No
íntimo, eu já sabia... Sempre soube, na verdade, que era apenas uma questão de
tempo. Algo inevitável. Demorou pouco mais de um ano, mas finalmente aconteceu:
ontem à noite, virei estatística. Voltando para casa depois de mais um dia de
trabalho, fui reduzido da minha condição de pessoa a mero número e passei a ser
mais um ciclista atingido por um carro na cidade do Recife.
O
local do ocorrido foi a rua Hoel Sette – pertinho da Praça da Jaqueira. Eram
18:30. O trânsito, para variar, estava entre o caótico e apocalíptico. O fluxo,
parado ou quase isso. Eu vinha calmamente à direita, com a bicicleta devidamente
sinalizada, com capacete, seguindo as leis de trânsito e os protocolos da boa
convivência nas ruas, quando, a uns quatro carros à minha frente, percebi que
tinha um veículo há um bom tempo com a seta ligada tentando entrar na via.
Nenhum carro deu a vez e logo eu, idealista que só vendo, fui inventar de ser
gentil e dividir o espaço público com um cidadão igual a mim... Deixei ele
passar. Foi o meu erro. O carro que vinha na minha cola não quis esperar,
acelerou e me atingiu. Só me restou ficar puto!
Por
sorte, tudo não passou de um susto. Não me machuquei, tive apenas prejuízo
material. Contudo, experimentei a imensa frustração compartilhada por muitos
que, como eu, procuram uma maneira alternativa de se locomover em sua cidade e que
também foram vítimas da negligência de outrem. Nesse dia, esbarrei na velha questão
do típico motorista que se julga senhor de engenho, vê as ruas como seu latifúndio
e, por fim, utiliza o carro como insígnia de poder e diferenciação social. Ciclistas
são apenas intrusos e estão sujeitos
a uma truculência cínica que sorri silenciosamente a cada acidente. Não
deveriam sequer existir. “Sai da rua, filho da puta” é a frase carinhosa que
provavelmente todo ciclista urbano já deve ter ouvido. O ranço aristocrático
dos tempos de colônia segue firme.
Caminhei
eternos 15 minutos até minha morada, carregando minha bicicleta como se fosse
um companheiro ferido de guerra - alegoria mais do que apropriada já que o
trânsito brasileiro matou, só no ano passado, mais de 40.000 pessoas. Meu corpo
era uma sombra esmaecida. Minh'alma, um vórtice a sorver a realidade. O Aleph... Enquanto
andava, via pessoas correndo na rua, um carro a avançar o sinal vermelho, gente
jogando lixo no chão. Pensamentos invasivos me assaltavam... Lembrei-me do
momento que vive o país; do aparente despertar político-social; da imagem de
pessoas insatisfeitas indo às ruas, cobrando das instituições e dos donos do
poder ações contundentes para a solução efetiva dos problemas que há muito atingem
o Brasil. A contradição latente da imagem de indivíduos transgredindo regras
básicas da vida em sociedade com a ideia de pessoas que reclamavam aos
governantes um país melhor se misturava em minha cabeça num turbilhão. Algo não
batia. O gigante acordou! Será mesmo?
As
manifestações que eclodem em todo o país são lindas (ainda mais por serem
apartidárias) e enchem meu coração de orgulho e esperança, mas isso é apenas uma
parte importante do processo de transformação, por uma razão simples: não é
possível haver nova política e se não houver nova sociedade. Parece-me
imprescindível que as pessoas repensem individualmente o seu papel enquanto
cidadãos e qual sua importância na construção de uma comunidade de fato voltada
para o bem comum. É preciso, antes de tudo, uma revolução particular, interna,
íntima. Extirpar o "jeitinho brasileiro", o chorume aristocrático de
nossa sociedade e abraçar a plenitude da igualdade democrática que delimita
direitos e deveres para todos independentemente de classe social. As
transformações perenes e mais efetivas precisam começar nas micro-relações, do
reconhecimento do Si e do Outro como equivalentes no processo político que fundamenta
a Nação, o Território e o Estado. Da base ao topo. Do lixo no lixo ao dinheiro
para a educação. Do povo para as instituições e seus representantes. O gigante
acordou? Não! Ele ainda está em coma e respira por aparelhos. Mas, ao menos, abriu
um dos olhos.
Amanhã (20/06) será dia de ocupar as ruas do Recife. De manifestar pacificamente nossa
insatisfação nos rumos que estão sendo dados ao Brasil. Gritar por hospitais públicos
“padrão FIFA”, real inclusão social, educação de Primeiro Mundo, transporte coletivo barato e de qualidade,
fim da corrupção e tudo mais. Motivos não faltam e eu estarei lá a ajudar a despertar esse gigante que há muito se encontra "deitado eternamente em berço esplêndido". Mas, sinceramente tenho a esperança de que alcancemos a maior das vitórias: o revolucionar-se.
