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quinta-feira, 19 de abril de 2012

The Walking Dead - por Bruno Vitorino

Paul McCartney

No dia 21 de dezembro deste ano, o Recife será tomado pelos zumbis! A “Zombie Walk Recife” – em sua 5ª edição – reunirá centenas de entusiastas de filmes de horror fantasiados de mortos-vivos promovendo um verdadeiro apocalipse zumbi na cidade. Contudo, quem não conseguir esperar e quiser participar de uma prévia cuja temática seja os errantes putrefatos que vagam ao léu em busca de carne fresca onde lhes for possível encontrar terá ótimas oportunidades. De hoje até o próximo domingo, moribundos vindos diretamente das tumbas do mundo pop irão mostrar seus rostos carcomidos na capital pernambucana: Chico Buarque, Los Hermanos e Paul McCartney.

Exatamente, meu leitor imaginário, você não me entendeu errado. Eu afirmei que o poeta redentor dos olhos azuis, os quatro prodígios barbudos do pop nacional e o cavaleiro místico do reino encantado do rock estão mortos! Afirmo categoricamente e peço que me perdoe o atrevimento de não repetir discursos prontos, diluídos em papinha e postos à venda (a preços elevados) para o consumo dos indivíduos que se julgam acima da média intelectual de seus semelhantes. Gostaria também de previamente esclarecer que não busco me colocar como o “do contra” e sim como o arauto da dúvida, porque se a inércia abençoa a ignorância, a incerteza liberta o pensamento. Portanto, sigamos!

O primeiro baile zumbi acontecerá hoje no Teatro Guararapes e se estenderá por quatro dias consecutivos numa farra dionisíaca. O preço da entrada é caro – em média R$ 240,00 – por isso só os escolhidos presenciarão. No palco, Chico Buarque de Holanda, um músico/poeta falecido nos anos 1980, que soube, porém, construir ao redor de sua carcaça artística uma aura messiânica que o colocou acima de tudo – da música em si ao olhar crítico – e que vem se aproveitando dessa redoma cristalina para devorar não a carne (talvez o cérebro), mas o dinheiro dos devotos os quais se entregam em sacrifício inebriados pela ilusão do triunfo da arte numa liturgia macabra de provação intelectual. Música conservada em formol, vendida como nova. Popular no campo das idéias, porém, na prática, destinada ao consumo de intelectualóides endinheirados. Falei sobre todo esse rito num post anterior aqui no Variações para 4.

Outro aguardado evento temático acontecerá amanhã no Chevrolet Hall: a apresentação do grupo Los Hermanos no Abril Pro Rock na nova (?) turnê em comemoração aos seus 15 anos de carreira. Assassinado friamente por seus próprios criadores em 2007, o quarteto carioca volta do mundo dos mortos para apresentar sua enfadonha mesmice ao público recifense. E quando digo “mesmice”, meu caro leitor, refiro-me à falta de criatividade e ousadia artística dessa promissora banda que há cinco anos anda cambaleante a requentar seu repertório e não escreve uma nova melodia sequer. Ao contrário, acostumou-se a convenientemente se levantar do túmulo quando seus integrantes precisam de dinheiro para tocar adiante seus inexpressivos projetos pessoais. Para que se dar ao trabalho de criar se existe uma legião de fanáticos que se deixam abocanhar de maneira tão delirante? Melhor relançar em vinil toda a sua discografia e se cercar de um robusto aparato midiático para dar ares de relíquia sagrada a mais uma sacada mercadológica.

Por fim, aquele que morreu em 10 de abril de 1970 ao anunciar publicamente o fim da mais relevante (note que não uso o predicativo “melhor”) banda de rock da história... O mais bem sucedido morto-vivo da atualidade: Sir Paul McCartney! Com a passagem pelo Recife da turnê “On the Run” nos próximos sábado e domingo, o músico inglês proporcionará ao público pernambucano o maior flash mob zumbi já visto por estas terras. A estrutura é gigantesca: 800 toneladas de equipamento de última geração, 200 profissionais trabalhando na montagem e produção do evento, mais de 40 técnicos e um palco que terá 70 metros de largura e 26 metros de altura. Pirotecnia tecnológica feita para deslumbrar. Somam-se a isso duas qualidades de Sir Paul indispensáveis à sedução da platéia brasileira ávida por atenção: simpatia e interatividade. Fez até um teaser convocando o rebanho a ser devorado, quer dizer, o público, para ir ao estádio do Arruda assistir ao concerto garantindo-lhe vultosas descargas de adrenalina. Mas a pergunta que paira no ar é: e a música?! Bem... Será a mesma que McCartney vem tocando e vendendo em conserva ao redor do globo há 42 anos! Levando em consideração que sua produção musical pós-Beatles oscila entre o regular e o medíocre, o foco do show será obviamente os hits do Fab Four. “Sempre mais do mesmo. Não era isso que você queria ouvir?”

Não se espante, meu leitor! Ainda sou senhor de minhas faculdades mentais e tenho plena consciência de que “os homens não querem ser perturbados em suas lendas e não gostam que lhes mudem sua verdade”. A certeza alicia o indivíduo para depois aprisioná-lo numa zona de conforto. Por isso, ouso não me curvar de modo complacente em veneração à carniça de certas divindades artísticas sem antes me questionar do porquê de minha reverência. O passado está para ser lido e interpretado, não para nos amarrar ao saudosismo do hipotético Éden cultural. A música é viva, meu caro, e tem de seguir adiante!

domingo, 25 de março de 2012

Análise financeira e não musical - Gilberto da Costa Carvalho



Muita polêmica foi criada em torno dos preços dos grandes shows que ocorrerão em Recife no mês de Abril. Não irei falar do show do Los Hermanos, por se tratar de um festival. Tentarei explicar o que resolvi fazer depois de tanta polêmica. No texto sobre Chico Buarque escrito por Bruno Vitorino aqui no blog, um dos questionamentos principais foi o lucro que o referido artista iria obter com suas apresentações em Recife e o valor de R$350,00 cobrado pelo mesmo.
Resolvi ir para as contas, e fazer um comparativo entre os shows de Chico Buarque e do seu pior pesadelo, que atende pelo nome de Paul McCartney.
Utilizando a internet, fui buscar os preços dos shows de Paul McCartney no Uruguai (dia 15/04), Recife e Florianópolis, consegui os valores envolvidos nas apresentações de Chico Buarque no Rio de Janeiro e Recife e fiz um comparativo.

Analisando Paul McCartney


  • O primeiro ponto que devo ressaltar é a estrutura. Já estive presente ao show de Paul McCartney ano passado no Estádio do Engenhão - Rio de Janeiro. Tudo de primeira qualidade, organizado e com preocupação para o conforto do público. O palco é imenso, com equipamentos de última geração e 3 telões gigantestcos para que todos possam curtir o show. Informações extra-oficiais afirmam que R$7,5 milhões estão envolvidos entre cachês e gastos com estrutura.
  • O preço dos ingressos é condizente com o que irá ser apresentado ao público. A diferenciação dos preços em relação a Recife e Floripa, é a quantidade de público. Em Recife, 60.000 ingressos colocados à venda. Exatamente o dobro que será colocado para o público que irá ao show no Estádio da Ressacada.
  • Dentre os shows de Recife e Florianópolis, o que irá gerar mais lucro é o de Recife. Tendo como média de preços R$340,00, a apresentação de Paul no Recife, terá números em torno de R$20,4 milhões. (Reduzindo os 7,5 milhões entre cachês e estrutura, vejam quanto os empresários irão lucrar, depois de honrar seus compromissos).
  • O show de Montevidéu é o que irá gerar maiores números entre os três envolvidos na análise. Com os 60.000 ingressos já esgotados, este show terá números girando em torno de $U 248 milhões. Convertendo para a nossa moeda ( $U - 0,09292 ), chegamos a um valor que gira em torno de R$23,0 milhões.
  • O que mais me preocupa em relação ao show do Beatle, é o que as autoridades competentes irão fazer para facilitar a vida do público. No show do ano passado no Rio de Janeiro, a cidade inteira se preparou para recebê-lo. Saí da extrema zona sul do Rio (Baixo Gávea) e pagamos exatamente R$8,00 para o Ticket Paul McCartney, que envolvia todas as passagens de ônibus - metrô e trem que nos deixou na frente do local do show.  Com relação ao Estádio do Arruda não tenho preocupações. O que me deixa com a pulga atrás da orelha são duas coisas: acessibilidade e segurança do público (principalmente na saída do show). Ao trazer um show deste porte, espero que os governantes pensem e se planejem porque o caos pode ser absoluto, tenham certeza! Fica o alerta - "Não subestimem Paul McCartney".

Analisando Chico Buarque


  • A primeira coisa que critico em relação ao show de Chico Buarque é o aumento do valor do ingresso em relação ao público do sudeste. Os shows do Vivo Rio, terão média de preços de R$243,33, já os que ocorrerão no Teatro Guararapes tem média de preço de R$245,00. Muitos podem afirmar que a diferença é mínima e eu não aceitarei por um motivo real. A renda financeira do público do Sudeste é mais alta que no Nordeste. 
  • A justificativa de que o show não tem apoio de nenhum orgão governamental é ridícula! Que o material é todo trazido de avião para a estruturação do show é patética! Já estive em show de Chico Buarque e garanto que a estrutura é ínfima junto da que Paul McCartney traz para as suas apresentações. Desculpem, é inevitável não comparar.
  • Vamos aos números. Nos shows de Recife, o lucro médio do artista por apresentação será de R$580,5 mil reais. Como são 4 shows, seus lucros girarão em torno de R$2,3 milhões. No Rio de Janeiro, inicialmente serão 8 shows ( já se comenta a encomenda de mais 8 shows extras), com média de lucros de R$973,3 mil reais por apresentação e chegando nos R$7,8 milhões com 8 shows (não esqueçam a possibilidade de mais oito apresentações).
  • Insisto em falar em gastos irrisórios com estrutura, afinal, é num teatro que já tem palco, som, luzes e etc... Ainda vou mais além na questão do Pagamento dos músicos. Raros são os artistas que fogem da tabelinha da Ordem dos Músicos. Obviamente que um Wilson das Neves e outros grandes músicos que acompanham Chico Buarque não iriam aceitar valores vinculados à Ordem. Mas, será que ele pagaria deste montante de R$2,3 milhões, R$20.000,00 para um músico acompanhá-lo? Vocês sabem a resposta.
Esta foi uma tentativa de explicar os valores financeiros envolvidos nas apresentações. Não irei opinar sobre o talento dos envolvidos, musicalmente falando. Apóio a vinda de grandes nomes da música para o Estado. Espero que com este show de Paul McCartney, Pernambuco seja incluído no roteiro das grandes apresentações (fato aguardado e não realizado, desde a primeira apresentação dos britânicos do Iron Maiden). E, espero também, que o Governo do Estado e a Prefeitura, coloquem o show de Chico Buarque de graça no Marco Zero afinal, a este preço podemos dizer que a MPB virou MEB - Música Elitista Brasileira. Até lá - "Novinha vai, novinha vem."

Comentário - É engraçado ver como as pessoas mudam. O maior esforço da internet agora, é vender os ingressos do show de Chico Buarque. "Um pesadelo chamado Paul McCartney" veio assombrar os cifrões e o prestígio dos olhos azuis.  

Observação - Quem tiver curiosidade, clica em cima da tabela que ela aumenta.