segunda-feira, 24 de junho de 2013

O retorno do Xamã - por Giba Carvalho



     Segundo os siberianos, o significado da palavra Xamã (ou Shaman) é – “aquele que enxerga no escuro.”

     Malcom John Robbenack tem 71 anos, e destes, mais de 50 dedicados a música. Notadamente, ao jazz e ao blues. No entanto, depois de tanto tempo na ativa, é normal uma certa acomodação. Aquela velha história de ficar na zona de conforto. Foi aí que entrou a pessoa de Dan Auerbach, guitarrista e vocalista da aclamada banda The Black Keys. Fã confesso do trabalho do “Doc”, o músico teve certo trabalho até convencê-lo a topar um trabalho novo em parceria. O mais interessante nesta história, é que foi necessário uma das netas de Malcolm falar bem do trabalho do The Black Keys e ainda colocar um CD dos mesmos para que fossem aceitos.

     O grande mérito do "black key" para esta excelente produção foi o modo utilizado para que a mente do Xamã fosse aberta novamente. Numa destas "sessions", o mestre ouviu um disco de um craque africano chamado Mulatu Astatke, saxofonista etíope que levou um balanço diferenciado para dentro do jazz. Sem falar de todo misticismo envolvido no experimentalismo musical que se propunha. Temos que ressaltar também, a liberdade artística e a verba necessária para que o projeto saísse. 

Mulatu Astatke - The Way to Nice:


     A bolacha foi totalmente produzida no Estúdio - Easy Eye Sound, em Nashville, mas teve seu início na mítica New Orleans, cidade que jamais foi abandonada pelo Xamã. Durante mais de dez dias, todos os membros em estúdio se entupiram de comida etíope e ouviram toda a obra do saxofonista africano. Obviamente que a idéia não era fazer uma cópia do que já foi feito, mas sim, utilizar um caminho diferenciado para as criações musicais que viriam a surgir. De imediato, as bases começaram a ser compostas e não demoraram muito a sair. No DNA de Dr. John já corre um mar de traços africanos e isto facilitou bastante o processo. Outro ponto a ser ressaltado, foi a troca do tradicional piano que sempre o acompanhou por um órgão Farfisa (especialmente utilizado para criações "funky-psicodélicas").

     As letras tornaram-se um capítulo a parte neste disco. Como é de conhecimento da maioria, mesmo sendo umas das figuras mais importantes da música estado-unidense dos últimos 40 anos, o "Doc" não é um "frontman". O Xamã gravou com inúmeros mestres de New Orleans tais como: Professor Longhair, The Meters e Alain Touissant, além de outros nomes como - The Rolling Stones, The Band, Eric Clapton, passando até por Cristina Aguillera. Memórias intermináveis e amargas foram trazidas à tona novamente. Tal como uma tentativa de exorcizar os próprios demônios que tantas vezes nós mesmos criamos. Lendo uma entrevista do mestre atentei para uma frase que explica claramente isto:

     "Vivi muito tempo na estrada, cometi muitos erros, me envolvi com pessoas e entidades estranhas e, acima de tudo, deixei minha família de lado várias vezes — reconhece ele, que escreveu para 'Locked down' músicas como 'My children my angels' (...Tell me about your desires right now. Don´t trip on this wire, I´ll show you how. My baby wish I never, made you loose. My children, my angels, talking to you.) e dedicou o disco a sua família. — Arrependimento é uma palavra forte porque ela nem sempre conserta algo. Vivi o que tinha que viver. Mas hoje tento recompensar isso dando todo o amor aos meus netos e a quem de fato me ama."

Dr. John - My Children My Angels:


     Voltando a falar do disco, é inevitável perceber sua ligação total a cidade do “Doc”. New Orleans sobra no disco. Aos ambientes burlescos do Mardi Gras, aos famosos 'medicine shows' teatrais que mais pareciam um circo disfarçado de concerto rock e à aos mistérios do 'Voodoo', ou Hoodoo como é apelidado nos estados do Luisiana.” Talvez por isto, a crítica americana considere “Locked Down” o retorno à forma. Muito embora os trabalhos de Dr. John nunca tenham sido considerados abaixo de uma linha no mínimo mediana (escutem também o “Tribals” de 2010).

     Locked Down é indiscutivelmente o melhor disco que ouvi em 2012. Rico em arranjos, com uma grande performance de guitarra, com a pimenta natural de um nativo de New Orleans e com uma “classe gangsta” que cabelos e barbas brancas ajudam a imortalizar no tempo e fazem com que enxerguemos que ainda há esperança para a música.

     Quem se aventura na revolução?

Dr. John - Revolution:

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Gigante - Por Bruno Vitorino


No íntimo, eu já sabia... Sempre soube, na verdade, que era apenas uma questão de tempo. Algo inevitável. Demorou pouco mais de um ano, mas finalmente aconteceu: ontem à noite, virei estatística. Voltando para casa depois de mais um dia de trabalho, fui reduzido da minha condição de pessoa a mero número e passei a ser mais um ciclista atingido por um carro na cidade do Recife.

O local do ocorrido foi a rua Hoel Sette – pertinho da Praça da Jaqueira. Eram 18:30. O trânsito, para variar, estava entre o caótico e apocalíptico. O fluxo, parado ou quase isso. Eu vinha calmamente à direita, com a bicicleta devidamente sinalizada, com capacete, seguindo as leis de trânsito e os protocolos da boa convivência nas ruas, quando, a uns quatro carros à minha frente, percebi que tinha um veículo há um bom tempo com a seta ligada tentando entrar na via. Nenhum carro deu a vez e logo eu, idealista que só vendo, fui inventar de ser gentil e dividir o espaço público com um cidadão igual a mim... Deixei ele passar. Foi o meu erro. O carro que vinha na minha cola não quis esperar, acelerou e me atingiu. Só me restou ficar puto!

Por sorte, tudo não passou de um susto. Não me machuquei, tive apenas prejuízo material. Contudo, experimentei a imensa frustração compartilhada por muitos que, como eu, procuram uma maneira alternativa de se locomover em sua cidade e que também foram vítimas da negligência de outrem. Nesse dia, esbarrei na velha questão do típico motorista que se julga senhor de engenho, vê as ruas como seu latifúndio e, por fim, utiliza o carro como insígnia de poder e diferenciação social. Ciclistas são apenas intrusos e estão sujeitos a uma truculência cínica que sorri silenciosamente a cada acidente. Não deveriam sequer existir. “Sai da rua, filho da puta” é a frase carinhosa que provavelmente todo ciclista urbano já deve ter ouvido. O ranço aristocrático dos tempos de colônia segue firme.

Caminhei eternos 15 minutos até minha morada, carregando minha bicicleta como se fosse um companheiro ferido de guerra - alegoria mais do que apropriada já que o trânsito brasileiro matou, só no ano passado, mais de 40.000 pessoas. Meu corpo era uma sombra esmaecida. Minh'alma, um vórtice a sorver a realidade. O Aleph... Enquanto andava, via pessoas correndo na rua, um carro a avançar o sinal vermelho, gente jogando lixo no chão. Pensamentos invasivos me assaltavam... Lembrei-me do momento que vive o país; do aparente despertar político-social; da imagem de pessoas insatisfeitas indo às ruas, cobrando das instituições e dos donos do poder ações contundentes para a solução efetiva dos problemas que há muito atingem o Brasil. A contradição latente da imagem de indivíduos transgredindo regras básicas da vida em sociedade com a ideia de pessoas que reclamavam aos governantes um país melhor se misturava em minha cabeça num turbilhão. Algo não batia. O gigante acordou! Será mesmo?

As manifestações que eclodem em todo o país são lindas (ainda mais por serem apartidárias) e enchem meu coração de orgulho e esperança, mas isso é apenas uma parte importante do processo de transformação, por uma razão simples: não é possível haver nova política e se não houver nova sociedade. Parece-me imprescindível que as pessoas repensem individualmente o seu papel enquanto cidadãos e qual sua importância na construção de uma comunidade de fato voltada para o bem comum. É preciso, antes de tudo, uma revolução particular, interna, íntima. Extirpar o "jeitinho brasileiro", o chorume aristocrático de nossa sociedade e abraçar a plenitude da igualdade democrática que delimita direitos e deveres para todos independentemente de classe social. As transformações perenes e mais efetivas precisam começar nas micro-relações, do reconhecimento do Si e do Outro como equivalentes no processo político que fundamenta a Nação, o Território e o Estado. Da base ao topo. Do lixo no lixo ao dinheiro para a educação. Do povo para as instituições e seus representantes. O gigante acordou? Não! Ele ainda está em coma e respira por aparelhos. Mas, ao menos, abriu um dos olhos.

Amanhã (20/06) será dia de ocupar as ruas do Recife. De manifestar pacificamente nossa insatisfação nos rumos que estão sendo dados ao Brasil. Gritar por hospitais públicos “padrão FIFA”, real inclusão social, educação de Primeiro Mundo, transporte coletivo barato e de qualidade, fim da corrupção e tudo mais. Motivos não faltam e eu estarei lá a ajudar a despertar esse gigante que há muito se encontra "deitado eternamente em berço esplêndido". Mas, sinceramente tenho a esperança de que alcancemos a maior das vitórias: o revolucionar-se.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Vivendo o Porto: Chocolateria Equador - Por Dom Angelo



Com este post inaugural, começo uma coluna onde darei algumas dicas de locais que acredito serem legais para se visitar aqui na cidade do Porto (Portugal). Não posso dizer que sou um guia expert, mas conversando com alguns tripeiros (pessoas nascidas no Porto), vejo que para passeios alternativos, estou mais antenado que muitos.
Inspirado na visita que fiz a Bruxelas e Bruges neste final de semana, indicarei uma chocolateria excelente aqui no Porto, que digo por experiência própria, não fica atrás das estabelecidas na Bélgica.
A Chocolateria Equador fica na rua Sá da Bandeira, 637. Pertinho do centro histórico, a idéia é aproveitar o passeio na baixa (downtown) e visitar essa lojinha. De preferência, como é óbvio, depois do almoço.
 
O que considero chocolate de verdade (que fica na margem de 70% de cacau ou mais) é muito bom e o estabelecimento ainda disponibiliza ótimos kits para se presentear. As trufas também são excelentes e o design das embalagens são belíssimos, inspirados em ilustrações do início do século.
Buscando um diferencial, ao contrário dessas lojas mais convencionais do Brasil (tipo Cacau Show, Kopenhagem, etc.) a trilha sonora da Chocolateria Equador é só Jazz! Principalmente coisas mais trad da Ella, do Armstrong, do Goodman, do Duke e coisas cool do Miles, do Chet e do Brubeck. Nada melhor do que comer um doce fabuloso, curtindo um som de primeira.
Abraços!
 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Dave Holland & Pepe Habichuela - por Dom Angelo



Posso dizer que algumas semanas atrás tive um dos grandes prazeres musicais de minha vida até hoje. Assistir o concerto do baixista Dave Holland em parceria com o violonista Pepe Habichuela.
Em termos de estrutura, tudo impecável. A organização da Casa da Música, a educação do público, o controle técnico do som (nem um triz de microfonia), a qualidade do som em termos de equalização, por fim a qualidade dos instrumentos e dos instrumentistas.

Holland, um imponente e lúcido lorde inglês com mais de cinquenta anos de carreira é considerado um dos principais jazzístas em atividade, tendo em seu currículo trabalhos com Miles Davis (na lendária época do Bitches Brew), Thelonious Monk, Chick Corea, Kenny Wheeler, Stan Getz, Bill Frisell, dentre outros grandes. Mestre do som e do ritmo, de timbre suave e improvisações inspiradas, teve sua carreira marcada por uma longa relação com a gravadora ECM onde participou de álbuns lendários.
Habichuela pertence a uma das grandes dinastias da música flamenca. É da geração de Paco de Lucía e de Camarón de La Isla, porém manteve-se sempre atualizado, acompanhando os novos rumos tomados por esta linguagem musical. Em trabalhos anteriores com o trompetista Don Cherry, já tinha buscado a fusão do jazz com a música flamenca. Mais recente, alguns anos atrás, experimentou a fusão com a música clássica indiana nos seus trabalhos com o músico Nitin Sawhney.

Acompanhados de Josemi Carmona no segundo violão e dos percussionistas Juan Carmona e Bandolero, o concerto de Holland & Habichuela foi uma verdadeira aula de maturidade musical. Bom gosto de fraseados, instrospecção e ao mesmo tempo comunicação musical entre os integrantes, controle técnico e acima de tudo, bom gosto artístico.
Viu-se o Holland descobridor e pesquisador, pois a música era exclusivamente flamenca. Apesar de ficar claro em suas improvisações que é de base jazzística o seu idiomatismo musical. Viu-se o Pepe como a personificação do espírito flamenco. Ao mesmo tempo que era extremamente técnico e veloz, era doce e sentimental, fazendo-nos lembrar dos verdadeiros propósitos da arte de fazer música. Viu-se o Josemi Carmona com um toque singular de violão, enquadrado na escola do Nuevo Flamenco e os percussionistas Juan e Bandolero delicadamente confirmando o dito popular que na música: menos é mais.

Como o Holland dispensa apresentações, segue abaixo um vídeo do Pepe Habichuela pra quem quiser conhecer melhor o mestre:
http://www.youtube.com/watch?v=fl9YTIvZa1s

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Sabbath Bloody Sabbath - Por Fernando Lucchesi


Fundadores, pais, artífices, pioneiros, inventores. Esses são só alguns dos adjetivos quando se menciona o nome Black Sabbath junto ao termo “Heavy Metal”. Apesar da “paternidade” desse gênero musical ser altamente discutida, parece haver um relativo consenso entre público e crítica de que o Sabbath é a primeira banda a se destacar dentro das características que compõem o gênero.  

Lançada com mais de seis anos de atraso no Brasil, a biografia “Sabbath Bloody Sabbath” revela-se uma ótima leitura para quem deseja conhecer um pouco mais dessa banda crucial na história do rock. O autor, Joel McIver, conhecido por seus livros e matérias sobre rock para as principais publicações britânicas, traz um panorama bem abrangente da banda. Seguindo uma ordem cronológica, ele nos traz informações desde a infância de John Michael Osbourne, posteriormente conhecido como Ozzy e dos demais componentes da banda na industrial e monótona Birmingham do pós-guerra. Cidade bastante castigada pelos bombardeios da força aérea alemã durante a segunda guerra mundial, Birmingham pouco podia oferecer à juventude durante a década de 1950 e começo dos 1960. Isso restringiu as opções de emprego para os jovens e uma das poucas alternativas era trabalhar nas indústrias de metalurgia existentes na cidade. Além disso, a cidade ficava longe do foco de mudanças culturais que começou a se processar na década de 1960, em Londres. Desse cenário pouco promissor, surge o Earth, o embrião da banda que futuramente seria conhecida como Black Sabbath.

McIver relata com riqueza e precisão de detalhes, através de depoimentos dos membros da banda e daqueles que os acompanhavam, como se deu a produção dos primeiros discos do Sabbath e primeiras turnês que, em razão do orçamento limitado, restringiam-se à Europa. Apesar de não ter contado com depoimentos de Ozzy para a composição do livro, a autor se vale de muitos depoimentos do mesmo em diversas outras publicações e são esses depoimentos os mais divertidos do livro. Os problemas de alcoolismo enfrentados pelos membros da banda (de acordo com o livro, o único que não teve maiores problemas com o álcool foi Tony Iommi) são esmiuçados pelo autor, inclusive o caso de Bill Ward (baterista da banda) que chegou a passar mais de um ano trancado em um hotel apenas bebendo. As loucuras de Ozzy estimuladas por álcool e drogas também ganham destaque no livro, mas longe de buscar o sensacionalismo. Essas passagens são colocadas em perspectiva para que o leitor entenda o quanto a formação original da banda foi prejudicada por esses problemas, o que no fim das contas levou à ruptura da banda em 1978.   

Não se pode dizer que o autor tenha privilegiado a época mais douradora e produtiva do Sabbath(1970) em detrimento de outras épocas e formações. A Era Dio também tem o seu destaque, mas proporcional à quantidade de discos em que ele teve participação. Outro destaque do livro é como o Ozzyfest tornou-se um destaque para a cena musical americana. O autor revela os bastidores das negociações para as bandas tocarem, a influência da mulher/empresária de Ozzy e como a marca cresceu ao longo dos anos. Também não escapa ao olhar do autor o fenômeno cultural pop “The Osbournes” e como a “persona” Ozzy Osbourne passou de uma figura conhecida no meio musical para um fenômeno de escala multimídia.

Mas nem tudo na biografia é positivo. O autor faz comentários/críticas a respeito de todas (sim, de TODAS) as músicas da banda. Para o leitor que está buscando informações sobre a história da banda (como era meu caso) a leitura fica maçante com esses comentários e quebra demais a narrativa fluída que se espera de uma biografia. Outro ponto negativo (embora seja negativo dependendo do quão fã da banda você é) é o destaque dado pelo autor a as 900.000 formações do Sabbath quando o único componente da banda era Iommi. Além de ser uma época pouco relevante musicalmente, Iommi trocava de músicos praticamente todo mês e produziu bombas musicais como o intragável “Seventh Star” (disco que só leva o nome do Sabbath por imposição da gravadora, uma vez que na verdade é um trabalho solo de Iommi).

Esses pequenos percalços, no entanto, não diminuem a importância do livro que é leitura obrigatória para quem quer conhecer ou já conhece e quer se aprofundar na obra dessa banda seminal.

terça-feira, 14 de maio de 2013

A Caça - por Fernando Lucchesi





Atenção: O texto a seguir contém “Spoilers” (informações prévias sobre o enredo).


Imagine o seguinte enredo: um homem comum que trabalha em uma creche, adorado pelos pequenos alunos, é acusado por uma das crianças de abuso sexual. A diretora da escola alerta ao funcionário que fica chocado com a acusação, mas não é informado o que foi dito e por quem foi dito (a preservação da identidade é compreensível, uma vez que se trata de uma criança, mas o desconhecimento do que ele fez não se justifica).  Após a notícia ser disseminada em uma pequena cidade dinamarquesa, toda a população se volta contra este homem, sem que ao menos ele saiba do que está sendo acusado especificamente. Esse pesadelo kafkaniano é o tema do novo filme de Thomas Vinterberg, um dos fundadores do movimento Dogma 95, ao lado do seu compatriota mais conhecido, Lars Von Trier.

Vinterberg decidiu mexer em um vespeiro: abordar o tema do abuso sexual infantil. O que difere esse filme de outros que abordam a mesma temática é que a premissa do filme parte da seguinte questão: E quando a acusação é fruto de algo inventado pela criança? Que tipo de defesa o acusado pode ter? Na verdade, há defesa para um acusado desse tipo de crime ou a simples acusação já é uma sentença, dado o repúdio social que esse tipo de crime desperta?

Lucas (Mads Mikkelsen) é esse homem comum que se vê diante desse pesadelo. Vinterberg opta por descrever as consequências que surgem da acusação. A pequena cidade passa a tratá-lo como culpado, embora nem sequer ele tenha ido a julgamento. Seus amigos começam a se afastar dele, inclusive seu melhor amigo, que é o pai da criança supostamente assediada. O gerente de supermercado impede a família dele de fazer compras. Sua namorada não confia nele, dentre outras. Apoiados na acusação, os pais de outras crianças começam a questionar se Lucas teria feito algo inapropriado com eles. Subitamente, todos começam a se lembrar do “porão” da casa de Lucas, mas após as investigações realizadas pela polícia, descobre-se que não há porão na casa dele. No entanto, isso não é suficiente para que a perseguição a Lucas tenha fim. Nesse aspecto, a narrativa de Vinterberg é exitosa: Mesmo sem acreditar na culpa de Lucas, o espectador, talvez por uma razão emocional (assim como os personagens do filme), é levado constantemente a duvidar da sua inocência, pois até a parte em que se constata a inexistência do porão ele não fornece argumentos ou provas irrefutáveis da inocência ou culpa do acusado.

A grande questão proposta por Vinterberg é que esse tipo de crime, dada sua natureza, lança uma pecha de culpado na pessoa acusada, antes mesmo de maiores investigações sobre o crime. Uma frase dita no filme representa bem essa ideia: “Crianças não mentem!”, dizem vários dos personagens. O que torna a acusação mais intrigante (como aspecto narrativo do filme) é que vários dos adultos envolvidos, aí incluídos os pais da criança supostamente vitimizada, sabem que ela é conhecida por ter uma mente bastante fantasiosa. O afã de condenar o acusado passa por cima de todas as regras de investigação, tornando a perseguição e o desprezo pelo acusado uma espécie de “inquisição moderna”.

Casos como os descritos no filme são vários, inclusive dentro da realidade brasileira, temos um célebre: O caso da Escola Base em SP (não vou me aprofundar relembrando o que foi. Para quem não se lembra: 


Não é intenção de Vinterberg colocar as crianças como vilãs/acusadoras de um crime tão repulsivo. O que ele expõe é uma situação em que a investigação policial é primordial em casos como esse e que a sociedade, seja em qual lugar for, ouça primeiro antes de iniciar uma caça às bruxas contemporânea.

domingo, 28 de abril de 2013

Variações em 5/4: Get Up!


Na edição de abril da coluna “Variações em 5/4”, os nossos editores comentam “Get Up”, o mais novo disco de Ben Harper.


- Fernando Lucchesi:

Desde a grata surpresa que foi “The Will to live” de 1997 que não acompanhava a carreira de Ben Harper. A não ser por sucessos radiofônicos pontuais, realmente não sabia o que estava sendo produzido por ele.

Quando surgiu a sugestão de comentar esse recente disco “Get up!” feito em parceria com o bluesman Charles Musselwhite não sabia o que esperar. Sequer sabia quem era Charles Musselwhite. Eis que na audição da primeira música do disco (Don´t look twice) imaginei algo como uma homenagem conservadora/convencional ao gênero blues, ou seja, nada de novo. Só fui perceber que estava diante de um GRANDE disco (não apenas de blues, mas de música negra americana em geral) ao ouvi-lo em sua totalidade. Harper e Musselwhite propõem uma viagem através do século XX mostrando o quanto o blues se modificou e deu origem a novas formas de apreciá-lo sem perder sua essência.

Estão presentes no disco vertentes variadas do blues, como o do Mississippi (Don´t look twice, All that matters now) e o de Chicago (I´m in, I´m out and I´m gone). Mas, essas faixas, apesar da excelência, são homenagens reverentes ao estilo. O que torna o disco curioso, pra dizer o mínimo, é a amálgama de estilos criados a partir do blues. Temos o blues influenciando o gospel (We can´t end this way), o blues hendrixano (I don´t belive a word you say - a referência a Hendrix é tão explícita nessa faixa, que o vocal tenta imitá-lo sem pudores, o blues como pedra fundamental do rock n´roll (She got kick, com o riff calcado em Dizzy Miss Lizzy na versão do Beatles) e ainda o recentíssimo stoner rock (Blood side out, pra confirmar isso basta ouvir algumas músicas do Queens of the Stone Age do Songs for the Deaf).

As faixas de abertura e de encerramento não podiam ser mais apropriadas. Ambas exaltam o 
blues em sua origem nos informando que o blues é cíclico e inescapável em qualquer gênero musical oriundo da cultura negra americana. Certamente um dos grandes discos do ano!

- Giba Carvalho:      

Confesso estar longe de ser um conhecedor dos trabalhos de Ben Harper. Longe disso! No entanto, ao ouvir Get Up!, algo chamou minha atenção. O disco é uma viagem sonora por tudo de melhor que o blues pode vir a proporcionar. Lembrando passagens pelo Delta-Blues até sonoridades parecidas com as que Hendrix tirava em seus blues. Algo de muita relevância são os momentos violão – gaita. Memórias de John Lee Hooker são trazidas à tona na minha mente, com seu violão e a marcação de passos feita pelo pé direito. E nada deste trabalho teria o brilho que tem, sem a participação de Charles Musselwhite. A gaita do mestre sempre pontual nos arranjos nos remete a algo de semelhante ao que Little Walter fazia em suas composições.


O trabalho é totalmente diferente do “folk-rock-surfista” que consagrou Harper no meio musical. É um disco totalmente atemporal e isto é simplesmente maravilhoso nos dias atuais. É uma viagem histórica a toda base do rock n´roll. De fato, uma das melhores surpresas do ano até o momento.

- Dom Angelo:

Entre os artistas do mainstream da música norte-americana, talvez Ben Harper seja um dos poucos que ainda bebem na fonte da cultura afro-descendente. Constando 14 álbuns em sua discografia oficial¹, o músico sempre manteve boa qualidade em seus trabalhos que flertam com os estilos folk, blues, reggae, rock e pop.
 
Este novo trabalho em parceria com o bluesman Charlie Musselwhite (que fez fama a partir dos finais da década de 1960) acrescenta pontos positivos em sua carreira. Fortes traços do blues de raíz (originados pela influência das work song, shoutings, spirituals e da música gospel) tornam-se presentes em quase todas as 10 faixas deste álbum. Excelentes timbres de guitarra (elétricas e acústicas) juntamente com fraseados poderosos na harmónica do Musselwhite agregam neste disco a força e o requinte necessário para angariar prêmios ao longo do ano.

Recomendo a audição do mesmo em viagens de trem.

- Bruno Vitorino:

Ben Harper é um paradoxo. Ele é um artista que se consagrou no mainstream da música pop, assumindo, contudo, uma postura, digamos, anti-pop. Desde The Three of Us, primeira faixa de seu primeiro disco, o interessantíssimo Welcome to the Cruel Word, o californiano evidencia seu conhecimento vasto da música de raiz negra estadunidense e sua ligação profunda com essa matriz, fugindo da conveniência mercadológica da “tendência” e não abrindo mão de um milímetro sequer de suas convicções artísticas. Gosto dessa postura, porque a integridade é algo em extinção no establishment cultural de nossos dias.

Utilizando a superestrutura da indústria cultural em seu favor, Ben Harper aproveita a fama angariada para lançar as luzes dos holofotes da mídia em nomes que jazem obscuras ao grande público. Ele fez isso no belíssimo There Will be a Light, o registro de seu encontro com The Blind Boys of Alabama focado no gospel e no spiritual e o faz novamente ao retirar das sombras a lenda branca da harmônica Charlie Musselwhite no recém-lançado Get Up!.

O blues com suas variações regionais é o núcleo de todo esse trabalho produzido pelo próprio Ben Harper num projeto que apresenta um abrangente panorama musicológico-emotivo de um dos pilares formatadores da música popular dos Estados Unidos. Do início ao fim, o álbum prima pelo esmero instrumental nas bases, nos solos - notadamente de steel guitar e gaita – e na interpretação vocal das letras que vão da súplica gospel de We can’t and This Way à rebeldia fora da lei de Get Up!.

Diria que é um disco à moda antiga não só pela abordagem musical em si, mas por se apresentar ao ouvinte como um todo coeso e interligado que requer um olhar atento à beleza das formas e à sutileza dos pormenores. Um disco para ouvir e reouvir. Altamente recomendado!

- André Maranhão:

A parceria entre Ben Harper e Charlie Musselwhite veio na medida certa para quem admira o cruzamento do Blues acústico com o elétrico. A junção do violão com a gaita – considerada uma das formas mais antigas entre os bluesmen da América do Norte – foi habilmente explorada no álbum Get Up!, a ponto da primeira faixa (Don’t Look Twice) empolgar logo de cara com este recurso. Daí em diante, o disco se mostra como um fértil revezamento entre as distorções dos drives, dobros e slides com madeiras e metais. Na sequência, I'm In I'm Out And I'm Gone, reporta àquelas trilhas sonoras de bares hollywoodianos, enquanto We Can't End This Way casa a espinha dorsal do Blues com os backing vocals dos cânticos gospel. O disco todo é um trabalho relevante para o Blues, mas além das canções supracitadas, recomendo especialmente You Found Another Lover e a homônima Get Up!
 

¹ Segundo site oficial do artista em http://www.benharper.com/music/albums