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domingo, 9 de março de 2014

Variações em 5/4 - Random Access Memories



Nesta segunda edição do ano na coluna “Variações em 5/4”, os nossos editores comentam um dos trabalhos mais premiados de 2013: “Random Access Memories” da dupla Daft Punk.

- Fernando Lucchesi:

Não conheço praticamente nada do Daft Punk.  Acho que excluindo “One More Time” não conheço mais nada deles. Dito isso, como o tema deste “Variações em 5/4” era o Daft Punk e o enorme sucesso que eles obtiveram na última edição do Grammy Awards decidi falar especificamente sobre o disco “Random Acess Memories”, álbum que está na lista de melhores do ano passado em praticamente todos os meios de comunicação.

Reconheço de início que é um disco excelente, muito acima da média do que é produzido hoje. No entanto, é um disco que pode enganar quem procura 13 músicas do calibre pop de “Get Lucky” (indiscutivelmente um dos maiores sucessos radiofônicos de 2013). O disco oscila muito entre um revisionismo da chamada disco music e um som eletrônico mais contemporâneo. E é nesse som eletrônico contemporâneo onde reside o maior problema do disco.
 
O ponto alto do disco são justamente as músicas que buscam resgatar a disco music dos anos 70.  Muito espertamente, os dois músicos franceses chamaram um dos precursores daquela guitarra suingada característica da disco, Nile Rodgers (ex-integrante do Chic). Não à toa, as faixas mais dançantes do disco contém a guitarra de Rodgers: “Give Life Back to Music”,”Lose Yourself to Dance”  e a contagiante “Get Lucky”. O resto do disco é bastante irregular. Traz uma justíssima homenagem a um dos artífices da música eletrônica, Giorgio Moroder (Giorgio by Moroder), a alucinante “Contact”, mas também tem coisas enfadonhas como “The Game of Love”, “Touch” e “Within”. Mas mesmo essas músicas mais lentas (feitas sobre encomenda pra o momento “chill out” da balada) não comprometem o resultado final desse disco, que merecidamente ganhou uma penca de Grammys. Já quanto à representatividade do prêmio Grammy para a música é outra história...

- Giba Carvalho:      

Random Access Memories trouxe de volta o romantismo à música eletrônica e me devolveu o prazer de ouvir um disco do gênero novamente. Thomas Bangalter e Guy Manoel de Homem-Cristo, inegavelmente, tiveram muito cuidado na produção deste álbum tornando-o um disco de fácil audição. Mesmo para aqueles, que assim como eu, repudiam tudo que foi produzido na música eletrônica de 15 anos para cá. O disco nada mais é do que um exercício de repetição do que já foi feito na época em que a música eletrônica era diferenciada dos “bate-estaca” e “ruídos” insuportáveis do que se toca nas raves. “Não é o puritanismo autêntico, é a forma autêntica de como se trabalhar a repetição”.

Tenho que destacar a guitarra funky de Nile Rodgers, que soma sobremaneira à concepção geral do trabalho e várias outras participações especiais – Julian Casablancas, na excelente “Instant Crush” e, principalmente, de Pharrel Williams nas pegajosas “Lose Yourself to Dance” (o preparo do estilingue) e “Get Lucky” (a pedrada do disco). “Giorgio by Moroder” é uma faixa muito interessante, porque inicia com um depoimento de um dos papas da música eletrônica e termina “grooviada” com o melhor das discotecas dos anos 80. Estas são o destaque do disco para mim. E, não pense você, que um trabalho bom não tem coisas desprezíveis. Em alguns pontos, a dupla parece perder a inspiração e o álbum cai muito de qualidade. “Touch”, “The Game of Love” e “Within” são dispensáveis. Outra coisa que percebo claramente é a duração do álbum (74 minutos). A meu ver muito longo e em alguns pontos, até cansativo.

Embora com estas ressalvas supracitadas, reconheço que o trabalho da dupla francesa é um belo trabalho POP e merece destaque!

- André Maranhão:

Quando lidamos com uma música marcada pela grande quantidade de efeitos eletrônicos, entramos num contexto onde o engenheiro de som e o DJ passam a ter a mesma ou até mais celebração do que os músicos. Isso é algo relativamente esperado, se levarmos em conta que no campo da arte, os indivíduos redefinem suas práticas por meio das convenções e dos recursos que cada estilo, gênero e expressão artística demandam. Neste sentido, o Acid Jazz, a Drumin’n’Bossa, o Brazilectro e o Tecno, presentes nos trabalhos de Jamiroquai, Kyoto Jazz Massive, Fernanda Porto & DJ Patife, Bossacucanova e Zuco 103 se fazem de grande valia.

O Daft Punk também parece reivindicar a importância de uma musica fortemente influenciada pelos recursos eletrônicos. A dupla francesa já foi capaz de nos brindar com Robot Rock, Harder, Better, Faster, Stronger e One More Time (grande hit do inicio da década de 2000) e agora parece ampliar sua lista de êxitos com RANDOM ACCESS MEMORIES, seu mais novo álbum. É interessante como este trabalho reúne tantas influencias que resultam em faixas soft, suavizadas pela mescla de sweeps de guitarras, breves presenças de overdrives, curtas citações de orquestras, camas harmônicas de teclados, solos de piano rhodes, falas ordinárias transformadas em vozes cantadas pelo sintetizador, linhas de baixo próximas do Funk e batidas mais próximas do Lounge – num som que pode nos remeter a ambientes como desfiles de moda, lojas de departamento e vernissages. De fato, Get Lucky – a faixa mais celebrada pelo mercado da música e pelo Grammy – foi a que mais me agradou no álbum do Daft Punk, mas Give Life Back to Music; The Game of Love; Beyond; Motherboard; Fragments of Time e Doin' It Right também têm qualidade. Apenas Touch me soou exaustiva e eu consideraria as demais faixas medianas.

Possivelmente, alguns críticos mais reativos a esse tipo de música, podem acusá-la de anti-arte, ou afirmarem que o Daft Punk é apenas entusiasta de todo o Show Bussiness e do capitalismo na arte. No entanto, essas condenações não invalidam seus méritos estéticos, pois qual o grande trunfo desse disco? Na minha opinião, o de mostrar que nem sempre o repetitivo é sinônimo de má qualidade!

- Bruno Vitorino:

Concordo com Keith Jarrett. “A arte está morrendo neste mundo, assim como o ouvir música, à medida que o mundo fica cada vez mais cheio de brinquedos e efeitos especiais. Com esta morte, virá a ruína das muitas possibilidades emotivas: beleza, ternura, profundidade, confiança, honestidade, tristeza; cheias de significado interno e cor”. Como os dois ou três loucos que acompanham meus textos devem ter percebido, sou um anacrônico. E com muito orgulho, diga-se! De modo obsoleto, ainda espero encontrar na música (e nas artes em geral) aquele instante transcendental em que tudo parece fazer sentido e que, de alguma forma desconhecida à racionalidade, conecta-me à completude e ao éter. Eu vivo dessa e para essa busca infindável que se torna cada vez mais difícil de alcançar, pois, como é sabido, tanto o conceito de Arte quanto seu propósito mudaram na nossa Civilização do Espetáculo. Essa discussão, inclusive, rendeu um debate interno extremamente saudável (quase um suco de laranja com clorofila) entre mim e André Maranhão que espero ver um dia publicado neste blog.

Dito isto, o desavisado leitor que passa os olhos por estas linhas deve imaginar o frio na espinha que senti quando Giba Carvalho propôs que comentássemos um dos trabalhos mais “hypados” pela Grande Mídia especializada em 2013: Random Access Memories do duo Daft Punk. De cara, digo que não sou conhecedor da banda. O pouco que tinha escutado, num passado longínquo, soou-me desagradável e o punk estampado no nome da dupla, que na minha adolescência atraiu minha atenção para eles, apenas me deixou ainda mais emputecido com a música que faziam. A única coisa que esses cabras fizeram que realmente atiçou minha curiosidade foi uma série de clipes transpassados por uma história que começava com “One More Time”. Aquele lance futurista, mangá, sci-fi, realmente fez minha cabeça. Da música, só gostava do que parecia ser um solo de guitarra bem pirotécnico - em “Aerodynamic” - que se valia de uma técnica muito utilizada por metaleiros: a digitação. O fato é até hoje não sei o que aconteceu com a galeguinha que é sequestrada por um bando de soldados mascarados no começo da saga. Era o ano de 2001. Eu tinha 18 anos, só andava de preto, bebia vinho, ouvia Sepultura, Krisiun, Slipknot, e ainda tinha minha banda punk: Nômades. Uns poucos meses à frente, como um desígnio da Fortuna, eu compraria o álbum “’Round About Midnight” de Miles Davis e teria a grande revelação da minha vida. Mas, isso é assunto para outro texto.

Hoje, do alto de minha senilidade precoce (tenho quase 31 anos), ouvir esse trabalho é tarefa hercúlea. Primeiro, por ser um disco longo. São exatos 74 minutos de pura música inorgânica e vozes sintetizadas, numa odisseia artificial por um cenário de isopor colorido, raios lasers, gelo seco e alucinações bioquímicas que parecem não ter fim. Isso inevitavelmente me levou ao tédio, à beira do desespero, onde cada segundo durava um século e cada compasso era uma masmorra asfixiante. Um exemplo disso são as músicas “Touch”, “Within”, “Beyond” e “Motherboard”. Um convite ao suicídio. Segundo, porque ele esteticamente apresenta os conhecidos lugares comuns de outrora: uma requentada atmosfera da disco music que embalou a juventude de meus pais (que, por sinal, é quando a música soa mais audível); um maroto lounge music que remete ao relaxante momento pós-coito em banheira de motel; um certo aspecto frívolo que só é encontrado nas danceterias. Terceiro, por seu conceito artístico em si. O título do álbum, em português “Memória de Acesso Aleatório”, faz clara menção à memória RAM que nada mais do que a memória volátil dos computadores, ou seja, depois que a máquina é desligada, as informações que ela processava são perdidas, dada sua natureza efêmera, transitória, precária, instantânea, superficial, passageira, inapreensível... Bem, você entendeu. E eu não posso levar a sério uma música que não repercute no âmago de quem ouve, apenas, em seus pés. Mas, há uma exceção: “Get Lucky”. Quando dei por mim, lá estava eu balançando os ombros como um autêntico metrossexual na pista de dança da Pink Elephant que, entre um gole e outro de Smirnoff Ice, lança olhares de esguelha para a gatinha com salto agulha e vestido de lantejoulas que não tira o olho do WhatsApp, torcendo para que a figura notasse que eu trajava roupas de marca. Um conjunto da Tommy Hilfiger que uma prima sacoleira me trouxe de Miami. Que música contagiante! Tão contagiante que meu alter ego, DJ Bilola, já a incorporou em seu saco escrotal (é assim que ele chama seu setlist) para despejá-la no clímax de sua próxima festinha luxuriante. Sucesso garantido!

É inegável que com “Random Access Memories” o Daft Punk vende um bom produto. Não à toa, ganhou uma caralhada de Grammys, o grande termômetro da indústria do entretenimento, com o disco em pauta. Mas, se o duo francês representa significativas conquistas estéticas para a Arte com sua música “de mentira”, então a McDonald’s também pode se orgulhar de sua contribuição para a gastronomia com os hambúrgueres “orgânicos” que comercializa. Só que não.

Gosto muito de música eletrônica. Sou fascinado pelas composições de Cage, Stockhausen, Ligeti, Berio, Nono, Boulez, mas também curto bastante outros sons eletrônicos, como o cyber punk do Atari Teenage Riot. Já ouviste?! Não?! Então escuta o insano “Delete Yourself!”. Pelo menos aqui, meu caro, encontrarás um pouco da honestidade e da urgência que o Daft Punk jamais terá.

- Dom Angelo:

A grosso modo, classifico a prática musical em três objetivos distintos: música sentimentalista, onde o propósito é despertar sensações como tristeza, alegria, fúria, revolta, paixão, etc. Música de apreciação estética, onde a arte de combinar notas, ruídos e silêncio geram um desafio analítico para nosso cérebro, impulsionando consequentemente a busca pelo conhecimento e a sensação do desenvolvimento cognitivo e, finalmente, música para dançar, no qual a linearidade rítmica induz nossos corpos a acompanhar certas marcações de tempo.

Enquadrados neste terceiro ponto, encontramos os “Punk Pateta” ou Daft Punk. Para mim fica nítido que seus integrantes (o luso-francês Guy-Manuel de Homem-Cristo e o francês Thomas Bangalter) são oriundos do universo rock, principalmente pela simplicidade harmônica e melódica de suas composições. Sem falar do ritmo, um synthpop 4/4 marcando a acentuação no segundo e quarto tempo do compasso.

Se os compositores do período Clássico (mais ou menos 1730 até 1820) declaravam haver um formato musical para algumas de suas obras (Forma Sonata), penso que deveria existir uma declaração dos praticantes da música Pop afirmando que existe uma fórmula para o “Hit”. Poderia ser algo como Forma Canção (Verso-Refrão-Verso-Refrão2X) ou, como no caso dos Daft Punk, Forma Beat Modal Dórico (sequência ii-IV-vi-V ou i-III-v-IV no modo dórico). Pode-se dizer que artistas como Michael Jackson, Prince e Black Eyed Peas fizeram uso demasiado deste padrão musical. Utilizando as mesmas vias, os Daft Punk ganham o Grammy de melhor disco do ano fazendo uso abusivo desta prática.


Ok. Também não vou deixar aqui só críticas. Até porque curti e dancei o verão europeu de 2013 ao som de “Get Lucky” nos cinco países que visitei em Agosto. Um fenômeno cultural. A música foi feita para tal finalidade e cumpriu seu objetivo. Tem mérito. Antes este tipo de mainstream na música internacional do que coisas tenebrosas que já assombraram o planeta terra outrora. Mas quer saber de uma coisa, meu amigo? Vá ouvir os Air, os New Order, os Kraftwerk, Morcheeba, Radiohead, Massive Attack, Jamiroquai, Beck e Bjork, se é música eletrônica pop o que você procura.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Vivendo o Porto: A Tasca do Guedes - por Dom Angelo

 

Para quem realmente aprecia uma boa bebedeira entre amigos, não existe lugar melhor que um boteco. Se o local for antigo, modesto e barato, melhor ainda. Ao mesmo tempo em que o ambiente é envolvido pelos ares da energia instável do álcool, percebemos uma sensação relaxante e de aconchego, considerando o gole na cerveja, a comida rudimentar, a conversa afiada e a celebração da amizade como o verdadeiro e o único objetivo de ali estar.
Ok. Um fuga da realidade? Talvez sim, talvez não.
Em Portugal, esses locais levam o nome de Tasca. Segundo o dicionário Priberam (http://www.priberam.pt/dlpo/), a palavra significa “estabelecimento modesto que vende bebidas e refeições”. Por aqui encontramos tascas centenárias, muitas vezes subterrâneas, com paredes de pedra e azuleijos, mobília rústica e comida tradicional.
Às sextas ou sábados, o primeiro local que frequento antes de uma noite de diversão é a Tasca do Guedes. Ou simplesmente Casa Guedes. Localizada na praça dos Poveiros, essa tasca serve o melhor sanduíche de pernil do mundo. O estabelecimento tem apenas 4 mesas na parte de dentro, apesar de nas épocas mais “quentes” eles oferecerem mesas ao lado de fora do bar, mesmo em frente ao Jardim de São Lázaro.
Além da “sandes de pernil”, as especialidades do Guedes são as papas de sarrabulho, moelas, sopa de caldo verde e os queijos e frios regionais, tudo isso acompanhado de um bom frisante rosé, um vinho verde ou da velha cervejinha. Porém não se incomode de não arranjar uma mesa. Provavelmente vai acontecer. O Guedes vive cheio, muitas vezes com filas grandes para se fazer o pedido no balcão. Mas como a idéia é começar a farra de bucho forrado, o que vale mesmo é comer no balcão ou em pé, tomar a garrafa de vinho e sair pra noitada!
 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Vivendo o Porto: Café Candelabro - Por Dom Angelo


Dando sequência as dicas de lugares para se visitar na cidade do Porto, venho desta vez falar de algo que interessa a grande maioria das pessoas: bares.
A cidade do Porto hoje tem uma das noites mais bacanas da europa, onde podemos encontrar na área que abrange o centro histórico (mais conhecido como “baixa”) centenas de bares, pubs e restaurantes com diversas temáticas gastronômicas e culturais, tudo isso num perímetro que se faz todo a pé.
Considerada Patrimônio Cultural da Humanidade em 1996, todo o centro da cidade é marcado por edifícios de diferentes estilos arquitetônicos, abrangendo construções do estilo gótico, romântico, medieval, barroco, neoclássico, dentre outros. Esse ar “cool” da cidade atrai turistas do mundo todo, favorecendo o ambiente artístico e reflectivo.
Pra quem gosta de desfrutar a noite, uma das coisas legais é sair alternando de bar em bar e curtindo os diferentes climas que estes estabelecimentos oferecem. Pessoalmente, algumas vezes gosto de começar a noitada relativamente cedo, por volta das 20h e um dos meus locais preferidos nesse aspecto é o Café Candelabro.
Ambiente descontraido, de meia-luz, com decoração de livros, revistas, cartazes antigos, máquinas fotográficas e outras coisinhas. Tem excelente cerveja de pressão e preços convidativos. Na parte da tarde a música ambiente vai de Roberto Carlos (anos 60) à Belle and Sebastian, de Tom Waits à Bjork, e à noite a coisa fica um pouco mais enérgica com a presença de DJs, onde o set vai dos Pixies, Radiohead, Pulp a cenas mais alternativas da nova música eletrônica européia.
Em época de temperaturas mais amenas, é legal sentar na esplanada e observar o movimento da cidade. Em dias mais frios, sentar dentro numa mesinha para ler um jornal ou conversar com amigos, degustando uma tábua de queijos nacionais e um bom tinto maduro.
Ah claro...isto quando a noite está só começando. Depois é “outros quinhentos”...
Abraço a todos e até a próxima!
 



terça-feira, 11 de junho de 2013

Vivendo o Porto: Chocolateria Equador - Por Dom Angelo



Com este post inaugural, começo uma coluna onde darei algumas dicas de locais que acredito serem legais para se visitar aqui na cidade do Porto (Portugal). Não posso dizer que sou um guia expert, mas conversando com alguns tripeiros (pessoas nascidas no Porto), vejo que para passeios alternativos, estou mais antenado que muitos.
Inspirado na visita que fiz a Bruxelas e Bruges neste final de semana, indicarei uma chocolateria excelente aqui no Porto, que digo por experiência própria, não fica atrás das estabelecidas na Bélgica.
A Chocolateria Equador fica na rua Sá da Bandeira, 637. Pertinho do centro histórico, a idéia é aproveitar o passeio na baixa (downtown) e visitar essa lojinha. De preferência, como é óbvio, depois do almoço.
 
O que considero chocolate de verdade (que fica na margem de 70% de cacau ou mais) é muito bom e o estabelecimento ainda disponibiliza ótimos kits para se presentear. As trufas também são excelentes e o design das embalagens são belíssimos, inspirados em ilustrações do início do século.
Buscando um diferencial, ao contrário dessas lojas mais convencionais do Brasil (tipo Cacau Show, Kopenhagem, etc.) a trilha sonora da Chocolateria Equador é só Jazz! Principalmente coisas mais trad da Ella, do Armstrong, do Goodman, do Duke e coisas cool do Miles, do Chet e do Brubeck. Nada melhor do que comer um doce fabuloso, curtindo um som de primeira.
Abraços!
 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Dave Holland & Pepe Habichuela - por Dom Angelo



Posso dizer que algumas semanas atrás tive um dos grandes prazeres musicais de minha vida até hoje. Assistir o concerto do baixista Dave Holland em parceria com o violonista Pepe Habichuela.
Em termos de estrutura, tudo impecável. A organização da Casa da Música, a educação do público, o controle técnico do som (nem um triz de microfonia), a qualidade do som em termos de equalização, por fim a qualidade dos instrumentos e dos instrumentistas.

Holland, um imponente e lúcido lorde inglês com mais de cinquenta anos de carreira é considerado um dos principais jazzístas em atividade, tendo em seu currículo trabalhos com Miles Davis (na lendária época do Bitches Brew), Thelonious Monk, Chick Corea, Kenny Wheeler, Stan Getz, Bill Frisell, dentre outros grandes. Mestre do som e do ritmo, de timbre suave e improvisações inspiradas, teve sua carreira marcada por uma longa relação com a gravadora ECM onde participou de álbuns lendários.
Habichuela pertence a uma das grandes dinastias da música flamenca. É da geração de Paco de Lucía e de Camarón de La Isla, porém manteve-se sempre atualizado, acompanhando os novos rumos tomados por esta linguagem musical. Em trabalhos anteriores com o trompetista Don Cherry, já tinha buscado a fusão do jazz com a música flamenca. Mais recente, alguns anos atrás, experimentou a fusão com a música clássica indiana nos seus trabalhos com o músico Nitin Sawhney.

Acompanhados de Josemi Carmona no segundo violão e dos percussionistas Juan Carmona e Bandolero, o concerto de Holland & Habichuela foi uma verdadeira aula de maturidade musical. Bom gosto de fraseados, instrospecção e ao mesmo tempo comunicação musical entre os integrantes, controle técnico e acima de tudo, bom gosto artístico.
Viu-se o Holland descobridor e pesquisador, pois a música era exclusivamente flamenca. Apesar de ficar claro em suas improvisações que é de base jazzística o seu idiomatismo musical. Viu-se o Pepe como a personificação do espírito flamenco. Ao mesmo tempo que era extremamente técnico e veloz, era doce e sentimental, fazendo-nos lembrar dos verdadeiros propósitos da arte de fazer música. Viu-se o Josemi Carmona com um toque singular de violão, enquadrado na escola do Nuevo Flamenco e os percussionistas Juan e Bandolero delicadamente confirmando o dito popular que na música: menos é mais.

Como o Holland dispensa apresentações, segue abaixo um vídeo do Pepe Habichuela pra quem quiser conhecer melhor o mestre:
http://www.youtube.com/watch?v=fl9YTIvZa1s