terça-feira, 28 de julho de 2015

A Iconoclastia do Engodo - Por Bruno Vitorino

O cantor pernambucano Johnny Hooker - fonte: Google Imagens.


Acabando nós todos cegos, como parece ir suceder, para que queremos a estética? – José Saramago[1]


Se contada nos dias de hoje, a lenda de Hércules teria não doze, mas treze trabalhos heroicos. Acreditando ser possível a insanidade de reinventar o mito em nosso tempo, o semi-deus estaria a mando não de um Euristeu, rei covarde e fraco, mas de um novo rei sem rosto, hipócrita e mimado que age no invisível, nos limites entre a realidade humana e o mundo imaterial dos bytes, porém que a tudo controla e vigia: o Facebook. Para o filho de Zeus, protegido de Palas Atena, não seriam mais necessárias uma força sobre-humana ante os obstáculos, um destemor impávido frente às manifestações bestiais dos caprichos dos deuses e uma bravura rutilante de se embrenhar nos além-mundo dos homens. Tudo isso seria inútil, vão. A ele não seria exigido mais que uma paciência interminável e uma consciência profunda do gritante despropósito de suas tarefas.

Em meu delírio, exercício deliberado do anacronismo e das atribuições errôneas, imagino que, logo após enfrentar a hidra, aquela besta do mundo subterrâneo, de corpo disforme, com inúmeras cabeças mesmerizadas a esconder uma outra de contornos mais definidos, tez avermelhada e dona de um raciocínio cinicamente partidarizado dissimulado em gritos de fúria retórica, a qual ocupa os armazéns do Cais José Estelita avocando para si a exclusividade em proteger a joia do Estelita; deveria nosso Hércules contemporâneo encarar o trabalho extra que lhe imputou seu novo suserano: ir a um vernissage cult e descolado no lounge do novo Roof Tebas embalado ao som do disco de estreia do cantor pernambucano Johnny Hooker, “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!”. Pois, só na condição de semi-deus para suportar uma audição a sério desse trabalho (e por “a sério” entenda-se “de forma concentrada, minuciosa”, partindo do pressuposto que há nele algum valor estético).

Em seu disco, Hooker faz da canção a plataforma do escracho e da dor de cotovelo brega cult de maneira muito sagaz - obviamente não do ponto de vista musical ou poético -, pois, sendo a persona que incorpora um gay libertino, coloca seu trabalho artístico num campo minado moral patrulhado tanto pela sociedade descentrada da pós-modernidade quanto pelas minorias ativistas e seus seguidores. E ao fazer isso, o cantor assenta seu trabalho (e ele sabe disso, imagino) num território inacessível à crítica, a qual, sem o menor trabalho (especialmente a local, bairrista ao extremo), logo arruma meios para enaltecer o viés “performático, provocador e iconoclasta” do artista pernambucano em textos marcados pelo oba-oba laudatório, de brodagem clientelista, endossando, assim, o elogio mútuo de uma forma que só uma dispendiosa assessoria de imprensa poderia proporcionar. Jornalismo cultural domesticado que, deixando-se levar pelo complacente espírito do clubismo e pela lógica passageira das tendências, substitui a reflexão estética pela chancela de valor das estrelas de sempre e dos “queridinhos” do momento. Negócios, enfim.

Qualquer análise mais a fundo que exponha a fragilidade da condição artística do cantor periga ser desqualificada pelas armadilhas das questões minoritárias de gênero - neste caso a tag “homofóbico” logo me vem à tona - e seu autor, de ser vilipendiado publicamente nas infinitas terras do rei de hoje. Sei disso. Mas, ousarei aqui correr o risco, pois parto de um pressuposto humanista muito elementar: todo ser humano tem alma, independente de cor, credo, nacionalidade, classe sócio-econômica e opção sexual. E é essa essência que sente, chora, ri, essa coisa sem nome, única, que trazemos dentro de nós que me interessa, não o papel social que seu invólucro desempenha. O mais é puro supérfluo, e eu não cometerei o erro generalizado de substituir a essência pela carapaça. Outra coisa: até onde me consta, sou livre para pensar, e na condição de crítico musical tenho a obrigação de problematizar uma obra, gostando ou não dela, e de lançar um olhar independente que, além de qualificá-la, perceba suas relações com a realidade que a circunda.

Previamente esclarecidas algumas questões para uma eventual patrulha dos moralistas inveterados da contemporaneidade e da cavalaria da Verdade Comportamental do rei Facebook, e mirando no que importa, resta dizer que o disco de Johnny Hooker é musicalmente fraco, porque se baseia no cansativo lugar-comum da estética brega-cabeça da classe média recifense, releitura higienista da periferia apesar de se dizer o contrário, que elevada à categoria de arte tomou conta da produção musical desta pequena vila. Tudo bem que os arranjos de metais são surpreendentemente bem feitos e bem executados, e que Hooker sabe, ao menos, projetar sua voz com algum cuidado nos timbres e na afinação. Algo por si só raro dentre os cantores da “cena” recifense, supondo logicamente que não esteja o Pro Tools e outras maquiagens eletrônicas a nos fazer de tolo. No entanto, é muito pouco para salvar o disco de uma banalidade sonora que remete a uma quase modorra.

Além disso, o álbum é poeticamente vulgar - para muito além das questões de gênero - pelo simples fato de ser mal escrito e chulo, denotando um amor caricato entre indivíduos desprovido de qualquer dimensão metafísica, romântica, digamos assim, que no final reduz os amantes a uma condição animalesca de pura carne na qual se relacionam tão somente por instinto, numa espécie de fauna selvagem e exótica em eterno cio. Como fica evidente, por exemplo, na balada à trilha sonora de Tarantino Volta - “É impossível ter de escolher entre teu cheiro e nada mais” -, na “sofrência” com toques de guitarra surf music de Alma Sebosa – “Não responde meus recados, me trata feito lixo / Se não me quiser, não me procure nem mais pra foder”, na construção de óbvio duplo sentido do ska dançante Chega de Lágrimas – “Chega de lágrimas, eu vou meter... / O pé na estrada / Me livrar de você”, no carimbó Boato – “Bebo o leite quente do amor da gente / Nada me satisfaz”, no pop brega Você Ainda Pensa? – “Você ainda pensa em mim quando fode com ele?”, no pastiche de frevo canção Desbunde Geral – “A gente se pega, se bole e se morde no chão de estrelas / Que meu corpo receba o desbunde geral”. E fica nisso.

“Mas Bruno, você tem de entender que só o fato de um artista debochado como Johnny Hooker existir já é, por si só, um ato de coragem, e não reconhecer isso é, no mínimo, preconceituoso sim!”, pareço estar ouvindo a repreensão de Sua Majestade Rede Social. Aí, alteza, com toda a humildade devo dizer que discordo duplamente. Embora que não considere aqui primordial a questão de gênero, como já disse antes, claro que enxergo que o lugar da fala tem sua relevância para entendermos as questões do discurso. Bourdieu e tantos outros já discorreram sobre isso em inúmeros trabalhos. Porém, não importa aqui a sexualidade do interlocutor do discurso poético, ou seja, de onde vêm os enunciados, pois qualquer que seja ela não salva a baixeza da mensagem em si. Eis a primeira discordância.

Já em meu segundo desacordo digo que, se olharmos com cuidado para o álbum do cantor recifense como um todo, veremos que ele mais parece se situar numa butique de luxo de um estilista qualquer ou num apartamento bacana nas áreas mais exclusivas da cidade com o simples intuito da controvérsia efêmera, do que nas trincheiras cotidianas da luta da comunidade LGBT na batalha pelo respeito, dignidade e reconhecimento a que tanto faz jus. “Ah, mas é uma performance artística, Bruno! Por favor...”, grita impaciente o rei. De fato, Majestade. Mas, o que fica dela? Um choque gratuito? Uma polêmica midiática vã? Uma sedição mercantilizada? É para isso que serve a música? É esse o grande mérito artístico de Johnny Hooker? Se for, acho muito pouco. E se é para dar um exemplo de uma notável produção artística de gênero, prefiro muito mais, em termos de realização cultural e repercussão na sociedade, um filme como “O Segredo de Brokeback Mountain”: uma obra de arte com incomparável beleza plástica, conteúdo emotivo, críticas contundentes a modos e costumes arraigados na tessitura social e reflexões bastante pertinentes e fundamentais sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. O lugar da fala e o conteúdo da fala estabelecendo entre si um forte vínculo através de um trabalho de vasta densidade estética, cultural e artística.

Por estas razões, vejo em todo o frenesi promovido pela imprensa e público em torno da figura artística de Johnny Hooker como uma declaração contumaz de que estamos mal, mas muito mal mesmo, em termos de Cultura, e que “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!” é apenas mais um dentre tantos outros álbuns desnecessários provavelmente fadado a, dentro de mais alguns meses, cair no total esquecimento, substituído por um novo e lucrativo modismo transgressor de ocasião. 






[i] SARAMAGO, José; “Ensaio Sobre a Cegueira”, Companhia das Letras, São Paulo, 2014, pág. 128.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

No Passo de Caymmi - Por Giba Carvalho




O Grupo Casuarina está no mercado musical brasileiro há 13 anos e, após o lançamento comemorativo do “CD/DVD – 10 anos de Lapa”, os garotos cariocas emplacaram um trabalho de releituras da excelente obra de Dorival Caymmi. Só o fato de tal escolha já é de grande mérito, afinal, não é qualquer amontoado de “Zé Manés” que tem capacidade de pesquisar e desenvolver novos arranjos para tão grandiosa e profunda obra. O mar de Dorival Caymmi não é mar para marinheiros de primeira viagem, principalmente, porque possui gravações peculiares e imortalizadas pelo próprio compositor baiano.

O álbum é um compilado de canções lançadas entre 1939 e 1994, perfazendo um total de 16 faixas (muito embora possua 17 no disco) e uma vinheta levada apenas com dedos estalados e vocalizações, que é o que ocorre no samba “Maricotinha”. O que me deixa feliz com relação a grupos como o Casuarina é a evolução a cada novo lançamento. É perceptível o esforço dos rapazes para melhorar desde a qualidade vocal, aos belos arranjos desenvolvidos por João Fernando (Bandolim) e Daniel Montes (Violão 7 cordas).

No passo de Caymmi começa com uma versão vocal da tradicional “Suíte dos Pescadores”, onde fica claro o supracitado. Os rapazes trabalharam bem as vozes, mas, capricharam ainda mais ao harmonizá-las. “Você já foi a Bahia?” chega trazendo um molejo peculiar aos ritmos baianos mesclado com a ginga do samba carioca. “Peguei um ita no norte”, demonstra que o minimalismo do arranjo caiu como uma luva ao tom jocoso com o qual João Cavalcanti a interpreta (uma das minhas preferidas). “Saudade da Bahia” é um espetáculo à parte! Daniel Montes dá uma aula no arranjo desta canção e comove os ouvintes com seu Violão de 7 cordas. Inicia calma e depois o ritmo similar a uma marola toma conta do pedaço. “Dora”, inegavelmente, é uma das canções mais bonitas da carreira de Dorival Caymmi. Sua gravação original é belíssima e única e, por mais que o executado pelos garotos cariocas seja de muito valor, passa longe da gravação original. “É doce morrer no mar” possui os mesmos problemas da antecessora. A intensidade de Caymmi sobra no original e a ausência dela é completamente perceptível no trabalho do Casuarina. “O bem do mar”, que é um clássico supremo brasileiro, surge para por equilíbrio ao trabalho. Arranjo e voz, desta feita a de Gabriel Cavalcante, caminham lado a lado de modo especial. Sem sombra de dúvidas um dos destaques do disco.



O grupo Casuarina tem um trabalho próprio que, praticamente, foi todo concebido nas noites boêmias e de agitação na Lapa. Conforme dito pelos próprios integrantes, diferentemente do que é apresentado neste trabalho, eles costumam apresentar-se com uma formação maior e “da bagaceira”. Em duas canções do disco eles provaram do próprio veneno. “Lá vem a baiana” e “O que é que a baiana tem?” parecem ter sido vestidas unicamente com roupagem das músicas do repertório usual dos rapazes. Execuções corretas e de clima “festinha da night”, mas perdendo muito do charme original. Na sequência, encontramos a divertidíssima “Requebre que eu dou um doce”. A mesma inicia em ritmo cadenciado e explode num samba de roda de primeira. Percorrendo um caminho contrário a que a antecede, “João Valentão” entra em jogo partindo para cima e caindo num extraordinário clima melodioso. Para coroar tal arranjo, somos presenteados com um solo belíssimo de João Fernando e seu bandolim, ladeado pela execução pontual do 7 Cordas de Daniel. Uma riqueza! “Marina” e “Só louco” surgem para causar imenso diferencial. A primeira é um clássico da música brasileira e a segunda é de uma beleza cativante. As versões do Casuarina superam até mesmo as gravações originais, principalmente, no esmero com que os arranjos foram concebidos. Estes dois sambas-canção também são pontos altos do trabalho. “A vizinha do lado” possui uma versão bastante animada, no entanto, penso que o grupo poderia ter ousado um pouco mais em sua execução. A conhecidíssima “Maracangalha” aparece no final apenas para dar o tom de despedida.


Ainda que com certa oscilação em alguns pontos, considero “No passo de Caymmi” um dos bons trabalhos feitos ultimamente no Brasil. E como é bom percebermos o esforço do desenvolvimento de um grupo novo, com músicos que sabem executar bem seus instrumentos e utilizar bem suas vozes. Fica a dica!

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Chasing Yesterday: Noel Gallagher´s High Flying Byrds - Por Fernando Lucchesi




Se há alguns atores que não conseguem se livrar do estigma de um papel, alguns músicos também não conseguem se livrar de alguns dos seus sucessos ou de sua antiga banda. Noel Gallagher bem que tentou no seu primeiro disco com seu novo projeto, o homônimo High Flying Byrds. O disco tinha canções ótimas e muito bem trabalhadas do ponto de vista de arranjos e melodias como “The Death of You and Me” e “Wrongbeach”. Após um hiato de pouco mais de três anos ele volta com o mesmo projeto e um novo disco, Chasing Yesterday. No entanto, basta ouvir a primeira música do álbum para percebermos de imediato que Noel Gallagher ainda não se livrou dos fantasmas do Oasis e de sua canção mais conhecida, “Wonderwal”.

“Riverman”, faixa de abertura, sintetiza todos esses fantasmas que ainda circundam o músico. Tem aquele mesmíssimo violão de "Wonderwall" sem possuir a maior virtude desta que é uma irresistível levada pop. É somente mais uma música que poderia estar em qualquer um dos piores discos do Oasis. Acrescente-se a isso um solo de guitarra completamente sem sentido e teremos um péssimo exemplo de música “inspirada” em outra. A falta de originalidade não se resume apenas à “Riverman”. “In The Heat of The Moment”, “The Dying of The Light”, “While The Songs Remains The Same” e “Ballad of The Mighty I” são faixas que parecem estar no disco apenas para acrescentar tempo. São enfadonhas e sem um pingo de originalidade nos arranjos, além de terem melodias pouco cativantes.

Os melhores momentos do disco estão na segunda metade. Há algumas faixas que merecem destaque. “The Mexican” com sua levada “stoneana” e um excelente riff talvez seja o ponto alto do disco. As melhores faixas do disco, na verdade, são aquelas em que o músico arrisca colocar as músicas mais aceleradas e levar mais para um lado rock n´roll.  Funcionam bem nesse sentido “Lock All The Doors” e “You Know We Can´t Go Back”. A exceção a essas faixas mais aceleradas é “The Right Stuff”, mais próxima de uma balada, mas com um ar soturno com trechos de sax e efeitos psicodélicos. O backing vocal de Joy Rose ajuda a ressaltar esse caráter psicodélico da música.

Se há um adjetivo para classificar Chasing Yesterday é mediano. Metade das faixas têm ótimos arranjos ou melodias e outra metade carece de um mínimo de inspiração. Tomara que num próximo álbum, Mr. Gallagher retome a inspiração do primeiro disco do High Flying Byrds.

domingo, 28 de junho de 2015

Variações em 4/4: Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!



Na coluna deste mês, os editores do blog comentam o disco de estreia do cantor pernambucano Johnny Hooker, “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!”

Boa leitura!

- Giba Carvalho:

Johnny Hooker é uma mistura de Cazuza com Ney Matogrosso da Rua da Moeda. A afirmação pode parecer irônica, mas, não tem nada de ironia na mesma. Escrachado nos vocais como o ícone oitentista, performático como gigante Ney e recheando seu disco com tudo aquilo que é modinha na cena cultural recifense (quiçá brasileira), o ator-cantor pernambucano vem galgando seu espaço a passos largos dentro da carente música nacional.

“Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!” (EVFUMPTA,M!) é um animado disco de dor de cotovelo daquelas de arrombar! Lágrimas incontidas, berros e emoções aflitas são os principais fatores encontrados no disco. E o garoto não compõe mal com seu palavreado usual, cru e urbano.

Musicalmente falando, ao contrário do que se propaga por aí, o referido álbum não é a “salvação inovadora do mercado”. Mas, ressalto três pontos bastante interessantes:
Os arranjos de metais do álbum são primorosos! 
Inegavelmente, o trabalho de Hooker tem personalidade. Para mim, este é um ponto de grande valia.

E, o principal, embora muitas vezes parecendo com Cazuza, o rapaz canta bem. E isto, num meio que perpetua e idolatra “Otto`s, Trummer`s e Buhr´s” (onde o bonito é cantar mal), é uma diferença IMENSA!

“EVFUMPTA,M!” é daqueles álbuns que será bem recepcionado nas festinhas “descoladas” de Recife, passando pelos “pega-bêbo” onde cornos choram as suas lágrimas e em vários Mp4 da “tchurminha” da cidade. Se isto vai enquadrar-se no seu conceito pessoal de música popular, já é outra história. Vou mais além. Conscientemente ou não, o disco de Hooker é um trabalho lançado no momento exato para fazer sucesso e passa longe de qualquer postura “careta” e “conservadora”. Particularmente, não é o que costumo (e gosto) de ouvir, mas ainda assim, prefiro o escracho a sacarose exacerbada da MPB Cupcake, tão propagada aos quatro ventos.

Destaco no álbum: “Volta”,  “Alma Sebosa” e “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito”.


- André Maranhão:

O álbum de Johnny Hooker é bom, assim como a sua eleição de melhor cantor de canção popular, no último Prêmio da Canção Brasileira, é positiva. Há algum tempo, a música produzida em Pernambuco que propõe uma estética vinculada ao BregaCult, ou ao Pop, não apresenta em sua linha de frente tantos artistas afinados e que, ao mesmo tempo, criam trabalhos autorais bem feitos. Pelo contrário, é possível nos depararmos com performers muito mais cuidadosos com seus elementos gestuais, figurinos do que com a precisão e segurança dos seus cantos. Diferentemente, Johnny Hooker consegue se fazer um bom cantor, ao mesmo tempo em que se vale de maquiagens chamativas e traz consigo um figurino interessante, cujas influências de Secos e Molhados, David Bowie e do Tropicalismo podem ser claramente apontadas. Em seu disco, as faixas que mais chamaram a minha atenção foram “Alma Sebosa”; “Volta”; e “Você Ainda Pensa”. De modo mais amplo, as canções de Johnny Hooker trazem poucos acordes, melodias claras, bem executadas pela banda, como também letras coloquiais e bem escritas. Portanto, creio que o trabalho de Johnny Hooker consegue atrair pelo fato de nos oferecer o que há de virtude quando a forma do simples se apresenta de maneira bem executada.

- Fernando Lucchesi:         

Não é fácil categorizar “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!”. O disco de estreia do pernambucano Johnny Hooker é uma junção de tudo que há de mais popular na música brasileira. Há brega, pop, um pouco de rock e até mesmo frevo. A temática das músicas de Hooker gira em torno das relações amorosas e os sentimentos que delas derivam como tristeza, mágoa, felicidade, superação e, eventualmente, do perdão quando do fim do relacionamento.  O que chama a atenção são os arranjos “bregas” (coloco entre aspas, pois são mais baseados em gêneros caribenhos do que no brega feito e produzido no Brasil) e a voz rascante e melodiosa de Hooker que se encaixa perfeitamente na dramaticidade das letras.

Os destaques do disco são, além da faixa título, “Volta” (um bolero com roupagem moderna), “Alma Sebosa” (que segue a mesma linha das duas anteriores), “Chega de Lágrimas” e “Amor Marginal” (curiosamente as cinco primeiras músicas). O resto do álbum é interessante, mas as faixas não são tão intensas como as acima citadas, porém são bastante coerentes com a ideia central do disco. Ótima estreia de Hooker.


- Bruno Vitorino:

Um disco que mergulha no clichê da dor de cotovelo e se vale do cansativo lugar-comum da estética brega-cabeça da classe média recifense que, elevada à categoria de arte, tomou conta da produção musical desta pequena vila, com letras escrachadas sobre amores mau resolvidos e estereotipados, só que cantados por um artista jovem, performático e com forte apelo à mídia que sabe, ao menos, como projetar sua voz (o que por si só já é raro no Recife), e que eu não aguentei ouvir até o final: eis o máximo que consegui escrever com o pouco lastro que “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!” me proporcionou.

Ouça até o fim, se for capaz.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O Fascínio da Heresia – por Bruno Vitorino


Ornette Coleman. Fonte: Google Imagens.

O mundo do jazz perdeu hoje um de seus filhos mais pródigos: morreu, aos 85 anos, o compositor e saxofonista Ornette Coleman.

Nascido no Texas, autodidata, Ornette começou no blues, tateando as formas, descobrindo no ato da performance o insondável poder da improvisação e construindo desde o início uma sonoridade única, fruto de uma necessidade premente de expressar a si mesmo, ir além da óbvia e inescapável influência de Charlie Parker, romper com as cercanias estéticas da tradição. Por conta disso, sempre foi uma figura controversa, impressionando muitos com seus fraseados aparentemente soltos e sua música livre (como o pianista Paul Bley que, reconhecendo o gênio, foi o primeiro a gravar o conjunto do saxofonista num disco em que aparece como líder); mas também colecionando inúmeros detratores que viam nele nada mais que uma fraude, um músico menor que não sabia tocar seu instrumento (como um enciumado Miles Davis que de repente não era mais o centro das atenções).

Reza a lenda que Coleman, numa das muitas jam sessions de seus anos de formação, foi interpelado pelos outros instrumentista por estar “tocando errado”. De fato! Ao ler as partituras, os músicos repararam que ele não estava transpondo as notas como se esperaria que um saxofonista o fizesse – o sax alto é afinado em mi bemol e não em dó. Era como se ele tocasse uma melodia paralela, que se chocava com o campo harmônico estabelecido pelo encadeamento de acordes. O que era ouvido pelos demais como desafinação soava aos ouvidos de Ornette como natural. Esse paralelismo melódico foi depois estruturado num método de composição e improvisação que o saxofonista chamou de “Harmolodics” – e, por sinal, esse princípio era o que dava a força do duo Ornette Coleman/Don Cherry. Em resumo, Coleman privilegiou a improvisação coletiva, a superação do centro tonal e da progressão harmônica e subverteu a concepção rítmica de swing, ou seja, “apenas” demoliu os pilares estéticos do jazz e o revolucionou ao abrir caminhos inteiramente novos. Isso em 1959, quando o Ornette Coleman Quartet chegou a Nova Iorque para uma lendária temporada no Five Spot Café, monopolizando a atenção de toda a cena jazzística de então. Um estrondo tão imenso que encobriu inclusive um certo “Kind of Blue” que fora lançado à época...

Manteve-se na ativa, produzindo, procurando, arriscando-se e refletindo sobre música e seu papel na sociedade até os últimos momentos de sua vida, conforme registra sua vasta discografia, que traz em si alguns discos obrigatórios para qualquer ser humano que manifeste o mínimo interesse por música: The Shape of Jazz to Come, Free Jazz, Change of the Century, This is Our Music. Um gênio dentre uns poucos na música contemporânea que deixa um legado inestimável para a humanidade.

Particularmente, tive a sorte de ainda conseguir tê-lo visto em ação. Foi em novembro de 2010 que assisti a um Ornette já velhinho, lânguido, é verdade, mas nem por isso menos comprometido com a comunhão espiritual que nasce da música, com seu projeto Sound Grammar a por tudo abaixo. Quanta profundidade expressiva, diálogo, riscos, beleza e complexidade. Quatro músicos respirando como um só, comandados por uma racionalidade inquieta e amparados por uma emotividade absolutamente humana.

Foi-se um mestre que se alimentava daquilo que o historiador Peter Gay chama de “fascínio da heresia”: aquele impulso atávico de se por em xeque, de manipular o proibido, de negar o cânone e de criar o novo. O mundo perde bastante com seu retorno ao éter.

R.I.P.

domingo, 10 de maio de 2015

Variações em 5/4: Vulnicura



Na coluna deste mês, os editores do blog comentam o mais novo trabalho da cantora Björk, seu recém-lançado “Vulnicura”.

Boa leitura!

- Giba Carvalho:

Em seu novo álbum, Björk tenta expor e ao mesmo tempo sarar as feridas do fim do seu casamento. Parece receita de bolo da vovó, mas até mesmo na gélida Islândia, o idoso mote afetivo serve como inspiração para novas composições. Pois bem, "Vulnicura" é um disco muito bem produzido e que possui alguns pontos interessantes.

Primeiramente, os trabalhos da "Deusa do Gelo" parecem ser feitos para transcender o espaço único da música. Talvez por conhecimento das apresentações ao vivo de Björk, insista em dizer que a artista em foco pensa sempre que seus discos são unicamente para encenações tão peculiares as suas apresentações. É como se fosse uma peça de teatro constante, intensa, lotada de diversos artefatos e que toda produção fonográfica fosse a trilha sonora para tal. Ao vivo funciona muitíssimo bem. Já para audição, “Vulnicura” torna-se enfadonho e confuso.

Os gemidos incessantes de Bjork transitam de forma eficaz numa tentativa de mesclar música erudita com tons de eletrônico. Tenho que levar em consideração, que em comparação com trabalhos anteriores, este é um dos álbuns que ela menos arriscou em termos instrumentais. Isto fez com que o disco soasse altamente estranho. A mescla supracitada é insuportável (com exceção dos arranjos de cordas que são muito bons). Voltando ao ponto de vista vocal, a cantora desfila momentos de extrema emoção e dramaticidade em vários momentos do álbum. Para que o leitor tenha idéia, as seis primeiras canções do disco são como se fosse um glossário dos períodos pré e pós-separação. Não tem como não ser de outra forma. É completamente perceptível.

“Vulnicura” é um disco passional por inspiração, chato nos arranjos e contraditório nas composições. Nada diferente das almas que sofrem por amor.

- André Maranhão:

Para mim está bem claro que Björk é um ícone da música. Seus lances performáticos, somados aos seus gestos camaleônicos deixam isso claro há mais de décadas. O álbum “Vulnicura” também faz jus a todas essas qualidades da artista islandesa. O uso de instrumentos eruditos embaralhados com sintetizadores, colagens, ruídos sampleados, além da vocalização bastante afinada de Björk, contendo, inclusive melodias nórdicas, estão presentes nas canções desse trabalho. Creio que em algumas faixas isso funciona bem. Aqui, destaco Stonemilker (para mim, a melhor do disco); History of Touches; Atom Dance e Black Lake – embora, não considere todas elas necessariamente boas por completo. As demais faixas me parecem confusas, onde Björk vagueia entre os mares de sua voz desconexa com os ritmos eletrônicos e os instrumentos acústicos que trouxe para o álbum. Apesar da importância dessa artista, confesso que em alguns momentos, foi uma tarefa bastante árdua concluir a audição de “Vulnicura”. Mas é possível que ao se combinar com as apresentações de Björk no palco, essas canções envolvam mais, pois lá estarão presentes outros recursos multimidiáticos e cênicos, tais como telões, figurino, maquiagem, expressão corporal, importantes para compor o sucesso da artista, cuja competência ela já demonstra possuir faz tempo.

- Fernando Lucchesi:         

Ainda me recordo a primeira vez que ouvi falar em Björk. Uma colega de classe me falava demais sobre a banda dela, o Sugarcubes. No entanto, como qualquer pessoa no começo dos anos 1990, a primeira vez que vi e ouvi Björk foi através da MTV no clipe de uma música chamada Human Behaviour. Clipe muito bem feito, mas quando ouvi o estilo de música que ela cantava a decepção foi grande. Aquela voz baixa, quase fraca que parece que vai desaparecer realmente não fez minha cabeça. Eis que agora foi proposto pelo blog analisar o novo álbum dela, intitulado “Vulnicura”.

Bom, quase 20 anos depois de ter escutado Björk pela primeira vez continuo achando uma das coisas mais enfadonhas da música. A voz dela aliada a alguns arranjos de teclado meio New Age transformam boa parte do álbum num excelente soporífero, mas seria injusto dizer que tudo é ruim. Os arranjos de cordas são muito bonitos e bem executados, como, por exemplo, em Stonemilker e Lionsong, só para citar dois exemplos. Outro destaque do disco é a longa e intensa Family. 

Enfim, se você é fã de Björk você vai se deleitar com Black Lake, uma mistureba de sons eletrônicos de dez minutos de duração e vai achar o disco uma das coisas mais revolucionárias do planeta. Mas se você, assim como eu, não tem nenhum apreço pelo som dela, passe longe desse disco.

- Bruno Vitorino:

Não sou um expert em Björk. Muito pelo contrário. Quase nada conheço da cantora, além de sua brilhante atuação no filme “Dançando no Escuro” (2000), dirigido por Lars von Trier, e da trilha sonora que a artista compôs para esta película densa e emocionalmente profunda. Lembro – e isso faz muito tempo – de ter ficado bastante impressionado com a música em si, o uso que Björk fazia de batidas eletrônicas, da sonoridade emanada do maquinário que sua personagem manipulava, das harmonizações vocais, dos timbres orquestrais, enfim com a música grandiloquente feita por alguém que sabia exatamente o que estava fazendo. Um trabalho musical primoroso que dialogava de modo muito interessante com o filme, conferindo-lhe ainda mais peso emotivo. Por sinal, nunca me esqueci do quão desnorteado fiquei ao final da sessão de cinema. O impacto do filme, potencializado pela trilha sonora, atingiu-me em cheio e saí da sala embevecido pelo prazer estético.

Para além deste trabalho, no entanto, nada conheci além do hype-diva que envolve a cantora islandesa. E, apesar de ter gostado de “Dançando no Escuro”, todo este frenesi cult me manteve afastado e absolutamente desinteressado por sua música desde então. Acabei trilhando outros caminhos sonoros que me levaram para longe de suas fronteiras estéticas. Contudo, “Vulnicura” e a necessidade de comentá-lo para a coluna fizeram com que me reencontrasse com Björk depois de todo esse tempo. Foi, confesso, uma agradável surpresa.

“Vulnicura” é um disco extremamente íntimo no qual a cantora disseca o fim de seu relacionamento com Matthew Barney e a devastação humana que isso lhe causou numa espécie de drama eletro-orquestral. É um disco fragmentado, como um coração em frangalhos, onde cada canção esmiuça resquícios de sentimentos por vezes conflitantes, pinta aquilo que poderia ter sido entre eles e medita sobre as repercussões emocionais do ocaso do amor onde, no entanto, um ainda ama. Porém, a segmentação do álbum, mais do que comprometer sua coesão narrativa, aprofunda-a, pois cada música parece estabelecer entre si um laço emocional, como se cada uma delas jogasse luz sobre um aspecto diferente do sofrimento uno. O andamento largo que perpassa todo ele, mantém, do ponto de vista musical, sua unidade e é o fio condutor que leva o ouvinte a percorrer as paisagens emocionais que  Björk constroi com o uso de belas tessituras nas cordas, de uma sólida base rítmica promovida pelas programações eletrônicas e de ricas melodias que cortam os céus desses mundos confidenciais. Destaque para Stonemilker, History of Touches e Family.   

Sim, concordo, o disco é "paradão" (embora prefira o termo “contemplativo”). Sim, as inflexões vocais de Björk são, de fato, um pouco irritantes (embora haja muita beleza expressiva e técnica em sua voz). Sim, reconheço também certa contaminação new age nos temas (embora prefira ouvir os ecos de Jean Sibelius que as cordas me trazem). Concordo com tudo isso! Mas, se levarmos em consideração que vivemos num tempo no qual os artistas se reduziram a celebridades midiáticas que fomentam estilos de vida e padrões de consumo, que a sensibilidade coletiva se vulgarizou ante o inútil e o superficial, que pouco ou quase nenhum espaço é dado à criatividade no que sobrou daquilo que a humanidade conheceu um dia por arte; somos obrigados a reconhecer a coragem de Björk em compartilhar, de modo franco e inteiramente aberto, com milhares de pessoas ao redor do mundo, o abissal e doloroso mergulho dentro de si traduzido de maneira bastante exitosa numa música tão delicada, e de certa forma resgatar, com isso, a perspectiva esquecida da arte que busca unir os indivíduos no abstrato de seu arcabouço simbólico. Particularmente, acho um feito notável neste “mundo prostituto”, para usar uma expressão de Rubem Fonseca.

Por todas essas questões, meus caros, “Vulnicura” é um disco que merece, ao menos, uma audição bastante atenta.

- Rógeres Bessoni:

Björk, usualmente, me tira da minha zona de conforto. E isso está longe de ser um demérito. Mas, por si só, também está longe de ser um mérito. “Vulnicura” me trouxe, em seu começo, elementos poderosíssimos para mim, que são os excelentes arranjos de cordas, em alguns momentos com matizes dos violinos do leste europeu, de que tanto gosto. E terminou por aí. Para todo o resto, aplica-se o que vou morrer de velho falando, sem nenhum constrangimento – ao contrário, afirmo cada vez com mais firmeza: o mundo musical da pura técnica, sem melodia e sem apresentar uma construção sólida, me interessa muito pouco ou nada. E não acho que “Vulnicura” é um exemplar de “pura técnica” musical. No máximo, pode ser uma boa experiência sonora de técnicas de estúdio. No caso específico de Björk, a simples opção pela estética do bizarro não traz para mim nenhuma experiência de acréscimo ou revelação. Digo isso porque, para que “sirva” de alguma forma, a vivência de sair da zona de conforto tem que ter caráter iniciático. Um Mestre sempre lhe conduz a perceber como era mais estreito o lugar que você ocupava antes, e como é melhor a nova visão que se abre. E estamos falando de música, 45 minutos de andamentos quebrados, praticamente sem nenhuma linearidade, ruídos tecnológicos, sussurros, ruídos humanos que parecem de agonia, a loucura, o soturno, a fronteira do horror...

Ah, eu captei exatamente o que o álbum queria? A visita aos porões de uma mente atormentada? O transe esquizofrênico? Relatos do terror noturno? Uma tarde de um domingo de chuva, em depressão profunda, num sanatório? A literatura já produziu obras-primas por esses caminhos. O cinema também. A pintura e a música também. Era isso que Björk queria passar, e eu, acertadamente, captei? Não sei, e não é o que me interessa que falo em MÚSICA. A construção musical baseada exclusivamente em desconstrução não me diz absolutamente nada. O choque pelo choque não me conduz a nenhuma experiência estética libertadora, em nenhuma vertente da arte. Por exemplo, até hoje considero que assistir ao filme “Irreversível”, com o estupro de Monica Bellucci filmado em tempo real, sem cortes, foi um dos empregos de tempo mais inúteis da minha vida. Não pensei nada mais iluminado depois de ter me submetido àquilo. Foi assim que os últimos 45 minutos de Bjork não me libertaram mais do que 5 minutos de Mutantes, nem me revelaram a alma humana mais do que meia letra do Pink Floyd. Eloquência, maestria poética e virtuosismo, domínio da plasticidade dos sons - esses elementos são manejados acertadamente e grandiosamente por poucos. Nem todo ajuntamento de elementos configura para mim uma construção, ainda que espelhe uma intenção.

Hoje em dia, por exemplo, meu querido Recife é um amontado de edificações, e discute-se se isso resultou numa cidade. A ininterrupta fratura rítmica pode até ter revelado a descontinuidade da cabeça de Björk, pode até ter sido uma realização deliberada, planejada, mas não me conduziu pelas minhas próprias quebras existenciais – se é que o álbum algum dia se propôs a isso. Aquele encadeamento de sons não produziu em mim a perplexidade, a surpresa do aprendizado. E, ademais, quando uma obra pretensamente artística nos conduz ao desconforto, é significativo que também suscite em nós o deleite do insight, sem o qual esse desconforto não pode ser contemplado e digerido. Uma  situação de tormento perene, sem alívio, não se converte em luz – no caso, não se converteu em uma “luz estética”, digamos assim.

O portentoso rock progressivo, em seus diversos matizes, já me mostrou abismos. Mas, assim como Dante atravessou o horror guiado pela poesia, personificada em Virgílio, o progressivo nos conduz também por uma riquíssima malha poética e por um território de grande virtuosismo musical, além de verdadeiras odisseias melódicas. É, pois, ante todo o assombro que grandes obras já operaram em mim, que “Vulnicura” se me apresentou verdadeiramente sofrível. Eu sinceramente acho que o universo do ruído agressivo, do torto, do bizarro, do “desconstruído”, é um abismo em que a ocidentalidade caiu, e do qual não sabe sair. Pensaria diferente se visse que transitamos de dentro para fora da melodia a nosso bel-prazer, mas não vejo isso. A criatividade da construção melódica e das sólidas construções rítmicas, que rendeu à humanidade escolas como o blues, o samba, o flamenco, a música indiana e, mais recentemente, o grande hard rock (apenas como exemplo), parece uma ciência perdida. Parece algo que não é feito porque não se sabe mais como fazer. Respeito a artista, respeito toda e qualquer intenção artística, respeito os fãs, mas parafraseando a própria Björk, “I have musical needs, oh, needs...” E vamos em frente. O garimpo continua.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Oliver Nelson e A Verdade Abstrata - Por Bruno Vitorino


O saxofonista, compositor e arranjador Oliver Nelson.

É interessante perceber como alguns discos mudam totalmente a nossos ouvidos com o passar do tempo: de uma ilha erma e isolada nos confins da sensibilidade humana, que aparentemente nada revela ou comunica, a uma imensa metrópole sonora que constrói inúmeros vínculos com nossos sentimentos mais pessoais. A depender do trabalho, é necessário que o ouvinte tenha alguma familiaridade com o artista e certo conhecimento da linguagem utilizada por ele, para que a mensagem codificada em sons, que é a música, seja transmitida, e o elo emocional seja, enfim, estabelecido entre esses dois atores da escuta, num processo que chamamos de experiência artística.

No entanto, artistas de fato criativos e compromissados tão somente com a expansão de suas fronteiras expressivas podem deixar desamparados, do ponto de vista estético, até seus fãs mais devotados e continuar a surpreender o público ao longo da história no momento que instituem nela um marco. Imaginem, por exemplo, o impacto causado pelos Beatles quando eles apresentaram ao público, que até então os tinha como um grupo de “Iêiêiê” que cantava a três vozes sobre paixões adolescentes balançando os cabelos em sincronia, o revolucionário Revolver em 1966. E mais ainda: imaginem o choque que esse disco continua a provocar naquele que descobre o quarteto inglês por estes dias. É de perder o chão! Por isso, afirmo que o tempo desempenha um papel fundamental nesses casos, pois esse estranhamento inicial só pode ser vencido pelas transformações internas que só ele, o tempo, nos proporciona, alterando inclusive a nossa compreensão de música, nosso gosto e juízo de valor.

Eu poderia escrever aqui linhas e mais linhas sobre as incontáveis vezes que isso aconteceu comigo: ouvir um disco, não entender absolutamente nada, deixá-lo de lado e, depois de um bom tempo, como numa revelação dos Céus, achá-lo espetacular numa audição despretensiosa e não compreender como eu pudera não ter gostado dele logo de primeira. No entanto, pretendo falar de minha última descoberta “tardia”, por assim dizer, que por sinal nada mais era do que um clássico absoluto: The Blues and The Abstract Truth do saxofonista, compositor e arranjador Oliver Nelson, lançado em 1961 pelo selo Impulse!.

A primeira vez que ouvi esse disco faz uns dez anos. Naquela ocasião, tinha lido bastante a seu respeito em artigos e livros que destacavam sua importância por retornar às raízes e investigar minuciosamente os pilares do blues - plataforma fundamental ao jazz -, apontando com isso novos direcionamentos na composição jazzística ao incorporar princípios da harmonia modal no blues e se valer de uma arquitetura que ia além da forma básica do gênero; na interpretação dos temas por conta do escrutínio nos arranjos e na distribuição das vozes, enfatizando cores obscuras e criando tessituras inesperadas; na improvisação devido aos solistas presentes na sessão fortemente ligados ao avant garde e às novas abordagens como o Jazz Modal e o Third Stream (a grosso modo, a junção do jazz com a música erudita). Tudo isso, diga-se de passagem, numa época em que o Free Jazz, sob a égide do grande Ornette Coleman, subvertia os alicerces tradicionais do jazz como a forma chorus, a ideia de progressão harmônica e a noção de swing e dominava a atenção da cena de então como uma novidade irresistível, uma revolução em curso. Contudo, apesar de todas essas qualidades, lembro-me muito bem de não ter ouvido “nada do outro mundo” no álbum e de tê-lo achado, devo confessar, um tanto convencional. Pus o disco num canto esquecido de minha coleção por quase uma década, e só pela ação silenciosa do acaso é que pude, finalmente, vislumbrar toda a sua dimensão e depurar sua mensagem.

Semana passada, estava folheando o primeiro volume do Real Book, uma espécie de livro sagrado do jazz que compila inúmeras composições, em busca de uma música para estudar harmonia (o modo dórico, mais especificamente) e improvisação. Do nada – se é que isso existe -, lembrei-me que Stolen Moments, tema composto por Oliver Nelson e que abre The Blues and The Abstract Truth, flerta com o modal. Toquei a introdução (claramente em C dórico - Cm7 / Dm7 / EbMaj7), dei uma olhada na melodia, conferi seu encadeamento de acordes e quando dei por mim estava longe de casa, totalmente imerso no mundo imaterial da composição. “Realmente, esse tema é massa.”, disse a mim mesmo. Tinha de reouvir a gravação original para ver o que os instrumentistas faziam, como se comportavam na transição do tema ao momento dos improvisos sobre a forma minor blues, etc.

Foi um choque! Primeiramente pelo o time magistral que Nelson escalou para a sessão: o incendiário Freddie Hubbard no trompete, a lenda Eric Dolphy tocando sax alto e flauta, o toque impressionista de Bill Evans ao piano, e uma cozinha sublime formada por Paul Chambers no baixo e Roy Haynes na bateria[1]. Depois, pela maestria na interpretação do tema que eu acabara de visitar: a ambiência profunda do estúdio, a completa atenção dos músicos às nuances e expressões que Oliver Nelson põe no arranjo, conferindo-lhe força, a atmosfera cool que envolve o tema, o quanto é dito nos silêncios e o quanto é subtendido nos fraseados. Cada improviso parece ser melhor do que o outro, e à medida que os solistas mandam seu recado inevitavelmente me lembro da perplexidade do escritor Alex Ross ante a capacidade da música de, numa breve sequência de notas ou acordes, assumir as peculiaridades de uma pessoa, traduzir num mundo abstrato a personalidade de um artista[2]. O que fica extremamente claro quando o tenor de Oliver Nelson se apresenta para improvisar neste tema. Ele dá ao todo apenas quatro giros sobre a breve estrutura minor blues, e faz uma improvisação quase motívica, com padrões baseados em arpejos de tríades e figuras rítmicas simples (tercinas) que vão criando tensão à medida que o encadeamento harmônico se desenrola – especialmente quando ele insiste na tríade de Ebm enquanto a progressão vai de Ab7 para G7, remetendo à escala aumentada -, mas que, para muito além da análise técnica e da radiografia musicológica, traz em si uma profundidade emotiva que as palavras jamais conseguirão exprimir. E é justamente neste aspecto que reside toda a sua beleza, porque seu improviso fala sem reservas a todo aquele que estiver disposto a ouvir, independente de educação formal, provando que a música não é uma esfera autossuficiente, e sim uma maneira de apreender a realidade a nossa volta e de partilhar da condição humana que nos define.

Desde essa (re)descoberta, venho ouvindo compulsivamente o disco todos os dias, faixa a faixa, com a maior atenção que consigo dar aos detalhes, como que para recuperar o tempo que perdi sem me dar conta da grandeza desse clássico, e pensando, ao final de tudo, como esse mesmo tempo que nos turva a visão pode nos ensinar lições valiosas sobre aquilo que julgamos sempre saber.





[1] Há também George Barrow no sax barítono, contudo sua participação fica restrita aos naipes.
[2] Ver ROSS, Alex; Escuta Só: Do Clássico ao Pop, Companhia das Letras, 2011, São Paulo.