quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Anitta, que de malandra não tem nada - por Giba Carvalho

A cantora Anitta. Fonte: Google Imagens.



“Ser bom nos negócios é o mais fascinante tipo de arte. Ganhar dinheiro é arte, trabalhar é arte e um bom negócio é a melhor arte.” – Andy Warhol

Parem as máquinas! Lá vem o turbilhão avassalador chamado Anitta, que de malandra não tem nada.

Todo ser-humano é movido por desejos. A chama que queima seu interior, seja para cantar, interpretar, escrever, cozinhar, criar, dançar e todo resto. Noutra época, esta chama de vontade, era conhecida como “Élan Vital” (H. Bergson) que, nada mais é, do que aquilo que nos impulsiona, que nos trás tesão na realização. Após conquistar milhões de fãs por todo Brasil, Anitta decidiu alçar um vôo maior. A conquista do mercado norte-americano é o sonho de consumo de todo e qualquer artista do mundo POP (e não é um desejo apenas de nomes da música atual). Com ela não seria diferente. E, sem maiores celeumas, penso ser bastante normal.

Cada época cria a arte que lhe é própria, isto é um fato claro. Foi-se o tempo que o sucesso de um artista era medido pela quantidade de discos vendidos e de shows. O Mundo POP atual, é movido basicamente por likes, compartilhamentos, número de audições e visualizações nos sites e aplicativos. E são milhares deles! Neste quesito específico, a menina da Zona Norte do Rio, deu um “banho” de planejamento e execução em todos. Obviamente, que isto não ocorreu gratuitamente. Anitta contratou uma empresa estrangeira para tomar conta de sua carreira, com foco no objetivo principal. De imediato, parou com os lançamentos sucessivos de discos (o último foi em 2015) e partiu para uma nova estratégia de mercado. Esta consistiu no lançamento de quatro videoclipes (um por mês) de um novo single e com produção gringa (inclusive, o nome dos três singles anteriormente lançados, também são em inglês). Este foi o Projeto CheckMate.

Inicio este texto citando Andy Warhol. E, inevitavelmente, relembrei outra frase dele ao tomar conhecimento deste projeto – “...não importa o quanto você seja bom. Se não for promovido da forma correta, você não será sequer lembrado.” Seria leviano de minha parte afirmar que na questão de números, o CheckMate não foi um sucesso absoluto. Vamos a eles:
  • “Vai, Malandra” ficou entre as 18 músicas mais ouvidas no mundo no Spotify;
  • Foi a primeira música em português a entrar no Top 20 da plataforma;
  • Mais de 25 milhões de visualizações no Youtube;
     
Reconheço o mérito da cantora, porém, isto é bastante diferente das afirmativas que li nos últimos dias sobre a ascensão metórica no mercado internacional. Faz muito tempo que repito que as carreiras de artistas de aço foram por água abaixo com as plataformas de internet. O fim das gravadoras trouxe consequências trágicas para a música. A cada segundo, milhares de novos “artistas” surgem em todo e qualquer buraco do mundo e, alguns destes, são elevados a patamares quase divinos sem o menor crivo de qualidade. Apenas por serem legais, divertidos, ou engraçados. Esta é a tônica.

Anitta não faz parte deste meio, é fato. E, por já ser um sucesso dentro do Mainstream Pop-Tupiniquim, usa de certas benesses que tal meio proporciona. Primeiramente, a quantidade absurda de dinheiro que corre por baixo dos panos (muitas empresas envolvidas). Segundo, por ser “sister” do Jornalismo domesticado de críticos lerdos (que apenas leem releases) e das inúmeras assessorias de imprensa que vendem seus serviços facilmente. Para finalizar, inegavelmente, Anitta tem muitos fãs que a sustentam pagando caro nos seus shows. Contudo, isto é completamente divergente de uma conquista de carreira internacional. Ainda que, seja o maior promovedor de tralhas da face da Terra, o nível de exigência para adentrar no mercado estadunidense é elevadíssimo. Na minha opinião, Anitta erra gritantemente no formato escolhido: “Latina, sexy, sensual, marquinha de biquíni, brazilian girls, brazilian butts, etc...” Isto já está bem manjado do Morro do Vidigal hasta Puerto Rico de los “despacitos de la vida”. Simplesmente, mais do mesmo!

Musicalmente, Anitta continua péssima! Para mim, este é o ponto principal. Os três primeiros clipes deste projeto são sofríveis. As músicas da mesma forma. Porém, mesmo detestando Funk e achando “Vai, Malandra” uma música igualmente medíocre, penso ter sido um acerto no quesito estilo. Por quê? Porque uma coisa é não gostar de Funk e assumo que não gosto. Outra coisa, é negar o Funk como representação cultural popular. Neste ponto específico, aos 45 do segundo tempo, Anitta marcou o gol. E o gol só saiu porque ela foi mais Brasil e menos “americána”. Se isto será suficiente para que o projeto obtenha o sucesso desejado, não saberia informar (acho pouquíssimo provável) mas, que causou um furor gigantesco entre público e mídia, é fato latente. A propósito, como costumo sempre ressaltar, concentro minha atenção na música e, ainda que, as redes sociais possuam esta capacidade aglutinadora de correntes solidárias, não utilizarei a pecha bastante usual da “solidariedade à distância”. A relação tão corriqueira com o “outro generalizado”. Até porque, não adianta falar para um público emocionalmente histérico, afeito unicamente a “modas de comportamento” (a arte é completamente dizimada nestas brigas) e, que no final, são igualmente “legais” e “fofinhos”.

Gostaria de lembrar aos leitores e fãs da cantora, alguns pontos. Inegavelmente, a arte de qualquer período tende a servir aos interesses da Classe Dominante. Com Anitta não é diferente, muito embora, no clipe de “Vai, Malandra”, ela tente passar uma imagem contrária. Em contrapartida, insisto na afirmativa de que o relevante de nossa música (do Rock ao Samba), está no Underground. Nas esquinas, vielas e pequenos palcos desta vida. Basta que a gente queira ouvir, enxergar e ajudar. É um trabalho árduo e para poucos. Mas, quem foi que disse que as coisas que valem a pena são fáceis? Fácil mesmo, é apontar o dedo e limitar a discussão na quantidade de celulite das bundas alheias.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Melodia, A Alcunha Divina – Por Giba Carvalho

Luiz Melodia. Fonte: Google Imagens.

Silêncio. Mais um gigante se foi. O ano de 2017, indiscutivelmente, está sendo ceifador e cruel nas minhas referências musicais. Há dois meses e meio, Belchior partiu. E agora, mesmo sabendo da situação frágil de saúde, Luiz Melodia se vai aos 66 anos e aumenta ainda mais o vazio cultural do nosso tão sofrido país. As perdas nunca são fáceis. Perder um artista da magnitude do Luiz, mais ainda. Decidi escrever em três atos. Cada um representa parte de suma importância dentro da minha vida musical e será o meu modo de tentar homenageá-lo.


Primeiro Ato – Eu sou poeta lá do morro. E foi assim que Deus me fez. Cantando samba a noite inteira. Eu sou mais forte. Eu sou mais gente. Eu sou um rei. Eu sou a pura melodia. Que é feita de amor e alegria. Sou eu que enfeita a cidade. Com a poesia...”

Luiz Melodia é filho do Morro de São Carlos. Iniciou a carreira musical em 1963 e em 1964 criou o seu primeiro grupo musical – “Os Instantâneos”. Nesta época, abandonou o colégio para dedicar-se de modo integral às composições. Poucas pessoas sabem, mas Luiz Melodia foi autodidata. Aprendeu a tocar, mexendo escondido na viola do seu pai, o compositor Oswaldo Melodia. Seu Oswaldo, não fugindo a regra quase que geral dos compositores da época (vide a história de Paulinho da Viola), queria que o filho fosse “doutor”, mas a água do rio só corre para o mar. O garoto, ainda adolescente, foi criando seu espaço e com seus companheiros de grupo criou uma nova atmosfera musical no morro. A mescla de sua raiz no Samba, com Blues, Soul, Foxtrote e até mesmo Rock n´Roll, fizeram de Luiz Melodia um artista único para época. E tal diferenciação no meio chamou a atenção de um frequentador assíduo do Sambas do Estácio: falo de Wally Salomão. Da descoberta à apresentação a Gal Costa, foi um pulo.


Mas, foi por intermédio de Torquato Neto, que na época tinha a coluna Geléia Geral no Jornal “Última Hora”, que o negrinho magrinho começou a cair nas graças da Zona Sul carioca. Num destes célebres encontros musicais, surgiu a canção “My Black, Meu Nego”. Wally Salomão, mais experiente, sugeriu a Luiz a mudança do nome da música. Potencialmente ainda um sucesso escondido, a canção ganhou o nome de “Pérola Negra”, que era o apelido de um jovem homossexual que também frequentava a turma. Nesta época, meados de 1972, Wally Salomão havia sido convidado para dirigir o show – “Gal a Todo Vapor”. Num dos ensaios para o show, Luiz, a convite de Wally, mostrou tal canção a Gal Costa. De imediato, ouviu o que todo artista desconhecido gostaria de ouvir: “Vou pôr no disco.” Antes mesmo do primeiro trabalho solo do Melodia ser gravado (o que ocorreria em 1973), “Estácio Holly Estácio” foi gravada por Maria Bethania.

Em 1973, surge a oportunidade de gravar o seu primeiro trabalho solo. O brilhante “Pérola Negra”, resolve a vida de Luiz Melodia em 28 minutos. Pois é, meus caros, em menos de 30 minutos, Luiz mostra de fato a que veio. Uma viagem sonora absoluta que passa por dez canções brilhantes. Vamos do Choro tradicionalíssimo “Estácio, Eu e Você”, ao balanço Soul de “Vale Quanto Pesa” e pela clássica e imortal “Estácio Holly Estácio” (a marca registrada de Luiz Melodia), que conta em sua gravação com a gaita única de Rildo Hora. Adiante encontramos aquele que, para mim, é o momento mais sublime do disco: a versão de “Pérola Negra” a imortaliza definitivamente. Escalados para a gravação de todo o trabalho, Rubão Sabino (baixista) e Antônio Perna (pianista) fazem um arranjo simplesmente notável tanto para a canção que intitula o disco quanto para a subsequente – “Magrelinha”.
Adentrando ainda mais em terreno desprezado pelo tempo, tenho que citar mais algumas coisas. O ano de 1973 foi bastante bondoso com a Música Popular Brasileira. Nele, surgiram Melodia, Fagner, Sérgio Sampaio e Raul Seixas. Destes, apenas Raulzito era sucesso de vendas e de público. Os demais não emplacaram como era esperado. Isto levou a gravadora a forçar a barra para o lado de Negro Gato. E esta forçada era uma proposta de contramão ao trabalho brilhante ao qual ele havia escolhido e desenvolvido. Interessada apenas em números, a gravadora insistiu diversas vezes para que ele gravasse um disco apenas com Sambas clássicos. Luiz marcou posição e negou o rótulo de “Sambista” que queriam lhe impor. Tal atitude, causou inúmeros problemas com a gravadora, que o sacaneou no mainstream, “vendendo” sua imagem como a do “cara difícil”. Anos depois, o próprio Melodia diria em entrevista – “Se não tivesse feito aquilo, não seria o que sou hoje.”
“Pérola Negra” é um disco indispensável.

Segundo Ato – “Um dia lá no morro pobre de mim. Queriam minha pele para tamborim.”
“Maldito!” Não pensem vocês que esta alcunha pejorativa foi ouvida apenas depois do processo de “endemonização” criado pela gravadora após as negativas de Luiz Melodia. O próprio Morro de São Carlos, seu berço de nascença, assim o rotulava por seguir caminho diferente ao usual. E como tudo tem o seu preço, não foi diferente com Luiz. Somente após 3 anos do lançamento do “Pérola Negra”, o segundo trabalho foi lançado. E Luiz Melodia, desta feita apoiado pelo sucesso nos Festivais de Música (em 1975 foi finalista do Festival Abertura da TV Globo, com “Ébano”), novamente seguiu o rumo de sua inspiração e fez mais diferente ainda.
“Maravilhas Contemporâneas” (1976) veio para confundir ainda mais a cabeça de público e crítica. As letras não eram comuns às outras canções que tocavam nas rádios. Os arranjos, mais ainda. E, o melhor nisso tudo, é que mesmo nesta miscelânea generalizada, logo de cara, duas canções emplacaram como sucesso: “Maravilhas Contemporâneas”, canção que dá nome ao disco, puxa completamente para um lado Rock n´Roll no arranjo e onde nos deparamos pelo tom desafiador proposto por Melodia: “Eu sou quase cigano / beirando a mexicano / americano, brasileiro, Paraíba / novamente civil...”; e “Juventude Transviada” que seguia completamente suas raízes do Samba. Esta, foi sucesso de público e crítica, fazendo até parte de novela global. Inegavelmente, isto ajudou bastante a este magnífico samba-canção cair na boca do povo. “Lava roupa todo dia / que agonia / Na quebrada da soleira / que chovia / Até sonhar, de madrugada / Uma moça sem mancada / Uma mulher não deve vacilar.”
Seria injusto de minha parte concentrar-me apenas aos maiores sucessos comerciais deste álbum. “Memórias Modestas” é um Slow Blues confessional de primeira grandeza! Muitíssimo bem cantada e arranjada, a canção vem para assustar público e crítica. Linha de guitarra e bateria completamente marcantes em todo o percurso e um fraseado de baixo cavalar para finalizar. Na sequência, o ouvinte se depara com “Mary”. Uma metaleira primorosa disputa o espaço, passo a passo, com a brilhante interpretação de Luiz. Considero um dos momentos “Jazzy” mais competentes da nossa música.
Diferentemente do primeiro trabalho onde não tocou nenhum instrumento, Luiz Melodia abre o “Maravilhas” com seu violão na fantástica “Congênito”. Mais próxima novamente de suas raízes, este é um Samba-rock de classe e com letra que dá vários recados claríssimos aos críticos e donos de gravadora – “Se a gente falasse menos / talvez compreendesse mais...” E mais adiante – “Mas o tudo que se tem / Não representa nada / .... / O tudo que se tem / Não representa tudo / O puro conteúdo é consideração”. Para finalizar, talvez aquele que seja o primeiro Samba Enredo guitarreado de nossa história. “Quando O Carnaval Chegou” é um drama existencial contado de forma clara e que, mesmo sendo executado em ritmo acelerado (característica dos sambas-enredo), dá para sentir a dor da perda em sua brilhante interpretação.

O "Maravilhas" é o meu preferido e também é fabuloso!





Terceiro Ato -  "Inda vou passar no Estácio. O Estácio pode me querer."

Em meados de 2006, Luiz Melodia foi convidado para um show em homenagem aos 70 anos do Teatro Rival. Deste show, interpretando apenas clássicos do Samba, surgiu a ideia da gravação do "Estação Melodia" (2007) e, uma ano depois, do "Especial MTV - Luiz Melodia (Estação Melodia - Ao Vivo)". É justamente este trabalho no molde "ao vivo" que completa o caminho. Particularmente, sempre gostei de trabalhos neste formato. Gosto da Vibração do público, dos improvisos dos artistas e músicos, das inúmeras possibilidades de releituras e diversificações.

Penso que esta oportunidade de homenagear os sambas-clássicos, consolidou a volta ao seu passado no Morro de São Carlos, tornando real este retorno aos alpendres e becos por onde vagou, ouvindo toda rama de craques do Estácio. Melodia abre o trabalho com "Contrastes", do imortal Ismael Silva (autor de "Se Você Jurar", um dos mais belos sambas da história na minha opinião). Esta aula magna é iniciada apenas com sua voz inconfundível e única acompanhada por um tamborim solitário marcando a cadência. Pois é, caros leitores, sem fugir à máxima de outro poeta - "...no couro do gato / que faz bom tamborim..."

O restante do trabalho mescla sucessos da carreira do cantor com a base do "Estação Melodia". Destaco inicialmente a releitura de "Tive Sim" do gênio Cartola. Verdadeiro crooner que era, Melodia interpreta a belíssima canção de modo único. Ele aproveita toda a nuance rítmica para encaixar sua malandragem elegante do samba, somada à extensão vocal esplêndida. Logo adiante encontramos "Dama Ideal". Este Samba de Gafieira instigante de Alcebíades de Nogueira em parceria com Arnaldo Passos chama demais a atenção por dois motivos distintos: é como se fosse um mantra na nossa mente (por ter a letra curta e repetitiva) e, principalmente, pelo duelo do set de metais com a voz do intéprete. Compositores como Geraldo Pereira e Jamelão também são lembrados no trabalho. O primeiro com duas canções: a cadenciada "Chegou a Bonitona" e a divertidíssima "Cabritada Mal Sucedida" e o ícone mangueirense com "Eu Agora Sou Feliz", parceria com o Mestre Gato que encerra o trabalho em altíssimo astral.


A perda de Luiz Melodia é devastadora para a Música Popular Brasileira. Raros artistas possuíram num pacote só: talento, criatividade, sensibilidade, posicionamento, respeito à música e ao que de fato ele era. Há 3 anos, seu último trabalho foi lançado. “Zerima” (indicado anteriormente na “Playlist de Editores”), além de homenagear sua irmã Marize que havia falecido (Zerima é Marize ao contrário), é uma aula de respeito ao tempo e uma negativa contundente a tudo que a indústria fonográfica quer hoje em dia. Sempre gostei do posicionamento e da versatilidade de Melodia. Indiscutivelmente, ele foi um dos raros casos de artista incomodado com a mesmice. Passeou por tudo que quis como citado anteriormente. Foi Rock, foi Soul, foi Forró, foi Blues, Foi Jazz, foi Maxixe, foi Samba e como ele foi Samba!
Vai em paz, Luiz! E, como muito bem dito na sua canção: No céu você hoje estrela divina / Que apaga, acende, ilumina / Essa terra onde a gente vive / No céu, você hoje estrela MELODIA / Que acorda, apaga, ilumina / Essa terra onde a gente morre / Essa terra onde a gente vive / Essa terra onde a gente morre."

sábado, 12 de março de 2016

Playlist de Editores: Março/2016


No ar, a coluna “Playlist de Editores” deste mês de março! Em pauta, de livros a filmes, passando por discos, as indicações de cada editor sobre últimos títulos do universo da cultura a que se dedicaram.

Boa leitura!



- André Maranhão:



Minha indicação vai para um pequeno livro de Caetano Veloso, intitulado “Antropofagia”, e publicado pela coleção Grande Ideias. Fruto de uma conexão entre as editoras Penguin e Companhia das Letras, o ensaio de Caetano se divide em quatro seções: A Poesia Concreta; Chico [Buarque]; Vanguarda; Antropofagia; com passagens que apontam diversas influências na trajetória de Veloso, e que vão tanto nas figuras da Rádio Nacional, da Bossa Nova (na qual Caetano se declara um grande fã de João Gilberto e discorre muitos trechos dedicados a ele); quanto na turma do Iê-iê-iê (Roberto e Erasmo Carlos); e do Rock n’ Roll (Beatles, Rolling Stones).

Mas outro ponto que também chama atenção é a costura feita por Caetano a partir de grandes trabalhos da vanguarda brasileira – seja nos desdobramentos na Semana de Arte Moderna de 1922; no Concretismo, com os irmãos Haroldo, Augusto (e o “irmão por afinidade” Décio Pignatari); nos teatros do Grupo Opinião e de José Celso Martinez; no cinema de Glauber Rocha e, sobretudo, no grande impacto de Oswald de Andrade como fonte de inspiração, que daria de alguma forma, no Tropicalismo trabalhado por Caetano, que por sua vez, um dia chegou a declarar: “a tropicália é uma neoantropofagia”!


- Fernando Lucchesi:



Falar sobre “Tubarão” é chover no molhado. Foi o filme que inaugurou a era dos blockbusters (literalmente o “arrasa-quarteirão”) em Hollywood, injetando dólares e mais dólares na indústria cinematográfica, além de alçar ao estrelato o jovem diretor Steven Spielberg. Nessa edição de 40º aniversário de lançamento, há dois documentários excepcionais: The Making of Jaws que trata sobre as complicadas filmagens do longa (nesta edição, na íntegra, ao contrário da edição em DVD que mutilou mais de uma hora do original) e The Shark is Still Working - The Impact and Legacy of Jaws, que como o próprio subtítulo explica, avalia por meio de entrevistas de fãs e de pessoas envolvidas no projeto, o legado e o impacto causado pelo filme, principalmente na cultura pop. Além desses documentários, o Blu-ray apresenta uma versão restaurada do filme, diferentes trailers de cinema e spots para televisão. Indicadíssimo para fãs do filme ou simplesmente para aqueles que querem ver apenas um grande filme de suspense/aventura.




- Rógeres Bessoni:



Revisitando a obra do mestre, só para dizer junto com o coro de milhares: Jackson do Pandeiro é pra se torar. Tenho viajado pela obra dele, passando por diversos momentos da sua carreira intensa, profícua, genial. É fantástico ver o desenho, os contornos do “espírito” musical nordestino sendo definidos – tarefa grandiosa que ele dividiu com Luiz Gonzaga e mais uns poucos. Aí você mergulha em uma experiência estética completa, desde as formas que a língua portuguesa adquiriu no Nordeste, o vocabulário, o humor ora ingênuo, ora desconcertante, e toda a carga antropológica/sociológica que vem no pacote: os forrós, as sambadas, as brigas nas festas, os namoros, a descoberta do Rio de Janeiro (e o fascínio daí advindo), os traços cômicos do povo. E além da genialidade rítmica inconteste, Jackson também tinha grandes sacadas melódicas como intérprete. Aqui eu vou destacar uma das músicas menos comentadas – e que merecia inúmeras boas regravações e homenagens: Capoeira Mata Um. Do disco “Cabra da Peste”, creditada como sendo de autoria de Álvaro Castilho e De Castro, é uma obra-prima do tipo de balanço que iria fazer tanto a cabeça dos brasileiros nos anos 70 e seguintes. E digo mais, tendo sido gravada em 1966, pela temática e pela levada, não me impressionaria nada descobrir que essa música influenciou todo o começo da carreira de Jorge Ben Jor, por exemplo, além da sua incrível aproximação com os afro sambas de Vinícius e Baden (gravados no mesmo ano). Vale muito a pena o mergulho na inventividade desse grande monstro da inventividade sonora.



- Bruno Vitorino:




Em 1995, enquanto o Sepultura - a maior banda do rock brasileiro! - pré-produzia seu clássico Roots, o Pantera trabalhava seu mediano Far Beyond Driven e o Korn choramingava problemas de relacionamento familiar e retratava toda uma geração de adolescentes com sérios problemas de autoconfiança viciados em MTV; uma banda lá dos confins da Suécia quebrava todos os paradigmas até então estabelecidos para o Metal: era o Meshuggah.

Com seu disco “Destroy, Erase, Improve”, o quinteto de Umea sacudiu o universo metaleiro. Musicalmente: agressividade, precisão, graves, e, sobretudo, padrões polimétricos bastante complexos. Melodia? Raramente, e só para criar ainda mais tensão rítmica. Poeticamente: letras afiadas sobre uma utopia pós-apocalíptica, tecnológica e desumanizada que mesclava indústria de massa, cybertech, relações de poder e desorientação ontológica. O “horror” descrito por Conrad em O Coração das Trevas, só que com uma hashtag na frente. O resultado era uma implacável sequência de porradas ritmicas que denunciava aos berros o apagamento do indivíduo idealizado pelo Iluminismo em prol do andróide sem alma criado do consumo frenético e pelo incipiente ideário eletrônico que se desenhava (e cujo resultado hoje vivenciamos). Uma paisagem sonora desnorteante e por vezes irrespirável, mas absolutamente fascinante.

Destaque para a insanidade de Future Breed Machine, o forte conflito métrico de Beneath, as inesperadas modulações rítmicas de Soul Burn, os constantes deslocamentos de acentuação rítmica em Transfixion e a tessitura métrica de Sublevels. E antes que me esqueça: dê-se ao trabalho um olhar mais atento às letras do baterista e virtuose Tomas Haake. Valerá o esforço, vá por mim.

Altamente recomendado!



- Giba Carvalho:


Luiz Melodia é um artista único. Após 13 anos, o “Negro Gato” nos presenteia com um excepcional álbum de inéditas. “Zerima” é uma simbiose perfeita de ritmos e influências. Certamente por dois motivos inerentes a sua carreira. O primeiro é o respeito ao tempo e aos sentimentos musicais na hora de compor.  E o segundo, é por ele não forçar a barra para que tais inovações surjam. O processo com Melodia é totalmente espontâneo. E, em minha opinião, é daí que o verdadeiramente novo surge. A demora é totalmente justificada pelo compromisso com a qualidade e com o que é de fato faz-se relevante para a música nacional.

A reaproximação de Melodia com suas origens do samba, torna-se cada vez mais clara. Notadamente após o estupendo Acústico MTV (o melhor de todos que foram produzidos no Brasil), estas mudanças voltaram com tudo. Como se o lado neotropicalista tivesse ficado no passado e o minimalismo oriundo das cordas e instrumentos percussivos voltassem a bater no coração do Melodia. Tal mudança nos proporciona com clareza, uma percepção prática e estética de quão magnífico é o Luiz, muito embora, ele sempre tenha corrido à margem no rótulo de sambista.

No álbum, encontramos ainda participações especiais. Na dissonante (em termos de arranjo) releitura de Maracangalha (Dorival Caymmi), temos a participação de Mahal Reis (filho de Melodia) que introduziu um trecho rap no balanço que toma conta da canção. E, na maravilhosa Dor de Carnaval, a participação é de Céu. A junção da versatilidade ímpar de Melodia com o modo único da cantora-compositora paulista cantar tornam esta canção uma das “maravilhas contemporâneas” do trabalho. O restante é uma verdadeira AULA de bom gosto e de um excepcional crooner brasileiro.

“Zerima” nos traz um Melodia disposto, cheio de inspiração e com muita vontade de fazer música de verdade!

COMPLETAMENTE INDISPENSÁVEL!


quarta-feira, 9 de março de 2016

A Última Lôa de Naná Vasconcelos – Por Bruno Vitorino


Pernambuco perdeu hoje um de seus filhos mais ilustres: o percussionista Naná Vasconcelos. Embora ultimamente fosse conhecido quase exclusivamente como o responsável pela abertura do carnaval do Recife, Naná tem uma vasta e importantíssima atuação na música brasileira e no cenário jazzístico internacional. Forjou-se artisticamente nos férteis terrenos da música folclórica pernambucana, tocando percussão nos bailes do Batutas de São José e participando das gravações dos discos de frevo de Nelson Ferreira nos áureos tempos da Rozenblit. Depois, mudando-se para o Rio de Janeiro na virada dos anos 1960/70, estabeleceu parceria com Milton Nascimento e outros artistas nacionais num dos momentos mais criativos que a música popular brasileira já teve.
Por esta época, foi descoberto pelo saxofonista argentino Gato Barbieri, figura aclamada e respeitada no mundo do jazz, e passou a integrar o grupo do instrumentista. Foi através do disco “El Pampero” de Barbieri, gravado ao vivo no Montreux Jazz Festival de 1971, que Naná apresentou ao mundo uma imaginação rítmica sem fim e uma capacidade absurda de estabelecer fortes vínculos emocionais no perigoso ato da improvisação. Daí para frente, se inseriria na música improvisada com mais vigor em parcerias com Jan Garbarek, Ralph Towner, Arild Andersen, Pat Metheny, Don Cherry (no seminal trio CODONA) e Egberto Gismonti, seu grande alter ego musical, com quem gravou o obrigatório “Dança das Cabeças” pelo selo alemão ECM Records. Influenciado por Jimi Hendrix, compreendeu que as possibilidades dos instrumentos são infinitas e, especializando-se no berimbau, ampliou as fronteiras estéticas dos sets percussivos, fazendo das células rítmicas a matéria prima de sua poesia sonora.
Em 2007, num tempo em que o Festival MIMO ainda se chamava “Mostra Internacional de Música de Olinda” e se realizava na Cidade Alta, tive a oportunidade de ver o duo Vasconcelos/Gismonti em ação tocando na íntegra o repertório do clássico “Dança das Cabeças”. E não foi mais um desses muitos reencontros burocráticos e revisionistas que tantos artistas outrora criativos apresentam. Ao contrário! Foi a celebração da liberdade criativa compartilhada, da forte sinergia proporcionada por uma total entrega às composições, do risco inerente ao desconhecido da improvisação e dos eventos musicais espontâneos, da maestria artística depurada numa longa jornada musical. Tenho muito firme na memória a densa experiência estética e o poder transformador do concerto, o quanto ele reverberou em mim e me fez pensar sobre o que eu queria da música enquanto instrumentista e compositor.
Ao acordar hoje, fiquei sabendo de sua partida. Uma lástima. O mundo perde bastante com seu retorno ao Éter e o vazio artístico que vivenciamos hoje travestido de Cultura se alastra um pouco mais.
Obrigado por sua música, Naná! Sua Memória permanecerá viva para aqueles ainda vêem na música um portal para a comunhão espiritual da humanidade.

R.I.P.

terça-feira, 1 de março de 2016

Don Ellis Redescoberto - Por Bruno Vitorino

O trompetista Don Ellis. Fonte: Google Imagens.

Há um filme muito ruim que supreendentemente, ao menos para este que vos escreve, foi bastante aclamado por crítica e público chamado Whiplash. O longa conta a história de Andrew, um jovem baterista de jazz que sonha em ser Buddy Rich, mas que não consegue tocar em double time swing nem manter o andamento de um tema. Por conta disso, apanha na cara, é humilhado publicamente e se submete a outras violências morais do professor-regente, Terence Fletcher, na busca por uma perfeição sem propósito. Risível e imensamente frustrante.

Risível, porque um filme tão raso e clichê, que faz da violência mais banal recurso estético, foi recebido pelos sabichões do cinema e pelo público apreciador do circuito não comercial como uma narrativa brilhante sobre o torturante caminho da excelência artística. Balela! Cisne Negro fez isto. Imensamente frustrante, porque a película não apenas perverte gratuitamente o ideal de mestre, aquela generosa entidade forjada na experiência e na sabedoria, e macula a beleza do vínculo que este estabelece com seu discípulo, como também perde a oportunidade de realmente fazer a leitura crítica que se propôs de uma juventude à deriva, sem objetivos, causas ou utopias. E sem falar da caricatura grotesca que o longa faz do ensino do jazz nas escolas de música e do gênero em si enquanto manifestação artística. Se a intenção era atacar o necrotério que Wynton Marsalis chama de jazz, o resultado foi o tédio. Mas, pelo menos para uma coisa o filme serviu: apresentar à nova geração a Don Ellis Orchestra.

Isso por que Whiplash é um tema “de verdade”, composto por Hank Levy especialmente para a big band do trompetista californiano, que abre o interessante disco “Soaring”, de 1973. A versão original da composição que dá nome ao filme é bem mais rica em termos de interpretação, arranjo e improvisos do que à que foi às telonas no arranjo pasteurizado de Justin Hurwitz, um pianista com treinamento clássico que não entende lhufas de jazz, como ele mesmo admitiu. A gravação original é vibrante: os metais em fortíssimo anunciam o tema num esquema de “chamada e resposta”, logo depois a cozinha estabelece o funkeado 7/8 - com destaque para o baixo elétrico com os captadores abertos e realce nos agudos, dando-lhe uma sonoridade meio rock -, e a melodia vai sendo apresentada numa forma que privilegia seções interpoladas que mudam a atmosfera da composição e oferecem contrastes sonoros fabulosos. Repare, por exemplo, no delicado pontilhismo das cordas servindo de cama para os metais em surdina e no efeito rítmico que esta sobreposição métrica causa logo no primeiro minuto da música. E, não menos importante, o solo de Don Ellis é simplesmente matador.

O trompetista, que se graduou na Boston University, tocou com Charles Mingus (“Mingus Dynasty”), George Russell e inúmeras orquestras, construiu sua carreira musical montando sua própria progressive big band. No entanto, ao contrário do sincretismo de Mingus, que misturava folk music, bebop e música de vanguarda, ou da complexa arquitetura sonora das large ensembles de Oliver Nelson, Ellis privilegiava as experimentações com compassos incomuns, padrões rítmicos assimétricos e coloridos tímbricos exóticos proporcionados por combinações e dobras inusuais de instrumentos. Tudo isso em meados dos anos 1960, quando sua orquestra causou algum impacto no cenário jazzístico.

“Soaring” é um ótimo ponto de partida para os que desejam conhecer a sua música. Acessível a ouvidos pouco afeitos à música instrumental, o álbum traz composições bastante intrigantes que expõem com muita precisão a essência criativa e interpretativa de Ellis, integrando num mesmo território um sólido conhecimento da tradição orquestral do jazz, elementos da música erudita, a sonoridade dos instrumentos elétricos popularizados com a expansão do rock, o elemento supresa da improvisação individual e a plasticidade da malemolênica do funk. Além do hoje famoso “Whiplash”, há temas como a quasi rapsódia “Sladka Pitka”, que vai de uma camerística introdução de cordas e madeiras, passando por um balançado funk em 9/8 até descambar num final abstrato e inesperado; a grooveada “The Devil Made Me Write This Piece” e suas digressões em relação à estrutura principal; “Go Back Home”, puro balanço e metaleiras em evidência; e a lírica “Invincible”, onde a confluência das técnicas de orquestração erudita e jazzística se mostra com mais vigor.

É bem verdade que às vezes a big band coloca um pezinho no cafona, trazendo um pouco daquela sonoridade brega dos anos 1970, especialmente nos momentos em que os arranjos dão muita ênfase às cordas ou quando o técnico de som capricha no reverb do trompete - como em “Image of Maria”. Mas sempre há algo inesperado, uma reviravolta na trama da composição, feito o blues em 7/4 no meio de “Sidonie”, que vale a escuta.

Voltando ao filme, lembro de ter ficado tão indignado com Whiplash que soltei involuntariamente um sonoro “que bosta!” em pleno Cine Rosa e Silva mal terminada a película. Lembro também de um cabra que estava ao meu lado com sua garota me lançar um olhar de reprovação e dizer para ela numa falsa discrição: “É por que é um filme sobre jazz. Se fosse sobre o rock ninguém dizia isso.” Não! Não é um filme sobre o jazz, sobre a artisticidade ou sobre a elevação espiritual proporcionada pela música. É somente uma produção superestimada que faz do jazz um pastiche, do roteiro, um decalque pobre de Kafka e onde o diretor brinca de Lars Von Trier. Fato! Mas não deixa de ser um alento ver, de certa forma, Don Ellis redescoberto através dele.


sábado, 27 de fevereiro de 2016

Oscar 2016: Os Indicados a Melhor Filme - Por Fernando Lucchesi


Aqui estamos mais uma vez para dar nossa impressão sobre os indicados a melhor filme do ano de 2015 (veja AQUI o texto do ano passado), de acordo com a academia de artes e ciências cinematográficas de Hollywood. Entre os indicados tivemos gratas surpresas e algumas produções decepcionantes.

A ordem dos filmes no texto está em conformidade com os meus favoritos, começando por “A Grande Aposta”. E você, leitor? Concorda? Discorda? Dê a sua opinião!


A Grande Aposta


Sem dúvida alguma o grande filme do Oscar. É inacreditável como Adam Mackay e Charles Randolph adaptaram o livro The Big Short de Michael Lewis e deram uma fluidez impensada para um tema espinhoso: a crise financeira de 2008. Além de um roteiro extremamente bem feito, o filme conta com uma edição vigorosa que prende a atenção do espectador a cada nova cena e intercala várias histórias sem perder o rumo delas. O elenco do filme é simplesmente excelente. É difícil destacar apenas um. Possivelmente perderá o prêmio de melhor filme para “O Regresso” (já que a academia gosta dessas histórias clássicas de vingança e redenção contra as adversidades), mas se a academia fosse premiar ousadia daria o prêmio para “A Grande Aposta”. Deve levar o prêmio por roteiro adaptado. Pode levar o prêmio de montagem (embora nessa categoria, “Mad Max - Estrada da Fúria” seja favorito).

O Quarto de Jack


Um dos filmes mais humanos e comoventes dos últimos anos, “O Quarto de Jack” conta a história de um garoto de cinco anos e sua mãe que vivem o cotidiano dentro de um quarto. O que o público não percebe, de início, é o terror da situação: Jack e sua mãe não vivem ali por vontade própria, mas por que estão encarcerados, vítimas de um sequestrador. Jack é, na verdade, filho do sequestrador, já que sua mãe foi sequestrada há 7 anos. Para que Jack não veja “Old Nick” (nome pelo qual a mãe de Jack se refere ao sequestrador), ela o mantém dentro de um armário sempre que seu algoz entra no quarto. A “realidade” para Jack é o seu quarto e o que é visto na televisão. O diretor Lenny Abrahamson opta por contar a história do ponto de vista do menino, o que faz um contraponto muito bom entre a inocência e o terror que ele não compreende. Tudo bem que esse recurso não é novo, mas imprime certo lirismo ao filme, que por si só já aborda um tema pesado. Brie Larson é uma grata revelação como atriz. É um papel carregado de dramaticidade e ela consegue imprimir a intensidade certa, sem exageros. É favorita ao Oscar de melhor atriz merecidamente. Destaque também para o garoto Jacob Tremblay, que interpreta Jack. Por se tratar de uma produção menor (leia-se: de baixo custo) não deve levar o Oscar de melhor filme, mas é uma grata surpresa entre os indicados.

MAD MAX - Estrada da Fúria


O diretor George Miller (realizador da trilogia original de Mad Max) parece que pegou o que o interessava dos filmes anteriores, jogou em um liquidificador e criou o filme de ação mais interessante dos últimos anos. É bem verdade que o filme aborda questões como o fanatismo, a falta de água, a mulher como objeto, mas o que torna “Mad Max - Estrada da Fúria” um grande filme são as suas espetaculares sequências de ação. O cenário árido escolhido por Miller nos dá a ideia de um mundo pós-apocalíptico, em que água, combustível e armas são itens de primeira necessidade. A trama se resume basicamente a tentativa da Imperatiz Furiosa (Charlize Theron) fugir com as cinco esposas de Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), um ditador de uma cidadela que fornece água em quantidades escassas à população e assim os controla e utiliza essas “esposas” unicamente para que possam gerar herdeiros para ele e assim manter a sua família no poder através dos anos. Nessa fuga é que entra o herói Max Rockatansky (Tom Hardy), feito prisioneiro por Immortan Joe.

Miller sustenta o seu filme com épicas cenas de ação que vão desde perseguições quase infinitas a tempestades de areia. O elenco também está afiadíssimo, com destaque para Hugh Keays-Byrne, como o vilão Immortan Joe. Um filme de qualidades técnicas inquestionáveis. É o favorito em algumas categorias técnicas (montagem, direção de arte e maquiagem). Seria uma surpresa se ganhasse o Oscar de melhor filme, uma vez que academia dificilmente premia filmes de ação com a principal estatueta.

Perdido em Marte


Uma das grandes surpresas de 2015, “Perdido em Marte” tem uma mistura brilhante entre humor e ação. A história do astronauta que fica isolado em Marte após a sua equipe da missão presumir que o mesmo está morto, é contada com fluidez e muito bom humor através da trilha sonora, basicamente calcada na disco music, e de um roteiro inspirado cheio de tiradas bem pensadas. Matt Damon está excelente no papel do astronauta esquecido. Seria a oportunidade de a academia reparar a injustiça de nunca ter dado um Oscar para Ridley Scott, realizador de grandes filmes como Blade Runner, Alien: O Oitavo Passageiro e Gladiador, mas vão dar o prêmio pelo segundo ano seguido para Iñárritu . Se Scott ganhar será uma grande surpresa.

O Regresso


Uma história clássica sobre vingança, um protagonista que enfrenta adversidades físicas/naturais e um vilão de primeira categoria. Pronto! Você já tem os elementos de um filme feito para, se não ganhar, pelo menos ser indicado ao Oscar. Obviamente que se trata de um exagero. Não basta ter apenas esses elementos. São necessárias atuações inspiradas e uma história que seja, ao menos, convincente. Além do apuro técnico, claro.

É o caso desse “O Regresso” do diretor vencedor do Oscar passado (e ao que tudo indica desse também), Alejandro González Iñárritu. O filme narra a longa jornada de Hugh Glass, vivido por Leonardo DiCaprio, em busca de vingança contra seu antigo companheiro de caçada, John Fitzgerald (Tom Hardy) que além de tê-lo deixado para morrer, assassina Hawk (Forrest Goodluck), filho de Glass. Tecnicamente o filme é um primor: dos cenários naturais gelados do Canadá, à fotografia exuberante de Emmanuel Lubezki, passando pelas interpretações brilhantes de Leonardo DiCaprio e Tom Hardy. O ponto alto do filme é sem dúvida nenhuma o ataque de urso sofrido por Glass. Impecável!

O grande problema do filme reside no roteiro e na montagem. O filme é demasiadamente longo (diversas situações poderiam ser cortadas sem atrapalhar a compreensão da trama) e a edição torna o filme monótono por algumas vezes. Isso para não falar no “salto” proporcionado na história: Glass, completamente destroçado pelo ataque de urso e só conseguindo rastejar, consegue avistar do alto de um penhasco um rio. Na cena seguinte lá está ele bebendo da água do rio. Esse recurso de edição, e por vezes até mesmo de roteiro, não é novidade. Hitchcock até tinha um nome para isso: Mcguffin. Isso não torna o filme menor, mas deixa o espectador desconfiado. Além disso, a facilidade com que a índia foge do acampamento dos franceses é no mínimo questionável.

Trata-se de um ótimo filme, mas longe de ser a obra-prima que estão pintando dele. De acordo com as previsões deve levar os prêmios de filme, diretor, ator (Se bem que é bom Leonardo DiCaprio se benzer. Se perdeu o Oscar pelo papel em O Lobo de Wall Street é bom colocar as barbas de molho) e fotografia.

Ponte dos Espiões


Mais uma vez, Spielberg usa um tema interessante (os espiões russos e americanos no cenário da guerra fria) para exaltar os valores americanos de uma verdadeira democracia. Tom Hanks é um advogado especialista em seguros que, por força das circunstâncias, deve defender um espião russo da acusação de espionagem e por consequência da pena capital. Por defender um “inimigo público”, Hanks ganha antipatia de toda a sociedade, mas graças aos ideais pregados pela constituição americana, ele nunca se desvia do caminho, mesmo quando sua casa é metralhada no meio da noite. Spielberg, numa tentativa de fazer um filme no estilo Frank Capra, com um personagem idealista, firme nas suas propostas joga fora a chance de fazer uma thriller de espionagem ao menos interessante para mais uma vez encher a tela de patriotada americana de como os Estados Unidos são justos e humanos. Além de uma edição e direção de arte brilhantes, salva o filme ainda a atuação Mark Rylance (como o espião russo Rudolf Abel). Dificilmente levará algum prêmio.

Spotlight - Segredos Revelados


O tema é explosivo: a investigação feita pelo jornal Boston Globe que revelou uma série de abusos praticados por padres católicos. O filme segue a linha de jornalismo investigativo que tem entre seus maiores expoentes Todos Os Homens do Presidente de Alan J. Pakula. Mas diferente do filme de Pakula, em que a cada nova pista o mistério vai se elucidando, neste Spotlight já sabemos desde início sobre o que trata a investigação. O filme termina se limitando a buscar testemunhas que se disponham a depor contra a uma instituição poderosíssima, de forma que o filme parece rodar em círculos e não entrega nada de surpreendente ao espectador. A grande tensão gerada pelo filme é saber se a reportagem deve ser adiada para que mais padres sejam denunciados ou publicá-la logo e evitar que concorrentes publiquem primeiro, mas com menos agressores denunciados. Mais um exemplo de filme que foi indicado só pra fazer quantidade. Grandes atuações do elenco (a exemplo de “A Grande Aposta”), com destaque para o surpreendente Michael Keaton, que depois de uma carreira errática parece ter se revelado um ótimo ator. Não deve receber prêmios.

Brooklyn


Desde 2010, quando a academia decidiu que poderiam ser indicados até 10 filmes ao Oscar de melhor filme, sempre acontece de a lista conter indicados que não se sabe por que estão na lista. São exemplos claros disso nos últimos anos Sniper Americano, Filomena e Cavalo de Guerra. Na edição desse ano, este papel coube a “Brooklyn”.

É realmente incompreensível como esse filme foi indicado ao prêmio principal e a mais dois prêmios. Tão inacreditável quanto isso é que o roteiro tenha sido escrito por Nick Hornby (ele mesmo, autor de Alta Fidelidade e O Grande Garoto). O filme é uma daquelas histórias de amor que você provavelmente já viu infinitas vezes. A trama é simples: fugindo da falta de perspectiva na Irlanda, jovem garota (Saoirse Ronan) vai para os EUA em busca de uma vida promissora. Chegando lá, tudo corre bem, ela se apaixona e tudo anda às mil maravilhas. Por conta de um imprevisto, ela decide retornar para a Irlanda e termina se envolvendo com outro rapaz. O grande dilema da personagem é ficar em sua terra natal e começar de novo ou voltar para os EUA onde já tem uma vida encaminhada (muito novo isso, né?).

Esse é uma daqueles filmes que em alguns anos será apenas uma nota de rodapé em livros sobre cinema, apenas por ter recebido essa indicação à melhor produção do ano. Se esse filme receber algum prêmio será a prova de que os votantes da academia perderam completamente o bom senso.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Variações em 4/4 - Blackstar



Na primeira coluna do ano, os editores do blog comentam o último trabalho de David Bowie, “Blackstar”.

Boa leitura!


- Fernando Lucchesi:         

Se há algo que caracterizou David Bowie durante toda sua carreira foi a quase patológica necessidade de constante mudança, tanto visual como musical. Isso fez com que musicalmente Bowie explorasse uma quantidade enorme de sons e ao invés de seguir, era ele quem ditava a tendência do que viria ser feito. Muito dessa amálgama de estilos está presente em “Blackstar”, praticamente um disco-testamento do músico inglês.
Embora haja um grande predomínio de saxofone nos arranjos das músicas, não se trata propriamente de um disco de jazz (vi algumas críticas dizendo isso). O que caracteriza o disco, e isso possivelmente foi causado pelo estado de ânimo de Bowie, é um tom lúgubre, triste, por vezes até sufocante das canções do álbum. A única música que se aproxima de um rock é Sue (Or In a Season of Crime), com uma linha de baixo-guitarra mais acelerada e cheia de distorções. As outras canções do disco possuem estrutura semelhante, mas com pequenas diferenças nos arranjos.

A longa faixa-título, Blackstar, entremeia sax, flauta, batidas eletrônicas tudo dentro dessa atmosfera densa, pesada, com a voz de Bowie surgindo com uma voz quase suplicante. O mesmo se aplica (com algumas mínimas diferenças) à ‘Tis a Pity She Was a Whore e Girl Loves Me, que seguem a mesma estrutura de Blackstar.

Dollar Day já foge um pouco mais do padrão das outras. A música abre com piano e sax se misturando e segue com um violão com uma levada folk. Uma música que poderia estar perfeitamente em algum disco do REM. É o momento do disco em que Bowie diminui os efeitos eletrônicos presentes nas outras faixas. Já I Can´t Give Everything Away lembra algo de “Low” (disco de Bowie de 1977). Nessa faixa há uma retomada do uso de efeitos eletrônicos, teclados e há espaço até para um solo de guitarra.

Mas é na letra de Lazarus (transformado em um belíssimo vídeo) que Bowie realmente parece fazer o seu canto de cisne: “Olhe aqui para cima/Estou no paraíso/Tenho cicatrizes que não podem ser vistas. /Eu tenho drama/não pode ser roubado/Todo mundo me conhece agora.”. Um brilhante epitáfio para um dos artistas mais representativos do século XX.


- Rógeres Bessoni:

Há inegáveis dificuldades em escrever sobre o último trabalho musical de David Bowie. Se, por um lado, todos já falaram que “Blackstar” é um disco de verdadeira despedida (e repetir isso tenderia a ser um mero cliché), por outra via, uma análise detalhada sobre a obra exigiria uma pesquisa rigorosa sobre muitos elementos e poderia desembocar num artigo denso sobre estética, extrapolando os limites desta coluna. Isso porque é impossível falar de qualquer trabalho de David Bowie separado do autor – trata-se de um dos poucos artistas que praticamente impossibilitam tal “corte epistemológico”, ainda que momentâneo. Isso porque Bowie pertenceu à rara categoria daqueles que parecem viver toda a sua “vida pública” (porque era discretíssimo no âmbito pessoal) como se se tratasse de uma consciente composição estética, uma arquitetura experimental recorrendo a diversos campos de linguagem, o intento de uma realização artística de uma certa forma aproximada à maneira como Todorov interpreta ter sido a vida de Oscar Wilde, por exemplo. No caso de Bowie, isso incluía, TAMBÉM, compor e gravar discos.

Pois bem, é nesse contexto que Blackstar parece, de fato, cumprir sua função de arremate. O disco tem um tom “nublado”, até mesmo um tanto sombrio, mesmo nos momentos mais dançantes, como em ‘Tis a Pity She Was a Whore. A minha preferida, Blackstar, ganhou um clip poderoso e impactante, uma belíssima obra de fotografia, em que o ritual com o crânio, encenado em meio a espantalhos, pode facilmente ser entendido como uma contemplação sobre a morte. Além de tudo, vale ressaltar a tão comentada letra de Lazarus, em que o “eu lírico” (se posso usar aqui este termo) canta como se já estivesse morto. Esses conteúdos parecem demonstrar que Bowie sabia muito bem o que estava fazendo e queria, de fato, "gravar em vida um disco póstumo".

Fico assim impossibilitado de comentar Blackstar como se fala simplesmente de qualquer “lançamento”. Não é o trabalho de uma banda ou artista solo que lançou um disco e quer sucesso suficiente para excursionar, ganhar uma grana e os elogios pela obra. Aqui, Bowie compôs uma despedida e... partiu. Não ficou para ouvir qualquer opinião, e talvez não fizesse mais a menor questão disso. Qualquer análise em termos de “gostei/não gostei” ou “ficou bom/não ficou bom” seria pueril e até mesmo leviana. Trata-se de uma obra definitivamente madura, e sendo Bowie o alquimista/experimentalista estético que sempre foi, a sensação é que se está ouvindo (e assistindo nos clips que foram feitos para este disco) uma precisa composição em que cada coisa está exatamente onde ele queria que estivesse, em que cada timbre, palavra e andamento (assim como as cores, cenários e figurinos nos clips) foram intencionados. Bowie não estava mais tateando para ver o que “poderia dar certo ou não”, nem buscando louvores, nem pretendendo ganhar absolutamente nada mais deste mundo. Trata-se de um mestre do desconcerto, manuseando hábil e melancolicamente as tintas que aprendeu a dominar em décadas de manipulação ininterrupta, para compor sua partida desta terra. Agora, sim, com a obra completa, ele se retira e sai de cena. Fica desenhado um ideograma – ou, melhor, talvez um criptograma. Não me surpreenderia nada se, no futuro, observadores atentos percebessem que Bowie, junto com mais uns outros poucos mestres, deixaram criptografadas as fórmulas mágicas que nos ajudarão a dissolver uma era de mediocridade e pobreza espiritual que, parece, apenas se inicia.


- Giba Carvalho:

David Bowie sabia que estava perto do fim e “Blackstar” não é sombrio à toa! É um passeio real da mente mais criativa do mainstream musical mundial, pelos caminhos inóspitos da morte. Talvez por isso, seja o trabalho que menos flerta com Rock ‘n Roll em toda carreira do Camaleão. Por tratar-se de Bowie, não posso citar de onde vêm tantas influências. Encontramos elementos de Jazz Fusion, passando pelo Dub e chegando ao Rap em alguns momentos. Não tenho dúvida ao afirmar: trata-se de mais uma guinada violenta no histórico de trabalhos do cara.

Buscando talvez uma inovação maior ainda do que as de costume, o Camaleão foi buscar na cena Pós-Jazz de Nova Iorque nomes consagrados e que, notadamente, fossem capazes de trabalhar com a mais variada sorte de improvisos. No saxofone – Donny McCaslin, na guitarra – Ben Monder (ambos frutos do encontro anterior com a pianista Maria Schneider), na bateria o espetacular Mark Giuliana (Mehliana), o contrabaixista Tim Lefebvre (Tedeschi Trucks Band) e o tecladista Jason Lindner. Com um time deste quilate, somado a capacidade criativa de Bowie, não tenho dúvida em afirmar que Blackstar é um dos trabalhos mais interessantes lançados em 2015.

Trata-se de álbum de vanguarda (anticomercial), indiscutivelmente! E, mesmo trazendo uma estranheza caricata, quem escuta o álbum sabe que a personalidade de Bowie está entranhada no mesmo.

Indicadíssimo!


- Bruno Vitorino:

Inegavelmente a partida de David Bowie deste mundo de desorientação, destradicionalização e hedonismo desenfreado torna as coisas ainda mais difíceis para a Cultura. Nos últimos dois meses, tantos mestres voltaram ao Éter que é para mim quase impossível não ser fatalista ou, para usar uma expressão de um grande pensador que nos deixou ontem – Umberto Eco -, “apocalíptico”. Pois, a cada grande nome que parte, um vazio criativo se agiganta e se apossa de nosso ideário, substituindo transcendência, substância e profundidade por distração, aparência e efemeridade, como se uma marcha contundente levasse a humanidade à beira do precipício da idiocracia e do irracionalismo.

Só isso bastaria para ouvirmos “Blackstar” com uma solene reverência e profundo comprometimento estético. Mas, o disco é, ainda por cima, de uma riqueza artística surpreendente e cada vez mais rara no mundo de espumas em que vivemos.

A esta altura, todo mundo minimamente ligado sabe que o disco é um testamento musical concebido por Bowie na iminência da morte. A própria capa do trabalho deixa isto bastante evidente: uma grande estrela negra imponente e altiva que oculta, além de sua projeção inteiriça, seus frangalhos, como um astro que se despedaça e sucumbe. Ok. Só que o artista inglês não transformou sua doença – o câncer – num libelo clichê contra a morte que ceifa a sua vida de ídolo pop. Ao contrário! Bowie fez desse funesto território o espaço para uma última metamorfose estética, como era de seu gosto arredio a zonas de conforto, e o local perfeito para expurgar suas angústias, medos e dores enquanto ser humano, indivíduo que enxerga o próprio ocaso, em letras fortíssimas em primeira pessoa na intenção, imagino, de preparar seu espírito para o fim. O resultado é um trabalho marcado por uma atmosfera lúgubre - como num conto de Edgar Allan Poe – que mescla com muita precisão recursos eletrônicos, cordas, sopros e guitarras distorcidas, amalgamados em belos (e ousados) arranjos.

Destaque para o si menor tortuoso de Blackstar, uma suíte em duas partes sobre a “vela solitária” que trazemos em nosso universo interior; o grito desesperado de Lazarus; a base groove de Sue (Or in a Season of Crime) em contraponto à melodia flutuante na voz; o vocal quase recitativo de Girl Loves Me; o inesperado caminho harmônico de Dollar Days; todas as intervenções do saxofone de Donny McCaslin (e não, não é um disco de jazz, e sim um disco com elementos jazzísticos); a presença musical do produtor Tony Visconti.

Em resumo: maestria, comprometimento e risco. O que mais poderíamos querer?

Indispensável!