segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Vivendo o Porto: Café Candelabro - Por Dom Angelo


Dando sequência as dicas de lugares para se visitar na cidade do Porto, venho desta vez falar de algo que interessa a grande maioria das pessoas: bares.
A cidade do Porto hoje tem uma das noites mais bacanas da europa, onde podemos encontrar na área que abrange o centro histórico (mais conhecido como “baixa”) centenas de bares, pubs e restaurantes com diversas temáticas gastronômicas e culturais, tudo isso num perímetro que se faz todo a pé.
Considerada Patrimônio Cultural da Humanidade em 1996, todo o centro da cidade é marcado por edifícios de diferentes estilos arquitetônicos, abrangendo construções do estilo gótico, romântico, medieval, barroco, neoclássico, dentre outros. Esse ar “cool” da cidade atrai turistas do mundo todo, favorecendo o ambiente artístico e reflectivo.
Pra quem gosta de desfrutar a noite, uma das coisas legais é sair alternando de bar em bar e curtindo os diferentes climas que estes estabelecimentos oferecem. Pessoalmente, algumas vezes gosto de começar a noitada relativamente cedo, por volta das 20h e um dos meus locais preferidos nesse aspecto é o Café Candelabro.
Ambiente descontraido, de meia-luz, com decoração de livros, revistas, cartazes antigos, máquinas fotográficas e outras coisinhas. Tem excelente cerveja de pressão e preços convidativos. Na parte da tarde a música ambiente vai de Roberto Carlos (anos 60) à Belle and Sebastian, de Tom Waits à Bjork, e à noite a coisa fica um pouco mais enérgica com a presença de DJs, onde o set vai dos Pixies, Radiohead, Pulp a cenas mais alternativas da nova música eletrônica européia.
Em época de temperaturas mais amenas, é legal sentar na esplanada e observar o movimento da cidade. Em dias mais frios, sentar dentro numa mesinha para ler um jornal ou conversar com amigos, degustando uma tábua de queijos nacionais e um bom tinto maduro.
Ah claro...isto quando a noite está só começando. Depois é “outros quinhentos”...
Abraço a todos e até a próxima!
 



segunda-feira, 1 de julho de 2013

Renato Russo Sinfônico: Um Espetáculo Para Ser Esquecido - Por Giba Carvalho


Tenho certeza de que a noite do dia 29/06/2013 deve ser esquecida. Tive a coragem de assistir à homenagem que resolveram prestar ao maior poeta do rock brasileiro. O concerto intitulado – “Renato Russo Sinfônico” foi um fiasco. Com certeza, Renato Russo revirou centenas de vezes no caixão para tentar tapar os ouvidos. Seguem comentários, música a música do que foi feito pelos “grandes nomes da música nacional”:
  • Banda de apoio  - “Fábrica” – Horrível! Certamente a banda do Faustão faz melhor;
  • Sandra de Sá – “Mais do Mesmo” –– Se alguém abriu a boca para dizer algum dia que Sandra de Sá cantava muito, irá se arrepender profundamente! Errando a letra, gritando o tempo todo e desafinado ao extremo;
  • André Gonzales – “Ainda é cedo” - Abaixo do tom. Terrível! Tentativa de cópia fajuta! Fez no palco o mesmo que faz na medíocre Móveis Coloniais de Acaju;
  • Zélia Duncan – “Eu sei” – Não inventou. Cantou com sua voz naturalmente grave. Ainda assim, com pequenos erro de execução que incomodariam qualquer pessoa que conhece a música em questão;
  • Jorge Du Peixe – “Soldados” – a execução do arranjo foi a melhor da noite. Já a execução vocal da música, eu resumo do seguinte modo: “Jorge Du Peixe, você só serve pra Nação Zumbi”;
  • Luiza Possi e Zizi Possi – “Pais e filhos” – já começou piegas. A escolha de chamar a mamãe Zizi e a filhota Luiza é mais óbvio do que água ferver no fogo. Pra variar, mais uma vez, a versão começou trágica com a “filhota” tentando chegar ao tom que Renato cantava. Depois disso, aconteceu uma das maiores tragédias já ouvidas na música nacional. Zizi Possi, você conseguiu superar aquele comercial insuportável de um disco seu em italiano! (Per amoreeeeeeeeeeeeee).  Parecia que estava cantando a música pela primeira vez.  É verdade que durante a execução, a “filhota” foi melhorando a interpretação (talvez por ver os apuros que “mamãe” estava passando), mas longe de ser algo no mínimo audível. A primeira vez que fiquei decepcionado mesmo, afinal, a letra de Pais e Filhos, tem aquela que considero a frase mais bonita do rock n´ roll nacional até hoje: “É preciso amar, as pessoas como se não houvesse amanhã.”;
  • Ann Marie Calhoun – “Por Enquanto / Quando o sol bater na janela do teu quarto” – execução normal e até o momento a interpretação mais refinada do show. O público cantou como nenhum outro. Achei estranho chamarem uma violinista americana para tocar a obra de Renato Russo. Tenho certeza de que ela jamais ouviu algo dele antes deste convite;
  • Ivete Sangalo – “Monte Castelo” – ao perceber que Ivete Sangalo seria a próxima a cantar no show, pensei: “E agora?” Claro que é complicado falar de uma artista que você simplesmente detesta tudo que ela faz. No entanto, procuro sempre ter o mínimo de bom senso com as coisas. “Ivete Sangalo sabe tudo de canto.” Quem nunca me ouviu dizer isto, atire a primeira pedra! Ela não fez nada de excepcional, não é a praia dela. Mas cantou. E cantou bem. Apenas um pequeno erro de tempo e uma coisa que acho terrível e que vários artistas fazem (principalmente nestas homenagens). Fingir que está cantando de “olhinhos fechados...sentindo aqueeeeeeeela emoção” e na verdade estar  olhando pra telinha pra saber a letra da música;
  • Lobão – “Perfeição” – sem sombra de dúvidas, a música mais atual pra realidade brasileira desde que foi composta. Um arranjo simplesmente tenebroso da Orquestra de Brasília. Uma interpretação de Lobão não pode ser algo de espetacular, mas no mínimo atina a curiosidade. O “reaça” (valeu Gustavo Paes), com seu jeitão peculiar escolheu a música certa e cantou como quis. No final, ainda tentou tirar uma “onda” de Renato Russo. Mas aí já é demais;
  • Ellen Oléria – “O Teatro dos Vampiros” - recordo que estava num barzinho chamado Espetinho Parnamirim quando na TV passava a final no famigerado programa - “The Voice Brasil”. Lembro que apenas uma única cantora chamou a minha atenção. Era uma menina da Bahia que cantava a brasilidade. No mais, todos os outros candidatos, sempre levavam consigo a influência insuportável do pior da música americana. Aquele jeitinho meio “Whitney Houston Forever”, cheio de vibratos desnecessários e tudo mais. A interpretação desta moça pra um dos maiores clássicos da Legião Urbana foi sofrível! Ah...ela que ganhou o programa?
  • Fernanda Takai – “Giz” – é verdade meus caros! Não há nada que abomine mais do que esta moça cantando. E vestida de Fred Flinstone ainda por cima... Na verdade, quem disse um dia que ela cantava alguma coisa? São estas perguntas que costumeiramente faço quando escuto suas “interpretações”.  Escolheram logo a música que Renato Russo mais gostava e deram para que um crime hediondo fosse cometido. Aqui pra nós, uma moça que precisa ser acompanhada em 90% da música pelo cantor de apoio da banda pra mim já diz tudo. “Te aposenta e vai cuidar dos teus filhos ou cantar em japonês minha filha!” 
  • Hamilton de Holanda – “Índios” – assim como os músicos da Legião tiveram o mérito de compor a canção original, o espetacular bandolinista Hamilton de Holanda teve o cuidado necessário para não desvirtuar a original e fazer o momento mais especial do show. Excelente interpretação;
  • Jerry Adriani – “Tempo Perdido” – foi o músico educado da noite. Solicitou palmas para os músicos de acompanhamento e para a “maravilhosa” Orquestra que acompanhava o “espetáculo”. No mais, foi o mesmo cantor “meia-boca” que sempre foi, desde a época da Jovem Guarda. Aquela mistura de rocker com tenor. Só pode dar numa merda de imensas proporções;
  • Alexandre Carlo – “Faroeste Caboclo” – para quem não sabe, o escolhido para cantar o maior clássico da Legião Urbana foi o vocalista da “pop-reggae” – Natiruts. Não houve mistério ou algo de especial no arranjo. Nada de muita dificuldade para a execução do rapaz, muito embora, algumas vezes parece que faltou fôlego para cantar a música. E ainda na primeira parte da canção. Meus amigos, quando entrou a parte “rock n´roll” da música o rapaz se borrou! Tenho certeza! “Fralda geriátrica nele, galera!” Como diria um amigo – “mais fraco do que choque de lanterna!”;
  • Renato Russo (em imagem) – “Há tempos” – “Disciplina é liberdade. Compaixão é fortaleza. Ter bondade é ter coragem.”
  • Medley – “Será” (com participação de Renato Rocha, ex-baixista da Legião Urbana que estava vivendo nas ruas). Um show de horrores. Sem mais!

É complicado e ao mesmo tempo fácil opinar quando se é fã. Cresci ouvindo as músicas de Renato Russo e tenho certeza de que ele merecia muito mais. No entanto, alguns fatos devem ser citados. Vivemos num país totalmente “idiotizado” em vários sentidos. No ramo musical, nem se fala. A pobreza cultural do que é vendido e divulgado é simplesmente a cara do povo. Não é à toa, que um “espetáculo” fraquíssimo como o assistido ontem, tenha lotação esgotada. Isto é carência! Daquilo que foi feito e que passou alguma coisa de importante para uma geração. Infelizmente os nomes que estiveram em cima do palco (sem generalizar) não condizem com a grandiosidade do artista. Mas, para a mídia, é o que é “vendável”. Já, já; outro CD - DVD – Blue-Ray deste show estará nas lojas. E assim segue a vida musical do Brasil. Um misto de saudade, putaria e péssimo gosto!

Observação - costumo citar que 90% dos críticos musicais do país são meros leitores de releases. Um dos maiores crimes contra a música nacional foi o idiota que afirmou: "Fernanda Takai é a nova Nara Leão". 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O retorno do Xamã - por Giba Carvalho



     Segundo os siberianos, o significado da palavra Xamã (ou Shaman) é – “aquele que enxerga no escuro.”

     Malcom John Robbenack tem 71 anos, e destes, mais de 50 dedicados a música. Notadamente, ao jazz e ao blues. No entanto, depois de tanto tempo na ativa, é normal uma certa acomodação. Aquela velha história de ficar na zona de conforto. Foi aí que entrou a pessoa de Dan Auerbach, guitarrista e vocalista da aclamada banda The Black Keys. Fã confesso do trabalho do “Doc”, o músico teve certo trabalho até convencê-lo a topar um trabalho novo em parceria. O mais interessante nesta história, é que foi necessário uma das netas de Malcolm falar bem do trabalho do The Black Keys e ainda colocar um CD dos mesmos para que fossem aceitos.

     O grande mérito do "black key" para esta excelente produção foi o modo utilizado para que a mente do Xamã fosse aberta novamente. Numa destas "sessions", o mestre ouviu um disco de um craque africano chamado Mulatu Astatke, saxofonista etíope que levou um balanço diferenciado para dentro do jazz. Sem falar de todo misticismo envolvido no experimentalismo musical que se propunha. Temos que ressaltar também, a liberdade artística e a verba necessária para que o projeto saísse. 

Mulatu Astatke - The Way to Nice:


     A bolacha foi totalmente produzida no Estúdio - Easy Eye Sound, em Nashville, mas teve seu início na mítica New Orleans, cidade que jamais foi abandonada pelo Xamã. Durante mais de dez dias, todos os membros em estúdio se entupiram de comida etíope e ouviram toda a obra do saxofonista africano. Obviamente que a idéia não era fazer uma cópia do que já foi feito, mas sim, utilizar um caminho diferenciado para as criações musicais que viriam a surgir. De imediato, as bases começaram a ser compostas e não demoraram muito a sair. No DNA de Dr. John já corre um mar de traços africanos e isto facilitou bastante o processo. Outro ponto a ser ressaltado, foi a troca do tradicional piano que sempre o acompanhou por um órgão Farfisa (especialmente utilizado para criações "funky-psicodélicas").

     As letras tornaram-se um capítulo a parte neste disco. Como é de conhecimento da maioria, mesmo sendo umas das figuras mais importantes da música estado-unidense dos últimos 40 anos, o "Doc" não é um "frontman". O Xamã gravou com inúmeros mestres de New Orleans tais como: Professor Longhair, The Meters e Alain Touissant, além de outros nomes como - The Rolling Stones, The Band, Eric Clapton, passando até por Cristina Aguillera. Memórias intermináveis e amargas foram trazidas à tona novamente. Tal como uma tentativa de exorcizar os próprios demônios que tantas vezes nós mesmos criamos. Lendo uma entrevista do mestre atentei para uma frase que explica claramente isto:

     "Vivi muito tempo na estrada, cometi muitos erros, me envolvi com pessoas e entidades estranhas e, acima de tudo, deixei minha família de lado várias vezes — reconhece ele, que escreveu para 'Locked down' músicas como 'My children my angels' (...Tell me about your desires right now. Don´t trip on this wire, I´ll show you how. My baby wish I never, made you loose. My children, my angels, talking to you.) e dedicou o disco a sua família. — Arrependimento é uma palavra forte porque ela nem sempre conserta algo. Vivi o que tinha que viver. Mas hoje tento recompensar isso dando todo o amor aos meus netos e a quem de fato me ama."

Dr. John - My Children My Angels:


     Voltando a falar do disco, é inevitável perceber sua ligação total a cidade do “Doc”. New Orleans sobra no disco. Aos ambientes burlescos do Mardi Gras, aos famosos 'medicine shows' teatrais que mais pareciam um circo disfarçado de concerto rock e à aos mistérios do 'Voodoo', ou Hoodoo como é apelidado nos estados do Luisiana.” Talvez por isto, a crítica americana considere “Locked Down” o retorno à forma. Muito embora os trabalhos de Dr. John nunca tenham sido considerados abaixo de uma linha no mínimo mediana (escutem também o “Tribals” de 2010).

     Locked Down é indiscutivelmente o melhor disco que ouvi em 2012. Rico em arranjos, com uma grande performance de guitarra, com a pimenta natural de um nativo de New Orleans e com uma “classe gangsta” que cabelos e barbas brancas ajudam a imortalizar no tempo e fazem com que enxerguemos que ainda há esperança para a música.

     Quem se aventura na revolução?

Dr. John - Revolution:

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Gigante - Por Bruno Vitorino


No íntimo, eu já sabia... Sempre soube, na verdade, que era apenas uma questão de tempo. Algo inevitável. Demorou pouco mais de um ano, mas finalmente aconteceu: ontem à noite, virei estatística. Voltando para casa depois de mais um dia de trabalho, fui reduzido da minha condição de pessoa a mero número e passei a ser mais um ciclista atingido por um carro na cidade do Recife.

O local do ocorrido foi a rua Hoel Sette – pertinho da Praça da Jaqueira. Eram 18:30. O trânsito, para variar, estava entre o caótico e apocalíptico. O fluxo, parado ou quase isso. Eu vinha calmamente à direita, com a bicicleta devidamente sinalizada, com capacete, seguindo as leis de trânsito e os protocolos da boa convivência nas ruas, quando, a uns quatro carros à minha frente, percebi que tinha um veículo há um bom tempo com a seta ligada tentando entrar na via. Nenhum carro deu a vez e logo eu, idealista que só vendo, fui inventar de ser gentil e dividir o espaço público com um cidadão igual a mim... Deixei ele passar. Foi o meu erro. O carro que vinha na minha cola não quis esperar, acelerou e me atingiu. Só me restou ficar puto!

Por sorte, tudo não passou de um susto. Não me machuquei, tive apenas prejuízo material. Contudo, experimentei a imensa frustração compartilhada por muitos que, como eu, procuram uma maneira alternativa de se locomover em sua cidade e que também foram vítimas da negligência de outrem. Nesse dia, esbarrei na velha questão do típico motorista que se julga senhor de engenho, vê as ruas como seu latifúndio e, por fim, utiliza o carro como insígnia de poder e diferenciação social. Ciclistas são apenas intrusos e estão sujeitos a uma truculência cínica que sorri silenciosamente a cada acidente. Não deveriam sequer existir. “Sai da rua, filho da puta” é a frase carinhosa que provavelmente todo ciclista urbano já deve ter ouvido. O ranço aristocrático dos tempos de colônia segue firme.

Caminhei eternos 15 minutos até minha morada, carregando minha bicicleta como se fosse um companheiro ferido de guerra - alegoria mais do que apropriada já que o trânsito brasileiro matou, só no ano passado, mais de 40.000 pessoas. Meu corpo era uma sombra esmaecida. Minh'alma, um vórtice a sorver a realidade. O Aleph... Enquanto andava, via pessoas correndo na rua, um carro a avançar o sinal vermelho, gente jogando lixo no chão. Pensamentos invasivos me assaltavam... Lembrei-me do momento que vive o país; do aparente despertar político-social; da imagem de pessoas insatisfeitas indo às ruas, cobrando das instituições e dos donos do poder ações contundentes para a solução efetiva dos problemas que há muito atingem o Brasil. A contradição latente da imagem de indivíduos transgredindo regras básicas da vida em sociedade com a ideia de pessoas que reclamavam aos governantes um país melhor se misturava em minha cabeça num turbilhão. Algo não batia. O gigante acordou! Será mesmo?

As manifestações que eclodem em todo o país são lindas (ainda mais por serem apartidárias) e enchem meu coração de orgulho e esperança, mas isso é apenas uma parte importante do processo de transformação, por uma razão simples: não é possível haver nova política e se não houver nova sociedade. Parece-me imprescindível que as pessoas repensem individualmente o seu papel enquanto cidadãos e qual sua importância na construção de uma comunidade de fato voltada para o bem comum. É preciso, antes de tudo, uma revolução particular, interna, íntima. Extirpar o "jeitinho brasileiro", o chorume aristocrático de nossa sociedade e abraçar a plenitude da igualdade democrática que delimita direitos e deveres para todos independentemente de classe social. As transformações perenes e mais efetivas precisam começar nas micro-relações, do reconhecimento do Si e do Outro como equivalentes no processo político que fundamenta a Nação, o Território e o Estado. Da base ao topo. Do lixo no lixo ao dinheiro para a educação. Do povo para as instituições e seus representantes. O gigante acordou? Não! Ele ainda está em coma e respira por aparelhos. Mas, ao menos, abriu um dos olhos.

Amanhã (20/06) será dia de ocupar as ruas do Recife. De manifestar pacificamente nossa insatisfação nos rumos que estão sendo dados ao Brasil. Gritar por hospitais públicos “padrão FIFA”, real inclusão social, educação de Primeiro Mundo, transporte coletivo barato e de qualidade, fim da corrupção e tudo mais. Motivos não faltam e eu estarei lá a ajudar a despertar esse gigante que há muito se encontra "deitado eternamente em berço esplêndido". Mas, sinceramente tenho a esperança de que alcancemos a maior das vitórias: o revolucionar-se.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Vivendo o Porto: Chocolateria Equador - Por Dom Angelo



Com este post inaugural, começo uma coluna onde darei algumas dicas de locais que acredito serem legais para se visitar aqui na cidade do Porto (Portugal). Não posso dizer que sou um guia expert, mas conversando com alguns tripeiros (pessoas nascidas no Porto), vejo que para passeios alternativos, estou mais antenado que muitos.
Inspirado na visita que fiz a Bruxelas e Bruges neste final de semana, indicarei uma chocolateria excelente aqui no Porto, que digo por experiência própria, não fica atrás das estabelecidas na Bélgica.
A Chocolateria Equador fica na rua Sá da Bandeira, 637. Pertinho do centro histórico, a idéia é aproveitar o passeio na baixa (downtown) e visitar essa lojinha. De preferência, como é óbvio, depois do almoço.
 
O que considero chocolate de verdade (que fica na margem de 70% de cacau ou mais) é muito bom e o estabelecimento ainda disponibiliza ótimos kits para se presentear. As trufas também são excelentes e o design das embalagens são belíssimos, inspirados em ilustrações do início do século.
Buscando um diferencial, ao contrário dessas lojas mais convencionais do Brasil (tipo Cacau Show, Kopenhagem, etc.) a trilha sonora da Chocolateria Equador é só Jazz! Principalmente coisas mais trad da Ella, do Armstrong, do Goodman, do Duke e coisas cool do Miles, do Chet e do Brubeck. Nada melhor do que comer um doce fabuloso, curtindo um som de primeira.
Abraços!
 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Dave Holland & Pepe Habichuela - por Dom Angelo



Posso dizer que algumas semanas atrás tive um dos grandes prazeres musicais de minha vida até hoje. Assistir o concerto do baixista Dave Holland em parceria com o violonista Pepe Habichuela.
Em termos de estrutura, tudo impecável. A organização da Casa da Música, a educação do público, o controle técnico do som (nem um triz de microfonia), a qualidade do som em termos de equalização, por fim a qualidade dos instrumentos e dos instrumentistas.

Holland, um imponente e lúcido lorde inglês com mais de cinquenta anos de carreira é considerado um dos principais jazzístas em atividade, tendo em seu currículo trabalhos com Miles Davis (na lendária época do Bitches Brew), Thelonious Monk, Chick Corea, Kenny Wheeler, Stan Getz, Bill Frisell, dentre outros grandes. Mestre do som e do ritmo, de timbre suave e improvisações inspiradas, teve sua carreira marcada por uma longa relação com a gravadora ECM onde participou de álbuns lendários.
Habichuela pertence a uma das grandes dinastias da música flamenca. É da geração de Paco de Lucía e de Camarón de La Isla, porém manteve-se sempre atualizado, acompanhando os novos rumos tomados por esta linguagem musical. Em trabalhos anteriores com o trompetista Don Cherry, já tinha buscado a fusão do jazz com a música flamenca. Mais recente, alguns anos atrás, experimentou a fusão com a música clássica indiana nos seus trabalhos com o músico Nitin Sawhney.

Acompanhados de Josemi Carmona no segundo violão e dos percussionistas Juan Carmona e Bandolero, o concerto de Holland & Habichuela foi uma verdadeira aula de maturidade musical. Bom gosto de fraseados, instrospecção e ao mesmo tempo comunicação musical entre os integrantes, controle técnico e acima de tudo, bom gosto artístico.
Viu-se o Holland descobridor e pesquisador, pois a música era exclusivamente flamenca. Apesar de ficar claro em suas improvisações que é de base jazzística o seu idiomatismo musical. Viu-se o Pepe como a personificação do espírito flamenco. Ao mesmo tempo que era extremamente técnico e veloz, era doce e sentimental, fazendo-nos lembrar dos verdadeiros propósitos da arte de fazer música. Viu-se o Josemi Carmona com um toque singular de violão, enquadrado na escola do Nuevo Flamenco e os percussionistas Juan e Bandolero delicadamente confirmando o dito popular que na música: menos é mais.

Como o Holland dispensa apresentações, segue abaixo um vídeo do Pepe Habichuela pra quem quiser conhecer melhor o mestre:
http://www.youtube.com/watch?v=fl9YTIvZa1s

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Sabbath Bloody Sabbath - Por Fernando Lucchesi


Fundadores, pais, artífices, pioneiros, inventores. Esses são só alguns dos adjetivos quando se menciona o nome Black Sabbath junto ao termo “Heavy Metal”. Apesar da “paternidade” desse gênero musical ser altamente discutida, parece haver um relativo consenso entre público e crítica de que o Sabbath é a primeira banda a se destacar dentro das características que compõem o gênero.  

Lançada com mais de seis anos de atraso no Brasil, a biografia “Sabbath Bloody Sabbath” revela-se uma ótima leitura para quem deseja conhecer um pouco mais dessa banda crucial na história do rock. O autor, Joel McIver, conhecido por seus livros e matérias sobre rock para as principais publicações britânicas, traz um panorama bem abrangente da banda. Seguindo uma ordem cronológica, ele nos traz informações desde a infância de John Michael Osbourne, posteriormente conhecido como Ozzy e dos demais componentes da banda na industrial e monótona Birmingham do pós-guerra. Cidade bastante castigada pelos bombardeios da força aérea alemã durante a segunda guerra mundial, Birmingham pouco podia oferecer à juventude durante a década de 1950 e começo dos 1960. Isso restringiu as opções de emprego para os jovens e uma das poucas alternativas era trabalhar nas indústrias de metalurgia existentes na cidade. Além disso, a cidade ficava longe do foco de mudanças culturais que começou a se processar na década de 1960, em Londres. Desse cenário pouco promissor, surge o Earth, o embrião da banda que futuramente seria conhecida como Black Sabbath.

McIver relata com riqueza e precisão de detalhes, através de depoimentos dos membros da banda e daqueles que os acompanhavam, como se deu a produção dos primeiros discos do Sabbath e primeiras turnês que, em razão do orçamento limitado, restringiam-se à Europa. Apesar de não ter contado com depoimentos de Ozzy para a composição do livro, a autor se vale de muitos depoimentos do mesmo em diversas outras publicações e são esses depoimentos os mais divertidos do livro. Os problemas de alcoolismo enfrentados pelos membros da banda (de acordo com o livro, o único que não teve maiores problemas com o álcool foi Tony Iommi) são esmiuçados pelo autor, inclusive o caso de Bill Ward (baterista da banda) que chegou a passar mais de um ano trancado em um hotel apenas bebendo. As loucuras de Ozzy estimuladas por álcool e drogas também ganham destaque no livro, mas longe de buscar o sensacionalismo. Essas passagens são colocadas em perspectiva para que o leitor entenda o quanto a formação original da banda foi prejudicada por esses problemas, o que no fim das contas levou à ruptura da banda em 1978.   

Não se pode dizer que o autor tenha privilegiado a época mais douradora e produtiva do Sabbath(1970) em detrimento de outras épocas e formações. A Era Dio também tem o seu destaque, mas proporcional à quantidade de discos em que ele teve participação. Outro destaque do livro é como o Ozzyfest tornou-se um destaque para a cena musical americana. O autor revela os bastidores das negociações para as bandas tocarem, a influência da mulher/empresária de Ozzy e como a marca cresceu ao longo dos anos. Também não escapa ao olhar do autor o fenômeno cultural pop “The Osbournes” e como a “persona” Ozzy Osbourne passou de uma figura conhecida no meio musical para um fenômeno de escala multimídia.

Mas nem tudo na biografia é positivo. O autor faz comentários/críticas a respeito de todas (sim, de TODAS) as músicas da banda. Para o leitor que está buscando informações sobre a história da banda (como era meu caso) a leitura fica maçante com esses comentários e quebra demais a narrativa fluída que se espera de uma biografia. Outro ponto negativo (embora seja negativo dependendo do quão fã da banda você é) é o destaque dado pelo autor a as 900.000 formações do Sabbath quando o único componente da banda era Iommi. Além de ser uma época pouco relevante musicalmente, Iommi trocava de músicos praticamente todo mês e produziu bombas musicais como o intragável “Seventh Star” (disco que só leva o nome do Sabbath por imposição da gravadora, uma vez que na verdade é um trabalho solo de Iommi).

Esses pequenos percalços, no entanto, não diminuem a importância do livro que é leitura obrigatória para quem quer conhecer ou já conhece e quer se aprofundar na obra dessa banda seminal.