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domingo, 27 de dezembro de 2015

O Enigma de Star Wars – por Bruno Vitorino




Se vens a uma terra estranha
Curva-te
Se este lugar é esquisito
Curva-te
Se o dia é todo estranheza
Submete-te
- És infinitamente mais estranho

Orides Fontela


Querido leitor,

Você poderia me dizer, por gentileza, onde está passando o novo Star Wars? Falo sério! Porque, a julgar pelo filme a que assisti hoje no cinema e pela euforia generalizada que viraliza nas rede sociais deste vilarejo, só posso ter visto um outro filme que não O Despertar da Força. Sinceramente! Não consegui fazer a relação entre o que se passou na tela e o regozijo coletivo que faz a cabeça de nerds, saudosistas e coolhunters. E antes que reclame de minha costumeira chatice e me pergunte todo afetado, digo: sim!, desde de criança sou um grande entusiasta da saga Star Wars, vi não sei quantas vezes todos os filmes e, embora desconfiado, estava bastante curioso com uma nova trilogia dirigida por J.J. Abrams. Mas, o resultado foi para mim uma decepção absurda! Desapontamento ainda mais gritante por ser eu, ao que parece, e para minha surpresa, um raro espécime de entusiasta frustrado com o novo filme, já que todos, público e especialmente a crítica, só têm mil maravilhas a dizer sobre a película.

Bem, os entendidos de cinema podem até vir aqui se meter em nossa conversa para querer vomitar toda sua verborragia enfadonha e saracotear sua autoridade risível, tal como um pavão velho e depenado, para justificar a glória cinematográfica que é O Despertar da Força. Mas eu, este bicho estranho que não se deixa enquadrar por tendências, modismos e oba-oba, amante do universo Star Wars de longa data, digo com muita tristeza que o filme é um desastre. “Queiram ou não queiram os juízes” do gosto. Ponto final.

Nada lá faz sentido, meu caro. A começar pela trama solta e confusa em que os eventos simplesmente acontecem por si. Não existe uma construção narrativa que explique, por exemplo, por que a Primeira Ordem existe e como ela conseguiu se estruturar de uma maneira tão grandiosa a ponto de por a República em xeque do jeito que faz. Vale lembrar que O Retorno de Jedi dá um fecho épico - e sem furos - a toda a saga: após uma expansão político-militar contundente capitaneada por Darth Sidious (o imperador) e Darth Vader, o Império é derrotado pela Aliança Rebelde; sua arma suprema, a estrela da morte, destruída; e seus líderes, mortos. A paz se impõe sobre a galáxia, os símbolos do Império são destroçados, Luke Skywalker se firma como a nova esperança da Força, Leia assume sua realeza e a República se refaz após um período de totalitarismo. Como pode agora, meu Deus do céu, começar tudo do zero como se nenhuma batalha tivesse sido travada e nenhuma guerra tivesse sido vencida? O filme inteiro acontece nesse mero desenrolar de fatos soltos no vento, num clima irritante de déjà vu, como se fosse uma versão alternativa para Uma Nova Esperança. E quando penso, meu caro, no que foi a densa teia narrativa de A Ameaça Fantasma – até então o mais fraco dos filmes – que prepara o terreno para o esfacelamento da República e a ascensão do Lado Negro e o comparo com essa nova abertura de trilogia... Chega dá uma tristeza.

Outro ponto que me chamou atenção foi a superficialidade dos personagens: eles não são construídos, são apresentados, impostos goela abaixo, sem qualquer profundidade emotiva. Assim, “bandidos e mocinhos” agem como autômatos desprovidos daquela imprescindível dimensão humana, seja boa ou má, que dá vida a esses seres fictícios e os põe emocionalmente acessíveis ao público, de modo que O Despertar da Força traz tão somente criaturas estranhas plasmadas numa tela de cinema. E todos sabem, desde os tempos de Aristóteles em seus estudos sobre a poética, como esse vínculo que só a verossimilhança proporciona é fundamental para a fruição tanto estética quanto humana da arte de encenar, de criar sonho. Por isso, com esse episódio VII, o público se torna uma espécie de voyeur que apenas observa à distância um espetáculo marcado pela pirotecnia e o enfado. J.J. Abrams consegue a façanha de transformar o cinema num “lugar onde ignorantes são convidados a ver sofredores”, para citar um axioma de Platão a respeito do teatro que me parece bastante adequado aqui.

Também marca presença nesse novo filme os velhos clichês de sempre. E como é cansativo, caro leitor, o óbvio sendo jogado na sua cara o tempo todo. É como se Hollywood simplesmente não conseguisse superar as velhas e novas questões geopolíticas dos EUA e o sentimetalismo barato das soap operas para fazer do cinema o território do pastiche fuleiro, repleto de alegorias desgastadas e cenas desnecessárias. A Primeira Ordem remete claramente aos nazistas com sua indumentária e gestual, e para não deixar qualquer dúvida até para o mais desavisado fã, o diretor ainda arruma um general galego com sotaque germânico para comandar da tropa. Já o vilão da hora, Kylo Ren, traz o ar muçulmano materializado em sua máscara de contornos prateados, que me remeteram a arabescos, e no traje de beduíno. Isso para não falar – e aqui vai um spoiler – no fato de que ele é o filho-rebelde “mamãe não me deu meu All Star” de Han Solo e Leia, e, como você deve imaginar, rola todo um sentimentalismo meloso. A conclusão desse arco, por sinal, é pra lá de óbvia: no que o senhor acha que deu o encontro de um papai “não faça isso, eu te amo” com um filho “eu sou malvadão mesmo e tenho sangue nos olhos!”? Para mim, num ultraje. A morte de Han Solo foi um desrespeito não só a um personagem importante em toda a construção da história, mas à saga inteira! Poderia dizer que foi o assassinato do personagem certo na hora errada e da forma mais errada possível. Patético...

E o que dizer da protagonista Rey, uma catadora de lixo – na verdade de bugigangas eletrônicas que troca por comida – largada num planeta decrépito que de uma hora para outra se torna arquétipo de amazona da Força? Um desastre, meu camarada! Como pode a Força se revelar assim por pura conveniência, de modo absolutamente involuntário, como se fosse uma simples manifestação fisiológica do corpo, feito um arroto ou uma sede repentina, quando o domínio desta a energia que envolve os seres vivos nasce justamente de inverso do orgânico: do árduo treinamento e da disciplina implacável? É um personagem imbuído de uma metáfora tão pobre sobre a vocação e o destino que dá raiva. Raso e autoexplicativo como personagem de novela da Globo. E ficarei por aqui, porque se me alongar para comentar tudo o que me desagradou, isso deixará de ser uma carta e se tornará uma dissertação.

Eu até entendo a ideia de J.J. Abrams em “rejuvenescer a franquia quase quarentona Star Wars, apresentando-a para uma nova geração sem esquecer dos fãs maduros”, como diz Érico Borgo em sua crítica no site Omelete. Mas, o grande enigma para mim é: será que precisamos mesmo de uma nova trilogia de Star Wars? Obviamente que não, porque nada justifica macular o legado de uma obra que revolucionou a história do cinema, delimitou um novo imaginário e marcou gerações. Contudo, o que me interessa não é a obviedade – mais uma – desta resposta, e sim seus desdobramentos mais subjacentes e incômodos. De tal forma, penso que a “profanação” desse universo cultural chamado Star Wars denuncia o empobrecimento criativo que vivenciamos hoje, a presentificação do passado na forma de produtos culturais dotados de “memória” que dão a ilusão do vintage, do distanciamento e da novidade ante a produção atual marcada pela lógica do mercado e do descartável, e, sobretudo, denuncia o quanto foi reconfigurado o velho esquema que atrelava o consumo – inclusive de bens culturais – às obrigações da diferenciação social e o vincula agora à busca de experiências, ao fomento de modos de vida intercambiáveis e à sensação de pertencimento a uma coletividade que garanta ao indivíduo descentrado, midiático e hedonista de nossos tempos alguma identidade embalada numa pacotilha cool. Pois, como dizem os sociólogos Lipovetsky e Serroy, “o consumo com componente estético adquiriu uma relevância tal que constituiu um vetor importante para a afirmação identitária dos indivíduos”[1]. E quem não quer fazer parte do delírio coletivo, sentir o glamour da apreensão fashionista de um consagrado artigo de época? É um espetáculo triste de se testemunhar.

Por todas estas questões, meu caro leitor, só me resta torcer para que os dois próximos episódios salvem o que este conseguiu destruir. J.J. Abrams me deu pouquíssimos elementos para inferir o que virá na sequência – somente a aparição de Luke, que foi de arrepiar, diga-se. Contudo, sendo pragmático e trabalhando com o que me foi apresentado, sinto um grave desequilíbrio na filmografia Star Wars que será extremamente difícil de equalizar. Espero estar redondamente enganado. É esperar para ver.

Cordialmente,

Bruno Vitorino



[1] LIPOVETSKY, Gilles e SERROY, Jean; A Estetização do Mundo: Viver na Era do Capitalismo Artista, Companhia das Letras, 1ª edição, São Paulo, 2015, pág. 31.

domingo, 23 de agosto de 2015

Variações em 5/4: De Baile Solto



Na coluna deste mês, os editores do blog comentam o mais recente trabalho do cantor pernambucano Siba, “De Baile Solto”.

Boa leitura!


- Rógeres Bessoni:

Dirijo-me ao trabalho de Siba sempre com respeito, observando um músico cuja trajetória admiro e que me transmite uma rara sensibilidade e seriedade como pesquisador e “mergulhador” da nossa cultura. Chego sabendo que vou topar pela frente com um multi-instrumentista, localizado entre os pioneiros do Mangue Beat e Mestre de maracatu rural, o que me levou, confesso, a uma expectativa de ser impactado por um experimentalismo sonoro, mas, com sempre... lá vem a surpresa de onde menos se espera (e que grata surpresa!). Como concepção musical, o trabalho não alcançou, a meu ver, paragens realmente novas. Os melhores momentos ficam a cargo do bom andamento e melodia de “Marcha Macia” e de “Quem E Ninguém” (os cruzamentos de maracatu com eletricidade geralmente resultam em experiências arretadas pra mim).

Em diversos momentos, os arranjos (especialmente de guitarra) e andamentos, eventualmente monótonos, não botam os instrumentos “para render” como seria possível, e alguns bons temas, sem o apoio de uma malha sonora mais rica, perdem força. Mas, ainda que em música o trabalho tenha ficado aquém do que minha expectativa criou (e, ressalto, isso não é problema de Siba nem de nenhum outro artista; essas ansiedades e expectativas são de responsabilidade inteiramente minha), mencionei uma surpresa que tive, e aqui está ela: o que me impactou, de fato, foi a grande qualidade das letras. Sim, as letras, exatamente isto. Fazia muito, muito tempo que um disco não me impressionava pela qualidade de todo o seu texto. E o fato de não ter sido lançado e alardeado com ambições nesse sentido, deixou a coisa ainda melhor, justo pela espontaneidade da língua brasileira destas bandas ter sido posta de maneira tranquila, do jeito que se fala, sem as irritantes e inúteis afetações nordestinistas que, em tantos casos, mal disfarçam um brutal complexo de inferioridade. Tivemos e ainda temos bandas e artistas individuais que “emplacaram” comercialmente e agradaram público e “crítica” como sendo referências em poesia ou letras “vanguardistas, desconcertantes”, empenhadíssimos em serem reconhecidos e lembrados assim, fazendo para tanto todos os trejeitos, salamaleques e referências óbvias tidos como necessários nesse métier, algumas vezes com trabalhos ridiculamente pretensiosos, mas que sempre me passaram a consistência de um castelo de areia fofa.

Embora ainda não tenha encontrado nesse trabalho de Siba alguns dos sons “que estou procurando”, me deparei com a arte de fazer letras novas, amadurecida como eu buscava - e não se trata do simplismo “que letra bacana, fala de tal coisa!”. Ocorre que Siba aparece realmente como herdeiro – no melhor aproveitamento desse termo – da linguagem usada por seu povo na rua e na mata. Atesta todo o processo de depuração e refinamento linguístico (sempre espiritual) a que se submeteu nas inúmeras sambadas de maracatu de que deve ter participado, externando a habilidade sagaz e criativa no manejo da nossa desconhecida língua luso-brasileiro-pernambucana. Começando por “Marcha Macia”, em que ele materializou primorosamente a temática da crise urbana e humana que corrói diversos grandes centros, tão atualizada e, sobretudo, da maneira como foi tecida, tão recifense, envereda em seguida por uma corrente de sonoridades pernambucanas escutadas em todos os espaços da minha infância, a composição da memória linguística de qualquer pirralho dos interiores por onde passei, e mesmo desse “interior crescido” que é o Recife. E ali estão fragmentos da fala do povo, trava-línguas, os locutores de festas de interior, o tema sempre presente em diversas vertentes da poesia popular que opõe o pobre versus o rico nos desafios de improviso poético, a aranha arranhando a jarra, as reminiscências de uma casa da infância, e por aí vai. A grande sacada é que todos esses elementos aparecem no disco de maneira muito bem articulada, APROVEITADA – essa é a palavra-chave –, e não apenas repetidos mimeticamente e em clichés, ou amontoados de forma caótica. Siba usou magistralmente e sem teatralismos a língua que todos nós aqui aprendemos a falar, manuseou esses conteúdos para dizer o que queria, fosse memória ou protesto, e nisso reside a grandeza da construção poética do disco. E, nas composições destas nossas plagas, esse foi o meu grande achado do ano. Mas, ainda um toque sobre a musicalidade, uma grande coisa pode ser vista neste trabalho: as músicas têm tratamento melódico e são cantadas, o que não é pouca coisa, não. Parece óbvio, mas não é. Quando digo que algumas canções “perderam força”, nem de longe digo que são limitadas ou medíocres. De jeito nenhum. Ainda que minha já citada expectativa fosse por mais e diferentes sonoridades instrumentais, não tenho dúvidas de que estou diante de um trabalho sério, tratado e apresentado com zelo. Ao Mestre Siba, fica também esta minha gratidão: no cenário desolador destes nossos dias, todo esforço feito em prol da melodia e do texto são mais que bem-vindos e chegam em muito boa hora. É sempre um alento ver a música levada a sério.


- André Maranhão:

Em De Baile Solto, me pareceu claro o empenho de Siba em se fazer um intérprete escudado pela guitarra; coisa que se somou às suas bases da canção popular, principalmente identificáveis em suas letras coloquiais e sem muita complexidade poética. Seus drives guitarrísticos e palhetadas de stratocaster se lançam com batidas de maracatu – uma receita que não deixa de ser interessante, mas que está longe de ser um trunfo à Heraldo do Monte, ou Treminhão. Seu melhor momento com o instrumento está em “Meu Balão Vai Voar”; por sinal, o recurso mais interessante da faixa. Já em “Mel Tamarindo”, a guitarra Siba parece desafinada nos trechos finais.

Siba não é um cantor, propriamente falando. Ao menos não me parece um artista voltado primeiramente para a técnica vocal. Não é desafinado; no entanto, o vocalise final de “Marcha Macia” é simplesmente uma prova complicada para considerá-lo um cantor especializado. Ainda assim, Marcha Macia é uma canção interessante, composta de ironias bastante pertinentes às excessivas higienizações do cotidiano, vivenciada em diversos espaços de sociabilidade em que nos encontramos: prédios cada vez mais cercados, o suposto avanço, propagado pelos últimos discursos do poder público de “modernização”, e o afã pela felicidade por via das relações de consumo.

Em “Três Desenhos” e “Três Carmelitas”, o excesso de informações aponta um desencaixe entre os compassos das canções, seus recursos instrumentais e os tempos das letras. “Gavião” é marcada pela escolha de sintetizadores exagerada, além da ausência de harmonização ter me incomodado, na medida em que o vácuo sonoro me pareceu fruto da falta de acordes na canção. “Quem e Ninguém” é uma empreitada difícil de acertar, já que Siba basicamente tentou eletrificar o maracatu de baque solto. Eu já não sou lá um dos fãs mais adequados para escutar aquelas longas apresentações de maracatu cantadas por aqueles senhores, o que dirá ouvir isso tudo enfeixado por sintetizadores e pedais?!

Considero “A Jarra e a Aranha” é uma das melhores canções do álbum. Justo quando Siba parece mais conservador na forma, se torna melhor, pois é capaz de combinar uma letra cômica (um verdadeiro trava língua) somada a um ritmo mais próximo do frevo e até das marchinhas cariocas. “A Jarra e a Aranha” é uma boa pedida, inclusive para o carnaval!


- Giba Carvalho:

Inegavelmente, Siba tem talento com as palavras. Por consequência, seus trabalhos são bastante superiores aos que usualmente são produzidos na “Cena Pop de Pernambuco”. Com De Baile Solto não é diferente. O “Baile” flutua com letras simples e que atingem o ouvinte de modo agradável e eficaz. Mesclando questionamentos pessoais e respostas próprias, o compositor percorre caminhos que não são usualmente caminhados por estas terras.

Musicalmente falando, o álbum possui alguns pontos de relevância e outros nem tanto. Primeiro ponto é que De Baile Solto é extremamente bem gravado e mixado. Como segundo ponto, eu confesso gostar de uma coisa no trabalho de Siba: ele sabe cultivar suas raízes de modo correto e na mais pura concepção rítmica do que de fato é a música da Zona da Mata pernambucana. Isto é bastante diferente de alguns outros que “metem” um trompete com batida de frevo e afirmam ser ícones do carro-chefe da música pernambucana. Por outro lado, não achei tão interessante esta mescla de regionalismo com guitarras. Até porque, mesmo tendo ciência da pesquisa de ritmos afros pelo compositor da Zona da Mata Pernambucana, prefiro quando o lance é mais cru. Um pouco conservador? Talvez. Mas, as cordas das rabecas fazem diferença imensa para meus ouvidos no produto final.

De Baile Solto é um trabalho de muito bom nível, que nada a braçadas largas no cenário contemporâneo de Pernambuco e que marca a luta da preservação de memória contra um suposto desenvolvimento em suas letras. Já na execução, fica claro que a música pode modernizar-se mantendo algumas características das raízes antigas. Siba é um artista que possui de fato dimensão internacional e demonstra isso claramente com todo lirismo, poesia e com uma gama de possibilidades sonoras para seus ouvintes.

Destaco – “Quem e Ninguém”, “A Jarra e a Aranha” e “O Inimigo Dorme”.


- Bruno Vitorino:

Sempre tenho a curiosidade de ouvir um trabalho novo do pernambucano Siba Veloso. Quando chega a meus ouvidos a notícia de que ele entrou em estúdio para gravar um novo disco, meu coração e juízo, como que numa espécie de combinação tácita e secreta, logo se põem a cultivar boas expectativas e conjeturar sobre que paisagens sonoras serão desveladas. Suspeito, por sinal, que tal acordo tenha surgido há muito, nuns velhos tempos em que eu, baixista, punk e criança, ia assistir às apresentações da lendária Mestre Ambrósio no Recife Antigo e me via inteiramente extático diante daquela reinterpretação intensa e verdadeira das tradições do meu Pernambuco. Tradições estas, diga-se, que se apresentavam diante de mim como um território povoado, vivo e dinâmico, e não como um museu empoeirado de memórias coletivas imortalizadas nos pedestais intocáveis do purismo regionalista – que de alguma forma me tinham um certo cheiro de Casa Grande. O fato é que, desde essa época, Siba se tornou para mim sinônimo de um artista de muita profundidade estética, haja vista sua imersão nas raízes de seu universo sonoro por excelência - o maracatu rural - e a sagacidade de sua mente criativa em romper com as cômodas bolhas do discurso tradicionalista e dialogar com os além de si propostos pelo mundo, num sincretismo que costuma ser fértil, distante anos-luz da caricatura mercantil da wold music.

Se por um lado, no disco Siba e a Fuloresta, o compositor se apresenta como um legítimo mestre de maracatu imbuído de um poder transcendental conferido pelas práticas sócio-culturais daquela comunidade lá em Nazaré da Mata que se preservam pela repetição e se inscrevem na rima e no ritmo exuberante dos taróis; e do outro, temos em Avante, como uma entidade inteiramente alienígena à primeira representação de sua artisticidade, o quase roqueiro que veste jeans, usa tênis All Star e toca guitarra Fender inserido no coração de um grande centro urbano do Brasil fazendo uma música impregnada pela sonoridade grotesca do Cidadão Instigado de Fernando Catatau, que faz do tosco recurso estético e do nonsense, poesia; com De Baile Solto, encontramos um Siba no meio do caminho.

Ao fazer a ponte entre esses lugares aparentemente distantes do painel da Cultura, o pernambucano leva o Maracatu às ruas da cidade grande para, em letras de métrica rica e problematizadoras de suas circunstâncias e entornos, propor uma reflexão sobre realidade que se apresenta e o estatuto de arte popular e pop em nossos tempos, numa música muito bem arquitetada a qual requer, além dos ouvidos, também o corpo para ser ouvida. Um baile onde a dança que se propõe não é aquela da frivolidade hedonista e festiva dos folguedos populares, que mira na rota de escape; e sim a do encontro consigo e da percepção do outro, a da celebração coletiva na construção social da realidade, a da resistência estética, intelectual e, por que não dizer, humana ante a retumbante marcha da imbecilização que avança e se espraia esvaziando de significados tudo o que pisa, entregando em contrapartida discursos ocos, modos de vida padronizados e mercadorias enquanto arcabouço simbólico de uma nova ordem social. Por isso, ao ouvir De Baile Solto imediatamente me vem à cabeça o que disse certa vez John Coltrane: “Eu acho que a maioria dos músicos estão interessados na verdade, sabe? Eles têm de estar, porque um objeto, um objeto musical, é uma verdade. Se você toca e faz uma assertiva, uma assertiva musical, e é uma assertiva válida, tem-se uma verdade por si mesma bem aí, sabe?”[1]. E é exatamente esta perspectiva de verdade que torna o disco tão necessário e seus enunciados tão vastos.

Destaque para a ironia não tão sutil de “Marcha Macia” e “Quem e Ninguém”, as camadas rítmicas enviesadas sobrepostas em ostinatos e a guitarra saturada de “Gavião”, a mistura de compassos quaternário e ternário de “Três Desenhos” que conferem movimento à poesia, a latinidade lacônica de “Três Carmelitas”, o jogo de palavras no frevo-carimbó-maxixe-la ursa de “A Jarra e a Aranha” e para o fato de não haver baixo no disco inteiro, e sim uma tuba construindo belas linhas nos registros graves.

Altamente recomendado!


- Fernando Lucchesi:
         
Pude acompanhar bem a carreira de Siba durante o período em que ele foi membro da banda Mestre Ambrósio. Daí por diante perdi completamente o contato com sua música. Vi que alguns discos dele, como Siba e a Fuloresta foram, em geral, bem recebidos pela crítica, assim como seu último disco solo Avante.

Sem dúvida, Siba busca introduzir novos elementos na sua música, incorporando um lado mais urbano (vide a grande quantidade de músicas em que a guitarra é o instrumento condutor rítmico/melódico), sem, no entanto, abandonar o som que o projetou, inspirado nas tradições oriunda do interior. 

Essa mescla do urbano com o rural fica excelente em algumas músicas e em outras, nem tanto. “Marcha Macia” e “Gavião” (uma versão sombria e psicodélica da música do disco Terceiro Samba do Mestre Ambrósio) abrem o disco com maestria dando a impressão que o álbum vem com mais canções do mesmo calibre, mas não é o que vemos, nem ouvimos. As extensas “Mel Tamarindo”, “Três Desenhos” quebram o ritmo interessante que se apresentava no começo. Já “Três Carmelitas”, esta com uma levada mais pop, retoma o ritmo inicial. “Quem e Ninguém” e “A Jarra e a Aranha” (com uma guitarra puxada pro frevo) trazem em suas letras divertidos jogos de palavra demonstrando o talento do letrista Siba. Já a música que dá título ao disco, “De Baile Solto”, é um instrumental completamente dispensável.  


Se Siba não foi completamente feliz na ideia da junção de influências, pode-se afirmar que ele já demonstrou que boas idéias para isso ele tem.

  





[1] BLUME, August; “Interview With John Coltrane” in DeVITO, Chris (editor), “Coltrane on Coltrane: The John Coltrane Interviews”, Chicago Review Press, Chicago, Illinois, 2010, pág. 14. 

domingo, 29 de março de 2015

Variações em 5/4 - Céu Ao Vivo





Na coluna deste mês, os editores do blog lançam um olhar coletivo sobre o recém-lançado disco “Ao Vivo” da cantora paulista Céu.

Boa leitura!

- Giba Carvalho:

Quando Bruno Vitorino sugeriu o trabalho novo de Céu como pauta para coluna deste mês, confesso ter sentido um frio na espinha. A dúvida permeou meus ouvidos e minha cabeça de modo intrigante: “o que falar de uma cantora que acho excelente em estúdio e que não rende o esperado ao vivo?”. Pois bem. A cantora paulista fez uma síntese dos três primeiros álbuns para comemorar os dez anos de sua carreira que continua bastante promissora. Deixou de lado os aspectos dub-ragga de “Vagarosa” (2009) e priorizou o lado mais “pop-sedução” de “Caravana Sereia Bloom” (2012). Escolheu o aconchego do Centro Cultural Rio Verde e sua capacidade de 400 pessoas para fazer uma gravação mais intimista, do que o delírio frenético das grandes plateias. Este foi o primeiro grande acerto do trabalho. O segundo ponto positivo foram as versões escolhidas por Céu. Como principais destaques do trabalho, a excelente versão de “Mil e Uma Noites de Amor” (Baby do Brasil, Pepeu Gomes e Fausto Nilo) e conhecida do público oitentista na trilha da novela “Roque Santeiro” e a espetacular versão de “Visgo de Jaca” (Rildo Hora e Sérgio Cabral) que já conhecemos desde Vagarosa. No mais, conforme citado acima, um compilado de seus maiores sucessos executados de modo bastante peculiar e competente.

Reconheço que da geração pós-Los Hermanos, Céu seja o nome de maior destaque do cenário pop nacional. Particularmente, gosto muito de sua ousadia nas composições e gravações dos seus trabalhos, mas dois pontos específicos me incomodaram sobremaneira. Primeiramente, a queda para elementos extremamente bregas nos arranjos. A versão de “Cangote” (uma das minhas preferidas do Vagarosa – 2009) é de revirar morto no caixão. Do balanço cadenciado de um reggae de categoria, para uma guitarrada sem pé nem cabeça, fruto da mentalidade “cafuçú” que permeia como “CUltura” na mentes “privadizadas” da turminha descolada. Aqueles que fingem ser alegres às custas da desgraça alheia. E segundo, as vinhetas patéticas que existem nos hiatos e introduções das músicas.

No mais, as pessoas precisam entender que mesmo sendo uma gravação de show, o trabalho foi mixado, as falhas usuais e constantes da cantora “na febre do ao vivo” foram maquiadas, e assim o CD e DVD serão um sucesso absoluto.


- André Maranhão:

Quando conheci o trabalho de Céu, a partir do seu disco de estreia em 2005, me pareceu que sua arte se encaixava muito bem numa estética glocal (uma mediação entre traços do global e local da cultura). A cantora quase sempre cruzou ritmos, artistas e idiomas diversos nos seus álbuns. Em seu novo disco (Ao Vivo) acredito que o glocal ainda persiste. Porém, em alguns momentos, Céu e os seus bons músicos (Dustan Gallás; Lucas Martins; Bruno Buarque e o DJ Marco) perderam (ou não procuraram) a possibilidade de se conectarem com a inventividade do Jazz ou da improvisação – coisa que seria bastante pertinente ao longo do disco. Senti a falta de tudo isso em “Teju na Estrada” (instrumental) e “Streets Bloom”: ambas são faixas caídas e que não me empolgaram, talvez justamente por não se improvisar mais. Em “Rainha”, um Afrobeat que por vezes Céu dedica a Fela Kuti, também seriam bem-vindas mais improvisações dos músicos, frases cheias – além, é claro, do vocalise menos tímido por parte da cantora.

Ao longo de sua carreira, Céu migrou paulatinamente dos backing vocals para o lead. Quiçá por dispor de uma voz bem favorável ao estilo de cantora crooner, que Céu consegue interpretar um estilo como o Brega com tanta finesse. Isso ocorre em “Retrovisor”; “Amor Antigo”; “Baile da Ilusão”. Mais além, a faixa “Cangote”, junta o canto de Céu com traços da música paraense, de uma linhagem Brega Cult e que se assemelha bastante aos trabalhos de Felipe Cordeiro.

“Lenda” permanece bem fiel às apresentações de Céu antes de lançar o álbum Ao Vivo. “Contra Vento” e “Comadi” conectam a música nordestina com o Indie, e “Em Piel Canela” (um clássico escrito por Bobby Capó, e gravado por outros nomes consagrados, tais como o trio Los Panchos e Nat King Cole), Céu mantém a suavidade e a leveza da sua interpretação. Em “Mil e uma Noites de Amor”, seu tom é bem próximo ao de Pepeu Gomes, e a versão é boa (ainda que eu considere a versão de Pepeu mais marcante).

Às vezes, acelerar a batida de uma canção não é garantia de que ela melhorará; principalmente em um ritmo como o Reggae. É o que acontece em “Concrete Jungle”. A versão do álbum Céu (2005), além de conter uma harmonização mais rica, com oitavadas, mais acordes e uma cadencia desacelerada, funciona bem melhor do que a do álbum Ao Vivo.

Ultimamente, alguns artistas que pretendem se aproximar de uma forma / fórmula emepebista da canção, têm cometido o seguinte equívoco: enxugar demais ou até excluir os instrumentos acústicos de suas interpretações, assim como tornar excessivo o uso de recursos eletrônicos. Bom, no disco “Ao Vivo” de Céu, isto ocorre em 10 Contados (uma vez que as versões do álbum de estreia da cantora e o dueto com Paulinho Moska no programa Zoombido, do canal Multishow são bem melhores); Malemolência (que apesar da novidade de Céu citar Mora na Filosofia, de Monsueto e Arnaldo Passos, a versão original do álbum de 2005 traz consigo a frase do cavaquinho – tão legal, porém esquecida nas posteriores apresentações da cantora). Em "Visgo de Jaca" (de Rildo Hora e Sergio Cabral), pode-se conferir na versão de estúdio anterior ao disco Ao Vivo, a diferença que fazem o pandeiro e as congas em certas canções.

- Fernando Lucchesi:         

Dentre as várias cantoras surgidas no final dos anos 2000, sem sobra de dúvida, Céu é a que mais se destaca. O CD/DVD “Céu Ao Vivo” faz um apanhado da consistente carreira da cantora, iniciada com o disco homônimo “Céu” (2005).  O disco, especificamente, tem uma mistura bem interessante das canções dos três discos lançados por ela. O início é de tirar o fôlego com três belíssimas canções. “Falta de ar” inicia com uma pegada roqueira setentista, desacelera e se enche de solos de guitarra. “Amor de Antigo” com sua levada meio brega e aquele famoso teclado de churrascaria, embalam uma linda melodia e “Contravento” parece uma cúmbia desacelerada, com inserções de guitarras psicodélicas.

Céu também não se contenta em ficar em sua zona de conforto e transforma um dos seus maiores sucessos, a balada “Cangote”, em um carimbó/guitarrada paraense. Funciona muito bem. A influência paraense/caribenha também está presente em “Baile de Ilusão”. O que não funciona bem no disco é a cover de “Mil e Uma Noites de Amor” de Pepeu Gomes. Muito similar ao original, sem nenhum toque de ousadia, algo que se espera de uma cover, principalmente ao vivo. O que falta de ousadia em “Mil e Uma Noites de Amor” é compensado na interpretação e arranjos de trip hop para lindíssima “Visgo da Jaca” de Martinho da Vila, que infelizmente está apenas no DVD.

Na segunda metade do álbum a cantora deixa um pouco de lado a influência caribenha nos arranjos das músicas abre um espaço maior para outros gêneros muito presentes na carreira de dela. Há espaço para o Hip Hop (“Malemolência” e “Lenda”), Reggae (“Concrete Jungle”, cover de Bob Marley) e até uma pouco de soul, nos arranjos de “Rainha”. A julgar pelo apanhado das músicas do CD e DVD “Ao vivo”, Céu está no caminho certo com seu caldeirão de influências musicais.

- Bruno Vitorino:

O disco “Ao Vivo” da paulista Céu chega para marcar a exitosa trajetória de dez anos de uma cantora que soube ao longo de sua carreira articular suas influências de música internacional às raízes de sua cultura numa produção autoral do seu tempo, sem saudosismos caricatos e mercadológicos, e que se materializa num formato pop urbano, mas que – eis aqui o mais importante e raro - ainda se preocupa com o conteúdo. Por essa razão, vejo a cantora com o nome mais interessante do mainstream nacional dos últimos tempos. Seu talento para a composição, suas angulosas melodias que serpenteiam por uma harmonia intuitiva, sua voz falha, roufenha - não pasteurizada pelo tecnicismo lírico ou pela artificialidade da impostação exagerada à Ana Carolina –, mas educada e de belo timbre, e sua sensível qualidade de intérprete resultam numa música que tem identidade própria e méritos estéticos, como atestam seus discos “Céu” (2005), sua obra-prima “Vagarosa” (2009) e o dançante “Caravana Sereia Bloom” (2012).

Tive a oportunidade de assistir à cantora em ação no festival Rec Beat no ano de 2013, mas creio que a dispersão do palco grande combinado à euforia de um grande público a dominaram. Sem falar que a banda no palco era bastante reduzida em relação àquela que se ouvia nos discos, sempre repleto de convidados em cada faixa. Assim, em poucas palavras, o que vi foi uma Céu desconcentrada amparada por uma banda que não conseguia preencher os espaços e atingir o nível de execução que se ouvia nos discos em estúdio. Saí antes de o show terminar. Daí meu medo que o fenômeno “brilhante em estúdio, terrível ao vivo”, algo tão comum em tempos de músicos que não sabem o que fazem e focam no hype, se repetisse com esse novo projeto da cantora. No entanto, não é o que acontece. Imagino que o ambiente controlado, com uma produção disponível e vasto background ao alcance, a responsabilidade de uma gravação de um DVD/CD, que não deixa de ser sinônimo de prestígio na carreira de qualquer artista, o caráter intimista do Centro Cultural Rio Verde, local escolhido para a gravação de sua apresentação, e, por fim, um público empolgado ma non troppo criam as condições ideais para que Céu se mostrasse focada e confiante, e sua banda, mais audível e comprometida com a execução. E o repertório é simplesmente matador! Destaque para o clima tropicalista de “Contra Vento” e samba-dub de “Malemolência”.

Recomendo!

- Rógeres Bessoni:

Por razões de cunho pessoal, o sr. Bessoni não conseguiu escutar e escrever na coluna de março. No próximo mês, o colunista está de volta com suas observações perspicazes.


domingo, 22 de fevereiro de 2015

Oscar 2015 - Por Fernando Lucchesi



Sempre houve e sempre haverá questionamentos quanto aos filmes indicados e vencedores do Oscar. Como em toda competição que premia filmes, o critério, na grande maioria dos casos, é amplamente subjetivo, o que dá margem para todo tipo de crítica. Já fui de acompanhar Oscar madrugada adentro, mas hoje em dia me conformo em assistir até onde meu sono aguentar e a paciência aguentar com os números musicais e discursos pra lá de enfadonhos (reconheço que com o passar do ano a cerimônia ficou mais dinâmica, mas ainda sim demora por demais). No entanto, é impossível escapar do “Evento” (com “E” maiúsculo mesmo) Oscar, pois toda mídia de entretenimento está com os holofotes voltados para a cerimônia. Esse ano resolvi que assistiria pelo menos todos os indicados para melhor filme e faria alguns comentários sobre eles. Vamos lá então!

Boyhood- Da infância à juventude – O diretor, Richard Linklater, optou por narrar a vida do garoto Mason (o talentosíssimo Ellar Coltrane), como entrega o subtítulo em português, da infância à juventude. Ao optar por utilizar o mesmo elenco demorou 12 anos pra poder concluir as filmagens. O filme dá saltos temporais na vida de Mason de forma que personagens secundários somem sem maiores explicações e novos personagens vão surgindo à medida que o personagem cresce. O que dá força dramática ao filme são os personagens com seus dilemas existenciais, angústias, insegurança, felicidade e toda sorte de emoções às quais nós, como seres humanos estamos sujeitos durante a vida. Destaque para o diálogo na cena em que Mason deixa a casa de sua mãe para começar a faculdade. Divide com Birdman o favoritismo para levar melhor filme. Possivelmente leva o Oscar de coadjuvante para Patricia Arquette (numa interpretação magnífica). Tem boas chances também no roteiro e direção para Linklater.

BIRDMAN ou A inesperada virtude da ignorância - A probabilidade dos roteiristas terem escrito o filme pensando exatamente em Michael Keaton é gigantesca (talvez eles já tenham confirmado isso, mas não li). Os personagens pelos quais tanto Keaton quanto seu alter ego no filme, Riggan Thomson, são marcados são super-heróis (Birdman e Batman). O ano em que atuaram pela última vez em seus papéis icônicos foi 1992. E Keaton, tal qual Riggan Thomson busca aclamação da crítica com um novo projeto (Riggan com uma peça na Broadway e Keaton com o próprio Birdman). A história gira em torno das dificuldades encontradas por Riggan para conseguir montar a peça “What We Talk About When We Talk About Love” do escritor americano Raymond Carver, já que além de ator ele também é o produtor da peça. Assim como em “A noite americana” de Truffaut, o filme mostra todas as dificuldades de se produzir arte (egos elevados, insegurança, medo constante do fracasso, etc.). Para fazer uma ironia ainda maior com o fato de Keaton/ Riggan serem marcados com super-heróis o diretor confere ao personagem alguns “superpoderes”. Com uma excelente fotografia em tons escurecidos tem amplas chances de ganhar. É favorito, junto com Boyhood, à estatueta de melhor filme e Keaton é o favorito para melhor ator.

O jogo da imitação - Baseado na vida do matemático Alan Turing, o filme resgata um período sombrio durante a segunda guerra mundial, no qual os alemães conquistavam várias capitais da Europa muito em virtude de uma máquina chamada ENIGMA, a qual todos os aliados tentavam decifrar para captar as mensagens germânicas e evitar ataques inesperados. Liderados por Turing (em ótima atuação de Cumberbatch), os mais respeitados matemáticos da Inglaterra tentam de todas as formas “quebrar” a criptografia da máquina. Aparentemente a história teria tudo para ser entediante, mas o roteiro de Graham Moore e a excelente edição de William Goldenberg dão ao filme o clima de tensão necessário para fazer do filme tanto um drama (que explora a vida de Turing) com um eficiente thriller de espionagem. Tem fortes chances no prêmio de edição e Cumberbatch corre por fora como ator, mas dificilmente ganhará.

A teoria de tudo – Apoiado numa excelente atuação de Eddie Redmayne como famoso físico Stephen Hawking, esse filme tenta ser uma cinebiografia de Hawking, mas é um melodrama dos mais chatos feitos nos últimos anos. É inquestionável que um personagem como Hawking, que teve uma vida realmente extraordinária, mereça uma cinebiografia, mas esse filme, absolutamente, não faz justiça ao “personagem” Hawking. O filme, literalmente, junta pedaços da vida do físico e explora ao máximo num tom cheio de auto-piedade a vida da família Hawking. Enfim, é o típico filme que a academia gosta, com uma história de superação das adversidades com uma atuação quase “espírita” do ator principal. Pelo que vi em alguns sites Eddie Redmayne tem boas chances como ator, mas o prêmio deve ficar com Michael Keaton (Birdman).  

Whiplash - Em busca da perfeição - Na busca por um lugar como um dos melhores bateristas do seu tempo, o jovem Andrew Neiman consegue uma vaga em uma das mais conceituadas escolas de música dos EUA. Lá encontrará um professor de métodos quase sádicos na busca por ser o descobridor do próximo grande músico de jazz. Com uma interpretação não mais que excepcional de J.K. Simms como o professor Fletcher, o filme tem os seus grandes momentos nos embates entre professor e aluno, cada um ao seu modo tentando extrair o melhor da bateria. O filme também pontua uma questão interessante: é preciso passar por uma espécie de “calvário musical” para se tornar um grande músico (mais especificamente de jazz, como é o caso do filme)? Barbada como ator coadjuvante, Simmons só perde se ocorreu uma lobotomização coletiva entre os membros da academia.

Sniper americano - Clint Eastwood é sem dúvida uma dos cineastas mais prolíficos em atividade. A média é de quase um filme por ano. Não é de se espantar que com uma quantidade absurda de filmes em tão pouco tempo a qualidade dos filmes caia. Foi o que aconteceu com esse filme. A história gira em torno do atirador de elite Chris Kyle (Bradley Cooper). Enviado para o Iraque após os ataques de 11/09 ele enfrenta diariamente dilemas como quem e quando deverá matar (incluindo crianças) e priorizar o exército/pátria em detrimento da família. O grande problema do filme é o roteiro, que ao intercalar os períodos “em casa” e “em campo de batalha” travam o filme de forma que nenhum deles engrena. Há também um tom ufanista demais no filme, mas nada que já não se tenha visto em outros filmes de Eastwood. O elenco tem atuações medianas. Não há realmente nenhum destaque. Acho que a academia sentiu falta de Eastwood nas últimas premiações e deu essa indicação só pra matar a saudade.

SELMA - O filme não é uma cinebiografia do líder negro Martin Luther King, mas sim captura um fato real ocorrido durante os anos de 1960, quando na cidade de Selma no Alabama, cidadãos negros eram proibidos de votar pelas autoridades locais, quando já havia uma lei federal que permitia o voto, embora fosse tão burocrática que impedia, na prática, o voto dos negros. Há uma tensão permanente mostrada nas conversas entre Luther King (David Oyetokunbo Oyelowo) e Lyndon Johnson (Tom Wilkinson). A tensão racial explode na primeira tentativa de fazer uma marcha entre Selma e Montgomery (distantes 75km). A cena do ataque das autoridades contra os negros desarmados é de um apuro visual único. Estranhamente, Tim Roth, que interpreta o governador do Alabama, George Wallace, não foi indicado a coadjuvante. Apesar do elenco muito bem entrosado deve sair de mãos vazias.

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE – Ótimo trabalho do sempre talentoso Anderson. Narrado em grande parte por flashbacks pelo antigo carregador de malas do hotel e hoje dono dele (F. Murray Abraham), a história gira em torno do Grande Hotel Budapeste (fictício) e as dificuldades e para mantê-lo ativo até hoje. O filme é narrado num tom de aventura, cheio de reviravoltas e mostra toda a astúcia utilizada pelo gerente do hotel (Ralph Finnes) para proporcionar o melhor aos clientes mesmo em tempos de guerra. Dono de um apuro visual espetacular deve levar sem maiores dificuldades o prêmio de direção de arte. Tem grandes chances também em fotografia e edição, mas dificilmente levará os prêmios principais.

Meus favoritos:

Melhor filme: Boyhood
Melhor diretor: Richard Linklater (Boyhood)
Melhor ator: Benedict  Cumberbatch (O jogo da imitação)
Melhor atriz: Não tenho favorita, pois só vi uma das indicadas.
Melhor ator coadjuvante: J. K. Simmons (Whiplash)
Melhor atriz coadjuvante: Patricia Arquette (Boyhood)
Melhor roteiro: Birdman
Melhor roteiro adaptado: O jogo da imitação


E você? Tem algum favorito? Mande sua lista nos comentários do blog.