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domingo, 10 de maio de 2015

Variações em 5/4: Vulnicura



Na coluna deste mês, os editores do blog comentam o mais novo trabalho da cantora Björk, seu recém-lançado “Vulnicura”.

Boa leitura!

- Giba Carvalho:

Em seu novo álbum, Björk tenta expor e ao mesmo tempo sarar as feridas do fim do seu casamento. Parece receita de bolo da vovó, mas até mesmo na gélida Islândia, o idoso mote afetivo serve como inspiração para novas composições. Pois bem, "Vulnicura" é um disco muito bem produzido e que possui alguns pontos interessantes.

Primeiramente, os trabalhos da "Deusa do Gelo" parecem ser feitos para transcender o espaço único da música. Talvez por conhecimento das apresentações ao vivo de Björk, insista em dizer que a artista em foco pensa sempre que seus discos são unicamente para encenações tão peculiares as suas apresentações. É como se fosse uma peça de teatro constante, intensa, lotada de diversos artefatos e que toda produção fonográfica fosse a trilha sonora para tal. Ao vivo funciona muitíssimo bem. Já para audição, “Vulnicura” torna-se enfadonho e confuso.

Os gemidos incessantes de Bjork transitam de forma eficaz numa tentativa de mesclar música erudita com tons de eletrônico. Tenho que levar em consideração, que em comparação com trabalhos anteriores, este é um dos álbuns que ela menos arriscou em termos instrumentais. Isto fez com que o disco soasse altamente estranho. A mescla supracitada é insuportável (com exceção dos arranjos de cordas que são muito bons). Voltando ao ponto de vista vocal, a cantora desfila momentos de extrema emoção e dramaticidade em vários momentos do álbum. Para que o leitor tenha idéia, as seis primeiras canções do disco são como se fosse um glossário dos períodos pré e pós-separação. Não tem como não ser de outra forma. É completamente perceptível.

“Vulnicura” é um disco passional por inspiração, chato nos arranjos e contraditório nas composições. Nada diferente das almas que sofrem por amor.

- André Maranhão:

Para mim está bem claro que Björk é um ícone da música. Seus lances performáticos, somados aos seus gestos camaleônicos deixam isso claro há mais de décadas. O álbum “Vulnicura” também faz jus a todas essas qualidades da artista islandesa. O uso de instrumentos eruditos embaralhados com sintetizadores, colagens, ruídos sampleados, além da vocalização bastante afinada de Björk, contendo, inclusive melodias nórdicas, estão presentes nas canções desse trabalho. Creio que em algumas faixas isso funciona bem. Aqui, destaco Stonemilker (para mim, a melhor do disco); History of Touches; Atom Dance e Black Lake – embora, não considere todas elas necessariamente boas por completo. As demais faixas me parecem confusas, onde Björk vagueia entre os mares de sua voz desconexa com os ritmos eletrônicos e os instrumentos acústicos que trouxe para o álbum. Apesar da importância dessa artista, confesso que em alguns momentos, foi uma tarefa bastante árdua concluir a audição de “Vulnicura”. Mas é possível que ao se combinar com as apresentações de Björk no palco, essas canções envolvam mais, pois lá estarão presentes outros recursos multimidiáticos e cênicos, tais como telões, figurino, maquiagem, expressão corporal, importantes para compor o sucesso da artista, cuja competência ela já demonstra possuir faz tempo.

- Fernando Lucchesi:         

Ainda me recordo a primeira vez que ouvi falar em Björk. Uma colega de classe me falava demais sobre a banda dela, o Sugarcubes. No entanto, como qualquer pessoa no começo dos anos 1990, a primeira vez que vi e ouvi Björk foi através da MTV no clipe de uma música chamada Human Behaviour. Clipe muito bem feito, mas quando ouvi o estilo de música que ela cantava a decepção foi grande. Aquela voz baixa, quase fraca que parece que vai desaparecer realmente não fez minha cabeça. Eis que agora foi proposto pelo blog analisar o novo álbum dela, intitulado “Vulnicura”.

Bom, quase 20 anos depois de ter escutado Björk pela primeira vez continuo achando uma das coisas mais enfadonhas da música. A voz dela aliada a alguns arranjos de teclado meio New Age transformam boa parte do álbum num excelente soporífero, mas seria injusto dizer que tudo é ruim. Os arranjos de cordas são muito bonitos e bem executados, como, por exemplo, em Stonemilker e Lionsong, só para citar dois exemplos. Outro destaque do disco é a longa e intensa Family

Enfim, se você é fã de Björk você vai se deleitar com Black Lake, uma mistureba de sons eletrônicos de dez minutos de duração e vai achar o disco uma das coisas mais revolucionárias do planeta. Mas se você, assim como eu, não tem nenhum apreço pelo som dela, passe longe desse disco.

- Bruno Vitorino:

Não sou um expert em Björk. Muito pelo contrário. Quase nada conheço da cantora, além de sua brilhante atuação no filme “Dançando no Escuro” (2000), dirigido por Lars von Trier, e da trilha sonora que a artista compôs para esta película densa e emocionalmente profunda. Lembro – e isso faz muito tempo – de ter ficado bastante impressionado com a música em si, o uso que Björk fazia de batidas eletrônicas, da sonoridade emanada do maquinário que sua personagem manipulava, das harmonizações vocais, dos timbres orquestrais, enfim com a música grandiloquente feita por alguém que sabia exatamente o que estava fazendo. Um trabalho musical primoroso que dialogava de modo muito interessante com o filme, conferindo-lhe ainda mais peso emotivo. Por sinal, nunca me esqueci do quão desnorteado fiquei ao final da sessão de cinema. O impacto do filme, potencializado pela trilha sonora, atingiu-me em cheio e saí da sala embevecido pelo prazer estético.

Para além deste trabalho, no entanto, nada conheci além do hype-diva que envolve a cantora islandesa. E, apesar de ter gostado de “Dançando no Escuro”, todo este frenesi cult me manteve afastado e absolutamente desinteressado por sua música desde então. Acabei trilhando outros caminhos sonoros que me levaram para longe de suas fronteiras estéticas. Contudo, “Vulnicura” e a necessidade de comentá-lo para a coluna fizeram com que me reencontrasse com Björk depois de todo esse tempo. Foi, confesso, uma agradável surpresa.

“Vulnicura” é um disco extremamente íntimo no qual a cantora disseca o fim de seu relacionamento com Matthew Barney e a devastação humana que isso lhe causou numa espécie de drama eletro-orquestral. É um disco fragmentado, como um coração em frangalhos, onde cada canção esmiuça resquícios de sentimentos por vezes conflitantes, pinta aquilo que poderia ter sido entre eles e medita sobre as repercussões emocionais do ocaso do amor onde, no entanto, um ainda ama. Porém, a segmentação do álbum, mais do que comprometer sua coesão narrativa, aprofunda-a, pois cada música parece estabelecer entre si um laço emocional, como se cada uma delas jogasse luz sobre um aspecto diferente do sofrimento uno. O andamento largo que perpassa todo ele, mantém, do ponto de vista musical, sua unidade e é o fio condutor que leva o ouvinte a percorrer as paisagens emocionais que  Björk constroi com o uso de belas tessituras nas cordas, de uma sólida base rítmica promovida pelas programações eletrônicas e de ricas melodias que cortam os céus desses mundos confidenciais. Destaque para Stonemilker, History of Touches e Family.   

Sim, concordo, o disco é "paradão" (embora prefira o termo “contemplativo”). Sim, as inflexões vocais de Björk são, de fato, um pouco irritantes (embora haja muita beleza expressiva e técnica em sua voz). Sim, reconheço também certa contaminação new age nos temas (embora prefira ouvir os ecos de Jean Sibelius que as cordas me trazem). Concordo com tudo isso! Mas, se levarmos em consideração que vivemos num tempo no qual os artistas se reduziram a celebridades midiáticas que fomentam estilos de vida e padrões de consumo, que a sensibilidade coletiva se vulgarizou ante o inútil e o superficial, que pouco ou quase nenhum espaço é dado à criatividade no que sobrou daquilo que a humanidade conheceu um dia por arte; somos obrigados a reconhecer a coragem de Björk em compartilhar, de modo franco e inteiramente aberto, com milhares de pessoas ao redor do mundo, o abissal e doloroso mergulho dentro de si traduzido de maneira bastante exitosa numa música tão delicada, e de certa forma resgatar, com isso, a perspectiva esquecida da arte que busca unir os indivíduos no abstrato de seu arcabouço simbólico. Particularmente, acho um feito notável neste “mundo prostituto”, para usar uma expressão de Rubem Fonseca.

Por todas essas questões, meus caros, “Vulnicura” é um disco que merece, ao menos, uma audição bastante atenta.

- Rógeres Bessoni:

Björk, usualmente, me tira da minha zona de conforto. E isso está longe de ser um demérito. Mas, por si só, também está longe de ser um mérito. “Vulnicura” me trouxe, em seu começo, elementos poderosíssimos para mim, que são os excelentes arranjos de cordas, em alguns momentos com matizes dos violinos do leste europeu, de que tanto gosto. E terminou por aí. Para todo o resto, aplica-se o que vou morrer de velho falando, sem nenhum constrangimento – ao contrário, afirmo cada vez com mais firmeza: o mundo musical da pura técnica, sem melodia e sem apresentar uma construção sólida, me interessa muito pouco ou nada. E não acho que “Vulnicura” é um exemplar de “pura técnica” musical. No máximo, pode ser uma boa experiência sonora de técnicas de estúdio. No caso específico de Björk, a simples opção pela estética do bizarro não traz para mim nenhuma experiência de acréscimo ou revelação. Digo isso porque, para que “sirva” de alguma forma, a vivência de sair da zona de conforto tem que ter caráter iniciático. Um Mestre sempre lhe conduz a perceber como era mais estreito o lugar que você ocupava antes, e como é melhor a nova visão que se abre. E estamos falando de música, 45 minutos de andamentos quebrados, praticamente sem nenhuma linearidade, ruídos tecnológicos, sussurros, ruídos humanos que parecem de agonia, a loucura, o soturno, a fronteira do horror...

Ah, eu captei exatamente o que o álbum queria? A visita aos porões de uma mente atormentada? O transe esquizofrênico? Relatos do terror noturno? Uma tarde de um domingo de chuva, em depressão profunda, num sanatório? A literatura já produziu obras-primas por esses caminhos. O cinema também. A pintura e a música também. Era isso que Björk queria passar, e eu, acertadamente, captei? Não sei, e não é o que me interessa que falo em MÚSICA. A construção musical baseada exclusivamente em desconstrução não me diz absolutamente nada. O choque pelo choque não me conduz a nenhuma experiência estética libertadora, em nenhuma vertente da arte. Por exemplo, até hoje considero que assistir ao filme “Irreversível”, com o estupro de Monica Bellucci filmado em tempo real, sem cortes, foi um dos empregos de tempo mais inúteis da minha vida. Não pensei nada mais iluminado depois de ter me submetido àquilo. Foi assim que os últimos 45 minutos de Bjork não me libertaram mais do que 5 minutos de Mutantes, nem me revelaram a alma humana mais do que meia letra do Pink Floyd. Eloquência, maestria poética e virtuosismo, domínio da plasticidade dos sons - esses elementos são manejados acertadamente e grandiosamente por poucos. Nem todo ajuntamento de elementos configura para mim uma construção, ainda que espelhe uma intenção.

Hoje em dia, por exemplo, meu querido Recife é um amontado de edificações, e discute-se se isso resultou numa cidade. A ininterrupta fratura rítmica pode até ter revelado a descontinuidade da cabeça de Björk, pode até ter sido uma realização deliberada, planejada, mas não me conduziu pelas minhas próprias quebras existenciais – se é que o álbum algum dia se propôs a isso. Aquele encadeamento de sons não produziu em mim a perplexidade, a surpresa do aprendizado. E, ademais, quando uma obra pretensamente artística nos conduz ao desconforto, é significativo que também suscite em nós o deleite do insight, sem o qual esse desconforto não pode ser contemplado e digerido. Uma  situação de tormento perene, sem alívio, não se converte em luz – no caso, não se converteu em uma “luz estética”, digamos assim.

O portentoso rock progressivo, em seus diversos matizes, já me mostrou abismos. Mas, assim como Dante atravessou o horror guiado pela poesia, personificada em Virgílio, o progressivo nos conduz também por uma riquíssima malha poética e por um território de grande virtuosismo musical, além de verdadeiras odisseias melódicas. É, pois, ante todo o assombro que grandes obras já operaram em mim, que “Vulnicura” se me apresentou verdadeiramente sofrível. Eu sinceramente acho que o universo do ruído agressivo, do torto, do bizarro, do “desconstruído”, é um abismo em que a ocidentalidade caiu, e do qual não sabe sair. Pensaria diferente se visse que transitamos de dentro para fora da melodia a nosso bel-prazer, mas não vejo isso. A criatividade da construção melódica e das sólidas construções rítmicas, que rendeu à humanidade escolas como o blues, o samba, o flamenco, a música indiana e, mais recentemente, o grande hard rock (apenas como exemplo), parece uma ciência perdida. Parece algo que não é feito porque não se sabe mais como fazer. Respeito a artista, respeito toda e qualquer intenção artística, respeito os fãs, mas parafraseando a própria Björk, “I have musical needs, oh, needs...” E vamos em frente. O garimpo continua.

domingo, 29 de março de 2015

Variações em 5/4 - Céu Ao Vivo





Na coluna deste mês, os editores do blog lançam um olhar coletivo sobre o recém-lançado disco “Ao Vivo” da cantora paulista Céu.

Boa leitura!

- Giba Carvalho:

Quando Bruno Vitorino sugeriu o trabalho novo de Céu como pauta para coluna deste mês, confesso ter sentido um frio na espinha. A dúvida permeou meus ouvidos e minha cabeça de modo intrigante: “o que falar de uma cantora que acho excelente em estúdio e que não rende o esperado ao vivo?”. Pois bem. A cantora paulista fez uma síntese dos três primeiros álbuns para comemorar os dez anos de sua carreira que continua bastante promissora. Deixou de lado os aspectos dub-ragga de “Vagarosa” (2009) e priorizou o lado mais “pop-sedução” de “Caravana Sereia Bloom” (2012). Escolheu o aconchego do Centro Cultural Rio Verde e sua capacidade de 400 pessoas para fazer uma gravação mais intimista, do que o delírio frenético das grandes plateias. Este foi o primeiro grande acerto do trabalho. O segundo ponto positivo foram as versões escolhidas por Céu. Como principais destaques do trabalho, a excelente versão de “Mil e Uma Noites de Amor” (Baby do Brasil, Pepeu Gomes e Fausto Nilo) e conhecida do público oitentista na trilha da novela “Roque Santeiro” e a espetacular versão de “Visgo de Jaca” (Rildo Hora e Sérgio Cabral) que já conhecemos desde Vagarosa. No mais, conforme citado acima, um compilado de seus maiores sucessos executados de modo bastante peculiar e competente.

Reconheço que da geração pós-Los Hermanos, Céu seja o nome de maior destaque do cenário pop nacional. Particularmente, gosto muito de sua ousadia nas composições e gravações dos seus trabalhos, mas dois pontos específicos me incomodaram sobremaneira. Primeiramente, a queda para elementos extremamente bregas nos arranjos. A versão de “Cangote” (uma das minhas preferidas do Vagarosa – 2009) é de revirar morto no caixão. Do balanço cadenciado de um reggae de categoria, para uma guitarrada sem pé nem cabeça, fruto da mentalidade “cafuçú” que permeia como “CUltura” na mentes “privadizadas” da turminha descolada. Aqueles que fingem ser alegres às custas da desgraça alheia. E segundo, as vinhetas patéticas que existem nos hiatos e introduções das músicas.

No mais, as pessoas precisam entender que mesmo sendo uma gravação de show, o trabalho foi mixado, as falhas usuais e constantes da cantora “na febre do ao vivo” foram maquiadas, e assim o CD e DVD serão um sucesso absoluto.


- André Maranhão:

Quando conheci o trabalho de Céu, a partir do seu disco de estreia em 2005, me pareceu que sua arte se encaixava muito bem numa estética glocal (uma mediação entre traços do global e local da cultura). A cantora quase sempre cruzou ritmos, artistas e idiomas diversos nos seus álbuns. Em seu novo disco (Ao Vivo) acredito que o glocal ainda persiste. Porém, em alguns momentos, Céu e os seus bons músicos (Dustan Gallás; Lucas Martins; Bruno Buarque e o DJ Marco) perderam (ou não procuraram) a possibilidade de se conectarem com a inventividade do Jazz ou da improvisação – coisa que seria bastante pertinente ao longo do disco. Senti a falta de tudo isso em “Teju na Estrada” (instrumental) e “Streets Bloom”: ambas são faixas caídas e que não me empolgaram, talvez justamente por não se improvisar mais. Em “Rainha”, um Afrobeat que por vezes Céu dedica a Fela Kuti, também seriam bem-vindas mais improvisações dos músicos, frases cheias – além, é claro, do vocalise menos tímido por parte da cantora.

Ao longo de sua carreira, Céu migrou paulatinamente dos backing vocals para o lead. Quiçá por dispor de uma voz bem favorável ao estilo de cantora crooner, que Céu consegue interpretar um estilo como o Brega com tanta finesse. Isso ocorre em “Retrovisor”; “Amor Antigo”; “Baile da Ilusão”. Mais além, a faixa “Cangote”, junta o canto de Céu com traços da música paraense, de uma linhagem Brega Cult e que se assemelha bastante aos trabalhos de Felipe Cordeiro.

“Lenda” permanece bem fiel às apresentações de Céu antes de lançar o álbum Ao Vivo. “Contra Vento” e “Comadi” conectam a música nordestina com o Indie, e “Em Piel Canela” (um clássico escrito por Bobby Capó, e gravado por outros nomes consagrados, tais como o trio Los Panchos e Nat King Cole), Céu mantém a suavidade e a leveza da sua interpretação. Em “Mil e uma Noites de Amor”, seu tom é bem próximo ao de Pepeu Gomes, e a versão é boa (ainda que eu considere a versão de Pepeu mais marcante).

Às vezes, acelerar a batida de uma canção não é garantia de que ela melhorará; principalmente em um ritmo como o Reggae. É o que acontece em “Concrete Jungle”. A versão do álbum Céu (2005), além de conter uma harmonização mais rica, com oitavadas, mais acordes e uma cadencia desacelerada, funciona bem melhor do que a do álbum Ao Vivo.

Ultimamente, alguns artistas que pretendem se aproximar de uma forma / fórmula emepebista da canção, têm cometido o seguinte equívoco: enxugar demais ou até excluir os instrumentos acústicos de suas interpretações, assim como tornar excessivo o uso de recursos eletrônicos. Bom, no disco “Ao Vivo” de Céu, isto ocorre em 10 Contados (uma vez que as versões do álbum de estreia da cantora e o dueto com Paulinho Moska no programa Zoombido, do canal Multishow são bem melhores); Malemolência (que apesar da novidade de Céu citar Mora na Filosofia, de Monsueto e Arnaldo Passos, a versão original do álbum de 2005 traz consigo a frase do cavaquinho – tão legal, porém esquecida nas posteriores apresentações da cantora). Em "Visgo de Jaca" (de Rildo Hora e Sergio Cabral), pode-se conferir na versão de estúdio anterior ao disco Ao Vivo, a diferença que fazem o pandeiro e as congas em certas canções.

- Fernando Lucchesi:         

Dentre as várias cantoras surgidas no final dos anos 2000, sem sobra de dúvida, Céu é a que mais se destaca. O CD/DVD “Céu Ao Vivo” faz um apanhado da consistente carreira da cantora, iniciada com o disco homônimo “Céu” (2005).  O disco, especificamente, tem uma mistura bem interessante das canções dos três discos lançados por ela. O início é de tirar o fôlego com três belíssimas canções. “Falta de ar” inicia com uma pegada roqueira setentista, desacelera e se enche de solos de guitarra. “Amor de Antigo” com sua levada meio brega e aquele famoso teclado de churrascaria, embalam uma linda melodia e “Contravento” parece uma cúmbia desacelerada, com inserções de guitarras psicodélicas.

Céu também não se contenta em ficar em sua zona de conforto e transforma um dos seus maiores sucessos, a balada “Cangote”, em um carimbó/guitarrada paraense. Funciona muito bem. A influência paraense/caribenha também está presente em “Baile de Ilusão”. O que não funciona bem no disco é a cover de “Mil e Uma Noites de Amor” de Pepeu Gomes. Muito similar ao original, sem nenhum toque de ousadia, algo que se espera de uma cover, principalmente ao vivo. O que falta de ousadia em “Mil e Uma Noites de Amor” é compensado na interpretação e arranjos de trip hop para lindíssima “Visgo da Jaca” de Martinho da Vila, que infelizmente está apenas no DVD.

Na segunda metade do álbum a cantora deixa um pouco de lado a influência caribenha nos arranjos das músicas abre um espaço maior para outros gêneros muito presentes na carreira de dela. Há espaço para o Hip Hop (“Malemolência” e “Lenda”), Reggae (“Concrete Jungle”, cover de Bob Marley) e até uma pouco de soul, nos arranjos de “Rainha”. A julgar pelo apanhado das músicas do CD e DVD “Ao vivo”, Céu está no caminho certo com seu caldeirão de influências musicais.

- Bruno Vitorino:

O disco “Ao Vivo” da paulista Céu chega para marcar a exitosa trajetória de dez anos de uma cantora que soube ao longo de sua carreira articular suas influências de música internacional às raízes de sua cultura numa produção autoral do seu tempo, sem saudosismos caricatos e mercadológicos, e que se materializa num formato pop urbano, mas que – eis aqui o mais importante e raro - ainda se preocupa com o conteúdo. Por essa razão, vejo a cantora com o nome mais interessante do mainstream nacional dos últimos tempos. Seu talento para a composição, suas angulosas melodias que serpenteiam por uma harmonia intuitiva, sua voz falha, roufenha - não pasteurizada pelo tecnicismo lírico ou pela artificialidade da impostação exagerada à Ana Carolina –, mas educada e de belo timbre, e sua sensível qualidade de intérprete resultam numa música que tem identidade própria e méritos estéticos, como atestam seus discos “Céu” (2005), sua obra-prima “Vagarosa” (2009) e o dançante “Caravana Sereia Bloom” (2012).

Tive a oportunidade de assistir à cantora em ação no festival Rec Beat no ano de 2013, mas creio que a dispersão do palco grande combinado à euforia de um grande público a dominaram. Sem falar que a banda no palco era bastante reduzida em relação àquela que se ouvia nos discos, sempre repleto de convidados em cada faixa. Assim, em poucas palavras, o que vi foi uma Céu desconcentrada amparada por uma banda que não conseguia preencher os espaços e atingir o nível de execução que se ouvia nos discos em estúdio. Saí antes de o show terminar. Daí meu medo que o fenômeno “brilhante em estúdio, terrível ao vivo”, algo tão comum em tempos de músicos que não sabem o que fazem e focam no hype, se repetisse com esse novo projeto da cantora. No entanto, não é o que acontece. Imagino que o ambiente controlado, com uma produção disponível e vasto background ao alcance, a responsabilidade de uma gravação de um DVD/CD, que não deixa de ser sinônimo de prestígio na carreira de qualquer artista, o caráter intimista do Centro Cultural Rio Verde, local escolhido para a gravação de sua apresentação, e, por fim, um público empolgado ma non troppo criam as condições ideais para que Céu se mostrasse focada e confiante, e sua banda, mais audível e comprometida com a execução. E o repertório é simplesmente matador! Destaque para o clima tropicalista de “Contra Vento” e samba-dub de “Malemolência”.

Recomendo!

- Rógeres Bessoni:

Por razões de cunho pessoal, o sr. Bessoni não conseguiu escutar e escrever na coluna de março. No próximo mês, o colunista está de volta com suas observações perspicazes.


domingo, 11 de janeiro de 2015

Everything Will Be Alright in the End - Por Giba Carvalho




Desculpem, pessoal, não percebi que precisava tanto de vocês
Eu achei que conseguiria atingir um novo público
Esqueci que música disco é um saco
Acabei sem ninguém e comecei a me sentir mal
Talvez eu deva tocar a guitarra solo
E Pat tocar bateria

Me leve de volta, de volta para a cabana
De volta para a Stratocaster com correia de raio
Chutar a porta, mais hardcore
Fazendo rock como se fosse 1994


É com este pedido de desculpas aos fãs, que o Weezer ressurge após 13 anos de experiências de irrelevância absoluta com sua própria música. Obviamente que não podemos esperar um “milagre” dos “rock-nerds”, mas “Everything Will Be Alright in the End” traz o grupo de volta aos bons discos. E isto é de suma importância num mundo onde as famigeradas “playlists” e os “singles” reinam em absoluto.

Parecendo compreender o rumo que a carreira da banda estava tomando, Rivers Cuomo (líder, guitarrista e principal compositor da banda) não poupou nomes em parceria para o processo de composição do novo trabalho. E, por mais que estes nomes soem estranhos para os fãs de qualquer vertente rock, o resultado foi bastante satisfatório. Em “Back to the Shack” (primeiro single do álbum) temos a mão de Jacob Kasher, parceiro de Kylie Minogue. É logo no primeiro single do disco que percebemos claramente que os bons tempos voltaram. Guitarras pesadas e marcadas relembram o “Green Album” (2001) e temos a explicação: o novo trabalho é produzido por Ric Ocasek que trabalhou com o Weezer no álbum supracitado e no “Blue Album” (1994). Parceiro de artistas deletérios tais como – t.A.t.U, Demi Lovato e Paris Hilton (existem adjetivos mais apropriados do que artista para defini-la), Josh Alexander aparece em duas canções do disco – “Lonely Girl” – que é praticamente uma volta ao início do grupo (mais do mesmo) e “Da Vinci” – que possui um arranjo extremamente confuso, muito embora grude “terrivelmente” na cabeça.

Dando continuidade as parcerias, faço uma pergunta aos leitores do blog: “alguém lembra aqui daquela banda pavorosa de ‘metal arriação’ chamada The Darkness?” Pois bem, a música que tem tudo para cair nas graças do público é – “I´ve Had It Up to Here”, justamente a parceria com Justin Hawkins, vocalista e guitarrista deste falecido grupo. Esta canção traz novamente à tona a competência que o Weezer possui de mesclar aquele rock “farofinha” com indie pop “algodão doce”. Na busca por diversificação ou inspiração em outrora, encontramos mais duas parcerias de qualidade neste trabalho. “Go Away” que foi composta e cantada por Bethany Cosentino do duo californiano - Best Coast, é o clássico indie pop de qualidade, com nível de sacarose elevado e sem firulinhas. Além do pop vigoroso de “Eulogy for a Rock Band” (a minha preferida) em parceria com a banda OZMA.

O lado compositor solitário de Cuomo também foi explorado. “Ain´t Got Nobody”, que abre o disco, inicia misteriosa, contida e termina numa explosão imensa (nada de novo se analisarmos vários outros álbuns lançados no decorrer de 2014), “Foolish Father” que é o acerto de contas entre o vocalista e o pai e a trilogia final – “The Waste Land”, “Anonymous” e “Return to Ithaka”. Esta, não passa de uma “chupação” bastante usual que várias bandas contemporâneas andam fazendo. Juntam três músicas instrumentais (com raros momentos cantados) como se as mesmas fossem movimentos de um Concerto de Música Clássica e proporcionam aos fãs orgasmos múltiplos com tais “brincadeiras” pseudo-eruditas.

O Weezer, quando estava no auge, sempre foi uma banda de segundo escalão, mas, pelo momento vivido pelo rock mundial, temos que vangloriar e apoiar todo trabalho novo de valia. “Everything Will Be Alright in the End”  é um álbum coeso, rico em melodias simples (marca registrada da banda) e merece destaque dentre os lançamentos de 2014 mesmo mostrando um Rivers Cuomo levando a banda praticamente só.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Banda do Mar - Por Giba Carvalho

Arte do primeiro disco da Banda do Mar

Poderia resumir o disco de estréia da Banda do Mar como um prolongamento da fraca carreira solo de Marcelo Camelo. Mas, não seria justo com as pessoas que acompanham nossos textos e para aqueles que no mínimo gostam de ler uma opinião diferente. Tal qual Benjamin Button nas telas de cinema, Camelo nasceu velho e regride a arroubos juvenis a cada passo dado. É exatamente isto que sinto nos seus trabalhos posteriores ao Los Hermanos e não é diferente neste novo projeto.  Parece-me uma busca de fragmentos do que o ex-hermano foi um dia.  Um mar de repetições de formatos e de uma fórmula que caiu na mesmice há tempos. Some-se a Banda do Mar a infantilidade tardia (ainda?) e a emissão de sons provenientes das frágeis cordas vocais de sua companheira Mallu Magalhães e atuação meramente coadjuvante do baterista português Fred Ferreira.

Nesta estréia, especificamente, chamo a atenção dos leitores justamente para a “tríade-ilusão”. É, meus caros, apenas 3 canções merecem atenção neste trabalho e sempre com alguma ressalva (daí a tríade-ilusão). “Cidade Nova” que abre o disco com personalidade e lembra a fase mais legal da carreira de Camelo, embora possua aquela velha história manjada do “tá ruim, mas tá bom”. “Hey Nana” que na minha opinião é a grande música do disco, principalmente por conta da linha de guitarra sessentista (repetidíssima, enfadonha, mas que sempre funciona bem) e “Mais ninguém” que é a maior e melhor música pop do casal, embora “cantada” por Mallu. Outros grandes méritos, são a qualidade da produção e da gravação do mesmo.

O exercício de compor está sendo extremamente improdutivo para Marcelo Camelo. É o mal de quem foi nivelado por cima o tempo todo. O “messianismo” que atingiu seus trabalhos com o Los Hermanos é cada vez mais prejudicial para seus projetos posteriores. Logo ele que foi ícone para tantos outros. Estes não procuraram espelhar-se no caminho percorrido anteriormente pelo artista em foco para desenvolver sua identidade musical e ficaram apenas tentando cópias medíocres. Camelo tornou-se pai para um monte de filhos que não são donos nem do próprio nariz e agora vai nivelando-se a eles.

Banda do Mar. Divulgação. Fonte: Google Imagens.
A Banda do Mar é um trabalho “alto astral” sem graça. Nada além de um compartilhamento de gostos adolescentes de senso extremamente usual. O álbum não evolui em nenhum momento, não oferece outros caminhos além do mundo adulto infantilizado em bobagens e numa pieguice única. Confesso que fico muito triste em referir-me as composições de Marcelo Camelo que tanto me emocionaram outrora desta forma, mas não tem como ser diferente. Na minha concepção, é um desperdício imenso de talento de um dos raros jovens diferenciados, de fato, nos últimos 15 anos na música nacional.  É o brilho de uma carreira que iniciou e se manteve de modo enriquecedor jogado no chão.  

A propósito, aguardo ansiosamente o Box com os vinis do Los Hermanos que encomendei para a minha coleção. Preferencialmente, ouvirei tomando uma cerveja gelada ou um bom vinho com uma tábua de queijos especiais. Feeling por feeling eu prefiro a levada melódica do que “Fez-se Mar” em outros tempos, do que os “muitos chocolates” de agora. Estes, eu deixo para o casal sacarose e para Fred Ferreira, que apenas “segura vela” na bateria.


Observação - não estranhem o porquê da ausência de comentários sobre as composições de Mallu Magalhães, com exceção de “Mais ninguém” por um lado indie-pop cool e de “MIA”, que não passa de um Indie-axé e que certamente é uma das piores coisas que já ouvi em toda minha vida. Para Mallu, insisto no que disse em outro texto – “Mallu Magalhães tem 21 anos, três álbuns e a vida toda pela frente. Inclusive, para aprender a cantar”.


domingo, 4 de maio de 2014

Chaka Nights - por Fernando Lucchesi


Ao buscar referências sobre o disco “Chaka Nights” do músico pernambucano Ricardo Chacon pela internet, a palavra que certamente mais irá aparecer é indie rock. É bem verdade que aquelas guitarras típicas do indie rock estão em várias das músicas, mas seria simplificar demais as influências que o músico optou por colocar em seu trabalho solo de estreia. O já mencionado estilo indie, psicodelia, rock n’roll e até mesmo reggae estão no caldeirão de influências do músico.

A sonoridade do disco está influenciada por uma fase de pop/psicodelia do final dos anos 1960/1970. A bela introdução de “Não sei lidar”, primeira faixa do álbum, serve como um cartão de visitas. Parece que estamos ouvindo uma faixa do clássico de Ronnie Von de 1967. As guitarras e as melodias comprovam isso. Já “Mil razões”, a melhor faixa do disco, revela a face roqueira do músico: riff extremamente “pegajoso”, melodia acelerada e vocais em segundo plano, algo próximo do Black Rebel Motorcycle Club em seus melhores dias. Ela, juntamente com “Nonsense”, é a que mais se aproximam do rótulo genérico de indie.  “Nonsense” traz a típica guitarra indie e tem seu alicerce no som produzido por bandas como Placebo e Sonic Youth (este em uma fase mais “leve”).

"While in a great Sunshine” parece simplesmente uma faixa de transição para a outra parte do disco recheado de uma sonoridade que remete a um som de influência regional. E é essa parte que apresenta maiores problemas. As referências são meio óbvias e as músicas soam muito parecidas com as de outras bandas locais. Pode-se até falar em uma certa falta de ousadia. “Telefonar” e “Só meu amigo”, por exemplo, poderiam estar em algum disco do Mombojó facilmente. O ponto positivo dessas duas faixas é que o músico não abre mão das guitarras psicodélicas. “A casa e a praia”, um reagge com arranjos de metais, remete a uma sonoridade que poderia ser confundida com algo do Eddie.         

Problemas à parte, a estreia de Chacon nos permite vislumbrar um futuro promissor para o músico desde que enverede pela sonoridade psicodélica, pois é ali onde está o ponto forte do autor: composições inspiradas, melodias intensas e uma guitarra despretensiosa, porém, eficiente. Depende dele, parafraseando o título de umas das músicas, resistir ao teste do tempo. Talento para isso ele provou que tem.

domingo, 3 de novembro de 2013

O Resto é Mise-en-scéne! - por Giba Carvalho

    


A música brasileira vem apresentando um fenômeno diferenciado nos últimos tempos: a capacidade de autocopiar-se. No início do ano passado, fiquei atônito ao saber que os "cultuados" rapazes do Mombojó iriam lançar um disco com releituras dos "maiores sucessos" da "grandiosa" carreira de três discos. Isto já me deixou com a famosa pulga atrás da orelha. O primeiro disco da banda, intitulado "Nadadenovo", é audível e proporcionou aos rapazes o perigoso (e agora comum) status de "inovadores da cena musical". Depois deste disco, eu questiono aos leitores deste blog - "O que virou o Mombojó?" Na minha opinião, um emaranhado de agonia ao tentar mostrar algo diferenciado, que sacramentou toda banalidade dos trabalhos pós-primeiro álbum, com este compilado de aniversário. Aquela velha história - "já que não temos Nadedenovo, vamos enganar os trouxas com Tudodovelho".

Passado algum tempo, eis que surge em 2013 "Mundo Livre S/A vs Nação Zumbi". Um duelo entre as duas bandas que foram pedra fundamental para o Movimento Mangue Beat. Esta é uma idéia utilizada nos EUA, no fim dos anos 90, por bandas de punk e hardcore. Como costumo ouvir bastante bandas do estilo, ressalto a famosa "BYO SPLIT SERIES", iniciada em 99 e dividida em 5 volumes. O formato era um disco de vinil, onde cada banda tocava 6 músicas da outra em cada lado (Álbum Split). Para aqueles que pensam que os caranguejos pernambucanos inovaram com este duelo enlameado de sucessos do passado, afirmo que já no ano passado foi lançado outro álbum intitulado "O embate do século - Ultraje a Rigor vs Raimundos". Confesso que gosto da idéia destes "álbuns split", desde que os mesmos sejam meio e não apenas mais uma tentativa de manter-se vivo no mercado. A Nação Zumbi, como única banda de primeira grandeza de Pernambuco desde que o  Movimento Mangue-Beat foi criado, não precisa disso. Ao procurar algo para ler sobre este trabalho encontro o seguinte - "O encontro no disco 'Mundo Livre S/A vs Nação Zumbi', em que um toca as músicas do outro, é mais do que uma celebração do movimento e das suas canções. É um exercício dos mais interessantes, feito por duas bandas bem diferentes, no topo de sua forma artística."

É este tipo de conveniência que não aceito. Afirmar que ambas estão no "topo da forma artística" é uma piada de pura "brodagem". A Nação Zumbi, mesmo conseguindo manter-se no primeiro escalão, jamais conseguirá chegar perto da grandeza do que foi com Chico Science. Até porque, desde o excelente álbum de 2002, alterna trabalhos irregulares e um monte de lançamentos no formato "ao vivo". Promessa de disco novo na praça em 2014, após 6 anos de ausência. Já o Mundo Livre S/A é um caso à parte. A banda vive completamente de passado e da postura "comuna-intelectual" do "ilustre caranguejo" Fred 04. (Apesar de ter lançado trabalho próprio há menos tempo que a Nação Zumbi.)

Para completar o time, eis que me deparo com a seguinte manchete nesta semana - "Mallu Magalhães é encantadora - diz jornal The New York Times". Fiquei curioso e fui ler as reportagens por inteiro. Concordo que uma crítica no jornal americano deixaria qualquer jovem com muito orgulho de seu trabalho. No entanto, percebi claramente que não passa de mais uma jogada de produtores. Estes lançaram um álbum por lá intitulado "Highly Sensitive". O álbum nada mais é do que outro compilado das músicas dos três primeiros discos da garota cantadas em inglês. Ouvi o último álbum da moça diversas vezes. "Pitanga" (2011) é um álbum muito bem produzido e extremamente bem gravado. Kassin e Marcelo Camelo acertam em cheio nos arranjos que a garota precisa para desfilar toda a infantilidade (ainda?) e sua voz extremamente semitonada. Por falar nisso, a matéria acerta em cheio quando afirma que a mocinha não se preocupa com "o tom" e erra terrivelmente quando vê isto como algo positivo. Afirmo isto, porque com os aparatos que existem hoje em dia nos estúdios, qualquer "Mané" canta e qualquer "Maria" vira fenômeno. Agora, na hora da febre do ao vivo, é que podemos perceber do que de fato um artista é capaz. Voltando a pauta principal do texto, percebemos que estas jogadas estão se tornando cada vez mais usuais dentro do mercado. Neste caso em específico, porque Mallu Magalhães tem 21 anos, três álbuns e a vida toda pela frente. Inclusive, para aprender a cantar. 

O que nós fazemos? Apostamos em talentos não tão talentosos? Perpetuamos semi-Deuses criados por nós mesmos? Regredimos a arroubos juvenis para achar qualidade e graça na música?

As respostas para estas peguntas não são nada fáceis. Ache as respostas dentro dos ouvidos, de preferência, dando a verdadeira relevância ao que merece ser ouvido. O resto é mise-en-scéne!

Versão do disco - Pitanga (2011):



Versão ao vivo no Rock in Rio (2013):


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Variações em 5/4: Caetano Veloso e seu Abraçaço

Para o primeiro post de 2013, estreamos a coluna “Variações em 5/4”. Todo mês, os editores do blog comentarão algum lançamento marcante, seja disco, livro ou filme. Nesta primeira edição, a pauta é o mais novo álbum de Caetano Veloso: Abraçaço.


- Dom Ângelo:
Considero Caetano Veloso uma pessoa que carrega em si um enorme diferencial artístico e existencial perante seus colegas de geração 60, 70 e 80. Isto reside na capacidade do mesmo de se modernizar e reciclar suas ideias artísticas, colocando forte pé na contemporaneidade e não temendo trilhar caminhos estéticos inexplorados na sua carreira musical.
Desde o disco Cê, quando se juntou com músicos da nova safra do rock carioca, que a música de Caetano voltou a abranger um universo rebelde de uma forma brilhante e consciente. Considero o disco Cê um dos cinco melhores álbuns de sua carreira e a continuidade com os discos Zii e Zie e Abraçaço manteve o criativo momento artístico que o músico vive atualmente.
Fechando a trilogia, o álbum de 2012 vem, como sempre em sua obra, com excelentes letras. Apesar, dessa vez, mais racionais do que emocionais. Homem de uma musicalidade infinita, Caetano mostra-se de peito aberto aos seus impulsos criativos, vivendo no presente, atento ao agora e se desfazendo de muitas vaidades alimentadas pelo ego. Vaidades essas que travaram a mente de artistas em épocas do passado. Ele, ao contrário de muitos, vive o hoje.
Apesar de ficar claro pra mim certas limitações técnicas e de vocabulário musical dos integrantes da Banda Cê, prefiro me prender ao ótimo trabalho de arranjos minimalistas que esses músicos criaram, conseguindo eles surpreender os conservadores que acham que músico bom é músico tecnicista. Rock alternativo é bom assim.
Enfim, vou utilizar a expressão mais cansada, porém a mais eficiente para a determinada frase: - Caetano Veloso é genial!
Ah...mas não é só a Bossa-Nova que é foda. Mas Caetano!

- Giba Carvalho:                                                                           
Caetano mostra que continua sendo o mais ousado dos compositores de sua época. Isto não quer dizer absolutamente que seu “Abraçaço” mereça uma atenção mais do que especial. É um disco contemporâneo, principalmente daquilo que não só o próprio Caetano, mas todos nós somos bombardeados diariamente. Notícias sensacionalistas, vazias e sem nem “ter pra que” como inspiração. Ainda assim, é superior a grande parte das produções autorais nacionais do momento. Gosto do flerte com o rock n´roll, mais presente desde o “Cê”.
- Bruno Vitorino:
Caetano Veloso sempre foi para mim sinônimo de não conformismo estético. Sua imensa discografia traz como marca essa busca constante por veredas inexploradas numa fuga ao comodismo do mito que consequentemente leva à repetição de si. Pode-se falar o que for a respeito de Caetano, mas uma coisa é certa: ele assume riscos. E isso é muito bom, a princípio. Contudo, suas investigações em prol do desconhecido por vezes descambam na gratuidade do incipiente, e existe um abismo gigantesco que separa o vigor do novo da novidade frívola.
Atualmente no cenário indie brasileiro proliferam grupos formados por músicos desprovidos do mais elementar domínio técnico de seus instrumentos, que esbanjam uma poesia (?) sem sentido algum, apresentam cantores desafinados e constroem em torno de seus integrantes uma aura milimetricamente deliberada de artistas sérios, criativos e inovadores. Cidadão Instigado, Karina Buhr, Do Amor, dentre outros nomes da cena alternativa são exemplos dessa consagração do malfeito. Por isso, devo confessar que tenho problemas em digerir o projeto que se iniciou com o álbum “Cê” (2006), passou por “Zii e Zie” (2009) e foi concluído com “Abraçaço”. Digo problemas, porque Caetano, ligado como é ao contemporâneo, ao se juntar com Pedro Sá (guitarra), Marcelo Calado (bateria) e Ricardo Dias (baixo) acolheu justamente essa estética do tosco em voga na música pop alternativa brasileira.

“Abraçaço” é um disco simplório (Minimalismo é outra coisa). Paradoxalmente, justamente por flertar com o banal, o álbum requer do ouvinte um esforço considerável para que se revelem os lampejos de inventividade no meio de sua paisagem monocromática. O que é, vale ressaltar, muito pouco para redimir um trabalho de um artista da magnitude de Caetano Veloso. Neste projeto, a atitude experimental do baiano se revela de certa forma domesticada, forçosa e até constrangedora como na tenebrosa “Funk Melódico”, na melancolia adolescente de “Estou Triste” ou no tédio amoroso de “Gayana”. Os bons momentos ficam por conta da crua e direta “A Bossa Nova é Foda”, da balançada “Abraçaço” e do bluesy “Vinco”. Em resumo: um disco sem graça que consolida Caetano como ícone pop cult e, infelizmente, evidencia seu desgaste criativo.
- André Maranhão:
Eu julgaria que Abraçaço é um álbum importante para sustentar um fôlego na carreira de Caetano Veloso. O “risco” que Caetano corre ao buscar conexões com ritmos e temas dos mais diversificados me parece bem salutar. A começar por A Bossa Nova É Foda, onde Caetano declara mais uma vez a sua admiração por João Gilberto, a quem ele se refere como “o bruxo de Juazeiro”. Para Caetano, a voz e o violão de João Gilberto parecem ultrapassar a própria bossa nova e em seu livro Verdade Tropical ele fala da interpretação de João Gilberto: “É uma aula de como o samba pode estar inteiro mesmo nas suas formas aparentemente descaracterizadas”. Não é para menos: Caetano atribui a João Gilberto um caráter transformador, fazendo da bossa nova algo tão forte, como um Anderson Silva, um Minotauro ou um Júnior Cigano (referências também presentes na canção). 

A canção Vinco é para mim uma das mais marcantes do álbum – tanto por sua construção literária quanto por sua melodia blues e estrutura semiótica que me fez lembrar outros êxitos de Caetano como Lindeza e Luz do Sol. Eu também destacaria outras faixas como Um Abraçaço; Quero Ser Justo e Quando o Galo Cantou. Já O Império da Lei e Parabéns são canções que devemos destacar pela tentativa de Caetano de flertar com alguns ritmos do Norte do Brasil e que me parece bem sucedida. 

Minhas ressalvas maiores vão para Estou Triste; Um Comunista; Funk Melódico e Gayana. A primeira é longa, monótona e de pouco apelo literário. A segunda é uma importante homenagem a Carlos Marighella e acho de uma literalidade fantástica, mas a melodia não empolga e o compasso sobe e desce de modo redundante. A terceira me deu a impressão que o Funk ainda permanece um ritmo de difícil adaptação para uma forma mais rebuscada na música brasileira – e isso vale, sobretudo, para a literatura da canção – afinal, eu não trocaria uma paródia de Marcelo Adnet pelo refrão de Caetano: “O tijolo é gritar você me exasperou / Que você me exasperou / Você me exasperou / Você me exasperou / Você me exasperou”. Por fim, Gayana é uma canção lugar comum na letra e de uma modulação de pouco sucesso na melodia.
- Fernando Lucchesi:
Desde 2006, quando lançou o impressionante “Cê”, que Caetano Veloso deu uma guinada na sua carreira. O terceiro disco com a banda Cê, “Abraçaço”, busca seguir as diretrizes do primeiro disco, mas apenas as diretrizes! Enquanto “Cê” era um disco carregado de referências ao fim de relacionamento experimentado por Caetano, as referências usadas em “Abraçaço” são as mais variadas possíveis. Vão do filme “Eu receberias as piores notícias dos teus lábios” até homenagens à lutadores de MMA, João Gilberto (o bruxo de juazeiro), Tom Jobim e Bob Dylan (o bardo judeu romântico de Minessota). A guitarra de Pedro Sá ainda é o principal foco na sonoridade da banda - vide o excelente riff de “A bossa nova é foda” e o instigante solo na faixa de nome ao disco. “Abraçaço” se ressente do sexismo bem humorado (“Homem”) e da desolação de um fim de relacionamento (“Não me arrependo”) contidos em “Cê”, mas é um disco que mantém a intenção de revitalizar e dar mais peso ao som de um dos mais irrequietos compositores da música brasileira. Qual o próximo passo de Caetano? Para mim, a indicação está na faixa “Funk Melódico”. Um disco de Funk Pancadão em parceria com Mr. Catra. Você duvida? Eu não!



domingo, 25 de novembro de 2012

Vanguart: A Garapa do Cerrado - Por Giba Carvalho



Noite de terça-feira no escaldante calor que faz no Recife. Numa discussão sadia, entre um chopp e outro, eis que surge por intermédio de Marcella o nome – “Vanguart”. Banda oriunda de Cuiabá, do cerrado brasileiro e vizinha do nascedouro da cena musical mais manjada e insuportável deste país. Este, talvez, seja o único mérito dos caras, porque ter coragem de lançar algo diferente de sertanejo “universiotário” pra estas bandas é de fato admirável.

Confesso ter certo receio para ouvir muitas destas bandas novas do cenário nacional. No meio deste papo, Marcella falou uma coisa bastante pertinente – “Você não pode falar se você não ouviu.” É fato minha amiga! No entanto, por incrível que pareça, eu escuto cada coisa que você nem tem noção. Jamais teci opinião sobre um trabalho se não escutei o mesmo. E escuto na íntegra mesmo. Na noite da quarta-feira, Marcella me envia pelo chat do facebook um link para fazer o download do disco – “Boa parte de mim vai embora”. Disco “baixado” e posto no celular para ser “degustado” na manhã do dia seguinte. Segue relato:

“Recife, bairro da Torre, precisamente 05:35 da manhã. Para muitos pode parecer estranho, mas esta é a hora que costumo ouvir música da maneira mais detalhada. Na hora em que coloco os fones de ouvido e estou na viagem para o trabalho em Suape.  Seguem as canções e alguns trechos:
1 - “Eres mi vida” – trecho da letra – Saí de casa a te buscar. Cruzei o país a caminhar. Desenhei nas ruas um amor. Que já não sei se é real. Como se não existe. E se eu sou triste, a causa é você, é só você.”
2 – Se tiver que ser na balada, vai – “O amor não foi suficiente. Eu vou embora, não sei pra onde. Mas ainda um mundo por dizer. Acho que tá claro. E acho da hora.”
3 – Desmentindo a despedida – “As tuas ondas. No meu sono. E este mar. Não foi mais que a nossa cama. Sem você. Amanheceu.”
4 – Nessa cidade – “E eu não vou mais estar do teu lado. Mesmo assim, sempre eu vou te amar. E essas coisas do teu namorado, em silêncio, hoje eu vou falar. É uma necessidade.”
5 – Engole (Arde mais que brasa em pele quente) – E eu te levei até a praia. E eu me desfiz da minha esposa. E eu joguei fora o meu dinheiro. Fechei a porta pra um amigo. Eu só sonhei meu desengano. Eu desenhei as tuas pupilas.”
7 – Eu vou lá – Que eu sou filho dessa chuva. Desse calor dos teus olhos. Seja eu a tua casa,
seja eu o teu mistério, teu riso. E eu vou lá.  Se me faltam caminhos pra ficar.”
8 – Onde você parou – “Quem me dera o céu pudesse ajudar. Noites eu passei em claro. Os olhos que me apetecem. Os sonhos que se antecedem. Pra você chegar na estrada, caminho ou lugar. Onde eu seja teu.”
9 - ...Das lágrimas – “Quando me lembro de você. De mala e cansada de chuva. Das lágrimas na sua blusa. Tentando entender aquele rosto. Aquela dor que trouxe você...”
10 – Amigo – “Quem te vê sorrindo? Quem te vê chorando? Quem me vê gastando os dentes?
Em passarelas, em bares. A procurar tua figura, tão imatura. Na noite em que eu deixei você pra trás. Pra onde é que a gente vai daqui?”
11 – Morrerão – Que não morreria ao ver você assim, tão bonita. O seu último olhar acabou. Nas árvores ficou. As ruas marcou. Nos olhos levou a certeza que teu mar não morrerá em ti.”
12 – O que a gente podia fazer – E nas ondas do mar. Eu vi você voltar. E nas ondas do mar, eu desapareci...(o tempo eu esperei).”
13 – Depressa – “A esperança dos dias cresceu com a dor. De esperar por você, de bolar a flor. Entre os olhos do meu mais puro amor.  Seja o que isso for...”
Pois bem, caríssimos leitores. O que falar depois de demonstrações de tanta “genialidade”? Notem que fiz uma pesquisa minuciosa sobre o disco da banda. Afinal, segundo os “críticos” musicais do nosso querido país, o “precoce” Helio Flanders é o Bob Dylan brasileiro! Minhas “reverências” a este cara meus caros! E como estes mesmos críticos gostam desta palavra “precoce” no ramo musical.
No entanto, eu não posso engolir este tipo de opinião desta forma. Percebo duas coisas bastante claras nestas pessoas que escrevem sobre música hoje em dia. A falta de realmente escutar e até mesmo pesquisar antes de falar sobre qualquer tema. Na verdade, estes críticos, são meros leitores de releases.  Analisem estes trechos de letras postados acima. Friamente. Quantas vezes vocês encontram a palavra “amor”? Ou contextos sugestivos a...a...a...”amor”? Ou lágrimas de...de...de...”amor”? E é claro que não poderia faltar a dor...de...de...de...”amor”! Ahhhh o amor!
Analisando friamente o disco, posso afirmar com certeza que é uma garapa com açúcar, adoçante, mais alguns leves toques de folk (Malu Magalhães faz melhor), indie-rock (eu adoro esses jargões), suspiros de corações machucados e lágrimas incessantes. E eu aposto que você já está com os olhos cheios de lágrimas hein...
Musicalmente a banda não tem absolutamente nada de especial. Alguns momentos lembram o pior do rock gaúcho, noutros se igualam a todas as outras que estão neste mercado de “Ursinhos Carinhosos”. O Flanders (o cara ao menos tem sobrenome de artista), ao cantar suas “poesias”, é uma tentativa muito da ordinária de tentar se aproximar de Rodrigo Amarante.  Aquele jeitinho arrastadinho e cheio de “pra que isso” que, diga-se de passagem, o Hermano faz com o jeito que lhe é peculiar. Sem forçar a parada!
Insisto em voltar a falar sobre algo que escrevi acima: “Na verdade, estes críticos, são meros leitores de releases”. Não é porque um cara diz que tem Bob Dylan como influência e tente fazer algo parecido, que ele será um novo Bob Dylan. Comparar o rapaz em foco com um dos maiores letristas da história da música mundial é uma piada de péssimo gosto.  É ignorar um passado musical bastante rico. Inclusive, duvido que qualquer um destes caras e ouvintes da referida banda saibam que as letras de Dylan são estudadas em cursos superiores de letras nos Estados Unidos e na Inglaterra. E foram docentes de “pequenas” instituições como Harvard e Oxford que lideraram o processo para que tais letras entrassem na grade de estudo das mesmas.  Conselho? Escutem antes de escrever e falar algo sobre, porque até eu posso escrever – “Meu amor...segurei tuas mãos. Olhei profundamente nos teus olhos cinzas de tristeza. Uma lágrima escorreu, nutrida por teu rimel. E depois sorrimos tomando um picolé de acerola.”
Recordo que há alguns anos, eu dizia ao amigo Carlos Eduardo Borba (o Animal da Porão GB): “Bicho, não posso respeitar uma banda que tem uma música chamada – ‘Sorvete de Flocos’ e diz-se Punk!”.  
Propositalmente, pulei a música 6 no desmembramento das composições. E a explicação é bem simples:
“No dia que uma banda tiver uma música intitulada ‘A Patinha da Garça’ ganhar meu respeito, pode esquecer tudo que já escrevi, pesquisei e aprendi sobre música em toda minha vida.”



Vai saber! Do jeito que as coisas estão hoje em dia, pode ser que Bob Dylan enlouqueça, faça uma versão em inglês da mesma e lance no carnaval.
Até a próxima.