O Grupo Casuarina está no mercado musical brasileiro há 13
anos e, após o lançamento comemorativo do “CD/DVD – 10 anos de Lapa”, os
garotos cariocas emplacaram um trabalho de releituras da excelente obra de
Dorival Caymmi. Só o fato de tal escolha já é de grande mérito, afinal, não é
qualquer amontoado de “Zé Manés” que tem capacidade de pesquisar e desenvolver
novos arranjos para tão grandiosa e profunda obra. O mar de Dorival Caymmi não
é mar para marinheiros de primeira viagem, principalmente, porque possui
gravações peculiares e imortalizadas pelo próprio compositor baiano.
O álbum é um compilado de canções lançadas entre 1939 e 1994,
perfazendo um total de 16 faixas (muito embora possua 17 no disco) e uma vinheta
levada apenas com dedos estalados e vocalizações, que é o que ocorre no samba “Maricotinha”. O que me deixa feliz com relação a
grupos como o Casuarina é a evolução a cada novo lançamento. É perceptível o
esforço dos rapazes para melhorar desde a qualidade vocal, aos belos arranjos
desenvolvidos por João Fernando (Bandolim) e Daniel Montes (Violão 7 cordas).
No passo de Caymmi começa com uma versão vocal da tradicional
“Suíte dos Pescadores”, onde fica claro o supracitado. Os
rapazes trabalharam bem as vozes, mas, capricharam ainda mais ao harmonizá-las.
“Você já foi a Bahia?” chega trazendo um molejo peculiar aos
ritmos baianos mesclado com a ginga do samba carioca. “Peguei um ita no norte”,
demonstra que o minimalismo do arranjo caiu como uma luva ao tom jocoso com o
qual João Cavalcanti a interpreta (uma das minhas preferidas). “Saudade da Bahia” é um espetáculo à parte! Daniel Montes dá uma aula no arranjo
desta canção e comove os ouvintes com seu Violão de 7 cordas. Inicia calma e
depois o ritmo similar a uma marola toma conta do pedaço. “Dora”, inegavelmente, é
uma das canções mais bonitas da carreira de Dorival Caymmi. Sua gravação original
é belíssima e única e, por mais que o executado pelos garotos cariocas seja de
muito valor, passa longe da gravação original. “É doce morrer no mar”
possui os mesmos problemas da antecessora. A intensidade de Caymmi sobra no
original e a ausência dela é completamente perceptível no trabalho do
Casuarina. “O bem do mar”, que é um clássico supremo brasileiro,
surge para por equilíbrio ao trabalho. Arranjo e voz, desta feita a de Gabriel
Cavalcante, caminham lado a lado de modo especial. Sem sombra de dúvidas um dos
destaques do disco.
O grupo Casuarina tem um trabalho próprio que, praticamente,
foi todo concebido nas noites boêmias e de agitação na Lapa. Conforme dito
pelos próprios integrantes, diferentemente do que é apresentado neste trabalho,
eles costumam apresentar-se com uma formação maior e “da bagaceira”. Em duas
canções do disco eles provaram do próprio veneno. “Lá vem a baiana” e “O que é que a baiana tem?” parecem ter sido vestidas unicamente com
roupagem das músicas do repertório usual dos rapazes. Execuções corretas e de
clima “festinha da night”, mas perdendo muito do charme original. Na sequência,
encontramos a divertidíssima “Requebre
que eu dou um doce”. A mesma inicia
em ritmo cadenciado e explode num samba de roda de primeira. Percorrendo um
caminho contrário a que a antecede, “João
Valentão” entra em jogo partindo para
cima e caindo num extraordinário clima melodioso. Para coroar tal arranjo,
somos presenteados com um solo belíssimo de João Fernando e seu bandolim,
ladeado pela execução pontual do 7 Cordas de Daniel. Uma riqueza! “Marina” e “Só louco” surgem para causar imenso diferencial.
A primeira é um clássico da música brasileira e a segunda é de uma beleza
cativante. As versões do Casuarina superam até mesmo as gravações originais,
principalmente, no esmero com que os arranjos foram concebidos. Estes dois
sambas-canção também são pontos altos do trabalho. “A vizinha do lado” possui
uma versão bastante animada, no entanto, penso que o
grupo poderia ter ousado um pouco mais em sua execução. A conhecidíssima
“Maracangalha” aparece no final apenas para dar o tom de despedida.
Ainda que com certa oscilação em alguns pontos,
considero “No passo de Caymmi” um dos bons trabalhos feitos ultimamente no
Brasil. E como é bom percebermos o esforço do desenvolvimento de um grupo novo,
com músicos que sabem executar bem seus instrumentos e utilizar bem suas vozes.
Fica a dica!
Se há alguns atores que não
conseguem se livrar do estigma de um papel, alguns músicos também não conseguem
se livrar de alguns dos seus sucessos ou de sua antiga banda. Noel Gallagher
bem que tentou no seu primeiro disco com seu novo projeto, o homônimo High
Flying Byrds. O disco tinha canções ótimas e muito bem trabalhadas do ponto de
vista de arranjos e melodias como “The Death of You and Me” e “Wrongbeach”. Após um
hiato de pouco mais de três anos ele volta com o mesmo projeto e um novo disco,
Chasing Yesterday. No entanto, basta
ouvir a primeira música do álbum para percebermos de imediato que Noel Gallagher
ainda não se livrou dos fantasmas do Oasis e de sua canção mais conhecida, “Wonderwal”.
“Riverman”, faixa de
abertura, sintetiza todos esses fantasmas que ainda circundam o músico. Tem
aquele mesmíssimo violão de "Wonderwall" sem possuir a maior virtude desta que é uma irresistível levada pop. É somente
mais uma música que poderia estar em qualquer um dos
piores discos do Oasis. Acrescente-se a isso um solo de guitarra completamente
sem sentido e teremos um péssimo exemplo de música “inspirada” em outra. A
falta de originalidade não se resume apenas à “Riverman”. “In The Heat of The Moment”, “The Dying of The Light”,
“While The Songs Remains The Same” e “Ballad of The Mighty I” são faixas que
parecem estar no disco apenas para acrescentar tempo. São enfadonhas e
sem um pingo de originalidade nos arranjos, além de terem melodias pouco
cativantes.
Os melhores momentos do disco
estão na segunda metade. Há algumas faixas que merecem destaque. “The Mexican”
com sua levada “stoneana” e um excelente riff
talvez seja o ponto alto do disco. As melhores faixas do disco, na verdade, são
aquelas em que o músico arrisca colocar as músicas mais aceleradas e levar mais
para um lado rock n´roll. Funcionam bem nesse sentido “Lock All The Doors” e “You Know We Can´t Go Back”. A
exceção a essas faixas mais aceleradas é “The Right Stuff”, mais próxima de uma
balada, mas com um ar soturno com trechos de sax e efeitos psicodélicos. O
backing vocal de Joy Rose ajuda a ressaltar esse caráter psicodélico da música.
Se há um adjetivo para classificar Chasing Yesterday é mediano. Metade das
faixas têm ótimos arranjos ou melodias e outra metade carece de um mínimo de
inspiração. Tomara que num próximo álbum, Mr. Gallagher retome a inspiração do
primeiro disco do High Flying Byrds.
Sempre houve e
sempre haverá questionamentos quanto aos filmes indicados e vencedores do
Oscar. Como em toda competição que premia filmes, o critério, na grande maioria
dos casos, é amplamente subjetivo, o que dá margem para todo tipo de crítica.
Já fui de acompanhar Oscar madrugada adentro, mas hoje em dia me conformo em
assistir até onde meu sono aguentar e a paciência aguentar com os números
musicais e discursos pra lá de enfadonhos (reconheço que com o passar do ano a
cerimônia ficou mais dinâmica, mas ainda sim demora por demais). No entanto, é
impossível escapar do “Evento” (com “E” maiúsculo mesmo) Oscar, pois toda mídia
de entretenimento está com os holofotes voltados para a cerimônia. Esse ano
resolvi que assistiria pelo menos todos os indicados para melhor filme e faria
alguns comentários sobre eles. Vamos lá então!
Boyhood- Da infância à
juventude – O diretor, Richard Linklater, optou por narrar a vida do
garoto Mason (o talentosíssimo Ellar Coltrane), como entrega o subtítulo em
português, da infância à juventude. Ao optar por utilizar o mesmo elenco
demorou 12 anos pra poder concluir as filmagens. O filme dá saltos temporais na
vida de Mason de forma que personagens secundários somem sem maiores
explicações e novos personagens vão surgindo à medida que o personagem cresce.
O que dá força dramática ao filme são os personagens com seus dilemas
existenciais, angústias, insegurança, felicidade e toda sorte de emoções às
quais nós, como seres humanos estamos sujeitos durante a vida. Destaque para o
diálogo na cena em que Mason deixa a casa de sua mãe para começar a faculdade.
Divide com Birdman o favoritismo para levar melhor filme. Possivelmente leva o
Oscar de coadjuvante para Patricia Arquette (numa interpretação magnífica). Tem
boas chances também no roteiro e direção para Linklater.
BIRDMAN ou A inesperada
virtude da ignorância - A probabilidade dos roteiristas terem escrito
o filme pensando exatamente em Michael Keaton é gigantesca (talvez eles já
tenham confirmado isso, mas não li). Os personagens pelos quais tanto Keaton
quanto seu alter ego no filme, Riggan Thomson, são marcados são super-heróis
(Birdman e Batman). O ano em que atuaram pela última vez em seus papéis
icônicos foi 1992. E Keaton, tal qual Riggan Thomson busca aclamação da crítica
com um novo projeto (Riggan com uma peça na Broadway e Keaton com o próprio Birdman).
A história gira em torno das dificuldades encontradas por Riggan para conseguir
montar a peça “What We Talk About When We Talk About Love” do escritor
americano Raymond Carver, já que além de ator ele também é o produtor da peça.
Assim como em “A noite americana” de Truffaut, o filme mostra todas as
dificuldades de se produzir arte (egos elevados, insegurança, medo constante do
fracasso, etc.). Para fazer uma ironia ainda maior com o fato de Keaton/ Riggan
serem marcados com super-heróis o diretor confere ao personagem alguns
“superpoderes”. Com uma excelente fotografia em tons escurecidos tem amplas
chances de ganhar. É favorito, junto com Boyhood, à estatueta de melhor filme e
Keaton é o favorito para melhor ator.
O jogo da imitação -
Baseado na vida do matemático Alan Turing, o filme resgata um período sombrio
durante a segunda guerra mundial, no qual os alemães conquistavam várias
capitais da Europa muito em virtude de uma máquina chamada ENIGMA, a qual todos
os aliados tentavam decifrar para captar as mensagens germânicas e evitar ataques
inesperados. Liderados por Turing (em ótima atuação de Cumberbatch), os mais
respeitados matemáticos da Inglaterra tentam de todas as formas “quebrar” a
criptografia da máquina. Aparentemente a história teria tudo para ser
entediante, mas o roteiro de Graham Moore e a excelente edição de William
Goldenberg dão ao filme o clima de tensão necessário para fazer do filme tanto
um drama (que explora a vida de Turing) com um eficiente thriller de espionagem. Tem fortes chances no prêmio de edição e
Cumberbatch corre por fora como ator, mas dificilmente ganhará.
A teoria de tudo– Apoiado numa excelente
atuação deEddie
Redmayne como famoso físico Stephen Hawking, esse filme tenta ser uma
cinebiografia de Hawking, mas é um melodrama dos mais chatos feitos nos últimos
anos. É inquestionável que um personagem como Hawking, que teve uma vida
realmente extraordinária, mereça uma cinebiografia, mas esse filme,
absolutamente, não faz justiça ao “personagem” Hawking. O filme, literalmente,
junta pedaços da vida do físico e explora ao máximo num tom cheio de
auto-piedade a vida da família Hawking. Enfim, é o típico filme que a academia
gosta, com uma história de superação das adversidades com uma atuação quase
“espírita” do ator principal. Pelo que vi em alguns sites Eddie Redmayne tem
boas chances como ator, mas o prêmio deve ficar com Michael Keaton
(Birdman).
Whiplash - Em busca da
perfeição - Na busca por um lugar como um dos melhores bateristas do
seu tempo, o jovem Andrew Neiman consegue uma vaga em uma das mais conceituadas
escolas de música dos EUA. Lá encontrará um professor de métodos quase sádicos
na busca por ser o descobridor do próximo grande músico de jazz. Com uma
interpretação não mais que excepcional de J.K. Simms como o professor Fletcher,
o filme tem os seus grandes momentos nos embates entre professor e aluno, cada
um ao seu modo tentando extrair o melhor da bateria. O filme também pontua uma
questão interessante: é preciso passar por uma espécie de “calvário musical”
para se tornar um grande músico (mais especificamente de jazz, como é o caso do
filme)? Barbada como ator coadjuvante, Simmons só perde se ocorreu uma
lobotomização coletiva entre os membros da academia.
Sniper americano - Clint
Eastwood é sem dúvida uma dos cineastas mais prolíficos em atividade. A média é
de quase um filme por ano. Não é de se espantar que com uma quantidade absurda
de filmes em tão pouco tempo a qualidade dos filmes caia. Foi o que aconteceu
com esse filme. A história gira em torno do atirador de elite Chris Kyle
(Bradley Cooper). Enviado para o Iraque após os ataques de 11/09 ele enfrenta
diariamente dilemas como quem e quando deverá matar (incluindo crianças) e
priorizar o exército/pátria em detrimento da família. O grande problema do
filme é o roteiro, que ao intercalar os períodos “em casa” e “em campo de
batalha” travam o filme de forma que nenhum deles engrena. Há também um tom
ufanista demais no filme, mas nada que já não se tenha visto em outros filmes
de Eastwood. O elenco tem atuações medianas. Não há realmente nenhum destaque.
Acho que a academia sentiu falta de Eastwood nas últimas premiações e deu essa
indicação só pra matar a saudade.
SELMA - O
filme não é uma cinebiografia do líder negro Martin Luther King, mas sim captura
um fato real ocorrido durante os anos de 1960, quando na cidade de Selma no
Alabama, cidadãos negros eram proibidos de votar pelas autoridades locais,
quando já havia uma lei federal que permitia o voto, embora fosse tão burocrática
que impedia, na prática, o voto dos negros. Há uma tensão permanente mostrada
nas conversas entre Luther King (David Oyetokunbo Oyelowo) e Lyndon Johnson
(Tom Wilkinson). A tensão racial explode na primeira tentativa de fazer uma
marcha entre Selma e Montgomery (distantes 75km). A cena do ataque das
autoridades contra os negros desarmados é de um apuro visual único.
Estranhamente, Tim Roth, que interpreta o governador do Alabama, George Wallace,
não foi indicado a coadjuvante. Apesar do elenco muito bem entrosado deve sair
de mãos vazias.
O GRANDE HOTEL BUDAPESTE – Ótimo trabalho do sempre talentoso
Anderson. Narrado em grande parte por flashbacks pelo antigo carregador de
malas do hotel e hoje dono dele (F. Murray Abraham), a história gira em torno do
Grande Hotel Budapeste (fictício) e as dificuldades e para mantê-lo ativo até
hoje. O filme é narrado num tom de aventura, cheio de reviravoltas e mostra
toda a astúcia utilizada pelo gerente do hotel (Ralph Finnes) para proporcionar
o melhor aos clientes mesmo em tempos de guerra. Dono de um apuro visual
espetacular deve levar sem maiores dificuldades o prêmio de direção de arte.
Tem grandes chances também em fotografia e edição, mas dificilmente levará os
prêmios principais.
Meus favoritos:
Melhor filme: Boyhood
Melhor diretor: Richard Linklater
(Boyhood)
Melhor ator: Benedict Cumberbatch (O
jogo da imitação)
Melhor atriz: Não tenho favorita,
pois só vi uma das indicadas.
Melhor ator coadjuvante: J. K.
Simmons (Whiplash)
Melhor atriz coadjuvante: Patricia
Arquette (Boyhood)
Melhor roteiro: Birdman
Melhor roteiro adaptado: O jogo
da imitação
E você? Tem algum favorito? Mande
sua lista nos comentários do blog.
Na primeira coluna do ano, os editores
do blog comentam Great Western Valkyrie,
o último trabalho da banda californiana Rival Sons.
Boa leitura!
- Fernando Lucchesi:
O
ano de 2014 trouxe duas grandes surpresas, uma de cada lado do Atlântico.
Primeiro os ingleses do duo The Royal Blood, o qual foi objeto de análise por
mim no blog e em segundo a banda californiana Rival Sons e o seu Great Wester Valkyrie. Ambas possuem uma
gama de referências que têm sua base no Blues, embora não necessariamente
fossem bandas de blues puro, mas que o usavam como mais um ingrediente. Outra
característica comum a ambas é a capacidade de compor músicas pesadas sem esquecer a importância da melodia.
Em
Great Wester Valkyrie, a banda
utiliza como referência musical primeira o Led Zeppelin. Secret remete a How Many More
Times com seu riff hipnótico
conduzido pelo baixo e a voz cheia de efeitos vocais para lembrar o Plant dos
primórdios do Zeppelin. Além de Open My Eyes
ter sua abertura tirada descaradamente de When
the Levee Breaks mais uma vez o vocalista, Jay Buchanan, soa por demais com
Robert Plant. Embora o Led Zeppelin seja a mais notória referência há várias
outras perceptíveis em outras faixas do disco como The Who em Belle Star e até mesmo Suzy Quatro em Play The Fool. O disco se mantém
consistente até a faixa oito. As duas últimas músicas são as quase inevitáveis
baladas que qualquer banda de rock insiste em colocar em seus discos. Ambas, Where I´ve Been e Destination On Course, têm ótimas melodia, no entanto, a banda as
trata como épicos de seis ou mais minutos sem a menor necessidade. Excluindo
esse pequeno deslize, não tenho dúvida em afirmar que o disco é um dos melhores
lançamentos do ano de 2014.
- Giba Carvalho:
Great Western Valkyrie veio para firmar o Rival Sons no
patamar de bandas relevantes da atualidade. Forjado em rock setentista, o
quarto álbum dos californianos é um convite dos mais agradáveis e instigantes
aos fãs do bom e velho rock n´roll. Vocês podem pensar – “Ah, isto soa datado!”
É verdade! Afinal, todos sabemos que existem bandas que apenas copiam um
determinado estilo e outras (cada vez mais raras), que utilizam os mesmos como
base para desenvolver seu trabalho. Com letras contundentes e desempenho seguro
dos músicos envolvidos, o quarteto impressiona exercendo todo seu glossário
“old school”.
Neste
novo álbum, encontramos doses cavalares daquilo que todo apreciador do estilo
gostaria de encontrar: a “cozinha” robusta formada pelas baquetas furiosas de
Mike Miley e as frases de contrabaixo do estreante David Beste. O espetacular
Scott Holiday, guitarrista extremamente impetuoso, de riffs marcantes e solos
lisérgicos. E Jay Buchanan, frontman
que não possui receio de cantar. Um “monstro” da nova geração! No faixa a
faixa, temos:
Eletric
Man - que abre o
disco explodindo com vigor! Um hard-rock clássico em potencial e elegância!
Good
Luck – é a música
onde o RS sai um pouco do rock setentista e viaja a fase antecessora a ele. Com
uma verdadeira aula de canto de Jay Buchanan e ritmo espetacular. Este é um
rock n´roll em sua mais pura concepção.
Secret – lembrando bastante a época áurea do
Deep Purple. Vocais explosivos, rasgados e muitíssimo bem-postados. E uma
performance avassaladora de Mike Miley nas baquetas. Uma pedrada para nossos
ouvidos!
Play
the Fool – esta é
a música do disco onde os instrumentos reinam. A junção entre os riffs
espetaculares de Holiday e a versatilidade Miley são um espetáculo a parte.
Arrisco até afirmar que pode ser considerado um tributo a John Bonham, dada a
quantidade de variações e vigor na execução.
Good
Things – é onde o
estreante da banda mais aparece. David Beste guia a primeira canção não-usual
do álbum, marcando com seu contrabaixo. Neste caminho, ele é ladeado por um
Hammond e pela variedade “infindável” de frases de Holiday e sua Gibson Firebird.
Open
My Eyes – 98% dos
ouvintes dirão: “parece com o Led Zeppelin.” Eu digo – “pode até parecer, mas
parece mais com Audioslave.” Bateria marcada, riff garage pegajoso, vocal sem nenhuma modéstia. Isto já resumiria
bem esta canção, não faltasse um detalhe. É nela que encontramos o melhor solo
do espetacular Scott Holiday.
Rich
and The Poor –
imagine uma pausa para respirar. É exatamente isto que pensei em todas as
audições do disco. Mas, não pense você, que estamos falando de um momento
menor. A banda entra no primeiro momento sombrio do disco. Guitarra pesada,
acompanhada de execução psicodélica de teclado e o restante do conjunto (voz,
baixo e bateria) tecendo frases em cima desta cama.
Belle
Starr – esta foi a canção onde mais identifiquei a “presença”
Zepelliniana. Notadamente, mais parecida com a fase do álbum “Presence”. Inicia
exuberante, acelerada, furiosa e, repentinamente, mergulha nas nuances de um
céu giz. E o ciclo é formado nas idas e vindas desta performance grandiosa da
tríade – bateria, voz e guitarra.
Where
I´ve Been –
senhoras e senhores, estamos falando de um Blues! Consequentemente, a dupla
Holiday e Buchanan volta à supremacia. Primeiro, pelo destaque das linhas de
guitarras presentes em todos os espaços da gravação e, segundo, por todas as
variáveis apresentadas por Jay.
Destination
on Course –
Intensidade! Para finalizar um grande disco, nada mais justo do que uma
execução épica. São 7 minutos de uma composição mais lenta que trás a tona toda
criatividade do quarteto. Além disto, é nesta canção, que encontramos um
trabalho de voz oriundo de um coral feminino, que causa mistério e nos remete
ao canto das “Valquírias” num campo de batalha e presente no nome do disco.
De
acordo com a mitologia nórdica, as “Valquírias” eram belas mulheres loiras que,
montadas nos seus corcéis alados, escolheriam os guerreiros para vida e morte.
Os que fossem escolhidos teriam o direito de entrar em Valhala (a morada de
Odin). E, voltando para o ramo musical, tenho certeza de que elas escolheram o
quarteto estadunidense. Não estou falando de um álbum comum. Estou falando do
melhor disco de rock n´roll de 2014.
Se
você quer ouvir uma banda que possui as melhores referências, que procura
renovar-se, que experimenta e tem tesão em tocar, estás no caminho certo!
- Rógeres Bessoni:
Que
alívio e que injeção de combustível nas veias saber que o rock and roll ainda
reverbera na face da terra! Eu ainda estou agradecidamente sem palavras para o
trabalho do Rival Sons – notadamente, seu álbum mais recente, GREAT WESTERN VALKYRIE, o quarteto da
banda e ao qual se dedica esta coluna. Porque é muito bom ouvir um trabalho
novo trazendo de volta à tona o rock and roll velho e bom. Uma banda surgida
após o ano 2000 que finalmente não soa como uma ressaca do grunge nem uma tentativa
de fazer “hip hop and roll”. Não. Até que emfim, rock and roll visceral novinho
em folha. Já tomei umas cervejas pra comemorar, mas ainda merece outras. Isso
por muitos motivos, mas, sobretudo, por uma coisa fantástica de se ver e de se
passar para as novas gerações, criadas em apartamento, tomando toddynho e
comendo pera com leite: Great Western
Valkyre é uma enciclopédia de rock and roll, meus caros. Um apanhado
fantástico que mostra uma maturidade ímpar em bandas da atualidade. Nada de
sons histéricos de adolescentes quarentões dando “piti” no palco, nada de
melodramas pseudo-engajados, nada de saudosismo estéril, fazendo covers de
músicas já executadas 45 bilhões de vezes no planeta. Nada disso. Os caras
conseguiram encher o matulão com toda a substância do que houve de melhor em 50
anos de rock e CRIARAM a partir disso. O disco é realmente autoral e apresenta
toda essa bagagem em uma característica genial: o trânsito por praticamente
todos os estilos do rock – excetuando o universo do metal. Está tudo lá, do
psicodelismo californiano até o hard rock; do blues pesado ao progressivo. O
som dos caras mostra uma banda realmente adulta, que ouviu muito rock and roll,
assimilou tudo E SOUBE O QUE FAZER com toda essa informação. Em alguns
momentos, há trechos que se aproximam demais de canções conhecidas, mas eu,
particularmente, não vi nenhuma “ameaça” de plágio ou sequer imitação. Ouvi foi
referências sólidas e embasadas, mesmo, em que os caras demonstram que sabem o
que ouviram e sabem o que estão fazendo. Um rápido passeio pelas faixas do
álbum nos leva por esse banquete gordo, e assim começamos, ressaltando os
principais traços, assim como saltaram aos meus ouvidos. Deixo claro que não
pretendo fazer uma radiografia detalhada e “exata” das músicas; vou falar como
se conhecesse a formação musical dos integrantes da banda (coisa que não
conheço), mas apenas como recurso literário pra indicar, numa primeira vista, a
que estilos para os quais as canções me levaram e tudo o que entendi como
material processado e recriado, e aqui vai:
1 – Em Eletric Man temos de cara uma porrada de
levada totalmente zeppeliniana, no melhor estilo Nobody's Fault but Mine” e The
Ocean, com Jay Buchanan soltando o berro com um swing chegado a Robert
Plant, mas também com a pegada feroz de Ian Guilan;
2 - Good Luck nos traz uma introdução e
refrão com o balanço dos Stones, pra descansar e uma linha melódica macia, mais
suave, com textura, pra mim, dos domínios de David Bowie;
3 - Secret, uma das mais fuderosas pra mim,
traz uma mistura perfeita, perfeita, de Canned Heat e The Doors, num blues
psicodélico pesado, com a inesquecível e irresistível levada anos 60, vocais
furiosos, na medida certa entre Bob “The Bear” Hit e Jim Morrison, guitarra e
baixo unidos num riff detonador, à la Roadhouse
Blues e um solo totalmente digno da apresentação do Canned Heat no
Woodstock;
4 - Play the Fool, com um riffs simples que gruda na cabeça, reúne
uma gama de sons típicos do fim dos anos 70 e começo dos 80, se aproximando do
punk em alguns momentos, e, em outros, do pop rock mais juvenil do começo dos
anos 80;
5 - Good Things, outro ponto alto do disco
pra mim, volta à batida da transição dos 60 para os 70, com arranjos de
teclados mais uma vez lembrando The Doors, e os vocais, pontuados com a
guitarra, ficam bem próximos de Alvin Lee e da vibe Ten Years After;
6 - Open My Eyes, começando com uma batida
também zeppeliniana, com Mike Miley trazendo a sonoridade de “When the levee
breaks” à tona, apresenta ainda um riff com todo o traçado de Tom Morello,
fazendo a música explodir no melhor estilo Audioslave;
7 - Rich and the Poor (talvez a minha
preferida), com uma melodia séria, meio down, uma levada firme, vocais com eco
e a guitarra, também com eco nos arranjos (além de suas características
melódicas), nos jogam de volta às referências sessentistas. Mesmo numa voz
masculina, é das veia interpretativa e dos traços melódicos que falo: várias
vezes me pareceu ouvir Grace Slick! Um Jefferson Airplane mais pesado, com as
possibilidades tecnológicas de hoje, mas com a mesma vibe do começo do
psicodelismo californiano. Levei com isso uma porrada, fiquei aturdido e
atônito: é mais que uma joia rara esses sons voltarem a explodir, com todo
vigor, em um trabalho autoral, em pleno ano 2014!
8 – Ainda
no fim dos anos 60, Belle Star não só
continua trazendo elementos do rock psicodélico como, mais uma vez, trouxe
outra grande surpresa. No trecho mais lento, até o Fairport Convention parece
ser lembrado;
9 - Where I've Been, com andamento de blues
e linha melódica mais country, revive momentos do The Eagles e da tradição das
grandes baladas do gênero;
10 – E,
para terminar um grande álbum numa obra vigorosa, apropriadamente um grande
final, os caras, depois disso tudo, entram numa súbita e competentíssima viagem
progressiva! Aqui, Buchanan se supera. Os vocais, num tom cinzento e
melancólico, vão às raias de Peter Hammil, e não apenas. À grandiosidade da interpretação
vocal, se segue a das melodias de guitarra, crescendo com vigor até desaguar
num momento “Echoes”, mostrando direitinho o que Scott Holliday aprendeu com
Gilmour.
E
isso são apenas as minhas primeiras impressões. Caberia uma análise para a performance
de cada integrante, assim como uma viajada pelas letras, mas não é o objetivo e
nem o espaço para tanto. As associações que fiz foram totalmente livres e quero
deixar assim, em aberto, para que cada um faça as suas. Mas fica, sobretudo, a
dica para que curtam esse trabalho raro no mundo rock contemporâneo. Como
falei, numa boa, vou abrir outra cerveja e degustar esse alento.
- Bruno Vitorino:
O rock ‘n roll está em crise. Parece
clichê, não? E, de fato, é! Admito o lugar comum de minha sentença, mas o que é
o rock hoje senão uma mescla de um amontoado de obviedades embaladas pelo
discurso do “novo”, velhas referências musicais datadas e explosões mercadológicas
de efemeridade inútil? Vemos, meus caros, aos montes bandas que se valem dessa
tríade do conformismo estético para se apresentar diante de um público inocente
que ainda acredita no caráter redentor do rock ‘n roll e o enxerga vivo e producente.
Isso para não falar dos “dinossauros” fossilizados pela mesmice que, há muito desprovidos
de suas fontes criativas, circulam o mundo requentando repertório, brindando assim
a humanidade com o tão precioso culto ao espetáculo.
Nesse sentido, parece-me cada vez mais
clara uma espécie de dicotomia patológica que assola o gênero em nosso tempo: por
um lado, deparamo-nos com inúmeras bandas adolescentes que pululam no mainstream com seu rock à High School Music com sua rebeldia de shopping center e letras vazias sobre os
dilemas da adolescência contemporânea – namoricos, redes sociais, carência
afetiva e aquele desejo enorme de chamar a atenção para si; do outro,
encontramo-nos com as incontáveis “viúvas de Woodstock” que tentam emular, do
figurino ao discurso, passando pelo jeito de empunhar os instrumentos, até
finalmente chegar à sonoridade da banda, aquela atmosfera perdida do rock clássico
dos anos 1960/70. Em ambos os casos, o resultado musical é idêntico: o desnecessário.
Contudo (e sei que isso pode me levar a ser mal compreendido), pelo menos com
os adolescentes temos alguma verdade, pois, sem perceber, sua música denuncia a
grande alienação que se apoderou do ideário de uma juventude inteiramente desvinculada
de sua realidade, ou seja, a sua música, verdadeiramente, diz nada sobre lugar
algum. “E isso é bom desde quando?”, vocês se perguntam. Claro que não o é!,
mas é exatamente isso que estamos vivendo agora: o completo esvaziamento das
manifestações humanas de suas dimensões Culturais em prol do modismo transitório.
As bandas juvenis ao estetizarem essa perspectiva, pelo menos, tornam-na um
testemunho inconteste de seu tempo, ainda que sombrio. Já os saudosistas, ao
simplesmente se embrenhar no passado, nada o fazem além de rescender a mofo. E é
justamente nessa segunda categoria que a banda californiana Rival Sons se
enquadra.
Por
essas razões, poderia resumir brevemente Great
Western Valkyrie, último trabalho do quarteto, dessa forma: uma base sonora
formada pela justaposição de Jefferson Airplaine, Ten Years After e The
Yardbirds, que recebe uma estrutura musical inteira e descaradamente copiada do
Led Zeppelin, finalizada com figuras decorativas extraídas de Pink Floyd e,
quem sabe, também do Moody Blues. Electric
Man e, especialmente, Secret, com
seu riff sugado de How Many More Times do Zeppelin, e Open My Eyes, que parece ter nascido do
solfejo de Robert Plant no meio de The
Ocean, são ótimos exemplos dessa miscelânea artificial que, mais do que
reverenciar as tradições do rock e consagrar-se panegírico, expõem o elevado
desgaste do estilo em nossos dias. Os bons momentos do disco ficam por conta de
Play The Fool e sua inesperada mudança
de andamento que dá o clima perfeito para o solo da guitarra e a balada Good Things; justamente, vale ressaltar,
as canções em que a banda não se ocupa tanto em imitar o Zeppelin e reviver o
passado, valendo-se das raízes do rock enquanto ponto de partida e não no fim
em si. Imagino que se a Rival Sons tivesse feito isso ao longo do disco - obviamente levando em consideração também suas qualidades enquanto instrumentistas -, este teria sido bem mais interessante.
De resto, parafraseando Fernando Pessoa, como "estou farto de embusteiros", diria que é um disco para ser ouvido com parcimônia da
lucidez, sem o ouvido deslumbrado e impressionável da carência musical.
- André Maranhão:
Great Western Valkyrie é um bom disco. Não é um álbum
concentrado em um só artista. Toda a banda parece bastante entrosada e nenhum
instrumento monopoliza faixas. Jay Buchanan (vocal); Scott Holiday (guitarra);
Dave Beste (baixo); Michael Miley (bateria) – todos estão bem no mais novo
projeto dos Rival Sons. Logo de cara, a escolha de Electric Man e Good Luck
para abrirem o disco foi muito feliz. Na primeira, há um rock incisivo, com
personalidade; enquanto a segunda é uma balada animada, repleta de drives, solos legais e com um refrão
daqueles que grudam. Play the Fool
traz uma conversão de ritmos entre 1’50’’ e 2’42’’ sensacional. Good Things me remeteu a canções legais
dos anos 1960 com a presença de Ikey Owens frente aos teclados. Em Where I’ve Been, muita coisa boa da
música norte-americana parece estar condensada na faixa: Blues, Rock, Country,
Gospel, Rhythm and Blues... Os teclados reaparecem bem encaixados, dessa vez
através de Mike Webb. Há outras canções que não chamaram tanto minha
atenção: Secret; Open My Eyes; Rich and The
Poor; Belle Star e Destination On Course. Os motivos
variam: ou pelo vocalista exagerar nos gritos, ou pelas faixas soarem longas,
ou simplesmente pelas linhas melódicas e harmonias não me empolgarem. Apesar de
estas cinco faixas corresponderem a 50% do disco, ainda assim, insisto em
considerar a boa qualidade de Great
Western Valkyrie, visto que os outros 50% que me chamaram a atenção
compensam por demais!
Desculpem, pessoal, não percebi que precisava tanto de vocês
Eu achei que conseguiria atingir um novo público
Esqueci que música disco é um saco
Acabei sem ninguém e comecei a me sentir mal
Talvez eu deva tocar a guitarra solo
E Pat tocar bateria
Me leve de volta, de volta para a cabana
De volta para a Stratocaster com correia de raio
Chutar a porta, mais hardcore
Fazendo rock como se fosse 1994
É
com este pedido de desculpas aos fãs, que o Weezer ressurge após 13 anos de
experiências de irrelevância absoluta com sua própria música. Obviamente que
não podemos esperar um “milagre” dos “rock-nerds”, mas “Everything Will Be Alright
in the End” traz o grupo de volta aos bons discos. E isto é de suma importância
num mundo onde as famigeradas “playlists” e os “singles” reinam em absoluto.
Parecendo
compreender o rumo que a carreira da banda estava tomando, Rivers Cuomo (líder,
guitarrista e principal compositor da banda) não poupou nomes em parceria para
o processo de composição do novo trabalho. E, por mais que estes nomes soem
estranhos para os fãs de qualquer vertente rock, o resultado foi bastante
satisfatório. Em “Back to the Shack” (primeiro single do álbum) temos a mão de
Jacob Kasher, parceiro de Kylie Minogue. É logo no primeiro single do disco que
percebemos claramente que os bons tempos voltaram. Guitarras pesadas e marcadas
relembram o “Green Album” (2001) e temos a explicação: o novo trabalho é
produzido por Ric Ocasek que trabalhou com o Weezer no álbum supracitado e no
“Blue Album” (1994). Parceiro de artistas deletérios tais como – t.A.t.U, Demi
Lovato e Paris Hilton (existem adjetivos mais apropriados do que artista para
defini-la), Josh Alexander aparece em duas canções do disco – “Lonely Girl” –
que é praticamente uma volta ao início do grupo (mais do mesmo) e “Da Vinci” –
que possui um arranjo extremamente confuso, muito embora grude “terrivelmente”
na cabeça.
Dando
continuidade as parcerias, faço uma pergunta aos leitores do blog: “alguém
lembra aqui daquela banda pavorosa de ‘metal arriação’ chamada The Darkness?”
Pois bem, a música que tem tudo para cair nas graças do público é – “I´ve Had It
Up to Here”, justamente a parceria com Justin Hawkins, vocalista e guitarrista
deste falecido grupo. Esta canção traz novamente à tona a competência que o
Weezer possui de mesclar aquele rock “farofinha” com indie pop “algodão doce”.
Na busca por diversificação ou inspiração em outrora, encontramos mais duas
parcerias de qualidade neste trabalho. “Go Away” que foi composta e cantada por
Bethany Cosentino do duo californiano - Best Coast, é o clássico indie pop de
qualidade, com nível de sacarose elevado e sem firulinhas. Além do pop vigoroso
de “Eulogy for a Rock Band” (a minha preferida) em parceria com a banda OZMA.
O
lado compositor solitário de Cuomo também foi explorado. “Ain´t Got Nobody”,
que abre o disco, inicia misteriosa, contida e termina numa explosão imensa
(nada de novo se analisarmos vários outros álbuns lançados no decorrer de
2014), “Foolish Father” que é o acerto de contas entre o vocalista e o pai e a
trilogia final – “The Waste Land”, “Anonymous” e “Return to Ithaka”. Esta, não
passa de uma “chupação” bastante usual que várias bandas contemporâneas andam
fazendo. Juntam três músicas instrumentais (com raros momentos cantados) como
se as mesmas fossem movimentos de um Concerto de Música Clássica e proporcionam
aos fãs orgasmos múltiplos com tais “brincadeiras” pseudo-eruditas.
O
Weezer, quando estava no auge, sempre foi uma banda de segundo escalão, mas,
pelo momento vivido pelo rock mundial, temos que vangloriar e apoiar todo
trabalho novo de valia. “Everything Will Be Alright in the End” é um álbum coeso, rico em melodias simples
(marca registrada da banda) e merece destaque dentre os lançamentos de 2014
mesmo mostrando um Rivers Cuomo levando a banda praticamente só.
Após longos 33 anos, finalmente é
lançado no Brasil o livro “Ninguém sai vivo daqui” (do original “No one here
gets out alive) de Jerry Hopkins e Danny Sugerman. O livro foi um best seller quando lançado nos Estados
Unidos e lançou luz sobre a carreira e
as circunstâncias da morte do frontman do The Doors, Jim Morrison (fato, até hoje, cheio de dúvidas
a respeito do que realmente ocorreu). Os autores buscaram depoimentos com todos
aqueles que tiveram convivência direta com Morrison, inclusive sua mãe e seu
irmão. O “inclusive” surge, pois sabe-se que o vocalista respondia em diversas
entrevistas, quando questionado sobre seus pais, que seus genitores haviam
morrido.
Boa parte da infância/adolescência
do até então desconhecido James Douglas Morrison é narrada nos primeiros
capítulos do livro. Desde os primeiros amores, as suas influências literárias
até suas passagens pelas Universidades nunca concluídas (entre elas uma de
cinema, uma das maiores paixões do cantor). As influências literárias são de
extrema importância para a narrativa, pois mais à frente veremos o porquê da
origem de muitas das letras da banda.
O livro, como toda biografia
honesta deveria ser, procura retirar o biografado do pedestal de “Deus do Rock”
e colocá-lo como um ser humano falível, com momentos de “Dr. Jekyll e Mr.
Hyde”. Um Morrison carinhoso e ao mesmo tempo perverso com amigos, familiares e
seus “conhecidos” (pessoas que orbitavam ao seu redor procurando usufruir de
sua fama e dinheiro). Nesse aspecto, os autores não poupam o biografado. Há
inúmeros relatos de bebedeiras, consumo de drogas (que para uma figura repleta
de excessos, como Morrison, até que é moderado), discussões, confusões em shows
envolvendo polícia, fãs e produtores. O
que mais chama a atenção nesse ponto do livro é o relacionamento quase mortal
entre Jim e a bebida. Fácil perceber que grande parte da personalidade de
Morrison estava diretamente atrelada ao quanto ele consumia de álcool - e
quando falo “consumia” não significa uma noite de bebedeira. Ele era capaz de
sumir por dias para, por exemplo, levar amigos até a fronteira com o México
somente com o intuito de beber. A bebida ajudava Morrison a ser aquele cara ”cool”,
que ele na verdade nunca foi. Ele era um sujeito extremamente inseguro e tímido,
e a bebida era uma forte aliada dele para lidar com as pressões e exigências do
estrelato.
Outro aspecto muito bem
enfatizado, de maior relevância até, se refere às letras e músicas produzidas
pelos Doors, sua origens e influências musicais. O livro detalha a produção de cada álbum,
como as músicas escolhidas para serem lançadas como single. No entanto, a melhor parte do livro está reservada para os
shows e as turnês do grupo. São notórios os shows feitos pela banda em que Jim
mal conseguia lembrar as letras ou prolongava a música por intermináveis
minutos. Grande parte desse tema dos shows é dedicada à fatídica apresentação
realizada em Miami, na qual Morrison foi acusado de conduta pública lasciva por
simular felação com o guitarrista da banda. Foi perseguido implacavelmente por
um juiz e um promotor que buscavam os holofotes. O processo oriundo dessa
apresentação pôs em grande risco a continuidade dos Doors e pela primeira vez
deixou o vocalista preocupado com a possibilidade de ir para cadeia. O que mais
chama atenção nesse trecho do livro é a informação de que o grupo fez alguns
shows no México (desconhecia completamente essa informação) e que a turnê europeia
da banda foi extremamente bem sucedida tanto em termos de dinheiro como de performance de palco
O livro acompanha a carreira do
cantor até seus últimos dias em Paris, quando morreu, supostamente, de um
ataque cardíaco. Não se sabe ao certo se súbito ou causado por alguma
substância. Não seria exagero dizer que o livro, juntamente com o filme,
lançado onze anos depois, ajudaram a forjar um mito dionisíaco em torno da persona de Morrison.
A sensação que tive após a leitura
do livro foi perfeitamente captada por Jerry Hopkins no epílogo do livro: “Devo
acrescentar, como uma nota de rodapé, que quando terminei de escrever os
primeiros esboços do livro, não estava gostando de Jim Morrison tanto como
gostava quando comecei”.
P.S: Dizer que o livro é
espetacular, seria redundância, mas se você quer ver um Morrison colocado como
qualquer um de nós, não recomendo a leitura do prefácio de Danny Sugerman. Há
uma louvação um tanto quanto desnecessária ao biografado. Deixe para ler depois
de terminado o livro e veja se mesmo assim você concorda com o que Sugerman
escreveu.
Ao buscar referências sobre o disco “Chaka Nights” do músico pernambucano Ricardo Chacon pela internet, a palavra que certamente mais irá aparecer é indie rock. É bem verdade que aquelas guitarras típicas do indie rock estão em várias das músicas, mas seria simplificar demais as influências que o músico optou por colocar em seu trabalho solo de estreia. O já mencionado estilo indie, psicodelia, rock n’roll e até mesmo reggae estão no caldeirão de influências do músico.
A sonoridade do disco está influenciada por uma fase de pop/psicodelia do final dos anos 1960/1970. A bela introdução de “Não sei lidar”, primeira faixa do álbum, serve como um cartão de visitas. Parece que estamos ouvindo uma faixa do clássico de Ronnie Von de 1967. As guitarras e as melodias comprovam isso. Já “Mil razões”, a melhor faixa do disco, revela a face roqueira do músico: riff extremamente “pegajoso”, melodia acelerada e vocais em segundo plano, algo próximo do Black Rebel Motorcycle Club em seus melhores dias. Ela, juntamente com “Nonsense”, é a que mais se aproximam do rótulo genérico de indie. “Nonsense” traz a típica guitarra indie e tem seu alicerce no som produzido por bandas como Placebo e Sonic Youth (este em uma fase mais “leve”).
"While
in a great Sunshine” parece simplesmente uma faixa de transição para a outra
parte do disco recheado de uma sonoridade que remete a um som de influência
regional. E é essa parte que apresenta maiores problemas. As referências são
meio óbvias e as músicas soam muito parecidas com as de outras bandas locais.
Pode-se até falar em uma certa falta de ousadia. “Telefonar” e “Só meu amigo”,
por exemplo, poderiam estar em algum disco do Mombojó facilmente. O ponto
positivo dessas duas faixas é que o músico não abre mão das guitarras
psicodélicas. “A casa e a praia”, um reagge com arranjos de metais, remete a
uma sonoridade que poderia ser confundida com algo do Eddie.
Problemas
à parte, a estreia de Chacon nos permite vislumbrar um futuro promissor para o músico
desde que enverede pela sonoridade psicodélica, pois é ali onde está o ponto
forte do autor: composições inspiradas, melodias intensas e uma guitarra despretensiosa, porém, eficiente.
Depende dele, parafraseando o título de umas das músicas, resistir ao teste do tempo.
Talento para isso ele provou que tem.