Se há alguns atores que não
conseguem se livrar do estigma de um papel, alguns músicos também não conseguem
se livrar de alguns dos seus sucessos ou de sua antiga banda. Noel Gallagher
bem que tentou no seu primeiro disco com seu novo projeto, o homônimo High
Flying Byrds. O disco tinha canções ótimas e muito bem trabalhadas do ponto de
vista de arranjos e melodias como “The Death of You and Me” e “Wrongbeach”. Após um
hiato de pouco mais de três anos ele volta com o mesmo projeto e um novo disco,
Chasing Yesterday. No entanto, basta
ouvir a primeira música do álbum para percebermos de imediato que Noel Gallagher
ainda não se livrou dos fantasmas do Oasis e de sua canção mais conhecida, “Wonderwal”.
“Riverman”, faixa de
abertura, sintetiza todos esses fantasmas que ainda circundam o músico. Tem
aquele mesmíssimo violão de "Wonderwall" sem possuir a maior virtude desta que é uma irresistível levada pop. É somente
mais uma música que poderia estar em qualquer um dos
piores discos do Oasis. Acrescente-se a isso um solo de guitarra completamente
sem sentido e teremos um péssimo exemplo de música “inspirada” em outra. A
falta de originalidade não se resume apenas à “Riverman”. “In The Heat of The Moment”, “The Dying of The Light”,
“While The Songs Remains The Same” e “Ballad of The Mighty I” são faixas que
parecem estar no disco apenas para acrescentar tempo. São enfadonhas e
sem um pingo de originalidade nos arranjos, além de terem melodias pouco
cativantes.
Os melhores momentos do disco
estão na segunda metade. Há algumas faixas que merecem destaque. “The Mexican”
com sua levada “stoneana” e um excelente riff
talvez seja o ponto alto do disco. As melhores faixas do disco, na verdade, são
aquelas em que o músico arrisca colocar as músicas mais aceleradas e levar mais
para um lado rock n´roll. Funcionam bem nesse sentido “Lock All The Doors” e “You Know We Can´t Go Back”. A
exceção a essas faixas mais aceleradas é “The Right Stuff”, mais próxima de uma
balada, mas com um ar soturno com trechos de sax e efeitos psicodélicos. O
backing vocal de Joy Rose ajuda a ressaltar esse caráter psicodélico da música.
Se há um adjetivo para classificar Chasing Yesterday é mediano. Metade das
faixas têm ótimos arranjos ou melodias e outra metade carece de um mínimo de
inspiração. Tomara que num próximo álbum, Mr. Gallagher retome a inspiração do
primeiro disco do High Flying Byrds.
Na coluna deste mês, os editores do
blog comentam o disco de estreia do cantor pernambucano Johnny Hooker, “Eu Vou Fazer
Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!”
Boa leitura!
- Giba Carvalho:
Johnny
Hooker é uma mistura de Cazuza com Ney Matogrosso da Rua da Moeda. A afirmação
pode parecer irônica, mas, não tem nada de ironia na mesma. Escrachado nos
vocais como o ícone oitentista, performático como gigante Ney e recheando seu
disco com tudo aquilo que é modinha na cena cultural recifense (quiçá
brasileira), o ator-cantor pernambucano vem galgando seu espaço a passos largos
dentro da carente música nacional.
“Eu
Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!” (EVFUMPTA,M!) é um animado
disco de dor de cotovelo daquelas de arrombar! Lágrimas incontidas, berros e
emoções aflitas são os principais fatores encontrados no disco. E o garoto não
compõe mal com seu palavreado usual, cru e urbano.
Musicalmente
falando, ao contrário do que se propaga por aí, o referido álbum não é a
“salvação inovadora do mercado”. Mas, ressalto três pontos bastante
interessantes:
Os
arranjos de metais do álbum são primorosos!
Inegavelmente,
o trabalho de Hooker tem personalidade. Para mim, este é um ponto de grande
valia.
E,
o principal, embora muitas vezes parecendo com Cazuza, o rapaz canta bem. E
isto, num meio que perpetua e idolatra “Otto`s, Trummer`s e Buhr´s” (onde o
bonito é cantar mal), é uma diferença IMENSA!
“EVFUMPTA,M!”
é daqueles álbuns que será bem recepcionado nas festinhas “descoladas” de
Recife, passando pelos “pega-bêbo” onde cornos choram as suas lágrimas e em
vários Mp4 da “tchurminha” da cidade. Se isto vai enquadrar-se no seu conceito
pessoal de música popular, já é outra história. Vou mais além. Conscientemente
ou não, o disco de Hooker é um trabalho lançado no momento exato para fazer
sucesso e passa longe de qualquer postura “careta” e “conservadora”.
Particularmente, não é o que costumo (e gosto) de ouvir, mas ainda assim,
prefiro o escracho a sacarose exacerbada da MPB Cupcake, tão propagada aos
quatro ventos.
Destaco
no álbum: “Volta”, “Alma Sebosa” e “Eu Vou
Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito”.
- André Maranhão:
O
álbum de Johnny Hooker é bom, assim como a sua eleição de melhor cantor de
canção popular, no último Prêmio da Canção Brasileira, é positiva. Há algum
tempo, a música produzida em Pernambuco que propõe uma estética vinculada ao
BregaCult, ou ao Pop, não apresenta em sua linha de frente tantos artistas
afinados e que, ao mesmo tempo, criam trabalhos autorais
bem feitos. Pelo contrário, é possível nos depararmos com performers muito mais cuidadosos com seus elementos gestuais,
figurinos do que com a precisão e segurança dos seus cantos. Diferentemente,
Johnny Hooker consegue se fazer um bom cantor, ao mesmo tempo em que se vale de
maquiagens chamativas e traz consigo um figurino interessante, cujas
influências de Secos e Molhados, David Bowie e do Tropicalismo podem ser
claramente apontadas. Em seu disco, as faixas que mais chamaram a minha atenção
foram “Alma Sebosa”; “Volta”; e “Você Ainda Pensa”. De modo mais amplo, as
canções de Johnny Hooker trazem poucos acordes, melodias claras, bem executadas
pela banda, como também letras coloquiais e bem escritas. Portanto, creio que o
trabalho de Johnny Hooker consegue atrair pelo fato de nos oferecer o que há de
virtude quando a forma do simples se apresenta de maneira bem executada.
- Fernando Lucchesi:
Não
é fácil categorizar “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!”. O
disco de estreia do pernambucano Johnny Hooker é uma junção de tudo que há de
mais popular na música brasileira. Há brega, pop, um pouco de rock e até mesmo
frevo. A temática das músicas de Hooker gira em torno das relações amorosas e
os sentimentos que delas derivam como tristeza, mágoa, felicidade, superação e,
eventualmente, do perdão quando do fim do relacionamento. O que chama a atenção são os arranjos
“bregas” (coloco entre aspas, pois são mais baseados em gêneros caribenhos do
que no brega feito e produzido no Brasil) e a voz rascante e melodiosa de
Hooker que se encaixa perfeitamente na dramaticidade das letras.
Os
destaques do disco são, além da faixa título, “Volta” (um bolero com roupagem
moderna), “Alma Sebosa” (que segue a mesma linha das duas anteriores), “Chega
de Lágrimas” e “Amor Marginal” (curiosamente as cinco primeiras músicas). O
resto do álbum é interessante, mas as faixas não são tão intensas como as acima
citadas, porém são bastante coerentes com a ideia central do disco. Ótima
estreia de Hooker.
- Bruno Vitorino:
Um disco que mergulha no clichê da dor
de cotovelo e se vale do cansativo lugar-comum da estética brega-cabeça da
classe média recifense que, elevada à categoria de arte, tomou conta da
produção musical desta pequena vila, com letras escrachadas sobre amores mau resolvidos
e estereotipados, só que cantados por um artista jovem, performático e com forte apelo à mídia que sabe, ao menos, como projetar sua voz (o que por si só já é raro no Recife), e
que eu não aguentei ouvir até o final: eis o máximo que consegui escrever com o
pouco lastro que “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!” me
proporcionou.
O mundo do jazz
perdeu hoje um de seus filhos mais pródigos: morreu, aos 85 anos, o compositor
e saxofonista Ornette Coleman.
Nascido no Texas,
autodidata, Ornette começou no blues,
tateando as formas, descobrindo no ato da performance o insondável poder da
improvisação e construindo desde o início uma sonoridade única, fruto de uma
necessidade premente de expressar a si mesmo, ir além da óbvia e inescapável
influência de Charlie Parker, romper com as cercanias estéticas da tradição.
Por conta disso, sempre foi uma figura controversa, impressionando muitos com
seus fraseados aparentemente soltos e sua música livre (como o pianista Paul
Bley que, reconhecendo o gênio, foi o primeiro a gravar o conjunto do
saxofonista num disco em que aparece como líder); mas também colecionando
inúmeros detratores que viam nele nada mais que uma fraude, um músico menor que
não sabia tocar seu instrumento (como um enciumado Miles Davis que de repente
não era mais o centro das atenções).
Reza a lenda que
Coleman, numa das muitas jam sessions de seus anos de formação, foi interpelado
pelos outros instrumentista por estar “tocando errado”. De fato! Ao ler as
partituras, os músicos repararam que ele não estava transpondo as notas como se
esperaria que um saxofonista o fizesse – o sax alto é afinado em mi bemol e não
em dó. Era como se ele tocasse uma melodia paralela, que se chocava com o campo
harmônico estabelecido pelo encadeamento de acordes. O que era ouvido pelos
demais como desafinação soava aos ouvidos de Ornette como natural. Esse
paralelismo melódico foi depois estruturado num método de composição e
improvisação que o saxofonista chamou de “Harmolodics” – e, por sinal, esse
princípio era o que dava a força do duo Ornette Coleman/Don Cherry. Em resumo,
Coleman privilegiou a improvisação coletiva, a superação do centro tonal e da
progressão harmônica e subverteu a concepção rítmica de swing, ou seja, “apenas”
demoliu os pilares estéticos do jazz e o revolucionou ao abrir caminhos inteiramente
novos. Isso em 1959, quando o Ornette Coleman Quartet chegou a Nova Iorque para
uma lendária temporada no Five Spot Café, monopolizando a atenção de toda a
cena jazzística de então. Um estrondo tão imenso que encobriu inclusive um
certo “Kind of Blue” que fora lançado à época...
Manteve-se na
ativa, produzindo, procurando, arriscando-se e refletindo sobre música e seu
papel na sociedade até os últimos momentos de sua vida, conforme registra sua
vasta discografia, que traz em si alguns discos obrigatórios para qualquer ser
humano que manifeste o mínimo interesse por música: The Shape of Jazz to Come, Free
Jazz, Change of the Century, This is Our Music. Um gênio dentre uns
poucos na música contemporânea que deixa um legado inestimável para a humanidade.
Particularmente,
tive a sorte de ainda conseguir tê-lo visto em ação. Foi em novembro de 2010
que assisti a um Ornette já velhinho, lânguido, é verdade, mas nem por isso
menos comprometido com a comunhão espiritual que nasce da música, com seu
projeto Sound Grammar a por tudo abaixo. Quanta profundidade expressiva,
diálogo, riscos, beleza e complexidade. Quatro músicos respirando como um só,
comandados por uma racionalidade inquieta e amparados por uma emotividade
absolutamente humana.
Foi-se um mestre
que se alimentava daquilo que o historiador Peter Gay chama de “fascínio da
heresia”: aquele impulso atávico de se por em xeque, de manipular o proibido,
de negar o cânone e de criar o novo. O mundo perde bastante com seu retorno ao
éter.
Na coluna deste mês, os editores do
blog comentam o mais novo trabalho da cantora Björk, seu recém-lançado “Vulnicura”.
Boa leitura!
- Giba Carvalho:
Em
seu novo álbum, Björk tenta expor e ao mesmo tempo sarar as feridas do fim do
seu casamento. Parece receita de bolo da vovó, mas até mesmo na gélida
Islândia, o idoso mote afetivo serve como inspiração para novas composições.
Pois bem, "Vulnicura" é um disco muito bem produzido e que possui alguns pontos
interessantes.
Primeiramente,
os trabalhos da "Deusa do Gelo" parecem ser feitos para transcender o
espaço único da música. Talvez por conhecimento das apresentações ao vivo de Björk,
insista em dizer que a artista em foco pensa sempre que seus discos são unicamente
para encenações tão peculiares as suas apresentações. É como se fosse uma peça
de teatro constante, intensa, lotada de diversos artefatos e que toda produção
fonográfica fosse a trilha sonora para tal. Ao vivo funciona muitíssimo bem. Já
para audição, “Vulnicura” torna-se enfadonho e confuso.
Os
gemidos incessantes de Bjork transitam de forma eficaz numa tentativa de mesclar
música erudita com tons de eletrônico. Tenho que levar em consideração, que em
comparação com trabalhos anteriores, este é um dos álbuns que ela menos
arriscou em termos instrumentais. Isto fez com que o disco soasse altamente
estranho. A mescla supracitada é insuportável (com exceção dos arranjos
de cordas que são muito bons). Voltando ao ponto de vista vocal, a cantora desfila momentos de
extrema emoção e dramaticidade em vários momentos do álbum. Para que o leitor
tenha idéia, as seis primeiras canções do disco são como se fosse um glossário
dos períodos pré e pós-separação. Não tem como não ser de outra forma. É
completamente perceptível.
“Vulnicura”
é um disco passional por inspiração, chato nos arranjos e contraditório nas
composições. Nada diferente das almas que sofrem por amor.
- André Maranhão:
Para
mim está bem claro que Björk é um ícone da música. Seus lances performáticos,
somados aos seus gestos camaleônicos deixam isso claro há mais de décadas. O
álbum “Vulnicura” também faz jus a todas essas qualidades da artista islandesa.
O uso de instrumentos eruditos embaralhados com sintetizadores, colagens,
ruídos sampleados, além da vocalização bastante afinada de Björk, contendo,
inclusive melodias nórdicas, estão presentes nas canções desse trabalho. Creio
que em algumas faixas isso funciona bem. Aqui, destaco Stonemilker (para mim, a melhor do disco); History of Touches; Atom
Dance e Black Lake – embora, não
considere todas elas necessariamente boas por completo. As demais faixas me
parecem confusas, onde Björk vagueia entre os mares de sua voz desconexa com os
ritmos eletrônicos e os instrumentos acústicos que trouxe para o álbum. Apesar
da importância dessa artista, confesso que em alguns momentos, foi uma tarefa
bastante árdua concluir a audição de “Vulnicura”. Mas é possível que ao se
combinar com as apresentações de Björk no palco, essas canções envolvam mais,
pois lá estarão presentes outros recursos multimidiáticos e cênicos, tais como
telões, figurino, maquiagem, expressão corporal, importantes para compor o
sucesso da artista, cuja competência ela já demonstra possuir faz tempo.
- Fernando Lucchesi:
Ainda
me recordo a primeira vez que ouvi falar em Björk. Uma colega de classe me
falava demais sobre a banda dela, o Sugarcubes. No entanto, como qualquer
pessoa no começo dos anos 1990, a primeira vez que vi e ouvi Björk foi através
da MTV no clipe de uma música chamada Human Behaviour. Clipe muito bem feito, mas quando ouvi o estilo de música que
ela cantava a decepção foi grande. Aquela voz baixa, quase fraca que parece que
vai desaparecer realmente não fez minha cabeça. Eis que agora foi proposto pelo
blog analisar o novo álbum dela, intitulado “Vulnicura”.
Bom,
quase 20 anos depois de ter escutado Björk pela primeira vez continuo achando
uma das coisas mais enfadonhas da música. A voz dela aliada a alguns arranjos
de teclado meio New Age transformam
boa parte do álbum num excelente soporífero, mas seria injusto dizer que tudo é
ruim. Os arranjos de cordas são muito bonitos e bem executados, como, por
exemplo, em Stonemilker e Lionsong, só para citar dois exemplos.
Outro destaque do disco é a longa e intensa Family.
Enfim,
se você é fã de Björk você vai se deleitar com Black Lake, uma mistureba de sons eletrônicos de dez minutos de
duração e vai achar o disco uma das coisas mais revolucionárias do planeta. Mas
se você, assim como eu, não tem nenhum apreço pelo som dela, passe longe desse
disco.
- Bruno Vitorino:
Não
sou um expert em Björk. Muito pelo
contrário. Quase nada conheço da cantora, além de sua brilhante atuação no
filme “Dançando no Escuro” (2000), dirigido por Lars von Trier, e da trilha sonora que a artista compôs para esta película densa e emocionalmente profunda.
Lembro – e isso faz muito tempo – de ter ficado bastante impressionado com a
música em si, o uso que Björk fazia de batidas eletrônicas, da sonoridade emanada
do maquinário que sua personagem manipulava, das harmonizações vocais, dos
timbres orquestrais, enfim com a música grandiloquente feita por alguém que
sabia exatamente o que estava fazendo. Um trabalho musical primoroso que
dialogava de modo muito interessante com o filme, conferindo-lhe ainda mais
peso emotivo. Por sinal, nunca me esqueci do quão desnorteado fiquei ao final da
sessão de cinema. O impacto do filme, potencializado pela trilha sonora, atingiu-me
em cheio e saí da sala embevecido pelo prazer estético.
Para
além deste trabalho, no entanto, nada conheci além do hype-divaque envolve a
cantora islandesa. E, apesar de ter gostado de “Dançando no Escuro”, todo este
frenesi cult me manteve afastado e
absolutamente desinteressado por sua música desde então. Acabei trilhando outros
caminhos sonoros que me levaram para longe de suas fronteiras estéticas.
Contudo, “Vulnicura” e a necessidade de comentá-lo para a coluna fizeram com
que me reencontrasse com Björk depois de todo esse tempo. Foi, confesso, uma agradável
surpresa.
“Vulnicura”
é um disco extremamente íntimo no qual a cantora disseca o fim de seu
relacionamento com Matthew Barney e a devastação humana que isso lhe causou
numa espécie de drama eletro-orquestral. É um disco fragmentado, como um
coração em frangalhos, onde cada canção esmiuça resquícios de sentimentos por
vezes conflitantes, pinta aquilo que poderia ter sido entre eles e medita sobre
as repercussões emocionais do ocaso do amor onde, no entanto, um ainda ama.
Porém, a segmentação do álbum, mais do que comprometer sua coesão narrativa,
aprofunda-a, pois cada música parece estabelecer entre si um laço emocional,
como se cada uma delas jogasse luz sobre um aspecto diferente do sofrimento uno.
O andamento largo que perpassa todo
ele, mantém, do ponto de vista musical, sua unidade e é o fio condutor que leva
o ouvinte a percorrer as paisagens emocionais que Björk constroi com o uso de belas tessituras nas
cordas, de uma sólida base rítmica promovida pelas programações eletrônicas e de
ricas melodias que cortam os céus desses mundos confidenciais. Destaque para Stonemilker, History of Touches e Family.
Sim,
concordo, o disco é "paradão" (embora prefira o termo “contemplativo”). Sim, as
inflexões vocais de Björk são, de fato, um pouco irritantes (embora haja muita
beleza expressiva e técnica em sua voz). Sim, reconheço também certa
contaminação new age nos temas (embora
prefira ouvir os ecos de Jean Sibelius que as cordas me trazem). Concordo com
tudo isso! Mas, se levarmos em consideração que vivemos num tempo no qual os
artistas se reduziram a celebridades midiáticas que fomentam estilos de vida e
padrões de consumo, que a sensibilidade coletiva se vulgarizou ante o inútil e
o superficial, que pouco ou quase nenhum espaço é dado à criatividade no que
sobrou daquilo que a humanidade conheceu um dia por arte; somos obrigados a reconhecer
a coragem de Björk em compartilhar, de modo franco e inteiramente aberto, com
milhares de pessoas ao redor do mundo, o abissal e doloroso mergulho dentro de
si traduzido de maneira bastante exitosa numa música tão delicada, e de certa
forma resgatar, com isso, a perspectiva esquecida da arte que busca unir os
indivíduos no abstrato de seu arcabouço simbólico. Particularmente, acho um
feito notável neste “mundo prostituto”, para usar uma expressão de Rubem
Fonseca.
Por
todas essas questões, meus caros, “Vulnicura” é um disco que merece, ao menos,
uma audição bastante atenta.
- Rógeres Bessoni:
Björk,
usualmente, me tira da minha zona de conforto. E isso está longe de ser um
demérito. Mas, por si só, também está longe de ser um mérito. “Vulnicura” me
trouxe, em seu começo, elementos poderosíssimos para mim, que são os excelentes
arranjos de cordas, em alguns momentos com matizes dos violinos do leste
europeu, de que tanto gosto. E terminou por aí. Para todo o resto, aplica-se o
que vou morrer de velho falando, sem nenhum constrangimento – ao contrário,
afirmo cada vez com mais firmeza: o mundo musical da pura técnica, sem melodia
e sem apresentar uma construção sólida, me interessa muito pouco ou nada. E não
acho que “Vulnicura” é um exemplar de “pura técnica” musical. No máximo, pode
ser uma boa experiência sonora de técnicas de estúdio. No caso específico de Björk,
a simples opção pela estética do bizarro não traz para mim nenhuma experiência
de acréscimo ou revelação. Digo isso porque, para que “sirva” de alguma forma,
a vivência de sair da zona de conforto tem que ter caráter iniciático. Um
Mestre sempre lhe conduz a perceber como era mais estreito o lugar que você
ocupava antes, e como é melhor a nova visão que se abre. E estamos falando de
música, 45 minutos de andamentos quebrados, praticamente sem nenhuma
linearidade, ruídos tecnológicos, sussurros, ruídos humanos que parecem de
agonia, a loucura, o soturno, a fronteira do horror...
Ah,
eu captei exatamente o que o álbum queria? A visita aos porões de uma mente
atormentada? O transe esquizofrênico? Relatos do terror noturno? Uma tarde de
um domingo de chuva, em depressão profunda, num sanatório? A literatura já
produziu obras-primas por esses caminhos. O cinema também. A pintura e a música
também. Era isso que Björk queria passar, e eu, acertadamente, captei? Não sei,
e não é o que me interessa que falo em MÚSICA. A construção musical baseada
exclusivamente em desconstrução não me diz absolutamente nada. O choque pelo
choque não me conduz a nenhuma experiência estética libertadora, em nenhuma
vertente da arte. Por exemplo, até hoje considero que assistir ao filme
“Irreversível”, com o estupro de Monica Bellucci filmado em tempo real, sem
cortes, foi um dos empregos de tempo mais inúteis da minha vida. Não pensei
nada mais iluminado depois de ter me submetido àquilo. Foi assim que os últimos
45 minutos de Bjork não me libertaram mais do que 5 minutos de Mutantes, nem me
revelaram a alma humana mais do que meia letra do Pink Floyd. Eloquência,
maestria poética e virtuosismo, domínio da plasticidade dos sons - esses
elementos são manejados acertadamente e grandiosamente por poucos. Nem todo
ajuntamento de elementos configura para mim uma construção, ainda que espelhe
uma intenção.
Hoje
em dia, por exemplo, meu querido Recife é um amontado de edificações, e
discute-se se isso resultou numa cidade. A ininterrupta fratura rítmica pode
até ter revelado a descontinuidade da cabeça de Björk, pode até ter sido uma
realização deliberada, planejada, mas não me conduziu pelas minhas próprias
quebras existenciais – se é que o álbum algum dia se propôs a isso. Aquele
encadeamento de sons não produziu em mim a perplexidade, a surpresa do
aprendizado. E, ademais, quando uma obra pretensamente artística nos conduz ao
desconforto, é significativo que também suscite em nós o deleite do insight, sem o qual esse desconforto não
pode ser contemplado e digerido. Uma
situação de tormento perene, sem alívio, não se converte em luz – no
caso, não se converteu em uma “luz estética”, digamos assim.
O portentoso rock progressivo, em seus diversos
matizes, já me mostrou abismos. Mas, assim como Dante atravessou o horror
guiado pela poesia, personificada em Virgílio, o progressivo nos conduz também
por uma riquíssima malha poética e por um território de grande virtuosismo
musical, além de verdadeiras odisseias melódicas. É, pois, ante todo o assombro
que grandes obras já operaram em mim, que “Vulnicura” se me apresentou
verdadeiramente sofrível. Eu sinceramente acho que o universo do ruído
agressivo, do torto, do bizarro, do “desconstruído”, é um abismo em que a
ocidentalidade caiu, e do qual não sabe sair. Pensaria diferente se visse que
transitamos de dentro para fora da melodia a nosso bel-prazer, mas não vejo
isso. A criatividade da construção melódica e das sólidas construções rítmicas,
que rendeu à humanidade escolas como o blues, o samba, o flamenco, a música
indiana e, mais recentemente, o grande hard rock (apenas como exemplo), parece
uma ciência perdida. Parece algo que não é feito porque não se sabe mais como
fazer. Respeito a artista, respeito toda e qualquer intenção artística,
respeito os fãs, mas parafraseando a própria Björk, “I have musical needs, oh,
needs...” E vamos em frente. O garimpo continua.
O saxofonista, compositor e arranjador Oliver Nelson.
É interessante perceber como alguns discos mudam
totalmente a nossos ouvidos com o passar do tempo: de uma ilha erma e isolada
nos confins da sensibilidade humana, que aparentemente nada revela ou comunica,
a uma imensa metrópole sonora que constrói inúmeros vínculos com nossos
sentimentos mais pessoais. A depender do trabalho, é necessário que o ouvinte
tenha alguma familiaridade com o artista e certo conhecimento da linguagem
utilizada por ele, para que a mensagem codificada em sons, que é a música, seja
transmitida, e o elo emocional seja, enfim, estabelecido entre esses dois
atores da escuta, num processo que chamamos de experiência artística.
No entanto, artistas de fato criativos e
compromissados tão somente com a expansão de suas fronteiras expressivas podem
deixar desamparados, do ponto de vista estético, até seus fãs mais devotados e
continuar a surpreender o público ao longo da história no momento que instituem
nela um marco. Imaginem, por exemplo, o impacto causado pelos Beatles quando
eles apresentaram ao público, que até então os tinha como um grupo de “Iêiêiê”
que cantava a três vozes sobre paixões adolescentes balançando os cabelos em
sincronia, o revolucionário Revolver
em 1966. E mais ainda: imaginem o choque que esse disco continua a provocar
naquele que descobre o quarteto inglês por estes dias. É de perder o chão! Por
isso, afirmo que o tempo desempenha um papel fundamental nesses casos, pois
esse estranhamento inicial só pode ser vencido pelas transformações internas
que só ele, o tempo, nos proporciona, alterando inclusive a nossa compreensão
de música, nosso gosto e juízo de valor.
Eu poderia escrever aqui linhas e mais linhas sobre
as incontáveis vezes que isso aconteceu comigo: ouvir um disco, não entender
absolutamente nada, deixá-lo de lado e, depois de um bom tempo, como numa
revelação dos Céus, achá-lo espetacular numa audição despretensiosa e não
compreender como eu pudera não ter gostado dele logo de primeira. No entanto,
pretendo falar de minha última descoberta “tardia”, por assim dizer, que por
sinal nada mais era do que um clássico absoluto: The Blues and The Abstract Truth do saxofonista, compositor e
arranjador Oliver Nelson, lançado em 1961 pelo selo Impulse!.
A primeira vez que ouvi esse disco faz uns dez
anos. Naquela ocasião, tinha lido bastante a seu respeito em artigos e livros
que destacavam sua importância por retornar às raízes e investigar
minuciosamente os pilares do blues-
plataforma fundamental ao jazz -, apontando com isso novos direcionamentos na
composição jazzística ao incorporar princípios da harmonia modal no blues e se
valer de uma arquitetura que ia além da forma básica do gênero; na
interpretação dos temas por conta do escrutínio nos arranjos e na distribuição
das vozes, enfatizando cores obscuras e criando tessituras inesperadas; na
improvisação devido aos solistas presentes na sessão fortemente ligados ao avant garde e às novas abordagens como o
Jazz Modal e o Third Stream (a grosso
modo, a junção do jazz com a música erudita). Tudo isso, diga-se de passagem,
numa época em que o Free Jazz,sob a égide do grande Ornette Coleman,
subvertia os alicerces tradicionais do jazz como a forma chorus, a ideia de progressão harmônica e a noção de swing e dominava a atenção da cena de
então como uma novidade irresistível, uma revolução em curso. Contudo, apesar
de todas essas qualidades, lembro-me muito bem de não ter ouvido “nada do outro
mundo” no álbum e de tê-lo achado, devo confessar, um tanto convencional. Pus o
disco num canto esquecido de minha coleção por quase uma década, e só pela ação
silenciosa do acaso é que pude, finalmente, vislumbrar toda a sua dimensão e depurar
sua mensagem.
Semana passada, estava folheando o primeiro volume
do Real Book, uma espécie de livro
sagrado do jazz que compila inúmeras composições, em busca de uma música para
estudar harmonia (o modo dórico, mais especificamente) e improvisação. Do nada
– se é que isso existe -, lembrei-me que Stolen
Moments, tema composto por Oliver Nelson e que abre The Blues and The Abstract Truth, flerta com o modal. Toquei a introdução
(claramente em C dórico - Cm7 / Dm7 / EbMaj7), dei uma olhada na melodia, conferi
seu encadeamento de acordes e quando dei por mim estava longe de casa,
totalmente imerso no mundo imaterial da composição. “Realmente, esse tema é
massa.”, disse a mim mesmo. Tinha de reouvir a gravação original para ver o que
os instrumentistas faziam, como se comportavam na transição do tema ao momento
dos improvisos sobre a forma minor blues,
etc.
Foi um choque! Primeiramente pelo o time magistral
que Nelson escalou para a sessão: o incendiário Freddie Hubbard no trompete, a
lenda Eric Dolphy tocando sax alto e flauta, o toque impressionista de Bill
Evans ao piano, e uma cozinha sublime formada por Paul Chambers no baixo e Roy
Haynes na bateria[1].
Depois, pela maestria na interpretação do tema que eu acabara de visitar: a
ambiência profunda do estúdio, a completa atenção dos músicos às nuances e
expressões que Oliver Nelson põe no arranjo, conferindo-lhe força, a atmosfera cool que envolve o tema, o quanto é dito
nos silêncios e o quanto é subtendido nos fraseados. Cada improviso parece ser
melhor do que o outro, e à medida que os solistas mandam seu recado
inevitavelmente me lembro da perplexidade do escritor Alex Ross ante a
capacidade da música de, numa breve sequência de notas ou acordes, assumir as
peculiaridades de uma pessoa, traduzir num mundo abstrato a personalidade de um
artista[2]. O que
fica extremamente claro quando o tenor de Oliver Nelson se apresenta para
improvisar neste tema. Ele dá ao todo apenas quatro giros sobre a breve
estrutura minor blues, e faz uma
improvisação quase motívica, com padrões baseados em arpejos de tríades e figuras
rítmicas simples (tercinas) que vão criando tensão à medida que o encadeamento
harmônico se desenrola – especialmente quando ele insiste na tríade de Ebm
enquanto a progressão vai de Ab7 para G7, remetendo à escala aumentada -, mas
que, para muito além da análise técnica e da radiografia musicológica, traz em
si uma profundidade emotiva que as palavras jamais conseguirão exprimir. E é
justamente neste aspecto que reside toda a sua beleza, porque seu improviso
fala sem reservas a todo aquele que estiver disposto a ouvir, independente de
educação formal, provando que a música não é uma esfera autossuficiente, e sim uma
maneira de apreender a realidade a nossa volta e de partilhar da condição
humana que nos define.
Desde essa (re)descoberta, venho ouvindo compulsivamente
o disco todos os dias, faixa a faixa, com a maior atenção que consigo dar aos
detalhes, como que para recuperar o tempo que perdi sem me dar conta da
grandeza desse clássico, e pensando, ao final de tudo, como esse mesmo tempo que
nos turva a visão pode nos ensinar lições valiosas sobre aquilo que julgamos sempre
saber.
[1]
Há também George Barrow no sax barítono, contudo sua participação fica restrita
aos naipes.
[2]
Ver ROSS, Alex; Escuta Só: Do Clássico ao Pop, Companhia das Letras, 2011, São
Paulo.
Estou muito longe de ser um
fanático ou mesmo entendido de futebol. Admiro muito o jogo, tenho os meus
times, mas estou longe de entender de esquemas táticos, escalações de jogadores,
posicionamento dentro de campo, mas acompanho as notícias, as polêmicas do
cotidiano dos clubes e nos dias seguintes aos jogos com mais interesse. Uma das
perguntas mais recorrentes sobre futebol, feita a todo aquele que têm um mínimo
de interesse pelo jogo, é “qual seu ídolo no futebol?”. A resposta de cada um
leva os mais diversos fatores em consideração: as jogadas brilhantes produzidas
por determinado jogador, a quantidade de títulos, uma atuação decisiva num jogo
importante, a quantidade de gols marcada ou até mesmo o comportamento fora de
campo. A maioria dos meus contemporâneos aponta Zico ou algum jogador do seu
clube de coração.
O meu ídolo no futebol jamais o
vi jogar, a não ser por alguns poucos videotapes. Ele também não pertence a nenhum time pelo
qual torço. Tostão significa algo mais do que o jogador que venceu a Copa do
mundo de 70 e fez parte de um dos maiores times da história do futebol. Sua
carreira foi bruscamente interrompida em virtude de uma bolada que atingiu o seu olho e provocou o descolamento da retina. Assim, em Fevereiro
de 1973, Tostão, 26 anos, aconselhado pelos médicos, abandona o futebol.
Mas o “mineirinho de ouro”, como
era conhecido, fez algo pouco usual para um ex-jogador de futebol. Foi aprovado
na faculdade de medicina e em 1981 obtém graduação e passa a atuar como médico,
deixando o futebol de lado por um bom tempo. Em 1994, Tostão é convidado para
comentar a Copa dos Estados Unidos pela rede Bandeirantes e atuar como colunista
de vários veículos impressos pelo Brasil.
Lançado em 2011, “A perfeição não
existe” reúne algumas de suas crônicas escritas e publicadas em jornais entre
2000 e 2011. Tostão nos presenteia em cada uma dessas crônicas com seu olhar
voltado para o humano, no qual o futebol é apenas uma parte. Ele discorre com
desenvoltura desde esquemas táticos utilizados por treinadores ao prazer da
vida quase campestre que leva junto com a família. Não tente o leitor buscar
uma espécie de “padronização” nas crônicas, pois isso é algo com que Tostão não
se preocupa. Escreve sobre o que bem
entende e quando quer. Abaixo vão algumas análises contidas no livro que
considero pertinentes:
“Aprendo com as críticas, desde
que elas não sejam apenas de torcedores parciais. Interessante é que há um
grupo de torcedores que é excessivamente duro com os jogadores e com seu time,
mas que não aceita as mesmas críticas de comentaristas. Acha que queremos
menosprezar seu time de coração.”
“Parece que algumas pessoas acham
que o comentário técnico é uma coisa chata, pouco intelectual, menor. Estranho!
Como se fôssemos obrigados a escolher entre a beleza, o espetáculo e a técnica.
Com raras exceções, não existe arte sem técnica.”
“O perfil ideal de um atleta
seria o q associasse talento com garra, que fosse emotivo sem perder o controle
de suas emoções, guerreiro e tranquilo, disciplinado e ousado , ambicioso, sem
esquecer que o conjunto e a união são fundamentais no sucesso de um time.
Evidentemente, esse super-homem não existe.”
“Precisaria de dezenas de
crônicas para descrever tantos momentos inesquecíveis. Temos sempre de lembrar
que o futebol, antes de ser uma competição, um jogo de técnica e de tática, é
um esporte lúdico, belo e emocionante. Os lances espetaculares são os que ficam
na história.”
“O futebol e a vida continuam
prazerosos e bonitos porque mesmo em situações previsíveis, comuns e
repetitivas, haverá sempre o acaso e um artista, um craque para transgredir e
reinventar a história.”
Algumas chegam a surpreender como
a crônica que dá título ao livro:
“Compreendo as atuais críticas (a
crônica é de 2000) de que a seleção de 70 não era tão maravilhosa. Imaginaram
um time perfeito. Não foi perfeito, mas foi uma equipe espetacular e
irresistível para aquela época. A perfeição só existe na nossa imaginação. A
seleção de 70 teve um grande defeito: seus jogos são constantemente reprisados pela
TV. A imagem destrói a fantasia, que é sempre melhor que a realidade.”
Sem dúvida há ainda muitos
pensamento e reflexões que mereceriam citação, mas deixo os leitores com a
curiosidade conhecê-los.
Na coluna deste mês, os editores do
blog lançam um olhar coletivo sobre o recém-lançado disco “Ao Vivo” da cantora
paulista Céu.
Boa leitura!
- Giba Carvalho:
Quando
Bruno Vitorino sugeriu o trabalho novo de Céu como pauta para coluna deste mês,
confesso ter sentido um frio na espinha. A dúvida permeou meus ouvidos e minha
cabeça de modo intrigante: “o que falar de uma cantora que acho excelente em estúdio
e que não rende o esperado ao vivo?”. Pois bem. A cantora paulista fez uma
síntese dos três primeiros álbuns para comemorar os dez anos de sua carreira
que continua bastante promissora. Deixou de lado os aspectos dub-ragga de “Vagarosa” (2009) e
priorizou o lado mais “pop-sedução” de “Caravana Sereia Bloom” (2012). Escolheu
o aconchego do Centro Cultural Rio Verde e sua capacidade de 400 pessoas para
fazer uma gravação mais intimista, do que o delírio frenético das grandes
plateias. Este foi o primeiro grande acerto do trabalho. O segundo ponto
positivo foram as versões escolhidas por Céu. Como principais destaques do
trabalho, a excelente versão de “Mil e Uma Noites de Amor” (Baby do Brasil,
Pepeu Gomes e Fausto Nilo) e conhecida do público oitentista na trilha da
novela “Roque Santeiro” e a espetacular versão de “Visgo de Jaca” (Rildo Hora e
Sérgio Cabral) que já conhecemos desde Vagarosa. No mais, conforme citado
acima, um compilado de seus maiores sucessos executados de modo bastante
peculiar e competente.
Reconheço
que da geração pós-Los Hermanos, Céu seja o nome de maior destaque do cenário
pop nacional. Particularmente, gosto muito de sua ousadia nas composições e gravações
dos seus trabalhos, mas dois pontos específicos me incomodaram sobremaneira.
Primeiramente, a queda para elementos extremamente bregas nos arranjos. A
versão de “Cangote” (uma das minhas preferidas do Vagarosa – 2009) é de revirar
morto no caixão. Do balanço cadenciado de um reggae de categoria, para uma
guitarrada sem pé nem cabeça, fruto da mentalidade “cafuçú” que permeia como
“CUltura” na mentes “privadizadas” da turminha descolada. Aqueles que fingem
ser alegres às custas da desgraça alheia. E segundo, as vinhetas patéticas que
existem nos hiatos e introduções das músicas.
No
mais, as pessoas precisam entender que mesmo sendo uma gravação de show, o
trabalho foi mixado, as falhas usuais e constantes da cantora “na febre do ao
vivo” foram maquiadas, e assim o CD e DVD serão um sucesso absoluto.
- André Maranhão:
Quando
conheci o trabalho de Céu, a partir do seu disco de estreia em 2005, me pareceu
que sua arte se encaixava muito bem numa estética glocal (uma mediação entre
traços do global e local da cultura). A cantora quase sempre cruzou ritmos,
artistas e idiomas diversos nos seus álbuns. Em seu novo disco (Ao Vivo)
acredito que o glocal ainda persiste. Porém, em alguns momentos, Céu e os seus
bons músicos (Dustan Gallás; Lucas Martins; Bruno Buarque e o DJ Marco)
perderam (ou não procuraram) a possibilidade de se conectarem com a
inventividade do Jazz ou da improvisação – coisa que seria bastante pertinente
ao longo do disco. Senti a falta de tudo isso em “Teju na Estrada”
(instrumental) e “Streets Bloom”: ambas são faixas caídas e que não me
empolgaram, talvez justamente por não se improvisar mais. Em “Rainha”, um
Afrobeat que por vezes Céu dedica a Fela Kuti, também seriam bem-vindas mais
improvisações dos músicos, frases cheias – além, é claro, do vocalise menos tímido
por parte da cantora.
Ao
longo de sua carreira, Céu migrou paulatinamente dos backing vocals para o lead.
Quiçá por dispor de uma voz bem favorável ao estilo de cantora crooner, que Céu consegue interpretar um
estilo como o Brega com tanta finesse. Isso ocorre em “Retrovisor”; “Amor
Antigo”; “Baile da Ilusão”. Mais além, a faixa “Cangote”, junta o canto de Céu
com traços da música paraense, de uma linhagem Brega Cult e que se assemelha
bastante aos trabalhos de Felipe Cordeiro.
“Lenda”
permanece bem fiel às apresentações de Céu antes de lançar o álbum Ao Vivo. “Contra
Vento” e “Comadi” conectam a música nordestina com o Indie, e “Em Piel Canela”
(um clássico escrito por Bobby Capó, e gravado por outros nomes consagrados,
tais como o trio Los Panchos e Nat King Cole), Céu mantém a suavidade e a
leveza da sua interpretação. Em “Mil e uma Noites de Amor”, seu tom é bem
próximo ao de Pepeu Gomes, e a versão é boa (ainda que eu considere a versão de
Pepeu mais marcante).
Às
vezes, acelerar a batida de uma canção não é garantia de que ela melhorará;
principalmente em um ritmo como o Reggae. É o que acontece em “Concrete Jungle”.
A versão do álbum Céu (2005), além de conter uma harmonização mais rica, com
oitavadas, mais acordes e uma cadencia desacelerada, funciona bem melhor do que
a do álbum Ao Vivo.
Ultimamente,
alguns artistas que pretendem se aproximar de uma forma / fórmula emepebista da
canção, têm cometido o seguinte equívoco: enxugar demais ou até excluir os
instrumentos acústicos de suas interpretações, assim como tornar excessivo o
uso de recursos eletrônicos. Bom, no disco “Ao Vivo” de Céu, isto ocorre em 10
Contados (uma vez que as versões do álbum de estreia da cantora e o dueto com
Paulinho Moska no programa Zoombido, do canal Multishow são bem melhores); Malemolência
(que apesar da novidade de Céu citar Mora na Filosofia, de Monsueto e Arnaldo
Passos, a versão original do álbum de 2005 traz consigo a frase do cavaquinho –
tão legal, porém esquecida nas posteriores apresentações da cantora). Em "Visgo
de Jaca" (de Rildo Hora e Sergio Cabral), pode-se conferir na versão de estúdio
anterior ao disco Ao Vivo, a diferença que fazem o pandeiro e as congas em
certas canções.
- Fernando Lucchesi:
Dentre
as várias cantoras surgidas no final dos anos 2000, sem sobra de dúvida, Céu é
a que mais se destaca. O CD/DVD “Céu Ao Vivo” faz um apanhado da consistente
carreira da cantora, iniciada com o disco homônimo “Céu” (2005). O disco, especificamente, tem uma mistura bem
interessante das canções dos três discos lançados por ela. O início é de tirar
o fôlego com três belíssimas canções. “Falta de ar” inicia com uma pegada
roqueira setentista, desacelera e se enche de solos de guitarra. “Amor de Antigo”
com sua levada meio brega e aquele famoso teclado de churrascaria, embalam uma
linda melodia e “Contravento” parece uma cúmbia desacelerada, com inserções de
guitarras psicodélicas.
Céu
também não se contenta em ficar em sua zona de conforto e transforma um dos
seus maiores sucessos, a balada “Cangote”, em um carimbó/guitarrada paraense.
Funciona muito bem. A influência paraense/caribenha também está presente em
“Baile de Ilusão”. O que não funciona bem no disco é a cover de “Mil e Uma Noites
de Amor” de Pepeu Gomes. Muito similar ao original, sem nenhum toque de
ousadia, algo que se espera de uma cover,
principalmente ao vivo. O que falta de ousadia em “Mil e Uma Noites de Amor” é
compensado na interpretação e arranjos de trip
hop para lindíssima “Visgo da Jaca” de Martinho da Vila, que infelizmente
está apenas no DVD.
Na
segunda metade do álbum a cantora deixa um pouco de lado a influência caribenha
nos arranjos das músicas abre um espaço maior para outros gêneros muito
presentes na carreira de dela. Há espaço para o Hip Hop (“Malemolência” e
“Lenda”), Reggae (“Concrete Jungle”, cover
de Bob Marley) e até uma pouco de soul, nos arranjos de “Rainha”. A julgar pelo
apanhado das músicas do CD e DVD “Ao vivo”, Céu está no caminho certo com seu
caldeirão de influências musicais.
- Bruno Vitorino:
O
disco “Ao Vivo” da paulista Céu chega para marcar a exitosa trajetória de dez
anos de uma cantora que soube ao longo de sua carreira articular suas influências
de música internacional às raízes de sua cultura numa produção autoral do seu
tempo, sem saudosismos caricatos e mercadológicos, e que se materializa num formato
pop urbano, mas que – eis aqui o mais importante e raro - ainda se preocupa com
o conteúdo. Por essa razão, vejo a cantora com o nome mais interessante do mainstream nacional dos últimos tempos. Seu
talento para a composição, suas angulosas melodias que serpenteiam por uma
harmonia intuitiva, sua voz falha, roufenha - não pasteurizada pelo tecnicismo
lírico ou pela artificialidade da impostação exagerada à Ana Carolina –, mas educada
e de belo timbre, e sua sensível qualidade de intérprete resultam numa música que
tem identidade própria e méritos estéticos, como atestam seus discos “Céu”
(2005), sua obra-prima “Vagarosa” (2009) e o dançante “Caravana Sereia Bloom”
(2012).
Tive
a oportunidade de assistir à cantora em ação no festival Rec Beat no ano de
2013, mas creio que a dispersão do palco grande combinado à euforia de um
grande público a dominaram. Sem falar que a banda no palco era bastante
reduzida em relação àquela que se ouvia nos discos, sempre repleto de
convidados em cada faixa. Assim, em poucas palavras, o que vi foi uma Céu desconcentrada
amparada por uma banda que não conseguia preencher os espaços e atingir o nível
de execução que se ouvia nos discos em estúdio. Saí antes de o show terminar. Daí
meu medo que o fenômeno “brilhante em estúdio, terrível ao vivo”, algo tão
comum em tempos de músicos que não sabem o que fazem e focam no hype, se repetisse com esse novo projeto
da cantora. No entanto, não é o que acontece. Imagino que o ambiente controlado,
com uma produção disponível e vasto background
ao alcance, a responsabilidade de uma gravação de um DVD/CD, que não deixa
de ser sinônimo de prestígio na carreira de qualquer artista, o caráter
intimista do Centro Cultural Rio Verde, local escolhido para a gravação de sua
apresentação, e, por fim, um público empolgado ma non troppo criam as condições ideais para que Céu se mostrasse focada
e confiante, e sua banda, mais audível e comprometida com a execução. E o
repertório é simplesmente matador! Destaque para o clima tropicalista de “Contra
Vento” e samba-dub de “Malemolência”.
Recomendo!
- Rógeres Bessoni:
Por razões de cunho pessoal, o sr. Bessoni não
conseguiu escutar e escrever na coluna de março. No próximo mês, o colunista
está de volta com suas observações perspicazes.