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terça-feira, 4 de novembro de 2014

Banda do Mar - Por Giba Carvalho

Arte do primeiro disco da Banda do Mar

Poderia resumir o disco de estréia da Banda do Mar como um prolongamento da fraca carreira solo de Marcelo Camelo. Mas, não seria justo com as pessoas que acompanham nossos textos e para aqueles que no mínimo gostam de ler uma opinião diferente. Tal qual Benjamin Button nas telas de cinema, Camelo nasceu velho e regride a arroubos juvenis a cada passo dado. É exatamente isto que sinto nos seus trabalhos posteriores ao Los Hermanos e não é diferente neste novo projeto.  Parece-me uma busca de fragmentos do que o ex-hermano foi um dia.  Um mar de repetições de formatos e de uma fórmula que caiu na mesmice há tempos. Some-se a Banda do Mar a infantilidade tardia (ainda?) e a emissão de sons provenientes das frágeis cordas vocais de sua companheira Mallu Magalhães e atuação meramente coadjuvante do baterista português Fred Ferreira.

Nesta estréia, especificamente, chamo a atenção dos leitores justamente para a “tríade-ilusão”. É, meus caros, apenas 3 canções merecem atenção neste trabalho e sempre com alguma ressalva (daí a tríade-ilusão). “Cidade Nova” que abre o disco com personalidade e lembra a fase mais legal da carreira de Camelo, embora possua aquela velha história manjada do “tá ruim, mas tá bom”. “Hey Nana” que na minha opinião é a grande música do disco, principalmente por conta da linha de guitarra sessentista (repetidíssima, enfadonha, mas que sempre funciona bem) e “Mais ninguém” que é a maior e melhor música pop do casal, embora “cantada” por Mallu. Outros grandes méritos, são a qualidade da produção e da gravação do mesmo.

O exercício de compor está sendo extremamente improdutivo para Marcelo Camelo. É o mal de quem foi nivelado por cima o tempo todo. O “messianismo” que atingiu seus trabalhos com o Los Hermanos é cada vez mais prejudicial para seus projetos posteriores. Logo ele que foi ícone para tantos outros. Estes não procuraram espelhar-se no caminho percorrido anteriormente pelo artista em foco para desenvolver sua identidade musical e ficaram apenas tentando cópias medíocres. Camelo tornou-se pai para um monte de filhos que não são donos nem do próprio nariz e agora vai nivelando-se a eles.

Banda do Mar. Divulgação. Fonte: Google Imagens.
A Banda do Mar é um trabalho “alto astral” sem graça. Nada além de um compartilhamento de gostos adolescentes de senso extremamente usual. O álbum não evolui em nenhum momento, não oferece outros caminhos além do mundo adulto infantilizado em bobagens e numa pieguice única. Confesso que fico muito triste em referir-me as composições de Marcelo Camelo que tanto me emocionaram outrora desta forma, mas não tem como ser diferente. Na minha concepção, é um desperdício imenso de talento de um dos raros jovens diferenciados, de fato, nos últimos 15 anos na música nacional.  É o brilho de uma carreira que iniciou e se manteve de modo enriquecedor jogado no chão.  

A propósito, aguardo ansiosamente o Box com os vinis do Los Hermanos que encomendei para a minha coleção. Preferencialmente, ouvirei tomando uma cerveja gelada ou um bom vinho com uma tábua de queijos especiais. Feeling por feeling eu prefiro a levada melódica do que “Fez-se Mar” em outros tempos, do que os “muitos chocolates” de agora. Estes, eu deixo para o casal sacarose e para Fred Ferreira, que apenas “segura vela” na bateria.


Observação - não estranhem o porquê da ausência de comentários sobre as composições de Mallu Magalhães, com exceção de “Mais ninguém” por um lado indie-pop cool e de “MIA”, que não passa de um Indie-axé e que certamente é uma das piores coisas que já ouvi em toda minha vida. Para Mallu, insisto no que disse em outro texto – “Mallu Magalhães tem 21 anos, três álbuns e a vida toda pela frente. Inclusive, para aprender a cantar”.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O Amor Cáustico de Paolo Nutini - por Giba Carvalho

       


Nove anos após assinar seu primeiro contrato com a Atlantic Records, Paolo Nutini nos presenteia com seu terceiro álbum - “Caustic Love”. A cada passo dado, o garoto de apenas 27 anos, mostra que sabe aonde quer chegar e que toma conta de sua carreira de modo único. Primordialmente pela guinada quase total para o soul como linha de frente para sua música e, segundo, por não deixar que qualquer produtor ponha as mãos em seus trabalhos. Desta feita, Nutini pôs as mãos na massa e assinou a produção do seu terceiro álbum junto a Dani Castelar, com quem já havia trabalhado no antecessor – Sunny side Up.

Inspirando-se em clássicos de R & B e Soul, Paolo acerta seus ouvintes de modo muito mais eficaz do que com o pop-folk que predominara até então em sua carreira. A maturidade musical já demonstrada em “No other way” (melhor música do Sunny Side Up) toma formas impressionantes em Caustic Love em canções como – “Iron Sky”, “Let me Down Easy” (um tributo aos clássicos da Motown) e “Scream (Funk My Life Up). Nutini parece compreender uma frase que adoro utilizar em termos musicais – “Moderno é a tradição.” Destas supracitadas, eu destaco “Iron Sky”. De letra contundente e madura, esta balada nos remete a luta por direitos e ao confronto a nossa sociedade dividida por meio de tantos adventos tecnológicos. No meio desta canção, o trecho do discurso de Chaplin retirado de “O Grande Ditador”, faz com que tenhamos mais certeza ainda:

Para aqueles que podem me ouvir, eu digo, não se desesperem
A miséria que está sobre nós é apenas a passagem da ganância
A amargura de homens que temem o avanço do progresso humano
O ódio dos homens passará e ditadores morrem
E o poder que tomaram do povo retornará ao povo
E mesmo que os homens morram, a liberdade nunca perecerá
Não entreguem-se a estes homens artificiais
Homens-máquina, com mentes de máquina e corações de máquina
Vocês não são máquinas. Vocês não são gado, vocês são homens!
Vocês, pessoas, têm o poder de tornar esta vida livre e bela
E de fazer desta vida uma aventura maravilhosa
Vamos usar deste poder!
Vamos todos nos unir!

Apresentação espetacular no Studio Abbey Road:


Não pense você, que o peculiar lado romântico, foi esquecido por Paolo Nutini. Podemos perceber claramente desde o título do novo trabalho – “Caustic Love” (Amor Cáustico). No entanto, o modo que o artista exprime tais sentimentos nas novas canções é bem diferenciado dos trabalhos anteriores. As dolorosas desilusões amorosas adolescentes dão lugar a consolidação de um adulto que tem a capacidade de questionar e agir de outras maneiras. Sejam elas no amor que escorre em – "Diana" – Diana, she loves me, no innocence or compromise. Diana, she loves me, the only way she knows. Ou na bela "Better Man" (será que vamos ter outro hino com este mesmo nome?), onde mesmo de um modo ainda “meio garotão”, ele consegue passar grande parte do que qualquer homem deseja na sua companheira. E é impressionante como o garoto consegue fazer de uma baladinha (praticamente voz e violão) torne-se uma bela música.

Mas, neste lado específico - "One day" é a que mais se destaca pela musicalidade intensa, com uma linha de contrabaixo que permite que Nutini explore seus tons variadíssimos de voz e pelo existencialismo "platônico" contido na letra: From the corner of my eye. To the back of my mind. I recognize what you mean to me. And all the corners of our pictures. Are a long time afraid. They still symbolize what you mean to me. You ask me to remember. A kiss is but a kiss. Well I'd be a fool to want more from you. And I'm gone in a while. I'll be gone in a while. I'll be gone in a while. It's all that I do. I'll cry and you cry and we'll cry. Till the rain turns black. And the devil moves and clings to us. And for a moment there is beauty. It's not a simple yearning. Sometimes it feels like it's all I've gotten. It's all a dream.

Dentro do álbum, ainda encontramos outro diferencial. Há algum tempo atrás, ao ser questionado sobre como seria seu novo trabalho, Paolo Nutini afirmou que estava sendo meio que "punk-rock" o processo de produção. Com a elegância e talento que lhe é proveniente, o álbum não tem nada do estilo supracitado. Porém, "Cherry Blossom" e "Fashion" são  músicas onde as guitarras mais rock n´roll aparecem. Muito mais baseado pro lado de bandas de rock psicodélico e indie. Esta vertente não apareceu nos antecessores e é certo que será sucesso em suas apresentações. 

"Bus Talk" e "Supperfly" são os pontos fracos do álbum por tratarem-se apenas de duas "vinhetas" chatas entre as faixas.  

É notório que o caminho do jovem escocês vai tomando crescente e isto é extremamente importante para o mundo da música. Afinal, para uma geração muitas vezes julgada “perdida”, o Reino Unido vem provando por Paolo e outros como Amy Whinehouse (in memorian) , Adele, Joss Stone, Jake Bugg que um pouco de bom gosto e tradição, aliados a sofisticação, não fazem mal a ninguém.

domingo, 20 de julho de 2014

Variações em 4/4: Nação Zumbi


Na edição deste mês da coluna, os editores do blog comentam o mais novo trabalho da banda pernambucana Nação Zumbi.

- André Maranhão:

Embora Cicatriz apareça como o single de Nação Zumbi, outras faixas são mais destacáveis no álbum. Em Bala Perdida, NZ consegue imprimir uma melodia marcante para se referir a um tema pouco convencional: uma bala perdida. Claro que outros rappers e os Paralamas do Sucesso (em Calibre) já o fizeram. Mas o gesto de NZ é fundamental para reforçar algo importante na canção brasileira; converter o violento em poético. Na faixa O Que Te Faz Rir, a grande virada está em 1’50’’, com a entrada da simples estrofe “O que te faz rir pode te fazer chorar / O que te faz rir não vai me fazer chorar”; enriquecida pela boa conversão da guitarra e com a entrada lânguida das backing vocals e da percussão – somas que imprimem um balanço gostoso à canção.

Na faixa Defeito Perfeito, o tema principal abordado é atualíssimo. Numa época de proliferação das redes sociais e das manipulações de imagens, dos selfies e do pastiche, o ineditismo parece cada vez mais complicado. Mas na contramão do simétrico, perfeito e irretocável; a canção enfatiza num discurso claro e direto: “De perto a cor é outra / Se sente o cheiro o defeito aparece / É bem diferente / Nada é como se espera / Nada não / Eu lhe quero assim / Desse jeito”. Isto parece reivindicar a beleza ao que parece erroneamente imperfeito.

A presença de Marisa Monte entrega mais lirismo à faixa A Melhor Hora da Praia, e em Um Sonho, a presença do violão de aço e de uma guitarra marcada por drives mais leves e sweep picks, se aliam ao banjo acentuado no final da faixa e às alfaias sutilmente marcadas. No entanto, o retorno à fórmula que consagrou NZ surge, de fato, em Foi de Amor e Em Pegando Fogo. As alfaias mais fortes somam-se à bateria agressiva e à distorção ainda mais intensa na guitarra, produzindo duas das melhores faixas do álbum. Por sinal, meu destaque vai para Lúcio Maia, pois o guitarrista se estabelece como um músico coerente, alternando os recursos do seu instrumento, não apenas entre uma faixa e outra, mas dentro de uma mesma canção. Estes ingredientes pesam consideravelmente, pois não fosse tal fórmula, uma passagem como “Vem que ardente / Mais que urgente, tremulante / Toda dançante, atiçando a todo instante / E a cena ficando quente” poderia calhar muito bem num repertório de Cláudio Zoli, e não de Nação Zumbi!

- Fernando Lucchesi:         

É difícil para qualquer banda, depois de um longo tempo junta, manter um certo padrão de qualidade nos seus discos. Algumas bandas arriscam uma mudança radical no som para sair da rotina. Outras seguem a mesma fórmula infinitamente sem se preocupar se estão sendo derivativas. Nesse caso, o importante é manter-se em evidência. A mudança ou não de sonoridade, só o tempo (e o público) poderá dizer se foi acertada. A Nação Zumbi parece ter escolhido a segunda alternativa. E não hesito em dizer que a escolha foi acertada. Mas calma!  Não vá ouvir o disco procurando um novo Da lama ao Caos! A banda não repete exatamente o que fez nos discos com Chico Science. Se você quer tomar como referência algum disco da banda pegue o Nação Zumbi de 2002. Desde esse disco a banda deu uma guinada mais intensa para letras psicodélicas, melodias mais instigantes e um peso maior para a guitarra misturada às diversas influências da banda. Pois, o Nação Zumbi de 2014 vai nessa mesma direção. Não à toa, o título é o mesmo.

O disco se divide em dois tipos de canções: aquelas com uma guitarra pesada e desenfreada (estas estão mais propensas a entrar em repertórios de futuros shows) e aquelas mais calmas e elaboradas (estas, apesar da beleza melódica, serão pouco ouvidas em shows, pois quem já viu a banda ao vivo sabe que poucas partes do show são cadenciadas). No primeiro grupo estão a faixa de abertura, Cicatriz, com um riff de guitarra que poderia ser tocado por qualquer banda de brega, Bala Perdida, Foi de Amor (a melhor faixa do disco), Cuidado e Pegando Fogo. De outro lado canções como Novas Auroras (possivelmente a melhor delas, com um riff excelente), A Melhor Hora da Praia, Defeito Perfeito (esta com uma levada meio reggae), Um Sonho e Nunca te Vi.  Arrisco dizer que esse é o melhor disco da Nação Zumbi desde o de 2002 e que várias canções entrarão no repertório de shows da banda.

- Giba Carvalho:

Resumiria o disco novo da Nação Zumbi como pouco ousado, mas eficiente. Obviamente que as características básicas do grupo não foram esquecidas, no entanto, uma “certa” veia Pop aparece com mais frequência durante o trabalho. Por exemplo:  Cicatriz, música que abre o disco, é uma balada que para mim soou com fortes influências melódicas da Jovem Guarda. Isto não é nada comum na trajetória dos músicos pernambucanos.

Não sei ao certo que tipo de influências os caras devem ter tido na hora de compor o disco, mas a falta de vigor no trabalho e a mostra um lado mais “alegre”, mostra que o “meio” consegue mudar até quem não precisaria. Particularmente, prefiro quando a Nação Zumbi mostra força e peso em suas composições.

Estaria sendo hipócrita afirmando que é um disco ruim. Mas, justamente pelo momento tenebroso que vive o rock n´roll nacional, penso que uma viagem ao início seria mais interessante do que “colorir” a vigorosa personalidade combativa da banda de outras épocas.

Sem sombra de dúvidas, indico a atenção dos ouvintes para a tríade que encerra o disco – Foi de Amor, Cuidado e Pegando Fogo. O resto me parece mais uma mistura dos projetos paralelos que os membros do grupo participaram neste hiato de sete longos anos.

- Bruno Vitorino:

Após uma espera de sete anos, alardeado por toda imprensa nacional, e posto no altar das mais sacras relíquias pelos jornais deste vilarejo chamado Recife; eis que me chega aos ouvidos o mais novo trabalho da Nação Zumbi. Devo confessar que partilhei com meu conterrâneo certa ansiedade por ouvir o disco que viria na sequência do ótimo Fome de Tudo, de 2007. Ainda com aquela sonoridade na cabeça – especialmente a métrica irregular, em 7/8, da música Carnaval e as explorações poéticas do paradoxo da fome na letra da canção que intitula o álbum -, imaginava que iria me deparar com um trabalho instigante ou, ao menos, musicalmente interessante. Contudo, parece que todos os percalços internos da banda, juntamente com o envolvimento de seus membros mais criativos e fundamentais em outros projetos, e, por fim, a produção musical inorgânica de Kassin, o queridinho do pop cult brasileiro, com seus efeitos, barulhinhos e ambiência “eletro-retrô”, resultaram num disco artisticamente um tanto quanto protocolar.

Entenda: isso não quer dizer que o disco é ruim. Um passo em falso é diferente de um passo atrás. Contudo, não há como negligenciar o aspecto rotineiro, com todas as conveniências de seus lugares-comuns e a pouca, ou nenhuma, propensão ao risco, que emerge desse registro. Algo que até então o grupo, de forma brilhante, conseguiu subverter ao longo de seus trabalhos em estúdio, sempre desvelando veredas estéticas ocultadas pelas banalidades mercadológica e expressiva do mainstream nacional. Porém, pela primeira vez, a Nação Zumbi soa um pouco menos como a Nação Zumbi e mais como um grupo “comum” do cenário brasileiro. Nesse sentido, a mudança na temática das letras talvez seja o caráter mais revelador: a abordagem mais política e contestadora abre espaço para sondagens emotivas (e leves, diria) sobre experiências pessoais ou dores de amor - afinal, não faz muito sentido criticar o vazio moral da sanha capitalista e estampar a marca do patrocinador do projeto na arte gráfica do disco, não é mesmo?

A Melhor Hora da Praia é, para mim, a grande pérola a fulgurar nesse trabalho. Digo isso não pela participação de Marisa Monte, que é em si irrelevante, e sim por mostrar o quão viva é a tradição justamente por sua capacidade de se desconstruir e se reinventar nas mãos daqueles que a compreendem e ousam tê-la por matéria de seu ofício. Uma ciranda com várias camadas sonoras: uma trama de cordas a prover um pano de fundo camerístico que recebe as pinceladas rítmicas da percussão de Toca Ogã, criando assim um belo painel; a sensibilidade nas harmonizações e nos timbres de Lúcio Maia; a sublimação da batida tradicional por parte de Pupilo; a linha de baixo de Dengue a dançar em torno do pulso; e até o viés mais melódico que a inflexão vocal de Jorge Du Peixe consegue ter; o conjunto desses estratos se apresenta como uma construção imagética de uma flutuante ciranda na beira da praia, convidando ouvinte a não só vivenciar essa manifestação folclórica, mas também a experimentar o embevecimento do fazer coletivo da Cultura.

No mais, sugiro um olhar de perto em Cicatriz, que traz em suas entrelinhas a superação e o aprendizado com as feridas causadas pela desavença entre os integrantes do grupo; no balanço de O Que te Faz Rir; e, do ponto de vista instrumental, em tudo o que faz Lúcio Maia.

Pondo em perspectiva a discografia dos pernambucanos, esse é certamente o seu trabalho mais inócuo. Não obstante, sem os delírios de bairrismo tão caros ao recifense, afirmo que, ainda assim, Nação Zumbi está à frente de muito do que se tem produzido no pop brasileiro. O simples fato de ser bem tocado, algo raro em nossos tempos, já o põe na vanguarda. Só isso já vale a ouvida.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Variações em 4/4: Futebol e Barbárie



Nesta edição de nossa coluna mensal, os editores comentam a mistura cada vez mais hedionda de violência urbana e o futebol no país sede da Copa do Mundo.

- Fernando Lucchesi:

Quando o tema foi proposto por um dos integrantes do blog achei altamente pertinente. A sugestão veio ainda sob o impacto da morte do torcedor nas imediações do estádio do Arruda, atingido por um vaso sanitário. Não foi a primeira vez que um vaso sanitário foi arremessado do estádio, diga-se. Será a última? Não vou aqui tecer um comentário esperançoso, pois já discuti MUITO com parentes, amigos e cheguei à temida conclusão: não há esperança no horizonte para a resolução desse problema. O maior problema, penso, é a nossa legislação. Não há nada, mas absolutamente nada, que impeça o sujeito de digladiar-se com torcedores adversários, danificar patrimônio público e particular e estar solto algumas horas depois. Pois adivinhe onde estará esse sujeito no fim de semana seguinte? Fazendo o que de novo? Pois é! Não precisei colocar resposta para ser entendido.

O argumento que mais escuto é: “mas na Inglaterra resolveram isso!”. Calma! Resolveram em parte. Não vemos aquelas cenas absurdas dignas de uma rinha humana, mas elas (as organizadas) ainda existem e são extremamente perigosas. Duvida? Assista “The Real Football Factories” e entenda o que estou falando. De toda forma, a Inglaterra amenizou o problema com um ENDURECIMENTO da legislação e reforço da força policial, inclusive com uma polícia especializada para esse tipo de situação. O aparato policial é eficiente a ponto de conseguir monitorar aqueles que não podem ir aos estádios. Em dias de jogos do time do infrator, ele deve estar ou na delegacia ou prestando serviço comunitário.

O que quero dizer, queridos leitores, é: junte um aparato policial despreparado, uma legislação permissiva e em decorrência dessa a falta de punição, autoridades que não tem conhecimento quase básico do problema (que aliás, gastam dinheiro público para fazer uma “visitinha” à Inglaterra para ver o problema e as soluções de perto, mas nada aprenderam, aparentemente) e interesses dos clubes em financiar essas “coisinhas” chamadas de organizadas e temos praticamente um coquetel molotov social/futebolístico.

Lembro que em meados dos anos 90 surgiram aqui em Recife as famigeradas “galeras”, que tinham ligações com as mesmas organizadas que aterrorizam hoje. Elas se dissolveram? Não. Passaram um tempo hibernando e agora recrudesceram de forma incontrolável. Disse recentemente num comentário de um amigo no Facebook: “Isso só irá acabar quando esses delinquentes acharem que matar, roubar, furtar e quebrar perdeu a graça, pois o Estado não sabe nem por onde começar”. INFELIZMENTE!

- Giba Carvalho:      

“Nós abandonamos o trabalho, a família, mulher, filhos. Abandonamos tudo para defender o nosso clube. O clube é a nossa vida e por ele nós estamos prontos para lutar sempre, seja para matar ou pra morrer!”

É com esta frase que vi do presidente de uma das torcidas organizadas de um dos maiores clubes do Estado de São Paulo que inicio meu texto. Você acha que ele é diferente dos elementos que chocaram o país ao arremessar duas privadas e matar um membro de uma torcida rival, infiltrado numa co-irmã de outro estado aqui em Recife? Não! Eles não são diferentes. O “hooliganismo” brasileiro, no meu ponto de vista, está muito mais ligado ao extravaso de frustrações pessoais, supostamente movimentadas por sentimentos (parte pelo clube e parte por revoltas sociais) e onde os membros sabem que as punições são mais brandas, do que a outra coisa. E o nosso futebol atual vive à mercê do humor destes elementos. O esporte em si, está em segundo plano há muito tempo. Como consequência, vemos todas estas barbáries acontecer embaixo do nosso nariz e nos sentimos cada vez mais impotentes. Não existem leis específicas para crimes praticados para estes “cidadãos” (enquanto torcedores) e que utilizam a imagem do clube para praticar todo tipo de bandidagem que se possa imaginar. Torcidas organizadas são sinônimo de tudo de pior que possamos imaginar para o sistema penal brasileiro: tráfico de drogas, assassinatos, porte ilegal de armas, vandalismo contra o patrimônio público, violência sexual (existem casos de estupros e abuso sexual nas sedes das mesmas) e etc.

Afirmo, com plena certeza, de que o que falta para a resolução deste problema, em âmbito nacional, é interesse por parte das autoridades, endurecimento das leis e, principalmente, punição severa aos Clubes. Infelizmente (e triste de quem negar) estes elementos estão totalmente mancomunados com as Diretorias dos Clubes.  Tal receio, por parte das várias Diretorias, é coisa de quem tem o rabo preso. Nada justifica acesso às dependências de qualquer clube se você não paga mensalidades. Aqui no Brasil é o que mais encontramos: invasões, agressões a atletas e até mesmo a funcionários que nada tem a ver com o futebol. Coisas do país dos absurdos!

Voltando a falar do caso ocorrido no Estádio do Arruda, tenho a certeza de que se não fosse ano de Copa do Mundo, os envolvidos ainda estariam foragidos. O futebol no Brasil ainda é visto como lazer e modo de vida, mesmo com todos estes atos insanos por parte de vários elementos que deveriam estar com estadia garantida em algum presídio do país. Não podemos continuar tapando o sol com a peneira! Mudanças urgem acontecer para que o futebol volte a ser prazer e para que nossos filhos não se tornem apenas expectadores de Náutico x Destilaria do Cabo, Sport x Paulistano e Santa Cruz x Santo Amaro. Do contrário, continuaremos afundando nesta “privadização” esportiva atual chamada futebol.

- Bruno Vitorino:

“Chamam de Pátria nossa miséria!” – Humberto Effe

Costuma-se dizer que o Brasil é o país dos absurdos. Vou um pouco mais além: o Brasil é o país da naturalização dos absurdos. É como se o ultraje fosse parte constituinte de nossa identidade cultural de tal forma que nos acostumamos à banalidade e ao diário do nefasto em nossas vidas, nutrindo no íntimo - e compartilhando com o Outro via Facebook - uma espécie de revolta letárgica ante o caos. Achamos normal, corriqueiro, os políticos corruptos, os ônibus superlotados, os assaltos à mão armada, a extorção institucionalizada em carga tributária e seu parco retorno público, os atropelamentos de ciclistas, os concidadãos ensimesmados, os infantes lavadores de vidro nos sinais... Não gostamos, mas nos resignamos à apatia política e à hipocrisia moral e nos deixamos iludir por nossa contagiante irreverência e a irrefreável capacidade de rir do que não tem graça. E assim vamos vivendo.

No entanto, o fato é que temos problemas históricos arraigados no âmago de nossa sociedade que fornecem as bases para a rotinização do absurdo. Não cabe aqui neste breve comentário elocubrar teses sociológicas sobre o Brasil, mas todos sabem que educação, distribuição de renda, moradia, saúde pública - para ficar só no básico - sempre foram um problema severo que nunca foi encarado como deveria pelas elites políticas que governaram e governam este país e discutidos/reivindicados com serenidade e contundência pela sociedade civil. Ao contrário, dentre inúmeras desdobramentos, propiciou uma série de larápios “salvadores da pátria” e um sem número de teorias rocambolescas sobre o caráter redentor da miséria que tabula o pensamento de muito intelectualóide de rede social por seu suposto caráter anti-burguês. O resultado disso é uma gangrena social que se espalha pela tessitura de nossa sociedade. O futebol, infelizmente, não fica de fora dessa dinâmica do abjeto.

Para o torcedor comum, aquele que ama o futebol enquanto espetáculo, ir a campo hoje é primeiramente enfrentar uma via crucis: chegar ao estádio umas três horas antes do jogo; desdobrar-se para comprar o ingresso (se for resgatar a entrada pelo “Todos com a Nota” então...), aguardar em pé a abertura dos portões; adentrar aos empurrões num estádio desconfortável para assistir a um jogo sofrível; depois da partida, ficar literalmente preso sob o olhar intimidante do batalhão de choque da polícia que vê em todos potenciais delinquentes; e, finalmente, sair às pressas para fugir da barbárie e do terror promovidos pelas torcidas organizadas em brigas e em costumeiros arrastões pós-jogo. A cidade se converte em praça de guerra num cenário digno dos mais profundos círculos do Inferno de Dante. Passei por tudo isso quando fui ver a primeira partida da final do pernambucano entre Sport e Náutico. Fazia tempo que não ia à Ilha do Retiro e estava com saudades de casa e de ver meu time jogar. Mas, minha euforia e paixão logo se convertem em frustação e tristeza. E tenho certeza que muitos compartilham comigo esses sentimentos.

Penso que, com o esvaziamento dos estádios do torcedor - o autêntico a que me refiro acima - das famílias, dos amigos, e de todos aqueles que veem o futebol como um esporte nobre, um instrumento agregador da comunidade e um mitigador das diferenças sociais, já que somos todos um só nas arquibancadas, abre-se espaço para a invasão do banditismo que corrói nossa sociedade. Coloque-se na equação a ausência de um Estado que efetivamente garanta a segurança de sua população e a real inclusão social, a ineficácia do códice jurídico para tratar dessas questões, a relação promíscua que os clubes (e alguns jogadores) mantém com as organizadas e chegaremos à tragédia que aconteceu no Arruda. E que, vale ressaltar, poderia ter ocorrido em qualquer um dos estádios dos grandes times do Recife. Esse episódio grotesco e vergonhoso, que alcançou contornos globais, afinal, somos, querendo ou não, o país sede da Copa do Mundo, grita que estamos longe do que se conhece por Civilização. Vivemos numa casa de espelhos onde a realidade social é escamoteada em discursos, abobrinhas, falácias, delírios e incompetência. E não tenho esperança de que superaremos isso.

Olhando meu filho, constato que nunca poderei levá-lo para assistir a um jogo. Quem em sã consciência não se sente arriscando a vida ao ir a campo? Eu me sinto e muito! Ainda mais quando penso em meu rebento. Por isso, receio que o amor que ele certamente desenvolverá pelo seu time terá de ser platônico, alimentado na frieza da televisão e no distanciamento do sofá de casa.

- André Maranhão:


Eu não vejo um problema isolado que explique a situação calamitosa do futebol num país como o Brasil. Em minha opinião, é preciso identificar quais gatilhos disparam em conjunto[1], tornando aquele esporte um caso emblemático de problemas sociais. Muitos de nós nos deparamos com várias notícias envolvendo violência, corrupção, impunidade, desigualdade econômica e regional entre os clubes brasileiros, como também entre os seus torcedores. Creio que uma copa do mundo como a de 2014, a ser realizada no Brasil, não trará mudanças consideráveis no painel do nosso futebol. No máximo teremos estádios novos / reformados e uns elefantes brancos fincados em rodovias escuras e precárias, cuja solução em prol de uma mobilidade urbana mais eficaz parece ainda bem remota.

Além da barbárie recaída sobre a violência, identifico a barbárie por parte de várias autoridades irresponsáveis para com os cofres públicos. Sobre a primeira, um dos alvos mais fáceis de retaliar é as torcidas organizadas. O Estado apenas simula uma prestação de contas e tenta acalmar um clamor da opinião pública e do senso comum, quando bane temporariamente as torcidas organizadas. Para mim, isso é um grande erro. Responsabilizar todos os torcedores das organizadas pela violência do futebol é apenas expiar o bode. É preciso identificar quais dos seus membros agem violentamente, seja nos estádios, nos bairros e estações em vez de proibir toda uma torcida de entrar nos estádios. Qualquer multidão é muito mais que uma mera soma de indivíduos. A soma das partes é diferente do todo; já o diziam Aristóteles e Émile Durkheim. Para mim, boa parte dos episódios violentos ocorre em situações de multidão e invisibilidade – ainda mais incitada pela ausência de câmeras, de uma polícia devidamente especializada para clássicos futebolísticos e pela falta de monitoramento e identificação da delinquência através de câmeras. Ora, uma receita como essa culminaria, mais cedo ou mais tarde, numa bomba chiando; num coquetel molotov social.

Sobre a barbárie com os cofres públicos, trarei dois exemplos. O primeiro é do clube Mainz 05, atualmente na Fussball-Bundesliga – a Série A do campeonato alemão. Em 2011, o time recebeu um novo local para sediar seus jogos: a Coface Arena. Com capacidade para 34 mil torcedores (sendo 19 mil sentados e quase 14 mil em pé) o estádio também conta com lugares para portadores de acessibilidade e Imprensa. A obra foi construída com 65% de estrutura pré-moldada – o que contribuiu na agilidade e custeio de sua construção. O resultado foi de R$ 135 milhões, bancados majoritariamente por verba privada, incluindo não só a arena, mas o seu entorno no orçamento. Em contrapartida, você sabe quanto custou a reforma do Maracanã em 2013? R$ 1,192 bilhões de muita verba pública! É isso mesmo; apenas para reformar o Maracanã...

Por fim, façamos um balanço com o segundo exemplo: qual foi a sede da última Copa do Mundo? África do Sul. A edição do mundial deste ano será no Brasil, e o torneio em 2018 será na Rússia e Catar, que dividirão a condição de sede. No final de 2013, a organização Transparência Mundial divulgou um ranking de corrupção internacional. Um dos pontos principais baseados na pesquisa foi o gasto com o dinheiro público. Quão mais próximo do escore 100, menos corrupto seria considerado um país. No topo da pesquisa ficaram Dinamarca e Nova Zelândia, empatadas com 91 pontos. O Brasil ficou empatado com a África do Sul na posição 72 com 42 pontos. Embora o Catar ficasse em 28º (à frente de países como Portugal, Espanha e Israel) vale salientar a que a grande mãe Rússia (responsável em Sochi 2013 pelos Jogos Olímpicos mais caros da história, incluindo os de verão e os de inverno) ficou em 128º. Talvez a FIFA, uma entidade constantemente denunciada por práticas tão corruptas queira justamente isso: outro país corrupto para colaborar nos seus esquemas de procedência duvidosa. Alguém disse por aí que o Japão se reconstruiria do tsunami sofrido em 2011 antes do Brasil terminar seus estádios da Copa de 2014. Não há nenhum absurdo em acreditar nisso!




[1] Faço aqui uma alusão a Jon Elster com o termo trigger.

domingo, 9 de março de 2014

Variações em 5/4 - Random Access Memories



Nesta segunda edição do ano na coluna “Variações em 5/4”, os nossos editores comentam um dos trabalhos mais premiados de 2013: “Random Access Memories” da dupla Daft Punk.

- Fernando Lucchesi:

Não conheço praticamente nada do Daft Punk.  Acho que excluindo “One More Time” não conheço mais nada deles. Dito isso, como o tema deste “Variações em 5/4” era o Daft Punk e o enorme sucesso que eles obtiveram na última edição do Grammy Awards decidi falar especificamente sobre o disco “Random Acess Memories”, álbum que está na lista de melhores do ano passado em praticamente todos os meios de comunicação.

Reconheço de início que é um disco excelente, muito acima da média do que é produzido hoje. No entanto, é um disco que pode enganar quem procura 13 músicas do calibre pop de “Get Lucky” (indiscutivelmente um dos maiores sucessos radiofônicos de 2013). O disco oscila muito entre um revisionismo da chamada disco music e um som eletrônico mais contemporâneo. E é nesse som eletrônico contemporâneo onde reside o maior problema do disco.
 
O ponto alto do disco são justamente as músicas que buscam resgatar a disco music dos anos 70.  Muito espertamente, os dois músicos franceses chamaram um dos precursores daquela guitarra suingada característica da disco, Nile Rodgers (ex-integrante do Chic). Não à toa, as faixas mais dançantes do disco contém a guitarra de Rodgers: “Give Life Back to Music”,”Lose Yourself to Dance”  e a contagiante “Get Lucky”. O resto do disco é bastante irregular. Traz uma justíssima homenagem a um dos artífices da música eletrônica, Giorgio Moroder (Giorgio by Moroder), a alucinante “Contact”, mas também tem coisas enfadonhas como “The Game of Love”, “Touch” e “Within”. Mas mesmo essas músicas mais lentas (feitas sobre encomenda pra o momento “chill out” da balada) não comprometem o resultado final desse disco, que merecidamente ganhou uma penca de Grammys. Já quanto à representatividade do prêmio Grammy para a música é outra história...

- Giba Carvalho:      

Random Access Memories trouxe de volta o romantismo à música eletrônica e me devolveu o prazer de ouvir um disco do gênero novamente. Thomas Bangalter e Guy Manoel de Homem-Cristo, inegavelmente, tiveram muito cuidado na produção deste álbum tornando-o um disco de fácil audição. Mesmo para aqueles, que assim como eu, repudiam tudo que foi produzido na música eletrônica de 15 anos para cá. O disco nada mais é do que um exercício de repetição do que já foi feito na época em que a música eletrônica era diferenciada dos “bate-estaca” e “ruídos” insuportáveis do que se toca nas raves. “Não é o puritanismo autêntico, é a forma autêntica de como se trabalhar a repetição”.

Tenho que destacar a guitarra funky de Nile Rodgers, que soma sobremaneira à concepção geral do trabalho e várias outras participações especiais – Julian Casablancas, na excelente “Instant Crush” e, principalmente, de Pharrel Williams nas pegajosas “Lose Yourself to Dance” (o preparo do estilingue) e “Get Lucky” (a pedrada do disco). “Giorgio by Moroder” é uma faixa muito interessante, porque inicia com um depoimento de um dos papas da música eletrônica e termina “grooviada” com o melhor das discotecas dos anos 80. Estas são o destaque do disco para mim. E, não pense você, que um trabalho bom não tem coisas desprezíveis. Em alguns pontos, a dupla parece perder a inspiração e o álbum cai muito de qualidade. “Touch”, “The Game of Love” e “Within” são dispensáveis. Outra coisa que percebo claramente é a duração do álbum (74 minutos). A meu ver muito longo e em alguns pontos, até cansativo.

Embora com estas ressalvas supracitadas, reconheço que o trabalho da dupla francesa é um belo trabalho POP e merece destaque!

- André Maranhão:

Quando lidamos com uma música marcada pela grande quantidade de efeitos eletrônicos, entramos num contexto onde o engenheiro de som e o DJ passam a ter a mesma ou até mais celebração do que os músicos. Isso é algo relativamente esperado, se levarmos em conta que no campo da arte, os indivíduos redefinem suas práticas por meio das convenções e dos recursos que cada estilo, gênero e expressão artística demandam. Neste sentido, o Acid Jazz, a Drumin’n’Bossa, o Brazilectro e o Tecno, presentes nos trabalhos de Jamiroquai, Kyoto Jazz Massive, Fernanda Porto & DJ Patife, Bossacucanova e Zuco 103 se fazem de grande valia.

O Daft Punk também parece reivindicar a importância de uma musica fortemente influenciada pelos recursos eletrônicos. A dupla francesa já foi capaz de nos brindar com Robot Rock, Harder, Better, Faster, Stronger e One More Time (grande hit do inicio da década de 2000) e agora parece ampliar sua lista de êxitos com RANDOM ACCESS MEMORIES, seu mais novo álbum. É interessante como este trabalho reúne tantas influencias que resultam em faixas soft, suavizadas pela mescla de sweeps de guitarras, breves presenças de overdrives, curtas citações de orquestras, camas harmônicas de teclados, solos de piano rhodes, falas ordinárias transformadas em vozes cantadas pelo sintetizador, linhas de baixo próximas do Funk e batidas mais próximas do Lounge – num som que pode nos remeter a ambientes como desfiles de moda, lojas de departamento e vernissages. De fato, Get Lucky – a faixa mais celebrada pelo mercado da música e pelo Grammy – foi a que mais me agradou no álbum do Daft Punk, mas Give Life Back to Music; The Game of Love; Beyond; Motherboard; Fragments of Time e Doin' It Right também têm qualidade. Apenas Touch me soou exaustiva e eu consideraria as demais faixas medianas.

Possivelmente, alguns críticos mais reativos a esse tipo de música, podem acusá-la de anti-arte, ou afirmarem que o Daft Punk é apenas entusiasta de todo o Show Bussiness e do capitalismo na arte. No entanto, essas condenações não invalidam seus méritos estéticos, pois qual o grande trunfo desse disco? Na minha opinião, o de mostrar que nem sempre o repetitivo é sinônimo de má qualidade!

- Bruno Vitorino:

Concordo com Keith Jarrett. “A arte está morrendo neste mundo, assim como o ouvir música, à medida que o mundo fica cada vez mais cheio de brinquedos e efeitos especiais. Com esta morte, virá a ruína das muitas possibilidades emotivas: beleza, ternura, profundidade, confiança, honestidade, tristeza; cheias de significado interno e cor”. Como os dois ou três loucos que acompanham meus textos devem ter percebido, sou um anacrônico. E com muito orgulho, diga-se! De modo obsoleto, ainda espero encontrar na música (e nas artes em geral) aquele instante transcendental em que tudo parece fazer sentido e que, de alguma forma desconhecida à racionalidade, conecta-me à completude e ao éter. Eu vivo dessa e para essa busca infindável que se torna cada vez mais difícil de alcançar, pois, como é sabido, tanto o conceito de Arte quanto seu propósito mudaram na nossa Civilização do Espetáculo. Essa discussão, inclusive, rendeu um debate interno extremamente saudável (quase um suco de laranja com clorofila) entre mim e André Maranhão que espero ver um dia publicado neste blog.

Dito isto, o desavisado leitor que passa os olhos por estas linhas deve imaginar o frio na espinha que senti quando Giba Carvalho propôs que comentássemos um dos trabalhos mais “hypados” pela Grande Mídia especializada em 2013: Random Access Memories do duo Daft Punk. De cara, digo que não sou conhecedor da banda. O pouco que tinha escutado, num passado longínquo, soou-me desagradável e o punk estampado no nome da dupla, que na minha adolescência atraiu minha atenção para eles, apenas me deixou ainda mais emputecido com a música que faziam. A única coisa que esses cabras fizeram que realmente atiçou minha curiosidade foi uma série de clipes transpassados por uma história que começava com “One More Time”. Aquele lance futurista, mangá, sci-fi, realmente fez minha cabeça. Da música, só gostava do que parecia ser um solo de guitarra bem pirotécnico - em “Aerodynamic” - que se valia de uma técnica muito utilizada por metaleiros: a digitação. O fato é até hoje não sei o que aconteceu com a galeguinha que é sequestrada por um bando de soldados mascarados no começo da saga. Era o ano de 2001. Eu tinha 18 anos, só andava de preto, bebia vinho, ouvia Sepultura, Krisiun, Slipknot, e ainda tinha minha banda punk: Nômades. Uns poucos meses à frente, como um desígnio da Fortuna, eu compraria o álbum “’Round About Midnight” de Miles Davis e teria a grande revelação da minha vida. Mas, isso é assunto para outro texto.

Hoje, do alto de minha senilidade precoce (tenho quase 31 anos), ouvir esse trabalho é tarefa hercúlea. Primeiro, por ser um disco longo. São exatos 74 minutos de pura música inorgânica e vozes sintetizadas, numa odisseia artificial por um cenário de isopor colorido, raios lasers, gelo seco e alucinações bioquímicas que parecem não ter fim. Isso inevitavelmente me levou ao tédio, à beira do desespero, onde cada segundo durava um século e cada compasso era uma masmorra asfixiante. Um exemplo disso são as músicas “Touch”, “Within”, “Beyond” e “Motherboard”. Um convite ao suicídio. Segundo, porque ele esteticamente apresenta os conhecidos lugares comuns de outrora: uma requentada atmosfera da disco music que embalou a juventude de meus pais (que, por sinal, é quando a música soa mais audível); um maroto lounge music que remete ao relaxante momento pós-coito em banheira de motel; um certo aspecto frívolo que só é encontrado nas danceterias. Terceiro, por seu conceito artístico em si. O título do álbum, em português “Memória de Acesso Aleatório”, faz clara menção à memória RAM que nada mais do que a memória volátil dos computadores, ou seja, depois que a máquina é desligada, as informações que ela processava são perdidas, dada sua natureza efêmera, transitória, precária, instantânea, superficial, passageira, inapreensível... Bem, você entendeu. E eu não posso levar a sério uma música que não repercute no âmago de quem ouve, apenas, em seus pés. Mas, há uma exceção: “Get Lucky”. Quando dei por mim, lá estava eu balançando os ombros como um autêntico metrossexual na pista de dança da Pink Elephant que, entre um gole e outro de Smirnoff Ice, lança olhares de esguelha para a gatinha com salto agulha e vestido de lantejoulas que não tira o olho do WhatsApp, torcendo para que a figura notasse que eu trajava roupas de marca. Um conjunto da Tommy Hilfiger que uma prima sacoleira me trouxe de Miami. Que música contagiante! Tão contagiante que meu alter ego, DJ Bilola, já a incorporou em seu saco escrotal (é assim que ele chama seu setlist) para despejá-la no clímax de sua próxima festinha luxuriante. Sucesso garantido!

É inegável que com “Random Access Memories” o Daft Punk vende um bom produto. Não à toa, ganhou uma caralhada de Grammys, o grande termômetro da indústria do entretenimento, com o disco em pauta. Mas, se o duo francês representa significativas conquistas estéticas para a Arte com sua música “de mentira”, então a McDonald’s também pode se orgulhar de sua contribuição para a gastronomia com os hambúrgueres “orgânicos” que comercializa. Só que não.

Gosto muito de música eletrônica. Sou fascinado pelas composições de Cage, Stockhausen, Ligeti, Berio, Nono, Boulez, mas também curto bastante outros sons eletrônicos, como o cyber punk do Atari Teenage Riot. Já ouviste?! Não?! Então escuta o insano “Delete Yourself!”. Pelo menos aqui, meu caro, encontrarás um pouco da honestidade e da urgência que o Daft Punk jamais terá.

- Dom Angelo:

A grosso modo, classifico a prática musical em três objetivos distintos: música sentimentalista, onde o propósito é despertar sensações como tristeza, alegria, fúria, revolta, paixão, etc. Música de apreciação estética, onde a arte de combinar notas, ruídos e silêncio geram um desafio analítico para nosso cérebro, impulsionando consequentemente a busca pelo conhecimento e a sensação do desenvolvimento cognitivo e, finalmente, música para dançar, no qual a linearidade rítmica induz nossos corpos a acompanhar certas marcações de tempo.

Enquadrados neste terceiro ponto, encontramos os “Punk Pateta” ou Daft Punk. Para mim fica nítido que seus integrantes (o luso-francês Guy-Manuel de Homem-Cristo e o francês Thomas Bangalter) são oriundos do universo rock, principalmente pela simplicidade harmônica e melódica de suas composições. Sem falar do ritmo, um synthpop 4/4 marcando a acentuação no segundo e quarto tempo do compasso.

Se os compositores do período Clássico (mais ou menos 1730 até 1820) declaravam haver um formato musical para algumas de suas obras (Forma Sonata), penso que deveria existir uma declaração dos praticantes da música Pop afirmando que existe uma fórmula para o “Hit”. Poderia ser algo como Forma Canção (Verso-Refrão-Verso-Refrão2X) ou, como no caso dos Daft Punk, Forma Beat Modal Dórico (sequência ii-IV-vi-V ou i-III-v-IV no modo dórico). Pode-se dizer que artistas como Michael Jackson, Prince e Black Eyed Peas fizeram uso demasiado deste padrão musical. Utilizando as mesmas vias, os Daft Punk ganham o Grammy de melhor disco do ano fazendo uso abusivo desta prática.


Ok. Também não vou deixar aqui só críticas. Até porque curti e dancei o verão europeu de 2013 ao som de “Get Lucky” nos cinco países que visitei em Agosto. Um fenômeno cultural. A música foi feita para tal finalidade e cumpriu seu objetivo. Tem mérito. Antes este tipo de mainstream na música internacional do que coisas tenebrosas que já assombraram o planeta terra outrora. Mas quer saber de uma coisa, meu amigo? Vá ouvir os Air, os New Order, os Kraftwerk, Morcheeba, Radiohead, Massive Attack, Jamiroquai, Beck e Bjork, se é música eletrônica pop o que você procura.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Variações em 5/4 - NEW


A coluna “Variações em 5/4” está de volta e para esta primeira edição do ano, os nossos editores comentam “New”, o mais novo disco de Paul McCartney.

- Fernando Lucchesi:

Depois de um disco de standards do Jazz que marcaram sua vida, Paul McCartney resolveu que agora seria vez de algo mais contemporâneo e escalou para produzir o seu novo álbum, “New”, diversos produtores novos, entre eles Mark Ronson, produtor do aclamado “Back to Black”, de Amy Winehouse e Giles Martin, filho do produtor de 90% da discografia dos Beatles, George Martin. Esse amálgama de influências resultou em um disco com faixas bastante diferentes entre si, unidas unicamente pela habilidade de McCartney em conceber músicas melodiosas e baladas no violão. “Save Us”, faixa de abertura, poderia estar tranquilamente em um disco dos Strokes, tamanha a semelhança. “New”, faixa-título do álbum, traz reminiscências de “Got to Get to Into My Life”, mas ao invés dos potentes arranjos de metais, entram sintetizadores e guitarras ao lado de uma melodia daquelas que você pode passar o dia assobiando. “On May Way to Work”, “Early Days” e “ Hosanna” resgatam o Paul de baladas das épocas de Beatles e Wings. Apesar da diversidade de produtores a temática das letras é a mesma de sempre: amores novos ou passados, estes recheados de nostalgia. Não tenhamos ilusões: Paul McCartney não produzirá sua obra-prima agora, mas obteve um ótimo resultado ao fincar um pé no passado e outro, no presente.

- Giba Carvalho:
     
A moda está fora de moda.

É citando uma das frases do excelente disco do Ronnie Von (1968), que inicio minhas palavras sobre “New”, novo álbum de inéditas de Paul McCartney. Confesso não procurar opiniões alheias para basear meus textos, no entanto, a minha sensação ao escutar o disco pela primeira vez, foi de tanta incredulidade, que fui ver o que haviam escrito. Não demorou muito e encontrei o de sempre. Tentativas viajadas e comparações aos trabalhos que Paul McCartney fez nos Beatles. Afirmo – o disco não tem nada de Beatles, além do próprio Paul. Tá, tudo bem! O cara é uma sumidade do mundo musical e qualquer produtor gostaria de produzir um disco do ex-Beatle, mas, quatro produtores é demais! Participaram do disco – Mark Ronson (produtor do excelente “Back to Black” – Amy Winehouse), Paul Epworth (nome de muito destaque na atual cena inglesa. Produtor do Bloc Party e da fantasiosa crepuscular, Florence and The Machine. Tem como trabalho mais elogiado o álbum – “21” de Adele), Ethan Johns (produtor da banda que nunca decola – Kings of Leon e de Joe Cocker) e, finalmente, por Giles Martin (filho do lendário George Martin).

Não sei ao certo a real intenção do velho McCartney ao trazer tantas mentes diferentes para a produção do seu novo álbum. Podemos questionar que foi uma jogada para chocar o ramo com tamanha miscelânea? Podemos!  E foi justamente este mistério, que ainda fez com que ouvisse o trabalho novamente. McCartney, como em diversas outras vezes, fugiu do “feijão e arroz” habitual e se aventurou por novas terras. Para um cara como ele e com a identidade musical criada com os Beatles é meio que um tiro no pé. Não sou fã dos trabalhos pós-Beatles. Gosto apenas de dois discos e uma ou outra música pontual. E, é com a maior tranquilidade possível, que afirmo que “New”, parece mais uma “forçada de barra” do que um disco com tantas novidades assim. Das 12 músicas do álbum, apenas três chamaram a minha atenção. “Save Us”, que abre o disco e é uma boa música pop (embora não goste da semelhança com o Strokes), “On My Way To Work” por ter algo melodicamente interessante e a bela “Early Days”. Também é totalmente perceptível, que o álbum soa diferente de todos os trabalhos anteriores de Paul McCartney. Por este lado, enxergo mérito pela tentativa e, por outro lado, o conformismo habitual que vive a música mundial, notadamente o rock n´roll (com bandas altamente repetitivas). O “disco de retalhos” montado por ele é um trabalho que vaga numa linha bastante mediana e que não desperta a atenção do ouvinte, principalmente, por não possuir identidade.

- Dom Ângelo:

De uma coisa não podemos discordar: Paul McCartney tem uma absurda facilidade em criar melodias que se enquadram dentro do sistema musical temperado. Foi assim na sua carreira com os Beatles, onde foi dono de algumas das mais belas melodias da música do século XX e continuará, acredito eu, enquanto o próprio estiver vivo, com essa proeza genial.

Porém, sinto que a existência daquele fator cósmico, transcendental e imaterial que habita as grandes obras de arte, não existe mais na expressão musical do Paul. Aquela “coisinha” que faz você se arrepiar, no qual os indianos chamam de “sopro divino”, nele, não existe mais. Pelo menos não lhe manifestou em toda a sua carreira solo, muito menos no seu novo álbum, o “New”.

Mas uma coisa é certa: aquela bela habilidade em combinar notas com notas, façanhas da música europeia, sempre caminhará de mãos dadas com esse gênio maior da música pop. É de seu ofício. É de seu propósito. É do seu Dharma. Nisso, o velho Paul é bom e continua colocando todo mundo pra “balançar” com suas novas composições.

- Bruno Vitorino:

Parece-me que uma das funções mais nobres da figura do veterano é estabelecimento de laços com a juventude. Se por um lado a experiência oriunda de seus anos de prática, reflexões e descobertas provoca o tino dos que começam, por outro suas ideias costumam ser estimuladas pelo ímpeto desbravador que emana dos mais jovens. E se esse veterano for um mestre, a História nos diz que esses encontros deixam, não raramente, marcas profundas. Foi assim quando o renomado Handel acolheu, ainda que brevemente, o impetuoso Mozart. Foi assim quando o metódico Rimsky-Korsakov tutorou o inquieto Stravinsky. Foi assim quando Radamés Gnattali abrigou o inseguro Tom Jobim. A Música mudou. Apontou novos caminhos, desnudou paisagens não vistas, abriu horizontes incertos.

Paul McCartney certamente figura no panteão dos grandes. Não há muito que se discutir a respeito. Com sua produção, mais especificamente à época dos Beatles, ele foi um dos responsáveis por definir o que conhecemos hoje por música pop em todos os aspectos. Justamente por isso, todo e qualquer projeto em que se envolva gere expectativa e euforia, ainda mais, quando ele é anunciado na Grande Mídia como uma fuga da zona de conforto do sucesso e uma busca pelo inédito numa odisseia musical compartilhada com novos nomes. Assim me chegou “New”, o último trabalho de Paul. No entanto, o que se propunha ser um interessante diálogo entre a serenidade clarividente da experiência com o frescor audacioso da mocidade na busca incansável pelo novo, revela-se um constrangedor exercício da Síndrome de Peter Pan. É como se McCartney, depois de uma overdose de Arcade Fire, MGMT, Florence & The Machine e todo esse lixo descerebrado e inútil, virasse um rapaz de 25 anos de nossos dias: iPod em modo random, redes sociais a todo vapor, sobreposições de estímulos, pluralidade sem objetivo, tudo e nada, aqui e lugar nenhum. E toda essa confusão do que ser e de como ser se reflete na música apresentada no álbum: uma colagem pop desordenada, um pastiche gagá de uma juventude automatizada.

O que aproveitar, então, desse disco? Os sublimes momentos de silêncio entre uma faixa e outra.

- André Maranhão:

Apesar do nome, não vi muita coisa nova em New, exceto algumas tentativas de Paul McCartney em usar programações e samplers mais do que enfatizar o piano – coisa que ficou parecida com a fase do final dos anos noventa do U2 (em “All That You Can’t Leave Behind”), a qual não me agrada muito. “Appreciate” e “Looking at Her” são alguns exemplos disso.  Em alguns momentos, o álbum pode parecer longo de ouvir, principalmente nas faixas “Queenie Eye” e “New”. “Turned Ou” e “Everybody Out There”, não considerei muito inovadoras. “Get me Out of Here”, parecendo um summer rock, não chamou minha atenção. O meu destaque vai para a bela canção “Scared” (escondida no final do álbum) com Paul só ao piano; além de “Early Days” (balada de violão aberto, bem casada com a voz, parecendo Damien Rice), além de “Save Us” e “Road”, que me lembrou a dupla francesa Air, em “Playground Love”. Num segundo pelotão, coloco “Alligator”, “On My Way To Work” (com seus leves indianismos nos solos) e “Hosanna”.

domingo, 3 de novembro de 2013

O Resto é Mise-en-scéne! - por Giba Carvalho

    


A música brasileira vem apresentando um fenômeno diferenciado nos últimos tempos: a capacidade de autocopiar-se. No início do ano passado, fiquei atônito ao saber que os "cultuados" rapazes do Mombojó iriam lançar um disco com releituras dos "maiores sucessos" da "grandiosa" carreira de três discos. Isto já me deixou com a famosa pulga atrás da orelha. O primeiro disco da banda, intitulado "Nadadenovo", é audível e proporcionou aos rapazes o perigoso (e agora comum) status de "inovadores da cena musical". Depois deste disco, eu questiono aos leitores deste blog - "O que virou o Mombojó?" Na minha opinião, um emaranhado de agonia ao tentar mostrar algo diferenciado, que sacramentou toda banalidade dos trabalhos pós-primeiro álbum, com este compilado de aniversário. Aquela velha história - "já que não temos Nadedenovo, vamos enganar os trouxas com Tudodovelho".

Passado algum tempo, eis que surge em 2013 "Mundo Livre S/A vs Nação Zumbi". Um duelo entre as duas bandas que foram pedra fundamental para o Movimento Mangue Beat. Esta é uma idéia utilizada nos EUA, no fim dos anos 90, por bandas de punk e hardcore. Como costumo ouvir bastante bandas do estilo, ressalto a famosa "BYO SPLIT SERIES", iniciada em 99 e dividida em 5 volumes. O formato era um disco de vinil, onde cada banda tocava 6 músicas da outra em cada lado (Álbum Split). Para aqueles que pensam que os caranguejos pernambucanos inovaram com este duelo enlameado de sucessos do passado, afirmo que já no ano passado foi lançado outro álbum intitulado "O embate do século - Ultraje a Rigor vs Raimundos". Confesso que gosto da idéia destes "álbuns split", desde que os mesmos sejam meio e não apenas mais uma tentativa de manter-se vivo no mercado. A Nação Zumbi, como única banda de primeira grandeza de Pernambuco desde que o  Movimento Mangue-Beat foi criado, não precisa disso. Ao procurar algo para ler sobre este trabalho encontro o seguinte - "O encontro no disco 'Mundo Livre S/A vs Nação Zumbi', em que um toca as músicas do outro, é mais do que uma celebração do movimento e das suas canções. É um exercício dos mais interessantes, feito por duas bandas bem diferentes, no topo de sua forma artística."

É este tipo de conveniência que não aceito. Afirmar que ambas estão no "topo da forma artística" é uma piada de pura "brodagem". A Nação Zumbi, mesmo conseguindo manter-se no primeiro escalão, jamais conseguirá chegar perto da grandeza do que foi com Chico Science. Até porque, desde o excelente álbum de 2002, alterna trabalhos irregulares e um monte de lançamentos no formato "ao vivo". Promessa de disco novo na praça em 2014, após 6 anos de ausência. Já o Mundo Livre S/A é um caso à parte. A banda vive completamente de passado e da postura "comuna-intelectual" do "ilustre caranguejo" Fred 04. (Apesar de ter lançado trabalho próprio há menos tempo que a Nação Zumbi.)

Para completar o time, eis que me deparo com a seguinte manchete nesta semana - "Mallu Magalhães é encantadora - diz jornal The New York Times". Fiquei curioso e fui ler as reportagens por inteiro. Concordo que uma crítica no jornal americano deixaria qualquer jovem com muito orgulho de seu trabalho. No entanto, percebi claramente que não passa de mais uma jogada de produtores. Estes lançaram um álbum por lá intitulado "Highly Sensitive". O álbum nada mais é do que outro compilado das músicas dos três primeiros discos da garota cantadas em inglês. Ouvi o último álbum da moça diversas vezes. "Pitanga" (2011) é um álbum muito bem produzido e extremamente bem gravado. Kassin e Marcelo Camelo acertam em cheio nos arranjos que a garota precisa para desfilar toda a infantilidade (ainda?) e sua voz extremamente semitonada. Por falar nisso, a matéria acerta em cheio quando afirma que a mocinha não se preocupa com "o tom" e erra terrivelmente quando vê isto como algo positivo. Afirmo isto, porque com os aparatos que existem hoje em dia nos estúdios, qualquer "Mané" canta e qualquer "Maria" vira fenômeno. Agora, na hora da febre do ao vivo, é que podemos perceber do que de fato um artista é capaz. Voltando a pauta principal do texto, percebemos que estas jogadas estão se tornando cada vez mais usuais dentro do mercado. Neste caso em específico, porque Mallu Magalhães tem 21 anos, três álbuns e a vida toda pela frente. Inclusive, para aprender a cantar. 

O que nós fazemos? Apostamos em talentos não tão talentosos? Perpetuamos semi-Deuses criados por nós mesmos? Regredimos a arroubos juvenis para achar qualidade e graça na música?

As respostas para estas peguntas não são nada fáceis. Ache as respostas dentro dos ouvidos, de preferência, dando a verdadeira relevância ao que merece ser ouvido. O resto é mise-en-scéne!

Versão do disco - Pitanga (2011):



Versão ao vivo no Rock in Rio (2013):