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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Variações em 5/4 - NEW


A coluna “Variações em 5/4” está de volta e para esta primeira edição do ano, os nossos editores comentam “New”, o mais novo disco de Paul McCartney.

- Fernando Lucchesi:

Depois de um disco de standards do Jazz que marcaram sua vida, Paul McCartney resolveu que agora seria vez de algo mais contemporâneo e escalou para produzir o seu novo álbum, “New”, diversos produtores novos, entre eles Mark Ronson, produtor do aclamado “Back to Black”, de Amy Winehouse e Giles Martin, filho do produtor de 90% da discografia dos Beatles, George Martin. Esse amálgama de influências resultou em um disco com faixas bastante diferentes entre si, unidas unicamente pela habilidade de McCartney em conceber músicas melodiosas e baladas no violão. “Save Us”, faixa de abertura, poderia estar tranquilamente em um disco dos Strokes, tamanha a semelhança. “New”, faixa-título do álbum, traz reminiscências de “Got to Get to Into My Life”, mas ao invés dos potentes arranjos de metais, entram sintetizadores e guitarras ao lado de uma melodia daquelas que você pode passar o dia assobiando. “On May Way to Work”, “Early Days” e “ Hosanna” resgatam o Paul de baladas das épocas de Beatles e Wings. Apesar da diversidade de produtores a temática das letras é a mesma de sempre: amores novos ou passados, estes recheados de nostalgia. Não tenhamos ilusões: Paul McCartney não produzirá sua obra-prima agora, mas obteve um ótimo resultado ao fincar um pé no passado e outro, no presente.

- Giba Carvalho:
     
A moda está fora de moda.

É citando uma das frases do excelente disco do Ronnie Von (1968), que inicio minhas palavras sobre “New”, novo álbum de inéditas de Paul McCartney. Confesso não procurar opiniões alheias para basear meus textos, no entanto, a minha sensação ao escutar o disco pela primeira vez, foi de tanta incredulidade, que fui ver o que haviam escrito. Não demorou muito e encontrei o de sempre. Tentativas viajadas e comparações aos trabalhos que Paul McCartney fez nos Beatles. Afirmo – o disco não tem nada de Beatles, além do próprio Paul. Tá, tudo bem! O cara é uma sumidade do mundo musical e qualquer produtor gostaria de produzir um disco do ex-Beatle, mas, quatro produtores é demais! Participaram do disco – Mark Ronson (produtor do excelente “Back to Black” – Amy Winehouse), Paul Epworth (nome de muito destaque na atual cena inglesa. Produtor do Bloc Party e da fantasiosa crepuscular, Florence and The Machine. Tem como trabalho mais elogiado o álbum – “21” de Adele), Ethan Johns (produtor da banda que nunca decola – Kings of Leon e de Joe Cocker) e, finalmente, por Giles Martin (filho do lendário George Martin).

Não sei ao certo a real intenção do velho McCartney ao trazer tantas mentes diferentes para a produção do seu novo álbum. Podemos questionar que foi uma jogada para chocar o ramo com tamanha miscelânea? Podemos!  E foi justamente este mistério, que ainda fez com que ouvisse o trabalho novamente. McCartney, como em diversas outras vezes, fugiu do “feijão e arroz” habitual e se aventurou por novas terras. Para um cara como ele e com a identidade musical criada com os Beatles é meio que um tiro no pé. Não sou fã dos trabalhos pós-Beatles. Gosto apenas de dois discos e uma ou outra música pontual. E, é com a maior tranquilidade possível, que afirmo que “New”, parece mais uma “forçada de barra” do que um disco com tantas novidades assim. Das 12 músicas do álbum, apenas três chamaram a minha atenção. “Save Us”, que abre o disco e é uma boa música pop (embora não goste da semelhança com o Strokes), “On My Way To Work” por ter algo melodicamente interessante e a bela “Early Days”. Também é totalmente perceptível, que o álbum soa diferente de todos os trabalhos anteriores de Paul McCartney. Por este lado, enxergo mérito pela tentativa e, por outro lado, o conformismo habitual que vive a música mundial, notadamente o rock n´roll (com bandas altamente repetitivas). O “disco de retalhos” montado por ele é um trabalho que vaga numa linha bastante mediana e que não desperta a atenção do ouvinte, principalmente, por não possuir identidade.

- Dom Ângelo:

De uma coisa não podemos discordar: Paul McCartney tem uma absurda facilidade em criar melodias que se enquadram dentro do sistema musical temperado. Foi assim na sua carreira com os Beatles, onde foi dono de algumas das mais belas melodias da música do século XX e continuará, acredito eu, enquanto o próprio estiver vivo, com essa proeza genial.

Porém, sinto que a existência daquele fator cósmico, transcendental e imaterial que habita as grandes obras de arte, não existe mais na expressão musical do Paul. Aquela “coisinha” que faz você se arrepiar, no qual os indianos chamam de “sopro divino”, nele, não existe mais. Pelo menos não lhe manifestou em toda a sua carreira solo, muito menos no seu novo álbum, o “New”.

Mas uma coisa é certa: aquela bela habilidade em combinar notas com notas, façanhas da música europeia, sempre caminhará de mãos dadas com esse gênio maior da música pop. É de seu ofício. É de seu propósito. É do seu Dharma. Nisso, o velho Paul é bom e continua colocando todo mundo pra “balançar” com suas novas composições.

- Bruno Vitorino:

Parece-me que uma das funções mais nobres da figura do veterano é estabelecimento de laços com a juventude. Se por um lado a experiência oriunda de seus anos de prática, reflexões e descobertas provoca o tino dos que começam, por outro suas ideias costumam ser estimuladas pelo ímpeto desbravador que emana dos mais jovens. E se esse veterano for um mestre, a História nos diz que esses encontros deixam, não raramente, marcas profundas. Foi assim quando o renomado Handel acolheu, ainda que brevemente, o impetuoso Mozart. Foi assim quando o metódico Rimsky-Korsakov tutorou o inquieto Stravinsky. Foi assim quando Radamés Gnattali abrigou o inseguro Tom Jobim. A Música mudou. Apontou novos caminhos, desnudou paisagens não vistas, abriu horizontes incertos.

Paul McCartney certamente figura no panteão dos grandes. Não há muito que se discutir a respeito. Com sua produção, mais especificamente à época dos Beatles, ele foi um dos responsáveis por definir o que conhecemos hoje por música pop em todos os aspectos. Justamente por isso, todo e qualquer projeto em que se envolva gere expectativa e euforia, ainda mais, quando ele é anunciado na Grande Mídia como uma fuga da zona de conforto do sucesso e uma busca pelo inédito numa odisseia musical compartilhada com novos nomes. Assim me chegou “New”, o último trabalho de Paul. No entanto, o que se propunha ser um interessante diálogo entre a serenidade clarividente da experiência com o frescor audacioso da mocidade na busca incansável pelo novo, revela-se um constrangedor exercício da Síndrome de Peter Pan. É como se McCartney, depois de uma overdose de Arcade Fire, MGMT, Florence & The Machine e todo esse lixo descerebrado e inútil, virasse um rapaz de 25 anos de nossos dias: iPod em modo random, redes sociais a todo vapor, sobreposições de estímulos, pluralidade sem objetivo, tudo e nada, aqui e lugar nenhum. E toda essa confusão do que ser e de como ser se reflete na música apresentada no álbum: uma colagem pop desordenada, um pastiche gagá de uma juventude automatizada.

O que aproveitar, então, desse disco? Os sublimes momentos de silêncio entre uma faixa e outra.

- André Maranhão:

Apesar do nome, não vi muita coisa nova em New, exceto algumas tentativas de Paul McCartney em usar programações e samplers mais do que enfatizar o piano – coisa que ficou parecida com a fase do final dos anos noventa do U2 (em “All That You Can’t Leave Behind”), a qual não me agrada muito. “Appreciate” e “Looking at Her” são alguns exemplos disso.  Em alguns momentos, o álbum pode parecer longo de ouvir, principalmente nas faixas “Queenie Eye” e “New”. “Turned Ou” e “Everybody Out There”, não considerei muito inovadoras. “Get me Out of Here”, parecendo um summer rock, não chamou minha atenção. O meu destaque vai para a bela canção “Scared” (escondida no final do álbum) com Paul só ao piano; além de “Early Days” (balada de violão aberto, bem casada com a voz, parecendo Damien Rice), além de “Save Us” e “Road”, que me lembrou a dupla francesa Air, em “Playground Love”. Num segundo pelotão, coloco “Alligator”, “On My Way To Work” (com seus leves indianismos nos solos) e “Hosanna”.

domingo, 29 de setembro de 2013

Revolver: A Fugacidade do Sublime - Por Bruno Vitorino


Antes de se materializar em um blog, o Variações para 4 era o encontro semanal que Ângelo, Giba, André, Fernando e eu promovíamos lá em casa. Na verdade, tratava-se de um pretexto solene que encontramos para tomar Heinekens geladas, escutar bons sons e compartilhar nossa sincera (e idealista, diria) preocupação com os rumos da Arte num mundo onde Cinquenta Tons de Cinza é o símbolo da transgressão da mulher contemporânea, Kelvis Duran é ícone cult para jovens intelectualizados de classe média e certos poetinhas cianóticos tecem loas egolombráticas ao poder do amplexo. Como de praxe em qualquer reunião de amigos, à medida que as garrafas do néctar dos deuses se acumulavam, nossas idiossincrasias pessoais se projetavam. Nos momentos de consonância, uníssonos de conformidade e aprovação. Mas, diante das discordâncias mais acirradas – que não eram poucas, ouvia-se a defesa mais acalorada de posicionamentos controversos. No que diz respeito a mim, isso sempre recaia em minha repulsa à obra de Chico Buarque e minha ojeriza à produção dos Beatles.

Não gostar desses artistas já me colocou em sérios apuros. Imagine você um estudante de História em pleno CFCH abrir a boca para dizer que “Chico Buarque é um compositor superestimado e um romancista de merda”. Ou também, em qualquer mesa de bar num papo descontraído com entendedores de rock, que “Os Beatles foram uma praga. A Grande Peste da música do século XX”. O mundo vinha abaixo, meu amigo! Na faculdade, não só minha integridade intelectual, como também a psíquica, logo eram questionadas. “Isso é coisa de alienado, de pelego. Tu tá é doido!”. Já lá na mesa de bar, as reações variavam da fúria extremista à perplexidade retumbante. Faça um teste. Experimente o senhor, como exercício sociológico, dizer quando estiver tomando uma com seus amigos: “Os Beatles foram os maiores vagabundos da história da música”. Em um segundo, meu caro, você será um herege jogado na fogueira do fanatismo dessa inquisição cultural. Reflexo condicionado, não refletido ou problematizado.

Obviamente que por trás dessas afirmações tão categóricas reside uma morbidez galhofeira que zomba da submissão plena aos cânones. E não há como ser de outro jeito, meu querido. Goste ou não, uma coisa é certa: se for para mexer em casa de marimbondo, não adianta ir alisando. Tem que descer o braço, senão você se lasca! Só dinamitando o totem (e o tabu), pode-se vislumbrar que as verdades na esfera artística são, mais do que certezas estéticas, construções sociais sedimentadas pelo tempo e pelo discurso. A memória costuma ser generosa com a pieguice, daí a tendência de visões romantizadas de um passado idealizado povoado por artistas divinos. O erro crasso das legiões de devotos mundo afora que separam o homem de sua produção simbólica, e, mais ainda, que dissociam o artista das conjunturas de seu tempo. Entenda o seguinte: o artista não existe no vácuo.

Pondo de lado toda essa cabecisse, o fato é que eu já tentei gostar dos Beatles. Sério mesmo! De todo o coração e inúmeras vezes. Como a descoberta da música se deu para mim através do rock clássico, não havia como me esquivar da obrigatória visita ao quarteto de Liverpool. Portanto, não pense o senhor que falo aqui sem conhecimento de causa. Deixo para os jornalistas dos cadernos de cultura falar daquilo que não sabem ou sequer compreendem. Ouvi minuciosamente toda a discografia dos ingleses esperando o inevitável deslumbramento que me haviam prometido. Do “Please Please Me” ao “Let It Be”. Disco a disco e nada! Absolutamente nada, para meu desespero. Seria eu um portador de alguma patologia lombrosiana? Não! Era apenas a combinação de uma pitada de senso crítico com um pouco de perspectiva histórica.

Por mais que tentasse, não conseguia entender o porquê de tanto estardalhaço. Incomodava-me a gritante tabacudice boy band – chame de Iê Iê Iê se preferir – da primeira fase da banda em músicas fofinhas sobre paixões adolescentes e corações partidos. Corri para o período de transição do grupo da euforia teen para o experimentalismo mais adulto. Legal. Encontrei músicas interessantes e extremamente bem construídas como Norwegian Wood, mas morguei totalmente com canções bestas como Drive My Car. “Baby, you can drive my car / Yes, I’m gonna be a star / Baby, you can drive my car / And maybe I’ll love you” era leseira demais para meu frágil testículo esquerdo. Por fim, procurei na última fase da banda achar a tão sonhada redenção, contudo me iludi novamente. Ao que parece, depois de ter ouvido o poder incendiário do Led Zeppelin, ficava difícil gostar do bom mocismo inofensivo dos Beatles. A verdade é de quem chega primeiro. E, no meu caso, quem chegou primeiro foi o Led Zepellin. “Melhor assim”, dizia a mim mesmo. Até que veio a verdadeira revolução em minha vida: Theo!

O advento do filho ocasionou em mim rupturas silenciosas, cuja dimensão não podia medir ao certo, em toda a constituição do meu ser. De repente, o mundo ficou de ponta cabeça, a realidade virou pelo avesso. As ilusões que guardava, os horizontes que mirava e as convicções que até então me caracterizavam o Bruno que sempre lembrei ser, já não faziam mais sentido. Eu havia mudado. Comecei então a ressignificar tudo: o valor da família, o caráter formador do trabalho, a relação com a cidade e inclusive a importância da música. E aqui eu chego aonde queria. “Se tudo mudou, não seria agora que eu finalmente iria gostar dos Beatles?”, pensei. Mais uma vez (a 4ª pelas minhas contas), revisitei a discografia do Fab Four. Não senti qualquer emoção diferente a cada disco que ouvia no Youtube, até que finalmente eu vi a luz! Algo inexplicável e totalmente inesperado aconteceu em mim quando pus no buscador “revolver full album”. Foi uma revelação!

Revolver: a obra-prima dos Beatles.
“Revolver” marca o momento mais sublime e único que os Beatles puderam alcançar. “E o Sgt. Pepper’s?”, o senhor pode estar se perguntando. Bem, o “Sgt Pepper’s” é um disco ousado, sem sombra de dúvidas, mas em contrapartida é um amontoado de referências e ideias mal resolvidas, embrulhadas num discurso musical excessivo. Em resumo: um disco gorduroso. “E o White Album?”, o senhor insiste. Esse daí é tediosamente longo e altamente irregular. Como um disco pode ter uma composição tão brilhante como “Martha, My Dear” e outra tão retardada como “Ob-La-Di, Ob-La-Da”? Nem mesmo Bhaskara pode resolver essa equação, permita-me dizer. Por isso, defendo que “Revolver” registra o equilíbrio perfeito da verve intuitiva de John Lennon com a perspectiva cerebral de Paul McCartney e, de quebra, traz o desabrochar criacional do até então sufocado George Harrison. Com esse álbum, os Beatles desbravaram um território completamente novo, tanto no que diz respeito aos métodos de composição e técnicas de arranjo quanto aos temas e enfoques poéticos. Um salto artístico estratosférico num período curtíssimo de tempo, já que apenas três anos separam o pueril “Please Plese Me” desta obra-prima.

A contagem inicial que abre o disco parece avisar ao ouvinte que uma viagem caleidoscópica em direção ao desconhecido está para começar. “Taxman”, de George, escancara uma pegada roqueira mais agressiva, cheia de balanço e uma letra de humor corrosivo sobre a voracidade inflexível da política tributária do Estado Pós-Industrial. Na sequência, em “Eleanor Rigby”, Paul derrama todo seu lirismo sobre uma trama contrapontística das cordas (destaque para o cello) e harmonizações vocais precisas. Um dos pontos mais altos de toda sua carreira, diga-se de passagem. Depois vem Lennon com a onírica “I Only Sleeping”. Seu jeito preguiçoso de delinear as melodias, a simples, e por isso mesmo, deslumbrante harmonia em Mi menor e o solo de guitarra em “loop” e “reverse” de Harrison (algo nunca antes ouvido no rock) constroem uma ambiência surrealista que remete às fronteiras do inconsciente. Até Ringo tem seu momento. Esteja certo de que “Yellow Submarine” povoa o imaginário de muitas crianças por todo o planeta com sua fanfarra marcial psicoldélica. Mais à frente, encontramos “For No One” uma das mais belas descrições narrativas sobre a indiferença (e seus danos) que já ouvi. Preste atenção na linha de fundo cromática que vai costurando o encadeamento dos acordes, representando o afastamento paulatino da pessoa amada e no lamento resignado do solo de trompa ao se deparar com o inevitável ocaso. Já em “I Want to Tell You”, minha favorita, deparamo-nos com a habilidade de George em transformar melodias flutuantes e progressões harmônicas ambíguas em algo extraordinário. Repare no piano que insistentemente toca a nota Fá “errada” (não diatônica em Lá maior) justamente nos momentos da letra em que o autor se vê aturdido pela presença invasiva da musa a quem tenta se declarar. Nada menos que genial! Para concluir essa materialização da excelência, os Beatles atacam com a enigmática “Tomorrow Never Knows” onde John recita trechos do livro tibetano da morte sobre a bateria agitada de Ringo e os efeitos eletrônicos dos ecos de rolos de fita. Reminiscências dos cursos de verão de Darmstadt e da música oriental. Uma advertência clara de que nada seria como antes e que o porvir era uma névoa de incertezas!


Lembro-me como se fosse ontem de, no calor do debate, Fernando me amaldiçoar: “Bruno, teu menino vai adorar Chico Buarque e amar os Beatles”. Bato na madeira e sinto um calafrio só de imaginar Theo ouvindo “Construção”, acreditando estar diante mais alta representação da cultura brasileira. Mas, depois de sentir o efeito “Revolver” e de ver meu filho dançando ao som de “Love You To” enquanto escrevo a conclusão dessas breves (?) linhas, devo confessar que me parece muito auspiciosa a possibilidade dele curtir os Beatles. Melhor assim.

domingo, 17 de junho de 2012

Pelo resto da vida - por Gilberto da Costa Carvalho






     Durante esta semana que passou fiz algumas postagens no Facebook com uma contagem - "7 days to 70". Estas, eram acompanhadas por um video e a letra da música. O mundo da música está em festa neste 18 de Junho. Sir Paul McCartney completa 70 anos de idade. E eu me pergunto:

"Como se perpetuar no tempo?"

Após os históricos shows do Arruda, meu amigo Carlos Eduardo Montenegro escreveu algumas palavras. Tomo a liberdade de postar alguns trechos:

"Como grande fã que sou de Paul e dos Beatles, fui aos dois shows na capital pernambucana. No primeiro, fiz a loucura financeira de ir para a passagem de som antes da abertura dos portões. Uma experiência que começou as 12h do sábado, quando cheguei ao Arruda e passou pelo chá de cadeira que levamos até as 17h, quando a mesma teve início. Neste período, apesar do custo que todos os 165 pagantes tiveram, pasmem, nenhuma reclamação contundente, nenhum protesto. Apenas apreensão de que a passagem de som tivesse sido cancelada pela demora. Quando a passagem de som era, repetidamente, confirmada pela produção, a disposição de esperar por até mais uma semana, voltava a cabeça e corpo de todos. Ao ouvir os primeiros acordes, tive um gostinho de como seria o fim de semana. Bastou o Sir entrar no palco, que uma nuvem de emoção invadiu o Arruda. Famílias abraçadas, um pai com seus 3 filhos (o mais velho, com no máximo 15 anos) frisando que eles é que insistiram pra ir ao show, uma família inteira do Chile, todos emocionados...Ao terminar a passagem de som, pudemos ir a pista Premium e aí começou o mais novo esporte olímpico, os 100 metros Paul. Uma correria só e olhe que o estádio estava vazio. Como eu iria esperar meus familiares e amigos, tomei a melhor decisão da noite. Fui para a frente da entrada da pista e fiquei observando o público que começava a chegar. Aí meu amigo, foi mais lindo ainda... Não havia um cidadão que não manifestasse um pingo de emoção ao entrar no estádio. Um punho cerrado, um abraço coletivo, gente rezando, fazendo o sinal da cruz, choro fácil, pulando que nem uma gazela, casais olhando pro palco e se beijando, pais sendo amparados pelos filhos e aí vai... Um dos momentos mais emocionantes do fim de semana."

E eu volto a me questionar: 

"Como se perpetuar no tempo?"

    Confesso que tenho dificuldades para falar algumas coisas. Mas seria injusto comigo mesmo tentar segurar este tipo de emoção. Os shows de Paul McCartney são um capítulo a parte na minha história. Meus caros..."não é um show...é uma experiência de vida." 


    Na verdade, eu só tenho a agradecer e lembrar de todas as sensações vivenciadas. Tantos falam em dinheiro, quando deveriam falar em música. Em sentir...viver. 


    Quem mais me deixaria paralisado por quatro músicas seguidas? Qual dinheiro do mundo pagaria o que senti neste exato momento?


É Paul...são 70 anos de vida.


     Vida que se confunde com vidas. Com momentos, como o pedido de noivado do primo de Dudu em pleno show, com as famílias se confraternizando, como a superação de Tio Paulo a claustrofobia para chorar copiosamente abraçado aos filhos em "Something", como um casal que dançava de rostinho colado "And I love her". Alguém consegue colocar cifrões em emoções?


Falando por mim, posso dizer com a maior certeza do mundo: "Obrigado Paul".


     Obrigado por todos os momentos, todas as músicas, todos os meus amigos que puderam e não puderam estar comigo nos teus shows, por todas as pessoas que estavam lá. Obrigado por me fazer sentir, por me fazer pular e ficar rouco. Obrigado por me fazer crer na música, por todas as melodias geniais. Obrigado por me fazer sorrir. Obrigado por um abraço certo...ainda incerto.


     Mas, o que é mais importante para mim, é agradecer pela aproximação ainda que espiritual com meu pai. De ter a certeza de que a cada música que escuto nos teus shows, lembro da Fita Cassete BASF - 60 minutos que ganhei de presente. E mesmo que inconscientemente, todas as músicas cantadas, todos os gritos e lágrimas, como as que rolam por meu rosto agora, são demonstrações daquilo que a vida não me permitiu lhe dizer. "If you were here today..."

"Como se perpetuar no tempo?"

Fácil! Basta acreditar que "um NANANANA", pode melhorar o mundo.

Parabéns Paul! 

I'll love you for the rest of my ...
For the rest of my life".


Dedicado a Paul McCartney, meu pai, e a Carlos Eduardo Montenegro representando todos os meus amigos.
















quinta-feira, 26 de abril de 2012

Olha Aí, O Meu Guri e Macca! - Por André Maranhão

Na semana passada pude conferir apresentações de Chico Buarque e Paul McCartney. Considero ambos significativos não apenas para a música, como também para a canção, já que assim como Luiz Tatit (2007) considero a canção algo diferente da música; um exercício bem peculiar, de combinar sons e palavras e prepará-los para o uso da voz. Esse métier é muito diferente de qualquer construção instrumental ou de algum poema, glosa, conto e epigrama. Por isso, acho que quaisquer análises prestadas sobre Chico Buarque e Paul McCartney devem transcender aspectos meramente instrumentais ou literários. Chico Buarque e Paul McCartney levaram a canção para direções muito significativas ao longo de suas carreiras. Mesmo com esse mérito, os dois divergem em vários aspectos, não apenas estéticos, mas comportamentais. E isso pra mim ficou ainda mais evidente após as apresentações da semana passada. Na sexta-feira percebi um Chico Buarque lacônico, quase “joãogilbertiano”, sem estabelecer muita interação com o seu público. Pouquíssimos momentos de maior proximidade ou descontração, como na sua despedida do show (quando ele se dirigiu à frente do palco e apertou uma série mãos sortidas da plateia) e no momento em que pôs o chapéu de Wilson das Neves para cantar um pouco. Chico parecia ali prestar um serviço taciturno, um serviço dos mais cotidianos; com tanta seriedade que apenas sorria com um sorriso pontual; daqueles que ele mesmo escreveu em Cotidiano! Diante de tanta Buarque formalidade, o Teatro Guararapes ainda assentava a histeria de mulheres e de homens que clamavam: “Chico, mostre a cabeça da Medusa!”, ou “Chico, onde está o veneno da Hidra de Lerna?”. Enfim, uma tietagem para qualquer semideus não botar defeito. Chico é um artista que aposta na segurança da forma. Em sua nova turnê ele apresentou as canções do seu novo álbum Chico (2011), mantendo o lirismo e a suavidade como a tônica, apenas com tímidas variações, melhor percebidas em Tipo Um Baião e Sinhá (esta última uma parceria com João Bosco). Chico veio escudado por muita gente competente: Luiz Cláudio Ramos (o seu arranjador), Wilson das Neves e Chico Batera são alguns nomes de quilate. Além das novas canções, Chico interpretou outras pérolas já consolidadas na MPB: Bastidores; Geni e o Zepelim; Futuros Amantes; O Meu Amor; Anos Dourados e Desalento. Finalmente, executou Cálice, mesclando essa canção com alguns versos de Criolo: um gesto no mínimo interessante. E o que falar de Paul? Que ele é o cara! Junto com John Lennon, constituiu uma das parcerias mais férteis da canção no século XX. Compôs não só hits, mas trabalhos de mudança estética para o panorama do Rock, como Helter Skelter (tocada no sábado passado no Estádio do Arruda). É certo que o repertório de Paul é profundamente nostálgico. Aliás, vários críticos associam a nossa época a uma cultura do Pós-Modernismo, marcada pelo forte retorno às nostalgias. Arjun Appadurai (2010) considera as turnês de Paul McCartney e de The Rolling Stones como exemplos marcantes do que ele chama de “nostalgia oblíqua”. No caso de Paul, haveria a reprodução de uma nostalgia pelos Beatles, transmitida não só para os fãs antigos, mas para novas gerações e novos grupos culturais: o que implica em pessoas jovens também cultuarem um ícone como Paul. Mas não deixemos que a nostalgia se converta em um fatalismo, tampouco em um tom de condenação, seja para Chico, seja para Paul. O repertório de Paul foi mesclado entre The Beatles, Wings e sua carreira solo. E mesmo após tantos anos, Paul interpretar sucessos como Yesterday, Band on The Run e Maybe I’m Amazed é algo muito significativo, pois nem sempre tocar o antigo é uma atitude artística condenável. Pelo contrário; pode se traduzir em uma postura relevante e pedagógica na formação de uma cultura. Paul já alcançou graus altíssimos de reconhecimento e legitimação, foi (e ainda é) um Beatle, cavaleiro da Rainha Elizabeth II e milionário. Não precisa mais provar nada no quesito fama! Atualmente, eu diria que ele optou por evangelizar seus clássicos como um peregrino da canção, e Recife foi um dos seus “Santiagos de Compostela” mais recentes. Penso que a peregrinação de Paul é uma atitude válida e não menos importante para a história da música. Afinal, essa coisa de nostalgia não é tão nova assim, tampouco exclusiva ao Rock de Paul ou à MPB de Chico. Tia DeNora (1995), demonstra que o próprio Beethoven por muito tempo da sua vida se apresentou com uma “trindade” de composições: as suas músicas, as de Mozart e as de Haydn (esses dois mais antigos do que ele) e nem por isso foi desconsiderado ou preterido como alguém genial na história da música. Sem falar no jazz, que aí daria pano pra manga no quesito standard e nostalgia... O que eu cá com meus botões pensei? Que Paul, um cavaleiro e Beatle milonário, passava de carro pela Avenida Beberibe de janela abaixada, acenando pra Deus e o Mundo, enquanto nos dias de hoje qualquer “restartzinho” mal olha pra cara dos seus fãs e dá “piti” se alguém encostar no seu carro! Enquanto eu vejo artistas que mal têm uma carta na manga, Paul McCartney tem um Royal Straight Flush é dá lições de cordialidade e gentileza, ao cumprimentar e tirar fotos com soldados da Polícia Militar de Pernambuco e ao abraçar crianças. Paul se esforçou deveras pra falar quase a metade do seu discurso em português, apelando até para certos regionalismos, como “Salve a terra de Luiz Gonzaga”; “Povo arretado” e pra voltar ao palco empunhando a bandeira de Pernambuco. Pierre Bourdieu (2005) dizia que não existe ato desinteressado. É evidente que a cortesia de Paul e o seu show multimídia lhe convertem grandes dividendos e aumento de prestígio entre seus fãs, mas Paul bem poderia não fazer nada disso que continuaria Paul com toda a sua áurea artística! E vamos conjecturar sobre o fato: e o fato é que Paul fez tudo isso! Entre Chico e Paul é difícil tecer muitas comparações. Mas saí com uma impressão de que o Show de Paul valeu mais o ingresso. Não necessariamente por questões de repertório, ou pelo fato de Paul se colocar como um multi-instrumentista ou como um cara mais descolado, mas por sua produção, pelo seu show de valor multimidiático forte (telões, pirotecnia, fotos, clipes) que deixam até os momentos antes de sua subida ao palco mais animados e interessantes. Enfim, sobre esse aspecto Paul dá um “Sir / Senhor” show pra cima do biscoito fino de Chico. Com relação ao Recife, acredito que o fato dessa cidade receber Paul McCartney e Chico Buarque num mesmo fim de semana não é um acaso qualquer: é, de fato, um indicador de mudança, de um passo importante no cenário da música mundial.

Referências APPADURAI, A. Modernity at large: cultural dimensions of globalization. Mineápolis: University of Minnesota Press, 2010. BOURDIEU, P. Razões práticas: sobre a teoria da ação. [São Paulo]: Papirus, 2005. DENORA, T. Beethoven et l’invention du génie. Actes de la Recherche en Sciences Sociales, Paris, v. 110, p. 36-45, 1995. TATIT, L. Todos entoam: ensaios, conversas e canções. São Paulo: Publifolha, 2007.