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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Villa-Lobos: Sinfonias n.º 6 e n.º7 - por Bruno Vitorino

Heitor Villa-Lobos

"Has come? Had come, rather; was there all along…” – Leonard Bernstein


Parafraseando Leonard Bernstein, pode-se dizer que o tempo de Villa-Lobos chegou! Por um longo período, o compositor fora sobrepujado pela exuberância nacionalista de suas Bachianas Brasileiras, o que inequivocamente sombreou a grandiosidade quantitativa e qualitativa de seus demais escritos. São aproximadamente 1.000 títulos que abarcam do poema sinfônico à música de câmara. Contudo, o trabalho de revisão musicológica promovido pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) por meio de sua editora “Criadores do Brasil” traz à luz da execução o lado oculto do compositor. Assim, de modo semelhante ao que aconteceu com Gustav Mahler nos anos 1960, Heitor Villa-Lobos é enfim revisitado e redescoberto.

Acaba de ser lançado pelo selo Naxos, o primeiro volume do projeto de gravação das 11 sinfonias (deveriam ser 12, mas a 5ª se perdeu) do compositor brasileiro pela OSESP sob a direção do maestro Isaac Karabtchevsky. Esse disco traz um registro primoroso das Sinfonias n.º 6 e n.º7 que representam o amadurecimento do Villa em sua busca por um discurso musical sinfônico efetivamente brasileiro para além das peculiaridades folclóricas e do exotismo tropical. Mais ainda: essas obras evidenciam a preocupação do autor em romper com o impulso meramente estético para delinear uma afirmação política na sua construção da “alma brasileira”.

 “Sobre as Linhas das Montanhas” fora o título dado à Sinfonia n.º6 por se basear nos contornos do Pão de Açúcar, do Corcovado e da Serra dos Órgãos no Rio de Janeiro. Para tanto, Villa-Lobos utilizou uma ferramenta pedagógica que desenvolvera para o ensino de crianças: a Milimetrização, isto é, o uso de papel quadriculado sobre uma fotografia a fim de perscrutar, através de gráficos, as melodias. Logo no início, o ouvinte percebe o quão escarpado é o relevo! O Allegro non troppo despeja uma torrente de melodias angulosas que se movem impetuosas sobre um terreno harmônico cromático e tenso para descambar num Lento reflexivo de densa tessitura. O breve terceiro movimento retoma a fúria inicial com harmonizações imaginativas e um vigor rítmico notável, expondo as marcas deixadas por Stravinsky no compositor anos atrás. Já o quarto e último movimento – Allegro – segue a trilha de seu predecessor, explorando, contudo, uma riqueza temática estonteante.

O disco prossegue e a opulência revela seu significado absoluto: Sinfonia n.º 7. Composta em 1945 visando ao concurso de composição realizado pela Orquestra Sinfônica de Detroit, o autor utilizou uma ampla formação orquestral com naipes duplicados e até triplicados, além de um imenso set de percussão. Equilibrando uma massa sonora descomunal e uma sofisticada trama de fluxo contínuo, o compositor escreveu uma de suas mais audaciosas peças. Do Allegro vivace com seus pesados acordes aumentados, variações rítmicas irrefreáveis e padrões melódicos simétricos, passando pela calmaria contemplativa do Lento e pela inesgotável inventividade melódica do Scherzo até chegar à luxúria contrapontística do Allegro preciso; o ouvinte se depara com uma construção narrativa bastante elaborada e singular que revela seus pormenores a cada audição.

Em seu anseio por criar uma linguagem totalmente brasileira, Heitor Villa-Lobos conseguiu unificar em sua música os múltiplos aspectos intimamente associados que deram corpo à ideia de identidade nacional. Por essa razão, é muito importante que uma orquestra brasileira, portanto ligada às tradições e raízes culturais do país, se lance a um projeto dessa magnitude e desentranhe da obscuridade as obras do mais sólido alicerce da música erudita nacional, enaltecendo sua importância histórico-musicológica. Afinal, seu tempo urge, não pelo “hoje”, nem pelo “ontem”; mas, pelo “sempre”!