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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Os Cães Ladram Mas A Caixa Registradora Não Para - Por Bruno Vitorino


Há quatro anos, fui convidado pelo site Clube de Jazz para cobrir a apresentação de Eumir Deodato na 5ª edição da MIMO. “Arretado!”, pensei. Nunca tinha visto o pianista em ação e, a julgar por sua produção nos anos 1960 e 70, imaginava que o concerto seria, no mínimo, intenso. Ledo engano... Fui recebido com uma apresentação morna e burocrática, cujo evento mais interessante era Fafá de Belém dançando e sacolejando sua protuberância mamária num sobe e desce que deixaria Isaac Newton perplexo. Foi hipnótico!
Deodato se despedia quando um rapaz da primeira fileira (aquela que você só consegue se tiver um bom contato) gritou “Toca Zaratustra!”. O clima ficou tenso. O semblante do instrumentista mudou radicalmente do simpático a contragosto para o carrancudo com veemência. Olhando nos olhos do jovem, Eumir foi cortante: “E quanta grana vai rolar?!” Eu quase aplaudi! Não pela atitude mordaz, muito menos pelo concerto vazio, mas sim pela a sinceridade em deixar claro que só estava lá pelo dinheiro. O Planet Hemp fará algo bem parecido neste sábado na passagem da Tour 2012 pelo Recife. Só que o grupo carioca substituirá a obscena franqueza do “E quanta grana vai rolar?!” pela rebeldia vendável do “Advinha, doutor, quem tá de volta na praça?!”.
Não entendeu, meu querido? Então, permita-me desenvolver meu raciocínio.
O Planet Hemp despontou na segunda metade dos anos 1990, quando o rock nacional vivia uma efervescência produtiva que articulada à ainda estruturada indústria fonográfica obteve resultados significativos. Em 1996, o Sepultura mergulhava na cultura xavante e nas tradições percussivas da Bahia incorporando a sua música interessantes matrizes rítmicas, para o espanto dos puristas do gênero, no aclamado disco Roots. Neste mesmo ano, o Raimundos lançava o excelente Lavô Tá Novo que misturava com muita sagacidade guitarras distorcidas, forró pé-de-serra e letras debochadas. Aqui em Pernambuco, o Hanagorik pré-produzia seu ótimo álbum de estreia Uncivil que projetaria o quinteto de Surubim inclusive no exterior.
Nesse panorama favorável, o surgimento do Planet Hemp foi recebido com entusiasmo pela mídia e pelo público por sua atitude provocadora ao abordar de maneira direta o consumo da maconha. O disco de estreia – Usuário – com músicas como “Dig Dig Dig”, “Mantenha o Respeito” e “Legalize, Já” deu a tônica do discurso inflamado do grupo carioca e causou tanto estardalhaço que logo consagrou a banda como o mais novo grito de protesto do rock brasileiro. Os dois álbuns seguintes - Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Para e A Invasão do Sagaz Homem Fumaça - deram continuidade às letras panfletárias e à sonoridade agressiva, mas tanto a pobreza musical quanto a escassez argumentativa do grupo fizeram com que seu tênue caráter contestador se dissolvesse. Já não havia mais o que dizer e a carreira solo de Marcelo D2 começou a se mostrar mais promissora. A banda se desfez...
Inegavelmente o Planet Hemp trouxe àquele cenário específico um sopro de ousadia política ao pacato mundo pop, mas acreditar na suposta autenticidade revolucionária da banda é sucumbir ao engodo da imagem. É bastante palpável o caráter efêmero e datado da produção do grupo, bem como é latente a superficialidade de suas críticas, as quais construíram ao seu redor uma aura subversiva, mas que na verdade encobriam uma rentável estratégia de marketing que comercializa atitudes e rótulos. Não se iluda, meu caro, pois o ideal modernista de vanguarda que buscava novas possibilidades expressivas, a contestação dos valores estabelecidos pela sociedade e a independência do artista da estrutura formal e comercial da arte foi completamente esvaziado e substituído pela lógica especulativa e mercadológica do mundo pautado pelo consumo massificado. O Planet Hemp não ficou de fora.
O que mais seria esse retorno triunfal da banda após um hiato de 10 anos afastada dos palcos senão um anacronismo crasso e um oportunismo empresarial escancarado?! Na tentativa de recriar a atmosfera que o grupo encontrou no auge de seu sucesso, o Planet Hemp abraça a onda dos revivals que torna desnecessário o processo criacional e promove lucrativos simulacros de revolução por todo o país. Algo não muito diverso das festas temáticas “Anos 80” animadas ao som de Silvinho Blau Blau e das Paquitas. Inclusive no que se refere à espetacularização da arte e na redução da experiência artística a espasmos de euforia compartilháveis em redes sociais destituídos, por conseguinte, de todo e qualquer teor reflexivo. A indústria cultural passa a trocar e negociar signos, e não mais obras, de modo que o Planet Hemp mercantiliza a lembrança do que um dia representou para uma geração de adolescentes rebeldes.
Espero sinceramente que você, meu querido leitor, não apele ao clichê de taxar minha análise de “reação conservadora” ou de “estertor reacionário”, pois não se trata disso. Você sabe ler, tenho certeza. Respeito e reconheço a liberdade que a banda tem para tratar dos assuntos que lhe aprouver, mas, em contrapartida, também sou completamente livre para apontar suas ranhuras ideológicas e desmontar a ilusão subversiva criada pelo grupo. É fundamental ao menos ter noção dos mecanismos que viabilizaram a construção do Planet Hemp, caso contrário, “curtir o som” deles será um ato pautado pela mídia, pela indústria do entretenimento ou pelo desejo de integrar o clube de seguidores que o valoriza e o referenda.



Por tudo isso, se você atendeu ao chamado de Marcelo D2 e BNegão no vídeo acima, desembolsou os R$ 100,00 do ingresso (ou os R$ 200,00 da área VIP, se achar que é chique demais para se misturar com os outros) e acredita piamente que está contribuindo com sua parcela de insubordinação à ordem social estabelecida; só me resta lamentar por ti. Foste ludibriado, meu caro. Simples assim.