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sábado, 24 de outubro de 2015

Cenários de Desertificação Cultural: O Cancelamento da MIMO 2015 – por Bruno Vitorino



Foi com um misto de surpresa e desalento que recebi a notícia, por meio do parceiro de blog Giba Carvalho, de que a edição deste ano do Festival MIMO seria cancelada em Olinda. A justificativa encontrada pelos organizadores do evento, num comunicado publicado em sua página no facebook, aponta para a falta de patrocínio para bancar todas as despesas de realização da etapa pernambucana do festival. Realmente. Imagino que em tempos de crise econômica (e isto é um fato), com a Administração Pública de modo geral na pindaíba e a iniciativa privada – que nunca teve muito interesse em apoiar a ações culturais mesmo no tempo das vacas gordas, diga-se – atuando no vermelho, fica no mínimo difícil para uma mostra “internacional” de música bancar o cachê de artistas que na maioria dos casos recebem em dólar ou em euro. E qualquer pessoa minimamente informada sabe o quanto a cotação dessas moedas tem operado na estratosfera das bolsas de valores ultimamente. Mas, mesmo diante desse cenário, a pergunta que não consigo tirar da cabeça é: por que só cancelaram a etapa Olinda do festival?

O fato é que a MIMO, que nasceu em 2004 “Mostra Internacional de Música em Olinda”, cresceu muito além de seu escopo original. Aclamado ano após ano por público e mídias, o evento se consolidou enquanto negócio, expandiu sua área de atuação para além dos concertos, conquistou outras cidades, deixando com isso de ser um conceito de festival para se tornar uma trademark que comercializa não somente shows, mas toda uma experiência de consumo de bens culturais de maneira massiva e gratuita. Assim, amparada pela irresistível pauta da democratização do acesso à cultura a qual fala em “tornar acessíveis ao grande público atividades de cultura e de artes no formato de espetáculos para a fruição[1], a MIMO (e não mais “Mostra Internacional de Música em Olinda”) tornou-se uma franquia potencialmente interessante tanto para empresas, que atrelam sua marca a um projeto cultural renomado, quanto para o Poder Público por todos os dividendos políticos que um evento desta natureza lhe traz. Por isso que mesmo diante de um cenário de crise e escassez de verbas para empreendimentos culturais houve patrocinadores, se não para bancar a realização da mostra em todas as cidades originalmente pensadas pela produção, ao menos, na maioria delas. Desta forma, ao que parece, acabou sendo apenas uma questão de cortar aquela cidade cujo estado tivesse menos recursos a oferecer, como numa espécie de leilão em que se descarta o pior lance. Do contrário, teriam cancelado, por exemplo, Paraty ao invés da “cidade-mãe” e “berço da inspiração” da MIMO, não é mesmo? Mas, não foi o que aconteceu, e deu no que deu.

Fonte: Facebook da MIMO. 
Obviamente que eu entendo a estratégia dos produtores sob a ótica do negócio: a MIMO é uma empresa que vende um produto na forma de evento cultural. Simples assim. O que não aceito é essa conversa mole, com ares de tragédia quixotesca, de heróis da resistência da arte pela arte sucumbindo à realidade intransponível dos fatos econômicos; esse papo furado de “Desculpem, mas lutamos até o fim por vocês, público amado.”, quando na verdade a decisão parece ter sido bastante racional e prática do ponto de vista empresarial. Leio nas entrelinhas disso tudo algo como: “Pessoal, Olinda tornou-se inviável financeiramente. O estado está quebrado e a prefeitura não chega junto. Além disso, Rio e Minas estão oferecendo condições bem mais interessantes. Vamos focar lá. Cancelem Olinda. Se der, ano que vem retornamos. Se não der, paciência.”

E como explicar Pernambuco e Olinda terem grana para encher os bolsos das celebridades decadentes da música nacional e dos arautos da pernambucanidade em eventos como carnaval, Festival de Inverno de Garanhuns e editais de fomento, e deixarem escorrer pelos dedos a realização em suas terras do maior festival de música instrumental do país? E o Governo Federal, que também fomenta a mostra, não liberou mais recursos de modo a garantir a realização da etapa Olinda da MIMO por quê? Vai por a culpa na crise pela qual jura de pés juntos não ser responsável? Onde fica toda aquela conversa de que cabe ao Estado garantir por meio de políticas culturais a manutenção de programas e ações de interesse público? Meu coração teria ficado mais tranquilo se eu visse um pouco mais de franqueza e menos pirotecnia retórica por parte de todos os atores envolvidos nesta história, e meu juízo certamente não estaria lançando sobre mim perguntas tão incômodas.

Diante de tudo isso, resta-me apenas lamentar que Pernambuco acabe perdendo um dos mais importantes eventos culturais do estado - dentre os poucos que ainda possui. Evento este que colocava, de certa forma, este pequeno vilarejo com febres de megalópole cultural do Brasil (quiçá da galáxia!) que é o Grande Recife na rota mundial da cultura; desmistificava a música instrumental para um vasto público pouco familiarizado com ela; trazia para cá grandes nomes da atualidade que antes só passavam, quando muito, por São Paulo e Rio; promovia o intercâmbio de culturas e materialidades do sensível por meio dos concertos e etapas educativas; proporcionava novas formas de interação e ocupação do patrimônio histórico, tornando-o vivo e integrado com o tecido urbano; e, de quebra, ainda enchia de vida as ladeiras de Olinda, mostrando todo o potencial da cidade que fica ocultado pela inércia da municipalidade.

Cabe agora aos daqui se contentar com os mega-espetáculos de pagode romântico, axé music e forró estilizado; com as festinhas de brega cult que proliferam por todos os redutos descolados desta província; com as figurinhas repetidas que se acostumou a ver periodicamente nos eventos promovidos pelo Poder Público (especialmente no carnaval); e com os festivais indie de música cujas bandas trazem como único mérito artístico serem absolutamente desconhecidas do público geral e cultuadas tão somente por sociedades secretas de hipsters. Mas, não faz mal. Desde que nossa classe artística tenha um FUNCULTURA para chamar de seu e o recifense descolado encontre seus falsos ícones locais para reverenciar - o do momento se chama Johnny Hooker - acreditando-se no centro do universo das Artes, tudo correrá bem. E assim, de delírio em delírio, vamos negando a desertificação cultural que nos assola com cada vez mais contundência.



[1] MIRANDA, Danilo Santos de, “Apresentação” in WU, CHIN-TAO; “Privatização da Cultura: A Intervenção Corporativa nas Artes desde Os Anos 80”, Boitempo Editorial, São Paulo, 2006, pág. 21.  

terça-feira, 28 de julho de 2015

A Iconoclastia do Engodo - Por Bruno Vitorino

O cantor pernambucano Johnny Hooker - fonte: Google Imagens.


Acabando nós todos cegos, como parece ir suceder, para que queremos a estética? – José Saramago[1]


Se contada nos dias de hoje, a lenda de Hércules teria não doze, mas treze trabalhos heroicos. Acreditando ser possível a insanidade de reinventar o mito em nosso tempo, o semi-deus estaria a mando não de um Euristeu, rei covarde e fraco, mas de um novo rei sem rosto, hipócrita e mimado que age no invisível, nos limites entre a realidade humana e o mundo imaterial dos bytes, porém que a tudo controla e vigia: o Facebook. Para o filho de Zeus, protegido de Palas Atena, não seriam mais necessárias uma força sobre-humana ante os obstáculos, um destemor impávido frente às manifestações bestiais dos caprichos dos deuses e uma bravura rutilante de se embrenhar nos além-mundo dos homens. Tudo isso seria inútil, vão. A ele não seria exigido mais que uma paciência interminável e uma consciência profunda do gritante despropósito de suas tarefas.

Em meu delírio, exercício deliberado do anacronismo e das atribuições errôneas, imagino que, logo após enfrentar a hidra, aquela besta do mundo subterrâneo, de corpo disforme, com inúmeras cabeças mesmerizadas a esconder uma outra de contornos mais definidos, tez avermelhada e dona de um raciocínio cinicamente partidarizado dissimulado em gritos de fúria retórica, a qual ocupa os armazéns do Cais José Estelita avocando para si a exclusividade em proteger a joia do Estelita; deveria nosso Hércules contemporâneo encarar o trabalho extra que lhe imputou seu novo suserano: ir a um vernissage cult e descolado no lounge do novo Roof Tebas embalado ao som do disco de estreia do cantor pernambucano Johnny Hooker, “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!”. Pois, só na condição de semi-deus para suportar uma audição a sério desse trabalho (e por “a sério” entenda-se “de forma concentrada, minuciosa”, partindo do pressuposto que há nele algum valor estético).

Em seu disco, Hooker faz da canção a plataforma do escracho e da dor de cotovelo brega cult de maneira muito sagaz - obviamente não do ponto de vista musical ou poético -, pois, sendo a persona que incorpora um gay libertino, coloca seu trabalho artístico num campo minado moral patrulhado tanto pela sociedade descentrada da pós-modernidade quanto pelas minorias ativistas e seus seguidores. E ao fazer isso, o cantor assenta seu trabalho (e ele sabe disso, imagino) num território inacessível à crítica, a qual, sem o menor trabalho (especialmente a local, bairrista ao extremo), logo arruma meios para enaltecer o viés “performático, provocador e iconoclasta” do artista pernambucano em textos marcados pelo oba-oba laudatório, de brodagem clientelista, endossando, assim, o elogio mútuo de uma forma que só uma dispendiosa assessoria de imprensa poderia proporcionar. Jornalismo cultural domesticado que, deixando-se levar pelo complacente espírito do clubismo e pela lógica passageira das tendências, substitui a reflexão estética pela chancela de valor das estrelas de sempre e dos “queridinhos” do momento. Negócios, enfim.

Qualquer análise mais a fundo que exponha a fragilidade da condição artística do cantor periga ser desqualificada pelas armadilhas das questões minoritárias de gênero - neste caso a tag “homofóbico” logo me vem à tona - e seu autor, de ser vilipendiado publicamente nas infinitas terras do rei de hoje. Sei disso. Mas, ousarei aqui correr o risco, pois parto de um pressuposto humanista muito elementar: todo ser humano tem alma, independente de cor, credo, nacionalidade, classe sócio-econômica e opção sexual. E é essa essência que sente, chora, ri, essa coisa sem nome, única, que trazemos dentro de nós que me interessa, não o papel social que seu invólucro desempenha. O mais é puro supérfluo, e eu não cometerei o erro generalizado de substituir a essência pela carapaça. Outra coisa: até onde me consta, sou livre para pensar, e na condição de crítico musical tenho a obrigação de problematizar uma obra, gostando ou não dela, e de lançar um olhar independente que, além de qualificá-la, perceba suas relações com a realidade que a circunda.

Previamente esclarecidas algumas questões para uma eventual patrulha dos moralistas inveterados da contemporaneidade e da cavalaria da Verdade Comportamental do rei Facebook, e mirando no que importa, resta dizer que o disco de Johnny Hooker é musicalmente fraco, porque se baseia no cansativo lugar-comum da estética brega-cabeça da classe média recifense, releitura higienista da periferia apesar de se dizer o contrário, que elevada à categoria de arte tomou conta da produção musical desta pequena vila. Tudo bem que os arranjos de metais são surpreendentemente bem feitos e bem executados, e que Hooker sabe, ao menos, projetar sua voz com algum cuidado nos timbres e na afinação. Algo por si só raro dentre os cantores da “cena” recifense, supondo logicamente que não esteja o Pro Tools e outras maquiagens eletrônicas a nos fazer de tolo. No entanto, é muito pouco para salvar o disco de uma banalidade sonora que remete a uma quase modorra.

Além disso, o álbum é poeticamente vulgar - para muito além das questões de gênero - pelo simples fato de ser mal escrito e chulo, denotando um amor caricato entre indivíduos desprovido de qualquer dimensão metafísica, romântica, digamos assim, que no final reduz os amantes a uma condição animalesca de pura carne na qual se relacionam tão somente por instinto, numa espécie de fauna selvagem e exótica em eterno cio. Como fica evidente, por exemplo, na balada à trilha sonora de Tarantino Volta - “É impossível ter de escolher entre teu cheiro e nada mais” -, na “sofrência” com toques de guitarra surf music de Alma Sebosa – “Não responde meus recados, me trata feito lixo / Se não me quiser, não me procure nem mais pra foder”, na construção de óbvio duplo sentido do ska dançante Chega de Lágrimas – “Chega de lágrimas, eu vou meter... / O pé na estrada / Me livrar de você”, no carimbó Boato – “Bebo o leite quente do amor da gente / Nada me satisfaz”, no pop brega Você Ainda Pensa? – “Você ainda pensa em mim quando fode com ele?”, no pastiche de frevo canção Desbunde Geral – “A gente se pega, se bole e se morde no chão de estrelas / Que meu corpo receba o desbunde geral”. E fica nisso.

“Mas Bruno, você tem de entender que só o fato de um artista debochado como Johnny Hooker existir já é, por si só, um ato de coragem, e não reconhecer isso é, no mínimo, preconceituoso sim!”, pareço estar ouvindo a repreensão de Sua Majestade Rede Social. Aí, alteza, com toda a humildade devo dizer que discordo duplamente. Embora que não considere aqui primordial a questão de gênero, como já disse antes, claro que enxergo que o lugar da fala tem sua relevância para entendermos as questões do discurso. Bourdieu e tantos outros já discorreram sobre isso em inúmeros trabalhos. Porém, não importa aqui a sexualidade do interlocutor do discurso poético, ou seja, de onde vêm os enunciados, pois qualquer que seja ela não salva a baixeza da mensagem em si. Eis a primeira discordância.

Já em meu segundo desacordo digo que, se olharmos com cuidado para o álbum do cantor recifense como um todo, veremos que ele mais parece se situar numa butique de luxo de um estilista qualquer ou num apartamento bacana nas áreas mais exclusivas da cidade com o simples intuito da controvérsia efêmera, do que nas trincheiras cotidianas da luta da comunidade LGBT na batalha pelo respeito, dignidade e reconhecimento a que tanto faz jus. “Ah, mas é uma performance artística, Bruno! Por favor...”, grita impaciente o rei. De fato, Majestade. Mas, o que fica dela? Um choque gratuito? Uma polêmica midiática vã? Uma sedição mercantilizada? É para isso que serve a música? É esse o grande mérito artístico de Johnny Hooker? Se for, acho muito pouco. E se é para dar um exemplo de uma notável produção artística de gênero, prefiro muito mais, em termos de realização cultural e repercussão na sociedade, um filme como “O Segredo de Brokeback Mountain”: uma obra de arte com incomparável beleza plástica, conteúdo emotivo, críticas contundentes a modos e costumes arraigados na tessitura social e reflexões bastante pertinentes e fundamentais sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. O lugar da fala e o conteúdo da fala estabelecendo entre si um forte vínculo através de um trabalho de vasta densidade estética, cultural e artística.

Por estas razões, vejo em todo o frenesi promovido pela imprensa e público em torno da figura artística de Johnny Hooker como uma declaração contumaz de que estamos mal, mas muito mal mesmo, em termos de Cultura, e que “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!” é apenas mais um dentre tantos outros álbuns desnecessários provavelmente fadado a, dentro de mais alguns meses, cair no total esquecimento, substituído por um novo e lucrativo modismo transgressor de ocasião. 






[i] SARAMAGO, José; “Ensaio Sobre a Cegueira”, Companhia das Letras, São Paulo, 2014, pág. 128.

domingo, 28 de junho de 2015

Variações em 4/4: Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!



Na coluna deste mês, os editores do blog comentam o disco de estreia do cantor pernambucano Johnny Hooker, “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!”

Boa leitura!

- Giba Carvalho:

Johnny Hooker é uma mistura de Cazuza com Ney Matogrosso da Rua da Moeda. A afirmação pode parecer irônica, mas, não tem nada de ironia na mesma. Escrachado nos vocais como o ícone oitentista, performático como gigante Ney e recheando seu disco com tudo aquilo que é modinha na cena cultural recifense (quiçá brasileira), o ator-cantor pernambucano vem galgando seu espaço a passos largos dentro da carente música nacional.

“Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!” (EVFUMPTA,M!) é um animado disco de dor de cotovelo daquelas de arrombar! Lágrimas incontidas, berros e emoções aflitas são os principais fatores encontrados no disco. E o garoto não compõe mal com seu palavreado usual, cru e urbano.

Musicalmente falando, ao contrário do que se propaga por aí, o referido álbum não é a “salvação inovadora do mercado”. Mas, ressalto três pontos bastante interessantes:
Os arranjos de metais do álbum são primorosos! 
Inegavelmente, o trabalho de Hooker tem personalidade. Para mim, este é um ponto de grande valia.

E, o principal, embora muitas vezes parecendo com Cazuza, o rapaz canta bem. E isto, num meio que perpetua e idolatra “Otto`s, Trummer`s e Buhr´s” (onde o bonito é cantar mal), é uma diferença IMENSA!

“EVFUMPTA,M!” é daqueles álbuns que será bem recepcionado nas festinhas “descoladas” de Recife, passando pelos “pega-bêbo” onde cornos choram as suas lágrimas e em vários Mp4 da “tchurminha” da cidade. Se isto vai enquadrar-se no seu conceito pessoal de música popular, já é outra história. Vou mais além. Conscientemente ou não, o disco de Hooker é um trabalho lançado no momento exato para fazer sucesso e passa longe de qualquer postura “careta” e “conservadora”. Particularmente, não é o que costumo (e gosto) de ouvir, mas ainda assim, prefiro o escracho a sacarose exacerbada da MPB Cupcake, tão propagada aos quatro ventos.

Destaco no álbum: “Volta”,  “Alma Sebosa” e “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito”.


- André Maranhão:

O álbum de Johnny Hooker é bom, assim como a sua eleição de melhor cantor de canção popular, no último Prêmio da Canção Brasileira, é positiva. Há algum tempo, a música produzida em Pernambuco que propõe uma estética vinculada ao BregaCult, ou ao Pop, não apresenta em sua linha de frente tantos artistas afinados e que, ao mesmo tempo, criam trabalhos autorais bem feitos. Pelo contrário, é possível nos depararmos com performers muito mais cuidadosos com seus elementos gestuais, figurinos do que com a precisão e segurança dos seus cantos. Diferentemente, Johnny Hooker consegue se fazer um bom cantor, ao mesmo tempo em que se vale de maquiagens chamativas e traz consigo um figurino interessante, cujas influências de Secos e Molhados, David Bowie e do Tropicalismo podem ser claramente apontadas. Em seu disco, as faixas que mais chamaram a minha atenção foram “Alma Sebosa”; “Volta”; e “Você Ainda Pensa”. De modo mais amplo, as canções de Johnny Hooker trazem poucos acordes, melodias claras, bem executadas pela banda, como também letras coloquiais e bem escritas. Portanto, creio que o trabalho de Johnny Hooker consegue atrair pelo fato de nos oferecer o que há de virtude quando a forma do simples se apresenta de maneira bem executada.

- Fernando Lucchesi:         

Não é fácil categorizar “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!”. O disco de estreia do pernambucano Johnny Hooker é uma junção de tudo que há de mais popular na música brasileira. Há brega, pop, um pouco de rock e até mesmo frevo. A temática das músicas de Hooker gira em torno das relações amorosas e os sentimentos que delas derivam como tristeza, mágoa, felicidade, superação e, eventualmente, do perdão quando do fim do relacionamento.  O que chama a atenção são os arranjos “bregas” (coloco entre aspas, pois são mais baseados em gêneros caribenhos do que no brega feito e produzido no Brasil) e a voz rascante e melodiosa de Hooker que se encaixa perfeitamente na dramaticidade das letras.

Os destaques do disco são, além da faixa título, “Volta” (um bolero com roupagem moderna), “Alma Sebosa” (que segue a mesma linha das duas anteriores), “Chega de Lágrimas” e “Amor Marginal” (curiosamente as cinco primeiras músicas). O resto do álbum é interessante, mas as faixas não são tão intensas como as acima citadas, porém são bastante coerentes com a ideia central do disco. Ótima estreia de Hooker.


- Bruno Vitorino:

Um disco que mergulha no clichê da dor de cotovelo e se vale do cansativo lugar-comum da estética brega-cabeça da classe média recifense que, elevada à categoria de arte, tomou conta da produção musical desta pequena vila, com letras escrachadas sobre amores mau resolvidos e estereotipados, só que cantados por um artista jovem, performático e com forte apelo à mídia que sabe, ao menos, como projetar sua voz (o que por si só já é raro no Recife), e que eu não aguentei ouvir até o final: eis o máximo que consegui escrever com o pouco lastro que “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!” me proporcionou.

Ouça até o fim, se for capaz.

domingo, 5 de janeiro de 2014

O Rei, o Kitsch e o Conformismo - Por Bruno Vitorino



Não olhe para baixo
Não olhe para baixo
Ou a fera abissal da não conformidade
Pode incutir alguma verdade desagradável
Em sua mente insensível

Thomas Haake


Quando Reginaldo Rossi morreu, a repercussão foi imensa. Nas redes sociais, lágrimas em html, hashtags pesarosos e lamentos de internautas que se sentiam acossados por um mundo injusto que os priva dos verdadeiros artistas, deixando-os desamparados, sem referência, sem imagens sacras para cultuar. Na grande mídia pernambucana, bairrista que só ela, não se falou em outra coisa: como a Música Popular Brasileira (assim mesmo com iniciais maiúsculas) perdeu com a morte desse grande ícone. O mundo - quiçá a galáxia! - não seria mais o mesmo sem esse recifense tão ilustre e inovador. Só que ou eu enlouqueci ou sou o único são nesse “sanatório geral”. Em que momento de sua carreira Reginaldo Rossi fez arte? O que é sua obra senão a degeneração do que um dia fora a música romântica da Era de Ouro do rádio? Onde foram parar as fronteiras estéticas as quais separavam o brega, uma música popularesca que versa de maneira rudimentar sobre o amor e suas intercorrências no cotidiano da grande massa, daquilo que se convencionou chamar de MPB, gênero estritamente ligado à classe média que sempre defendeu um suposto refinamento intelectual da cultura popular? Algo não batia.

Não pense o senhor que sou um filho da puta arrogante e frio incapaz de sentir qualquer compaixão pelo próximo. Longe de mim tal postura. Honestamente, lamentei pelo ser humano Reginaldo Rossi que sucumbiu a uma doença cruel como o câncer e que certamente deixou uma lacuna em seus familiares e amigos que só o tempo tornará mais suportável. Externo aqui minhas mais sinceras condolências. Com sua morte, perdeu-se um ídolo das multidões, partiu um entertainer dos maiores. Isso é inegável! Mas, daí a querer transformá-lo numa sumidade da cultura é forçar por demais os limites do bom senso e do juízo histórico do que se definiu por Arte (com “A” maiúsculo mesmo). Recuso-me a admitir que exista experiência artística numa música simplória que faz da cafagestagem, da mesa de bar e do “chifre” seu mote. É bom não esquecer que o brega é um estilo que nasce do contexto sócio-econômico-cultural extremamente precário que marca nosso país de contrastes. É uma manifestação cultural, no sentido antropológico, de uma vasta camada da população que fora deliberadamente excluída do processo civilizador – educação, saúde, moradia, cultura – pelos Donos do Poder e está destinada a cumprir um papel social de submissão no continnum da História. Ou você acha mesmo que um jovem entregador de água mineral tem as mesmas chances de um garoto que estuda no Damas? Portanto, aceitar Reginaldo Rossi como triunfo da Arte é, de certa forma, referendar toda essa condição humana de pobreza e anuir que essas pessoas continuem onde sempre estiveram. É se conformar com a realidade tal como ela se apresenta. Além do mais, do ponto de vista estritamente estético, se o “Rei” é considerado Arte, então sou obrigado a aceitar o funk como música de protesto e de contestação do status quo, concorda? Assim, Anitta é a nova Elis Regina e a majestade pernambucana do brega é um letrista do mesmo quilate que um Aldir Blanc. Ora, sejamos francos! Reginaldo Rossi é, na melhor das hipóteses, divertido. E é fundamental separar o prazer banal do entretenimento fácil da densidade transcendental do ofício artístico.

O fato é que Arte, no sentido tradicional do termo, é algo supérfluo nos tempos da cultura de massa que homogeneíza gostos, dilui os conceitos, elimina os debates e ratifica o transitório. Não há mais espaço para a experiência única, particular e íntima da arte contemplativa, que requer do público um olhar reflexivo, feita por um artista-artesão que procura comunicar uma realidade interna. O que temos hoje é o fluxo contínuo dos estímulos sensoriais (a jukebox no café, o WhatsApp na reunião de amigos, etc.), o culto à personalidade que substitui a antes imprescindível criatividade, o vazio dos conteúdos e a pobreza das formas, a crítica acéfala que endossa o tacanho, o cultivo de esteriótipos, a intensificada estilização da vida e, o mais sintomático, o delírio fantasioso de negação da realidade cada vez mais presente nas subculturas jovens. E é exatamente esse aspecto que eu enxergo no fenômeno Cafuçu: meninos nascidos em berço esplêndido que se travestem de cobradores de ônibus tanto no linguajar quanto na indumentária para desfrutar a ilusão do bom gentil. Obviamente que o Cafuçu não quer encarar a realidade dura, de chão batido, daquele que o inspirou: trabalhar oito horas por dia num subemprego, ganhar o mínimo para sobreviver, usar um péssimo transporte público, fazer das tripas coração para criar seus filhos, morar num casebre em um bairro violento da periferia e encontrar uma breve paz de espírito num copo de conhaque de alcatrão. Não! Ele quer andar em sua bicicleta dobrável importada, chegar a seu apartamento na área nobre da cidade, ter comida na mesa servida pela empregada doméstica, usar seu iMac para acessar o facebook e que Papai lhe dê aquela tão sonhada viagem a Nova Iorque para que ele tenha o que falar na próxima ida ao Bar Central. Uma juventude chapa branca, conformista, especializada em arranhar superfície, que negligencia sua mais importante função: questionar! Algo bem distante daquela “juventude que não corre da raia a troco de nada” de outrora. Agora só o “verniz” importa.

Entendidas todas essas questões, é possível compreender como Reginaldo Rossi transpôs a condição de ídolo marginal do “povão” para se consagrar um dos sumos pontífices da alta cultura brasileira. Ele não foi reconhecido por sua grandeza e importância para essa camada da população. Ele foi cooptado pela sistemática lucrativa do kitsch, ressignificado como um ícone cult pelos setores da sociedade que definem o que é ou não digno de nota - os chamados formadores de opinião – e posto à venda como um artigo de luxo não mais para os personagens de sua música, mas para os moradores de imóveis de alto padrão. Tudo é deslocado no mundo Pós-Moderno e é fundamental enxergar todas essas camadas heterogêneas que se sobrepõem. Portanto, meu querido, não se deixe levar pelo “efeito manada” promovido pela imprensa e, ao menos, problematize o processo que criou o mito Reginaldo Rossi e pôs o brega no mais elevado patamar da manifestação humana. Cometa o mais mortal dos delitos contemporâneos: pense!