quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O brilho de um garoto - por Gilberto da Costa Carvalho

     Há muito tempo Fernando Lucchesi insistia: "Tu tens que ouvir um cantor chamado Paolo Nutini". Eu, com minha tradicional relutância em aceitar estas novidades sonoras, sempre deixava o descaso tomar conta desta afirmativa.
     O dia era 10 de Julho de 2012, meu aniversário. Estávamos perambulando pelo coração da Boa Vista atrás de um depósito aberto para comprar as grades de cerveja da festa. De repente, num CD de vários MP3, eis que surge o tal garoto escocês. Fernando olhou para mim e disse: "Bicho, agora não tem como você não escutar."  De repente, após os primeiros acordes de "No other way", a paralisia. Quando algo me surpreende de forma avassaladora em termos musicais, eu costumo fixar o olhar em algum local, fico espontanemante parado para que possa perceber cada detalhe daquilo que bateu de frente. Ao término, viro para Fernando e digo - "Porra véio! Repete isso aí!"    
     Paolo Nutini é um garoto escocês, que surgiu no ramo musical em 2006 com apenas 19 anos de idade. "These streets" seu primeiro trabalho é recheado de música pop de excelente qualidade. Já nesta época ele se destacava por um fator preponderante, que não eram a carinha de galã descolado e descabelado. O timbre vocal do garoto o fazia tornar-se bastante diferente na safra de novos cantores britânicos. Nutini sôa bem mais velho do que parece. E isto impressiona sobremaneira! O primeiro disco virou logo sucesso e vendeu milhares de cópias. Os 3 singles do disco - Last Request, Rewind e New shoes foram insistentemente vinculados as rádios do Reino Unido.
     Como qualquer "novo sucesso" da mídia, todos esperavam um segundo disco de imediato. Nutini remou contra a corrente, e só 3 anos após o lançamento do primeiro album surge - "Sunny Side Up (2009)". Este trabalho marca a primeira revolução musical do garoto. A ambição de ser pessoal rege todo o disco. Saindo de um universo totalmente pop, o novo trabalho é tomado pelo "Folk Rock", e flertes com "Soul" e a tradicional "R&B". Risco? Que nada! O album estourou em primeiro lugar no Reino Unido recebendo inúmeros elogios dos críticos e fãs. Para mim, a voz sofreu alguns novos contornos que se tornaram essenciais para este sucesso. Mais amadurecido, Nutini conquista a cada dia mais fãs por onde passa, principalmente pela ousadia em inovar.
     De cara, o primeiro single do novo disco cai nas graças do público. "Candy" é uma baladinha com ritmo de verão europeu. Despojado como sempre, Nutini encanta com seu jeitão descompromissado de cantar as partes "pops", mas que termina a música com um show de potência vocal.
     Para falar de "No other way", preferi um parágrafo especial e único. Desde a primeira audição, dentro do carro, eu não consigo parar de ouvir esta canção. Há muito tempo não ouvia algo tão bem interpretado por um cantor da nova geração. É um verdadeiro soul! Com alma ,cara e jeito sessentista. Acompanhado de uma letra brilhante e de entrega, Nutini explora todo seu talento vocal com maestria similar aos grandes nomes do estilo. A interpretação do garoto é simplesmente espetacular e de dilacerar corações!



     Certa feita, um amigo músico que hoje reside no Rio de Janeiro me perguntou: "Giba, o que as gravadoras  procuram atualmente no mundo pop?" Na época eu não soube responder, mas, nunca esqueci tal questionamento. Tem certas coisas que ficam martelando na minha cabeça e só sossego quando acho a resposta. E a resposta para o questionamento é "Ré-invenção". Ao analisarmos um artista novo como Paolo Nutini, que em tão curta carreira já mostra para que veio, sem medo de errar e de inovar, podemos enxergar claramente todo o universo que se abre para nossas vidas e, principalmente, para nossos ouvidos.

E que assim seja! Vai em frente Paolo!


Abaixo, segue uma apresentação no Paleo Festival de 2011. Vale a pena conferir!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Meu Encontro com o Bip-Bip - Por André Maranhão



Estou em Botafogo num clima de férias. Férias, aliás, devidamente boêmias. Minha tese é a de que o morador do Rio de Janeiro deveria receber um auxílio boemia. Com tantas opções, paisagens e possibilidades, a cidade pulsa vida noturna em seus botequins e o morador do Rio não pode ficar desassistido! O carioca que paga o Imposto Sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) deveria gozar de alguns descontos e benefícios nos bares, afinal, a boemia carioca é um patrimônio e deve ser exercida com afinco.

Resolvi escrever às 3h30 da matina, pois o tempo é corrido até para os farristas. Aí preciso partilhar uma série de fatos boêmios e indissociavelmente musicais que ocorreram comigo ontem em Copacabana, mas antes de entrarmos na noite carioca, voltemos para o Recife. Na Manguetown, meu amigo Giba C. Carvalho recomendou inúmeras vezes que eu lesse um livro do grande Moacyr Luz – Botequim de Bêbado Tem Dono - um compêndio de causos, biritas e afins sobre os botecos cariocas. De tanto ouvir Giba enfatizar o livro do Moa, a minha curiosidade por ele só fez aumentar em meio às nossas farras.

Não deu outra: quando a minha viagem para o Rio se aproximou, Giba me emprestou o livro do Moa, o que foi crucial para a minha estadia em terras cariocas. Comecei logo a lê-lo no avião e graças ao estilo leve e com um pequeno número de páginas, a conexão que fiz entre Recife-Campinas-Rio de Janeiro, passou rapidinho. Zerei o livro durante a própria viagem de ida. No caminho, fui debulhando a narrativa de Moacyr Luz, cujos personagens são conhecidos por muita gente, enquanto outra parte é íntima apenas para uma pequena leva de biriteiros.

Antes mesmo de eu ler ou até conhecer o livro de Moacyr Luz, Giba frisava bastante pra mim: “Bicho, se você for ao Rio não deixe de ir ao Bip-Bip”. Vejam vocês como é a vida. Após tantas recomendações, fui bater no Bip ontem!

Natália Biserra, minha amiga de infância que mora no Rio há cerca de cinco anos, sugeriu um passeio legal pra eu fazer ontem. O roteiro envolvia pontos dos mais variados. Quando pus as sugestões de Natália em prática, meu passeio ficou mais ou menos nesta sequência: Botafogo, Humaitá, Jardim Botânico, Gávea, Ipanema, Leblon, Ipanema (de novo!), Arpoador, enfim, Copacabana! Ufa! Bem, num dia daqueles que a gente acorda com sangue no olho, banquei o Fidípides de Esparta e cruzei uns 25 quilômetros a pé (fazendo um cálculo por baixo pelo Google Maps). Um soldado na Batalha de Maratona!

Após caminhar sobre uma parte considerável da Zona Sul carioca, eu já tinha em mente a decisão de voltar para Botafogo, pois estava meio fatigado do dia andarilho. Porém, eis que surge uma daquelas grandes surpresas. Voltando pela Avenida Atlântica, avistei um botequim chamado Aboim e na mesma hora lembrei que ele estava registrado numa das passagens do livro de Moacyr Luz. Pensei imediatamente: “É a minha chance. Tenho que parar aqui!”. Não deu outra. Parei!

O Aboim é de uma descontração incrível. Fui tomar a minha saideira tranquilo e comedido. Peguei uma latinha de cerveja geladíssima e logo na sequência, conheci um boêmio de carteirinha chamado Mário, um grande Botafoguense, perto dos seus sessenta anos. Mário perguntou o meu time e eu disse que torcia pro Náutico. “Ah, o Náutico quebrou a gente” – Recordou o jogo mais recente entre ambos os clubes, cuja vitória foi do Náutico por 3 a 2 nos Aflitos. Tendo em vista os novos ventos de contratações que o Botafogo recebeu, os amigos de Mário não perderam tempo e foram mais rápidos que o Adobe Flash Player: já batizaram o cara de Seedorf! Só pelo apelido dá pra imaginar a fixação dele pela Estrela Solitária.

O grande Mário foi de uma imensa gentileza comigo. De cara, me informou que embora o nome do boteco na placa tivesse escrito Aboim, ele era popularmente conhecido como Bunda-de-Fora. Depois, Mário me perguntou se eu já conhecia o Bip-Bip. Tal indagação me remeteu de bate-pronto às recomendações feitas por Giba ainda no Recife. Mário ressaltou a importância do Bip-Bip e ainda por cima se dispôs a me levar lá. Não antes de me apresentar a Paulo César Pinheiro, que tomava uma por lá. Eu meio sem jeito topei a apresentação. Paulo César tirou uma foto comigo, aliás, duas. Na primeira tentativa perguntou se a foto tinha ficado boa. Como a foto não tinha vingado bem, ele fez questão de tirar outra. Feita a sessão de fotos, me despedi de Paulo César ainda meio sem jeito, porém ao mesmo tempo fascinado por ser apresentado àquele monstro da canção brasileira; ao cara que escreveu a espinha dorsal de Leão do Norte e juntou tantos símbolos ligados a Pernambuco numa canção, sendo ele incrivelmente um carioca imortalizado por construir letras de grandes sambas.  

Saindo do Aboim, com Mário, percebi sua popularidade nos botecos da redondeza. Mário era um conselheiro tutelar da cachaça! Falou com Deus e o Mundo em Copacabana, e enquanto parava para interagir com os amigos, dizia: “Este aqui é um rapaz do Recife, que veio pesquisar sobre os botecos cariocas. Eu tô levando ele pro Bip-Bip!”. Antes do Bip, ainda paramos no Ellas, outro boteco na mesma rua. Tomei mais duas ampolas de cerva com Mário e ainda por cima sentei à mesa com seus amigos.

No Bip-Bip, Mário me apresentou ao Alfredinho, o “proprietário” do estabelecimento, uma figura antológica da boemia carioca. Quando entrei no bar percebi que se tratava de um recinto inigualável. Um dos locais mais anárquicos onde bebi, de tal modo que Alfredinho não cobra a conta a ninguém! Pelo contrário, é o bebum que vai até Alfredinho e paga a sua parte no boca-a-boca. A maior coisa que o Alfredinho preza no Bip não é a grana, é a música. E da forma que ele preza parece não ter preço mesmo! Num espaço curtíssimo, encontrei fotos de figuras como João Bosco, Aldir Blanc, Moacyr Luz, Sérgio Nogueira. Todos eles deram diversas vezes o ar da graça no Bip-Bip.

Alfredinho logo me convidou para a apresentação de Renato Braz que começaria cerca de vinte minutos. Embevecido com todo aquele ambiente, topei na hora e ainda por cima convidei minha amiga Natália pra lá. Ela assistiu comigo ao show de Renato Braz ao violão e cantando à capella. Foi encantador. Enquanto Renato cantava, ninguém dava um pio e público só se manifestava após o final de cada número tocado. Basicamente, as manifestações eram ou alguma mudança de posições (para ver melhor a apresentação) ou pegar mais uma cervejinha no freezer (pra acertar tudo com Alfredinho no final do show, no boca-a-boca).

Pra fechar com chave-de-ouro, eu e Natália demos um jeito e ligamos pra Giba, que tanto frisou a importância do Bip-Bip em diversos momentos pra mim. E o mais incrível é que Giba comemorava o dia do seu aniversário no Bar Frontal em Recife enquanto eu tomava uns porres no Bip-Bip. Não tive dúvidas: Fazendo uma conexão-boemia, passei o telefone para Alfredinho que por sua vez mandou aquele beijo e abraço para Giba. É, meus amigos, a boemia não é escrava da distância!

domingo, 1 de julho de 2012

Lock, Step e Gone - Os 20 anos do Rancid - por Gilberto da Costa Carvalho


 
Falar do Rancid é complicado. São 20 anos de história que se confudem com uma parte essencial deste que vos escreve. Todos sabem que meu fascínio por bandas punks não é de hoje, no entanto, algumas ganharam meu respeito por não se dobrar a nada. Por remar contra a corrente e seguir seu caminho com muita dignidade.

A importância do Rancid, vem das palavras de Joey Ramone num dos Lolapalloza iniciais - "O Rancid é o futuro do punk rock. Eles são os Ramones melhorados!"

Em comemoração as duas décadas a banda começou a soltar alguns presentes para os fãs do mundo todo. Um deles é o que posto aqui. Uma apresentação antológica no Japão em 2004. Ainda com a formação clássica e histórica:

Tim Armstrong - Vocais e Guitarra
Lars Frederiksen - Vocais e Guitarra
Matt Freeman - Vocais e Contrabaixo
Bret Reed - Bateria

Honestamente, é uma das maiores porradas já vista na minha vida. Um show só de clássicos! Principalmente daqueles que para mim são os maiores discos dos anos 90 do estilo: And out come the wolves - 1994 e Life won´t wait - 1996. Quando falo sobre estes dois discaços, falo de tradição. O Rancid é uma das poucas bandas que não puxaram pro lado extremamente melódico que o estilo tomou com o dito "punk californiano". Curioso é que os caras são californianos, mas foram beber da fonte: Nova Iorque! No subúrbio de Manhattan é que o estilo se mantém vivo.

Para aqueles que ainda falam da simplicidade musical das bandas punks eu afirmo que o Rancid tem dois diferenciais. Lars Frederiksen que é um excelente guitarrista e, principalmente, Matt Freeman que é um dos melhores contrabaixistas do mundo.  O que ele faz em Maxwell Murder, sexta música da apresentação, é digno de uma estátua em praça pública.

Quer uma prova? Clica aí embaixo e anima teu domingo.





Para Angelo, Vareta, Romero, Cagão, Chorão e Ravi. Viva ao Lixo Tóxico.


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Um Torquato Retrato - por André Maranhão Santos


Torquato Neto produziu não apenas uma grande poesia, como também inúmeras mídias mestiças numa vida intensa de vinte e oito anos. Nascido em Teresina, Torquato foi para a Bahia na juventude e em Salvador conheceu grande parte da cena cultural baiana, sendo inclusive, colega de Gilberto Gil desde a época de escola.
           
Ao longo de sua vida, Torquato colecionou e desagregou pessoas sob o seu signo de ideias e criações. O escorpiano ganhou visibilidade como um importante crítico de arte e poeta, além de participar de produções cinematográficas e performances de artistas como Hélio Oiticica, com quem trocou diversas cartas entre 1971 e 1972 (época em que Hélio se encontrava nos Estados Unidos e Torquato no Rio de Janeiro). Porém, uma das searas mais fantásticas e ricas de Torquato talvez seja a canção brasileira. Torquato tanto produziu em vida, letras destinadas às canções de Caetano Veloso (Ai de mi, Copacabana) Gilberto Gil (Geleia Geral) Edu Lobo (Pra Dizer Adeus), Jards Macalé (Let’s Play That) e Roberto Menescal (Tudo Muito Azul) como também alguns dos seus poemas foram musicados por artistas como Sérgio Brito (Go Back) e Geraldo Azevedo (O Nome do Mistério), posteriormente. É com a palavra que Torquato se realiza de modo intenso. Palavras como possibilidades de abrir significados plurais e acidentá-los; tirá-los da aparente regularidade: “Everybody knows my name but nobody knows my place (...). Meia palavra basta. agora não se fala mais: cada palavra, bicho, é uma forma poliédrica infinita e transparente”. Em Marcha à Revisão, também diz Torquato: “Uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. Elas estão no mundo como está o mundo & portanto as palavras explodem, bombardeadas.”.
           
 A despeito dos registros mais oficiais da produção de Torquato (os textos de jornais, as canções e poemas publicados), seus parentes recuperaram outros projetos não publicados durante sua vida. Torquato pedira que destruíssem seus textos não publicados. Coisa que ele mesmo começou a fazer, mas que não concluiu porque cometeu suicídio em 1972. Dos textos recuperados, seus amigos e parentes publicaram alguns fragmentos repletos de conteúdos diversos e de plurais divagações sobre conflitos, angústias, desejos e sobre as programações da tevê, produções musicais e cinematográficas; tanto brasileiras como também internacionais.

Boa parte do que Torquato escreveu nos seus cadernos foi registrada quando ele se exilou em Paris, já que a barra pesava consideravelmente no Brasil AI-5. Aí não dava mais para Torquato permanecer em terras tupiniquins. Porém, viver na França lhe parecia uma experiência com medidas injustas: “aqui/ estamos / aqui /chegamos /como forasteiros e forasteiros continuamos aqui, neste/ meu país. / principal é que um inglês é a Inglaterra, um francês é a França nós / somos os brasileiros típicos do BRASIL no dia 8 de maio de 1970”. O exílio era injusto!

Os cadernos de Torquato fazem menção a muitas influências: Tom Jobim, Chet Baker, Jimi Hendrix, Caetano Veloso, Gal Costa, Che Guevara, Décio Pignatari, Antonin Artaud são alguns nomes que parecem inspirar seus comentários. Uma lista tamanha já pode sugerir que a formação e contato de Torquato com a arte foi polissêmica e multimidiática. Ao mesmo tempo, Torquato parece arredio a qualquer vontade de idolatrar cegamente algo ou alguém, como se chorar por um ídolo fosse uma finalidade irritante, um vício de se apegar para chorar. “O Che Guevara morre apenas para que se cante (chorando) o seu mito. Jimi Hendrix morre também: logo pousamos como urubus sobre o cadáver do bicho, e choramos pelo vazio que acabamos de ganhar”. Paradoxalmente, talvez esse vazio dito por Torquato funcione como um preenchimento de quem quer idolatrar pra se viciar. Então, o choro pelo vazio da morte de um ídolo talvez seja uma metamorfose pra colocar esse ídolo em um novo altar, agora no altar de ídolo póstumo, que passa a viver em camisas, filmes, coletâneas, preenchendo a vida de muita gente. A questão mais tensa desse processo é que eleger um ídolo pode fechar portas para outras produções riquíssimas e injustiçadas em uma cultura. Neste sentido, Torquato duramente ironiza uma critica que incide no pedestal de uma crítica cultural elitista, no crivo e nos rótulos dados por alguns “críticos abalizados” que acabam por fechar diversas portas em vez de abri-las. Vejamos, por exemplo, o que Torquato pôde dizer sobre Paulo Diniz, um artista que começava a brotar de modo interessante, porém que parecia preterido por uma grande parcela da crítica daos anos 1970:

“Mas não deixa de ser engraçado vermos a confusão instalada na mansão dos herdeiros quando um cara como Paulo Diniz estoura na praça com um compacto que as pessoas não sabem onde catalogar e, portanto, não ousam comentar nem se dispõem a compreender. ‘Quero voltar pra Bahia’ veio do lado de fora, de um artista barra-pesada que não andava inserido no contexto de nenhum dos vários coros de lamentações que proliferam em torno da desgraça alheia. Tranquilo: o disco estourou nos ouvidos sentimentais do povo, a canção foi para as paradas de sucesso e nossa boa aristocracia vanguardista fechou o bico e foi para detrás da porta colocar as luvas. As mãos limpas, ariadas, arianas. Carpideiras, sim mas en petit comitê. Nenhum ‘quarsar’ para Paulo Diniz. Quando não estão chorando as pessoas estão reclamando”.

domingo, 17 de junho de 2012

Pelo resto da vida - por Gilberto da Costa Carvalho






     Durante esta semana que passou fiz algumas postagens no Facebook com uma contagem - "7 days to 70". Estas, eram acompanhadas por um video e a letra da música. O mundo da música está em festa neste 18 de Junho. Sir Paul McCartney completa 70 anos de idade. E eu me pergunto:

"Como se perpetuar no tempo?"

Após os históricos shows do Arruda, meu amigo Carlos Eduardo Montenegro escreveu algumas palavras. Tomo a liberdade de postar alguns trechos:

"Como grande fã que sou de Paul e dos Beatles, fui aos dois shows na capital pernambucana. No primeiro, fiz a loucura financeira de ir para a passagem de som antes da abertura dos portões. Uma experiência que começou as 12h do sábado, quando cheguei ao Arruda e passou pelo chá de cadeira que levamos até as 17h, quando a mesma teve início. Neste período, apesar do custo que todos os 165 pagantes tiveram, pasmem, nenhuma reclamação contundente, nenhum protesto. Apenas apreensão de que a passagem de som tivesse sido cancelada pela demora. Quando a passagem de som era, repetidamente, confirmada pela produção, a disposição de esperar por até mais uma semana, voltava a cabeça e corpo de todos. Ao ouvir os primeiros acordes, tive um gostinho de como seria o fim de semana. Bastou o Sir entrar no palco, que uma nuvem de emoção invadiu o Arruda. Famílias abraçadas, um pai com seus 3 filhos (o mais velho, com no máximo 15 anos) frisando que eles é que insistiram pra ir ao show, uma família inteira do Chile, todos emocionados...Ao terminar a passagem de som, pudemos ir a pista Premium e aí começou o mais novo esporte olímpico, os 100 metros Paul. Uma correria só e olhe que o estádio estava vazio. Como eu iria esperar meus familiares e amigos, tomei a melhor decisão da noite. Fui para a frente da entrada da pista e fiquei observando o público que começava a chegar. Aí meu amigo, foi mais lindo ainda... Não havia um cidadão que não manifestasse um pingo de emoção ao entrar no estádio. Um punho cerrado, um abraço coletivo, gente rezando, fazendo o sinal da cruz, choro fácil, pulando que nem uma gazela, casais olhando pro palco e se beijando, pais sendo amparados pelos filhos e aí vai... Um dos momentos mais emocionantes do fim de semana."

E eu volto a me questionar: 

"Como se perpetuar no tempo?"

    Confesso que tenho dificuldades para falar algumas coisas. Mas seria injusto comigo mesmo tentar segurar este tipo de emoção. Os shows de Paul McCartney são um capítulo a parte na minha história. Meus caros..."não é um show...é uma experiência de vida." 


    Na verdade, eu só tenho a agradecer e lembrar de todas as sensações vivenciadas. Tantos falam em dinheiro, quando deveriam falar em música. Em sentir...viver. 


    Quem mais me deixaria paralisado por quatro músicas seguidas? Qual dinheiro do mundo pagaria o que senti neste exato momento?


É Paul...são 70 anos de vida.


     Vida que se confunde com vidas. Com momentos, como o pedido de noivado do primo de Dudu em pleno show, com as famílias se confraternizando, como a superação de Tio Paulo a claustrofobia para chorar copiosamente abraçado aos filhos em "Something", como um casal que dançava de rostinho colado "And I love her". Alguém consegue colocar cifrões em emoções?


Falando por mim, posso dizer com a maior certeza do mundo: "Obrigado Paul".


     Obrigado por todos os momentos, todas as músicas, todos os meus amigos que puderam e não puderam estar comigo nos teus shows, por todas as pessoas que estavam lá. Obrigado por me fazer sentir, por me fazer pular e ficar rouco. Obrigado por me fazer crer na música, por todas as melodias geniais. Obrigado por me fazer sorrir. Obrigado por um abraço certo...ainda incerto.


     Mas, o que é mais importante para mim, é agradecer pela aproximação ainda que espiritual com meu pai. De ter a certeza de que a cada música que escuto nos teus shows, lembro da Fita Cassete BASF - 60 minutos que ganhei de presente. E mesmo que inconscientemente, todas as músicas cantadas, todos os gritos e lágrimas, como as que rolam por meu rosto agora, são demonstrações daquilo que a vida não me permitiu lhe dizer. "If you were here today..."

"Como se perpetuar no tempo?"

Fácil! Basta acreditar que "um NANANANA", pode melhorar o mundo.

Parabéns Paul! 

I'll love you for the rest of my ...
For the rest of my life".


Dedicado a Paul McCartney, meu pai, e a Carlos Eduardo Montenegro representando todos os meus amigos.
















segunda-feira, 4 de junho de 2012

Para Theo Vitorino - por Bruno Vitorino



A vida é de fato misteriosa! Para os céticos, é um emaranhado de vicissitudes aleatórias que se desdobram em inúmeros fenômenos que colidem entre si, criando, ao final, a densa trama chamada realidade. Para os religiosos, trata-se de um projeto divino de autoconhecimento com começo, meio e fim onde o indivíduo busca o aprimoramento moral através de suas ações. Já os niilistas defendem que a existência por si mesma não tem sentido algum e que toda a tentativa humana de significá-la não passa de uma ilusão. Dos filósofos pré-socráticos a Ana Maria Braga; todos tentaram decifrar seus enigmas.
Para mim, a vida é a imensidão oceânica do desconhecido que, resplandecendo em toda sua magnitude, ora nos repreende com suas adversidades e ora nos afaga com suas bênçãos. Assim, um olhar mais atento aos pequenos gestos do cotidiano revelará essas confidências nos atos mais corriqueiros. Um café quente num domingo chuvoso, o aperto de mão entre dois camaradas, o último parágrafo de um bom livro, um almoço em família, um acorde Maj7(#11) no primeiro grau; tudo isso soa a meus ouvidos como um murmúrio confidente e nesses breves instantes eu me sinto visceralmente conectado à vida!
Bruno e Theo
 Na quinta-feira passada, fui agraciado com a maior dádiva que poderia receber: a chegada de meu filho Theo. Até então, eu imaginava que a música me provia a experiência transcendental suficiente para transpor as contingências da matéria e tocar o abstrato através de melodias e improvisações. Quão ingênuo eu era... Ver meu filho nascendo foi o mais intenso e significativo acontecimento que vivenciei ao longo de meus 29 anos de existência. As lágrimas me vieram em torrentes e naquele exato instante eu senti na carne que o amor é o que há de mais esplendoroso. E eu me deixei consumir por inteiro!
Ao sair da maternidade, optei por mostrar a Theo o belíssimo álbum “Plays Duke Ellington” do pianista Thelonious Monk. Um disco muito especial para mim, porque expõe um Thelonious estranhamente delicado, quase minimalista sem suas idiossincrasias e as suas preciosas segundas menores, evidenciando uma robustez técnica de calar aqueles que enxergam nele um instrumentista limitado. Gravado nos dias 21 e 27 de julho de 1955, o álbum de estreia do Monk no selo Riverside virou um marco. Uma reverência de um mestre a outro.
Thelonious Monk - Plays Duke Ellington
“It Don’t Mean a Thing” tocava, olhei furtivamente pelo retrovisor e encontrei Theo no bebê-conforto com um semblante sereno e com o pezinho a balançar quase marcando o andamento do tema. Sorri! Contemplando o céu azul do sábado pela manhã, senti-me cheio de uma encorajadora esperança por compartilhar com meu rebento esse minuto. Foi como se o tempo tivesse parado por um momento para nos olhar e nos saudar. Uma oferenda gritante da bonança a dois indivíduos que acabavam de se conhecer e que se ligavam de modo indissociável. Que maneira fantástica de dizer “Seja bem-vindo, meu filho”!

domingo, 3 de junho de 2012

Tim...1971 - por Gilberto da Costa Carvalho

         
     Uma celebração tijucana. É assim que defino o segundo disco de Tim Maia. Podemos notar isto logo na abertura do disco com "A festa de Santo Reis", uma das melhores músicas de sua carreira. Os reizados (conhecidos aqui no Nordeste como Papangus) eram constantes na Tijuca, bairro onde Tim cresceu e viveu. A miscelânea sonora vai crescendo com - "Não quero dinheiro", sucesso absoluto que se perpetuou através do tempo. E o mais engraçado é que esta música foi composta para uma ex-namorada de um amigo pessoal. Obviamente que a canção só saiu após a referida senhora ceder ao assédio emocional de Tim. Voltamos a vertente nordestina mesclada com o soul em - "Salve nossa senhora". Procissões, romarias, o céu da Bahia e a volta de Rosinha são o tema principal da canção. Uma oração em forma de festa.
     Poucas pessoas sabem que nesta época, existia uma rusga bastante intensa entre Tim e Roberto Carlos. "O gordinho" quando voltou deportado dos EUA, ficou revoltado com o tratamento ao qual "o Rei" o submeteu. É meus caros, para que vocês saibam, foi Tim Maia que ensinou Roberto Carlos e Erasmo Carlos a tocar violão. E se o assunto for cantar, aí não se tem nem o que comparar. Ambos eram engolidos por Tim.
     Daí surgiram duas canções - "Um dia chego lá" e "Não vou ficar". Esta segunda, foi mais um motivo dos problemas com Roberto Carlos. Depois de muita insistência e um apelo da namorada, "o Rei" gravou a mesma em seu disco. Resultado - o maior sucesso do LP foi a música de Tim. Temos que ressaltar e fazer justiça. A versão de Roberto Carlos é melhor do que a versão do autor. Embora, o balanço cadenceado da versão de Tim seja bastante interessante.
"Broken heart" é uma canção curta e empolgante. Um recado eficiente:

I did it for you, darling. I did for you, my darling. But you never know. That my heart beat a little louder. Every time that you're near. My heart beat a little louder. Even broken heart and soul. Broken heart, desire.

     O lado B do disco começa com uma pedra preciosa. Durante muito tempo, eu sempre lembrava de um trecho que Os Paralamas do Sucesso tocavam num disco ao vivo. Quando ouvi a versão de Tim alguns anos depois,  pude perceber a beleza e a intensidade de "Você". Na sequência, encontramos uma das mais belas e intimistas canções da carreira de Tim Maia. Defino a canção - "Preciso aprender a ser só", como um pedido de amor. Ao mesmo tempo que afirma que precisa aprender a ser só, ele confessa que se entregou sem pensar e que a saudade faz com que os olhos chorem a falta. E que mesmo a paz tendo sido levada pela ausência, é com ela que ele quer ficar. E que morre pensando neste amor. "I don´t know what to do with myself", é uma parceria de Tim com seu amigo Hyldon. Um funk nato!
     Outra bomba sonora chega a nossos ouvidos com - "É por você que eu vivo". Esta música começa de forma romântica, com um arranjo diferenciado onde percebemos a marcação de contrabaixo de soul, flertando com as cordas. No final, uma explosão de sentimentos! A junção do pedido dolorido de Tim - "deixe seu coração longe do meu, que ele ficará partido. É por você que eu vivo" e o que o os arranjadores conseguiram fazer, é uma das coisas mais bonitas da história de Tim Maia.
     O disco é encerrado com - "Meu país". Uma declaração de que aprendeu muito na época de EUA, mas que no Brasil ele aprendeu a ver as flores e a sentir. Além desta, temos a excelente - "I don´t care". Um dos melhores "souls" gravados em terras brasileiras. Na letra, Tim afirma - "I don´t need you. I don´t have to plead you. You know my name..."

Não é tão simples assim...