Mostrando postagens com marcador São Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador São Paulo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O Que Ouvi de Interessante no Mês de Agosto: Parte I – Por Bruno Vitorino


Para mim, agosto foi um instante. Fugaz. Passou por mim esquivo como um lampejo, irrefreável como uma rajada de vento que não vê nada além de seu curso. Dele ficou apenas uma palavra: correria. Mas, no meio da tormenta que nasce da peleja entre o tempo e as obrigações inerentes a cada um, dediquei meus (poucos) momentos de calmaria e paz de espírito a ouvir alguns discos que foram lançados recentemente. Por isso, nesta primeira parte, busco aqui compartilhar com os que me leem, em comentários ligeiros (logo, denuncio, já insuficientes para abarcar a infinita grandeza da Música em seu esplendor inefável) alguns desses trabalhos que, de forma boa, chamaram-me a atenção.

Mônica Salmaso – Corpo de Baile:


Em seu mais recente trabalho, a cantora paulista resgata uma maneira quase esquecida do fazer artístico: o garimpo, o trabalho minucioso de pesquisa poética, musical e estética de obras que clamam por serem objetivadas na construção coletiva da interpretação. No caso em pauta, trata-se de pérolas geradas pela parceria entre Guinga e Paulo César Pinheiro que em sua maioria não haviam sido gravadas, e outras as quais pairavam esquecidas num passado longínquo. Gravado à moda antiga com os instrumentistas juntos no estúdio, o álbum traz 14 canções esmerilhadas pelos arranjos primorosos de Nailor Proveta, Nelson Ayres e Teco Cardoso, para citar só alguns, com instrumentação variada que nos remete a uma sonoridade camerística; base mais que adequada para acolher a voz precisa da cantora. Nos tempos em que a Música Popular Brasileira (se é que esse termo ainda faz algum sentido) nos brinda com falsas divas do sucesso comercial que de hit em hit vão se consagrando diante de um público cada vez mais inerte e homogeneizado, “Corpo de Baile” se impõe como um trabalho de resistência verdadeiramente artístico que, por teimosia e coragem, insiste em percorrer o contra fluxo do establishment. Um dos discos mais interessantes do ano até o momento. Nos vídeos abaixo, é possível ver o processo de gravação das músicas "Corpo de Baile" e "Rancho das Sete Cores", além de ouvir os comentários de Salmaso sobre elas:

- Corpo de Baile: 



- Rancho das Sete Cores: 



Rua – Limbo:


Na sequência do ótimo “Do Absurdo” (2011), os recifenses da Rua apresentam seu mais novo álbum – “Limbo” – e se estabelecem como um dos projetos mais interessantes da cidade. Subvertendo a lógica ocidental estabelecida para a canção que submete ritmo e harmonia à melodia enquanto elemento propulsor do desenvolvimento temático e suporte por excelência da palavra, a Rua se vale de padrões rítmicos assimétricos, que se sobrepõem, como forças norteadoras dos rumos da composição, gerando com isso um conflito métrico que obscurece, por vezes, as articulações da forma e a noção de pulso estável. Os acordes verticalizados são desconstruídos numa abordagem polifônica que vai tramando em torno da estrutura dos temas algum direcionamento harmônico de forte coloração modal. Não há aqui o canto das sereias dos movimentos cadenciais e das resoluções harmônicas aos moldes tradicionais que tanto seduzem nossos ouvidos viciados, e sim insinuações de ambientes sonoros, campos harmônicos subentendidos, amplos e abertos. E permeando toda essa densa estrutura está a melodia esculpida no ritmo a carregar uma poesia irreal (no melhor dos sentidos), apartada das vicissitudes cotidianas da experiência humana, que explora as margens da linguagem e o hermetismo dos significados. Um disco esteticamente ousado e musicalmente bem construído, como há muito não se via por estas bandas. Indispensável!


terça-feira, 2 de abril de 2013

O Que Eu Vi no Lollapalooza 2013 - Por Giba Carvalho


São Paulo, 02 de Abril de 2013. Segue compilado dos shows que escolhi assistir na minha primeira noite do festival:

Tomahawk – assistir a qualquer coisa que Mike Patton esteja envolvido é garantia de no mínimo ter a curiosidade aguçada. Já conhecia Oddfelows, último disco do Tomahawk. Achei a apresentação muito boa em todos os sentidos. Claro, pouco conhecida do público e, principalmente da grande maioria dos presentes, que aguardavam ansiosamente o Franz Ferdinand. Patton e sua trupe não fizeram feio. Soltaram o peso da tríade guitarra, baixo e bateria, acompanhados da voz ainda incrível do cara. Certamente um dos 3 melhores “frontmans” ainda em atividade no rock mundial. Simpático como poucos e com um repertório vasto de português (principalmente palavrões), o cara soube comandar o público. E saiu com a impagável – “Sou cachaceiro”.


Franz Ferdinand – por incrível que pareça, este foi o melhor show para o público presente em sua maioria. A banda soube aproveitar cada espaço do palco e cada acorde proferido a seu favor.  Com uma mescla muito bem feita dos seus trabalhos o Franz Ferdinand animou até pessoas que são longe de ser fã da banda (eu sou um destes). Outro fator bastante relevante é a qualidade dos seus guitarristas. A dupla formada por Alex Kapranos e Nick McCarthy  (este um grande guitarra-base) completa-se de forma impressionante. Lembro de comentar com um amigo no meio do show, que tal completude me fez recordar dos bons tempos dos Los Hermanos e a junção Camelo – Amarante (dois bons guitarras-base numa mesma banda).  Um show para ficar na memória de quem é fã.


Queens of The Stone Age – se pudesse resumir a apresentação da banda no festival em uma palavra, a mesma seria – DEMOLIDORA. Com o QOSA não tem essa conversinha de rock n´roll bonitinho e cheio de notas doces e melódicas. Como afirmou Fernando Lucchesi  - “O QOSA é uma banda que não abre concessão alguma em seu estilo de fazer o rock n´roll acontecer.”
 In-loco o público parecia bastante assustado com o que estava acontecendo. A banda não tem vergonha de tocar alto e de ser suja no que faz. Este é um ponto de extrema relevância para mim. Creio que faltam mais grupos deste estilo na música atual. Muitos buscam a fórmula do “bonitinho” e poucos chutam o pau da barraca e metem o pé na porta como o QOTSA. Obviamente, a banda precisa pegar ritmo novamente por conta de todo este hiato que ocorreu entre os discos Era Vulgaris e o recente Like Clockwork. E pelo que vi e ouvi do disco novo, este ritmo virá com muito pouco tempo.

Observação – o QOTSA estreou neste show o baterista John Theodore, ex- The Mars Volta. E o rapaz correspondeu muito bem às expectativas.


The Black Keys – minha consciência está muito tranquila sobre o que irei dizer. Se existe  personificação de banda superestimada esta é o The Black Keys. Muito antes do festival uma  dúvida pairava sobre meus pensamentos. “Respeito o The Black Keys, mas ainda não é banda para encerrar festival do porte do Lollapalooza.” E este pensamento foi confirmado com o que pude assistir na noite do sábado passado. Ressalto que a banda foi muito prejudicada com a qualidade do som do seu show. A parte do meio para trás da plateia só teve acesso ao som que saía do palco. E, novamente, a organização do festival pecou neste ponto. Mas, não posso esquecer que a banda só possui um trabalho relevante na sua história. O último disco El Camino, que no meu conceito é um disco nota 6.0, e que para a grande maioria que acha tudo “genial” é a revolução do rock n´roll. Este disco foi o único grande responsável pela escolha dos caras para ser red line do Lollapalooza.  Não sei onde li a frase, mas concordei com tudo que nela consta – “The Black Keys não passa de um White Stripes com um baterista melhor e um guitarrista menos talentoso.”

Puro modismo para uma banda que pode ainda fazer muito mais do que apenas um disco que chame atenção do público. E nenhum modismo dura mais do que uma hora para um público que entende de alguma coisa de música e apresentações ao vivo. Pelo menos 30% do público já tinha ido embora após a primeira hora do show dos caras.  Show apático, sem graça e identificação.


Resumo da noite

Considero que minha primeira noite no Lollapalooza foi legal, mas aquém das minhas expectativas. Formada por bandas que no máximo chegam ao segundo escalão de bandas de rock n´roll e por várias outras que tive que fazer escolha de não assistir por opção. É, meus caros, festival tem que ser assim mesmo. Arrependimento? Gostaria de ter assistido ao Alabama Shakes que tem a boa vocalista Brittany Howard e guitarras bastante interessantes. De resto, dou graças a Deus não ter chegado perto de coisas como Vanguart e só de ter ouvido o som de outra personificação ridícula de música chamada Criolo.

domingo, 10 de março de 2013

Os Ferdinandos em Recife - por Gilberto da Costa Carvalho



   Às vésperas de mais uma edição do Lollapalooza no Brasil, estava conversando com a amiga Juliana Neves e marcando um encontro para matar a saudade em São Paulo. No vai-vem de palavras eis que pergunto - "E aí Ju? Como vai a vida em SP? Dizem que é muito caro." A resposta veio de um modo tão tranquilo que atentei bastante para as palavras - "Giba, a vida aqui já foi mais cara. Olha, da última vez que fui em Recife percebi que nossa cidade é que está bastante cara."

    É meus bons amigos, esta é uma realidade inegável.

   No ano de 2010, Bruno Vitorino que também escreve aqui para o blog, esteve em SP para assistir ao concerto de Ornette Coleman, uma sumidade do jazz mundial. Preço? R$40,00 - em letras maiúsculas - "QUARENTA REAIS".

  Passou o tempo. Três anos na verdade, com toda essa balela governamental de economia exemplar pro mundo e etc...

  Chegamos em Março de 2013. Começa o burburinho na cidade porque os escoceses do Franz Ferdinand vão tocar em Recife. Pronto! Acabou o mundo! Gênios, idolatrados, calcinhas molhadas, groupies incandescentes mendigando ingressos (tem bandinhas que devem assinar até a CTPS de várias delas), todo mundo lembrando daquele sucesso (quase único) dos rapazes da terra do Lago Ness. E no final a recompensa: quem quiser participar da apresentação dos "gênios ferdinandos", terá que desembolsar a bagatela de R$200,00!!! Hein??? - em letras maiúsculas - "DUZENTOS REAIS!!!"

   E muitos dirão - "Ahhhhh, mas é o Franz Ferdinand!"

   E eu digo - "Dane-se se é o Franz Ferdinand e principalmente os produtores daqui!" (O "dane-se" foi para ficar mais polido aqui no blog. Não costumo ser assim)
Vamos lá. Pelo segundo ano seguido, estarei com Fernando Lucchesi no Lollapalooza em SP. Ingresso inteiro custa - R$330,00. Como são 3 dias, quem quiser curtir terá que pagar R$990,00. "Mas isso é um absurdo!!!" Não! Não é!

  São 51 atrações no festival, cerveja de muito melhor qualidade (mesmo com o tormento do ano passado para pegar), estrutura gigantesca e todo resto que envolve um festival deste porte. Além do que teremos atrações como - The Killers, Cake, The Hives, Kaiser Chiefs, Queens of the Stone Age, The Black Keys, Pearl Jam e...pasmem...Franz Ferdinand, eles mesmos!

 Óbvio, tem custo de passagem e outras coisas mais, mas é simplesmente absurdo pagar uma quantia violenta como esta para um show no Baile Perfumado. Na verdade, acho que é jogar dinheiro na latrina e dar descarga! Não que a casa seja das piores, mas, a este preço ela torna-se um lixo. Calor excessivo, um banheiro para cada tipo de sexo, cerveja que custava até ano passado R$4,00 e na maioria das vezes nem gelada estava. Ê qualidade para duzentos mangos!

 E penso: "Franz Ferdinand". O que esses caras representam atualmente para a música mundial? Alex Kapranos é Mestre em Literatura Inglesa e escreve muito bem suas letras. Ponto final. Mais uma clara demonstração que o que vale é o glamour midiático em torno da banda e a música novamente em segundo plano. Até porque eles não lançam absolutamente nada de novo há três anos e nada que preste há pelo menos uns oito. E questiono:

"Uma banda de dois ou três sucessos contundentes merece ser vista desta forma? E a este preço?"

Ficam as perguntas no ar.

E a música que mais gosto dos caras aqui -


segunda-feira, 19 de março de 2012

Aos Trancos e Barrancos: John Zorn em São Paulo - Bruno Vitorino

John Zorn

    Em sua essência, a música requer movimento constante! Uma busca perene por novos caminhos expressivos que melhor representem as paisagens sonoras imaginadas por um compositor. Às vezes, ele encontra o que procura, e outras vezes não. Contudo, cabe a esse indivíduo que manipula e estrutura os sons (desde que sério e íntegro) ao menos tentar. Sábio é o artista que imerge no mundo que o cerca e se alimenta de toda e qualquer manifestação humana que encontre a fim de criar algo novo. John Zorn é definitivamente um desses artistas que se lançam numa investigação infindável do mundo material (realidade). Fugindo do perigo da zona de conforto, o saxofonista se coloca em xeque a todo instante para sempre se reinventar e descobrir novas possibilidades na música.

     Nascido em Nova Iorque em 2 de setembro de 1953, começou a estudar piano, guitarra e flauta ainda na infância assimilando do jazz e folk music ouvido por seus pais aos compositores eruditos do século XX que descobriu em seus estudos. Seu contato com o Free Jazz se deu na Webster College em Saint Louis e sua vida mudou radicalmente quando, em 1969, ouviu o disco “For Alto” do saxofonista Anthony Braxton. Decidiu que deveria adquirir um sax alto e se dedicar ao instrumento. Retornou a Nova Iorque em 1975 e desde então se estabeleceu como uma das figuras-chave da cena free da cidade aglutinando vários instrumentistas interessados na perspectiva aberta de seus escritos.

    Prolífico compositor, Zorn expõe sua pluralidade em vários projetos com as mais variadas formações e enfoques: Pool, Lacrosse e Cobra (esquemas improvisativos ditados por cartas, como num jogo); News for Lulu (um trio de jazz com o guitarrista Bill Frisell e o trombonista George Lewis); Naked City e The Painkiller (uma mistura de thrash metal, folk, japanoise, jazz); Film Works (trilhas sonoras para filmes); dentre outros inúmeros. Além de sua produção autoral, ele também se dedicou a reinterpretar outros ícones: Spy vs Spy (a música de Ornette Coleman); The Big Gundown (um épico dedicado à obra de Ennio Morricone); Sonny Clark Memorial Quartet (tocando apenas composições do pianista Sonny Clark).

     No início dos anos 1990, após a morte de seu pai, John Zorn teve uma epifania e se voltou para suas raízes judaicas, fundando assim um de seus projetos mais aclamados: Masada. Originalmente um quarteto[1] formado por Zorn (sax alto), Dave Douglas (trompete), Greg Cohen (contrabaixo acústico) e Joey Baron (bateria); o Masada traz uma nova abordagem da música tradicional judaica, enxertando nela elementos jazzísticos e de improvisação livre.
Masada: Dave Douglas, John Zorn, Joey Baron e Greg Cohen (esq. p/ dir).
     Assim, quando Dave Douglas postou no Facebook em janeiro que a formação clássica do Masada entraria em turnê na América Latina, tratei logo de me informar sobre os concertos no Brasil. A oportunidade de ver um dos combos mais importantes do jazz contemporâneo (e que muito me influencia) me deixou bastante animado! Descobri que estavam previstas duas gigs por estas terras: dia 16 de março no Teatro Tom Jobim no Rio de Janeiro e dia 17 de março no Cine Joia em São Paulo. Por gostar muito da cidade, optei por São Paulo e paguei os R$ 100,00 pelo ingresso.

     Antes de discorrer sobre a apresentação, gostaria de tecer alguns comentários tanto ao lugar escolhido para o concerto quanto ao público presente.

    O Cine Joia é um espaço charmoso! Localizado no bairro da Liberdade, funcionou originalmente como cinema, depois como igreja pentecostal e finalmente como casa de espetáculos. Nos dizeres da produção, o Joia abre “as portas com toda a infraestrutura necessária para receber bandas de médio porte dos mais variados estilos musicais”. De fato, a estrutura é notável, mas para a música pop. Deixo claro que não se trata aqui de preconceito, e sim de reconhecer as nuanças das diversas manifestações da música e suas implicações.

    Seria coerente um show de um grupo como o Atari Teenage Riot sendo realizado num teatro com o público calmamente sentado a ouvir contemplativamente?! Obviamente que não! É necessário se mexer, interagir aos gritos, tomar umas cervejas, cantar junto e tudo mais. Por outro lado, alguém consegue imaginar um concerto de jazz com pessoas em pé a se mover, falando alto o tempo todo, fumando e bebendo cervejas? Não! A razão: essa música é frágil, fugaz e requer concentração tanto dos instrumentistas quanto da audiência para ser plenamente concebida/captada. E foi exatamente esse ambiente (hostil) que o Masada e aqueles poucos que foram efetivamente ouvir o quarteto encontraram.

     A insatisfação de John Zorn era clara e em alguns momentos, palpável! Até onde pude contar, vi-o repreendendo por três vezes um rapaz que insistia em lhe tirar fotos com flash. Uma mulher berrava: “Vai, Corinthians!”, outro gritava: “Gostoso!”; durante os improvisos... Ao meu lado, uma senhorita que não fazia a menor idéia do que se passava diante de seus olhos tagarelava e pavoneava sua vã sofisticação para todos que pudessem ver. Um breve arrependimento me veio à cabeça de modo que pensei quase sem querer: “Deveria ter escolhido o Rio!”. Foi preciso certo esforço para focar na música...

    Apesar das adversidades, ver o Masada em ação foi uma experiência magnífica! O entrosamento construído pelo grupo ao longo de 19 anos de estrada é impressionante. A comunicação é telepática! Bastava um simples gesto de Zorn para que os demais dissolvessem o tema e outro aceno para que o recompusessem e o levassem adiante. Intensidade e movimento, elementos bastante caros ao saxofonista!

     Em “Mibi”, o quarteto mostrou o quão alto pode voar alternando melodias angulosas com ruídos e efeitos, estruturas definidas com momentos de puro caos. Tudo sempre conduzido por Zorn. Já em “Beeroth”, imperou o solo avassalador de Joey Baron. No delicado tema “Tharsis”, Greg Cohen despejou sobre todos sua plenitude melódica e sua beleza de timbres com um improviso extremamente sentido em sol menor. Com “Piram”, o Masada tirou o fôlego de todos com o trompete alucinado de Dave Douglas e com Zorn em sua respiração cíclica lancinante. A última composição apresentada na noite (o segundo bis) foi “Hath Arob”. Parecia uma brincadeira o que os quatro faziam. O tema principal se decompunha com tanta rapidez à medida que se sucediam os esquetes sonoros que era difícil de acreditar. Uma aula de dinâmica e controle!

     Falando do Masada, Joey Baron disse à revista Rolling Stone Brasil que “muito da música com a qual as pessoas têm sido golpeadas hoje em dia é produto, são negócios. Somos artistas, amamos música. Nossa razão para fazer música é o amor. Somos curiosos e interessados por ela, queremos pintar uma imagem do mundo através dela.” Após o concerto, demorei algum tempo a voltar a mim. Saí do Cine Joia maravilhado com o que presenciei: o jazz sendo tratado como matéria viva, em desenvolvimento. E a julgar pela folia que fazia o meu filho na barriga da mãe depois dessa experiência, acredito que mais um indivíduo fora convencido de que a música é algo que vale a pena amar.


[1] Os desdobramentos desse projeto levaram Zorn a escrever mais de 600 temas que foram executados pelo quarteto e outras formações: trio de cordas, piano solo, cello solo, quarteto de vozes, piano trio. Existe uma vasta discografia para esse projeto editada pelo selo Tzadik do próprio John Zorn.