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domingo, 21 de setembro de 2014

Ronnie Von - Ousadia Reconhecida (Antes Tarde do que Nunca) - Por Fernando Lucchesi



Para grande maioria das pessoas, quando se fala em Ronnie Von, a primeira lembrança que vem é o cantor de músicas românticas como “Tranquei a Vida” ou “Pra Ser Só Minha Mulher” ou ainda como o cantor, erroneamente vinculado à jovem guarda, que cantava versões dos Beatles e intérprete do gigantesco hit dos anos 1960 “A Praça”, que segundo o próprio Ronnie Von vendeu mais discos que o número de aparelhos de som que havia nos lares brasileiros.

O que pouca gente sabe é que entre 1968 e 1970 ele gravou três discos da hoje chamada “fase psicodélica”. Os três discos (“Ronnie Von” - 1968, “A Misteriosa Luta do Reino do Parassempre [sic] Contra o Império do Nunca Mais” - 1969 e “Máquina Voadora” - 1970) foram produzidos em uma época em que o cantor tinha contrato com a Phillips, mas a gravadora ficou por um período de tempo sem um executivo principal no Brasil. Como ele tinha obrigações com a gravadora em entregar discos, resolveu fazer o que realmente o interessava musicalmente. Aqui é importante fazer um parêntese: Ronnie Von sempre manifestou que gravou “A Praça” por pura insistência de Carlos Imperial, pois a música em nada lhe agradava. Quando surgiu a oportunidade de gravar um disco sem interferência da gravadora, ele cercou-se de três profissionais que entenderam a vaga ideia do que ele queria fazer e a concretizaram: o compositor Arnaldo Saccomani, o maestro Damiano Cozzela e o produtor Manoel Barenbeim. Além deles deve-se crédito também a Zé Guilherme e ao grupo B-612, que acompanhou Ronnie Von durante a gravação do disco de 1968.

Os três discos foram um fracasso retumbante de vendas na época e Ronnie Von sequer conseguia fazer shows dos discos, pois o estranhamento com o novo som era tanto do público como dos produtores de shows que não viam possibilidade de lucro com um produto musical tão incompreendido. Esse, portanto, era um período fadado ao esquecimento musical que vez por outra acomete artistas importantes da música brasileira. E continuaria assim se uma revista austríaca, no começo dos anos 2000, não tivesse colocado o disco de 1968 entre os cem mais importantes da música psicodélica mundial. Houve então o revival por parte de algumas bandas brasileiras e por parte do próprio público que passou a ter conhecimento desse período.

Em 2013 o canal BIS, do Multishow, resolveu fazer um documentário sobre esse período da carreira do cantor e chamou a banda Haxixins para acompanhá-lo, a princípio, em 15 faixas. O documentário não se restringe apenas ao período psicodélico. A parte inicial é um breve resumo do começo da carreira de Ronnie Von, suas influências (marcadamente os Beatles) e como ele conseguiu reunir e dar oportunidade às primeiras bandas de rock surgidas no Brasil influenciadas pela sonoridade dos Beatles pós-Revolver. Sem dúvida, a mais conhecida foi “Os Mutantes” (que teve seu nome sugerido por Ronnie Von, que à época lia um romance chamado “O Império dos Mutantes”). 

Mas, o que realmente torna especial o documentário são as cenas da gravação em estúdio de Ronnie Von com o Haxixins. A versão deles para “Máquina Voadora” é brilhante. Bom, para aqueles que não conhecem esta é uma excelente oportunidade de se familiarizar com o som e para aqueles que já conhecem é uma chance rara de ver Ronnie Von reinterpretando as músicas de um período que trouxe para o rock/pop brasileiro o que havia de mais moderno na época.


Já a biografia “Ronnie Von - O Príncipe que Podia Ser Rei” dos jornalistas Antônio Guerreiro e Luiz Cesar Pimentel não é mais que mediana. É claro que o livro não deve ser ignorado, pois preenche uma falha do mercado editorial brasileiro e corrige uma injustiça histórica, mas não há nada de novo em suas 158 páginas que já não se saiba sobre o biografado. Sobram questionamentos. Por exemplo, entre 1973 e 1977 Ronnie Von não lançou discos, à exceção de alguns compactos. O livro resume esse período assim: “Entre 1974 e 1977, lançou três compactos e se dedicou aos shows”. Durante esse três anos, nada de relevante aconteceu artisticamente? É verdade que ele só lançou alguns compactos, mas os shows eram calcados em que repertório? Ele conseguiu fazer shows em todo Brasil ou ficava restrito a alguns poucos lugares? Que banda acompanhava-o nesse período? Outro questionamento é se durante toda sua carreira nunca houve intervenção da censura, principalmente no período psicodélico, já que os censores notadamente franziam a testa pra algo que não compreendiam.

A vida pessoal e todos os problemas de relacionamentos são bem detalhados e nesse caso, os autores não douraram a pílula. Não omitiram nada. O que decepciona mesmo é a oportunidade de ir mais a fundo no período psicodélico além dos dois discos posteriores “Cavaleiro de Aruanda”, cuja faixa título é um rock Hendrixiano, e “Ronnie Von” de 1973. Não se pode duvidar da seriedade da pesquisa, mas a biografia de Ronnie Von tem muitas lacunas para serem preenchidas.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Renato Russo Sinfônico: Um Espetáculo Para Ser Esquecido - Por Giba Carvalho


Tenho certeza de que a noite do dia 29/06/2013 deve ser esquecida. Tive a coragem de assistir à homenagem que resolveram prestar ao maior poeta do rock brasileiro. O concerto intitulado – “Renato Russo Sinfônico” foi um fiasco. Com certeza, Renato Russo revirou centenas de vezes no caixão para tentar tapar os ouvidos. Seguem comentários, música a música do que foi feito pelos “grandes nomes da música nacional”:
  • Banda de apoio  - “Fábrica” – Horrível! Certamente a banda do Faustão faz melhor;
  • Sandra de Sá – “Mais do Mesmo” –– Se alguém abriu a boca para dizer algum dia que Sandra de Sá cantava muito, irá se arrepender profundamente! Errando a letra, gritando o tempo todo e desafinado ao extremo;
  • André Gonzales – “Ainda é cedo” - Abaixo do tom. Terrível! Tentativa de cópia fajuta! Fez no palco o mesmo que faz na medíocre Móveis Coloniais de Acaju;
  • Zélia Duncan – “Eu sei” – Não inventou. Cantou com sua voz naturalmente grave. Ainda assim, com pequenos erro de execução que incomodariam qualquer pessoa que conhece a música em questão;
  • Jorge Du Peixe – “Soldados” – a execução do arranjo foi a melhor da noite. Já a execução vocal da música, eu resumo do seguinte modo: “Jorge Du Peixe, você só serve pra Nação Zumbi”;
  • Luiza Possi e Zizi Possi – “Pais e filhos” – já começou piegas. A escolha de chamar a mamãe Zizi e a filhota Luiza é mais óbvio do que água ferver no fogo. Pra variar, mais uma vez, a versão começou trágica com a “filhota” tentando chegar ao tom que Renato cantava. Depois disso, aconteceu uma das maiores tragédias já ouvidas na música nacional. Zizi Possi, você conseguiu superar aquele comercial insuportável de um disco seu em italiano! (Per amoreeeeeeeeeeeeee).  Parecia que estava cantando a música pela primeira vez.  É verdade que durante a execução, a “filhota” foi melhorando a interpretação (talvez por ver os apuros que “mamãe” estava passando), mas longe de ser algo no mínimo audível. A primeira vez que fiquei decepcionado mesmo, afinal, a letra de Pais e Filhos, tem aquela que considero a frase mais bonita do rock n´ roll nacional até hoje: “É preciso amar, as pessoas como se não houvesse amanhã.”;
  • Ann Marie Calhoun – “Por Enquanto / Quando o sol bater na janela do teu quarto” – execução normal e até o momento a interpretação mais refinada do show. O público cantou como nenhum outro. Achei estranho chamarem uma violinista americana para tocar a obra de Renato Russo. Tenho certeza de que ela jamais ouviu algo dele antes deste convite;
  • Ivete Sangalo – “Monte Castelo” – ao perceber que Ivete Sangalo seria a próxima a cantar no show, pensei: “E agora?” Claro que é complicado falar de uma artista que você simplesmente detesta tudo que ela faz. No entanto, procuro sempre ter o mínimo de bom senso com as coisas. “Ivete Sangalo sabe tudo de canto.” Quem nunca me ouviu dizer isto, atire a primeira pedra! Ela não fez nada de excepcional, não é a praia dela. Mas cantou. E cantou bem. Apenas um pequeno erro de tempo e uma coisa que acho terrível e que vários artistas fazem (principalmente nestas homenagens). Fingir que está cantando de “olhinhos fechados...sentindo aqueeeeeeeela emoção” e na verdade estar  olhando pra telinha pra saber a letra da música;
  • Lobão – “Perfeição” – sem sombra de dúvidas, a música mais atual pra realidade brasileira desde que foi composta. Um arranjo simplesmente tenebroso da Orquestra de Brasília. Uma interpretação de Lobão não pode ser algo de espetacular, mas no mínimo atina a curiosidade. O “reaça” (valeu Gustavo Paes), com seu jeitão peculiar escolheu a música certa e cantou como quis. No final, ainda tentou tirar uma “onda” de Renato Russo. Mas aí já é demais;
  • Ellen Oléria – “O Teatro dos Vampiros” - recordo que estava num barzinho chamado Espetinho Parnamirim quando na TV passava a final no famigerado programa - “The Voice Brasil”. Lembro que apenas uma única cantora chamou a minha atenção. Era uma menina da Bahia que cantava a brasilidade. No mais, todos os outros candidatos, sempre levavam consigo a influência insuportável do pior da música americana. Aquele jeitinho meio “Whitney Houston Forever”, cheio de vibratos desnecessários e tudo mais. A interpretação desta moça pra um dos maiores clássicos da Legião Urbana foi sofrível! Ah...ela que ganhou o programa?
  • Fernanda Takai – “Giz” – é verdade meus caros! Não há nada que abomine mais do que esta moça cantando. E vestida de Fred Flinstone ainda por cima... Na verdade, quem disse um dia que ela cantava alguma coisa? São estas perguntas que costumeiramente faço quando escuto suas “interpretações”.  Escolheram logo a música que Renato Russo mais gostava e deram para que um crime hediondo fosse cometido. Aqui pra nós, uma moça que precisa ser acompanhada em 90% da música pelo cantor de apoio da banda pra mim já diz tudo. “Te aposenta e vai cuidar dos teus filhos ou cantar em japonês minha filha!” 
  • Hamilton de Holanda – “Índios” – assim como os músicos da Legião tiveram o mérito de compor a canção original, o espetacular bandolinista Hamilton de Holanda teve o cuidado necessário para não desvirtuar a original e fazer o momento mais especial do show. Excelente interpretação;
  • Jerry Adriani – “Tempo Perdido” – foi o músico educado da noite. Solicitou palmas para os músicos de acompanhamento e para a “maravilhosa” Orquestra que acompanhava o “espetáculo”. No mais, foi o mesmo cantor “meia-boca” que sempre foi, desde a época da Jovem Guarda. Aquela mistura de rocker com tenor. Só pode dar numa merda de imensas proporções;
  • Alexandre Carlo – “Faroeste Caboclo” – para quem não sabe, o escolhido para cantar o maior clássico da Legião Urbana foi o vocalista da “pop-reggae” – Natiruts. Não houve mistério ou algo de especial no arranjo. Nada de muita dificuldade para a execução do rapaz, muito embora, algumas vezes parece que faltou fôlego para cantar a música. E ainda na primeira parte da canção. Meus amigos, quando entrou a parte “rock n´roll” da música o rapaz se borrou! Tenho certeza! “Fralda geriátrica nele, galera!” Como diria um amigo – “mais fraco do que choque de lanterna!”;
  • Renato Russo (em imagem) – “Há tempos” – “Disciplina é liberdade. Compaixão é fortaleza. Ter bondade é ter coragem.”
  • Medley – “Será” (com participação de Renato Rocha, ex-baixista da Legião Urbana que estava vivendo nas ruas). Um show de horrores. Sem mais!

É complicado e ao mesmo tempo fácil opinar quando se é fã. Cresci ouvindo as músicas de Renato Russo e tenho certeza de que ele merecia muito mais. No entanto, alguns fatos devem ser citados. Vivemos num país totalmente “idiotizado” em vários sentidos. No ramo musical, nem se fala. A pobreza cultural do que é vendido e divulgado é simplesmente a cara do povo. Não é à toa, que um “espetáculo” fraquíssimo como o assistido ontem, tenha lotação esgotada. Isto é carência! Daquilo que foi feito e que passou alguma coisa de importante para uma geração. Infelizmente os nomes que estiveram em cima do palco (sem generalizar) não condizem com a grandiosidade do artista. Mas, para a mídia, é o que é “vendável”. Já, já; outro CD - DVD – Blue-Ray deste show estará nas lojas. E assim segue a vida musical do Brasil. Um misto de saudade, putaria e péssimo gosto!

Observação - costumo citar que 90% dos críticos musicais do país são meros leitores de releases. Um dos maiores crimes contra a música nacional foi o idiota que afirmou: "Fernanda Takai é a nova Nara Leão". 

domingo, 25 de novembro de 2012

Vanguart: A Garapa do Cerrado - Por Giba Carvalho



Noite de terça-feira no escaldante calor que faz no Recife. Numa discussão sadia, entre um chopp e outro, eis que surge por intermédio de Marcella o nome – “Vanguart”. Banda oriunda de Cuiabá, do cerrado brasileiro e vizinha do nascedouro da cena musical mais manjada e insuportável deste país. Este, talvez, seja o único mérito dos caras, porque ter coragem de lançar algo diferente de sertanejo “universiotário” pra estas bandas é de fato admirável.

Confesso ter certo receio para ouvir muitas destas bandas novas do cenário nacional. No meio deste papo, Marcella falou uma coisa bastante pertinente – “Você não pode falar se você não ouviu.” É fato minha amiga! No entanto, por incrível que pareça, eu escuto cada coisa que você nem tem noção. Jamais teci opinião sobre um trabalho se não escutei o mesmo. E escuto na íntegra mesmo. Na noite da quarta-feira, Marcella me envia pelo chat do facebook um link para fazer o download do disco – “Boa parte de mim vai embora”. Disco “baixado” e posto no celular para ser “degustado” na manhã do dia seguinte. Segue relato:

“Recife, bairro da Torre, precisamente 05:35 da manhã. Para muitos pode parecer estranho, mas esta é a hora que costumo ouvir música da maneira mais detalhada. Na hora em que coloco os fones de ouvido e estou na viagem para o trabalho em Suape.  Seguem as canções e alguns trechos:
1 - “Eres mi vida” – trecho da letra – “Saí de casa a te buscar. Cruzei o país a caminhar. Desenhei nas ruas um amor. Que já não sei se é real. Como se não existe. E se eu sou triste, a causa é você, é só você.”
2 – Se tiver que ser na balada, vai – “O amor não foi suficiente. Eu vou embora, não sei pra onde. Mas ainda um mundo por dizer. Acho que tá claro. E acho da hora.”
3 – Desmentindo a despedida – “As tuas ondas. No meu sono. E este mar. Não foi mais que a nossa cama. Sem você. Amanheceu.”
4 – Nessa cidade – “E eu não vou mais estar do teu lado. Mesmo assim, sempre eu vou te amar. E essas coisas do teu namorado, em silêncio, hoje eu vou falar. É uma necessidade.”
5 – Engole (Arde mais que brasa em pele quente) – “E eu te levei até a praia. E eu me desfiz da minha esposa. E eu joguei fora o meu dinheiro. Fechei a porta pra um amigo. Eu só sonhei meu desengano. Eu desenhei as tuas pupilas.”
7 – Eu vou lá – “Que eu sou filho dessa chuva. Desse calor dos teus olhos. Seja eu a tua casa,
seja eu o teu mistério, teu riso. E eu vou lá.  Se me faltam caminhos pra ficar.”
8 – Onde você parou – “Quem me dera o céu pudesse ajudar. Noites eu passei em claro. Os olhos que me apetecem. Os sonhos que se antecedem. Pra você chegar na estrada, caminho ou lugar. Onde eu seja teu.”
9 - ...Das lágrimas – “Quando me lembro de você. De mala e cansada de chuva. Das lágrimas na sua blusa. Tentando entender aquele rosto. Aquela dor que trouxe você...”
10 – Amigo – “Quem te vê sorrindo? Quem te vê chorando? Quem me vê gastando os dentes?
Em passarelas, em bares. A procurar tua figura, tão imatura. Na noite em que eu deixei você pra trás. Pra onde é que a gente vai daqui?”
11 – Morrerão – “Que não morreria ao ver você assim, tão bonita. O seu último olhar acabou. Nas árvores ficou. As ruas marcou. Nos olhos levou a certeza que teu mar não morrerá em ti.”
12 – O que a gente podia fazer – “E nas ondas do mar. Eu vi você voltar. E nas ondas do mar, eu desapareci...(o tempo eu esperei).”
13 – Depressa – “A esperança dos dias cresceu com a dor. De esperar por você, de bolar a flor. Entre os olhos do meu mais puro amor.  Seja o que isso for...”
Pois bem, caríssimos leitores. O que falar depois de demonstrações de tanta “genialidade”? Notem que fiz uma pesquisa minuciosa sobre o disco da banda. Afinal, segundo os “críticos” musicais do nosso querido país, o “precoce” Helio Flanders é o Bob Dylan brasileiro! Minhas “reverências” a este cara meus caros! E como estes mesmos críticos gostam desta palavra “precoce” no ramo musical.
No entanto, eu não posso engolir este tipo de opinião desta forma. Percebo duas coisas bastante claras nestas pessoas que escrevem sobre música hoje em dia. A falta de realmente escutar e até mesmo pesquisar antes de falar sobre qualquer tema. Na verdade, estes críticos, são meros leitores de releases.  Analisem estes trechos de letras postados acima. Friamente. Quantas vezes vocês encontram a palavra “amor”? Ou contextos sugestivos a...a...a...”amor”? Ou lágrimas de...de...de...”amor”? E é claro que não poderia faltar a dor...de...de...de...”amor”! Ahhhh o amor!
Analisando friamente o disco, posso afirmar com certeza que é uma garapa com açúcar, adoçante, mais alguns leves toques de folk (Malu Magalhães faz melhor), indie-rock (eu adoro esses jargões), suspiros de corações machucados e lágrimas incessantes. E eu aposto que você já está com os olhos cheios de lágrimas hein...
Musicalmente a banda não tem absolutamente nada de especial. Alguns momentos lembram o pior do rock gaúcho, noutros se igualam a todas as outras que estão neste mercado de “Ursinhos Carinhosos”. O Flanders (o cara ao menos tem sobrenome de artista), ao cantar suas “poesias”, é uma tentativa muito da ordinária de tentar se aproximar de Rodrigo Amarante.  Aquele jeitinho arrastadinho e cheio de “pra que isso” que, diga-se de passagem, o Hermano faz com o jeito que lhe é peculiar. Sem forçar a parada!
Insisto em voltar a falar sobre algo que escrevi acima: “Na verdade, estes críticos, são meros leitores de releases”. Não é porque um cara diz que tem Bob Dylan como influência e tente fazer algo parecido, que ele será um novo Bob Dylan. Comparar o rapaz em foco com um dos maiores letristas da história da música mundial é uma piada de péssimo gosto.  É ignorar um passado musical bastante rico. Inclusive, duvido que qualquer um destes caras e ouvintes da referida banda saibam que as letras de Dylan são estudadas em cursos superiores de letras nos Estados Unidos e na Inglaterra. E foram docentes de “pequenas” instituições como Harvard e Oxford que lideraram o processo para que tais letras entrassem na grade de estudo das mesmas.  Conselho? Escutem antes de escrever e falar algo sobre, porque até eu posso escrever – “Meu amor...segurei tuas mãos. Olhei profundamente nos teus olhos cinzas de tristeza. Uma lágrima escorreu, nutrida por teu rimel. E depois sorrimos tomando um picolé de acerola.”
Recordo que há alguns anos, eu dizia ao amigo Carlos Eduardo Borba (o Animal da Porão GB): “Bicho, não posso respeitar uma banda que tem uma música chamada – ‘Sorvete de Flocos’ e diz-se Punk!”.  
Propositalmente, pulei a música 6 no desmembramento das composições. E a explicação é bem simples:
“No dia que uma banda tiver uma música intitulada ‘A Patinha da Garça’ ganhar meu respeito, pode esquecer tudo que já escrevi, pesquisei e aprendi sobre música em toda minha vida.”



Vai saber! Do jeito que as coisas estão hoje em dia, pode ser que Bob Dylan enlouqueça, faça uma versão em inglês da mesma e lance no carnaval.
Até a próxima.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Os Cães Ladram Mas A Caixa Registradora Não Para - Por Bruno Vitorino


Há quatro anos, fui convidado pelo site Clube de Jazz para cobrir a apresentação de Eumir Deodato na 5ª edição da MIMO. “Arretado!”, pensei. Nunca tinha visto o pianista em ação e, a julgar por sua produção nos anos 1960 e 70, imaginava que o concerto seria, no mínimo, intenso. Ledo engano... Fui recebido com uma apresentação morna e burocrática, cujo evento mais interessante era Fafá de Belém dançando e sacolejando sua protuberância mamária num sobe e desce que deixaria Isaac Newton perplexo. Foi hipnótico!
Deodato se despedia quando um rapaz da primeira fileira (aquela que você só consegue se tiver um bom contato) gritou “Toca Zaratustra!”. O clima ficou tenso. O semblante do instrumentista mudou radicalmente do simpático a contragosto para o carrancudo com veemência. Olhando nos olhos do jovem, Eumir foi cortante: “E quanta grana vai rolar?!” Eu quase aplaudi! Não pela atitude mordaz, muito menos pelo concerto vazio, mas sim pela a sinceridade em deixar claro que só estava lá pelo dinheiro. O Planet Hemp fará algo bem parecido neste sábado na passagem da Tour 2012 pelo Recife. Só que o grupo carioca substituirá a obscena franqueza do “E quanta grana vai rolar?!” pela rebeldia vendável do “Advinha, doutor, quem tá de volta na praça?!”.
Não entendeu, meu querido? Então, permita-me desenvolver meu raciocínio.
O Planet Hemp despontou na segunda metade dos anos 1990, quando o rock nacional vivia uma efervescência produtiva que articulada à ainda estruturada indústria fonográfica obteve resultados significativos. Em 1996, o Sepultura mergulhava na cultura xavante e nas tradições percussivas da Bahia incorporando a sua música interessantes matrizes rítmicas, para o espanto dos puristas do gênero, no aclamado disco Roots. Neste mesmo ano, o Raimundos lançava o excelente Lavô Tá Novo que misturava com muita sagacidade guitarras distorcidas, forró pé-de-serra e letras debochadas. Aqui em Pernambuco, o Hanagorik pré-produzia seu ótimo álbum de estreia Uncivil que projetaria o quinteto de Surubim inclusive no exterior.
Nesse panorama favorável, o surgimento do Planet Hemp foi recebido com entusiasmo pela mídia e pelo público por sua atitude provocadora ao abordar de maneira direta o consumo da maconha. O disco de estreia – Usuário – com músicas como “Dig Dig Dig”, “Mantenha o Respeito” e “Legalize, Já” deu a tônica do discurso inflamado do grupo carioca e causou tanto estardalhaço que logo consagrou a banda como o mais novo grito de protesto do rock brasileiro. Os dois álbuns seguintes - Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Para e A Invasão do Sagaz Homem Fumaça - deram continuidade às letras panfletárias e à sonoridade agressiva, mas tanto a pobreza musical quanto a escassez argumentativa do grupo fizeram com que seu tênue caráter contestador se dissolvesse. Já não havia mais o que dizer e a carreira solo de Marcelo D2 começou a se mostrar mais promissora. A banda se desfez...
Inegavelmente o Planet Hemp trouxe àquele cenário específico um sopro de ousadia política ao pacato mundo pop, mas acreditar na suposta autenticidade revolucionária da banda é sucumbir ao engodo da imagem. É bastante palpável o caráter efêmero e datado da produção do grupo, bem como é latente a superficialidade de suas críticas, as quais construíram ao seu redor uma aura subversiva, mas que na verdade encobriam uma rentável estratégia de marketing que comercializa atitudes e rótulos. Não se iluda, meu caro, pois o ideal modernista de vanguarda que buscava novas possibilidades expressivas, a contestação dos valores estabelecidos pela sociedade e a independência do artista da estrutura formal e comercial da arte foi completamente esvaziado e substituído pela lógica especulativa e mercadológica do mundo pautado pelo consumo massificado. O Planet Hemp não ficou de fora.
O que mais seria esse retorno triunfal da banda após um hiato de 10 anos afastada dos palcos senão um anacronismo crasso e um oportunismo empresarial escancarado?! Na tentativa de recriar a atmosfera que o grupo encontrou no auge de seu sucesso, o Planet Hemp abraça a onda dos revivals que torna desnecessário o processo criacional e promove lucrativos simulacros de revolução por todo o país. Algo não muito diverso das festas temáticas “Anos 80” animadas ao som de Silvinho Blau Blau e das Paquitas. Inclusive no que se refere à espetacularização da arte e na redução da experiência artística a espasmos de euforia compartilháveis em redes sociais destituídos, por conseguinte, de todo e qualquer teor reflexivo. A indústria cultural passa a trocar e negociar signos, e não mais obras, de modo que o Planet Hemp mercantiliza a lembrança do que um dia representou para uma geração de adolescentes rebeldes.
Espero sinceramente que você, meu querido leitor, não apele ao clichê de taxar minha análise de “reação conservadora” ou de “estertor reacionário”, pois não se trata disso. Você sabe ler, tenho certeza. Respeito e reconheço a liberdade que a banda tem para tratar dos assuntos que lhe aprouver, mas, em contrapartida, também sou completamente livre para apontar suas ranhuras ideológicas e desmontar a ilusão subversiva criada pelo grupo. É fundamental ao menos ter noção dos mecanismos que viabilizaram a construção do Planet Hemp, caso contrário, “curtir o som” deles será um ato pautado pela mídia, pela indústria do entretenimento ou pelo desejo de integrar o clube de seguidores que o valoriza e o referenda.



Por tudo isso, se você atendeu ao chamado de Marcelo D2 e BNegão no vídeo acima, desembolsou os R$ 100,00 do ingresso (ou os R$ 200,00 da área VIP, se achar que é chique demais para se misturar com os outros) e acredita piamente que está contribuindo com sua parcela de insubordinação à ordem social estabelecida; só me resta lamentar por ti. Foste ludibriado, meu caro. Simples assim.