O compositor brasileiro Gilberto Mendes. Fonte: Google Imagens,
É impressionante
como num período de menos de um mês sofremos perdas irreparáveis no mundo da Cultura.
Em 19 de dezembro, perdemos uma das maiores referências no período Romântico da
música erudita, o maestro Kurt Masur aos 88 anos. Dez dias depois (29/12), no
apagar das luzes de 2015, morre um dos últimos representantes da era jurássica
do rock, o baixista da banda Motörhead Lemmy Kilmister aos 70 anos. A esperança
que marca todo réveillon ainda reverberava em nossos corações, quando, no dia
1º, veio a notícia de que o mestre da música erudita contemporânea do Brasil, o
compositor Gilberto Mendes, havia falecido aos 93 anos. E não parou por aí: ontem
(05/01) perdemos um dos nomes mais importantes da música do século XX e a maior
referência do Serialismo Integrado, o compositor e regente Pierre Boulez aos 90
anos. E quando eu achava que já havíamos tido baixas suficientes para lamentar por
um século, eis que, ao acaso, descubro que o pianista Paul Bley faleceu em sua
casa na Flórida no domingo passado (03/01) aos 83 anos. Que obituário desolador...
O pianista Paul Bley. Fonte: Google Imagens.
Como fica
evidente pela idade desses artistas, assistimos ao ocaso de todo um ciclo cultural
que se iniciou no século passado, deixando um legado inestimável para
humanidade, mas que chegou ao fim por descontinuidade criativa e desinteresse estético.
A mudança de paradigma nos preceitos da arte tornou a comunicação com esse manancial
artístico de outrora apenas referencial, contemplativa e saudosista, promovendo, por conseguinte, um estranho
vácuo que nos desvincula artisticamente dessa produção. E quando falo em “mudança
de paradigma”, faço referência ao modelo que até então vigorava baseado na música
como uma forma de elevação do espírito humano, de expressão de uma visão de
mundo ou como o veículo das inquietações de uma geração – o que seria o rock
senão isto?! No entanto, tal modelo foi superado pela lógica efêmera da
hibridização de arte e mercadoria, experiência estética e consumo, moda e ativismo
político-social, estilização da vida e cool,
Cultura e fun. Mais ainda: esta alteração
de perspectiva, que vem se consolidando nos últimos 30 anos, promoveu – focando
na produção musical – essa ruptura cultural com o passado e nos deixou órfãos
de referências artísticas em nossos dias e com aquela incômoda sensação de
vácuo criativo reinante.
Daí que não há
mais espaço para “ícones de aço”, artistas-farol cujas obras são dotadas de
profundidade estética e sócio-cultural a ponto de se inserirem no continuum da História de forma perene e
se consolidarem enquanto memória, marcando gerações – como fizeram estes que se
foram. Com a diluição das estruturas de pensamento unificadoras da coletividade
em infinitos nichos de apreensão do mundo e o triunfo apoteótico da sociedade do
consumo de massa, testemunhamos a destradicionalização dos bens culturais promovida
pela sistemática do fluxo contínuo de novidades, do consumo-tendência estetizado
e de um presentismo de superfície que vive no ritmo alucinado de postagens no
Twitter. Assim, exemplificando, não há mais lugar em nosso tempo para o
surgimento de um novo Paul McCartney – e me refiro não em termos de cópia
musical, mas de estatura artística. Há, isto sim, espaço, palco, holofotes e
aplausos para uma multidão de ídolos de ocasião que se sucedem infindavelmente,
desprovidos de conteúdo artístico relevante, deificados pela mídia propagadora
do hype (afinal, julgamentos
qualitativos de uma obra é hoje considerado elitista, esnobe e demodê), os
quais se diferenciam e se impõem por razões extra-arte que os capitalizam
enquanto produtos culturais rentáveis – um discurso, uma extravagância, um padrão
de comportamento, um exotismo, etc...
Por tudo isso, é
de se lamentar bastante o retorno destes ícones para o Éter e daqueles que,
ainda por aqui, em breve os seguirão no caminho irreversível da morte, pois são
eles os últimos de sua espécie, seres em extinção, representantes de um tempo
não tão distante em que a Arte se propunha fornecedora de sentido, encantamento
e transcendência ante a crueza do mundo material e as contingências sensíveis
da condição humana.
Você poderia me
dizer, por gentileza, onde está passando o novo Star Wars? Falo sério! Porque, a
julgar pelo filme a que assisti hoje no cinema e pela euforia generalizada que
viraliza nas rede sociais deste vilarejo, só posso ter visto um outro filme que
não O Despertar da Força. Sinceramente!
Não consegui fazer a relação entre o que se passou na tela e o regozijo
coletivo que faz a cabeça de nerds,
saudosistase coolhunters. E antes que reclame de minha costumeira chatice e me pergunte
todo afetado, digo: sim!, desde de criança sou um grande entusiasta da saga
Star Wars, vi não sei quantas vezes todos os filmes e, embora desconfiado,
estava bastante curioso com uma nova trilogia dirigida por J.J. Abrams. Mas, o
resultado foi para mim uma decepção absurda! Desapontamento ainda mais gritante
por ser eu, ao que parece, e para minha surpresa, um raro espécime de entusiasta
frustrado com o novo filme, já que todos, público e especialmente a crítica, só
têm mil maravilhas a dizer sobre a película.
Bem, os entendidos
de cinema podem até vir aqui se meter em nossa conversa para querer vomitar
toda sua verborragia enfadonha e saracotear sua autoridade risível, tal como
um pavão velho e depenado, para justificar a glória cinematográfica que é O Despertar da Força. Mas eu, este bicho
estranho que não se deixa enquadrar por tendências, modismos e oba-oba, amante do
universo Star Wars de longa data, digo com muita tristeza que o filme é um
desastre. “Queiram ou não queiram os juízes” do gosto. Ponto final.
Nada lá faz sentido, meu caro. A começar pela trama
solta e confusa em que os eventos simplesmente acontecem por si. Não existe uma
construção narrativa que explique, por exemplo, por que a Primeira Ordem existe
e como ela conseguiu se estruturar de uma maneira tão grandiosa a ponto de por
a República em xeque do jeito que faz. Vale lembrar que O Retorno de Jedi dá um fecho épico - e sem furos - a toda a saga:
após uma expansão político-militar contundente capitaneada por Darth Sidious (o
imperador) e Darth Vader, o Império é derrotado pela Aliança Rebelde; sua arma
suprema, a estrela da morte, destruída; e seus líderes, mortos. A paz se impõe
sobre a galáxia, os símbolos do Império são destroçados, Luke Skywalker se
firma como a nova esperança da Força, Leia assume sua realeza e a República se
refaz após um período de totalitarismo. Como pode agora, meu Deus do céu,
começar tudo do zero como se nenhuma batalha tivesse sido travada e nenhuma
guerra tivesse sido vencida? O filme inteiro acontece nesse mero desenrolar de
fatos soltos no vento, num clima irritante de déjà vu, como se fosse uma versão alternativa para Uma Nova Esperança. E quando penso, meu
caro, no que foi a densa teia narrativa de
A Ameaça Fantasma – até então o mais fraco dos filmes – que prepara o
terreno para o esfacelamento da República e a ascensão do Lado Negro e o
comparo com essa nova abertura de trilogia... Chega dá uma tristeza.
Outro ponto que
me chamou atenção foi a superficialidade dos personagens: eles não são
construídos, são apresentados, impostos goela abaixo, sem qualquer profundidade
emotiva. Assim, “bandidos e mocinhos” agem como autômatos desprovidos daquela imprescindível
dimensão humana, seja boa ou má, que dá vida a esses seres fictícios e os põe emocionalmente
acessíveis ao público, de modo que O
Despertar da Força traz tão somente criaturas estranhas plasmadas numa tela
de cinema. E todos sabem, desde os tempos de Aristóteles em seus estudos sobre a
poética, como esse vínculo que só a verossimilhança proporciona é fundamental
para a fruição tanto estética quanto humana da arte de encenar, de criar sonho.
Por isso, com esse episódio VII, o público se torna uma espécie de voyeur que apenas observa à distância um
espetáculo marcado pela pirotecnia e o enfado. J.J. Abrams consegue a façanha
de transformar o cinema num “lugar onde ignorantes são convidados a ver
sofredores”, para citar um axioma de Platão a respeito do teatro que me parece bastante adequado aqui.
Também marca
presença nesse novo filme os velhos clichês de sempre. E como é cansativo, caro leitor,
o óbvio sendo jogado na sua cara o tempo todo. É como se Hollywood simplesmente
não conseguisse superar as velhas e novas questões geopolíticas dos EUA e o
sentimetalismo barato das soap operas para
fazer do cinema o território do pastiche fuleiro, repleto de alegorias
desgastadas e cenas desnecessárias. A Primeira Ordem remete claramente aos
nazistas com sua indumentária e gestual, e para não deixar qualquer dúvida até
para o mais desavisado fã, o diretor ainda arruma um general galego com sotaque
germânico para comandar da tropa. Já o vilão da hora, Kylo Ren, traz o ar
muçulmano materializado em sua máscara de contornos prateados, que me remeteram
a arabescos, e no traje de beduíno. Isso para não falar – e aqui vai um spoiler – no fato de que ele é o filho-rebelde
“mamãe não me deu meu All Star” de Han Solo e Leia, e, como você deve imaginar,
rola todo um sentimentalismo meloso. A conclusão desse arco, por sinal, é pra
lá de óbvia: no que o senhor acha que deu o encontro de um papai “não faça isso,
eu te amo” com um filho “eu sou malvadão mesmo e tenho sangue nos olhos!”? Para
mim, num ultraje. A morte de Han Solo foi um desrespeito não só a um personagem
importante em toda a construção da história, mas à saga inteira! Poderia dizer
que foi o assassinato do personagem certo na hora errada e da forma mais errada
possível. Patético...
E o que dizer da
protagonista Rey, uma catadora de lixo – na verdade de bugigangas eletrônicas
que troca por comida – largada num planeta decrépito que de uma hora para outra
se torna arquétipo de amazona da Força? Um desastre, meu camarada! Como pode a
Força se revelar assim por pura conveniência, de modo absolutamente
involuntário, como se fosse uma simples manifestação fisiológica do corpo,
feito um arroto ou uma sede repentina, quando o domínio desta a energia que
envolve os seres vivos nasce justamente de inverso do orgânico: do árduo
treinamento e da disciplina implacável? É um personagem imbuído de uma metáfora
tão pobre sobre a vocação e o destino que dá raiva. Raso e autoexplicativo como
personagem de novela da Globo. E ficarei por aqui,
porque se me alongar para comentar tudo o que me desagradou, isso deixará de
ser uma carta e se tornará uma dissertação.
Eu até entendo a
ideia de J.J. Abrams em “rejuvenescer a franquia quase quarentona Star Wars,
apresentando-a para uma nova geração sem esquecer dos fãs maduros”, como diz Érico Borgo em sua crítica no site Omelete. Mas, o grande enigma para mim é: será que
precisamos mesmo de uma nova trilogia de Star Wars? Obviamente que não, porque
nada justifica macular o legado de uma obra que revolucionou a história do
cinema, delimitou um novo imaginário e marcou gerações. Contudo, o que me
interessa não é a obviedade – mais uma – desta resposta, e sim seus
desdobramentos mais subjacentes e incômodos. De tal forma, penso que a “profanação”
desse universo cultural chamado Star Wars denuncia o empobrecimento criativo
que vivenciamos hoje, a presentificação do passado na forma de produtos
culturais dotados de “memória” que dão a ilusão do vintage, do distanciamento e da novidade ante a produção atual
marcada pela lógica do mercado e do descartável, e, sobretudo, denuncia o
quanto foi reconfigurado o velho esquema que atrelava o consumo – inclusive de bens
culturais – às obrigações da diferenciação social e o vincula agora à busca de
experiências, ao fomento de modos de vida intercambiáveis e à sensação de
pertencimento a uma coletividade que garanta ao indivíduo descentrado,
midiático e hedonista de nossos tempos alguma identidade embalada numa
pacotilha cool. Pois, como dizem os
sociólogos Lipovetsky e Serroy, “o consumo com componente estético adquiriu uma
relevância tal que constituiu um vetor importante para a afirmação identitária
dos indivíduos”[1].
E quem não quer fazer parte do delírio coletivo, sentir o glamour da apreensão fashionista de um consagrado artigo de
época? É um espetáculo triste de se testemunhar.
Por todas estas
questões, meu caro leitor, só me resta torcer para que os dois próximos
episódios salvem o que este conseguiu destruir. J.J. Abrams me deu pouquíssimos
elementos para inferir o que virá na sequência – somente a aparição de Luke,
que foi de arrepiar, diga-se. Contudo, sendo pragmático e trabalhando com o que
me foi apresentado, sinto um grave desequilíbrio na filmografia Star Wars que será
extremamente difícil de equalizar. Espero estar redondamente enganado. É
esperar para ver.
Cordialmente,
Bruno
Vitorino
[1] LIPOVETSKY, Gilles e SERROY, Jean; A
Estetização do Mundo: Viver na Era do Capitalismo Artista, Companhia das
Letras, 1ª edição, São Paulo, 2015, pág. 31.
No ar mais uma coluna “Playlist de
Editores”! Como de praxe, cada editor do Variações para 4 comenta o disco que
vem monopolizando sua atenção e seus ouvidos com o intuito de compartilhar com
os leitores experiências de escuta.
Boa audição!
- Rógeres Bessoni:
Este mês, voltei a fazer jornadas pelo
(para mim e para muitos) bom, grandioso, glorioso e abissal rock progressivo.
Estou agora entrando numa obra sugestiva, rica e épica, o disco 666 [The
Apocalypse of John 13/18] da banda Aphrodite's Child. O disco, lançado em 1972,
é uma viagem através do Apocalipse, alternando musicalizações e declamações de
várias passagens dessa obra a um só tempo religiosa, esotérica e literária, que
é um dos textos mais enigmáticos e fascinantes que o Ocidente herdou. A banda,
só por sua formação, me chamou a atenção quando ouvi falar dela pela primeira
vez. Nela estavam nada mais, nada menso que o greco-egípcio Demis Roussos,
antes do seu sucesso como cantor romântico nos anos 70, e Vangelis, antes das
suas experiências com música eletrônica que o consagrariam como um dos nomes
mais relevantes da música instrumental dos últimos 30 anos do séc. XX. Junto a
eles, o baterista Loukas Sideras segura as levadas com precisão e habilidade,
fazendo um “tapete” inventivo e seguro. Neste disco, juntou-se a eles ainda o
guitarrista Silver Koulouris. Fiquei curioso para conhecer a fase rock and roll
e, ainda mais, progressiva, de Roussos e Vangelis, e terminei mergulhando numa
extraordinária expressão do progressivo. Comecei pelo fim: “666” foi o último
disco da banda. Sugiro essa jornada sonora, principalmente aos interessados no
bom progressivo. Do “666”, destaco The
Four Horsemen, em que é musicada a passagem apocalíptica que descreve os
quatro Cavaleiros. Abaixo, segue o áudio para ouvir o disco na
íntegra, no YouTube. A obra da banda também está disponível para download no site Muro do Classic Rock.
- Bruno Vitorino:
Thelonious Sphere Monk. Esses três
nomes se traduzem para mim como uma referência musical absoluta que revisito,
com reverência e muito respeito, sempre. Em minhas recentes andanças por sua
discografia, quedei-me mais uma vez inteiramente fascinado pelo seu clássico
álbum “Brilliant Corners”. Gravado em 1956 pelo selo Riverside, o disco marca
um novo momento na carreira do pianista. Depois dois discos inteiramente
voltados para os standards, seguindo uma
estratégia comercial traçada pelo produtor Orrin Keepnews para quebrar uma
injusta pecha de “louco idiossincrático” que pairava sobre o músico, Monk finalmente
recebia carta branca para gravar um disco com suas composições “estranhas”. O
resultado é uma obra-prima.
Brilliant Corners, tema que abre e dá nome ao disco, é
simplesmente uma masterclass de
engenharia harmônica, ousadia estética e pessoalidade na construção das formas.
Poucos estavam preparados para encarar uma composição de trinta compassos que
quebrava o padrão AABA; apresentava uma progressão incomum cheia de cromatismos
descendentes e “esquinas” (na ponte: Am7 / D7 / - / G7 / Gb7 / B7 / E7 // Am7 /
Ab7 / G7 / Gb7 / F7), além de um ritmo harmônico irregular; trazia uma melodia forjada
em intervalos angulosos e paralelismos; e, ainda de quebra, dobrava o andamento
após o giro na forma. É possível ouvir os músicos lutando com o tema, buscando
entendê-lo e procurando improvisar em sua plataforma hostil. Há também a lindíssima
balada Pannonica, que Thelonious
escreveu em homenagem a sua grande amiga e confidente Kathleen Pannonica, a
qual poderíamos descrever parcamente como uma “rebelde com causa” oriunda da
aristocracia inglesa que se inseriu e apoiou (inclusive financeiramente)
figuras proeminentes do jazz moderno. Um tema difícil de tocar, de complexa arquitetura,
em que a melodia se entrega aos acordes com uma delicadeza tão poética e rara...
Uma composição que, no fim das contas, atesta não somente o gênio criativo de
um artista por muito tempo incompreendido, mas também o quão imensurável é o
poder expressivo da música. E ficarei apenas nestas duas faixas para não me
alongar mais do que já me alonguei.
Simplesmente
escute. É um disco obrigatório!
- Fernando Lucchesi:
Talentosíssima
cantora de soul music/pop dos anos 1960, a britânica Dusty viveu um relativo
ostracismo até ser resgatada por Quentin Tarantino, que incluiu uma das suas
grandes músicas na trilha sonora de Pulp Fiction. O disco inicia com o pop
singelo e inocente de I Only Want to Be
with You, segue com a epicamente dramática You Don´t Have to Say You Love me e chega na beleza melancólica de Son of a Preacher Man. Essas três
músicas são, sem dúvida alguma, as grandes músicas do disco e possivelmente os
maiores sucessos dela. No entanto, o disco está repleto de grande faixas e
arranjos vocais da melhor música soul e do pop, como I Just Don´t Know What to Do with Myself (regravada pelo White Stripes), The Look of Love e Wishing and Hoping.
- Giba Carvalho:
Minha
indicação sonora deste mês é um retorno de 16 anos no tempo. “Cantoria de Festa”
foi lançado em 1999 pela Kuarup Discos e é uma verdadeira aula de interpretação
de diversos ritmos peculiares ao Nordeste brasileiro. Do Xote ao Rastapé, do
Baião a Ligeira, do Galope ao Coco e do Rojão ao Galope, recebemos uma aula de
um dos maiores intérpretes vivos no mundo que é Xangai.
Este
trabalho é uma imensa homenagem a vários compositores que fazem a história da
música nordestina perpetuar-se no tempo. Algumas figuras bastante conhecidas
como Déo do Baião, Capinam, Jacinto Silva, Marinês e o Mestre Jackson do
Pandeiro se fazem presentes no disco. E outras, que hoje em dia, são muito
importantes como Juraildes da Cruz e o grande Maciel Melo.
Nóis É Jeca Mais É Jóia de Juraildes quase deu o nome ao
trabalho e abre o disco com um imenso destaque. Não É Brincadeira, de Maciel Melo, vem com um arranjo belíssimo e
um bandolim único. E, não poderia deixar de citar duas versões da obra do Maior
de Todos. A Função e Clariô do Mestre Elomar Figueira Mello,
este gênio supremo da música brasileira.
O
trabalho foi produzido por Mário de Aratanha e Xangai, teve os arranjos
elaborados no detalhe por João Omar (virtuoso Maestro e Violonista que é filho
de Elomar) e Xangai e tem participações de nomes como o de Armandinho no
Bandolim e Osvaldinho do Acordeon. Aqui para nós...não tem como ficar ruim.
Convido os senhores e senhoras para esta viagem
pela música nordestina.
- André Maranhão:
Estou
ouvindo “The Hour of Separation”, álbum lançado de modo independente e assinado
por Joseph Tawadros, um grande alaudista copta, nascido no Egito e radicado na
Austrália desde os seus três anos de idade.
Recomendo
o disco não apenas porque Joseph Tawadros nos brinda com o som do seu alaúde,
combinado com o riq de seu irmão caçula James, mas pelo fato de o trabalho
também revelar boas confluências entre sonoridades árabes, do Norte da África,
jazzísticas. E para referendar todo esse projeto, ninguém menos do que John
Patitucci (baixo); John Abercrombie (guitarra) e Jack DeJohnette (bateria)
dividem as faixas com Joseph Tawadros, imprimindo mais riqueza, virtuosismo e
variações melódico-harmônicas.
Meus destaques vão para as faixas Gare de L’Est; Give or Take; Forbidden Fruit
(momentos que podem nos lançar em uma verdadeira encruzilhada de timbres,
despejados em compassos bastante envolventes); além da riquíssima construção
melódica de The Hour. Recomendo também
ouvir os trechos onde a guitarra de Abercrombie cresce, combinada com modos
orientais em Phoenix; e Rose; o solo de Patittuci em In the Stars. Finalmente, para os mais
interessados em momentos mais meditativos, indico as faixas The Black Forest; Nostalgia in D; Promise,
belamente acentuadas pela estética dos modais de Tawadros.
Na coluna deste mês, os editores do
blog comentam o disco de estreia da banda Dônica, “Continuidade dos Parques”.
Boa leitura!
- Giba Carvalho:
Calma, senhores! Muita calma! É exatamente
isto que peço aos leitores e futuros ouvintes de “Continuidade dos Parques”, o
primeiro trabalho da Dônica. A banda é formada por Zé Ibarra (vocal e teclados),
Lucas Nunes (guitarra), André Almeida (bateria), Miguel Guimarães (baixo) e Tom
Veloso (violão). É justamente por este último nome que já podemos abrir um
pouco o leque sobre a fama repentina dos garotos. Tom Veloso é filho de Caetano
Veloso e principal compositor da banda (assina 9 das 11 músicas do disco). No
entanto, não participa das apresentações ao vivo do grupo, tornando-se um mero
espectador. Estranho? Confesso que sim.
Apadrinhada por Milton Nascimento (que
participa na canção – Pintor no Álbum)
a Dônica surge no mercado nacional como salvação e está muito longe disso. O
apadrinhamento por parte de grandes artistas é muito mais normal do que se possa
imaginar. Notadamente, a partir dos anos 70, tais atitudes tornaram-se mais
corriqueiras. Nada que se compare ao efetuado por Caetano e Chico Buarque na
década de 80, quando levaram várias bandas do dito rock nacional a diversos
programas de televisão da época e, principalmente, a Gilberto Gil quando
“afirmou categoricamente” ter descoberto Chico Science & Nação Zumbi nos
anos 90. Basta um pouco de curiosidade para sabermos que a verdadeira história
foi bastante diferente disto e afirmação do compositor baiano não passou de
mais uma grande jogada oportunista ao perceber o potencial dos pernambucanos.
E, não poderia esquecer, do próprio Milton Nascimento e sua parceria pífia com
o RPM nos anos 80 de onde surgiram essas “duas belezuras”:
É óbvio que seria injusto de minha
parte comentar o trabalho dos rapazes do Dônica unicamente pelo apadrinhamento.
Mas, que isto é um imenso diferencial, é fato. Por exemplo – pouco antes do
lançamento do álbum, já saiu na imprensa que os rapazes estavam num “retiro”
para composição do primeiro álbum (???) e que dariam entrevistas por email para
não atrapalhar o processo. Questiono: “Qual outra banda iniciante teria tanto
espaço na mídia se este fato não fosse tão relevante? ” E depois de ouvir o
produto final afirmo – “Muita frescura para pouco resultado. ” É bem verdade
que os rapazes tocam bem. Mas de que adianta tocar bem se suas letras não dizem
absolutamente NADA? Os arranjos são um emaranhado de inúmeras vertentes e, de
tão misturados, não formam a personalidade própria para o grupo. Soma-se a isto
o que já havia comentado num texto anterior sobre Mallu Magalhães: atualmente os artefatos tecnológicos fazem com que
qualquer Zé Mané possa gravar um disco. No caso específico da Dônica me parece
que uma banda jovem (como inúmeras outras), que faz um som café com leite
(ainda) e que vem recebendo atenção (que não merece) pelos laços sanguíneos.
Torço, honestamente, para que
futuramente não tenha que ler declarações pretensiosas como esta: “Ser rock
progressivo é ser tanta coisa diferente ao mesmo tempo. Ele junta as aventuras
psicodélicas à harmonia do jazz, aos timbres da música eletrônica, ao metal, ao
folk e a inumeráveis mais estilos''. Até porque, trata-se apenas de uma
banda iniciante, em busca de sua personalidade (espero honestamente que
estejam), que não diz quase nada no primeiro trabalho (fora o fato de tocarem
bem seus instrumentos) e que visivelmente pulou etapas na
sua formação.
Por outro lado, é um prato cheio para
os cabeçóides que afirmam ser fãs do Clube da Esquina e na verdade não sabem
nem o que de fato foi “O Clube”. E o que ele representa para a música mineira e
brasileira.
- Rógeres Bessoni:
Ouvir o trabalho de uma banda estreante
sempre produz uma indagação, para mim, instigante: será a banda efetivamente
nova, ou trata-se de uma banda apenas recente, mas que não conseguirá transpor
os territórios já conhecidos? Ouvir o primeiro trabalho de Dônica me deixou com
uma sensação dúbia, misto de muito prazer e gratidão pela nossa herança musical
recente, do Brasil e de fora, com o incômodo de estar tendo um prolongado déjà vu. Trata-se de um trabalho
indiscutivelmente bem tocado (embora os vocais não convençam nem empolguem
tanto) - talvez seja a melhor banda brasileira que ouvi nos últimos anos em
matéria de qualidade instrumental. Significa muita bagagem o fato de os caras,
todos muito jovens, entrarem de cabeça com um som tão bem construído. Mas uma
angústia me acompanhou ao longo de todo o disco. Uma agonia por, de fato,
parecer que não vamos nunca conseguir sair dos anos 70. Não me restaram dúvidas
de que os integrantes gostam de muitas das músicas e bandas que eu também
gosto. São inúmeras referências vindas do progressivo – aliás, é muito bom
ouvir um trabalho de tão bom progressivo saindo da uma galera tão nova -,
muitos elementos dos melhores músicos e dos melhores cantores brasileiros dos
anos 60 e 70. Mas em diversos momentos o som é “tão” Clube da Esquina (por
exemplo) que pra mim vai muito além da referência e mesmo da releitura: soa
como uma repetição, mesmo, repetição de padrões que já foram
extraordinariamente bem realizados pelos seus criadores.
Eu sei muito bem como é difícil
conservar a essência mas se livrar do formato de todas as suas influências logo
nos primeiros voos. A vontade de “ter feito aquela canção” pode facilmente se
converter na armadilha de fazer uma canção que é praticamente “aquela”. No afã
de tocar tudo o que se gosta, corre-se o risco de aplicar grande talento na
repetição dos modelos cunhados pelos mestres. Se é possível ouvir em Praga (disparado a melhor do álbum)
elementos que me lembraram Lô Borges, Jethro Tull (Thick as a Brick, mais especificamente) e Genesis, vejo a banda,
por enquanto, com muito potencial para o novo, mas ainda precisando atravessar
alguns ritos de passagem, talvez. Ou, quem sabe, precisem simplesmente ter
vontade, se precipitar na fúria criativa, assumir a coragem de “não ter nada a
ver com a linha evolutiva da música popular brasileira”, com fez Raul, abrir
mão da zona de conforto e dos elogios fáceis dos saudosos. A matéria prima é da
melhor qualidade, mas por enquanto só demonstram o que aprenderam (e foi bem
aprendido). Seria muito bom que a banda se mantivesse agregada e amadurecesse
na estrada, que ganhasse peso (não necessariamente no som, mas isso também
seria bem-vindo), que aprimorasse as letras e os vocais e se dispusesse a
traumatizar as expectativas. Sobretudo, faço votos de que os caras envelheçam
tocando, que ganhem peso existencial, porque esse talento, associado a
densidade e ousadia revolucionária, pode render coisas realmente preciosas para
nossa música sul-americana.
- Bruno Vitorino:
Dônica. Nunca tinha ouvido falar dessa
banda, jamais tinha escutado o que quer que seja que tocassem, mas já não
gostava dela. E não era um não gostar superficial, que se esquece facilmente numa
primeira distração. Porra nenhuma! Era uma antipatia contundente e irracional que
se materializava diante de mim como uma obrigação moral imposta pela
Providência, canalizando toda a rabugice de minha alma precocemente senil e ranzinza.
Mas, a culpa era só minha, inteiramente minha. Os meninos nada tinham a ver com
minhas escolhas. No caso, uma má. O fato é que tomei conhecimento da existência
da banda, de bobeira, ao ler uma matéria terrível do Jornal do Commércio
entitulada “Banda do filho caçula de Caetano Veloso, Dônica cria um novo Clube da Esquina”. “Puta que pariu!”, lembro de ter mentalmente exclamado. Mais uma
banda de “filhos de” que se vale do capital social da linhagem célebre para se promover
no mercado e se lançar como a mais nova sensação redentora do momento. Paciência,
como você pode perceber, leitor, não é uma de minhas virtudes. Enfim, li o
texto, prometi a mim mesmo, de joelhos no milho, que jamais voltaria a ler qualquer
caderno de cultura dos jornais recifenses, e deixei que o tempo apagasse de
minha memória a contrariedade que tive.
Meses depois, chego em casa cansado do
trabalho, querendo apenas me jogar no sofá e não pensar em nada. Ligo a TV. Primeiro
dia do Rock In Rio. Banda de abertura: Dônica. “Taí uma boa oportunidade de
conferir”, pensei. E que surpresa! Vi uns pirralhos de, no máximo, 20 anos de
idade apresentando canções com uma riqueza tão inesperada que não consegui
desviar minha atenção. Havia melodias de desenhos interessantes, progressões de
acordes que denunciavam um conhecimento de harmonia funcional além do básico
(IIm7 – V7 – Imaj7) e muita pesquisa, letras que buscavam se reconectar ao que existe
de melhor no cancioneiro popular do país e uma curiosa mistura de empolgação
adolescente, domínio de palco e medo ante a responsabilidade de dar o pontapé
inicial numa megafranquia da indústria do espetáculo - o Rock in Rio é mais do
que um festival, é uma marca, beleza?. Ri alto. Lembrei da matéria que tinha
lido e pensei, sem qualquer espanto, como os críticos daqui têm a capacidade de
enaltecer o irrelevante e de negligenciar o fundamental. Talvez porque muitos
deles – dizer “todos” seria uma crueldade incompatível com a modéstia que rege
meus modos –, não sabendo a diferença entre nota e acorde, jogam suas
impressões superficiais baseadas em achismos sobre os textos pré-formatados que
as assessorias de comunicação dos artistas mandam, a preço de ouro, para as
redações dos periódicos. Ao invés de análises estéticas, problematizações e
apontamentos interessantes sobre o trabalho artístico, recebemos dos jornais um
guia de consumo que mistura informação, entretenimento e tendências. Mas,
voltado à apresentação da Dônica, fiquei ainda mais pasmado com a qualidade
dos meninos enquanto músicos, a destreza que demonstravam ter no manuseio de seus
instrumentos e a capacidade que tinham de se comunicar no mundo objetivo da
forma musical. Era de botar muito marmanjo com anos de estrada no bolso. O
jovem Miguel Guimarães tocando um Fender Jazz Bass Jaco Pastorius, fretless, com desenvoltura e segurança,
construindo belas linhas, deu-me mais do que alegria: esperança. Tudo bem que
eu acabei dormindo no meio de Pintor...
Mas vamos por a culpa no cansaço acumulado da semana.
“Continuidade dos Parques”, disco de
estreia da Dônica, traz um bocado do que vi ao vivo pela tevê, contudo a suposta vantagem do ambiente controlado do estúdio fez com que aquela espontaneidade
do palco se perdesse em lufadas de “egolombra” e intelectualidade nonsense. Talvez por causa do afã em se
mostrarem artisticamente maduros, por conta da ímpeto em registrar, sem filtro,
todas as idéias que tinham para uma canção ou até devido à necessidade de
aderirem à lógica do “cabeça não convencional”, o disco termina por cair numa
redoma jovem-cult meio irritante. E
quando Milton Nascimento, o amigo de papai, aparece justamente em Pintor consigo até mesmo ouvir os suspiros
mais enternecidos, ver as faces mais lânguidas de poesia e encantamento. De qualquer forma, é um disco de estreia promissor. E se considerarmos que são apenas
crianças, podemos ainda torcer para que a Dônica não se deixe levar pelo oba-oba
delirante de mídia e público e revele todo o potencial que demonstrou ter de
cara. É apenas uma questão de ter calma, focar na música e superar seu esforço
um tanto quanto forçado em parecer setentista.
Avante, gurizada!
- André Maranhão:
O
primeiro álbum da banda Dônica, “Continuidade dos Parques”, emerge como um
trabalho feito por jovens entre 18 e 20 anos que estudaram juntos na Escola
Parque do Rio de Janeiro. A pouca idade (em termos cronológicos) de seus
integrantes, de modo algum diminui a importância de suas musicalidades. Por
sinal, os rapazes conseguem imprimir um som tecnicamente seguro, demonstrando
uma excelente consciência harmônica e uma boa capacidade de nos conduzir para
bons percursos melódicos, referendados por suas ligações com o rock progressivo
e matizes emepebistas, muito patentes no disco.
Algumas
vezes o som de Dônica pode parecer incomunicável e por demais intelectualista;
condição que levou o próprio Caetano Veloso (pai de um dos integrantes do grupo)
afirmar que a música deles tinha “muitos acordes” e era “complicada”. Por outro
lado, creio que essa complexidade no disco não é algo ruim no trabalho, mas um
ponto válido a ser lapidado, sobretudo se lembrarmos do quão a nova safra da
MPB e da música alternativa brasileira tem sido protagonizada por uma legião de
artistas ingênuos e superficiais. Não bastasse, ninguém menos do que Milton
Nascimento apadrinhou a banda!
Para
cumprir a ordem do disco, meus primeiros destaques vão para É Oficial e Casa 180, cujos timbres estão centrados na interessante habilidade
pianística de José Ibarra (também presente na instrumental Inverno) e em cores que podem sugerir um contato profícuo com a
música mineira do Clube da Esquina. A última faixa do disco, Assuntos Bons, além de sutil, parece
acenar para a influência de Caetano, onde Tom Veloso importa o aspecto do
violão de náilon e o som eletroacústico, fundido por guitarras distorcidas e
percussões, em uma sonoridade muito bem encaixada. “Continuidade dos Parques” é
um disco bom e que marca acento para uma turma bastante promissora.
- Fernando Lucchesi:
É
fato que a banda ganhou notoriedade em virtude da presença do filho mais novo
de Caetano Veloso (assim mesmo, apenas como compositor, pois ele raramente
participa das apresentações ao vivo). O fato é que não encontrar influência de
Caetano Veloso nas atuais bandas de pop/rock é difícil. Há uma clara influência
do compositor baiano. Influências à parte a que mais se sobressai no som da
banda é a do Clube da Esquina. Além disso, há muita referência e reverência ao
rock progressivo setentista.
O
disco abre com a interessante Casa 180,
uma mistura de Morais Moreira cantando com harmonias do Clube da Esquina e um
refrão bem pegajoso. Bicho Burro
segue a mesma linha. O maior problema do disco é que as músicas, em sua
maioria, são muito parecidas. Dá a impressão de que se você ouvir duas ou três
músicas ouviu o disco todo. Outro ponto negativo são as músicas longas demais
com solos que trazem o pior do rock progressivo e tornam maçante o som (Retorno para Cotegipe, Praga e Inverno estão nessa classificação). Carrosel parece ser a faixa que melhor exprime a ideia do grupo,
com sua melodia envolvente e muito bem estruturada. Trata-se de um disco de estreia muito bem
executado tecnicamente, mas com ideias musicais ainda confusas.
Pelo visto, João do Morro irá
do céu ao inferno em dois tempos. Ao menos em algumas esferas, onde antes
parecia bastante louvado. Pessoalmente, nunca gostei dos seus trabalhos; aliás,
para mim (e creio que para muitas pessoas), nunca foi uma novidade que seus
discursos estiveram marcados por óticas extremamente machistas, violentas, de baixo
calão. Como resultado, suas canções hoje arrebatam legiões de simpatizantes em um
estado tão violento como o de Pernambuco, sobretudo na Região Metropolitana do
Recife – eixo onde João do Morro parece dispor de um alcance mais forte, movendo
milhares de seguidores em seus palcos e trios elétricos.
No entanto, é preciso recordar
que o “signo” João do Morro não surgiu por acaso e nem espontaneamente; o mesmo
foi empoderado aos poucos, referendado em círculos da cena artística local que
o celebraram em videoclipes, festivais, e logo correram afobados para rodar
documentários sobre aquele “fenômeno”; artista também carregado por governos e
prefeituras “populares” e que não caiu de paraquedas em programas esportivos da
TV à toa – hoje posando de “figura do povo” e tecendo análises sobre os
desempenhos de Náutico, Santa Cruz e Sport, regadas a muitos caldinhos. Em outros
termos, João do Morro foi um produto construído estrategicamente por grupos
determinantes da cultura de Pernambuco, que hoje parecem coçar a cabeça com a
encrenca em que se meteram, ainda mais após o artista ofender sumariamente a
presidenta Dilma Rousseff. O Partido dos Trabalhadores, por sua vez, marcou
posição e lançou um texto em repúdio ao cantor, descambando na problemática da
violência contra a mulher e em todos os males que a mesma tem causado à
sociedade. Uma resposta, diga-se de passagem, pertinente e legítima do PT.
Por outro lado, penso que a
construção midiática e os patrocínios em torno de João do Morro são parte de
uma armadilha que me incomoda bastante: a inversão radical promovida pela
crítica / produção cultural, capaz de muitas vezes tratar um artista de
“periferia” como o expoente mais legítimo e sincero da “cultura popular”. Esse
tipo de lógica além de arriscada, pode se converter em algo ainda mais
impreciso e implodir aos poucos, sobretudo quando envolve uma figura como João
do Morro, alavancado sob a retórica de ser uma grande alternativa diante de
outros estilos e linguagens da arte supostamente considerados “burgueses”,
“pedantes”, ou “elitistas”, ou seja, simplesmente achincalhados por se tratarem
de gêneros de uma dita “dominação” e ou “alienação”. O resultado disso foi um
tiro no pé, pois um nome como João do Morro, ao cair no colo desse discurso de
“verdade do povo” e do retrato de suas “lutas”, passou a ser endossado pelos principais
jornais pernambucanos – jornais que muitas vezes pintam um artista que vem da
“periferia” ou da “massa” como alguém automaticamente isento de reprodutivismos
da cultura. Consequentemente, o erro desse tipo de cálculo, mais cedo ou mais
tarde não deixou de aparecer, na medida em que alguém como João do Morro, antes
já conhecido por cantar “Quer mamar, vá pra debaixo do burro”; “as nega
endoida”; "Não me diga que uma tatuagem; é sinal de puta" ou “Vou chamar a Polícia Militar – É pau!”, retoma o seu discurso
agressivo, taxativo (e agora ainda mais polêmico) ao pedir a Santo Antônio que
“arrume uma macho pra Dilma”; ou ao chamá-la de “chupa charque”. É claro que
tudo isso só me leva a discordar ainda mais desse tipo de enunciação articulada
por João do Morro. No entanto, não devemos esquecer que além de segmentos da
produção, crítica e imprensa locais, o cantor é parte de uma sequela que foi gerada
por políticos e gestões de esquerda em Pernambuco, outrora quando cacifaram o
próprio João do Morro e praticamente o tomaram como um “vanguardista das vozes
populares”. Ora, ninguém precisa bancar o Peter Bürger pra saber que canções
capazes de coisificar as mulheres, os negros e evocarem a violência policiesca
não são sinônimos de vanguarda nem de relevância estética. Porém, as
autoridades parecem ter acreditado nisso, ou tapeado muita gente reproduzindo
esse tipo de delírio.
Para finalizar, creio que o
Efeito João do Morro não deixa de remontar
aos trabalhos de Norbert Elias sobre o conceito de civilização – para ele um constructo sociohistórico, um processo
marcado por relações e desenvolvimentos de políticas higienistas que nos
cercam, através da oficialização de espaços “liberados” para vertermos nossas emoções,
quando, na realidade, as mesmas não deixam de ser controladas por dispositivos.
Em outras palavras (e transpondo esse paralelo para hoje), não esqueçamos que
apesar de ser muito digno opor-se às violências das canções de João do Morro –
artista que descreve Dilma como alguém que “bota em nosso cu” – não esqueçamos
que há anos atrás (e até mesmo há meses), outras tantas personalidades e
baluartes da cena artística de Pernambuco estavam em blocos satíricos a cantar
sobre os palcos “multiculturais”, bancados pelos cofres públicos e agradando
centenas de intelectuais, com paródias que envolviam Oscar Niemeyer “comendo a
mãe do presidente” (Lula); chamando cantoras da MPB de “cola-velcro”, testemunhando
a voz de mulheres supostamente traídas que chamariam “o negão pra resolver”; ou
na senda dessa turma que afirmava que iria “botar no cu” de uma série de
prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, deputados, dentre outros – tudo isso,
justificado sob o álibi de apenas tratar-se de uma “brincadeira de Carnaval”
(leia-se, de um lugar apropriado para situações de licenciosidade controlada), como
também, de um espaço bastante pautado por muita hipocrisia no ar, é claro!
Estreamos a coluna “Playlist de
Editores” com o intuito de compartilhar com os nossos leitores discos, novos e “das
antigas”, que estamos escutando no momento. Assim, cada um dos editores do
Variações para 4 apresentará um álbum acompanhado de um breve comentário trazendo
o porquê de sua escuta.
Boa audição!
- Bruno Vitorino:
A
Música Popular Brasileira tem uma série de pérolas que só vim descobrir há
pouco. “Orós”, quarto disco de Raimundo Fagner, é uma destas preciosidades.
Lançado em 1977 pelo solo estadunidense “CBS” (Columbia Broadcast System), o
disco é o momento mais sublime da carreira de Fagner, tanto no quesito poesia
quanto no viés interpretativo. Além disso, a direção musical fica por conta de
ninguém menos do que Hermeto Pascoal, e seu grupo é a banda de apoio. O
resultado é um disco que consegue, passando a anos-luz do clichê, criar um
sertão idílico, de poesia rara e profunda alicerçada por uma música que
extrapola os limites regionalistas da tradição para lançar-se aos terrenos da
vanguarda. Destaque para o fantástico de Cinza,
o lirismo sertanejo de Flor da Paisagem
e a construção primorosa de Cebola
Cortada. Um disco absolutamente obrigatório.
- Rógeres Bessoni:
Neste
momento, estou voltando a ouvir um obra que me marcou profundamente nos últimos
10 anos. Trata-se do álbum “Flamenco Árabe”, parceria realizada em 2003 entre
dois “monstros”: o músico egípcio Hossam Ramzy e o guitarrista de flamenco
nascido em Berlin Rafa el Tachuela. A obra é uma fusão intensa e bela da
poderosa música árabe do norte da África com o cortante e melódico flamenco
(parentes próximos, diga-se de passagem). Aí estão registrados de forma
primorosa momentos de profunda introspecção, como que esperando o chamado para
a oração do fim da tarde na mesquita, trechos intensos que remontam às
cavalgadas no deserto, dança do ventre e andanças pela Rota da Seda. Chamo a
atenção para Al Quantara, Ahlam Ghernatah e Kebreiaa Samet, sonoridades encantadoras e profundas que me remetem
até aos voos místicos sufis.
- André Maranhão:
Não
só “estou ouvindo”, como “ouço sempre”, o disco “Modo Livre”, de Ivan Lins.
Lançado em 1974, esse trabalho me agrada bastante porque além de canções bem
construídas e com letras assinadas por grandes mestres (Vítor Martins, Paulo
César Pinheiro, Caetano Veloso, dentre outros), o percurso de harmonia
desenvolvido pela musicalidade de Ivan é algo que me atrai e, diga-se de
passagem, recurso fundamental que o tornou um dos emepebistas mais férteis para
diálogar com uma estética jazzística.
Se pensarmos que o disco é contemporâneo à transição
dos governos Médici-Geisel, veremos que em canções como O Rei do Carnaval (cujo “povo é o rei primeiro” – a despeito da
triste época ditada pelo “rei guerreiro”); ou no verso por demais carregado de
força “Encosta essa porta que a nossa conversa não pode vazar”, há uma clara
dimensão de protesto. Além disso, destaco a importância de um Ivan Lins capaz
de combinar as cadências de seus sambas existenciais / vitalistas com sua bela
assinatura ao piano, brindadas com a famosíssima Deixa Eu Dizer (mais tarde regravada por Cláudya e Marcelo D2); Avarandado, Chega e o pot-pourri General
da Banda / A Fonte Secou / Recordar é Viver.
- Giba Carvalho:
O
disco que estou ouvindo no momento é “Mano a Mano”. Trata-se de uma apresentação ocorrida na Plaza de Toros de Madrid em 1993. O
trabalho é um compilado de 24 sucessos destes dois ícones da música
latino-americana. Aute é nascido nas Filipinas e Rodriguez em Cuba. Mesmo sendo
um álbum no formato “ao vivo”, indico a audição principalmente pela riqueza das
melodias e pela importância histórica destes compositores para a cultura de
seus países. Verdadeiras aulas de canções e letras bem escritas.
Indico – Anda,
De Alguna Manera, La Maza, El Necio e Ojala.
- Fernando Lucchesi:
Se
você, caro leitor, assim como eu, conheceu o som do Faith No More no início dos
anos 1990, quando a MTV rodava incessantemente os clips de Epic e Falling to Pieces
(duas excelentes músicas pop, diga-se de passagem), certamente irá se
surpreender com “Sol Invictus”. Primeiramente, esqueça aquela mistura de funk,
rap e metal que tornou a banda mundialmente famosa. É bem verdade que a banda
continua soando muito pesada, mas dessa vez está mais encorpada, com
acompanhamento de piano e vocais bem trabalhados.
Mike
Patton, em diversas das músicas soa como um verdadeiro profeta do apocalipse,
como em Separation Anxiety, Cone of Shame e Superhero. Mike Bordin continua castigando impiedosamente a bateria
e a guitarra intensa e sombria Jon Hudson dá o tom da maior parte das faixas do
disco. Isso não significa que a banda esteja preocupada somente em soar pesado
o tempo todo. Há espaço no disco para músicas de sonoridade mais pop e ainda
assim muito bem sucedidas como The Rise
of the Fall (com uma sutil levada de reggae no início da música), Sunny Side Up” e Black Friday.
Mas o que realmente chama atenção são as músicas
com acompanhamento de piano. A faixa-título do álbum é uma amostra disso. Uma breve
introdução sem guitarras, apenas com bateria, piano e baixo progredindo
harmonicamente. Além dela, a belíssima Matador
mostra o piano contrabalançando com o peso das guitarras. Um disco extremamente
bem feito e uma banda em perfeita sintonia. Certamente um dos melhores discos
de 2015.
Na coluna deste mês, os editores do
blog comentam o mais novo álbum da cantora baiana Karina Buhr, “Selvática”.
Boa leitura!
- Bruno Vitorino:
Acho Karina Buhr uma artista esperta. E
digo isso sem qualquer rastro de ironia ou viés pejorativo que a palavra “esperta”
possa denotar. Refiro-me tão somente à capacidade que tem de se construir
enquanto produto cultural que consegue por no mesmo pacote um grande apelo ao
vendável, largas doses de glamour intelectualizado e modismo cult de olho numa nova juventude supostamente
contrária àquela “geração Coca Cola” consumista e alienada; uma juventude que
se acredita engajada, cheia de causas e bandeiras libertárias, em eterno
conflito com o status quo da ordem
social não apenas deste país, mas, do mundo. É para esses jovens que Karina
Buhr canta. E como muito provavelmente a artista sabe que a música hoje, mais
do que despertar sensibilidades e comunicar espíritos numa comunhão via
experiência estética, contorna todas vicissitudes da técnica e do conteúdo
expressivo para referendar modos de vida, faz deles seu nicho de mercado e se
apresenta como referência simbólica para identidades subjetivas. Assim, numa
conjuntura de fim das Grandes Narrativas, de hibridização da arte com a lógica mercantil, de descentração do indivíduo ante o mundo e si mesmo, de
pulverização da realidade social em infinitas constelações simbólicas de
apreensão do mundo, Karina Buhr surge como um discurso, de certa forma,
unificador representante de um território imaterial que arrebanha todo esse séquito de jovens nefelibatas e adultos com “síndrome de Peter Pan” que brincam de
revoltados com a sociedade.
Por isso, é irrelevante se a música da
cantora é esteticamente inócua, como atesta veementemente este seu último
trabalho intitulado “Selvática”. Seu público alvo consumirá do mesmo jeito o
que quer que faça, bom ou ruim - se é que ainda faz sentido qualificar
produções no mundo líquido que relativiza tudo -, pois o que importa para ele é
o suplemento de alma, sonho e identidade que a grife Karina Buhr proporciona, já
que quando escuta a cantora ele não apenas frui uma manifestação artística, mas
consome a reboque uma atitude. Ouvir, curtir e compartilhar o pastiche punk Cerca de Prédio, por exemplo, significa
também, mais do que gostar de um som, apropriar-se de uma postura Ocupe
Estelita, ou seja, de suas críticas, de sua indumentária, da repetição passiva
de seu discurso e, inclusive, do patrulhamento ideológico que promove. Não sem
razão, o ativismo político da cantora (e não julgo aqui se este é legítimo ou
não) é sempre capitalizado como recurso de marketing
em prol de sua carreira artística. Por sinal, o próprio “Selvática” se
aproveitou da celeuma em torno da capa para transformar a polêmica em
estratégia de divulgação.
Quando lançou o disco virtualmente,
Buhr postou em sua página do Facebook a capa do disco, que trazia a própria com
os seios à mostra. Rapidamente a rede social retirou a postagem do ar sob o argumento da violação de seus termos de uso, o que gerou a reação enérgica da cantora
alegando falta de liberdade e resquícios de um cultura machista que se
escandalizava com a nudez feminina. Lógico, faço questão de deixar claro, que a
atitude do Facebook foi, para dizer o mínimo, contraditória. Como pode uma
empresa que militou há pouco a favor do casamento civil entre pessoas do mesmo
sexo se escandalizar com uma foto que não trazia qualquer conotação sexual,
apenas um par de peitos desnudos? Sinceramente, achei uma bobagem. Mas, o que
me deixou realmente impressionado foi como a artista se valeu do episódio para
promover o trabalho ocupando, com isso, os cadernos de cultura de inúmeros
veículos de comunicação e fazendo com que até o Ministério da Cultura se
manifestasse oficialmente por meio de nota contra a censura do Facebook. Ato
contínuo, uma multidão de seguidores, homens e mulheres, começou a postar em
seus perfis fotos com o peito de fora em solidariedade à cantora. Houve até mesmo quem se aproveitasse da ocasiãopara pegar carona na onda alheia e se promover em cima do episódio. Em resumo, uma “viralização” total que reforça para mim a
ideia de que Karina Buhr é menos cantora e mais espetáculo; menos uma artista e
mais uma celebridade que busca, surfando no mar da efemeridade de nossa cultura
contemporânea, ocupar um espaço de destaque na mídia e nos imaginários de
adolescentes e adultos infantilizados.
Portanto, não perderei meu tempo aqui
escrevendo as considerações que fiz sobre cada música que ouvi e reouvi não sei
quantas vezes do disco “Selvática”, pois elas não serão lidas como análises
estéticas de um trabalho artístico, e sim como ataques pessoais a indivíduos
que seguem – para usar um termo do momento – a entidade Karina Buhr. E, na boa,
a verdade é que, por sua música não possuir qualidades artísticas mensuráveis por
critérios tradicionais (e tradicional é bastante diferente de conservador,
beleza?), toda e qualquer análise musical que aponte os inúmeros aspectos negativos
que o trabalho traz em si é inapropriada, porque seu propósito não é estético,
porém midiático-mercadológico-comportamental ligado a um padrão de consumo
específico. E como não estudei Administração, Propaganda ou Psicologia do Consumo,
prefiro não entrar nessas áreas e dizer somente que “Selvática” é apenas mais
um disco com data de validade bem curto voltado para jovens revoltados de
apartamento e rede social ou adultos com crise de meia idade. Se você se
encaixar nestes grupos, parabéns! Certamente encontrará mais um placebo
para ludibriar sua própria consciência.
- Giba Carvalho:
A
estética sempre foi utilizada por diversos artistas como complemento de suas
falhas musicais. Notadamente, nos dias de hoje, percebo que inúmeros destes
artistas da "nova" geração investem muito mais no lado performático, do que nas
pesquisas para dar o real corpo que seus trabalhos necessitam.
Em “Selvática”, novo álbum de Karina Buhr, isto será atenuado unicamente pelo
vigor dos arranjos.
Com
um time de acompanhamento formado por Edgard Scandurra, Fernando Catatau, Guilherme
Mendonça e Manoel Cordeiro, a cantora baiana procurou desbravar sons estranhos,
vários ruídos, gritos, vozes soturnas e raros momentos de leveza. Tudo isto
acoplado a temas da atualidade, tais como – feminismo (principalmente), o
crescimento urbano desordenado pela especulação imobiliária (ou seria
política?), racismo e criminalidade. É bem verdade que todos estes temas devem
ser debatidos e que o artista deve ter a liberdade de criar como desejar e
pensar. O problema é como fazer isto de modo convencedor e que traga boas
sensações aos ouvintes. Em alguns momentos tais exposições foram de puro
sofrimento auditivo (Pic-Nic e Cerca de Prédio).
A
única coisa que ocorreu de modo diferente na audição deste álbum foi que
finalmente, Karina Buhr, conseguiu a proeza de me fazer gostar de uma música do
seu trabalho solo. Alcunha de Ladrão
é um reggae de qualidade, de melodia e letra bastante interessantes e que não
cai na chatice usual do ritmo. Muito bem trabalhado nos metais e nas guitarras.
Por
outro lado, tenho uma posição formada sobre a artista em ênfase. Para mim - “É
uma atriz em potencial e péssima cantora!” Isto não mudou com “Selvática”. O
que mudou desta vez, é que Buhr vem para a briga de “peito aberto” (não apenas
pelos seios à mostra na capa) e isto me agrada sobremaneira. Indiscutivelmente,
é o trabalho de uma mulher com personalidade e que vive “mutações constantes”,
embora estas, me pareçam mais convenientes do que naturais.
Para
finalizar, tenho certeza ao afirmar que este é o melhor disco de Karina Buhr em
sua carreira solo. Mas, particularmente não me convence por continuar com a
marca registrada dela – “pessimamente cantado e ótimo apenas para atuações.
Sejam estas nos palcos ou nas cabeças onde o vácuo anti-musical se propaga a
troco de piruetas e derivados afins.”
- Rógeres Bessoni:
Talvez não seja interessante começar
uma análise com “talvez”, mas é um problema o que primeiro quero levantar antes
de emitir qualquer opinião: talvez seja difícil definir “consistência” em uma
produção musical. Pode ser que isso – consistência – tenha a ver com um
casamento bem sucedido de grande inventividade musical com maturidade poética
nas letras. Pode ser que ela – a consistência – seja percebida como um impacto
que lhe faz parar tudo que estava fazendo, para prestar atenção a um portal
interdimensional que apareceu subitamente no meio da rua, num dia comum. A
finalidade não é multiplicar as alegorias para aproximar a consistência do
nosso campo visual imaginário. Apenas declaro com total honestidade que há
muito tempo não sinto, oriundo da nossa cena musical, o impacto consistente das
coisas novas.
“Selvática” mantém essa ausência de
surpresas. Sem grandes achados melódicos, sem grandes achados poéticos, com uma
boa banda, mas em nada surpreendente, o disco é, no máximo, morno. Mais um dos
registros da onda morna em que flutua a música pernambucana pós-mangue. Karina
encaixa alguns vocais bem colocados, como em Dragão e Despediço-Te-Me,
com uma voz cristalina em certos momentos, mas sem grandes voos de ousadia ou
interpretação de real fúria - nem na faixa-título, em que mais selvageria com
técnica seria muito bem-vinda. Não ficou nada de fato marcante, nenhuma
“assinatura” como intérprete. Enquanto isso, o tecido musical, apesar de
executado de forma competente, é de uma limitação irritante e nos precipita na
monotonia de ouvir um disco inteiro sem nada de hipnótico: nenhum riff, nenhuma melodia, nenhuma pegada de
bateria, nada.
Há boas sacadas nas letras, como em Alcunha de Ladrão, mas são apenas boas
sacadas, nada que aponte um novo caminho ou abra trilhas para outras
percepções. As letras não revelam, não ameaçam e não assustam o cotidiano – nem
nos conduzem a vê-lo “pelo lado de fora”. Por isso, o disco é morno: em todo o
trabalho, não há uma única construção sonora ou textual que se estabeleça como
um marco. O disco inteiro não conduz ou aponta para absolutamente nenhum
caminho novo. Vi um dos comentários sobre a obra dizendo que ela “peita o mundo
machista”, e para mim não peita. Qualquer que seja sua temática ou intenção, o
texto do disco não alcança de jeito nenhum os níveis radioativos que a poesia
necessita para afrontar e desmantelar um universo e, em seguida, plasmar outro
vigorosamente. Não tenho nenhum motivo para duvidar da sinceridade e seriedade
das buscas musicais de Karina Buhr, mas ainda não foi dessa vez que sua obra
desferiu o golpe certeiro de uma guerreira do Daomé.
- Fernando Lucchesi:
No
seu terceiro disco a cantora e compositora baiana mescla peso e melodia. Fica
explícita no disco a intenção de fazer uma mistura das principais influências
da cantora. Há desde pop, punk rock, reggae e até um pouco de maracatu em algumas músicas.
O
álbum abre com Dragão, música com
muita percussão e alguns naipes de metal, mas que não sai do lugar comum. O
disco muda com Eu Sou Um Monstro. Com
uma letra provocativa, Karina Buhr sugere às mulheres que mostrem seu lado
selvagem ao se verem acuadas diante de diversas situações em que são vítimas.
Ao mesmo tempo em que reflete sobre a apatia, ela revela a mulher forte e
lutadora ao confessar “ser um monstro”. A música flui muito bem, densa e pesada,
mas cadenciada com uma guitarra muito bem executada e cheia de efeitos sonoros.
Com uma base eletrônica e muita percussão Conta
Gota funciona bem e revela uma cantora que evoluiu em relação aos seus
trabalhos anteriores.
O
grande problema do disco reside na sequência de músicas pesadas, com notada
influência do punk rock. Apesar de
muito bem executadas pela banda de apoio, a voz de Karina Buhr definitivamente
não funciona em músicas nesse estilo. A voz dela fica tão fraca por cima de
camadas de guitarras que, muitas vezes, fica até difícil compreender o que ela
canta. Pic Nic (possivelmente a
música mais fraca do disco), Esôfago
e Cerca de Prédio vão todas nessa
mesma direção. Voluntária ou involuntariamente, Karina parece ter elaborado um
novo hino para o movimento Ocupe Estelita com Cerca de Prédio”, em que critica abertamente a especulação
imobiliária.
Já
no final do disco, Buhr segue mostrando mais explicitamente suas influências
regionais com Rimã (com uma bateria
característica de maracatu), Alcunha de Ladrão
(um reggae com toques de guitarra
paraense). Mas, apesar dessas duas músicas a cantora não abandona sua verve pop e encara duas ótimas baladas Vela e Navalha (essa, com uma guitarra
com leves toque psicodélicos) e Desperdiço-Te-Me”.
O disco encerra com a faixa-título do álbum Selvática,
um longo poema musicado que não tem nada de muito especial. Um disco que
surpreende, apesar de algumas limitações da cantora.
- André Maranhão:
Creio
que para entendermos “Selvática” é preciso situar Karina Buhr. Se Mônica
Salmaso, Alcione e Céu, são cantoras; Adriana Calcanhoto, uma cancionista; Rosa Passos, uma
intérprete; para mim, Karina é muito mais uma performer, cujostrabalhos
se posicioname rendem melhor no
embaralhar da canção com a foto, o videoteipe, a colagem, o figurino, a
maquiagem e a arte feminista / crítica ao falocentrismo. A capa do álbum,
inclusive, já mostra como a força do visual faz parte de sua estética, ao mesmo
tempo em que ouvir o disco revela que analisar Karina a partir de recursos
técnicos de seu canto pode não levá-la a muitos elogios.
Primeiramente,
uma grande parte de “Selvática” se perde numa poética, que embora aparente uma desconstrução
da linguagem – preocupada com os “rastros” das palavras, ruídos e entonações – se
converte mais em um discurso autorreferente, repleto de tautologias (“mordida,
a pele fica ferida”), frases repetitivas e, fazendo aqui um trocadilho com a
canção Pic Nic, “sem graça”. Essas
posturas se estendem da primeira à quinta faixa do álbum. Para mim, o melhor do
disco se concentra em Cerca de Prédio,
Vela e Navalha, Rimã, e Alcunha de Ladrão
(esta última a melhor canção do trabalho de Karina), pois nesses trechos, ela alterna
bem entre o punk, a ciranda, o reggae; e arredonda melhor sua voz, como
também apresenta uma literalidade mais interessante nessas canções. Ainda
assim, estou longe de considerá-la uma cantora, propriamente falando.
As
duas últimas faixas (Desperdiço-me-te
e Selvática) me chamaram atenção mais
pela qualidade literária e menos pela musical. Ambas as canções poderiam,
inclusive, servir perfeitamente como bons poemas, mas não brilham igualmente no
formato de canto. Consequentemente, o desencaixe entre a qualidade da palavra
escrita e a perda de intensidade de uma palavra cantada, me incomodou várias
vezes em Selvática. Por isso, penso
que Karina poderia optar mais pelo arredondamento de suas melodias e insistir na
harmonia como recurso instrumental de sua banda, pois é possível realizar
trabalhos de crítica mais contundente, além de uma fértil desconstrução
linguística, sem recorrer ao misto de guitarras e sintetizadores empobrecidos,
tampouco sem necessariamente amontoar cantos esparsos e caóticos para reunir qualquer
mensagem política mais sólida e militante. Ora, basta escutarmos artistas como
Itamar Assumpção, Sergio Sampaio, Jards Macalé, Badi Assad e Tom Zé, para
lembrarmos que é possível experimentar a arte sem abrir mão de afinação, qualidade
harmônica e literária.