão frágil que parece prestes a se quebrar no compasso seguinte. É bem verdade que o excesso de zelo com os arranjos e a empostação podem tornar sua música mais próxima do acadêmico do que do artístico. Isso é um fato. Mas, há tanto respeito e devoção envolvidos em sua busca pelo evanescente da música, algo tão negligenciado hoje em dia, que é impossível não se encantar com a arquitetura do som. Destaque para Água da Minha Sede, famosa na voz de Zeca Pagodinho, que transfigurada em moda de viola revela nuances harmônicas e imagens poéticas que subjazem ante a presença rítmica do samba.


3. Stefano Bollani – Joy in Spite of Everything:


O jazz não nasce do virtuosismo. Na verdade, ele é forjado na espontaneidade da performance pela comunhão de personalidades musicais distintas, pelo diálogo constante de identidades artísticas singulares que convergem e se expressam criativamente num território chamado “tema”. A partir daí, uma dimensão de imprevisibilidade é conferida à música, tornando qualquer resultado concreto insondável, qualquer repetição, impossível. Não à toa, Keith Jarrett afirma que “não se trata do tema, e sim do que você traz ao tema”, e considerando que esse “você” não é o mesmo a cada performance, tudo muda. Compor material temático especialmente para determinados instrumentistas reunidos numa formação específica pode facilitar conexões, incitar outros riscos (sempre tão necessários) e fomentar a desejada eletricidade do novo, mas não pode subverter esse princípio indispensável ao jazz, sob o risco de esvaziá-lo. Compreendendo tudo isso, Stefano Bollani concebeu um álbum brilhante: Joy in Spite of Everything.

O disco nasce do desejo do pianista italiano de incorporar a seu trio dois instrumentistas de rara e particularíssima artisticidade: o guitarrista Bill Frisell e o saxofonista Mark Turner. Assim, percorrendo nove temas escritos por Bollani para o projeto, o quinteto – que eventualmente se transmuta trio, quarteto e duo – embrenha-se nas desconhecidas veredas inerentes a novas composições para, a partir delas, construir um sólido elo emocional e ensejar a manifestação da individualidade de cada músico através de improvisações sobre a forma. É perceptível na atmosfera do disco uma “estética da descoberta” oriunda da espontaneidade da ocasião: músicos que nunca tocaram juntos antes se encontrando pela primeira vez num estúdio para gravar temas novos (logo, inéditos). O resultado é sublime.

Destaque para o balanço contido e idílico de Easy Healing; a reverência às tradições do hard bop em No Pope No Party; os timbres, os voicings, a utilização dos espaços e o fraseado não-prolífico de Bill Frisell (especialmente em Easy Healing e Tales From The Time Loop); o som robusto de Mark Turner, sua mestria na construção argumentativa e na condução extática dos improvisos (especialmente em No Pope No Party e Vale) e suas modulações repentinas do grave para o agudo do instrumento, visando conferir força expressiva a seu discurso (ver Las Hortencias); o comping atento, a capacidade de Bollani em transformar breves motivos em verdadeiras narrativas improvisadas (especialmente na faixa-título) e o seu virtuosismo desprovido de vulgaridade.


4. Meshuggah – The Violent Sleep of Reason:


Intrincados padrões polimétricos, atmosfera carregada pelo peso de guitarras com 8 oito cordas e pelo brutal conflito métrico presente nas canções, vocal gutural furioso e rítmico, letras que erigem utopias negativas sobre declínio da Razão; tudo isso está contido no último trabalho da banda sueca Meshuggah, chamado The Violent Sleep of Reason. Em seu oitavo álbum de estúdio, o grupo se inspira na água-forte de Goya intitulada O Sono da Razão Produz Monstros para denunciar os demônios de nosso tempo nascidos do vácuo deixado pela letargia da Razão iluminista: o terrorismo, a intolerância étnica e religiosa, a banalização da violência, a sedução do tecnológico e também a “passividade participativa”, isto é, sem senso crítico ou reação, do indivíduo envolvido nas circunstâncias dos eventos atuais. Novos monstros de irracionalismo, conformismo e barbárie que envolvem, dominam e aprisionam aqueles que aderem voluntariamente à inércia do pensamento, deixam-se seduzir pela confortável agenda da repetição irrefletida de discursos e ideologias. O que é semioticamente, diga-se, escancarado pelo grupo na arte do disco. Destaque para as letras e o trabalho da bateria de Tomas Haake (especialmente em Clockworks, Born in Dissonance e na faixa-título), as melodias sinuosas e riffs graves das guitarras, a utilização do ritmo enquanto esteio de todo o desenvolvimento temático e do gestual simbólico das composições.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A Profecia de Star Wars – por Bruno Vitorino


Diante de um mundo que fracassou, o homem de nosso tempo tem de fazer uma escolha: ou a angústia ou a abjeção.

Nelson Rodrigues (I)


Demorou, mas finalmente fui assistir a Star Wars: Os Últimos Jedi. Sinceramente, não sei impelido por quais forças ocultas me sujeitei a essa experiência, no mínimo, ultrajante para qualquer amante da trilogia clássica de George Lucas. Talvez, por uma espécie de dever moral, já que de peito aberto, embora desconfiado, submeti-me voluntariamente ao desastre intitulado O Despertar da Força; daí que agora eu deveria continuar o que havia começado e me expor ao suplício dessa nova trilogia até seu fim. Ou talvez, por ter lido em um bocado de veículos da Grande Mídia que se tratava de um filme magistral, uma continuação magnífica que não só honrava o universo de Star Wars, mas que o renovava por inteiro. Inclusive, cheguei a ouvir de profundos conhecedores da saga – e não apenas dos carentes viciados em likes encontrados em cada esquina do Facebook, Instagram e Twitter – que se tratava do melhor de todos os filmes já realizados da série. De repente, por conta disso tudo, devo ter alimentado alguma ilusão que acendeu minha curiosidade. Assim, passado o frenesi da estreia e aproveitando que o novo “filme do momento” é o reboot (mais um) de Jumanji, dei-me ao luxo de desperdiçar R$ 20,00 e aproximados 150 minutos de minha modéstia existência.

A grosso modo, o episódio VIII é uma gororoba cinematográfica espetaculosa e açucarada como só Hollywood sabe fazer: mistura constantes referências e citações à trilogia original, personagens sem carisma e densidade psicológica, heróis pré-formatados e sem trajetória, vilões sem fundamento ou propósito, piadinhas sem graça e todos os lugares-comuns ditados pelo politicamente correto e o bom mocismo tão em voga hoje. O resultado é uma trama confusa e maçante em que, novamente, tudo está posto e não há desenrolar dos fatos: não se explica quem é Snoke, de onde veio a Primeira Ordem, como a República ruiu ou como a Aliança Rebelde se organizou. Ou seja, trata-se de mais um enlatado Walt Disney Company de grande apelo comercial e fácil consumo voltado para um espectador via de regra egocentrado, infantil e imediatista, acostumado às facilidades sem esforço da internet e à fruição distraída de produtos culturais, que procura bens de significado os quais lhe deem algum sentido, ainda que ilusório e fugaz. Ele já recebe tudo prontinho para não ter o trabalho de ligar os pontos do roteiro (ou até mesmo de assistir aos filmes anteriores) e poder desfrutar de sua pipoca em paz, sem pensar muito, de preferência. Ademais, o simples fato de comprar o ingresso lhe assegura o desejado efeito causado pela febre Os Últimos Jedi: a sensação de pertencimento a uma coletividade que se identifica e se reconhece através do consumo da franquia Star Wars.

Por isso, o “x” da questão não reside nas qualidades cinematográficas do blockbuster, que simplesmente não existem, mas repousa no arcabouço simbólico que ele compila, empacota e vende e na forma como a película traduz e representa o imaginário desta geração. De tal sorte, se cada época tem o Star Wars que merece, não deixa de ser interessante e bastante irônico que na mesma proporção de seu retumbante fracasso enquanto obra Os Últimos Jedi sirvam como um vigoroso documento da era culturalmente esfacelada, árida e midiática em que vivemos. Porque, nas entrelinhas do roteiro esterilizado de Rian Johnson, encontram-se cristalizadas as questões que mobilizam tanto a juventude nascida nas redes e criada em apartamento quanto os adultos infantilizados que gralham, sem praticar, as mais nobres intenções humanas. Da Rey empoderada e já senhora de si, passando pelo Chewbacca vegano (isto mesmo! A fera de outrora tem uma crise moral após assar algumas galinhas intergalácticas) e pela liderança feminina, santa e hegemônica de Leia na Aliança Rebelde até chegar ao execrável Líder Supremo branco de olhos azuis; o filme joga na cara do público do início ao fim todos os clichês possíveis do politicamente correto. Tudo é milimetricamente concebido para não ofender, e mais ainda: educar moralmente com sua edificante mensagem gluten free um público desprovido de símbolos unificadores e transversais e averso às contrariedades, mesmo as intelectuais.

Não à toa, Rey, a empoderada protagonista, é uma heroína sem lastro heroico, que não é forjada ao longo do tempo por meio de treinamento, ascese e/ou sacrifício, como sempre o foram os personagens heroicos no continuum da História, de Ulisses a Frodo (ou Merida, se preferir). Rey não. Ela já nasce pronta e não precisa fazer qualquer esforço para dominar a Força, que se manifesta nela como um evento puramente fisiológico que simplesmente se desenvolve e cresce. E aqui nos deparamos com uma inflexão importante na saga: se na trilogia clássica a Força era uma poderosa energia externa ao herói alcançada após um duro e tortuoso caminho, agora ela se transfigura num “dom” comodamente adormecido nas entranhas dos personagens que desperta convenientemente do nada. Para que fazer esforço, afinal?

Não sem razão também, Luke Skywalker, representante da Tradição e do Passado, é apresentado no filme como um velho amargurado, atormentado e ranzinza, autoexilado nos confins da galáxia, que nega qualquer possibilidade de ligação afetiva ou professoral com Rey, a epítome da nova geração. Para que ele mude de ideia, é preciso apelar a um sentimento tão caro aos idosos, o saudosismo; que é devidamente providenciado por Chewbacca, personagem da série original, ao mostrar um holograma vintage (e clássico) de Leia pedindo ajuda. Mais à frente no desenrolar do arco, é emblemática a cena no esboço de treinamento em que Luke pergunta a Rey o que é a Força. “É um poder que os jedis têm de mover as pedras”, ela responde, o que para mim sintetiza o brutal desconhecimento histórico dos acontecimentos e o total estranhamento/desinteresse desta geração por qualquer resquício estruturador da tradição. E se restou em mim qualquer sinal de dúvidas quanto a isso (“vai ver, estou exagerando”, cheguei a pensar), o filme se faz absolutamente claro. É o próprio Mestre Yoda, alegoria da sapiência no universo Star Wars, quem destrói a Árvore do Conhecimento Jedi e os livros sagrados que trazem os textos mais ancestrais e preciosos da ordem guerreira. Como o livro, suporte por excelência do conhecimento, objeto historicamente constituído e responsável por disseminar e preservar as conquistas do pensamento humano, pode ser deletado num ato de leviandade tão grande, que deixaria Umberto Eco chocado? “Ah, Luke, são apenas papéis velhos. Estes livros que você leu a menina Rey já conhece. Precisamos apagar o passado e construir o futuro a partir do zero”, diz Yoda, enquanto a pira de livros me remetia aos horrores das fogueiras de certos regimes totalitários. Deprimente.

E eu poderia divagar por linhas e mais linhas a respeito de outros tantos episódios inócuos e completamente desnecessários – tal qual o filme em si – de Os Últimos Jedi: o dilema adolescente de Rey e Kylo Ren que fazem da Força um verdadeiro Whatsapp para discutir seus dramas e sentimentos desprovidos de substância emocional; o retorno de Leia do hiperespaço à nave-mãe tal como um arcanjo embalado pela luz miraculosa da Força após um bombardeio da Primeira Ordem (e ela ainda sobrevive, ok?); o “workshop para crianças engajadas de como contestar o sistema capitalista malvado e opressor”, quando numa trama secundária e clichê os coadjuvantes Finn e Rose se metem numa aventura em busca de um “mestre decodificador” que ajude os insurgentes a invadir a nave do Líder Supremo (e cujo desfecho é digno do final de Cinderela Baiana); a irracionalidade masculina e indomável de Poe, o bom selvagem de coração puro; os pequenos proto-jedi que, no fundo de sua condição social miserável, pegam as vassouras com o poder da Força (é dessa massa de desvalidos que sairá a nova ordem jedi que pacificará a galáxia, segundo Yoda); o “Eu preciso ver O Despertar da Força, pô.” que entre aplausos e assovios cheguei a ouvir na ovação do público ao final do filme… Saí do cinema um tanto atarantado.

Por isso, diria que Star Wars: Os Últimos Jedi é um filme profético, pois ele parece antecipar um futuro tenebroso para a produção cultural regida pela lógica vã do comércio de bens simbólicos voltados para aquilo que Luiz Felipe Pondé (tremei, CFCH!) chama de “self consumidor de significados”(II). E considerando que a juventude hoje não é mais uma faixa etária, e sim uma atitude, o mercado potencial para esse tipo de pacotilha é incomensurável. Foi essa combinação que alçou o filme ao patamar de 10ª maior bilheteria da história do cinema, arrecadando mais de $ 1.200.000,00 – e tenho certeza que sequer um centavo dessa renda, apesar da “nova consciência social” propagada no longa, será destinado às jovens sequestradas pelo Boko Haram na Nigéria, ou aos miseráveis do Haiti ou ainda às crianças que mundo afora são tolhidas da infância pela mesma máquina cruel que o filme caricatura. Mas, isso não importa, porque o público sai do cinema com sensação de ter participado de algo bom, nobre, de ter fortalecido uma corrente do bem, sem perceber ou sequer cogitar o intricado jogo de contradições e paradoxos por trás desse lucrativo negócio do conglomerado Disney. Com a camisa de Darth Vader e o balde de pipocas promocional do filme na mão (que ele guardará para mostrar aos amigos e alardeará em suas redes sociais), o espectador sai da sala de projeções já pensando no fechamento da trilogia e antevendo para si uma certa glória de shopping center, uma vez que tudo parecerá harmoniosamente em ordem no universo com o fechamento por certo apelativo e fácil que o episódio IX proporcionará.

Diante disso tudo, falar da destruição cinematográfica completa da saga original soa quase hediondo, não é mesmo?


(I) RODRIGUES, Nelson; Teatro Completo – Nelson Rodrigues: Tragédias Cariocas (Volume 2), Editora Nova Fronteira, 3ª edição, Rio de Janeiro, 2017, pág. 615. Excerto do texto publicado no programa da montagem de estreia de “Bonitinha, mas Ordinária”, em 1962.

(II) PONDÉ, Luiz Felipe; Marketing Existêncial: A Produção de Bens de Significado no Mundo Contemporâneo; editora Três Estrelas, São Paulo, pág. 47. 

sábado, 12 de março de 2016

Playlist de Editores: Março/2016


No ar, a coluna “Playlist de Editores” deste mês de março! Em pauta, de livros a filmes, passando por discos, as indicações de cada editor sobre últimos títulos do universo da cultura a que se dedicaram.

Boa leitura!



- André Maranhão:



Minha indicação vai para um pequeno livro de Caetano Veloso, intitulado “Antropofagia”, e publicado pela coleção Grande Ideias. Fruto de uma conexão entre as editoras Penguin e Companhia das Letras, o ensaio de Caetano se divide em quatro seções: A Poesia Concreta; Chico [Buarque]; Vanguarda; Antropofagia; com passagens que apontam diversas influências na trajetória de Veloso, e que vão tanto nas figuras da Rádio Nacional, da Bossa Nova (na qual Caetano se declara um grande fã de João Gilberto e discorre muitos trechos dedicados a ele); quanto na turma do Iê-iê-iê (Roberto e Erasmo Carlos); e do Rock n’ Roll (Beatles, Rolling Stones).

Mas outro ponto que também chama atenção é a costura feita por Caetano a partir de grandes trabalhos da vanguarda brasileira – seja nos desdobramentos na Semana de Arte Moderna de 1922; no Concretismo, com os irmãos Haroldo, Augusto (e o “irmão por afinidade” Décio Pignatari); nos teatros do Grupo Opinião e de José Celso Martinez; no cinema de Glauber Rocha e, sobretudo, no grande impacto de Oswald de Andrade como fonte de inspiração, que daria de alguma forma, no Tropicalismo trabalhado por Caetano, que por sua vez, um dia chegou a declarar: “a tropicália é uma neoantropofagia”!


- Fernando Lucchesi:



Falar sobre “Tubarão” é chover no molhado. Foi o filme que inaugurou a era dos blockbusters (literalmente o “arrasa-quarteirão”) em Hollywood, injetando dólares e mais dólares na indústria cinematográfica, além de alçar ao estrelato o jovem diretor Steven Spielberg. Nessa edição de 40º aniversário de lançamento, há dois documentários excepcionais: The Making of Jaws que trata sobre as complicadas filmagens do longa (nesta edição, na íntegra, ao contrário da edição em DVD que mutilou mais de uma hora do original) e The Shark is Still Working - The Impact and Legacy of Jaws, que como o próprio subtítulo explica, avalia por meio de entrevistas de fãs e de pessoas envolvidas no projeto, o legado e o impacto causado pelo filme, principalmente na cultura pop. Além desses documentários, o Blu-ray apresenta uma versão restaurada do filme, diferentes trailers de cinema e spots para televisão. Indicadíssimo para fãs do filme ou simplesmente para aqueles que querem ver apenas um grande filme de suspense/aventura.




- Rógeres Bessoni:



Revisitando a obra do mestre, só para dizer junto com o coro de milhares: Jackson do Pandeiro é pra se torar. Tenho viajado pela obra dele, passando por diversos momentos da sua carreira intensa, profícua, genial. É fantástico ver o desenho, os contornos do “espírito” musical nordestino sendo definidos – tarefa grandiosa que ele dividiu com Luiz Gonzaga e mais uns poucos. Aí você mergulha em uma experiência estética completa, desde as formas que a língua portuguesa adquiriu no Nordeste, o vocabulário, o humor ora ingênuo, ora desconcertante, e toda a carga antropológica/sociológica que vem no pacote: os forrós, as sambadas, as brigas nas festas, os namoros, a descoberta do Rio de Janeiro (e o fascínio daí advindo), os traços cômicos do povo. E além da genialidade rítmica inconteste, Jackson também tinha grandes sacadas melódicas como intérprete. Aqui eu vou destacar uma das músicas menos comentadas – e que merecia inúmeras boas regravações e homenagens: Capoeira Mata Um. Do disco “Cabra da Peste”, creditada como sendo de autoria de Álvaro Castilho e De Castro, é uma obra-prima do tipo de balanço que iria fazer tanto a cabeça dos brasileiros nos anos 70 e seguintes. E digo mais, tendo sido gravada em 1966, pela temática e pela levada, não me impressionaria nada descobrir que essa música influenciou todo o começo da carreira de Jorge Ben Jor, por exemplo, além da sua incrível aproximação com os afro sambas de Vinícius e Baden (gravados no mesmo ano). Vale muito a pena o mergulho na inventividade desse grande monstro da inventividade sonora.



- Bruno Vitorino:




Em 1995, enquanto o Sepultura - a maior banda do rock brasileiro! - pré-produzia seu clássico Roots, o Pantera trabalhava seu mediano Far Beyond Driven e o Korn choramingava problemas de relacionamento familiar e retratava toda uma geração de adolescentes com sérios problemas de autoconfiança viciados em MTV; uma banda lá dos confins da Suécia quebrava todos os paradigmas até então estabelecidos para o Metal: era o Meshuggah.

Com seu disco “Destroy, Erase, Improve”, o quinteto de Umea sacudiu o universo metaleiro. Musicalmente: agressividade, precisão, graves, e, sobretudo, padrões polimétricos bastante complexos. Melodia? Raramente, e só para criar ainda mais tensão rítmica. Poeticamente: letras afiadas sobre uma utopia pós-apocalíptica, tecnológica e desumanizada que mesclava indústria de massa, cybertech, relações de poder e desorientação ontológica. O “horror” descrito por Conrad em O Coração das Trevas, só que com uma hashtag na frente. O resultado era uma implacável sequência de porradas ritmicas que denunciava aos berros o apagamento do indivíduo idealizado pelo Iluminismo em prol do andróide sem alma criado do consumo frenético e pelo incipiente ideário eletrônico que se desenhava (e cujo resultado hoje vivenciamos). Uma paisagem sonora desnorteante e por vezes irrespirável, mas absolutamente fascinante.

Destaque para a insanidade de Future Breed Machine, o forte conflito métrico de Beneath, as inesperadas modulações rítmicas de Soul Burn, os constantes deslocamentos de acentuação rítmica em Transfixion e a tessitura métrica de Sublevels. E antes que me esqueça: dê-se ao trabalho um olhar mais atento às letras do baterista e virtuose Tomas Haake. Valerá o esforço, vá por mim.

Altamente recomendado!



- Giba Carvalho:


Luiz Melodia é um artista único. Após 13 anos, o “Negro Gato” nos presenteia com um excepcional álbum de inéditas. “Zerima” é uma simbiose perfeita de ritmos e influências. Certamente por dois motivos inerentes a sua carreira. O primeiro é o respeito ao tempo e aos sentimentos musicais na hora de compor.  E o segundo, é por ele não forçar a barra para que tais inovações surjam. O processo com Melodia é totalmente espontâneo. E, em minha opinião, é daí que o verdadeiramente novo surge. A demora é totalmente justificada pelo compromisso com a qualidade e com o que é de fato faz-se relevante para a música nacional.

A reaproximação de Melodia com suas origens do samba, torna-se cada vez mais clara. Notadamente após o estupendo Acústico MTV (o melhor de todos que foram produzidos no Brasil), estas mudanças voltaram com tudo. Como se o lado neotropicalista tivesse ficado no passado e o minimalismo oriundo das cordas e instrumentos percussivos voltassem a bater no coração do Melodia. Tal mudança nos proporciona com clareza, uma percepção prática e estética de quão magnífico é o Luiz, muito embora, ele sempre tenha corrido à margem no rótulo de sambista.

No álbum, encontramos ainda participações especiais. Na dissonante (em termos de arranjo) releitura de Maracangalha (Dorival Caymmi), temos a participação de Mahal Reis (filho de Melodia) que introduziu um trecho rap no balanço que toma conta da canção. E, na maravilhosa Dor de Carnaval, a participação é de Céu. A junção da versatilidade ímpar de Melodia com o modo único da cantora-compositora paulista cantar tornam esta canção uma das “maravilhas contemporâneas” do trabalho. O restante é uma verdadeira AULA de bom gosto e de um excepcional crooner brasileiro.

“Zerima” nos traz um Melodia disposto, cheio de inspiração e com muita vontade de fazer música de verdade!

COMPLETAMENTE INDISPENSÁVEL!


quarta-feira, 9 de março de 2016

A Última Lôa de Naná Vasconcelos – Por Bruno Vitorino


Pernambuco perdeu hoje um de seus filhos mais ilustres: o percussionista Naná Vasconcelos. Embora ultimamente fosse conhecido quase exclusivamente como o responsável pela abertura do carnaval do Recife, Naná tem uma vasta e importantíssima atuação na música brasileira e no cenário jazzístico internacional. Forjou-se artisticamente nos férteis terrenos da música folclórica pernambucana, tocando percussão nos bailes do Batutas de São José e participando das gravações dos discos de frevo de Nelson Ferreira nos áureos tempos da Rozenblit. Depois, mudando-se para o Rio de Janeiro na virada dos anos 1960/70, estabeleceu parceria com Milton Nascimento e outros artistas nacionais num dos momentos mais criativos que a música popular brasileira já teve.
Por esta época, foi descoberto pelo saxofonista argentino Gato Barbieri, figura aclamada e respeitada no mundo do jazz, e passou a integrar o grupo do instrumentista. Foi através do disco “El Pampero” de Barbieri, gravado ao vivo no Montreux Jazz Festival de 1971, que Naná apresentou ao mundo uma imaginação rítmica sem fim e uma capacidade absurda de estabelecer fortes vínculos emocionais no perigoso ato da improvisação. Daí para frente, se inseriria na música improvisada com mais vigor em parcerias com Jan Garbarek, Ralph Towner, Arild Andersen, Pat Metheny, Don Cherry (no seminal trio CODONA) e Egberto Gismonti, seu grande alter ego musical, com quem gravou o obrigatório “Dança das Cabeças” pelo selo alemão ECM Records. Influenciado por Jimi Hendrix, compreendeu que as possibilidades dos instrumentos são infinitas e, especializando-se no berimbau, ampliou as fronteiras estéticas dos sets percussivos, fazendo das células rítmicas a matéria prima de sua poesia sonora.
Em 2007, num tempo em que o Festival MIMO ainda se chamava “Mostra Internacional de Música de Olinda” e se realizava na Cidade Alta, tive a oportunidade de ver o duo Vasconcelos/Gismonti em ação tocando na íntegra o repertório do clássico “Dança das Cabeças”. E não foi mais um desses muitos reencontros burocráticos e revisionistas que tantos artistas outrora criativos apresentam. Ao contrário! Foi a celebração da liberdade criativa compartilhada, da forte sinergia proporcionada por uma total entrega às composições, do risco inerente ao desconhecido da improvisação e dos eventos musicais espontâneos, da maestria artística depurada numa longa jornada musical. Tenho muito firme na memória a densa experiência estética e o poder transformador do concerto, o quanto ele reverberou em mim e me fez pensar sobre o que eu queria da música enquanto instrumentista e compositor.
Ao acordar hoje, fiquei sabendo de sua partida. Uma lástima. O mundo perde bastante com seu retorno ao Éter e o vazio artístico que vivenciamos hoje travestido de Cultura se alastra um pouco mais.
Obrigado por sua música, Naná! Sua Memória permanecerá viva para aqueles ainda vêem na música um portal para a comunhão espiritual da humanidade.

R.I.P.

terça-feira, 1 de março de 2016

Don Ellis Redescoberto - Por Bruno Vitorino

O trompetista Don Ellis. Fonte: Google Imagens.

Há um filme muito ruim que supreendentemente, ao menos para este que vos escreve, foi bastante aclamado por crítica e público chamado Whiplash. O longa conta a história de Andrew, um jovem baterista de jazz que sonha em ser Buddy Rich, mas que não consegue tocar em double time swing nem manter o andamento de um tema. Por conta disso, apanha na cara, é humilhado publicamente e se submete a outras violências morais do professor-regente, Terence Fletcher, na busca por uma perfeição sem propósito. Risível e imensamente frustrante.

Risível, porque um filme tão raso e clichê, que faz da violência mais banal recurso estético, foi recebido pelos sabichões do cinema e pelo público apreciador do circuito não comercial como uma narrativa brilhante sobre o torturante caminho da excelência artística. Balela! Cisne Negro fez isto. Imensamente frustrante, porque a película não apenas perverte gratuitamente o ideal de mestre, aquela generosa entidade forjada na experiência e na sabedoria, e macula a beleza do vínculo que este estabelece com seu discípulo, como também perde a oportunidade de realmente fazer a leitura crítica que se propôs de uma juventude à deriva, sem objetivos, causas ou utopias. E sem falar da caricatura grotesca que o longa faz do ensino do jazz nas escolas de música e do gênero em si enquanto manifestação artística. Se a intenção era atacar o necrotério que Wynton Marsalis chama de jazz, o resultado foi o tédio. Mas, pelo menos para uma coisa o filme serviu: apresentar à nova geração a Don Ellis Orchestra.

Isso por que Whiplash é um tema “de verdade”, composto por Hank Levy especialmente para a big band do trompetista californiano, que abre o interessante disco “Soaring”, de 1973. A versão original da composição que dá nome ao filme é bem mais rica em termos de interpretação, arranjo e improvisos do que à que foi às telonas no arranjo pasteurizado de Justin Hurwitz, um pianista com treinamento clássico que não entende lhufas de jazz, como ele mesmo admitiu. A gravação original é vibrante: os metais em fortíssimo anunciam o tema num esquema de “chamada e resposta”, logo depois a cozinha estabelece o funkeado 7/8 - com destaque para o baixo elétrico com os captadores abertos e realce nos agudos, dando-lhe uma sonoridade meio rock -, e a melodia vai sendo apresentada numa forma que privilegia seções interpoladas que mudam a atmosfera da composição e oferecem contrastes sonoros fabulosos. Repare, por exemplo, no delicado pontilhismo das cordas servindo de cama para os metais em surdina e no efeito rítmico que esta sobreposição métrica causa logo no primeiro minuto da música. E, não menos importante, o solo de Don Ellis é simplesmente matador.

O trompetista, que se graduou na Boston University, tocou com Charles Mingus (“Mingus Dynasty”), George Russell e inúmeras orquestras, construiu sua carreira musical montando sua própria progressive big band. No entanto, ao contrário do sincretismo de Mingus, que misturava folk music, bebop e música de vanguarda, ou da complexa arquitetura sonora das large ensembles de Oliver Nelson, Ellis privilegiava as experimentações com compassos incomuns, padrões rítmicos assimétricos e coloridos tímbricos exóticos proporcionados por combinações e dobras inusuais de instrumentos. Tudo isso em meados dos anos 1960, quando sua orquestra causou algum impacto no cenário jazzístico.

“Soaring” é um ótimo ponto de partida para os que desejam conhecer a sua música. Acessível a ouvidos pouco afeitos à música instrumental, o álbum traz composições bastante intrigantes que expõem com muita precisão a essência criativa e interpretativa de Ellis, integrando num mesmo território um sólido conhecimento da tradição orquestral do jazz, elementos da música erudita, a sonoridade dos instrumentos elétricos popularizados com a expansão do rock, o elemento supresa da improvisação individual e a plasticidade da malemolênica do funk. Além do hoje famoso “Whiplash”, há temas como a quasi rapsódia “Sladka Pitka”, que vai de uma camerística introdução de cordas e madeiras, passando por um balançado funk em 9/8 até descambar num final abstrato e inesperado; a grooveada “The Devil Made Me Write This Piece” e suas digressões em relação à estrutura principal; “Go Back Home”, puro balanço e metaleiras em evidência; e a lírica “Invincible”, onde a confluência das técnicas de orquestração erudita e jazzística se mostra com mais vigor.

É bem verdade que às vezes a big band coloca um pezinho no cafona, trazendo um pouco daquela sonoridade brega dos anos 1970, especialmente nos momentos em que os arranjos dão muita ênfase às cordas ou quando o técnico de som capricha no reverb do trompete - como em “Image of Maria”. Mas sempre há algo inesperado, uma reviravolta na trama da composição, feito o blues em 7/4 no meio de “Sidonie”, que vale a escuta.

Voltando ao filme, lembro de ter ficado tão indignado com Whiplash que soltei involuntariamente um sonoro “que bosta!” em pleno Cine Rosa e Silva mal terminada a película. Lembro também de um cabra que estava ao meu lado com sua garota me lançar um olhar de reprovação e dizer para ela numa falsa discrição: “É por que é um filme sobre jazz. Se fosse sobre o rock ninguém dizia isso.” Não! Não é um filme sobre o jazz, sobre a artisticidade ou sobre a elevação espiritual proporcionada pela música. É somente uma produção superestimada que faz do jazz um pastiche, do roteiro, um decalque pobre de Kafka e onde o diretor brinca de Lars Von Trier. Fato! Mas não deixa de ser um alento ver, de certa forma, Don Ellis redescoberto através dele.


domingo, 21 de fevereiro de 2016

Variações em 4/4 - Blackstar



Na primeira coluna do ano, os editores do blog comentam o último trabalho de David Bowie, “Blackstar”.

Boa leitura!


- Fernando Lucchesi:         

Se há algo que caracterizou David Bowie durante toda sua carreira foi a quase patológica necessidade de constante mudança, tanto visual como musical. Isso fez com que musicalmente Bowie explorasse uma quantidade enorme de sons e ao invés de seguir, era ele quem ditava a tendência do que viria ser feito. Muito dessa amálgama de estilos está presente em “Blackstar”, praticamente um disco-testamento do músico inglês.
Embora haja um grande predomínio de saxofone nos arranjos das músicas, não se trata propriamente de um disco de jazz (vi algumas críticas dizendo isso). O que caracteriza o disco, e isso possivelmente foi causado pelo estado de ânimo de Bowie, é um tom lúgubre, triste, por vezes até sufocante das canções do álbum. A única música que se aproxima de um rock é Sue (Or In a Season of Crime), com uma linha de baixo-guitarra mais acelerada e cheia de distorções. As outras canções do disco possuem estrutura semelhante, mas com pequenas diferenças nos arranjos.

A longa faixa-título, Blackstar, entremeia sax, flauta, batidas eletrônicas tudo dentro dessa atmosfera densa, pesada, com a voz de Bowie surgindo com uma voz quase suplicante. O mesmo se aplica (com algumas mínimas diferenças) à ‘Tis a Pity She Was a Whore e Girl Loves Me, que seguem a mesma estrutura de Blackstar.

Dollar Day já foge um pouco mais do padrão das outras. A música abre com piano e sax se misturando e segue com um violão com uma levada folk. Uma música que poderia estar perfeitamente em algum disco do REM. É o momento do disco em que Bowie diminui os efeitos eletrônicos presentes nas outras faixas. Já I Can´t Give Everything Away lembra algo de “Low” (disco de Bowie de 1977). Nessa faixa há uma retomada do uso de efeitos eletrônicos, teclados e há espaço até para um solo de guitarra.

Mas é na letra de Lazarus (transformado em um belíssimo vídeo) que Bowie realmente parece fazer o seu canto de cisne: “Olhe aqui para cima/Estou no paraíso/Tenho cicatrizes que não podem ser vistas. /Eu tenho drama/não pode ser roubado/Todo mundo me conhece agora.”. Um brilhante epitáfio para um dos artistas mais representativos do século XX.


- Rógeres Bessoni:

Há inegáveis dificuldades em escrever sobre o último trabalho musical de David Bowie. Se, por um lado, todos já falaram que “Blackstar” é um disco de verdadeira despedida (e repetir isso tenderia a ser um mero cliché), por outra via, uma análise detalhada sobre a obra exigiria uma pesquisa rigorosa sobre muitos elementos e poderia desembocar num artigo denso sobre estética, extrapolando os limites desta coluna. Isso porque é impossível falar de qualquer trabalho de David Bowie separado do autor – trata-se de um dos poucos artistas que praticamente impossibilitam tal “corte epistemológico”, ainda que momentâneo. Isso porque Bowie pertenceu à rara categoria daqueles que parecem viver toda a sua “vida pública” (porque era discretíssimo no âmbito pessoal) como se se tratasse de uma consciente composição estética, uma arquitetura experimental recorrendo a diversos campos de linguagem, o intento de uma realização artística de uma certa forma aproximada à maneira como Todorov interpreta ter sido a vida de Oscar Wilde, por exemplo. No caso de Bowie, isso incluía, TAMBÉM, compor e gravar discos.

Pois bem, é nesse contexto que Blackstar parece, de fato, cumprir sua função de arremate. O disco tem um tom “nublado”, até mesmo um tanto sombrio, mesmo nos momentos mais dançantes, como em ‘Tis a Pity She Was a Whore. A minha preferida, Blackstar, ganhou um clip poderoso e impactante, uma belíssima obra de fotografia, em que o ritual com o crânio, encenado em meio a espantalhos, pode facilmente ser entendido como uma contemplação sobre a morte. Além de tudo, vale ressaltar a tão comentada letra de Lazarus, em que o “eu lírico” (se posso usar aqui este termo) canta como se já estivesse morto. Esses conteúdos parecem demonstrar que Bowie sabia muito bem o que estava fazendo e queria, de fato, "gravar em vida um disco póstumo".

Fico assim impossibilitado de comentar Blackstar como se fala simplesmente de qualquer “lançamento”. Não é o trabalho de uma banda ou artista solo que lançou um disco e quer sucesso suficiente para excursionar, ganhar uma grana e os elogios pela obra. Aqui, Bowie compôs uma despedida e... partiu. Não ficou para ouvir qualquer opinião, e talvez não fizesse mais a menor questão disso. Qualquer análise em termos de “gostei/não gostei” ou “ficou bom/não ficou bom” seria pueril e até mesmo leviana. Trata-se de uma obra definitivamente madura, e sendo Bowie o alquimista/experimentalista estético que sempre foi, a sensação é que se está ouvindo (e assistindo nos clips que foram feitos para este disco) uma precisa composição em que cada coisa está exatamente onde ele queria que estivesse, em que cada timbre, palavra e andamento (assim como as cores, cenários e figurinos nos clips) foram intencionados. Bowie não estava mais tateando para ver o que “poderia dar certo ou não”, nem buscando louvores, nem pretendendo ganhar absolutamente nada mais deste mundo. Trata-se de um mestre do desconcerto, manuseando hábil e melancolicamente as tintas que aprendeu a dominar em décadas de manipulação ininterrupta, para compor sua partida desta terra. Agora, sim, com a obra completa, ele se retira e sai de cena. Fica desenhado um ideograma – ou, melhor, talvez um criptograma. Não me surpreenderia nada se, no futuro, observadores atentos percebessem que Bowie, junto com mais uns outros poucos mestres, deixaram criptografadas as fórmulas mágicas que nos ajudarão a dissolver uma era de mediocridade e pobreza espiritual que, parece, apenas se inicia.


- Giba Carvalho:

David Bowie sabia que estava perto do fim e “Blackstar” não é sombrio à toa! É um passeio real da mente mais criativa do mainstream musical mundial, pelos caminhos inóspitos da morte. Talvez por isso, seja o trabalho que menos flerta com Rock ‘n Roll em toda carreira do Camaleão. Por tratar-se de Bowie, não posso citar de onde vêm tantas influências. Encontramos elementos de Jazz Fusion, passando pelo Dub e chegando ao Rap em alguns momentos. Não tenho dúvida ao afirmar: trata-se de mais uma guinada violenta no histórico de trabalhos do cara.

Buscando talvez uma inovação maior ainda do que as de costume, o Camaleão foi buscar na cena Pós-Jazz de Nova Iorque nomes consagrados e que, notadamente, fossem capazes de trabalhar com a mais variada sorte de improvisos. No saxofone – Donny McCaslin, na guitarra – Ben Monder (ambos frutos do encontro anterior com a pianista Maria Schneider), na bateria o espetacular Mark Giuliana (Mehliana), o contrabaixista Tim Lefebvre (Tedeschi Trucks Band) e o tecladista Jason Lindner. Com um time deste quilate, somado a capacidade criativa de Bowie, não tenho dúvida em afirmar que Blackstar é um dos trabalhos mais interessantes lançados em 2015.

Trata-se de álbum de vanguarda (anticomercial), indiscutivelmente! E, mesmo trazendo uma estranheza caricata, quem escuta o álbum sabe que a personalidade de Bowie está entranhada no mesmo.

Indicadíssimo!


- Bruno Vitorino:

Inegavelmente a partida de David Bowie deste mundo de desorientação, destradicionalização e hedonismo desenfreado torna as coisas ainda mais difíceis para a Cultura. Nos últimos dois meses, tantos mestres voltaram ao Éter que é para mim quase impossível não ser fatalista ou, para usar uma expressão de um grande pensador que nos deixou ontem – Umberto Eco -, “apocalíptico”. Pois, a cada grande nome que parte, um vazio criativo se agiganta e se apossa de nosso ideário, substituindo transcendência, substância e profundidade por distração, aparência e efemeridade, como se uma marcha contundente levasse a humanidade à beira do precipício da idiocracia e do irracionalismo.

Só isso bastaria para ouvirmos “Blackstar” com uma solene reverência e profundo comprometimento estético. Mas, o disco é, ainda por cima, de uma riqueza artística surpreendente e cada vez mais rara no mundo de espumas em que vivemos.

A esta altura, todo mundo minimamente ligado sabe que o disco é um testamento musical concebido por Bowie na iminência da morte. A própria capa do trabalho deixa isto bastante evidente: uma grande estrela negra imponente e altiva que oculta, além de sua projeção inteiriça, seus frangalhos, como um astro que se despedaça e sucumbe. Ok. Só que o artista inglês não transformou sua doença – o câncer – num libelo clichê contra a morte que ceifa a sua vida de ídolo pop. Ao contrário! Bowie fez desse funesto território o espaço para uma última metamorfose estética, como era de seu gosto arredio a zonas de conforto, e o local perfeito para expurgar suas angústias, medos e dores enquanto ser humano, indivíduo que enxerga o próprio ocaso, em letras fortíssimas em primeira pessoa na intenção, imagino, de preparar seu espírito para o fim. O resultado é um trabalho marcado por uma atmosfera lúgubre - como num conto de Edgar Allan Poe – que mescla com muita precisão recursos eletrônicos, cordas, sopros e guitarras distorcidas, amalgamados em belos (e ousados) arranjos.

Destaque para o si menor tortuoso de Blackstar, uma suíte em duas partes sobre a “vela solitária” que trazemos em nosso universo interior; o grito desesperado de Lazarus; a base groove de Sue (Or in a Season of Crime) em contraponto à melodia flutuante na voz; o vocal quase recitativo de Girl Loves Me; o inesperado caminho harmônico de Dollar Days; todas as intervenções do saxofone de Donny McCaslin (e não, não é um disco de jazz, e sim um disco com elementos jazzísticos); a presença musical do produtor Tony Visconti.

Em resumo: maestria, comprometimento e risco. O que mais poderíamos querer?

Indispensável!