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sábado, 12 de março de 2016

Playlist de Editores: Março/2016


No ar, a coluna “Playlist de Editores” deste mês de março! Em pauta, de livros a filmes, passando por discos, as indicações de cada editor sobre últimos títulos do universo da cultura a que se dedicaram.

Boa leitura!



- André Maranhão:



Minha indicação vai para um pequeno livro de Caetano Veloso, intitulado “Antropofagia”, e publicado pela coleção Grande Ideias. Fruto de uma conexão entre as editoras Penguin e Companhia das Letras, o ensaio de Caetano se divide em quatro seções: A Poesia Concreta; Chico [Buarque]; Vanguarda; Antropofagia; com passagens que apontam diversas influências na trajetória de Veloso, e que vão tanto nas figuras da Rádio Nacional, da Bossa Nova (na qual Caetano se declara um grande fã de João Gilberto e discorre muitos trechos dedicados a ele); quanto na turma do Iê-iê-iê (Roberto e Erasmo Carlos); e do Rock n’ Roll (Beatles, Rolling Stones).

Mas outro ponto que também chama atenção é a costura feita por Caetano a partir de grandes trabalhos da vanguarda brasileira – seja nos desdobramentos na Semana de Arte Moderna de 1922; no Concretismo, com os irmãos Haroldo, Augusto (e o “irmão por afinidade” Décio Pignatari); nos teatros do Grupo Opinião e de José Celso Martinez; no cinema de Glauber Rocha e, sobretudo, no grande impacto de Oswald de Andrade como fonte de inspiração, que daria de alguma forma, no Tropicalismo trabalhado por Caetano, que por sua vez, um dia chegou a declarar: “a tropicália é uma neoantropofagia”!


- Fernando Lucchesi:



Falar sobre “Tubarão” é chover no molhado. Foi o filme que inaugurou a era dos blockbusters (literalmente o “arrasa-quarteirão”) em Hollywood, injetando dólares e mais dólares na indústria cinematográfica, além de alçar ao estrelato o jovem diretor Steven Spielberg. Nessa edição de 40º aniversário de lançamento, há dois documentários excepcionais: The Making of Jaws que trata sobre as complicadas filmagens do longa (nesta edição, na íntegra, ao contrário da edição em DVD que mutilou mais de uma hora do original) e The Shark is Still Working - The Impact and Legacy of Jaws, que como o próprio subtítulo explica, avalia por meio de entrevistas de fãs e de pessoas envolvidas no projeto, o legado e o impacto causado pelo filme, principalmente na cultura pop. Além desses documentários, o Blu-ray apresenta uma versão restaurada do filme, diferentes trailers de cinema e spots para televisão. Indicadíssimo para fãs do filme ou simplesmente para aqueles que querem ver apenas um grande filme de suspense/aventura.




- Rógeres Bessoni:



Revisitando a obra do mestre, só para dizer junto com o coro de milhares: Jackson do Pandeiro é pra se torar. Tenho viajado pela obra dele, passando por diversos momentos da sua carreira intensa, profícua, genial. É fantástico ver o desenho, os contornos do “espírito” musical nordestino sendo definidos – tarefa grandiosa que ele dividiu com Luiz Gonzaga e mais uns poucos. Aí você mergulha em uma experiência estética completa, desde as formas que a língua portuguesa adquiriu no Nordeste, o vocabulário, o humor ora ingênuo, ora desconcertante, e toda a carga antropológica/sociológica que vem no pacote: os forrós, as sambadas, as brigas nas festas, os namoros, a descoberta do Rio de Janeiro (e o fascínio daí advindo), os traços cômicos do povo. E além da genialidade rítmica inconteste, Jackson também tinha grandes sacadas melódicas como intérprete. Aqui eu vou destacar uma das músicas menos comentadas – e que merecia inúmeras boas regravações e homenagens: Capoeira Mata Um. Do disco “Cabra da Peste”, creditada como sendo de autoria de Álvaro Castilho e De Castro, é uma obra-prima do tipo de balanço que iria fazer tanto a cabeça dos brasileiros nos anos 70 e seguintes. E digo mais, tendo sido gravada em 1966, pela temática e pela levada, não me impressionaria nada descobrir que essa música influenciou todo o começo da carreira de Jorge Ben Jor, por exemplo, além da sua incrível aproximação com os afro sambas de Vinícius e Baden (gravados no mesmo ano). Vale muito a pena o mergulho na inventividade desse grande monstro da inventividade sonora.



- Bruno Vitorino:




Em 1995, enquanto o Sepultura - a maior banda do rock brasileiro! - pré-produzia seu clássico Roots, o Pantera trabalhava seu mediano Far Beyond Driven e o Korn choramingava problemas de relacionamento familiar e retratava toda uma geração de adolescentes com sérios problemas de autoconfiança viciados em MTV; uma banda lá dos confins da Suécia quebrava todos os paradigmas até então estabelecidos para o Metal: era o Meshuggah.

Com seu disco “Destroy, Erase, Improve”, o quinteto de Umea sacudiu o universo metaleiro. Musicalmente: agressividade, precisão, graves, e, sobretudo, padrões polimétricos bastante complexos. Melodia? Raramente, e só para criar ainda mais tensão rítmica. Poeticamente: letras afiadas sobre uma utopia pós-apocalíptica, tecnológica e desumanizada que mesclava indústria de massa, cybertech, relações de poder e desorientação ontológica. O “horror” descrito por Conrad em O Coração das Trevas, só que com uma hashtag na frente. O resultado era uma implacável sequência de porradas ritmicas que denunciava aos berros o apagamento do indivíduo idealizado pelo Iluminismo em prol do andróide sem alma criado do consumo frenético e pelo incipiente ideário eletrônico que se desenhava (e cujo resultado hoje vivenciamos). Uma paisagem sonora desnorteante e por vezes irrespirável, mas absolutamente fascinante.

Destaque para a insanidade de Future Breed Machine, o forte conflito métrico de Beneath, as inesperadas modulações rítmicas de Soul Burn, os constantes deslocamentos de acentuação rítmica em Transfixion e a tessitura métrica de Sublevels. E antes que me esqueça: dê-se ao trabalho um olhar mais atento às letras do baterista e virtuose Tomas Haake. Valerá o esforço, vá por mim.

Altamente recomendado!



- Giba Carvalho:


Luiz Melodia é um artista único. Após 13 anos, o “Negro Gato” nos presenteia com um excepcional álbum de inéditas. “Zerima” é uma simbiose perfeita de ritmos e influências. Certamente por dois motivos inerentes a sua carreira. O primeiro é o respeito ao tempo e aos sentimentos musicais na hora de compor.  E o segundo, é por ele não forçar a barra para que tais inovações surjam. O processo com Melodia é totalmente espontâneo. E, em minha opinião, é daí que o verdadeiramente novo surge. A demora é totalmente justificada pelo compromisso com a qualidade e com o que é de fato faz-se relevante para a música nacional.

A reaproximação de Melodia com suas origens do samba, torna-se cada vez mais clara. Notadamente após o estupendo Acústico MTV (o melhor de todos que foram produzidos no Brasil), estas mudanças voltaram com tudo. Como se o lado neotropicalista tivesse ficado no passado e o minimalismo oriundo das cordas e instrumentos percussivos voltassem a bater no coração do Melodia. Tal mudança nos proporciona com clareza, uma percepção prática e estética de quão magnífico é o Luiz, muito embora, ele sempre tenha corrido à margem no rótulo de sambista.

No álbum, encontramos ainda participações especiais. Na dissonante (em termos de arranjo) releitura de Maracangalha (Dorival Caymmi), temos a participação de Mahal Reis (filho de Melodia) que introduziu um trecho rap no balanço que toma conta da canção. E, na maravilhosa Dor de Carnaval, a participação é de Céu. A junção da versatilidade ímpar de Melodia com o modo único da cantora-compositora paulista cantar tornam esta canção uma das “maravilhas contemporâneas” do trabalho. O restante é uma verdadeira AULA de bom gosto e de um excepcional crooner brasileiro.

“Zerima” nos traz um Melodia disposto, cheio de inspiração e com muita vontade de fazer música de verdade!

COMPLETAMENTE INDISPENSÁVEL!


terça-feira, 1 de março de 2016

Don Ellis Redescoberto - Por Bruno Vitorino

O trompetista Don Ellis. Fonte: Google Imagens.

Há um filme muito ruim que supreendentemente, ao menos para este que vos escreve, foi bastante aclamado por crítica e público chamado Whiplash. O longa conta a história de Andrew, um jovem baterista de jazz que sonha em ser Buddy Rich, mas que não consegue tocar em double time swing nem manter o andamento de um tema. Por conta disso, apanha na cara, é humilhado publicamente e se submete a outras violências morais do professor-regente, Terence Fletcher, na busca por uma perfeição sem propósito. Risível e imensamente frustrante.

Risível, porque um filme tão raso e clichê, que faz da violência mais banal recurso estético, foi recebido pelos sabichões do cinema e pelo público apreciador do circuito não comercial como uma narrativa brilhante sobre o torturante caminho da excelência artística. Balela! Cisne Negro fez isto. Imensamente frustrante, porque a película não apenas perverte gratuitamente o ideal de mestre, aquela generosa entidade forjada na experiência e na sabedoria, e macula a beleza do vínculo que este estabelece com seu discípulo, como também perde a oportunidade de realmente fazer a leitura crítica que se propôs de uma juventude à deriva, sem objetivos, causas ou utopias. E sem falar da caricatura grotesca que o longa faz do ensino do jazz nas escolas de música e do gênero em si enquanto manifestação artística. Se a intenção era atacar o necrotério que Wynton Marsalis chama de jazz, o resultado foi o tédio. Mas, pelo menos para uma coisa o filme serviu: apresentar à nova geração a Don Ellis Orchestra.

Isso por que Whiplash é um tema “de verdade”, composto por Hank Levy especialmente para a big band do trompetista californiano, que abre o interessante disco “Soaring”, de 1973. A versão original da composição que dá nome ao filme é bem mais rica em termos de interpretação, arranjo e improvisos do que à que foi às telonas no arranjo pasteurizado de Justin Hurwitz, um pianista com treinamento clássico que não entende lhufas de jazz, como ele mesmo admitiu. A gravação original é vibrante: os metais em fortíssimo anunciam o tema num esquema de “chamada e resposta”, logo depois a cozinha estabelece o funkeado 7/8 - com destaque para o baixo elétrico com os captadores abertos e realce nos agudos, dando-lhe uma sonoridade meio rock -, e a melodia vai sendo apresentada numa forma que privilegia seções interpoladas que mudam a atmosfera da composição e oferecem contrastes sonoros fabulosos. Repare, por exemplo, no delicado pontilhismo das cordas servindo de cama para os metais em surdina e no efeito rítmico que esta sobreposição métrica causa logo no primeiro minuto da música. E, não menos importante, o solo de Don Ellis é simplesmente matador.

O trompetista, que se graduou na Boston University, tocou com Charles Mingus (“Mingus Dynasty”), George Russell e inúmeras orquestras, construiu sua carreira musical montando sua própria progressive big band. No entanto, ao contrário do sincretismo de Mingus, que misturava folk music, bebop e música de vanguarda, ou da complexa arquitetura sonora das large ensembles de Oliver Nelson, Ellis privilegiava as experimentações com compassos incomuns, padrões rítmicos assimétricos e coloridos tímbricos exóticos proporcionados por combinações e dobras inusuais de instrumentos. Tudo isso em meados dos anos 1960, quando sua orquestra causou algum impacto no cenário jazzístico.

“Soaring” é um ótimo ponto de partida para os que desejam conhecer a sua música. Acessível a ouvidos pouco afeitos à música instrumental, o álbum traz composições bastante intrigantes que expõem com muita precisão a essência criativa e interpretativa de Ellis, integrando num mesmo território um sólido conhecimento da tradição orquestral do jazz, elementos da música erudita, a sonoridade dos instrumentos elétricos popularizados com a expansão do rock, o elemento supresa da improvisação individual e a plasticidade da malemolênica do funk. Além do hoje famoso “Whiplash”, há temas como a quasi rapsódia “Sladka Pitka”, que vai de uma camerística introdução de cordas e madeiras, passando por um balançado funk em 9/8 até descambar num final abstrato e inesperado; a grooveada “The Devil Made Me Write This Piece” e suas digressões em relação à estrutura principal; “Go Back Home”, puro balanço e metaleiras em evidência; e a lírica “Invincible”, onde a confluência das técnicas de orquestração erudita e jazzística se mostra com mais vigor.

É bem verdade que às vezes a big band coloca um pezinho no cafona, trazendo um pouco daquela sonoridade brega dos anos 1970, especialmente nos momentos em que os arranjos dão muita ênfase às cordas ou quando o técnico de som capricha no reverb do trompete - como em “Image of Maria”. Mas sempre há algo inesperado, uma reviravolta na trama da composição, feito o blues em 7/4 no meio de “Sidonie”, que vale a escuta.

Voltando ao filme, lembro de ter ficado tão indignado com Whiplash que soltei involuntariamente um sonoro “que bosta!” em pleno Cine Rosa e Silva mal terminada a película. Lembro também de um cabra que estava ao meu lado com sua garota me lançar um olhar de reprovação e dizer para ela numa falsa discrição: “É por que é um filme sobre jazz. Se fosse sobre o rock ninguém dizia isso.” Não! Não é um filme sobre o jazz, sobre a artisticidade ou sobre a elevação espiritual proporcionada pela música. É somente uma produção superestimada que faz do jazz um pastiche, do roteiro, um decalque pobre de Kafka e onde o diretor brinca de Lars Von Trier. Fato! Mas não deixa de ser um alento ver, de certa forma, Don Ellis redescoberto através dele.


sábado, 27 de fevereiro de 2016

Oscar 2016: Os Indicados a Melhor Filme - Por Fernando Lucchesi


Aqui estamos mais uma vez para dar nossa impressão sobre os indicados a melhor filme do ano de 2015 (veja AQUI o texto do ano passado), de acordo com a academia de artes e ciências cinematográficas de Hollywood. Entre os indicados tivemos gratas surpresas e algumas produções decepcionantes.

A ordem dos filmes no texto está em conformidade com os meus favoritos, começando por “A Grande Aposta”. E você, leitor? Concorda? Discorda? Dê a sua opinião!


A Grande Aposta


Sem dúvida alguma o grande filme do Oscar. É inacreditável como Adam Mackay e Charles Randolph adaptaram o livro The Big Short de Michael Lewis e deram uma fluidez impensada para um tema espinhoso: a crise financeira de 2008. Além de um roteiro extremamente bem feito, o filme conta com uma edição vigorosa que prende a atenção do espectador a cada nova cena e intercala várias histórias sem perder o rumo delas. O elenco do filme é simplesmente excelente. É difícil destacar apenas um. Possivelmente perderá o prêmio de melhor filme para “O Regresso” (já que a academia gosta dessas histórias clássicas de vingança e redenção contra as adversidades), mas se a academia fosse premiar ousadia daria o prêmio para “A Grande Aposta”. Deve levar o prêmio por roteiro adaptado. Pode levar o prêmio de montagem (embora nessa categoria, “Mad Max - Estrada da Fúria” seja favorito).

O Quarto de Jack


Um dos filmes mais humanos e comoventes dos últimos anos, “O Quarto de Jack” conta a história de um garoto de cinco anos e sua mãe que vivem o cotidiano dentro de um quarto. O que o público não percebe, de início, é o terror da situação: Jack e sua mãe não vivem ali por vontade própria, mas por que estão encarcerados, vítimas de um sequestrador. Jack é, na verdade, filho do sequestrador, já que sua mãe foi sequestrada há 7 anos. Para que Jack não veja “Old Nick” (nome pelo qual a mãe de Jack se refere ao sequestrador), ela o mantém dentro de um armário sempre que seu algoz entra no quarto. A “realidade” para Jack é o seu quarto e o que é visto na televisão. O diretor Lenny Abrahamson opta por contar a história do ponto de vista do menino, o que faz um contraponto muito bom entre a inocência e o terror que ele não compreende. Tudo bem que esse recurso não é novo, mas imprime certo lirismo ao filme, que por si só já aborda um tema pesado. Brie Larson é uma grata revelação como atriz. É um papel carregado de dramaticidade e ela consegue imprimir a intensidade certa, sem exageros. É favorita ao Oscar de melhor atriz merecidamente. Destaque também para o garoto Jacob Tremblay, que interpreta Jack. Por se tratar de uma produção menor (leia-se: de baixo custo) não deve levar o Oscar de melhor filme, mas é uma grata surpresa entre os indicados.

MAD MAX - Estrada da Fúria


O diretor George Miller (realizador da trilogia original de Mad Max) parece que pegou o que o interessava dos filmes anteriores, jogou em um liquidificador e criou o filme de ação mais interessante dos últimos anos. É bem verdade que o filme aborda questões como o fanatismo, a falta de água, a mulher como objeto, mas o que torna “Mad Max - Estrada da Fúria” um grande filme são as suas espetaculares sequências de ação. O cenário árido escolhido por Miller nos dá a ideia de um mundo pós-apocalíptico, em que água, combustível e armas são itens de primeira necessidade. A trama se resume basicamente a tentativa da Imperatiz Furiosa (Charlize Theron) fugir com as cinco esposas de Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), um ditador de uma cidadela que fornece água em quantidades escassas à população e assim os controla e utiliza essas “esposas” unicamente para que possam gerar herdeiros para ele e assim manter a sua família no poder através dos anos. Nessa fuga é que entra o herói Max Rockatansky (Tom Hardy), feito prisioneiro por Immortan Joe.

Miller sustenta o seu filme com épicas cenas de ação que vão desde perseguições quase infinitas a tempestades de areia. O elenco também está afiadíssimo, com destaque para Hugh Keays-Byrne, como o vilão Immortan Joe. Um filme de qualidades técnicas inquestionáveis. É o favorito em algumas categorias técnicas (montagem, direção de arte e maquiagem). Seria uma surpresa se ganhasse o Oscar de melhor filme, uma vez que academia dificilmente premia filmes de ação com a principal estatueta.

Perdido em Marte


Uma das grandes surpresas de 2015, “Perdido em Marte” tem uma mistura brilhante entre humor e ação. A história do astronauta que fica isolado em Marte após a sua equipe da missão presumir que o mesmo está morto, é contada com fluidez e muito bom humor através da trilha sonora, basicamente calcada na disco music, e de um roteiro inspirado cheio de tiradas bem pensadas. Matt Damon está excelente no papel do astronauta esquecido. Seria a oportunidade de a academia reparar a injustiça de nunca ter dado um Oscar para Ridley Scott, realizador de grandes filmes como Blade Runner, Alien: O Oitavo Passageiro e Gladiador, mas vão dar o prêmio pelo segundo ano seguido para Iñárritu . Se Scott ganhar será uma grande surpresa.

O Regresso


Uma história clássica sobre vingança, um protagonista que enfrenta adversidades físicas/naturais e um vilão de primeira categoria. Pronto! Você já tem os elementos de um filme feito para, se não ganhar, pelo menos ser indicado ao Oscar. Obviamente que se trata de um exagero. Não basta ter apenas esses elementos. São necessárias atuações inspiradas e uma história que seja, ao menos, convincente. Além do apuro técnico, claro.

É o caso desse “O Regresso” do diretor vencedor do Oscar passado (e ao que tudo indica desse também), Alejandro González Iñárritu. O filme narra a longa jornada de Hugh Glass, vivido por Leonardo DiCaprio, em busca de vingança contra seu antigo companheiro de caçada, John Fitzgerald (Tom Hardy) que além de tê-lo deixado para morrer, assassina Hawk (Forrest Goodluck), filho de Glass. Tecnicamente o filme é um primor: dos cenários naturais gelados do Canadá, à fotografia exuberante de Emmanuel Lubezki, passando pelas interpretações brilhantes de Leonardo DiCaprio e Tom Hardy. O ponto alto do filme é sem dúvida nenhuma o ataque de urso sofrido por Glass. Impecável!

O grande problema do filme reside no roteiro e na montagem. O filme é demasiadamente longo (diversas situações poderiam ser cortadas sem atrapalhar a compreensão da trama) e a edição torna o filme monótono por algumas vezes. Isso para não falar no “salto” proporcionado na história: Glass, completamente destroçado pelo ataque de urso e só conseguindo rastejar, consegue avistar do alto de um penhasco um rio. Na cena seguinte lá está ele bebendo da água do rio. Esse recurso de edição, e por vezes até mesmo de roteiro, não é novidade. Hitchcock até tinha um nome para isso: Mcguffin. Isso não torna o filme menor, mas deixa o espectador desconfiado. Além disso, a facilidade com que a índia foge do acampamento dos franceses é no mínimo questionável.

Trata-se de um ótimo filme, mas longe de ser a obra-prima que estão pintando dele. De acordo com as previsões deve levar os prêmios de filme, diretor, ator (Se bem que é bom Leonardo DiCaprio se benzer. Se perdeu o Oscar pelo papel em O Lobo de Wall Street é bom colocar as barbas de molho) e fotografia.

Ponte dos Espiões


Mais uma vez, Spielberg usa um tema interessante (os espiões russos e americanos no cenário da guerra fria) para exaltar os valores americanos de uma verdadeira democracia. Tom Hanks é um advogado especialista em seguros que, por força das circunstâncias, deve defender um espião russo da acusação de espionagem e por consequência da pena capital. Por defender um “inimigo público”, Hanks ganha antipatia de toda a sociedade, mas graças aos ideais pregados pela constituição americana, ele nunca se desvia do caminho, mesmo quando sua casa é metralhada no meio da noite. Spielberg, numa tentativa de fazer um filme no estilo Frank Capra, com um personagem idealista, firme nas suas propostas joga fora a chance de fazer uma thriller de espionagem ao menos interessante para mais uma vez encher a tela de patriotada americana de como os Estados Unidos são justos e humanos. Além de uma edição e direção de arte brilhantes, salva o filme ainda a atuação Mark Rylance (como o espião russo Rudolf Abel). Dificilmente levará algum prêmio.

Spotlight - Segredos Revelados


O tema é explosivo: a investigação feita pelo jornal Boston Globe que revelou uma série de abusos praticados por padres católicos. O filme segue a linha de jornalismo investigativo que tem entre seus maiores expoentes Todos Os Homens do Presidente de Alan J. Pakula. Mas diferente do filme de Pakula, em que a cada nova pista o mistério vai se elucidando, neste Spotlight já sabemos desde início sobre o que trata a investigação. O filme termina se limitando a buscar testemunhas que se disponham a depor contra a uma instituição poderosíssima, de forma que o filme parece rodar em círculos e não entrega nada de surpreendente ao espectador. A grande tensão gerada pelo filme é saber se a reportagem deve ser adiada para que mais padres sejam denunciados ou publicá-la logo e evitar que concorrentes publiquem primeiro, mas com menos agressores denunciados. Mais um exemplo de filme que foi indicado só pra fazer quantidade. Grandes atuações do elenco (a exemplo de “A Grande Aposta”), com destaque para o surpreendente Michael Keaton, que depois de uma carreira errática parece ter se revelado um ótimo ator. Não deve receber prêmios.

Brooklyn


Desde 2010, quando a academia decidiu que poderiam ser indicados até 10 filmes ao Oscar de melhor filme, sempre acontece de a lista conter indicados que não se sabe por que estão na lista. São exemplos claros disso nos últimos anos Sniper Americano, Filomena e Cavalo de Guerra. Na edição desse ano, este papel coube a “Brooklyn”.

É realmente incompreensível como esse filme foi indicado ao prêmio principal e a mais dois prêmios. Tão inacreditável quanto isso é que o roteiro tenha sido escrito por Nick Hornby (ele mesmo, autor de Alta Fidelidade e O Grande Garoto). O filme é uma daquelas histórias de amor que você provavelmente já viu infinitas vezes. A trama é simples: fugindo da falta de perspectiva na Irlanda, jovem garota (Saoirse Ronan) vai para os EUA em busca de uma vida promissora. Chegando lá, tudo corre bem, ela se apaixona e tudo anda às mil maravilhas. Por conta de um imprevisto, ela decide retornar para a Irlanda e termina se envolvendo com outro rapaz. O grande dilema da personagem é ficar em sua terra natal e começar de novo ou voltar para os EUA onde já tem uma vida encaminhada (muito novo isso, né?).

Esse é uma daqueles filmes que em alguns anos será apenas uma nota de rodapé em livros sobre cinema, apenas por ter recebido essa indicação à melhor produção do ano. Se esse filme receber algum prêmio será a prova de que os votantes da academia perderam completamente o bom senso.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Oscar 2015 - Por Fernando Lucchesi



Sempre houve e sempre haverá questionamentos quanto aos filmes indicados e vencedores do Oscar. Como em toda competição que premia filmes, o critério, na grande maioria dos casos, é amplamente subjetivo, o que dá margem para todo tipo de crítica. Já fui de acompanhar Oscar madrugada adentro, mas hoje em dia me conformo em assistir até onde meu sono aguentar e a paciência aguentar com os números musicais e discursos pra lá de enfadonhos (reconheço que com o passar do ano a cerimônia ficou mais dinâmica, mas ainda sim demora por demais). No entanto, é impossível escapar do “Evento” (com “E” maiúsculo mesmo) Oscar, pois toda mídia de entretenimento está com os holofotes voltados para a cerimônia. Esse ano resolvi que assistiria pelo menos todos os indicados para melhor filme e faria alguns comentários sobre eles. Vamos lá então!

Boyhood- Da infância à juventude – O diretor, Richard Linklater, optou por narrar a vida do garoto Mason (o talentosíssimo Ellar Coltrane), como entrega o subtítulo em português, da infância à juventude. Ao optar por utilizar o mesmo elenco demorou 12 anos pra poder concluir as filmagens. O filme dá saltos temporais na vida de Mason de forma que personagens secundários somem sem maiores explicações e novos personagens vão surgindo à medida que o personagem cresce. O que dá força dramática ao filme são os personagens com seus dilemas existenciais, angústias, insegurança, felicidade e toda sorte de emoções às quais nós, como seres humanos estamos sujeitos durante a vida. Destaque para o diálogo na cena em que Mason deixa a casa de sua mãe para começar a faculdade. Divide com Birdman o favoritismo para levar melhor filme. Possivelmente leva o Oscar de coadjuvante para Patricia Arquette (numa interpretação magnífica). Tem boas chances também no roteiro e direção para Linklater.

BIRDMAN ou A inesperada virtude da ignorância - A probabilidade dos roteiristas terem escrito o filme pensando exatamente em Michael Keaton é gigantesca (talvez eles já tenham confirmado isso, mas não li). Os personagens pelos quais tanto Keaton quanto seu alter ego no filme, Riggan Thomson, são marcados são super-heróis (Birdman e Batman). O ano em que atuaram pela última vez em seus papéis icônicos foi 1992. E Keaton, tal qual Riggan Thomson busca aclamação da crítica com um novo projeto (Riggan com uma peça na Broadway e Keaton com o próprio Birdman). A história gira em torno das dificuldades encontradas por Riggan para conseguir montar a peça “What We Talk About When We Talk About Love” do escritor americano Raymond Carver, já que além de ator ele também é o produtor da peça. Assim como em “A noite americana” de Truffaut, o filme mostra todas as dificuldades de se produzir arte (egos elevados, insegurança, medo constante do fracasso, etc.). Para fazer uma ironia ainda maior com o fato de Keaton/ Riggan serem marcados com super-heróis o diretor confere ao personagem alguns “superpoderes”. Com uma excelente fotografia em tons escurecidos tem amplas chances de ganhar. É favorito, junto com Boyhood, à estatueta de melhor filme e Keaton é o favorito para melhor ator.

O jogo da imitação - Baseado na vida do matemático Alan Turing, o filme resgata um período sombrio durante a segunda guerra mundial, no qual os alemães conquistavam várias capitais da Europa muito em virtude de uma máquina chamada ENIGMA, a qual todos os aliados tentavam decifrar para captar as mensagens germânicas e evitar ataques inesperados. Liderados por Turing (em ótima atuação de Cumberbatch), os mais respeitados matemáticos da Inglaterra tentam de todas as formas “quebrar” a criptografia da máquina. Aparentemente a história teria tudo para ser entediante, mas o roteiro de Graham Moore e a excelente edição de William Goldenberg dão ao filme o clima de tensão necessário para fazer do filme tanto um drama (que explora a vida de Turing) com um eficiente thriller de espionagem. Tem fortes chances no prêmio de edição e Cumberbatch corre por fora como ator, mas dificilmente ganhará.

A teoria de tudo Apoiado numa excelente atuação de Eddie Redmayne como famoso físico Stephen Hawking, esse filme tenta ser uma cinebiografia de Hawking, mas é um melodrama dos mais chatos feitos nos últimos anos. É inquestionável que um personagem como Hawking, que teve uma vida realmente extraordinária, mereça uma cinebiografia, mas esse filme, absolutamente, não faz justiça ao “personagem” Hawking. O filme, literalmente, junta pedaços da vida do físico e explora ao máximo num tom cheio de auto-piedade a vida da família Hawking. Enfim, é o típico filme que a academia gosta, com uma história de superação das adversidades com uma atuação quase “espírita” do ator principal. Pelo que vi em alguns sites Eddie Redmayne tem boas chances como ator, mas o prêmio deve ficar com Michael Keaton (Birdman).  

Whiplash - Em busca da perfeição - Na busca por um lugar como um dos melhores bateristas do seu tempo, o jovem Andrew Neiman consegue uma vaga em uma das mais conceituadas escolas de música dos EUA. Lá encontrará um professor de métodos quase sádicos na busca por ser o descobridor do próximo grande músico de jazz. Com uma interpretação não mais que excepcional de J.K. Simms como o professor Fletcher, o filme tem os seus grandes momentos nos embates entre professor e aluno, cada um ao seu modo tentando extrair o melhor da bateria. O filme também pontua uma questão interessante: é preciso passar por uma espécie de “calvário musical” para se tornar um grande músico (mais especificamente de jazz, como é o caso do filme)? Barbada como ator coadjuvante, Simmons só perde se ocorreu uma lobotomização coletiva entre os membros da academia.

Sniper americano - Clint Eastwood é sem dúvida uma dos cineastas mais prolíficos em atividade. A média é de quase um filme por ano. Não é de se espantar que com uma quantidade absurda de filmes em tão pouco tempo a qualidade dos filmes caia. Foi o que aconteceu com esse filme. A história gira em torno do atirador de elite Chris Kyle (Bradley Cooper). Enviado para o Iraque após os ataques de 11/09 ele enfrenta diariamente dilemas como quem e quando deverá matar (incluindo crianças) e priorizar o exército/pátria em detrimento da família. O grande problema do filme é o roteiro, que ao intercalar os períodos “em casa” e “em campo de batalha” travam o filme de forma que nenhum deles engrena. Há também um tom ufanista demais no filme, mas nada que já não se tenha visto em outros filmes de Eastwood. O elenco tem atuações medianas. Não há realmente nenhum destaque. Acho que a academia sentiu falta de Eastwood nas últimas premiações e deu essa indicação só pra matar a saudade.

SELMA - O filme não é uma cinebiografia do líder negro Martin Luther King, mas sim captura um fato real ocorrido durante os anos de 1960, quando na cidade de Selma no Alabama, cidadãos negros eram proibidos de votar pelas autoridades locais, quando já havia uma lei federal que permitia o voto, embora fosse tão burocrática que impedia, na prática, o voto dos negros. Há uma tensão permanente mostrada nas conversas entre Luther King (David Oyetokunbo Oyelowo) e Lyndon Johnson (Tom Wilkinson). A tensão racial explode na primeira tentativa de fazer uma marcha entre Selma e Montgomery (distantes 75km). A cena do ataque das autoridades contra os negros desarmados é de um apuro visual único. Estranhamente, Tim Roth, que interpreta o governador do Alabama, George Wallace, não foi indicado a coadjuvante. Apesar do elenco muito bem entrosado deve sair de mãos vazias.

O GRANDE HOTEL BUDAPESTEÓtimo trabalho do sempre talentoso Anderson. Narrado em grande parte por flashbacks pelo antigo carregador de malas do hotel e hoje dono dele (F. Murray Abraham), a história gira em torno do Grande Hotel Budapeste (fictício) e as dificuldades e para mantê-lo ativo até hoje. O filme é narrado num tom de aventura, cheio de reviravoltas e mostra toda a astúcia utilizada pelo gerente do hotel (Ralph Finnes) para proporcionar o melhor aos clientes mesmo em tempos de guerra. Dono de um apuro visual espetacular deve levar sem maiores dificuldades o prêmio de direção de arte. Tem grandes chances também em fotografia e edição, mas dificilmente levará os prêmios principais.

Meus favoritos:

Melhor filme: Boyhood
Melhor diretor: Richard Linklater (Boyhood)
Melhor ator: Benedict  Cumberbatch (O jogo da imitação)
Melhor atriz: Não tenho favorita, pois só vi uma das indicadas.
Melhor ator coadjuvante: J. K. Simmons (Whiplash)
Melhor atriz coadjuvante: Patricia Arquette (Boyhood)
Melhor roteiro: Birdman
Melhor roteiro adaptado: O jogo da imitação


E você? Tem algum favorito? Mande sua lista nos comentários do blog.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Religiosa - por André Maranhão Santos





A mais recente adaptação de A Religiosa, assinada pelo diretor e roteirista Gillaume Nicloux difere da versão Nouvelle Vague de Jacques Rivette – censurada pelo governo francês dos anos sessenta. E um dos pontos diferenciadores entre ambas as versões se dá em como os ideais de liberdade e luta pelos direitos humanos aparecem na versão de Nicloux, além dos seus paralelos com a filosofia iluminista, já que tal filme deriva do roman-mémoires La Religieuse de Denis Diderot, publicado no final do século XVIII e que se baseia no caso de Margueritte Delamarre, uma jovem francesa que lutou para sair da vida monástica num período contemporâneo à vida de Diderot.

Em A Religiosa, Suzanne Simonin é a personagem principal; uma garota que entra para um convento sem o desejar, passando por humilhações, assédios morais, sexuais, além de discriminações, somados ao seu desejo de abandonar o hábito de freira. Suzanne é interpretada de maneira notável pela atriz belga Pauline Étienne, que aparece escudada pela grande Isabelle Hupert e por Martina Gedeck (bastante famosa após A Vida dos Outros e que sendo alemã protagoniza o filme em francês, mantendo a forte tradição de atrizes europeias poliglotas).

Especialmente, há uma importante contribuição para mim em A Religiosa: tal qual Ligações Perigosas – filme de 1988, adaptado do livro de Chordelos de Laclos, estrelado por Glenn Close, Michelle Pfeiffer e John Malkovich – os ambientes mais recônditos da vida privada apontam para os jogos de poder, a sedução, a manipulação em pleno cotidiano e mentalidades do mundo francês do século XVIII. A Religiosa também se articula com outros filmes tais como O Nome da Rosa (adaptado do romance de Umberto Eco, dirigido por Jean-Jacques Annaud, estrelado por Sean Connery e tendo Jacques LeGoff como consultor histórico) e Dúvida (de John Patrick Shanley) com Meryl Streep, Phillip Seymour Hoffman e Amy Adams no elenco, por se tratarem produções que explicitam os abusos recorrentes ao longo da instituição religiosa no Ocidente e apontam para a emergência das leis como instrumentos fiscais contra as arbitrariedades empreendidas em lugares sagrados e mais restritos.

Num pensamento iluminista consonante, outro filósofo como Voltaire via nas benesses que alguns governos concediam à estrutura política da Igreja uma série de perigos e violações à Humanidade. O filósofo defendia a oração não como dominação ou despotismo, mas como algo em profundo diálogo com o papel fiscalizador do Direito Civil. “O magistrado deve apoiar e conter o sacerdote, da mesma forma que o pai de família deve mostrar consideração para com o preceptor de seus filhos e impedir que abuse deles”, assim o enfatizou em seu Dicionário Filosófico.

Também é sabido do papel estratégico que a vida feminina dos conventos proporcionou à economia dos bens masculinos e às relações de poder entre os gêneros. Evitar o casamento de certas filhas para não repartir o latifúndio na forma de herança, ou se valer dos espaços clericais para efetuar um processo civilizador sobre a figura feminina – naquela que sabe os seus lugares e limites e não contraria a autoridade da figura masculina – eis aqui exemplos cruciais do interesse patriarcal por via da domesticação religiosa. Embora a Coroa de Portugal nem sempre mostrasse favorecimentos à criação de novos espaços de reclusão para a entrada de mulheres na vida monástica (já que via no aumento do número de mulheres celibatárias um risco para o crescimento populacional de uma colônia como o Brasil) a monarquia lusitana quase sempre encorajou as casas de recolhimento em solo brasileiro. No século XVII, já havia conventos na Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, tendo este número se multiplicado em outras localidades como Pernambuco, Maranhão, Minas Gerais e na Região Sul, tanto na forma de conventos quanto nas casas de recolhimento. Em Trópico dos Pecados, Ronaldo Vainfas argumenta que essas casas também estipulavam diversas restrições às mulheres, preferindo, inclusive, moças brancas e de famílias abastadas. As casas de recolhimento também atuavam enquanto recebedoras de mulheres casadas durante a ausência dos seus respectivos maridos, retiros espirituais de viúvas e correção de condutas femininas “indevidas”.

O que pretendo aqui não é desqualificar ou negar a existência da vocação na vida monástica e na reclusão, mas atentar para a importância do exercício histórico / democrático que o filme A Religiosa pode estimular em conjunto ao significativo valor que o pensamento iluminista pode elucubrar num contexto como o de Diderot. Por outro lado, a Razão não precisa atuar como a legítima redenção do Ser, já que na própria época de La Religieuse, alguém como Kant foi capaz de frisar que vivia na “era do Iluminismo” no lugar de viver numa época de pleno esclarecimento. Mas o filme que inspirou esta postagem pode reavivar o debate sobre o direito à fé, o lugar, a filiação e as formas da vida religiosa, e analogamente à personagem Suzanne - que desejou abandonar a vida monástica para professar sua fé sob outros modos - no mundo contemporâneo, a Democracia deve garantir o direito de uma islâmica usar um hijab, como também de ampará-la caso não queira usá-lo ou deseje parar de usá-lo.

Devo finalizar com uma lição sobre a fé que aprendi num livro de Walter Benjamin, intitulado A Origem do Drama Trágico Alemão, onde aquele filósofo, judeu, esotérico e fugitivo do Holocausto cita a seguinte alegoria: “Santa Teresa vê, numa alucinação, a Virgem esparzindo rosas sobre a sua cama, e conta a visão ao seu confessor ‘Eu não vejo nenhumas’, responde este. ‘Claro, a Virgem trouxe-as para mim’, é a resposta da santa”. Cada vez que eu releio, me conforto com este depoimento, pois semelhante a Benjamin, consigo acreditar que há um gesto radicalmente sensorial quando Cristo é deslocado para o plano do provisório, do cotidiano e do precário. No filme A Religiosa, a personagem Suzanne Simonin parece alimentar esta linha de raciocínio, ao ver que Deus se faz através de um prisma ético que antecede as instituições e que na fé religiosa pode residir uma via de contestação, de luta e de renovação da liberdade humana.