![]() |
| Paul McCartney |
No dia 21 de dezembro deste ano, o Recife será tomado pelos zumbis! A “Zombie Walk Recife” – em sua 5ª edição – reunirá centenas de entusiastas de filmes de horror fantasiados de mortos-vivos promovendo um verdadeiro apocalipse zumbi na cidade. Contudo, quem não conseguir esperar e quiser participar de uma prévia cuja temática seja os errantes putrefatos que vagam ao léu em busca de carne fresca onde lhes for possível encontrar terá ótimas oportunidades. De hoje até o próximo domingo, moribundos vindos diretamente das tumbas do mundo pop irão mostrar seus rostos carcomidos na capital pernambucana: Chico Buarque, Los Hermanos e Paul McCartney.
Exatamente, meu leitor imaginário, você não me entendeu errado. Eu afirmei que o poeta redentor dos olhos azuis, os quatro prodígios barbudos do pop nacional e o cavaleiro místico do reino encantado do rock estão mortos! Afirmo categoricamente e peço que me perdoe o atrevimento de não repetir discursos prontos, diluídos em papinha e postos à venda (a preços elevados) para o consumo dos indivíduos que se julgam acima da média intelectual de seus semelhantes. Gostaria também de previamente esclarecer que não busco me colocar como o “do contra” e sim como o arauto da dúvida, porque se a inércia abençoa a ignorância, a incerteza liberta o pensamento. Portanto, sigamos!
O primeiro baile zumbi acontecerá hoje no Teatro Guararapes e se estenderá por quatro dias consecutivos numa farra dionisíaca. O preço da entrada é caro – em média R$ 240,00 – por isso só os escolhidos presenciarão. No palco, Chico Buarque de Holanda, um músico/poeta falecido nos anos 1980, que soube, porém, construir ao redor de sua carcaça artística uma aura messiânica que o colocou acima de tudo – da música em si ao olhar crítico – e que vem se aproveitando dessa redoma cristalina para devorar não a carne (talvez o cérebro), mas o dinheiro dos devotos os quais se entregam em sacrifício inebriados pela ilusão do triunfo da arte numa liturgia macabra de provação intelectual. Música conservada em formol, vendida como nova. Popular no campo das idéias, porém, na prática, destinada ao consumo de intelectualóides endinheirados. Falei sobre todo esse rito num post anterior aqui no Variações para 4.
Outro aguardado evento temático acontecerá amanhã no Chevrolet Hall: a apresentação do grupo Los Hermanos no Abril Pro Rock na nova (?) turnê em comemoração aos seus 15 anos de carreira. Assassinado friamente por seus próprios criadores em 2007, o quarteto carioca volta do mundo dos mortos para apresentar sua enfadonha mesmice ao público recifense. E quando digo “mesmice”, meu caro leitor, refiro-me à falta de criatividade e ousadia artística dessa promissora banda que há cinco anos anda cambaleante a requentar seu repertório e não escreve uma nova melodia sequer. Ao contrário, acostumou-se a convenientemente se levantar do túmulo quando seus integrantes precisam de dinheiro para tocar adiante seus inexpressivos projetos pessoais. Para que se dar ao trabalho de criar se existe uma legião de fanáticos que se deixam abocanhar de maneira tão delirante? Melhor relançar em vinil toda a sua discografia e se cercar de um robusto aparato midiático para dar ares de relíquia sagrada a mais uma sacada mercadológica.
Por fim, aquele que morreu em 10 de abril de 1970 ao anunciar publicamente o fim da mais relevante (note que não uso o predicativo “melhor”) banda de rock da história... O mais bem sucedido morto-vivo da atualidade: Sir Paul McCartney! Com a passagem pelo Recife da turnê “On the Run” nos próximos sábado e domingo, o músico inglês proporcionará ao público pernambucano o maior flash mob zumbi já visto por estas terras. A estrutura é gigantesca: 800 toneladas de equipamento de última geração, 200 profissionais trabalhando na montagem e produção do evento, mais de 40 técnicos e um palco que terá 70 metros de largura e 26 metros de altura. Pirotecnia tecnológica feita para deslumbrar. Somam-se a isso duas qualidades de Sir Paul indispensáveis à sedução da platéia brasileira ávida por atenção: simpatia e interatividade. Fez até um teaser convocando o rebanho a ser devorado, quer dizer, o público, para ir ao estádio do Arruda assistir ao concerto garantindo-lhe vultosas descargas de adrenalina. Mas a pergunta que paira no ar é: e a música?! Bem... Será a mesma que McCartney vem tocando e vendendo em conserva ao redor do globo há 42 anos! Levando em consideração que sua produção musical pós-Beatles oscila entre o regular e o medíocre, o foco do show será obviamente os hits do Fab Four. “Sempre mais do mesmo. Não era isso que você queria ouvir?”
Não se espante, meu leitor! Ainda sou senhor de minhas faculdades mentais e tenho plena consciência de que “os homens não querem ser perturbados em suas lendas e não gostam que lhes mudem sua verdade”. A certeza alicia o indivíduo para depois aprisioná-lo numa zona de conforto. Por isso, ouso não me curvar de modo complacente em veneração à carniça de certas divindades artísticas sem antes me questionar do porquê de minha reverência. O passado está para ser lido e interpretado, não para nos amarrar ao saudosismo do hipotético Éden cultural. A música é viva, meu caro, e tem de seguir adiante!
