segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Entrevista com Fred Lyra - por Bruno Vitorino


Fred Lyra. Foto: Eládio Ferreira.

A pluralidade musical é uma das marcas mais indeléveis do Recife. Do frevo ao free jazz, a cidade acolhe uma gama de artistas que enveredam pelas mais diversas possibilidades expressivas que a música proporciona. Contudo, boa parte dessa produção é sistematicamente ignorada pela mídia convencional e jaz desconhecida pelo grande público. Buscando registrar/documentar o trabalho desses artistas, dou início a uma série de entrevistas com músicos pernambucanos. Nessa primeira edição, converso com o guitarrista Fred Lyra que fala sobre sua trajetória, projetos, planos e referências, muitas referências.

A teoria na composição musical não existe. No entanto, compor envolve uma profunda intuição de teoria” - Igor Stravinski

Bruno Vitorino - Primeiramente gostaria de perguntar: por que a guitarra? Fale-nos um pouco de sua trajetória.
Fred Lyra - Meus pais escutavam em casa, desde que eu era pequeno, muita música: Jackson do Pandeiro, Milton Nascimento, Bach, Debussy, Youssou N'Dour, Cesária Évora, música de várias culturas, países e línguas diferentes. Depois veio a guitarra e o rock: Black Sabbatt, Rage Against The Machine.  Através de  John McLaughlin conheci o jazz e a música clássica Hindustani. Depois que entrei na faculdade me aprofundei mais na música erudita e hoje divido meu tempo entre esta e a música improvisada, além de pesquisa em música indiana, africana e brasileira. Gosto muito de Bartok, Messiaen, Bach, Debussy, Ligeti, Stravinsky, Egberto Gismonti, Michel Leme, Steve Coleman, Steve Lacy, John Coltrane, Keith Jarrett, Afrocuba de Matanzas, Shahid Parvez, Benerjee. Destaco alguns professores que tive como: Thales Silveira, Sérgio Dias, Leonardo Melo, Itiberê Zwarg, Dierson Torres, Heraldo do Monte, Helder Araújo,e sobretudo, as aula com Steve Coleman, uma verdadeira mudança de como enxergar a música e a vida como um todo. Participei de vários grupos e toquei com músicos como Tim Berne, Paul Scea, Giuliano Modarelli, Ralph Alessi, Ramiro Mussoto, além ter morado um ano na Inglaterra e França. Atualmente toco com Mojav Duo, Nebulosa Quinteto, André Maria e Quarto Aberto, além de um trio de standards em bares e restaurantes. Também dou aulas na escola Tritonis.
BV - O projeto Mojav Duo traz uma formação bastante particular. Como surgiu a idéia de um dueto entre guitarra e bateria?
Mojav Duo por Eládio Ferreira
FL - Temos esse duo desde o começo de 2009. A primeira inspiração veio da música clássica indiana onde a formação básica é de percussão mais um instrumento melódico. No início, trabalhamos com um repertório de standards de jazz, brasileiros e cubanos. Tocamos muito Baden Powell, por exemplo. Tocamos esse repertório em algumas casas e bares do Recife. Em seguida, passamos a focar apenas nas nossas composições. Atualmente temos feito alguns festivais.
            O duo é um grande laboratório para testarmos novas ideias e conceitos. Aprendo muito tocando com Hugo Medeiros, pois ele é daqueles músicos inquietos que sempre aparecem com um desafio, uma nova ideia, o que faz com que as músicas sempre se renovem e nunca estejam engessadas. No Mojav Duo estamos aptos a experimentar e misturar todos os universos musicais pelos quais trafegamos. Algumas músicas são completamente arranjadas, outras abertas a muita improvisação. Desde o principio trabalhamos elementos da música africana, indiana e da improvisação jazzística. Hoje em dia estudamos bastante conceitos que aprendemos nos encontros que tivemos com Steve Coleman.
BV - As músicas do dueto fogem ao modelo AABA em 32 compassos e das cadências em II - V - I. Como é o processo composicional de vocês?
FL - Testamos muita coisa nos ensaios e trabalhamos vários conceitos. Às vezes, por exemplo, passamos horas tocando um único padrão rítmico. Tocamos composições minhas, de Hugo e parcerias nossas. Matenho uma gig semanal de standards, adoro tocar e aprender com eles, mas não é o tipo música que escuto dentro de mim. Minhas composições são inspiradas em tudo que estudo e escuto mas sobretudo no uso de modos e ciclos rítmicos e no conceito de centros tonais e modais. Creio que as influências do jazz, música erudita, brasileira, indiana, afro-cubana têm o mesmo peso.

BV - Se por um lado o Manguebeat deu destaque à produção musical pernambucana no cenário nacional, por outro a aprisionou numa abordagem regionalista caricata. Como é transitar fora desse padrão estético?

FL - A música é maior do que qualquer região, país ou corrente estética. Cresci ouvindo Chico Science & Nação Zumbi, Mestre Ambrósio, vou sempre ao carnaval, São João, trabalhei há três anos num laboratório de etnomusicologia onde faço pesquisas sobre maracatu junto ao CNPq (tendo inclusive sido premiado em congressos), gosto muito do mestre Valter (do maracatu Estrela Brilhante do Recife) do Bongar, Rabecado, Saracotia e vários outros. Tem muita gente que nasceu, vive e respira esses estilos. Outros estão neles apenas por questões mercadológicas. Procuro fazer a música que vivo. Ninguém precisa ficar se afirmando brasileiro ou pernambucano. Já somos desde que nascemos. Esta música é riquíssima por si só, não precisa desse tipo bandeira.
BV - Steve Lacy falava que "um músico que não toca está morto". Há julgar pelos poucos espaços para música instrumental no Recife, o que fazer para não morrer musicalmente?
FL - Buscar novas parcerias e tocar cada vez mais. A música é essencialmente ao vivo. Qualquer lugar pode receber música instrumental e qualquer pessoa é público em potencial. Steve Lacy, Michel Leme, Hermeto Pascoal, o AACM são inspiradores, pois sempre batalharam por isso. Existe público, mas ele, infelizmente, está distante. Há dois anos produzo a adaptação recifense do projeto "Jazz lá em Casa" e temos tido ótimos resultados. Para muita gente foi a primeira oportunidade de assistir à música improvisada. Um grande problema da música instrumental e da erudita é essa elitização que ambas sofrem. Como se fossem algo inacessível, uma coisa de outro mundo, "cool", intelectualoide, música para músico. E não é nada disso, é uma música como qualquer outra, possível de ser escutada e vivenciada por qualquer pessoa, de qualquer idade, renda e localidade. Mas, essa música não interessa ao sistema e este se encarrega de manter as pessoas longe dela. Nós, músicos, agravamos esta situação endossando esses conceitos, mantendo-nos distantes do público e uns dos outros. No momento que nos unirmos e passarmos a atuar como uma comunidade criativa, iremos aumentar significativamente os espaços, as possibilidades de trabalho e o público para esta música. Torná-la parte do cotidiano das pessoas. Creio que fazer a música em que acreditamos deve sempre ser o objetivo principal.
BV - Os dois meses de temporada no Teatro Joaquim Cardozo – julho e agosto - proporcionaram ao Mojav Duo a oportunidade de se apresentar constantemente e aprofundar seus experimentos. Qual o balanço que você faz desses concertos?
FL Foi uma experiência rara e engrandecedora. Fizemos nove concertos diferentes  nos quais podemos desenvolver mais a nossa música. Podemos chegar a um novo público e compartilhar a música com várias pessoas diferentes. A cada noite tivemos um ou mais convidados participando dos concertos. Tivemos os músicos: Cecília Pires, Caio Lima, Alípio C Neto, Luciano Emerson, Paulo Arruda, Mateus Alves, Enoque Ribeiro, Bruno Vitorino, Walter Areia e Wallace Seixas. Além destes convidamos a bailarina Liana Gesteira, o artista plástico Daniel Araújo e o grupo de teatro performático Totem, com as performers Lau Verissímo, Taína Verissímo, Gabriela Holanda e Juliana Nardin, além do diretor artístico Fred Nascimento, que também fez um som conosco. Também gravamos alguns vídeos com o cineasta Luís Henrique Leal, com a ajuda de Paulo Sano e Diogo Guedes. Foi muito gratificante fazer um som e aprender com todos, esperamos fazer mais em breve. 

BV - Quais os planos para o futuro?


FL - Basicamente estudar, tocar e compor mais. Esperamos poder gravar o primeiro disco do Mojav Duo até o final do ano. Também conhecer e tocar com outros músicos que estejam nesse mesmo caminho e colaborar mais com outras artes: dança, teatro, cinema, as artes plásticas são universos maravilhosos. Acho que o caminho da música é cíclico, não varia muito, mas, vai se tornando cada vez mais profundo e exigente. O universo musical é tão vasto que uma vida é muito pouco para o compreendermos bem, estou apenas iniciando nele, tem muita coisa para ser aprendida, escutada e escrita.


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Lanny Gordin (Por André Maranhão Santos)

Estávamos eu e meu amigo Yuri Bruscky no Bar Frontal, Centro do Recife, durante os fins de julho. Após uma apresentação dos nossos amigos do Ram Trio – uma turma do Chile que faz um som pra lá de eletroacústico, lembro-me que conversávamos sobre os trabalhos de Caetano Veloso e um dos pontos em questão era a relevância dos produtores e músicos que compuseram os discos de Caetano. Ora, num ponto como este seria inevitável que eu não pensasse nas guitarras de Lanny Gordin.

Lanny foi e ainda é, um músico excepcional. Recebeu a alcunha de Hendrix Brasileiro no glossário guitarrístico e, de fato, em algumas gravações seu estilo se aproximou muito como o de Hendrix. Porém, eu diria que há certo limite em estabelecer um paralelismo entre Lanny Gordin e Jimi Hendrix. Não por Lanny ser um guitarrista maior ou menor do que Hendrix, mas pelo fato dele dominar a Bossa Nova, o Jazz e o Samba além do Rock n’ Roll, como também tocar o violão de Náilon além das guitarras stratocaster, acústica, semiacústica e dos efeitos wah-wah.

Lanny é o apelido de Alexander Gordin que nasceu em Xangai, na China, no seio de uma família judaica russa e polonesa. Depois da China, Lanny mudou-se para Israel, onde viveu até os seis anos de idade. Só veio para o Brasil com seus pais: primeiro para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo. E foi na capital paulistana onde o seu pai abriu uma boate conhecida como Stardust (localizada na Praça Roosevelt no centro da cidade). Na Stardust, o jovem Lanny teve o privilégio de conviver ao lado de grandes monstros da música, dentre eles Hermeto Pascoal e Heraldo do Monte, e na mesma época iniciou o seu primeiro trabalho profissional com a cantora Wanderléa, leia-se em pleno auge da Jovem Guarda. Neste mesmo período, Tony Osanah (guitarrista dos Beat Boys) foi até a Stardust ouvir a guitarra de Lanny e tentar uma conversa com ele. Ele propôs que Lanny conhecesse Gilberto Gil. Lanny topou. Ele e Gil se conheceram, tocaram juntos durante quinze minutos. Resultado: Lanny foi convidado para integrar a onda da Tropicália e ainda por cima foi apresentado a Gal Costa para contribuir em seu futuro disco! 

Lanny tornou-se uma figura mais conhecida por atuar como sideman de vários artistas fundamentais. Se pensarmos em termos de álbum, encontraremos suas participações em Caetano (1969); Araçá Azul (1973); Jards Macalé (1972); Gal A Todo Vapor (1971); Expresso 2222 (1972), Cuscuz Clã (1996) – enfim, apenas alguns exemplos mais emblemáticos... Lanny também assinou alguns títulos, sendo o mais recente o álbum Duos (2007) cujo repertório partilha com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Vanessa da Mata, Zeca Baleiro, Rodrigo Amarante, Edgar Scandurra, Jards Macalé, Chico César e Max de Castro. Outros encontros marcantes em sua carreira aconteceram com o projeto psicodélico do Brazilian Octopus, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Tim Maia, Jair Rodrigues, Itamar Assumpção, Sarah Vaughan e Ravi Shankar. Quando tocou com Elis Regina, Lanny foi apelidado por ela de “Lanny Rayovac”, dada a intensidade da sua guitarra. Hoje o seu instrumento de apresentações é uma Gibson Es 135, presenteada por Adriana Calcanhotto. Além de músico profissional, Lanny também deu aulas particulares de violão e guitarra em São Paulo. Apenas combinava o preço ao telefone e recebia os estudantes em sua casa. 

Guitarristas de admiração? Larry Coryell, John McLaughlin, Jimi Hendrix, Jeff Beck, Eric Clapton, Wes Montgomery, Joe Pass, Jim Hall, Al Caiola, Tony Mottola são alguns citados. Uma lista excepcional para qualquer guitarrista que procura várias linguagens em seu modo de tocar e perceber um instrumento não botar defeito. E após conhecer um pouco de Lanny e saber que ele vivenciou e contribuiu na trajetória de gente das linhas mais variadas, eu diria que ele é não é apenas um guitarrista excepcional, mais além; Lanny Gordin é uma encruzilhada de experiências estéticas!

Lanny Gordin com Caetano Veloso no Araçá Azul
 

                                           
                                Lanny Gordin tocando Fly me to the Moon

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Adega ou o Dia em que Conheci Tony Yucatan - por Bruno Vitorino


Era um dia ensolarado. Surpreendentemente ensolarado para o inverno imprevisível do Recife. Talvez por isso não estivesse tão quente e a brisa parecesse quase preguiçosa ao acariciar a copa das árvores. O relógio do celular marcava exatas 11:53 e a revolução gástrica que se desenrolava em minhas entranhas me fizera ter a certeza de que a fome chegara e não estava para brincadeiras. Depois de uma manhã trabalhosa e cansativa – mais uma entre tantas outras passadas e por vir – resolvi gastar meu horário de almoço da melhor maneira possível e me permiti a extravagância de não comer mais uma marmita naquela segunda-feira. Lembrei-me então do que Giba Carvalho havia me dito sobre o restaurante português Adega e seus pratos muito bons a preços bem razoáveis. Resolvi arriscar.
Quando entrei, não havia cliente algum. Num amplo salão com mesas postas, dois garçons conversavam com um senhor franzino de terno num clima amistoso. “Me lasquei. Ou é tudo muito caro ou é tudo muito ruim!”, pensei de imediato. Notei um piano Fritz Dobbert de meia cauda... Jazia encoberto num canto do salão, como se sua presença ali causasse algum constrangimento. Fiquei desconfiado... Optei por uma mesa longe dele, porque se há algo que realmente não aturo é o mórbido “repertório restaurante padrão” que se costuma ouvir nesses ambientes. Vasculhei o cardápio e depois de resolver a equação “preço x vontade = prato do dia”, fiz meu pedido: um arroz de polvo e uma coca-cola.
Conversava as costumeiras amenidades com os amigos Mário Alves e Sérgio Costa, quando, de repente, ouvi um acorde menor. Não sabia ao certo qual era, mas tinha certeza de que era menor. Os harmônicos inerentes ao piano acústico chamaram minha atenção. Olhei para onde ele estava e lá encontrei o “senhor franzino de terno” com o rosto calmo a atacar com delicadeza as teclas. O tema era o exaustivamente batido Besame Mucho, mas havia algo diferente em sua interpretação... “Esse cabra tem uma expressividade danada”, comentei. Parei de falar e me concentrei na música. Percebi então que sua abordagem dessa composição presente em todos os casamentos e bailes de formatura – quando as orquestras começam o bloco latino do repertório – privilegiava encadeamentos harmônicos complexos. Cromatismos, voicings cheios de tensões, substituição de acordes dominantes, acordes de sexta napolitana, resoluções deceptivas; tudo estava acontecendo ali na minha frente na hora do almoço numa segunda-feira aparentemente comum e despretensiosa! Fiquei boquiaberto!
O almoço fora servido, contudo meu cérebro estava dividido entre o deleite de devorar (a fome era implacável nesse instante) o prato e a curiosidade de ouvir aonde o pianista iria chegar. Veio-me então uma ideia: pedir uma música. Nunca fiz isso em toda a minha vida, mas aquela me pareceu a oportunidade para tanto. Chamei o garçom e lhe perguntei discretamente sobre a possibilidade de solicitar ao pianista um tema. “É totalmente possível, senhor.” Então, num pedaço de papel, escrevi: “O senhor toca alguma coisa do Thelonious Monk?” Fiquei esperando a reação do instrumentista ao ler meu pedido. Estate, a bela composição dos italianos Bruno Martino e Bruno Bringhetti, era tocada em rubato no instante que o bilhete fora entregue. Pelo menear de cabeça e o sorriso irrefreado, notei que minha solicitação fora recebida com muita alegria pelo músico. Enfim, alguém o ouvia tocar!
Um fechado acorde Ebm ecoou. Era Round ‘Midnight numa interpretação surpreendente ad libitum! Foram dois giros sobre forma da composição: o primeiro mais focado na exposição do tema e o segundo mais empenhado em subvertê-lo harmonicamente. Não houve improvisação, porém as nuances na dinâmica do andamento e a alternância expressiva que abarcava do p ao fff davam à interpretação do músico uma força que eu não esperaria encontrar num restaurante. Particularmente fiquei entorpecido com a rearmonização feita no “A” do tema no trecho em que a progressão original faz “Bm7 E7 Bbm7 Eb7” e em todo o “B” no último chorus. Acordes carregados – que até agora estou a procurar – levavam a melodia a uma paisagem bela e longínqua. O mesmo Ebm que iniciou o tema pôs o ponto final na releitura. Para o espanto de alguns clientes, aplaudi.
- De onde você conhece Thelonious Monk?, foi o que o pianista primeiro quis saber.
- Monk é uma de minhas principais referências.
- Você é músico?!
- Eu toco num trio de jazz e tenho um grupo de música livre.
- Que ótimo! É bom saber que existem jovens músicos interessados em tocar e compor essa música.
- Qual o nome do senhor?
- Tony Yucatan.
- Fiquei muito feliz em conhecer o senhor e mais feliz ainda por ter sido surpreendido com sua interpretação tão pessoal desse tema. Obrigado!

As segundas costumam ser vinculadas ao esforço do recomeço da rotina e à indolência que nasce da necessidade de se entrar no ritmo. Já a música de restaurante é habitualmente marcada pela insipidez da banalidade e pela esterilidade emotiva dos instrumentistas que tocam para uma plateia que não ouve. Geralmente é assim. Porém, quando o inusitado nos toma de súbito nas ocasiões mais corriqueiras e desvela o manto burocrático da rotina, percebemos uma beleza oculta que reside no indeterminado. É só prestar atenção!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Mad Men - por Fernando Lucchesi


Você é daqueles que acredita não sofrer nenhuma influência da propaganda ao comprar qualquer tipo de produto? Se a resposta for positiva, você já parou pra pensar o que o (a) levou a adquirir determinado produto?  Se, agora, sua resposta for negativa, então, definitivamente você precisa assitir a “Mad Men”. A série retrata o dia-a-dia de uma agência de publicidade (no início da série chamada de Sterling-Cooper), localizada na Madison Avenue, Nova York, local que no início dos anos 1960 abrigava grande parte das agências.
A série tem como foco o diretor de criação da agência, Don Draper (magnificamente interpretado por Joe Ham) e sua equipe, o que não impede a série de abordar as situações e dramas vividos em outros setores com a mesma intensidade. Mais importante do que mostrar o cotidiano de uma agência de publicidade, a série capta diversas mudanças sociais e morais acontecidas na década de 1960: feminismo, drogas psicodélicas, homossexualismo, segregacionismo racial, divórcio, entre outros temas que causaram e ainda causam polêmica.
Um dos aspectos mais destacados da série é a reconstituição de época. O preciosismo com os detalhes não está presente apenas na ambientação da Nova York dos anos 1960, mas também nas atitudes dos personagens. Por exemplo, uma cena bastante comum é ver os pais fumando na frente dos filhos, inclusive quando estão dando almoço para eles; Os diretores e funcionários da agência consomem bebidas alcoólicas a qualquer hora do dia. Atitudes como essas seriam impensáveis nos dias de hoje, em que o politicamente correto impera.
Outro destaque da série é o elenco, com atuações sempre seguras e personagens que o roteiro, temporada após temporada, torna mais complexos e cheios de dúvidas. Como a série se passa durante os anos 1960 espere na trilha sonora uma gama variada de estilos musicais da época: rock n´ roll bem no seu início, blues, jazz, R&B, gospel, Beatles e uma seleção espetacular de artistas. A junção de todos esses elementos produziu cenas icônicas como a apresentação de Don Draper do “carrossel” da Kodak, a campanha da agência para ganhar a conta da jaguar e a campanha para a Lucky Strike tentando convencer o público a não abandonar a marca, a despeito da comunidade científica começar a divulgar os males oriundos do cigarro.
Gostaria de dedicar pelo menos um parágrafo para falar de Joe Ham e Elisabeth Moss, respectivamente Don Draper e Peggy Olsen. O primeiro faz um trabalho fabuloso fazendo o inverso do convencional. Em vez de “passar emoção”, ele se revela um grande ator ao mostrar um personagem que muito raramente demonstra a dita “emoção”. A segunda injeta ambição e obstinação em uma personagem que ganha destaque maior a cada temporada. Os diálogos entre eles estão entre os melhores da série.
Um coisa é certa! Goste ou não de Mad Men, o mundo da publicidade jamais será visto com os mesmos olhos!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O brilho de um garoto - por Gilberto da Costa Carvalho

     Há muito tempo Fernando Lucchesi insistia: "Tu tens que ouvir um cantor chamado Paolo Nutini". Eu, com minha tradicional relutância em aceitar estas novidades sonoras, sempre deixava o descaso tomar conta desta afirmativa.
     O dia era 10 de Julho de 2012, meu aniversário. Estávamos perambulando pelo coração da Boa Vista atrás de um depósito aberto para comprar as grades de cerveja da festa. De repente, num CD de vários MP3, eis que surge o tal garoto escocês. Fernando olhou para mim e disse: "Bicho, agora não tem como você não escutar."  De repente, após os primeiros acordes de "No other way", a paralisia. Quando algo me surpreende de forma avassaladora em termos musicais, eu costumo fixar o olhar em algum local, fico espontanemante parado para que possa perceber cada detalhe daquilo que bateu de frente. Ao término, viro para Fernando e digo - "Porra véio! Repete isso aí!"    
     Paolo Nutini é um garoto escocês, que surgiu no ramo musical em 2006 com apenas 19 anos de idade. "These streets" seu primeiro trabalho é recheado de música pop de excelente qualidade. Já nesta época ele se destacava por um fator preponderante, que não eram a carinha de galã descolado e descabelado. O timbre vocal do garoto o fazia tornar-se bastante diferente na safra de novos cantores britânicos. Nutini sôa bem mais velho do que parece. E isto impressiona sobremaneira! O primeiro disco virou logo sucesso e vendeu milhares de cópias. Os 3 singles do disco - Last Request, Rewind e New shoes foram insistentemente vinculados as rádios do Reino Unido.
     Como qualquer "novo sucesso" da mídia, todos esperavam um segundo disco de imediato. Nutini remou contra a corrente, e só 3 anos após o lançamento do primeiro album surge - "Sunny Side Up (2009)". Este trabalho marca a primeira revolução musical do garoto. A ambição de ser pessoal rege todo o disco. Saindo de um universo totalmente pop, o novo trabalho é tomado pelo "Folk Rock", e flertes com "Soul" e a tradicional "R&B". Risco? Que nada! O album estourou em primeiro lugar no Reino Unido recebendo inúmeros elogios dos críticos e fãs. Para mim, a voz sofreu alguns novos contornos que se tornaram essenciais para este sucesso. Mais amadurecido, Nutini conquista a cada dia mais fãs por onde passa, principalmente pela ousadia em inovar.
     De cara, o primeiro single do novo disco cai nas graças do público. "Candy" é uma baladinha com ritmo de verão europeu. Despojado como sempre, Nutini encanta com seu jeitão descompromissado de cantar as partes "pops", mas que termina a música com um show de potência vocal.
     Para falar de "No other way", preferi um parágrafo especial e único. Desde a primeira audição, dentro do carro, eu não consigo parar de ouvir esta canção. Há muito tempo não ouvia algo tão bem interpretado por um cantor da nova geração. É um verdadeiro soul! Com alma ,cara e jeito sessentista. Acompanhado de uma letra brilhante e de entrega, Nutini explora todo seu talento vocal com maestria similar aos grandes nomes do estilo. A interpretação do garoto é simplesmente espetacular e de dilacerar corações!



     Certa feita, um amigo músico que hoje reside no Rio de Janeiro me perguntou: "Giba, o que as gravadoras  procuram atualmente no mundo pop?" Na época eu não soube responder, mas, nunca esqueci tal questionamento. Tem certas coisas que ficam martelando na minha cabeça e só sossego quando acho a resposta. E a resposta para o questionamento é "Ré-invenção". Ao analisarmos um artista novo como Paolo Nutini, que em tão curta carreira já mostra para que veio, sem medo de errar e de inovar, podemos enxergar claramente todo o universo que se abre para nossas vidas e, principalmente, para nossos ouvidos.

E que assim seja! Vai em frente Paolo!


Abaixo, segue uma apresentação no Paleo Festival de 2011. Vale a pena conferir!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Meu Encontro com o Bip-Bip - Por André Maranhão



Estou em Botafogo num clima de férias. Férias, aliás, devidamente boêmias. Minha tese é a de que o morador do Rio de Janeiro deveria receber um auxílio boemia. Com tantas opções, paisagens e possibilidades, a cidade pulsa vida noturna em seus botequins e o morador do Rio não pode ficar desassistido! O carioca que paga o Imposto Sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) deveria gozar de alguns descontos e benefícios nos bares, afinal, a boemia carioca é um patrimônio e deve ser exercida com afinco.

Resolvi escrever às 3h30 da matina, pois o tempo é corrido até para os farristas. Aí preciso partilhar uma série de fatos boêmios e indissociavelmente musicais que ocorreram comigo ontem em Copacabana, mas antes de entrarmos na noite carioca, voltemos para o Recife. Na Manguetown, meu amigo Giba C. Carvalho recomendou inúmeras vezes que eu lesse um livro do grande Moacyr Luz – Botequim de Bêbado Tem Dono - um compêndio de causos, biritas e afins sobre os botecos cariocas. De tanto ouvir Giba enfatizar o livro do Moa, a minha curiosidade por ele só fez aumentar em meio às nossas farras.

Não deu outra: quando a minha viagem para o Rio se aproximou, Giba me emprestou o livro do Moa, o que foi crucial para a minha estadia em terras cariocas. Comecei logo a lê-lo no avião e graças ao estilo leve e com um pequeno número de páginas, a conexão que fiz entre Recife-Campinas-Rio de Janeiro, passou rapidinho. Zerei o livro durante a própria viagem de ida. No caminho, fui debulhando a narrativa de Moacyr Luz, cujos personagens são conhecidos por muita gente, enquanto outra parte é íntima apenas para uma pequena leva de biriteiros.

Antes mesmo de eu ler ou até conhecer o livro de Moacyr Luz, Giba frisava bastante pra mim: “Bicho, se você for ao Rio não deixe de ir ao Bip-Bip”. Vejam vocês como é a vida. Após tantas recomendações, fui bater no Bip ontem!

Natália Biserra, minha amiga de infância que mora no Rio há cerca de cinco anos, sugeriu um passeio legal pra eu fazer ontem. O roteiro envolvia pontos dos mais variados. Quando pus as sugestões de Natália em prática, meu passeio ficou mais ou menos nesta sequência: Botafogo, Humaitá, Jardim Botânico, Gávea, Ipanema, Leblon, Ipanema (de novo!), Arpoador, enfim, Copacabana! Ufa! Bem, num dia daqueles que a gente acorda com sangue no olho, banquei o Fidípides de Esparta e cruzei uns 25 quilômetros a pé (fazendo um cálculo por baixo pelo Google Maps). Um soldado na Batalha de Maratona!

Após caminhar sobre uma parte considerável da Zona Sul carioca, eu já tinha em mente a decisão de voltar para Botafogo, pois estava meio fatigado do dia andarilho. Porém, eis que surge uma daquelas grandes surpresas. Voltando pela Avenida Atlântica, avistei um botequim chamado Aboim e na mesma hora lembrei que ele estava registrado numa das passagens do livro de Moacyr Luz. Pensei imediatamente: “É a minha chance. Tenho que parar aqui!”. Não deu outra. Parei!

O Aboim é de uma descontração incrível. Fui tomar a minha saideira tranquilo e comedido. Peguei uma latinha de cerveja geladíssima e logo na sequência, conheci um boêmio de carteirinha chamado Mário, um grande Botafoguense, perto dos seus sessenta anos. Mário perguntou o meu time e eu disse que torcia pro Náutico. “Ah, o Náutico quebrou a gente” – Recordou o jogo mais recente entre ambos os clubes, cuja vitória foi do Náutico por 3 a 2 nos Aflitos. Tendo em vista os novos ventos de contratações que o Botafogo recebeu, os amigos de Mário não perderam tempo e foram mais rápidos que o Adobe Flash Player: já batizaram o cara de Seedorf! Só pelo apelido dá pra imaginar a fixação dele pela Estrela Solitária.

O grande Mário foi de uma imensa gentileza comigo. De cara, me informou que embora o nome do boteco na placa tivesse escrito Aboim, ele era popularmente conhecido como Bunda-de-Fora. Depois, Mário me perguntou se eu já conhecia o Bip-Bip. Tal indagação me remeteu de bate-pronto às recomendações feitas por Giba ainda no Recife. Mário ressaltou a importância do Bip-Bip e ainda por cima se dispôs a me levar lá. Não antes de me apresentar a Paulo César Pinheiro, que tomava uma por lá. Eu meio sem jeito topei a apresentação. Paulo César tirou uma foto comigo, aliás, duas. Na primeira tentativa perguntou se a foto tinha ficado boa. Como a foto não tinha vingado bem, ele fez questão de tirar outra. Feita a sessão de fotos, me despedi de Paulo César ainda meio sem jeito, porém ao mesmo tempo fascinado por ser apresentado àquele monstro da canção brasileira; ao cara que escreveu a espinha dorsal de Leão do Norte e juntou tantos símbolos ligados a Pernambuco numa canção, sendo ele incrivelmente um carioca imortalizado por construir letras de grandes sambas.  

Saindo do Aboim, com Mário, percebi sua popularidade nos botecos da redondeza. Mário era um conselheiro tutelar da cachaça! Falou com Deus e o Mundo em Copacabana, e enquanto parava para interagir com os amigos, dizia: “Este aqui é um rapaz do Recife, que veio pesquisar sobre os botecos cariocas. Eu tô levando ele pro Bip-Bip!”. Antes do Bip, ainda paramos no Ellas, outro boteco na mesma rua. Tomei mais duas ampolas de cerva com Mário e ainda por cima sentei à mesa com seus amigos.

No Bip-Bip, Mário me apresentou ao Alfredinho, o “proprietário” do estabelecimento, uma figura antológica da boemia carioca. Quando entrei no bar percebi que se tratava de um recinto inigualável. Um dos locais mais anárquicos onde bebi, de tal modo que Alfredinho não cobra a conta a ninguém! Pelo contrário, é o bebum que vai até Alfredinho e paga a sua parte no boca-a-boca. A maior coisa que o Alfredinho preza no Bip não é a grana, é a música. E da forma que ele preza parece não ter preço mesmo! Num espaço curtíssimo, encontrei fotos de figuras como João Bosco, Aldir Blanc, Moacyr Luz, Sérgio Nogueira. Todos eles deram diversas vezes o ar da graça no Bip-Bip.

Alfredinho logo me convidou para a apresentação de Renato Braz que começaria cerca de vinte minutos. Embevecido com todo aquele ambiente, topei na hora e ainda por cima convidei minha amiga Natália pra lá. Ela assistiu comigo ao show de Renato Braz ao violão e cantando à capella. Foi encantador. Enquanto Renato cantava, ninguém dava um pio e público só se manifestava após o final de cada número tocado. Basicamente, as manifestações eram ou alguma mudança de posições (para ver melhor a apresentação) ou pegar mais uma cervejinha no freezer (pra acertar tudo com Alfredinho no final do show, no boca-a-boca).

Pra fechar com chave-de-ouro, eu e Natália demos um jeito e ligamos pra Giba, que tanto frisou a importância do Bip-Bip em diversos momentos pra mim. E o mais incrível é que Giba comemorava o dia do seu aniversário no Bar Frontal em Recife enquanto eu tomava uns porres no Bip-Bip. Não tive dúvidas: Fazendo uma conexão-boemia, passei o telefone para Alfredinho que por sua vez mandou aquele beijo e abraço para Giba. É, meus amigos, a boemia não é escrava da distância!

domingo, 1 de julho de 2012

Lock, Step e Gone - Os 20 anos do Rancid - por Gilberto da Costa Carvalho


 
Falar do Rancid é complicado. São 20 anos de história que se confudem com uma parte essencial deste que vos escreve. Todos sabem que meu fascínio por bandas punks não é de hoje, no entanto, algumas ganharam meu respeito por não se dobrar a nada. Por remar contra a corrente e seguir seu caminho com muita dignidade.

A importância do Rancid, vem das palavras de Joey Ramone num dos Lolapalloza iniciais - "O Rancid é o futuro do punk rock. Eles são os Ramones melhorados!"

Em comemoração as duas décadas a banda começou a soltar alguns presentes para os fãs do mundo todo. Um deles é o que posto aqui. Uma apresentação antológica no Japão em 2004. Ainda com a formação clássica e histórica:

Tim Armstrong - Vocais e Guitarra
Lars Frederiksen - Vocais e Guitarra
Matt Freeman - Vocais e Contrabaixo
Bret Reed - Bateria

Honestamente, é uma das maiores porradas já vista na minha vida. Um show só de clássicos! Principalmente daqueles que para mim são os maiores discos dos anos 90 do estilo: And out come the wolves - 1994 e Life won´t wait - 1996. Quando falo sobre estes dois discaços, falo de tradição. O Rancid é uma das poucas bandas que não puxaram pro lado extremamente melódico que o estilo tomou com o dito "punk californiano". Curioso é que os caras são californianos, mas foram beber da fonte: Nova Iorque! No subúrbio de Manhattan é que o estilo se mantém vivo.

Para aqueles que ainda falam da simplicidade musical das bandas punks eu afirmo que o Rancid tem dois diferenciais. Lars Frederiksen que é um excelente guitarrista e, principalmente, Matt Freeman que é um dos melhores contrabaixistas do mundo.  O que ele faz em Maxwell Murder, sexta música da apresentação, é digno de uma estátua em praça pública.

Quer uma prova? Clica aí embaixo e anima teu domingo.





Para Angelo, Vareta, Romero, Cagão, Chorão e Ravi. Viva ao Lixo Tóxico.