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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Melodia, A Alcunha Divina – Por Giba Carvalho

Luiz Melodia. Fonte: Google Imagens.

Silêncio. Mais um gigante se foi. O ano de 2017, indiscutivelmente, está sendo ceifador e cruel nas minhas referências musicais. Há dois meses e meio, Belchior partiu. E agora, mesmo sabendo da situação frágil de saúde, Luiz Melodia se vai aos 66 anos e aumenta ainda mais o vazio cultural do nosso tão sofrido país. As perdas nunca são fáceis. Perder um artista da magnitude do Luiz, mais ainda. Decidi escrever em três atos. Cada um representa parte de suma importância dentro da minha vida musical e será o meu modo de tentar homenageá-lo.


Primeiro Ato – “Eu sou poeta lá do morro. E foi assim que Deus me fez. Cantando samba a noite inteira. Eu sou mais forte. Eu sou mais gente. Eu sou um rei. Eu sou a pura melodia. Que é feita de amor e alegria. Sou eu que enfeita a cidade. Com a poesia...”

Luiz Melodia é filho do Morro de São Carlos. Iniciou a carreira musical em 1963 e em 1964 criou o seu primeiro grupo musical – “Os Instantâneos”. Nesta época, abandonou o colégio para dedicar-se de modo integral às composições. Poucas pessoas sabem, mas Luiz Melodia foi autodidata. Aprendeu a tocar, mexendo escondido na viola do seu pai, o compositor Oswaldo Melodia. Seu Oswaldo, não fugindo a regra quase que geral dos compositores da época (vide a história de Paulinho da Viola), queria que o filho fosse “doutor”, mas a água do rio só corre para o mar. O garoto, ainda adolescente, foi criando seu espaço e com seus companheiros de grupo criou uma nova atmosfera musical no morro. A mescla de sua raiz no Samba, com Blues, Soul, Foxtrote e até mesmo Rock n´Roll, fizeram de Luiz Melodia um artista único para época. E tal diferenciação no meio chamou a atenção de um frequentador assíduo do Sambas do Estácio: falo de Wally Salomão. Da descoberta à apresentação a Gal Costa, foi um pulo.


Mas, foi por intermédio de Torquato Neto, que na época tinha a coluna Geléia Geral no Jornal “Última Hora”, que o negrinho magrinho começou a cair nas graças da Zona Sul carioca. Num destes célebres encontros musicais, surgiu a canção “My Black, Meu Nego”. Wally Salomão, mais experiente, sugeriu a Luiz a mudança do nome da música. Potencialmente ainda um sucesso escondido, a canção ganhou o nome de “Pérola Negra”, que era o apelido de um jovem homossexual que também frequentava a turma. Nesta época, meados de 1972, Wally Salomão havia sido convidado para dirigir o show – “Gal a Todo Vapor”. Num dos ensaios para o show, Luiz, a convite de Wally, mostrou tal canção a Gal Costa. De imediato, ouviu o que todo artista desconhecido gostaria de ouvir: “Vou pôr no disco.” Antes mesmo do primeiro trabalho solo do Melodia ser gravado (o que ocorreria em 1973), “Estácio Holly Estácio” foi gravada por Maria Bethania.

Em 1973, surge a oportunidade de gravar o seu primeiro trabalho solo. O brilhante “Pérola Negra”, resolve a vida de Luiz Melodia em 28 minutos. Pois é, meus caros, em menos de 30 minutos, Luiz mostra de fato a que veio. Uma viagem sonora absoluta que passa por dez canções brilhantes. Vamos do Choro tradicionalíssimo “Estácio, Eu e Você”, ao balanço Soul de “Vale Quanto Pesa” e pela clássica e imortal “Estácio Holly Estácio” (a marca registrada de Luiz Melodia), que conta em sua gravação com a gaita única de Rildo Hora. Adiante encontramos aquele que, para mim, é o momento mais sublime do disco: a versão de “Pérola Negra” a imortaliza definitivamente. Escalados para a gravação de todo o trabalho, Rubão Sabino (baixista) e Antônio Perna (pianista) fazem um arranjo simplesmente notável tanto para a canção que intitula o disco quanto para a subsequente – “Magrelinha”.
Adentrando ainda mais em terreno desprezado pelo tempo, tenho que citar mais algumas coisas. O ano de 1973 foi bastante bondoso com a Música Popular Brasileira. Nele, surgiram Melodia, Fagner, Sérgio Sampaio e Raul Seixas. Destes, apenas Raulzito era sucesso de vendas e de público. Os demais não emplacaram como era esperado. Isto levou a gravadora a forçar a barra para o lado de Negro Gato. E esta forçada era uma proposta de contramão ao trabalho brilhante ao qual ele havia escolhido e desenvolvido. Interessada apenas em números, a gravadora insistiu diversas vezes para que ele gravasse um disco apenas com Sambas clássicos. Luiz marcou posição e negou o rótulo de “Sambista” que queriam lhe impor. Tal atitude, causou inúmeros problemas com a gravadora, que o sacaneou no mainstream, “vendendo” sua imagem como a do “cara difícil”. Anos depois, o próprio Melodia diria em entrevista – “Se não tivesse feito aquilo, não seria o que sou hoje.”
“Pérola Negra” é um disco indispensável.

Segundo Ato – “Um dia lá no morro pobre de mim. Queriam minha pele para tamborim.”
“Maldito!” Não pensem vocês que esta alcunha pejorativa foi ouvida apenas depois do processo de “endemonização” criado pela gravadora após as negativas de Luiz Melodia. O próprio Morro de São Carlos, seu berço de nascença, assim o rotulava por seguir caminho diferente ao usual. E como tudo tem o seu preço, não foi diferente com Luiz. Somente após 3 anos do lançamento do “Pérola Negra”, o segundo trabalho foi lançado. E Luiz Melodia, desta feita apoiado pelo sucesso nos Festivais de Música (em 1975 foi finalista do Festival Abertura da TV Globo, com “Ébano”), novamente seguiu o rumo de sua inspiração e fez mais diferente ainda.
“Maravilhas Contemporâneas” (1976) veio para confundir ainda mais a cabeça de público e crítica. As letras não eram comuns às outras canções que tocavam nas rádios. Os arranjos, mais ainda. E, o melhor nisso tudo, é que mesmo nesta miscelânea generalizada, logo de cara, duas canções emplacaram como sucesso: “Maravilhas Contemporâneas”, canção que dá nome ao disco, puxa completamente para um lado Rock n´Roll no arranjo e onde nos deparamos pelo tom desafiador proposto por Melodia: “Eu sou quase cigano / beirando a mexicano / americano, brasileiro, Paraíba / novamente civil...”; e “Juventude Transviada” que seguia completamente suas raízes do Samba. Esta, foi sucesso de público e crítica, fazendo até parte de novela global. Inegavelmente, isto ajudou bastante a este magnífico samba-canção cair na boca do povo. “Lava roupa todo dia / que agonia / Na quebrada da soleira / que chovia / Até sonhar, de madrugada / Uma moça sem mancada / Uma mulher não deve vacilar.”
Seria injusto de minha parte concentrar-me apenas aos maiores sucessos comerciais deste álbum. “Memórias Modestas” é um Slow Blues confessional de primeira grandeza! Muitíssimo bem cantada e arranjada, a canção vem para assustar público e crítica. Linha de guitarra e bateria completamente marcantes em todo o percurso e um fraseado de baixo cavalar para finalizar. Na sequência, o ouvinte se depara com “Mary”. Uma metaleira primorosa disputa o espaço, passo a passo, com a brilhante interpretação de Luiz. Considero um dos momentos “Jazzy” mais competentes da nossa música.
Diferentemente do primeiro trabalho onde não tocou nenhum instrumento, Luiz Melodia abre o “Maravilhas” com seu violão na fantástica “Congênito”. Mais próxima novamente de suas raízes, este é um Samba-rock de classe e com letra que dá vários recados claríssimos aos críticos e donos de gravadora – “Se a gente falasse menos / talvez compreendesse mais...” E mais adiante – “Mas o tudo que se tem / Não representa nada / .... / O tudo que se tem / Não representa tudo / O puro conteúdo é consideração”. Para finalizar, talvez aquele que seja o primeiro Samba Enredo guitarreado de nossa história. “Quando O Carnaval Chegou” é um drama existencial contado de forma clara e que, mesmo sendo executado em ritmo acelerado (característica dos sambas-enredo), dá para sentir a dor da perda em sua brilhante interpretação.

O "Maravilhas" é o meu preferido e também é fabuloso!





Terceiro Ato -  "Inda vou passar no Estácio. O Estácio pode me querer."

Em meados de 2006, Luiz Melodia foi convidado para um show em homenagem aos 70 anos do Teatro Rival. Deste show, interpretando apenas clássicos do Samba, surgiu a ideia da gravação do "Estação Melodia" (2007) e, uma ano depois, do "Especial MTV - Luiz Melodia (Estação Melodia - Ao Vivo)". É justamente este trabalho no molde "ao vivo" que completa o caminho. Particularmente, sempre gostei de trabalhos neste formato. Gosto da Vibração do público, dos improvisos dos artistas e músicos, das inúmeras possibilidades de releituras e diversificações.

Penso que esta oportunidade de homenagear os sambas-clássicos, consolidou a volta ao seu passado no Morro de São Carlos, tornando real este retorno aos alpendres e becos por onde vagou, ouvindo toda rama de craques do Estácio. Melodia abre o trabalho com "Contrastes", do imortal Ismael Silva (autor de "Se Você Jurar", um dos mais belos sambas da história na minha opinião). Esta aula magna é iniciada apenas com sua voz inconfundível e única acompanhada por um tamborim solitário marcando a cadência. Pois é, caros leitores, sem fugir à máxima de outro poeta - "...no couro do gato / que faz bom tamborim..."

O restante do trabalho mescla sucessos da carreira do cantor com a base do "Estação Melodia". Destaco inicialmente a releitura de "Tive Sim" do gênio Cartola. Verdadeiro crooner que era, Melodia interpreta a belíssima canção de modo único. Ele aproveita toda a nuance rítmica para encaixar sua malandragem elegante do samba, somada à extensão vocal esplêndida. Logo adiante encontramos "Dama Ideal". Este Samba de Gafieira instigante de Alcebíades de Nogueira em parceria com Arnaldo Passos chama demais a atenção por dois motivos distintos: é como se fosse um mantra na nossa mente (por ter a letra curta e repetitiva) e, principalmente, pelo duelo do set de metais com a voz do intéprete. Compositores como Geraldo Pereira e Jamelão também são lembrados no trabalho. O primeiro com duas canções: a cadenciada "Chegou a Bonitona" e a divertidíssima "Cabritada Mal Sucedida" e o ícone mangueirense com "Eu Agora Sou Feliz", parceria com o Mestre Gato que encerra o trabalho em altíssimo astral.


A perda de Luiz Melodia é devastadora para a Música Popular Brasileira. Raros artistas possuíram num pacote só: talento, criatividade, sensibilidade, posicionamento, respeito à música e ao que de fato ele era. Há 3 anos, seu último trabalho foi lançado. “Zerima” (indicado anteriormente na “Playlist de Editores”), além de homenagear sua irmã Marize que havia falecido (Zerima é Marize ao contrário), é uma aula de respeito ao tempo e uma negativa contundente a tudo que a indústria fonográfica quer hoje em dia. Sempre gostei do posicionamento e da versatilidade de Melodia. Indiscutivelmente, ele foi um dos raros casos de artista incomodado com a mesmice. Passeou por tudo que quis como citado anteriormente. Foi Rock, foi Soul, foi Forró, foi Blues, Foi Jazz, foi Maxixe, foi Samba e como ele foi Samba!
Vai em paz, Luiz! E, como muito bem dito na sua canção: “No céu você hoje estrela divina / Que apaga, acende, ilumina / Essa terra onde a gente vive / No céu, você hoje estrela MELODIA / Que acorda, apaga, ilumina / Essa terra onde a gente morre / Essa terra onde a gente vive / Essa terra onde a gente morre."

sábado, 15 de agosto de 2015

Simpatia Pela Própria Sombra: Rock and Roll e Catarse no Imaginário Ocidental - Por Rógeres Bessoni


O guitarrista Jimmy Page e o escritor William Burroughs.


“Oh, Albion remains
Sleeping now to rise again”




A questão fundamental antes, durante e depois deste texto é uma só: ROCK AND ROLL É COISA SÉRIA. Há cerca de dois anos, me deparei com um link de internet para o resumo do que foi um dos encontros mais primorosos da música contemporânea e que entrou para os anais das entrevistas no mundo do rock. Em 1975, um dos maiores nomes da literatura beat e da chamada contracultura dos anos 50/60, William Burroughs, entrevistou Jimmy Page, para a Crawdaddy Magazine, revista até então totalmente desconhecida por mim. Até hoje, nunca peguei em um único exemplar físico, mas em algumas andanças online verifiquei tratar-se de uma revista especializada em jornalismo musical, criada em meados dos anos 60 e que se destacou pela abordagem frontal do fenômeno musical “rock and roll” - na verdade, parece que o próprio periódico se autodefinia como sendo “a primeira revista que levou o rock a sério”. Ao devorar o conteúdo dessa entrevista, mergulhei em insights profundos, despertados pelas associações de ideias que aconteceram naquela conversa. Na verdade, vários assuntos ali tratados alimentaram outros tantos insights que eu já havia tido, mas que ainda estavam crus, pedras brutas, sem elaboração. A entrevista se deu depois de Burroughs assistir a um show do Zeppelin, e as duas figuras trataram de falar de magia, de Aleister Crowley, de experiências hipnóticas com infra-sons e mantras, das experiências de indução ao transe na música sufi marroquina, dentre outras iguarias. Mas, do material compilado ali, o que me reacendeu uma ideia antiga, para mim nevrálgica, foram os questionamentos de Burroughs a respeito das possibilidades mágicas e psicológicas da música em geral, e do rock em particular. Esse escritor, que ajudou a revirar o baú escuro da alma humana pós-guerras mundiais, aponta para outra dimensão quando pergunta:

“Music, like all the arts, is magical and ceremonial in origin. Can rock music return to these ceremonial roots and take its fans with it?” (Numa tradução livre: “A música, assim como todas as artes, é mágica e cerimonial em suas origens. Pode o rock retornar a essas raízes cerimoniais, conduzindo consigo os seus fãs?”).

E mais ainda quando, ao tratar da aridez e estreiteza do pensamento ocidental contemporâneo, aponta a estreiteza de visão e de escolhas em que nos enclausuramos, a partir da cultura cristã e após o seu declínio,

“(...)when all magic became black magic; that scientists took over from the Church, and Western man has been stifled in a non-magical universe known as “the way things are.” Rock music can be seen as one attempt to break out of this dead soulless universe and reassert the universe of magic.” (...quando toda a magia foi tratada como magia negra; os cientistas substituíram as igrejas, e o homem ocidental foi enclausurado em um universo não-mágico, conhecido como “a maneira como as coisas são”. O rock pode ser visto como uma tentativa de rompimento com esse universo morto e sem alma, e recondução ao universo da magia).

E aqui chegamos a uma das sacadas mais geniais da contemporaneidade, a Chave para entender o poder catártico da música e, mais especificamente, o fogo devorador do rock and roll e como ele, o rock, insuflou a inquietação juvenil e aventureira em corações procedentes de toda parte, se apoderou de traços musicais do mundo inteiro e tocou, por assim dizer, a “Anima Mundi”, de que os alquimistas falavam. Essa Chave explica também como o rock atuou na minha própria vida, nas inúmeras vezes que me resgatou ou me conduziu pelo abismo. Foi essa saída do árido e brochante “non-magical universe”, da vida sem imaginação e sem encantamento e da recuperação da dimensão mágica que o rock operou em zilhões de pessoas – e o fez de forma incendiária, num movimento enfurecido e explosivo, sem muitas preliminares que, em suas duas primeiras décadas, nem deu tempo às pessoas para se reposicionarem ou entenderem bem o que estava acontecendo.

O fato é que o rock and roll ativou Imagens e Símbolos Primordiais poderosos que estavam encerrados no nosso escuro, sob violenta e severa vigilância das duas Grandes Inquisições – a inquisição religiosa cristã medieval, que sistematizou o medo e a submissão, e depois, sua substituta, a inquisição materialista, científico-industrial, com um igualmente severo Index Librorum Prohibitorum, que nos precipitou no paralítico “non magical universe”. O rock estremeceu sedimentos profundos de maneira tão desconcertante e imprevisível que nenhuma construção científica, antropológica, nem nada que o valha, me parece ser a maneira  apropriada de abordar esse xamã enlouquecido. O “rigor científico” não tem acesso nem à sua sacristia. Apenas alguns deslavados enxerimentos junguianos da minha parte me ajudam a vomitar uma intuição profunda que tenho há tempos: o rock foi um poderoso catalisador e agente catártico no psiquismo ocidental. Num grande festejo a um só tempo bacante, hermético e combativo, nos conduziu a um contato com a dimensão fantástica da nossa Sombra, que vínhamos de muito tempo evitando e mal conseguindo conter. E pagamos preços altíssimos por isso. Então, poderosos Arquétipos foram movimentados. Um bestiário inteiro foi acordado no nosso subterrâneo. Tido pelos prosaicos não-iniciados como uma aparição do diabo, o rock foi na verdade o exorcista mais eficaz e fiel que tivemos em atividade por cerca 30 anos. E falo no passado porque, para mim, esse ente poderoso se retirou do cenário já há bastante tempo. Na verdade, encerrou-se (ou está apenas em suspenso) sua ação mais ostensiva, frontal. Seu período de movimentação na limpeza pesada da cabeça ocidental, quando operou de forma crucial, foi mais ou menos de 1955 até cerca de 1985. Neste intervalo, a grande atuação aconteceu. Se conseguimos ler o ideograma (ou hieróglifo) desenhado pela trajetória do rock, nos deparamos com um tratado alquímico, teatralizado com peso, sensualidade e fúria, bem escancarado na nossa frente.

Com efeito, quando surge, a alma ocidental está mastigada por tudo o que foi o último milênio. Um milênio denso e intenso, que assistiu ao apogeu e declínio da Idade Média, à quase total destruição dos últimos núcleos de cultura pagã na Europa, à Inquisição, à demonização da imagem da mulher, à tentativa de recuperação da cultura clássica, à descoberta e colonização mortífera do Novo Mundo, à empreitada iluminista de elaborar um gênero humano autônomo, racionalmente situado e resolvido no mundo (mas que não conseguiu “ordenar” a vida interior desse novo homem esclarecido e laico, nem livrá-lo de suas angústias mortais), ao acontecimento de duas guerras mundiais, ao desenvolvimento das psicoterapias e às primeiras tentativas científicas de desvendar e controlar a mente e, além de tudo, ao crescimento devorador das tecnologias como nunca se viu. Esse tumulto gigantesco pós-antiguidade clássica deixou nossa sociedade com muito lixo em baixo do tapete, que se converteu numa verdadeira bomba-relógio psicoemocional, por tudo que passou a ser difícil confrontar.

Estando o mundo assim, ainda mais após a grande depressão econômica do início dos anos 30 do séc. XX e o fim da Segunda Guerra, saindo de imensos tormentos e caminhando entre o tédio e a incerteza – e, muitas vezes, desesperança -, e com a instalação da Guerra Fria, começava a crescer uma geração de jovens com todos os motivos pra não endossar e não sentir qualquer identificação com os modelos rígidos do carcomido Ocidente, prontos para escrachar e ignorar todas as falácias sobre heroísmo militar e poder econômico. Uma leva de jovens, nascidos do meio para o fim da Segunda Guerra e que foram vítimas diretas ou indiretas dela, começa a demonstrar abertamente o quanto despreza a roupagem das sociedades puritanas da Europa e dos Estados Unidos e o quanto estão sequiosos por outras histórias.

Esses jovens, predominantemente brancos, muitos de origem proletária, tendo alguns crescido nos subúrbios industriais das grandes cidades ou em zonas portuárias, ambientes onde algumas escórias sociais se misturavam inevitavelmente, não tiveram dificuldades em se aproximar dos sons hipnóticos desse submundo. Mesmo no sul agrário e racista dos Estados Unidos, a figura central de Elvis mostra como outro veio branco, distinto do racista, se esgueirava em meio ao conservadorismo mais medíocre, e absorvia o gospel, o blues e o jazz. Negros, ciganos, latinos, orientais – as bagagens sonoras desses universos proscritos vinham à tona e encontravam muita gente com olhos, ouvidos e cabeça abertos, prontos para se alimentar de tudo.

Os sons, cheiros e sabores dos referidos submundos inebriaram esses jovens branquelos que não faziam e nem queriam fazer parte dos salões de uma aristocracia velha, criminosa, militaresca e obesa; apontavam e conduziam para os locais onde acontece a farra, a mistura promíscua e alquímica de todos os elementos, as três dimensões que vieram a ser o berçário do rock: os bares, a rua e a estrada. O mitólogo Junito de Sousa Brandão diz que Hermes e Dionísio foram os deuses gregos que mais estiveram misturados aos homens e, com isso, esse grande mestre nos dá uma outra Chave para desvendarmos toda uma sorte de mensagens renegadas por nossas idiossincrasias, que não nos permitem perceber movimentações simbólicas extraordinárias, como por exemplo esta: só a combinação poderosa e explosiva de Hermes com Dionísio poderia fazer nascer o psicopompo boêmio que foi o rock and roll. Só os bares (território de Dionísio por excelência) e a estrada (domínio de Hermes, que era deus das estradas e foi o inventor da lira e da flauta) poderiam ser o laboratório mágico dessa música vulcânica e catártica. Dionísio maneja os vícios e apetites sensuais dos humanos, e Hermes é o deus que revela o que está oculto e o único com trânsito livre entre os “três mundos”: o submundo profundo, o mundo dos homens e o Olimpo - ou seja, Dionísio e Hermes combinam de forma ímpar o trânsito através dos vícios reprimidos e das possibilidades sensoriais embotadas com a elaboração musical e a revelação, propiciando uma erupção artística de escala planetária que se instalou como uma escada para o escuro, para descermos com alguma luz ao nosso mundo oculto, ou trazermos coisas de lá para a luz do dia, nos fazendo compreender isto: só uma grande convulsão cultural hermético-dionisíaca estaria habilitada a enfiar a mão na ferida puritana e simplista do que havia se tornado o Ocidente, revolvendo com sofisticação ácida (e lisérgica) e sensualidade incandescente a escuridão e as forças cegas mal contidas sob os bons modos da razão adestrada.
A carta do louco no tarô de Marselha.

Preparado o cenário e com o advento do rádio e a popularização das primeiras gravações em disco, a batida crua do blues foi subindo como fumaça de incenso. Aquelas gravações rústicas de Robert Johnson e demais pioneiros dos anos 20 e 30 apareceram enigmáticas e hipnóticas. Como fazer aquilo tudo apenas com violões de cordas de aço e batendo o pé no chão? De repente, as incríveis possibilidades da simples combinação voz humana/slide guitar abriu um horizonte sonoro totalmente novo e desconcertante para os ouvidos atentos. Porque aquela música não era apenas melancólica, como já tínhamos provado no romantismo erudito e em alguns ritmos latinos; ela também tinha uma sonoridade rasgada, cortante, e, mesmo sem ser propriamente “cigana”, sugeria as andanças. O boêmio errante, com o violão dentro do case, viajando de trem de cidade em cidade, brigando nos bares por causa de mulher ou jogo, proscrito, dormindo em muquifos e bebendo e fumando muito. Essa imagem acompanha desde o princípio o imaginário em torno do bluesman e oferecia perspectivas irresistíveis. Pegar a estrada só com a guitarra debaixo do braço e partir para o mundo, de trem ou pegando carona, com uma roupa surrada e ganhando dinheiro de bar em bar. Estava plasmado um ideal que pertenceu a todos. A carta sem número do Tarô, o Arcano “O Louco”, saiu de casa com uma mochila nas costas e um cachorro em seu encalço – rumo ao precipício, muitos diriam. O Louco provocativo, desafiador e revelador, começou uma jornada esperada há séculos, num feixe de energia oscilatória entre o goliardo e o Cavaleiro.

Essa é, no entanto, a parte mais exotérica e palpável desse novo “ideal”, porque, junto com a aventura emerge também a - igualmente fascinante – aura do maldito. O pacto com o diabo, a paisagem sombria, as entidades espectrais. Uma das lendas que li não sei onde dizia que Howlin' Wolf foi possuído pelo espectro de um lobo, para poder ter a voz que tinha. A célebre possível relação de Robert Johnson com a magia negra e a venda da própria alma em um pacto, talvez numa encruzilhada (tão conhecida da nossa macumba), não apenas nos apontam para o capeta, mas também – de novo – para o ambiente hermético. Ora, Hermes é também o senhor das encruzilhadas e também é ele quem nos leva e traz da escuridão para a luz. A tentação que temos de encarar nossa própria sombra é proporcional ao medo de fazê-lo, criando uma atração-repulsão que nos mantém confusos, numa neblina de sensações imprecisas, enquanto não inventamos de fazer a caminhada consciente.

Cartaz do filme "A Encruzilhada",

E para acender os nervos de aço desse xamã em gestação, Muddy Waters ajuda a botar uma das grandes forças cegas da vida a serviço da Opus: a eletricidade. No filme “Crossroads” (no Brasil “A Encruzilhada”), ele é mencionado como o inventor da guitarra elétrica. Ainda que não o tenha feito sozinho, foi sem dúvida um dos pioneiros na eletrificação das bandas. A energia aterradora presente no trovão é canalizada para dentro dos instrumentos, para produzir efeitos sonoros inconcebíveis antes disso. Mas, é importante ressaltar: dentre os grandes bruxos do blues, a força elétrica foi canalizada justamente pelo que carregava o pântano em seu nome. As Águas Lamacentas trazem à tona todo o vigor simbólico de outra lâmina, o Arcano XVIII do Tarô, a carta da Lua. É de “lua” (“luna”, em latim) que vem a palavra “lunático”, característica atribuída aos xamãs, oráculos e sacerdotes do transe em diversas culturas, e este é um Arcano que, por sua vez, segundo alguns intérpretes, simboliza morte e renascimento, ou “a reforma da casa”. O mestre tarólogo Pedro Camargo, por exemplo, interpretando a carta da Lua, nos fala sobre essa empreitada: “Durante as obras (de reforma da casa) haverá desconforto, sujeira, os esgotos estarão abertos e a presença de micro-organismos que ameaçam a saúde será constante”. Não poderia haver descrição mais cristalina do que foram a quebradeira e podridão promovidas pelo rock em seu apogeu. E ninguém esqueça que o Arcano “A Lua”, no Tarô de Marselha, traz em sua composição tanto lobos uivantes quanto um caranguejo que sai da lama.

Para uma imensa parcela de toda uma geração, tornava-se cada vez mais evidente que vínhamos nos movimentando dentro de uma gaveta apertada, com percepções limitadas e repetitivas. A sensação crescente de sufocamento dentro do consenso social e o tédio face à repetição de padrões, dos discursos religiosos/militares/científicos que não solucionavam nada, somados aos caminhos recém-abertos pelas psicoterapias e ao desenvolvimento da neurociência, assim como os primeiros contatos menos fantasiosos com as religiões orientais e com as práticas xamânicas norte-americanas – todos esses elementos inflamaram uma vigorosa intuição de que nossa mente abriga imensidões muito maiores do que poderíamos perceber enquanto estivéssemos bem amestrados. Havíamos engolido a sugestão (essa sim!) diabólica de soltar o Fio de Ariadne. E a raiva contra essa condição estreita explodiu, como tinha que ser. Mas ninguém tinha o mapa pra sair do labirinto.

Tudo bem, no fim dos anos 50 do séc. XX as referências às práticas meditativas do Hinduísmo e do Budismo já nos chegavam com mais facilidade e fidedignidade, ainda que muito envoltas em uma capa de mistério esotérico/ocultista. No entanto, as então encorajadoras pesquisas com LSD e a popularização de relatos detalhados sobre o uso das plantas de poder pelos índios da América do Norte pareciam mais do que um convite tentador: as substâncias psicotrópicas foram consumidas em larguíssima escala, na tentativa de derrubar rapidamente os muros do nosso consenso psicológico. Neste ponto, lembro a extraordinária e “matadora” conversa que a Monja Coen, mestra zen budista brasileira, teve com seu mestre iniciador. Ela nos relata, que em meio a toda a onda do psicodelismo, perguntou-lhe se eram válidas quelas tentativas de expandir a consciência por meio das drogas, ao que o mestre respondeu: “Para que tentar entrar pela janela se existe uma porta?”. Sim, iniciávamos uma busca pelas portas, mas é evidente que tateávamos sem rumo certo. Depois de tantos séculos de compressão da vida íntima, seja por sistemas teológicos, seja mais recentemente pelas ditaduras filosóficas, econômicas e políticas, sendo nossa alma conduzida à força a viver “do lado de fora” sob vigilância atenta, é claro que nossa civilização não desenvolveu nenhuma intimidade com o que quer que seja a mente e seus caminhos. No entanto, esse sufocamento não conhece o perdão das potências psíquicas subterrâneas. A atitude rock and roll de colocar dinamite nas portas das percepções foi o ricochete irrefreável, o comando implacável: “Vamos derrubar essa porra desse labirinto e colocar o Minotauro no trono de Creta!!!”.

Um novo trovadorismo, lisérgico e elétrico, surge a partir das novidades testemunhadas. A pseudo-confiabilidade dos nossas balizas lógicas e sensoriais é desmascarada, nosso território sempre movediço se evidencia, e o que tanto nos confunde é justamente a natureza deste jogo demiúrgico em que nos metemos. As letras passam, então, a trazer tudo. O texto incandescente do rock visita lugares recônditos dentro da nossa alma, fala das atuais guerras tecnológicas e também das batalhas ancestrais, do nosso constante e mal-disfarçado flerte com a treva, do transe esquizofrênico, da nossa insatisfação crônica e agônica e relata as angústias dos profundos sofrimentos afetivos. Mas nossa experiência fugaz é revista numa viagem de ressignifação; esse trovadorismo eletrificado surge extraindo poder da grandeza épica de Tolkien, mergulhando nos vórtices abissais de William Blake, provocando os símbolos da tradicional cristandade e conduzindo ao salto no vazio interior – desligue, relaxe e escorregue no tobogã buraco de minhoca, “it is not dying, it is not dying”...

O Turbilhão foi acionado quando folk e o blues eletrificados botaram todo mundo na estrada, libertaram a sexualidade e o gosto pelos psicotrópicos. A descoberta do formato “banda”, montado sobre a estrutura bateria, baixo, guitarra e teclado (os teclados foram vitais para a definição do som dos anos 60 e continuaram sendo vastamente utilizados por todas as experiências do progressivo) ajudou a elaborar uma nova configuração de postura no palco e de relação artista-público. O hard rock aterrou as vibrações, trazendo peso, velocidade, fúria, criando os sons energéticos de uma música a um só tempo de farra e de guerra. O peso aumentou – a velocidade também e a fúria também – e o metal, definitivamente desenhado, com suas inúmeras vertentes, como se fossem uma grande rede de cavernas subterrâneas, fez ecoar sons grandiosos e sombrios e os gritos guturais de dragões enjaulados, ansiosos por alçar voo, enquanto o vômito do punk esculhambou merecidamente a afetação da “nobreza” ocidental, com um chute na porta e um soco no estômago, como numa gloriosa briga de rua. E as odisseias sonoras das muitas vertentes do progressivo tanto reconfiguraram a herança medieval e a melancolia romântica, quanto canalizaram sonoridades siderais que pareceram desenhar a trilha sonora perfeita para a ficção científica. Seus temas épicos, gigantescos, sem refrão e sem os tempos e os ciclos melódicos simples que compõem a nossa zona de conforto, usualmente ignoram nossa linearidade lógica, num território de experiências musicais que flutua do mais encantador lirismo às raias do bizarro, até hoje abrindo portais para um sem-número de universos paralelos. E, assim, franqueando o acesso a um jardim de infinitas veredas que se bifurcam, o vastíssimo rock and roll ajudou incontáveis viajantes a se libertarem do que há de mais ordinário na mente ordinária, injetando uma qualidade de força que impulsionou milhões a se rebelarem e enfrentarem os medos, a humilhação, a desolação e o aparente absurdo de estarmos aqui.

Um processo de recomposição do tecido humano ocidental se desencadeou em amplitude inesperada. A fornalha pulsante desses novos padrões musicais, para realizar a Opus a que se propôs, se alimentou de todo o material humano que pudesse encontrar e, para tanto, fez irromperem buscas por todos os símbolos e fragmentos possíveis da nossa história conhecida, bem como da nossa história imaginária. Os ocidentais começaram por pedir a bênção ao blues e, daí por diante, a todos: foram aprender com a Índia, com o Marrocos, com os vestígios árabes na Ibéria, com os ciganos, com o Vodu. Procuraram sofregamente nutrição nos seios de suas culturas-mães, em todas as tentativas de reaprender o paganismo, aprender as cantigas medievais, recuperar todos os símbolos esquecidos da era da Cavalaria, a bruxaria, as memórias celtas e vikings, a Bíblia, a magia cerimonial. Ao longo de toda a sua história, após o fim da civilização clássica, o Ocidente só conseguia materializar sua escuridão na forma dos três flagelos do Apocalipse: a Guerra, a Fome e a Peste (e a Morte provocada pelas três). Mas quando o rock and roll estava na plenitude de sua fúria incendiária, nossa civilização conseguiu engendrar, à luz do dia, algo que nunca tinha sido visto e ninguém imaginaria antes: conseguimos fazer, em escala planetária, A REPRESENTAÇÃO LÚDICA DA NOSSA SOMBRA. Revolvendo todos os parâmetros com os quais o Ocidente via a si mesmo e se relacionava com o resto do fenômeno humano e desaguando também em terras do Leste, estava lá, tudo no palco, nas capas dos discos, no imaginário em torno de cada banda. Gemidos, grunhidos, gritos, rebolados, irreverência, sexualidade escancarada, os ritos orgiásticos com as groupies (repetidos anonimamente por milhares de fãs). O cotidiano prosaico nunca mais foi o mesmo depois dessa martelada de Thor.

Passada a fúria, ele, o rock, se encontra atualmente sem bons médiuns em atividade, mas parece estar oculto entre nós, uma entidade sem forma, num silêncio soturno, irrompendo aqui e acolá - como os deuses da antiguidade, que não são mais venerados, mas que, em sã consciência, ninguém ousa dizer que não existem. Nos segurando na borda do Grande Vulcão, nos ensina a olhar para dentro do abismo onde escorrem sete quedas de lava e de marfim, ao passo que nosso centro de poder interno se acende como um acelerador de partículas. Muitos foram devorados pela energia cáustica que foi liberada, assim como muitos antes haviam perecido de apatia. Inúmeros caíram atordoados pelos movimentos tectônicos das nossas últimas convulsões culturais, e outros tantos pareceram enlouquecer ante as visões que se descortinaram. Mas, aqueles que vão além do transe bioquímico, que escapam tanto do enrijecimento quanto dos curtos-circuitos neurais, que atravessam a espessa massa de barulho – esses, terminam desaguando num vasto espaço sem dimensões, suspensos em ondas de silêncio profundo e, turbinas acionadas, escutam o que parece ser o sussurro primordial: “Set the controls for the heart of the sun, the heart of the sun... THE HEART OF THE SUN!”.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Quando Há Arte (Segundo Nelson Goodman)? - Por André Maranhão



Há muito tempo que uma parte da Filosofia se esforça em definir as coisas do Mundo a partir da Lógica. Se um pensador como Aristóteles (384-322 a.C) já se ocupara em explicar logicamente “o que é o Homem”; outros nomes como Avicena (980-1037) e Tomás de Aquino (1225-1274) foram capazes de escrever alguns tratados para provar que toda substância do Universo provém de uma causa: Deus; por sua vez, o único ser perfeito que não necessita de uma causa para existir. De lá pra cá, a Lógica se estabeleceu como uma forte tradição filosófica capaz de abordar diversos temas, e, portanto, era mais do que esperado que a Arte se tornasse um objeto de debate entre os pensadores lógicos.

O pensamento lógico se fortaleceu amplamente numa tradição anglo-americana da Filosofia (sobretudo no Reino Unido e Estados Unidos) conhecida como Positivismo Lógico ou Filosofia Analítica. Já no século XX, um dos autores mais preocupados em problematizar a Arte a partir de algumas bases lógicas foi Nelson Goodman (1906-1998), cujos estudos abordaram várias linguagens da arte e símbolos diferentes – letras, palavras, textos, imagens, diagramas, mapas, modelos e muito mais (GOODMAN, 2006, p. 9). Obviamente, Goodman reconhecia que nem tudo que é simbolizado está fora do símbolo. Porém, não apenas as obras que representam a natureza ou que remetam a algo pitoresco e figurativo são simbólicas. Uma pintura abstrata, por exemplo, pode expressar e simbolizar sentimentos, emoções ou ideias esteticamente válidos. Ora, tal afirmação levou Goodman a perceber que a própria tentativa de separar o que interno do que é externo em uma obra de arte é algo notoriamente confuso; tão confuso como tentar separar os ingredientes de um bolo depois que este bolo já está pronto!

Mas talvez, uma dos problemas mais polêmicos (e não menos interessantes) levantados por Goodman diz respeito à definição de Arte, afinal, o que é Arte? Seria a simples definição daquilo que o artista diz ter criado; do que alguns doutos mais elitistas julgam ser uma “boa arte”; ou o fato de algum objeto ser exposto numa galeria? De acordo com Goodman, nenhuma dessas justificativas é suficientemente forte para definir o que é Arte porque, logicamente, qualquer definição de arte é incompleta. Neste sentido, a pergunta mais proveitosa a ser feita não é “o que é arte?”, mas “quando há arte?” – em outros termos – quando um objeto é ou está sob a condição de obra de arte?

Para estimular ainda mais algumas reflexões sobre o tema, gostaria de encerrar com alguns fragmentos e exemplos escritos de Goodman:

“A pedra normalmente não é uma obra de arte quando está no caminho, mas pode sê-lo quando é exibida num museu de arte (...). Por outro lado, uma pintura de Rembrandt pode deixar de funcionar como uma obra de arte quando é usada para substituir uma janela partida ou como uma cobertura (...). As coisas funcionam como obras de arte apenas quando o seu funcionamento simbólico tem certas características (...). A pintura de Rembrandt permanece uma obra de arte, tal como permanece uma pintura, quando funciona apenas como cobertura; e a pedra do caminho pode não se tornar estritamente arte por funcionar como arte. Analogamente, uma cadeira continua a ser uma cadeira ainda que ninguém se sente nela, e um caixote continua a ser um caixote ainda que nunca seja usado senão para nos sentarmos em cima dele. Dizer o que a arte faz não é dizer o que a arte é, mas considero que o primeiro aspecto é que tem importância primária e peculiar (...) passei a dar atenção ao que a arte faz, em detrimento da questão de saber o que é arte (...). Um objeto pode simbolizar coisas diferentes em momentos diferentes, e nada noutros momentos (...). Em vez de a arte ser perene e a vida curta, talvez ambas sejam transitórias” (2007, p. 130-133).

REFERÊNCIAS

GOODMAN, N (2006). Linguagens da arte: uma abordagem a uma teoria dos símbolos. Lisboa: Gradiva.

_____ (2007). Quando há arte? In D’OREY, C (org). O que é arte?: a perspectiva analítica. Lisboa: Dinalivro, pp. 119-133.