domingo, 6 de dezembro de 2015

Variações em 5/4: Continuidade dos Parques




Na coluna deste mês, os editores do blog comentam o disco de estreia da banda Dônica, “Continuidade dos Parques”.

Boa leitura!


- Giba Carvalho:

Calma, senhores! Muita calma! É exatamente isto que peço aos leitores e futuros ouvintes de “Continuidade dos Parques”, o primeiro trabalho da Dônica. A banda é formada por Zé Ibarra (vocal e teclados), Lucas Nunes (guitarra), André Almeida (bateria), Miguel Guimarães (baixo) e Tom Veloso (violão). É justamente por este último nome que já podemos abrir um pouco o leque sobre a fama repentina dos garotos. Tom Veloso é filho de Caetano Veloso e principal compositor da banda (assina 9 das 11 músicas do disco). No entanto, não participa das apresentações ao vivo do grupo, tornando-se um mero espectador. Estranho? Confesso que sim.    

Apadrinhada por Milton Nascimento (que participa na canção – Pintor no Álbum) a Dônica surge no mercado nacional como salvação e está muito longe disso. O apadrinhamento por parte de grandes artistas é muito mais normal do que se possa imaginar. Notadamente, a partir dos anos 70, tais atitudes tornaram-se mais corriqueiras. Nada que se compare ao efetuado por Caetano e Chico Buarque na década de 80, quando levaram várias bandas do dito rock nacional a diversos programas de televisão da época e, principalmente, a Gilberto Gil quando “afirmou categoricamente” ter descoberto Chico Science & Nação Zumbi nos anos 90. Basta um pouco de curiosidade para sabermos que a verdadeira história foi bastante diferente disto e afirmação do compositor baiano não passou de mais uma grande jogada oportunista ao perceber o potencial dos pernambucanos. E, não poderia esquecer, do próprio Milton Nascimento e sua parceria pífia com o RPM nos anos 80 de onde surgiram essas “duas belezuras”:






É óbvio que seria injusto de minha parte comentar o trabalho dos rapazes do Dônica unicamente pelo apadrinhamento. Mas, que isto é um imenso diferencial, é fato. Por exemplo – pouco antes do lançamento do álbum, já saiu na imprensa que os rapazes estavam num “retiro” para composição do primeiro álbum (???) e que dariam entrevistas por email para não atrapalhar o processo. Questiono: “Qual outra banda iniciante teria tanto espaço na mídia se este fato não fosse tão relevante? ” E depois de ouvir o produto final afirmo – “Muita frescura para pouco resultado. ” É bem verdade que os rapazes tocam bem. Mas de que adianta tocar bem se suas letras não dizem absolutamente NADA? Os arranjos são um emaranhado de inúmeras vertentes e, de tão misturados, não formam a personalidade própria para o grupo. Soma-se a isto o que já havia comentado num texto anterior sobre Mallu Magalhães: atualmente os artefatos tecnológicos fazem com que qualquer Zé Mané possa gravar um disco. No caso específico da Dônica me parece que uma banda jovem (como inúmeras outras), que faz um som café com leite (ainda) e que vem recebendo atenção (que não merece) pelos laços sanguíneos.

Torço, honestamente, para que futuramente não tenha que ler declarações pretensiosas como esta: “Ser rock progressivo é ser tanta coisa diferente ao mesmo tempo. Ele junta as aventuras psicodélicas à harmonia do jazz, aos timbres da música eletrônica, ao metal, ao folk e a inumeráveis mais estilos''. Até porque, trata-se apenas de uma banda iniciante, em busca de sua personalidade (espero honestamente que estejam), que não diz quase nada no primeiro trabalho (fora o fato de tocarem bem seus instrumentos) e que visivelmente pulou etapas na sua formação.

Por outro lado, é um prato cheio para os cabeçóides que afirmam ser fãs do Clube da Esquina e na verdade não sabem nem o que de fato foi “O Clube”. E o que ele representa para a música mineira e brasileira.


- Rógeres Bessoni:

Ouvir o trabalho de uma banda estreante sempre produz uma indagação, para mim, instigante: será a banda efetivamente nova, ou trata-se de uma banda apenas recente, mas que não conseguirá transpor os territórios já conhecidos? Ouvir o primeiro trabalho de Dônica me deixou com uma sensação dúbia, misto de muito prazer e gratidão pela nossa herança musical recente, do Brasil e de fora, com o incômodo de estar tendo um prolongado déjà vu. Trata-se de um trabalho indiscutivelmente bem tocado (embora os vocais não convençam nem empolguem tanto) - talvez seja a melhor banda brasileira que ouvi nos últimos anos em matéria de qualidade instrumental. Significa muita bagagem o fato de os caras, todos muito jovens, entrarem de cabeça com um som tão bem construído. Mas uma angústia me acompanhou ao longo de todo o disco. Uma agonia por, de fato, parecer que não vamos nunca conseguir sair dos anos 70. Não me restaram dúvidas de que os integrantes gostam de muitas das músicas e bandas que eu também gosto. São inúmeras referências vindas do progressivo – aliás, é muito bom ouvir um trabalho de tão bom progressivo saindo da uma galera tão nova -, muitos elementos dos melhores músicos e dos melhores cantores brasileiros dos anos 60 e 70. Mas em diversos momentos o som é “tão” Clube da Esquina (por exemplo) que pra mim vai muito além da referência e mesmo da releitura: soa como uma repetição, mesmo, repetição de padrões que já foram extraordinariamente bem realizados pelos seus criadores.

Eu sei muito bem como é difícil conservar a essência mas se livrar do formato de todas as suas influências logo nos primeiros voos. A vontade de “ter feito aquela canção” pode facilmente se converter na armadilha de fazer uma canção que é praticamente “aquela”. No afã de tocar tudo o que se gosta, corre-se o risco de aplicar grande talento na repetição dos modelos cunhados pelos mestres. Se é possível ouvir em Praga (disparado a melhor do álbum) elementos que me lembraram Lô Borges, Jethro Tull (Thick as a Brick, mais especificamente) e Genesis, vejo a banda, por enquanto, com muito potencial para o novo, mas ainda precisando atravessar alguns ritos de passagem, talvez. Ou, quem sabe, precisem simplesmente ter vontade, se precipitar na fúria criativa, assumir a coragem de “não ter nada a ver com a linha evolutiva da música popular brasileira”, com fez Raul, abrir mão da zona de conforto e dos elogios fáceis dos saudosos. A matéria prima é da melhor qualidade, mas por enquanto só demonstram o que aprenderam (e foi bem aprendido). Seria muito bom que a banda se mantivesse agregada e amadurecesse na estrada, que ganhasse peso (não necessariamente no som, mas isso também seria bem-vindo), que aprimorasse as letras e os vocais e se dispusesse a traumatizar as expectativas. Sobretudo, faço votos de que os caras envelheçam tocando, que ganhem peso existencial, porque esse talento, associado a densidade e ousadia revolucionária, pode render coisas realmente preciosas para nossa música sul-americana.


- Bruno Vitorino:

Dônica. Nunca tinha ouvido falar dessa banda, jamais tinha escutado o que quer que seja que tocassem, mas já não gostava dela. E não era um não gostar superficial, que se esquece facilmente numa primeira distração. Porra nenhuma! Era uma antipatia contundente e irracional que se materializava diante de mim como uma obrigação moral imposta pela Providência, canalizando toda a rabugice de minha alma precocemente senil e ranzinza. Mas, a culpa era só minha, inteiramente minha. Os meninos nada tinham a ver com minhas escolhas. No caso, uma má. O fato é que tomei conhecimento da existência da banda, de bobeira, ao ler uma matéria terrível do Jornal do Commércio entitulada “Banda do filho caçula de Caetano Veloso, Dônica cria um novo Clube da Esquina”. “Puta que pariu!”, lembro de ter mentalmente exclamado. Mais uma banda de “filhos de” que se vale do capital social da linhagem célebre para se promover no mercado e se lançar como a mais nova sensação redentora do momento. Paciência, como você pode perceber, leitor, não é uma de minhas virtudes. Enfim, li o texto, prometi a mim mesmo, de joelhos no milho, que jamais voltaria a ler qualquer caderno de cultura dos jornais recifenses, e deixei que o tempo apagasse de minha memória a contrariedade que tive.

Meses depois, chego em casa cansado do trabalho, querendo apenas me jogar no sofá e não pensar em nada. Ligo a TV. Primeiro dia do Rock In Rio. Banda de abertura: Dônica. “Taí uma boa oportunidade de conferir”, pensei. E que surpresa! Vi uns pirralhos de, no máximo, 20 anos de idade apresentando canções com uma riqueza tão inesperada que não consegui desviar minha atenção. Havia melodias de desenhos interessantes, progressões de acordes que denunciavam um conhecimento de harmonia funcional além do básico (IIm7 – V7 – Imaj7) e muita pesquisa, letras que buscavam se reconectar ao que existe de melhor no cancioneiro popular do país e uma curiosa mistura de empolgação adolescente, domínio de palco e medo ante a responsabilidade de dar o pontapé inicial numa megafranquia da indústria do espetáculo - o Rock in Rio é mais do que um festival, é uma marca, beleza?. Ri alto. Lembrei da matéria que tinha lido e pensei, sem qualquer espanto, como os críticos daqui têm a capacidade de enaltecer o irrelevante e de negligenciar o fundamental. Talvez porque muitos deles – dizer “todos” seria uma crueldade incompatível com a modéstia que rege meus modos –, não sabendo a diferença entre nota e acorde, jogam suas impressões superficiais baseadas em achismos sobre os textos pré-formatados que as assessorias de comunicação dos artistas mandam, a preço de ouro, para as redações dos periódicos. Ao invés de análises estéticas, problematizações e apontamentos interessantes sobre o trabalho artístico, recebemos dos jornais um guia de consumo que mistura informação, entretenimento e tendências. Mas, voltado à apresentação da Dônica, fiquei ainda mais pasmado com a qualidade dos meninos enquanto músicos, a destreza que demonstravam ter no manuseio de seus instrumentos e a capacidade que tinham de se comunicar no mundo objetivo da forma musical. Era de botar muito marmanjo com anos de estrada no bolso. O jovem Miguel Guimarães tocando um Fender Jazz Bass Jaco Pastorius, fretless, com desenvoltura e segurança, construindo belas linhas, deu-me mais do que alegria: esperança. Tudo bem que eu acabei dormindo no meio de Pintor... Mas vamos por a culpa no cansaço acumulado da semana.

“Continuidade dos Parques”, disco de estreia da Dônica, traz um bocado do que vi ao vivo pela tevê, contudo a suposta vantagem do ambiente controlado do estúdio fez com que aquela espontaneidade do palco se perdesse em lufadas de “egolombra” e intelectualidade nonsense. Talvez por causa do afã em se mostrarem artisticamente maduros, por conta da ímpeto em registrar, sem filtro, todas as idéias que tinham para uma canção ou até devido à necessidade de aderirem à lógica do “cabeça não convencional”, o disco termina por cair numa redoma jovem-cult meio irritante. E quando Milton Nascimento, o amigo de papai, aparece justamente em Pintor consigo até mesmo ouvir os suspiros mais enternecidos, ver as faces mais lânguidas de poesia e encantamento. De qualquer forma, é um disco de estreia promissor. E se considerarmos que são apenas crianças, podemos ainda torcer para que a Dônica não se deixe levar pelo oba-oba delirante de mídia e público e revele todo o potencial que demonstrou ter de cara. É apenas uma questão de ter calma, focar na música e superar seu esforço um tanto quanto forçado em parecer setentista.

Avante, gurizada!


- André Maranhão:

O primeiro álbum da banda Dônica, “Continuidade dos Parques”, emerge como um trabalho feito por jovens entre 18 e 20 anos que estudaram juntos na Escola Parque do Rio de Janeiro. A pouca idade (em termos cronológicos) de seus integrantes, de modo algum diminui a importância de suas musicalidades. Por sinal, os rapazes conseguem imprimir um som tecnicamente seguro, demonstrando uma excelente consciência harmônica e uma boa capacidade de nos conduzir para bons percursos melódicos, referendados por suas ligações com o rock progressivo e matizes emepebistas, muito patentes no disco.

Algumas vezes o som de Dônica pode parecer incomunicável e por demais intelectualista; condição que levou o próprio Caetano Veloso (pai de um dos integrantes do grupo) afirmar que a música deles tinha “muitos acordes” e era “complicada”. Por outro lado, creio que essa complexidade no disco não é algo ruim no trabalho, mas um ponto válido a ser lapidado, sobretudo se lembrarmos do quão a nova safra da MPB e da música alternativa brasileira tem sido protagonizada por uma legião de artistas ingênuos e superficiais. Não bastasse, ninguém menos do que Milton Nascimento apadrinhou a banda!

Para cumprir a ordem do disco, meus primeiros destaques vão para É Oficial e Casa 180, cujos timbres estão centrados na interessante habilidade pianística de José Ibarra (também presente na instrumental Inverno) e em cores que podem sugerir um contato profícuo com a música mineira do Clube da Esquina. A última faixa do disco, Assuntos Bons, além de sutil, parece acenar para a influência de Caetano, onde Tom Veloso importa o aspecto do violão de náilon e o som eletroacústico, fundido por guitarras distorcidas e percussões, em uma sonoridade muito bem encaixada. “Continuidade dos Parques” é um disco bom e que marca acento para uma turma bastante promissora.


- Fernando Lucchesi:         

É fato que a banda ganhou notoriedade em virtude da presença do filho mais novo de Caetano Veloso (assim mesmo, apenas como compositor, pois ele raramente participa das apresentações ao vivo). O fato é que não encontrar influência de Caetano Veloso nas atuais bandas de pop/rock é difícil. Há uma clara influência do compositor baiano. Influências à parte a que mais se sobressai no som da banda é a do Clube da Esquina. Além disso, há muita referência e reverência ao rock progressivo setentista.

O disco abre com a interessante Casa 180, uma mistura de Morais Moreira cantando com harmonias do Clube da Esquina e um refrão bem pegajoso. Bicho Burro segue a mesma linha. O maior problema do disco é que as músicas, em sua maioria, são muito parecidas. Dá a impressão de que se você ouvir duas ou três músicas ouviu o disco todo. Outro ponto negativo são as músicas longas demais com solos que trazem o pior do rock progressivo e tornam maçante o som (Retorno para Cotegipe, Praga e Inverno estão nessa classificação). Carrosel parece ser a faixa que melhor exprime a ideia do grupo, com sua melodia envolvente e muito bem estruturada.

Trata-se de um disco de estreia muito bem executado tecnicamente, mas com ideias musicais ainda confusas.


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O Efeito João do Morro - Por André Maranhão

O cantor João do Morro. Fonte: Google Imagens.


Pelo visto, João do Morro irá do céu ao inferno em dois tempos. Ao menos em algumas esferas, onde antes parecia bastante louvado. Pessoalmente, nunca gostei dos seus trabalhos; aliás, para mim (e creio que para muitas pessoas), nunca foi uma novidade que seus discursos estiveram marcados por óticas extremamente machistas, violentas, de baixo calão. Como resultado, suas canções hoje arrebatam legiões de simpatizantes em um estado tão violento como o de Pernambuco, sobretudo na Região Metropolitana do Recife – eixo onde João do Morro parece dispor de um alcance mais forte, movendo milhares de seguidores em seus palcos e trios elétricos.

No entanto, é preciso recordar que o “signo” João do Morro não surgiu por acaso e nem espontaneamente; o mesmo foi empoderado aos poucos, referendado em círculos da cena artística local que o celebraram em videoclipes, festivais, e logo correram afobados para rodar documentários sobre aquele “fenômeno”; artista também carregado por governos e prefeituras “populares” e que não caiu de paraquedas em programas esportivos da TV à toa – hoje posando de “figura do povo” e tecendo análises sobre os desempenhos de Náutico, Santa Cruz e Sport, regadas a muitos caldinhos. Em outros termos, João do Morro foi um produto construído estrategicamente por grupos determinantes da cultura de Pernambuco, que hoje parecem coçar a cabeça com a encrenca em que se meteram, ainda mais após o artista ofender sumariamente a presidenta Dilma Rousseff. O Partido dos Trabalhadores, por sua vez, marcou posição e lançou um texto em repúdio ao cantor, descambando na problemática da violência contra a mulher e em todos os males que a mesma tem causado à sociedade. Uma resposta, diga-se de passagem, pertinente e legítima do PT.


Por outro lado, penso que a construção midiática e os patrocínios em torno de João do Morro são parte de uma armadilha que me incomoda bastante: a inversão radical promovida pela crítica / produção cultural, capaz de muitas vezes tratar um artista de “periferia” como o expoente mais legítimo e sincero da “cultura popular”. Esse tipo de lógica além de arriscada, pode se converter em algo ainda mais impreciso e implodir aos poucos, sobretudo quando envolve uma figura como João do Morro, alavancado sob a retórica de ser uma grande alternativa diante de outros estilos e linguagens da arte supostamente considerados “burgueses”, “pedantes”, ou “elitistas”, ou seja, simplesmente achincalhados por se tratarem de gêneros de uma dita “dominação” e ou “alienação”. O resultado disso foi um tiro no pé, pois um nome como João do Morro, ao cair no colo desse discurso de “verdade do povo” e do retrato de suas “lutas”, passou a ser endossado pelos principais jornais pernambucanos – jornais que muitas vezes pintam um artista que vem da “periferia” ou da “massa” como alguém automaticamente isento de reprodutivismos da cultura. Consequentemente, o erro desse tipo de cálculo, mais cedo ou mais tarde não deixou de aparecer, na medida em que alguém como João do Morro, antes já conhecido por cantar “Quer mamar, vá pra debaixo do burro”; “as nega endoida”; "Não me diga que uma tatuagem; é sinal de puta" ou “Vou chamar a Polícia Militar – É pau!”, retoma o seu discurso agressivo, taxativo (e agora ainda mais polêmico) ao pedir a Santo Antônio que “arrume uma macho pra Dilma”; ou ao chamá-la de “chupa charque”. É claro que tudo isso só me leva a discordar ainda mais desse tipo de enunciação articulada por João do Morro. No entanto, não devemos esquecer que além de segmentos da produção, crítica e imprensa locais, o cantor é parte de uma sequela que foi gerada por políticos e gestões de esquerda em Pernambuco, outrora quando cacifaram o próprio João do Morro e praticamente o tomaram como um “vanguardista das vozes populares”. Ora, ninguém precisa bancar o Peter Bürger pra saber que canções capazes de coisificar as mulheres, os negros e evocarem a violência policiesca não são sinônimos de vanguarda nem de relevância estética. Porém, as autoridades parecem ter acreditado nisso, ou tapeado muita gente reproduzindo esse tipo de delírio.

Para finalizar, creio que o Efeito João do Morro não deixa de remontar aos trabalhos de Norbert Elias sobre o conceito de civilização – para ele um constructo sociohistórico, um processo marcado por relações e desenvolvimentos de políticas higienistas que nos cercam, através da oficialização de espaços “liberados” para vertermos nossas emoções, quando, na realidade, as mesmas não deixam de ser controladas por dispositivos. Em outras palavras (e transpondo esse paralelo para hoje), não esqueçamos que apesar de ser muito digno opor-se às violências das canções de João do Morro – artista que descreve Dilma como alguém que “bota em nosso cu” – não esqueçamos que há anos atrás (e até mesmo há meses), outras tantas personalidades e baluartes da cena artística de Pernambuco estavam em blocos satíricos a cantar sobre os palcos “multiculturais”, bancados pelos cofres públicos e agradando centenas de intelectuais, com paródias que envolviam Oscar Niemeyer “comendo a mãe do presidente” (Lula); chamando cantoras da MPB de “cola-velcro, testemunhando a voz de mulheres supostamente traídas que chamariam “o negão pra resolver”; ou na senda dessa turma que afirmava que iria “botar no cu” de uma série de prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, deputados, dentre outros – tudo isso, justificado sob o álibi de apenas tratar-se de uma “brincadeira de Carnaval” (leia-se, de um lugar apropriado para situações de licenciosidade controlada), como também, de um espaço bastante pautado por muita hipocrisia no ar, é claro! 

domingo, 8 de novembro de 2015

Playlist de Editores: Novembro/2015


Estreamos a coluna “Playlist de Editores” com o intuito de compartilhar com os nossos leitores discos, novos e “das antigas”, que estamos escutando no momento. Assim, cada um dos editores do Variações para 4 apresentará um álbum acompanhado de um breve comentário trazendo o porquê de sua escuta.

Boa audição!



- Bruno Vitorino:




A Música Popular Brasileira tem uma série de pérolas que só vim descobrir há pouco. “Orós”, quarto disco de Raimundo Fagner, é uma destas preciosidades. Lançado em 1977 pelo solo estadunidense “CBS” (Columbia Broadcast System), o disco é o momento mais sublime da carreira de Fagner, tanto no quesito poesia quanto no viés interpretativo. Além disso, a direção musical fica por conta de ninguém menos do que Hermeto Pascoal, e seu grupo é a banda de apoio. O resultado é um disco que consegue, passando a anos-luz do clichê, criar um sertão idílico, de poesia rara e profunda alicerçada por uma música que extrapola os limites regionalistas da tradição para lançar-se aos terrenos da vanguarda. Destaque para o fantástico de Cinza, o lirismo sertanejo de Flor da Paisagem e a construção primorosa de Cebola Cortada. Um disco absolutamente obrigatório.



- Rógeres Bessoni:



Neste momento, estou voltando a ouvir um obra que me marcou profundamente nos últimos 10 anos. Trata-se do álbum “Flamenco Árabe”, parceria realizada em 2003 entre dois “monstros”: o músico egípcio Hossam Ramzy e o guitarrista de flamenco nascido em Berlin Rafa el Tachuela. A obra é uma fusão intensa e bela da poderosa música árabe do norte da África com o cortante e melódico flamenco (parentes próximos, diga-se de passagem). Aí estão registrados de forma primorosa momentos de profunda introspecção, como que esperando o chamado para a oração do fim da tarde na mesquita, trechos intensos que remontam às cavalgadas no deserto, dança do ventre e andanças pela Rota da Seda. Chamo a atenção para Al Quantara, Ahlam Ghernatah e Kebreiaa Samet, sonoridades encantadoras e profundas que me remetem até aos voos místicos sufis.



- André Maranhão:



Não só “estou ouvindo”, como “ouço sempre”, o disco “Modo Livre”, de Ivan Lins. Lançado em 1974, esse trabalho me agrada bastante porque além de canções bem construídas e com letras assinadas por grandes mestres (Vítor Martins, Paulo César Pinheiro, Caetano Veloso, dentre outros), o percurso de harmonia desenvolvido pela musicalidade de Ivan é algo que me atrai e, diga-se de passagem, recurso fundamental que o tornou um dos emepebistas mais férteis para diálogar com uma estética jazzística.

Se pensarmos que o disco é contemporâneo à transição dos governos Médici-Geisel, veremos que em canções como O Rei do Carnaval (cujo “povo é o rei primeiro” – a despeito da triste época ditada pelo “rei guerreiro”); ou no verso por demais carregado de força “Encosta essa porta que a nossa conversa não pode vazar”, há uma clara dimensão de protesto. Além disso, destaco a importância de um Ivan Lins capaz de combinar as cadências de seus sambas existenciais / vitalistas com sua bela assinatura ao piano, brindadas com a famosíssima Deixa Eu Dizer (mais tarde regravada por Cláudya e Marcelo D2); Avarandado, Chega e o pot-pourri General da Banda / A Fonte Secou / Recordar é Viver.



- Giba Carvalho:



O disco que estou ouvindo no momento é “Mano a Mano”. Trata-se de uma apresentação ocorrida na Plaza de Toros de Madrid em 1993. O trabalho é um compilado de 24 sucessos destes dois ícones da música latino-americana. Aute é nascido nas Filipinas e Rodriguez em Cuba. Mesmo sendo um álbum no formato “ao vivo”, indico a audição principalmente pela riqueza das melodias e pela importância histórica destes compositores para a cultura de seus países. Verdadeiras aulas de canções e letras bem escritas.

Indico – Anda, De Alguna Manera, La Maza, El Necio e Ojala.



- Fernando Lucchesi:         



Se você, caro leitor, assim como eu, conheceu o som do Faith No More no início dos anos 1990, quando a MTV rodava incessantemente os clips de Epic e Falling to Pieces (duas excelentes músicas pop, diga-se de passagem), certamente irá se surpreender com “Sol Invictus”. Primeiramente, esqueça aquela mistura de funk, rap e metal que tornou a banda mundialmente famosa. É bem verdade que a banda continua soando muito pesada, mas dessa vez está mais encorpada, com acompanhamento de piano e vocais bem trabalhados.

Mike Patton, em diversas das músicas soa como um verdadeiro profeta do apocalipse, como em Separation Anxiety, Cone of Shame e Superhero. Mike Bordin continua castigando impiedosamente a bateria e a guitarra intensa e sombria Jon Hudson dá o tom da maior parte das faixas do disco. Isso não significa que a banda esteja preocupada somente em soar pesado o tempo todo. Há espaço no disco para músicas de sonoridade mais pop e ainda assim muito bem sucedidas como The Rise of the Fall (com uma sutil levada de reggae no início da música), Sunny Side Up” e Black Friday.

Mas o que realmente chama atenção são as músicas com acompanhamento de piano. A faixa-título do álbum é uma amostra disso. Uma breve introdução sem guitarras, apenas com bateria, piano e baixo progredindo harmonicamente. Além dela, a belíssima Matador mostra o piano contrabalançando com o peso das guitarras. Um disco extremamente bem feito e uma banda em perfeita sintonia. Certamente um dos melhores discos de 2015.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Variações em 5/4: Selvática




Na coluna deste mês, os editores do blog comentam o mais novo álbum da cantora baiana Karina Buhr, “Selvática”.

Boa leitura!

- Bruno Vitorino:

Acho Karina Buhr uma artista esperta. E digo isso sem qualquer rastro de ironia ou viés pejorativo que a palavra “esperta” possa denotar. Refiro-me tão somente à capacidade que tem de se construir enquanto produto cultural que consegue por no mesmo pacote um grande apelo ao vendável, largas doses de glamour intelectualizado e modismo cult de olho numa nova juventude supostamente contrária àquela “geração Coca Cola” consumista e alienada; uma juventude que se acredita engajada, cheia de causas e bandeiras libertárias, em eterno conflito com o status quo da ordem social não apenas deste país, mas, do mundo. É para esses jovens que Karina Buhr canta. E como muito provavelmente a artista sabe que a música hoje, mais do que despertar sensibilidades e comunicar espíritos numa comunhão via experiência estética, contorna todas vicissitudes da técnica e do conteúdo expressivo para referendar modos de vida, faz deles seu nicho de mercado e se apresenta como referência simbólica para identidades subjetivas. Assim, numa conjuntura de fim das Grandes Narrativas, de hibridização da arte com a lógica mercantil, de descentração do indivíduo ante o mundo e si mesmo, de pulverização da realidade social em infinitas constelações simbólicas de apreensão do mundo, Karina Buhr surge como um discurso, de certa forma, unificador representante de um território imaterial que arrebanha todo esse séquito de jovens nefelibatas e adultos com “síndrome de Peter Pan” que brincam de revoltados com a sociedade.

Por isso, é irrelevante se a música da cantora é esteticamente inócua, como atesta veementemente este seu último trabalho intitulado “Selvática”. Seu público alvo consumirá do mesmo jeito o que quer que faça, bom ou ruim - se é que ainda faz sentido qualificar produções no mundo líquido que relativiza tudo -, pois o que importa para ele é o suplemento de alma, sonho e identidade que a grife Karina Buhr proporciona, já que quando escuta a cantora ele não apenas frui uma manifestação artística, mas consome a reboque uma atitude. Ouvir, curtir e compartilhar o pastiche punk Cerca de Prédio, por exemplo, significa também, mais do que gostar de um som, apropriar-se de uma postura Ocupe Estelita, ou seja, de suas críticas, de sua indumentária, da repetição passiva de seu discurso e, inclusive, do patrulhamento ideológico que promove. Não sem razão, o ativismo político da cantora (e não julgo aqui se este é legítimo ou não) é sempre capitalizado como recurso de marketing em prol de sua carreira artística. Por sinal, o próprio “Selvática” se aproveitou da celeuma em torno da capa para transformar a polêmica em estratégia de divulgação.

Quando lançou o disco virtualmente, Buhr postou em sua página do Facebook a capa do disco, que trazia a própria com os seios à mostra. Rapidamente a rede social retirou a postagem do ar sob o argumento da violação de seus termos de uso, o que gerou a reação enérgica da cantora alegando falta de liberdade e resquícios de um cultura machista que se escandalizava com a nudez feminina. Lógico, faço questão de deixar claro, que a atitude do Facebook foi, para dizer o mínimo, contraditória. Como pode uma empresa que militou há pouco a favor do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo se escandalizar com uma foto que não trazia qualquer conotação sexual, apenas um par de peitos desnudos? Sinceramente, achei uma bobagem. Mas, o que me deixou realmente impressionado foi como a artista se valeu do episódio para promover o trabalho ocupando, com isso, os cadernos de cultura de inúmeros veículos de comunicação e fazendo com que até o Ministério da Cultura se manifestasse oficialmente por meio de nota contra a censura do Facebook. Ato contínuo, uma multidão de seguidores, homens e mulheres, começou a postar em seus perfis fotos com o peito de fora em solidariedade à cantora. Houve até mesmo quem se aproveitasse da ocasião para pegar carona na onda alheia e se promover em cima do episódio. Em resumo, uma “viralização” total que reforça para mim a ideia de que Karina Buhr é menos cantora e mais espetáculo; menos uma artista e mais uma celebridade que busca, surfando no mar da efemeridade de nossa cultura contemporânea, ocupar um espaço de destaque na mídia e nos imaginários de adolescentes e adultos infantilizados.

Portanto, não perderei meu tempo aqui escrevendo as considerações que fiz sobre cada música que ouvi e reouvi não sei quantas vezes do disco “Selvática”, pois elas não serão lidas como análises estéticas de um trabalho artístico, e sim como ataques pessoais a indivíduos que seguem – para usar um termo do momento – a entidade Karina Buhr. E, na boa, a verdade é que, por sua música não possuir qualidades artísticas mensuráveis por critérios tradicionais (e tradicional é bastante diferente de conservador, beleza?), toda e qualquer análise musical que aponte os inúmeros aspectos negativos que o trabalho traz em si é inapropriada, porque seu propósito não é estético, porém midiático-mercadológico-comportamental ligado a um padrão de consumo específico. E como não estudei Administração, Propaganda ou Psicologia do Consumo, prefiro não entrar nessas áreas e dizer somente que “Selvática” é apenas mais um disco com data de validade bem curto voltado para jovens revoltados de apartamento e rede social ou adultos com crise de meia idade. Se você se encaixar nestes grupos, parabéns! Certamente encontrará mais um placebo para ludibriar sua própria consciência.  


- Giba Carvalho:

A estética sempre foi utilizada por diversos artistas como complemento de suas falhas musicais. Notadamente, nos dias de hoje, percebo que inúmeros destes artistas da "nova" geração investem muito mais no lado performático, do que nas pesquisas para dar o real corpo que seus trabalhos necessitam. Em “Selvática”, novo álbum de Karina Buhr, isto será atenuado unicamente pelo vigor dos arranjos.

Com um time de acompanhamento formado por Edgard Scandurra, Fernando Catatau, Guilherme Mendonça e Manoel Cordeiro, a cantora baiana procurou desbravar sons estranhos, vários ruídos, gritos, vozes soturnas e raros momentos de leveza. Tudo isto acoplado a temas da atualidade, tais como – feminismo (principalmente), o crescimento urbano desordenado pela especulação imobiliária (ou seria política?), racismo e criminalidade. É bem verdade que todos estes temas devem ser debatidos e que o artista deve ter a liberdade de criar como desejar e pensar. O problema é como fazer isto de modo convencedor e que traga boas sensações aos ouvintes. Em alguns momentos tais exposições foram de puro sofrimento auditivo (Pic-Nic e Cerca de Prédio).

A única coisa que ocorreu de modo diferente na audição deste álbum foi que finalmente, Karina Buhr, conseguiu a proeza de me fazer gostar de uma música do seu trabalho solo. Alcunha de Ladrão é um reggae de qualidade, de melodia e letra bastante interessantes e que não cai na chatice usual do ritmo. Muito bem trabalhado nos metais e nas guitarras.

Por outro lado, tenho uma posição formada sobre a artista em ênfase. Para mim - “É uma atriz em potencial e péssima cantora!” Isto não mudou com “Selvática”. O que mudou desta vez, é que Buhr vem para a briga de “peito aberto” (não apenas pelos seios à mostra na capa) e isto me agrada sobremaneira. Indiscutivelmente, é o trabalho de uma mulher com personalidade e que vive “mutações constantes”, embora estas, me pareçam mais convenientes do que naturais.

Para finalizar, tenho certeza ao afirmar que este é o melhor disco de Karina Buhr em sua carreira solo. Mas, particularmente não me convence por continuar com a marca registrada dela – “pessimamente cantado e ótimo apenas para atuações. Sejam estas nos palcos ou nas cabeças onde o vácuo anti-musical se propaga a troco de piruetas e derivados afins.”


- Rógeres Bessoni:

Talvez não seja interessante começar uma análise com “talvez”, mas é um problema o que primeiro quero levantar antes de emitir qualquer opinião: talvez seja difícil definir “consistência” em uma produção musical. Pode ser que isso – consistência – tenha a ver com um casamento bem sucedido de grande inventividade musical com maturidade poética nas letras. Pode ser que ela – a consistência – seja percebida como um impacto que lhe faz parar tudo que estava fazendo, para prestar atenção a um portal interdimensional que apareceu subitamente no meio da rua, num dia comum. A finalidade não é multiplicar as alegorias para aproximar a consistência do nosso campo visual imaginário. Apenas declaro com total honestidade que há muito tempo não sinto, oriundo da nossa cena musical, o impacto consistente das coisas novas.

“Selvática” mantém essa ausência de surpresas. Sem grandes achados melódicos, sem grandes achados poéticos, com uma boa banda, mas em nada surpreendente, o disco é, no máximo, morno. Mais um dos registros da onda morna em que flutua a música pernambucana pós-mangue. Karina encaixa alguns vocais bem colocados, como em Dragão e Despediço-Te-Me, com uma voz cristalina em certos momentos, mas sem grandes voos de ousadia ou interpretação de real fúria - nem na faixa-título, em que mais selvageria com técnica seria muito bem-vinda. Não ficou nada de fato marcante, nenhuma “assinatura” como intérprete. Enquanto isso, o tecido musical, apesar de executado de forma competente, é de uma limitação irritante e nos precipita na monotonia de ouvir um disco inteiro sem nada de hipnótico: nenhum riff, nenhuma melodia, nenhuma pegada de bateria, nada.

Há boas sacadas nas letras, como em Alcunha de Ladrão, mas são apenas boas sacadas, nada que aponte um novo caminho ou abra trilhas para outras percepções. As letras não revelam, não ameaçam e não assustam o cotidiano – nem nos conduzem a vê-lo “pelo lado de fora”. Por isso, o disco é morno: em todo o trabalho, não há uma única construção sonora ou textual que se estabeleça como um marco. O disco inteiro não conduz ou aponta para absolutamente nenhum caminho novo. Vi um dos comentários sobre a obra dizendo que ela “peita o mundo machista”, e para mim não peita. Qualquer que seja sua temática ou intenção, o texto do disco não alcança de jeito nenhum os níveis radioativos que a poesia necessita para afrontar e desmantelar um universo e, em seguida, plasmar outro vigorosamente. Não tenho nenhum motivo para duvidar da sinceridade e seriedade das buscas musicais de Karina Buhr, mas ainda não foi dessa vez que sua obra desferiu o golpe certeiro de uma guerreira do Daomé.


- Fernando Lucchesi:         

No seu terceiro disco a cantora e compositora baiana mescla peso e melodia. Fica explícita no disco a intenção de fazer uma mistura das principais influências da cantora. Há desde pop, punk rock, reggae e até um pouco de maracatu em algumas músicas.

O álbum abre com Dragão, música com muita percussão e alguns naipes de metal, mas que não sai do lugar comum. O disco muda com Eu Sou Um Monstro. Com uma letra provocativa, Karina Buhr sugere às mulheres que mostrem seu lado selvagem ao se verem acuadas diante de diversas situações em que são vítimas. Ao mesmo tempo em que reflete sobre a apatia, ela revela a mulher forte e lutadora ao confessar “ser um monstro”. A música flui muito bem, densa e pesada, mas cadenciada com uma guitarra muito bem executada e cheia de efeitos sonoros. Com uma base eletrônica e muita percussão Conta Gota funciona bem e revela uma cantora que evoluiu em relação aos seus trabalhos anteriores.

O grande problema do disco reside na sequência de músicas pesadas, com notada influência do punk rock. Apesar de muito bem executadas pela banda de apoio, a voz de Karina Buhr definitivamente não funciona em músicas nesse estilo. A voz dela fica tão fraca por cima de camadas de guitarras que, muitas vezes, fica até difícil compreender o que ela canta. Pic Nic (possivelmente a música mais fraca do disco), Esôfago e Cerca de Prédio vão todas nessa mesma direção. Voluntária ou involuntariamente, Karina parece ter elaborado um novo hino para o movimento Ocupe Estelita com Cerca de Prédio”, em que critica abertamente a especulação imobiliária.

Já no final do disco, Buhr segue mostrando mais explicitamente suas influências regionais com Rimã (com uma bateria característica de maracatu), Alcunha de Ladrão (um reggae com toques de guitarra paraense). Mas, apesar dessas duas músicas a cantora não abandona sua verve pop e encara duas ótimas baladas Vela e Navalha (essa, com uma guitarra com leves toque psicodélicos) e Desperdiço-Te-Me”. O disco encerra com a faixa-título do álbum Selvática, um longo poema musicado que não tem nada de muito especial. Um disco que surpreende, apesar de algumas limitações da cantora.


- André Maranhão:

Creio que para entendermos “Selvática” é preciso situar Karina Buhr. Se Mônica Salmaso, Alcione e Céu, são cantoras; Adriana Calcanhoto, uma cancionista; Rosa Passos, uma intérprete; para mim, Karina é muito mais uma performer, cujos trabalhos se posicionam e rendem melhor no embaralhar da canção com a foto, o videoteipe, a colagem, o figurino, a maquiagem e a arte feminista / crítica ao falocentrismo. A capa do álbum, inclusive, já mostra como a força do visual faz parte de sua estética, ao mesmo tempo em que ouvir o disco revela que analisar Karina a partir de recursos técnicos de seu canto pode não levá-la a muitos elogios.

Primeiramente, uma grande parte de “Selvática” se perde numa poética, que embora aparente uma desconstrução da linguagem – preocupada com os “rastros” das palavras, ruídos e entonações – se converte mais em um discurso autorreferente, repleto de tautologias (“mordida, a pele fica ferida”), frases repetitivas e, fazendo aqui um trocadilho com a canção Pic Nic, “sem graça”. Essas posturas se estendem da primeira à quinta faixa do álbum. Para mim, o melhor do disco se concentra em Cerca de Prédio, Vela e Navalha, Rimã, e Alcunha de Ladrão (esta última a melhor canção do trabalho de Karina), pois nesses trechos, ela alterna bem entre o punk, a ciranda, o reggae; e arredonda melhor sua voz, como também apresenta uma literalidade mais interessante nessas canções. Ainda assim, estou longe de considerá-la uma cantora, propriamente falando.

As duas últimas faixas (Desperdiço-me-te e Selvática) me chamaram atenção mais pela qualidade literária e menos pela musical. Ambas as canções poderiam, inclusive, servir perfeitamente como bons poemas, mas não brilham igualmente no formato de canto. Consequentemente, o desencaixe entre a qualidade da palavra escrita e a perda de intensidade de uma palavra cantada, me incomodou várias vezes em Selvática. Por isso, penso que Karina poderia optar mais pelo arredondamento de suas melodias e insistir na harmonia como recurso instrumental de sua banda, pois é possível realizar trabalhos de crítica mais contundente, além de uma fértil desconstrução linguística, sem recorrer ao misto de guitarras e sintetizadores empobrecidos, tampouco sem necessariamente amontoar cantos esparsos e caóticos para reunir qualquer mensagem política mais sólida e militante. Ora, basta escutarmos artistas como Itamar Assumpção, Sergio Sampaio, Jards Macalé, Badi Assad e Tom Zé, para lembrarmos que é possível experimentar a arte sem abrir mão de afinação, qualidade harmônica e literária.

sábado, 24 de outubro de 2015

Cenários de Desertificação Cultural: O Cancelamento da MIMO 2015 – por Bruno Vitorino



Foi com um misto de surpresa e desalento que recebi a notícia, por meio do parceiro de blog Giba Carvalho, de que a edição deste ano do Festival MIMO seria cancelada em Olinda. A justificativa encontrada pelos organizadores do evento, num comunicado publicado em sua página no facebook, aponta para a falta de patrocínio para bancar todas as despesas de realização da etapa pernambucana do festival. Realmente. Imagino que em tempos de crise econômica (e isto é um fato), com a Administração Pública de modo geral na pindaíba e a iniciativa privada – que nunca teve muito interesse em apoiar a ações culturais mesmo no tempo das vacas gordas, diga-se – atuando no vermelho, fica no mínimo difícil para uma mostra “internacional” de música bancar o cachê de artistas que na maioria dos casos recebem em dólar ou em euro. E qualquer pessoa minimamente informada sabe o quanto a cotação dessas moedas tem operado na estratosfera das bolsas de valores ultimamente. Mas, mesmo diante desse cenário, a pergunta que não consigo tirar da cabeça é: por que só cancelaram a etapa Olinda do festival?

O fato é que a MIMO, que nasceu em 2004 “Mostra Internacional de Música em Olinda”, cresceu muito além de seu escopo original. Aclamado ano após ano por público e mídias, o evento se consolidou enquanto negócio, expandiu sua área de atuação para além dos concertos, conquistou outras cidades, deixando com isso de ser um conceito de festival para se tornar uma trademark que comercializa não somente shows, mas toda uma experiência de consumo de bens culturais de maneira massiva e gratuita. Assim, amparada pela irresistível pauta da democratização do acesso à cultura a qual fala em “tornar acessíveis ao grande público atividades de cultura e de artes no formato de espetáculos para a fruição[1], a MIMO (e não mais “Mostra Internacional de Música em Olinda”) tornou-se uma franquia potencialmente interessante tanto para empresas, que atrelam sua marca a um projeto cultural renomado, quanto para o Poder Público por todos os dividendos políticos que um evento desta natureza lhe traz. Por isso que mesmo diante de um cenário de crise e escassez de verbas para empreendimentos culturais houve patrocinadores, se não para bancar a realização da mostra em todas as cidades originalmente pensadas pela produção, ao menos, na maioria delas. Desta forma, ao que parece, acabou sendo apenas uma questão de cortar aquela cidade cujo estado tivesse menos recursos a oferecer, como numa espécie de leilão em que se descarta o pior lance. Do contrário, teriam cancelado, por exemplo, Paraty ao invés da “cidade-mãe” e “berço da inspiração” da MIMO, não é mesmo? Mas, não foi o que aconteceu, e deu no que deu.

Fonte: Facebook da MIMO. 
Obviamente que eu entendo a estratégia dos produtores sob a ótica do negócio: a MIMO é uma empresa que vende um produto na forma de evento cultural. Simples assim. O que não aceito é essa conversa mole, com ares de tragédia quixotesca, de heróis da resistência da arte pela arte sucumbindo à realidade intransponível dos fatos econômicos; esse papo furado de “Desculpem, mas lutamos até o fim por vocês, público amado.”, quando na verdade a decisão parece ter sido bastante racional e prática do ponto de vista empresarial. Leio nas entrelinhas disso tudo algo como: “Pessoal, Olinda tornou-se inviável financeiramente. O estado está quebrado e a prefeitura não chega junto. Além disso, Rio e Minas estão oferecendo condições bem mais interessantes. Vamos focar lá. Cancelem Olinda. Se der, ano que vem retornamos. Se não der, paciência.”

E como explicar Pernambuco e Olinda terem grana para encher os bolsos das celebridades decadentes da música nacional e dos arautos da pernambucanidade em eventos como carnaval, Festival de Inverno de Garanhuns e editais de fomento, e deixarem escorrer pelos dedos a realização em suas terras do maior festival de música instrumental do país? E o Governo Federal, que também fomenta a mostra, não liberou mais recursos de modo a garantir a realização da etapa Olinda da MIMO por quê? Vai por a culpa na crise pela qual jura de pés juntos não ser responsável? Onde fica toda aquela conversa de que cabe ao Estado garantir por meio de políticas culturais a manutenção de programas e ações de interesse público? Meu coração teria ficado mais tranquilo se eu visse um pouco mais de franqueza e menos pirotecnia retórica por parte de todos os atores envolvidos nesta história, e meu juízo certamente não estaria lançando sobre mim perguntas tão incômodas.

Diante de tudo isso, resta-me apenas lamentar que Pernambuco acabe perdendo um dos mais importantes eventos culturais do estado - dentre os poucos que ainda possui. Evento este que colocava, de certa forma, este pequeno vilarejo com febres de megalópole cultural do Brasil (quiçá da galáxia!) que é o Grande Recife na rota mundial da cultura; desmistificava a música instrumental para um vasto público pouco familiarizado com ela; trazia para cá grandes nomes da atualidade que antes só passavam, quando muito, por São Paulo e Rio; promovia o intercâmbio de culturas e materialidades do sensível por meio dos concertos e etapas educativas; proporcionava novas formas de interação e ocupação do patrimônio histórico, tornando-o vivo e integrado com o tecido urbano; e, de quebra, ainda enchia de vida as ladeiras de Olinda, mostrando todo o potencial da cidade que fica ocultado pela inércia da municipalidade.

Cabe agora aos daqui se contentar com os mega-espetáculos de pagode romântico, axé music e forró estilizado; com as festinhas de brega cult que proliferam por todos os redutos descolados desta província; com as figurinhas repetidas que se acostumou a ver periodicamente nos eventos promovidos pelo Poder Público (especialmente no carnaval); e com os festivais indie de música cujas bandas trazem como único mérito artístico serem absolutamente desconhecidas do público geral e cultuadas tão somente por sociedades secretas de hipsters. Mas, não faz mal. Desde que nossa classe artística tenha um FUNCULTURA para chamar de seu e o recifense descolado encontre seus falsos ícones locais para reverenciar - o do momento se chama Johnny Hooker - acreditando-se no centro do universo das Artes, tudo correrá bem. E assim, de delírio em delírio, vamos negando a desertificação cultural que nos assola com cada vez mais contundência.



[1] MIRANDA, Danilo Santos de, “Apresentação” in WU, CHIN-TAO; “Privatização da Cultura: A Intervenção Corporativa nas Artes desde Os Anos 80”, Boitempo Editorial, São Paulo, 2006, pág. 21.  

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Selvagem Wolverine – Por André Maranhão




Não faz muito tempo que Walter Palmer, um dentista dos Estados Unidos, resolveu caçar no Zimbábue e matar o leão Cecil, um dos mais carismáticos símbolos daquele país africano. A repercussão do fato foi rápida, pois em um mundo global, onde se joga o jogo das identidades (como diria Stuart Hall) Palmer amargou em poucos instantes, fortes mudanças sobre a sua reputação, desdobrada pelas opiniões públicas, imprensa e redes sociais. Se antes ele era simplesmente um profissional norte-americano de uma pequena cidade em Minneapolis, cujo ofício era o de cuidar das pessoas – em poucas horas, Palmer passou a ser considerado como uma criatura sem coração, compaixão e um mau caráter – coisa ainda mais agravada se pensarmos que o felídeo Cecil ainda agonizou por 40 horas antes de ser completamente abatido.

Ora, também não faz muito tempo que a Editora Panini publicou Selvagem Wolverine, uma série espetacular da Marvel. A primeira saga, intitulada Venha Conquistar as Feras, teve o roteiro assinado por Phil Jimenez e Scott Lope. Ela apresenta um Wolverine frontalmente crítico às matanças de elefantes e rinocerontes na África, além de opositor a todo um comércio clandestino de marfim. É claro que parte dessa militância já se fazia bem presente no filme Wolverine Imortal (lançado em 2013 no Brasil), quando o velho Logan, vivido por Hugh Jackman demonstrava toda a sua solidariedade a favor de um urso brutalmente perseguido nas montanhas do Canadá por caras armados com arcos e flechas envenenadas. A diferença é que em Selvagem Wolverine, um frisson curioso parece tomar conta da história, quando o tráfico de marfim se cruza com algo aparentemente improvável: a prostituição infantil do sudeste asiático. Numa encruzilhada ética e em um mundo marcado por seus ricochetes (usando aqui um termo de George Yudice) e turbulências, Logan se reparte entre os destinos das garotas da Ásia, os animais da África e o seu passado manchado de sangue, guerras e, inclusive, caçadas. A consequência disso se faz em uma trama atualíssima, sobretudo quando nos percebemos como parte de um mundo global (ou até glocal), cujas posições e práticas vivenciadas em pequenos espaços de ação podem interferir nas condições de vida de atores humanos e não-humanos, espalhados em posições tão desiguais.

Já a segunda parte de Selvagem Wolverine se chama Ira, e é esplendidamente contada e historicizada por Richard Isanove – um artista francês que estudou animação em Paris e na Califórnia. Ira se passa na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá ao longo da Grande Depressão, sentida pela crise de 1929 em Wall Street. À época, Logan (que fazia bicos com transporte clandestino de bebidas alcoólicas em plena Lei Seca) se vê com a desafiadora tarefa de proteger crianças de criminosos sanguinários e calculistas. Embora ainda desprovido do adamantium enxertado em seus ossos pelo programa Arma X, Logan já dispunha de seu fator regenerativo e dos instintos de carcaju, que lhe serão exigidos ao longo de seus embates contra figuras temíveis e claramente impiedosas em Ira.

Não diminuindo a relevância e a atualidade temática de Venha Conquistar as Feras, Ira é seguramente a melhor parte de Selvagem Wolverine, pois além de ilustrações mais ricas, está repleta de exercícios narrativos que incluem parte da história dos imigrantes dos Estados Unidos, além de diálogos que não se deixam cair na monotonia ou no lugar comum das séries de heróis das HQs incumbidos pela missão de derrotar alienígenas, vilões fantasiados, ou monstros redundantes. Ira é novela gráfica que se aproxima de um traço noir, perfeitamente sugestiva nos adversários de Logan, dessa vez, engravatados, armados com facas, lâminas de barbear, garrotes, metralhadoras, e mancomunados com as polícias locais além da máfia de Chicago. Num período em que Al Capone se digladiava com Eliott Nes, uma história como Ira deixa as mortes correrem soltas, que se acoplam com total sentido e se tornam ainda mais icônicas quando transpostas para lugares como motéis, orfanatos e montanhas do Colorado. Selvagem Wolverine é certamente um dos lançamentos mais profícuos da Marvel em 2015. A sua leitura vale muito. Se Will Hunting (um personagem vivido por Matt Damon em Gênio Indomável) disse que os grandes livros são aqueles que nos deixam de cabelo em pé, com certeza Selvagem Wolverine é forte candidato para levantar nossa cabeleira!

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O Que Ouvi de Interessante no Mês de Agosto – Por Bruno Vitorino


Agosto foi um mês de saxofonistas na minha escuta. Talvez por causa de certa preocupação e pesquisa das questões da melodia – motivos, tema, fraseados, articulação, etc. – tenha intuitivamente voltado meus ouvidos para estes instrumentistas. Separei aqui três dos discos que ouvi mês passado, todos projetos capitaneados por saxofonistas, mas que apontam caminhos estéticos diferentes entre si, atestando o quão pessoal pode ser a música em sua infinita variedade.


1.     Mark Turner Quartet – Lathe of Heaven:




Dos saxofonistas contemporâneos radicados em Nova Iorque, Mark Turner sempre me pareceu a menos badalado de seus pares em seu mundo da arte, atuando à sombra de figuras estelares como Chris Potter, Joe Lovano e Joshua Redman, recebendo pouca atenção da crítica especializada e desempenhando um papel relativamente discreto no circuito internacional do jazz. No entanto, o tenorista formado na Berklee College of Music e descoberto pelo trombonista/produtor Delfeayo Marsalis (o mais novo dos irmãos da dinastia Marsalis) no início dos anos 1990 vem conseguindo se sobrepor à subestima com um estilo de improvisação bastante particular que privilegia longas e bem arquitetadas linhas melódicas, o uso dos espaços e da variação motívica, saltos inesperados nos registros do sax notadamente a explorar os agudos como recurso provedor do clímax; sintetizando, com isso, numa espécie de dialética sonora, explosão emotiva e contenção racional de seus impulsos. Obviamente influenciado por John Coltrane e Sonny Rollins, pois são referências inescapáveis a qualquer saxofonista do gênero, seu estilo, entretanto, busca primordialmente reconectar o tenor à tradição de certa forma esquecida do contemplativo Cool Jazz, mais especialmente ao sax de Warne Marsh, daí a singularidade de sua sonoridade.

“Lathe of Heaven”, disco lançado em meados do ano passado pelo selo alemão ECM Records, documenta a maturidade de Turner enquanto solista decantada ao longo de sua carreira, além de enfatizar, pela primeira vez, a meu ver, seu talento inerente para a composição além dos esquemas convencionais de saxofonistas prolixos no qual um tema é estruturado por blocos que expõem uma melodia - geralmente complicada, cheia de notas e picotada por acentos rítmicos incomuns -  através de centros tonais que servem de guia para os músicos nos solos que giram indefinidamente sobre toda a forma. Neste sentido, o que se encontra no álbum do tenorista é a preocupação de um compositor inteiramente consciente de seus objetivos estéticos em enfatizar os silêncios, desenhar melodias vagarosas que se movem calmamente por meio de notas longas tocadas em contraponto que gravitam sobre uma seção rítmica bastante fluida e liberta dos constrangimentos impostos pela noção tradicional de swing em 4/4; valendo-se da ausência de um instrumento harmônico para, além de depositar mais responsabilidade sobre todos os envolvidos no delicado processo coletivo da interpretação em contextos de espaço amplo, articular seções ancoradas por um sentido harmônico (geralmente modal) a outras inteiramente abertas de improvisação coletiva. Com isso, Turner, Avishai Cohen (trompete), Joe Martin (contrabaixo) e Marcus Gilmore (bateria) conseguem a proeza de transitar com muita naturalidade entre tradição e o avant-garde numa música que propõe uma ideia pouco usual de lirismo que é, de alguma maneira, clássica, mas inteiramente nova. Disco altamente recomendado.





2.     Steve Lehman Octetc – Mise en Abîme:




O disco do Steve Lehman é uma porrada! É um trabalho que apresenta ao ouvinte sério e aos músicos interessados com os aspectos da composição, interpretação e improviso possibilidades inteiramente novas e inspiradoras. Desdobramento natural de sua tese de doutoramento em música na Universidade de Colúmbia (clique AQUI para ler), em “Mise em Abîme” o saxofonista depura sua abordagem musical baseada em três conceitos chave: a música espectral, que consiste basicamente em decompor uma nota musical em sua série harmônica e considerar todo esse halo sonoro nas escolhas da orquestração, harmonização e improviso; improvisação afrológica, que mais do que uma técnica ou estilo, sintetiza um conceito de improvisação, um ethos musical fundamentado na espontaneidade das decisões tomadas "na hora" durante a performance, no caráter colaborativo do ato de tocar, na preocupação em articular personalidade e perspectivas individuais através do som; e limiares rítmicos, ideia que foca na percepção cognitiva dos fenômenos rítmicos. Mas, calma! Não se assuste com todo esse embasamento teórico, pois não se trata de uma música científica, laboratorial e inorgânica, mero exercício formal e acadêmico da construção sonora. Há, isto sim, uma ousadia de se procurar novas maneiras de compor, improvisar e interpretar um tema por trás de todo este aparato conceitual que mais remete à música erudita de vanguarda que ao jazz. No entanto, Lehman tenta aqui erguer uma ponte entre estes dois mundos, fazendo com que se retroalimentem e se expandam enquanto linguagens e plataformas expressivas. E, ao fazer isso de maneira muito firme através de uma música inteligível e palatável, propõe uma outra sensibilidade, uma outra construção estética que defina um novo conceito de beleza bem distante daquela que se sedimentou em nossa memória auditiva. Música para mentes abertas, ouvidos inquietos e curiosos. Altamente recomendado!



                 
3. John Coltrane – Offering: Live at Temple University:




Em outubro de 1956, John Coltrane foi expulso do aclamado quinteto do trompetista Miles Davis. Miles, digamos usando um termo suave, estava “triste” com o comportamento do saxofonista. Seus problemas com o álcool e o vício em heroína faziam com que Trane estivesse sempre em más condições: chegava atrasado, cochilava no palco, errava as entradas dos temas, era displicente nos improvisos... Era o fundo do poço. Até que, em meados de 1957, Coltrane, nas palavras do próprio, experimentou, “pela graça de Deus, um despertar espiritual que me levou a uma vida mais rica, plena e mais produtiva”[1]. Por conta dessa epifania, o saxofonista entrou numa espécie de primeiro ciclo criativo que lhe rendeu as camadas de som (sheets of sounds), complexos esquemas harmônicos e os álbuns “Blue Train” e “Giant Steps”, ambos clássicos e obrigatórios. A partir de então, o aspecto espiritual passou a estar presente na concepção musical de John Coltrane, e, à medida que ele continuava sua busca por uma música que abarcasse todas as suas necessidades expressivas, este caráter religioso foi tomando um papel cada vez mais central em sua produção.

Lato sensu, “Offering: Live at Temple University” documenta um John Coltrane em sua última fase: absolutamente imerso naquela perspectiva transcendental de sua obra, de busca em não apenas se reconectar com uma Força Criadora através da música, como também em ampliar suas fronteiras estéticas para ainda mais longe. Olhando mais especificamente, o disco duplo traz o registro do concerto histórico dado por Coltrane e seu grupo em 11 de novembro de 1966 - quando ele já não mais se apresentava em clubes, e sim em igrejas e templos - em que, de maneira totalmente inesperada e espontânea, ele põe seu instrumento de lado e começa a cantar e bater no peito, inteiramente mergulhado num transe. Através deste precioso documento é possível identificar aspectos fundamentais da música do saxofonista em seu último estágio, isto é, sua preocupação com o ritmo pelo incremento de percussionistas;  o ainda vigoroso som do tenor e as intensas sessões de improvisação, a despeito da debilidade de sua saúde por causa do câncer no fígado que em 6 meses lhe retiraria a vida; e, o mais importante, como as composições serviam de plataforma para vôos individuais e coletivos pelas paisagens abstratas e rarefeitas do etéreo com o mais puro intuito de comunicar o sublime. Por isso, “Offering” é o testemunho de que Coltrane em seu mergulho na espiritualidade se entregou inteiramente a celebrar e agradecer ao Cosmo pela dádiva da vida, como se afirmasse um preceito dos sufis que defendiam que “a totalidade da criação é o som e que tudo surgiu e desenvolveu-se através do tom e do ritmo”[2]. Um disco obrigatório para os iniciados na liturgia de John Coltrane, mas, talvez, não adequado para aqueles que iniciam contato agora com sua obra.







[1] Trecho retirado do texto escrito pelo próprio Coltrane para o clássico “A Love Supreme”.
[2] KHAN, Musharaff Moulamia; “A Vida de Um Sufi”, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1973, pág. 119.