Mais uma vez o canal portugues
RTP2 me surpreende com a seleção de filmes ao longo de sua programação semanal.
Sempre com espaço aberto em horário nobre (por volta das 22h) ao cinema de arte
europeu, já tive oportunidade de assistir excelentes obras contemporâneas do
velho mundo, longas e curtas, que no Brasil até que algumas são exibidas, porém em pouquíssimas salas e com difícil acesso.
A de hoje foi o filme de 2010 do
cineasta italiano Michelangelo Frammartino, intitulado "La Quattro Volte".
Uma obra sem diálogos, mas com uma profundidade espontânea acerca da existência
das coisas. No caso, as "quatro voltas da vida" ao meu ver seria a
fluidez do mundo mineral, vegetal, animal e humano, representados pela areia, pela
árvore, pela cabra e pelo pastor. Filme de uma poética visual sensível, excelente
fotografia e apesar de fugir dos padrões estéticos atuais, é de certo modo fácil
de assistir.
O filme é um convite de volta as nossas
origens mais primitivas, onde o ser humano não era apenas um transformador, mas
uma parte intrínseca de um todo. Um convite a simplicidade da vida, a
efemiridade e a leveza (ou peso) da realidade.
Para o primeiro post de 2013,
estreamos a coluna “Variações em 5/4”. Todo mês, os editores do blog comentarão
algum lançamento marcante, seja disco, livro ou filme. Nesta primeira edição, a
pauta é o mais novo álbum de Caetano Veloso: Abraçaço.
- Dom Ângelo:
Considero Caetano Veloso uma
pessoa que carrega em si um enorme diferencial artístico e existencial perante
seus colegas de geração 60, 70 e 80. Isto reside na capacidade do mesmo de se
modernizar e reciclar suas ideias artísticas, colocando forte pé na
contemporaneidade e não temendo trilhar caminhos estéticos inexplorados na sua
carreira musical.
Desde o disco Cê, quando se
juntou com músicos da nova safra do rock carioca, que a música de Caetano
voltou a abranger um universo rebelde de uma forma brilhante e consciente.
Considero o disco Cê um dos cinco melhores álbuns de sua carreira e a
continuidade com os discos Zii e Zie e Abraçaço manteve o criativo momento
artístico que o músico vive atualmente.
Fechando a trilogia, o álbum de
2012 vem, como sempre em sua obra, com excelentes letras. Apesar, dessa vez,
mais racionais do que emocionais. Homem de uma musicalidade infinita, Caetano
mostra-se de peito aberto aos seus impulsos criativos, vivendo no presente,
atento ao agora e se desfazendo de muitas vaidades alimentadas pelo ego.
Vaidades essas que travaram a mente de artistas em épocas do passado. Ele, ao
contrário de muitos, vive o hoje.
Apesar de ficar claro pra mim
certas limitações técnicas e de vocabulário musical dos integrantes da Banda
Cê, prefiro me prender ao ótimo trabalho de arranjos minimalistas que esses
músicos criaram, conseguindo eles surpreender os conservadores que acham que
músico bom é músico tecnicista. Rock alternativo é bom assim.
Enfim, vou utilizar a expressão
mais cansada, porém a mais eficiente para a determinada frase: - Caetano Veloso
é genial!
Ah...mas não é só a Bossa-Nova
que é foda. Mas Caetano! - Giba Carvalho:
Caetano mostra que continua sendo
o mais ousado dos compositores de sua época. Isto não quer dizer absolutamente
que seu “Abraçaço” mereça uma atenção mais do que especial. É um disco
contemporâneo, principalmente daquilo que não só o próprio Caetano, mas todos
nós somos bombardeados diariamente. Notícias sensacionalistas, vazias e sem nem
“ter pra que” como inspiração. Ainda assim, é superior a grande parte das
produções autorais nacionais do momento. Gosto do flerte com o rock n´roll,
mais presente desde o “Cê”.
- Bruno Vitorino:
Caetano Veloso sempre foi para
mim sinônimo de não conformismo estético. Sua imensa discografia traz como
marca essa busca constante por veredas inexploradas numa fuga ao comodismo do
mito que consequentemente leva à repetição de si. Pode-se falar o que for a
respeito de Caetano, mas uma coisa é certa: ele assume riscos. E isso é muito
bom, a princípio. Contudo, suas investigações em prol do desconhecido por vezes
descambam na gratuidade do incipiente, e existe um abismo gigantesco que separa
o vigor do novo da novidade frívola.
Atualmente no cenário indie brasileiro proliferam grupos
formados por músicos desprovidos do mais elementar domínio técnico de seus
instrumentos, que esbanjam uma poesia (?) sem sentido algum, apresentam
cantores desafinados e constroem em torno de seus integrantes uma aura
milimetricamente deliberada de artistas sérios, criativos e inovadores. Cidadão Instigado, Karina Buhr, Do Amor, dentre outros nomes da cena alternativa são
exemplos dessa consagração do malfeito. Por isso, devo confessar que tenho
problemas em digerir o projeto que se iniciou com o álbum “Cê” (2006), passou
por “Zii e Zie” (2009) e foi concluído com “Abraçaço”. Digo problemas, porque
Caetano, ligado como é ao contemporâneo, ao se juntar com Pedro Sá (guitarra),
Marcelo Calado (bateria) e Ricardo Dias (baixo) acolheu justamente essa
estética do tosco em voga na música pop alternativa brasileira. “Abraçaço” é um disco simplório
(Minimalismo é outra coisa). Paradoxalmente, justamente por flertar com o
banal, o álbum requer do ouvinte um esforço considerável para que se revelem os
lampejos de inventividade no meio de sua paisagem monocromática. O que é, vale
ressaltar, muito pouco para redimir um trabalho de um artista da magnitude de
Caetano Veloso. Neste projeto, a atitude experimental do baiano se revela de
certa forma domesticada, forçosa e até constrangedora como na tenebrosa “Funk
Melódico”, na melancolia adolescente de “Estou Triste” ou no tédio amoroso de
“Gayana”. Os bons momentos ficam por conta da crua e direta “A Bossa Nova é
Foda”, da balançada “Abraçaço” e do bluesy
“Vinco”. Em resumo: um disco sem graça que consolida Caetano como ícone pop
cult e, infelizmente, evidencia seu
desgaste criativo.
- André Maranhão:
Eu julgaria que Abraçaço é um
álbum importante para sustentar um fôlego na carreira de Caetano Veloso. O
“risco” que Caetano corre ao buscar conexões com ritmos e temas dos mais
diversificados me parece bem salutar. A começar por A Bossa Nova É Foda, onde
Caetano declara mais uma vez a sua admiração por João Gilberto, a quem ele se
refere como “o bruxo de Juazeiro”. Para Caetano, a voz e o violão de João
Gilberto parecem ultrapassar a própria bossa nova e em seu livro Verdade
Tropical ele fala da interpretação de João Gilberto: “É uma aula de como o
samba pode estar inteiro mesmo nas suas formas aparentemente
descaracterizadas”. Não é para menos: Caetano atribui a João Gilberto um
caráter transformador, fazendo da bossa nova algo tão forte, como um Anderson
Silva, um Minotauro ou um Júnior Cigano (referências também presentes na canção). A canção Vinco é para mim uma das
mais marcantes do álbum – tanto por sua construção literária quanto por sua
melodia blues e estrutura semiótica que me fez lembrar outros êxitos de Caetano
como Lindeza e Luz do Sol. Eu também destacaria outras faixas como Um Abraçaço;
Quero Ser Justo e Quando o Galo Cantou. Já O Império da Lei e Parabéns são
canções que devemos destacar pela tentativa de Caetano de flertar com alguns
ritmos do Norte do Brasil e que me parece bem sucedida. Minhas ressalvas maiores vão para
Estou Triste; Um Comunista; Funk Melódico e Gayana. A primeira é longa,
monótona e de pouco apelo literário. A segunda é uma importante homenagem a
Carlos Marighella e acho de uma literalidade fantástica, mas a melodia não
empolga e o compasso sobe e desce de modo redundante. A terceira me deu a
impressão que o Funk ainda permanece um ritmo de difícil adaptação para uma
forma mais rebuscada na música brasileira – e isso vale, sobretudo, para a
literatura da canção – afinal, eu não trocaria uma paródia de Marcelo Adnet
pelo refrão de Caetano: “O tijolo é gritar você me exasperou / Que você me
exasperou / Você me exasperou / Você me exasperou / Você me exasperou”. Por
fim, Gayana é uma canção lugar comum na letra e de uma modulação de pouco
sucesso na melodia.
- Fernando Lucchesi:
Desde
2006, quando lançou o impressionante “Cê”, que Caetano Veloso deu uma guinada
na sua carreira. O terceiro disco com a banda Cê, “Abraçaço”, busca seguir as
diretrizes do primeiro disco, mas apenas as diretrizes! Enquanto “Cê” era um
disco carregado de referências ao fim de relacionamento experimentado por
Caetano, as referências usadas em “Abraçaço” são as mais variadas possíveis.
Vão do filme “Eu receberias as piores notícias dos teus lábios” até homenagens
à lutadores de MMA, João Gilberto (o bruxo de juazeiro), Tom Jobim e Bob Dylan
(o bardo judeu romântico de Minessota). A guitarra de Pedro Sá ainda é o
principal foco na sonoridade da banda - vide o excelente riff de “A bossa nova
é foda” e o instigante solo na faixa de nome ao disco. “Abraçaço” se ressente
do sexismo bem humorado (“Homem”) e da desolação de um fim de relacionamento
(“Não me arrependo”) contidos em “Cê”, mas é um disco que mantém a intenção de
revitalizar e dar mais peso ao som de um dos mais irrequietos compositores da
música brasileira. Qual o próximo passo de Caetano? Para mim, a indicação está
na faixa “Funk Melódico”. Um disco de Funk Pancadão em parceria com Mr. Catra.
Você duvida? Eu não!
"Não tenho paz, nem
descanso, nem repouso; o que me vem é agitação" – Jó 3:26
"Numa manhã, ao despertar de
sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado numa
gigantesca lombriga." Esse bem que
poderia ser o início do livro A
Metamorfose se Franz Kafka fosse recifense. Imagino que ao invés de
discorrer alegoricamente sobre a opressão esmagadora de um pai austero e quase
sádico, o autor extrapolaria os demônios de seu núcleo familiar para retratar
os tormentos que nascem de se descobrir um verme numa cidade que não passa de
um amontoado de bosta.
Explico:
Obviamente que amo o Recife e que
escrevo isso sob o ímpeto do desgosto e o assombro do desespero. Mas, infelizmente
não há como ser de outra maneira... Aqui impera um “salve-se quem puder”
generalizado de modo que uma verdade tão banal como a ideia aristotélica de que
os seres humanos vivem em sociedade em busca do bem comum não passa de um
devaneio. Alguns chegam mesmo a afirmar inclusive que se trata de um desejo
pequeno burguês demais para ser implementado por essas terras. Síndrome de
colonizado, vontade de ser americano - eles se referem aos EUA - e outras baboseiras
que reverberam feito mantras nos diretórios acadêmicos dos cursos de ciências
humanas (sou formado em História e já ouvi muito esse papo). Legal mesmo é
socializar a miséria!
Hoje o Recife irradia um tacanho bairrismo
materializado no pior dos sentidos: a cegueira crônica ante suas mazelas.
Em qualquer direção que se olhe,
há uma transgressão, um desrespeito à regra, uma agressão à ideia de comunidade.
Do motorista que não respeita a faixa de pedestre, passando pela construtora
que desconsidera o interesse público para especular livremente com a conivência
da presente gestão municipal e da sociedade civil (afinal há quem compre esses
empreendimentos, não?), chegando ao prefeito recém-eleito que estranhamente
nomeia um Secretário ficha-suja para compor o primeiro escalão de seu governo. É
algo tão endêmico em nossa sociedade que transcende a normalidade para descambar
na naturalidade. E essa diferença, meus caros, é crucial, pois o “normal” são práticas
sociais de uma comunidade amalgamadas e significadas por um aparato
cultural/ideológico que distingue e legitima esse grupo, ou seja, é o conjunto
de símbolos que dá sentido a esse microuniverso. Já o “natural” é quando esses
signos são introjetados de tal forma que são vistos como condição intrínseca ao
Ser Humano. No nosso caso, é a naturalização do “jeitinho”.
Pois bem, ontem (20/12) após um
dia de muito trabalho e do desgaste que é o embate com a Rua, chego à minha casa
para, enfim, por os pés para cima e apenas existir. Tudo corria bem até que, às 21h, fui violado
no meu direito de descansar em minha residência. Nesse horário, deu-se início a
uma festa de confraternização (eu acho) da Luni Produções que fica exatamente
ao lado de minha morada. Barulho, música ensurdecedoramente alta (com banda
inclusive), gritos e burburinho; toda essa combinação numa área estritamente
residencial! Resultado: ninguém dormiu até as 2h da matina, quando a festa foi
minguando.
Fiquei perplexo! O que faz com que essas pessoas se sintam no
direito de perturbar o sossego de todos os moradores do entorno? O fato de
serem artistas? A inconsequência do desinteresse pelo Outro? E logo essa turma descolada
que prega o discurso de "uma cidade para todos", participa de
movimentos #Ocupe(...) e outros engajamentos políticos supostamente intelectualizados.
Pois é! Justamente eles, sem o menor pudor, desconsideraram esses preceitos de
uma cidade mais humana para incomodar toda uma vizinhança de trabalhadores
apenas para promover vernissages de "ver e ser visto" nesse teatro
dos vícios em que vivemos. Afinal, uma festa na Luni Produções é sinal de, hipoteticamente,
distinção artística e, quiçá, social! É como um carimbo a referendar a sua
entrada numa espécie de seleto grupo de artistas alternativos locais bem
sucedidos. É quase um privilégio ser convidado. Por que então esses eleitos dos
deuses haveriam de se preocupar com os reles mortais que acordariam cedo no dia
seguinte para pegar no batente?
“Mas, nada está tão ruim que não possa
piorar”; é o que dizem. Meu filho, um bebê de 6 meses e 20 dias, acabou acordando
com toda essa balbúrdia. “Fodeu! Puta que pariu! E agora?!”, pensei. No auge do
desespero, liguei para a polícia. “Já existem outras reclamações iguais a sua,
senhor. A viatura já partiu para o local”. Alívio... Mas, depois de esperar em
vão a chegada das autoridades e experimentar a raiva, a desesperança, a angústia
e, por fim, a frustração; despertei de meu estado letárgico. De Recife, a
Veneza brasileira ao Hellcife, o inferno na Terra. Como num livro de Kafka, de
súbito, parecia que eu tinha sido arrancado de uma paisagem onírica e me vi um
verme com merda até a cabeça!
Quem quiser que veja poesia num
lugar onde todas as pessoas carregam o medo perene de ter uma arma apontada
para sua cabeça, onde o carro impera em detrimento do transporte público, onde
prédios brotam como se fosse mato sem qualquer planejamento, onde o shopping é
a redenção lúdica da população, onde não se pode sequer dormir em paz depois de
um dia duro... Eu vejo apenas caos!
Enquanto situações como a que
relatei ocorrerem naturalmente, o Recife que carrego no peito será apenas uma
idealização e estaremos a chafurdar em nossa própria lama. Como podemos ser uma "cidade mais humana" se uma das regras mais básica da vida em sociedade – a lei
do silêncio – não é respeitada?!
Um Novo Recife... Só rindo! Não
conseguimos nem nos livrar do velho.
Para algumas pessoas este texto será um atestado de cafonice de minha parte. Uma espécie de confissão obscura, ou mesmo uma revelação de “gostos duvidosos”.
Como muitos sabem, toco, estudo e pesquiso jazz. No mundo da música, sou fã de artistas como Miles Davis, Thelonious Monk, Bill Evans, John Coltrane, Ornette Coleman, Kenny Wheeler, ou de compositores como Stravinsky, Debussy, Bach, Liszt, Beethoven, Palestrina, e ainda de Jobim, Gismonti, Veloso, Buarque, Seixas, Ben Jor, Cartola, Science, sem esquecer de Gainsbourg, Pixies, Pistols, Floyd, Nirvana, Smiths, dentre outros.
Assim como a música desses mestres me emociona até hoje, algumas canções que fizeram parte da minha infância e pré-adolescência também me tocam de uma forma, digamos que...curiosa. Se você teve infância, pré-adolescência ou mesmo adolescência nos anos 80 e inicio de 90 sabe bem de que assunto estou falando.
Sabe aqueles momentos (quando não estava jogando Atari ou Master System) em que ficava ao lado do seu “rádio gravador” ouvindo a programação da rádio Cidade ou Transamérica, sempre com sua fita cassete a postos para gravar sua coletânea pessoal de sucessos? E aquele “clima de paquera” que rondava as discotecas dos condomínios e prédios? Quase sempre estava lá a menina que você estava afim e ficava ansioso para chegar o momento de chamar ela pra dançar uma música lenta. Com certeza você estava usando uma basqueteira M2000, um relógio Casio, calça jeans da Levis e uma t-shirt enorme quase chegando no joelho (ou você era da turma que usava dockside?).
Surpreende-me estar repetindo aquele clichê de saudosismo exacerbado para com certos momentos especiais. Mas o que psicologicamente os torna especiais? Você já deve estar cansado de ouvir do seu avô aquela frase: - no meu tempo é que era bom! Mas começo a desconfiar que nada disso está relacionado com a qualidade do que foi vivido, mas sim da sensação de novidade, do gosto pelo desconhecido, que seu ego começava a desfrutar.
A idade em que estou me referindo é justamente aquela da formação da personalidade¹ do indivíduo. São os momentos de adaptação social, intelectual e principalmente do contato e experiências com o sexo oposto. As primeiras conversas, brincadeiras e paixões. Sim! Paixões. E olhe que não era fácil. O ato de se apaixonar quando criança me remete a uma avalanche de sensações, dor e dúvidas. Pois é...o id² não perdoa!
Ao mesmo tempo, funcionando de substituição³ da vontade de voltar ao passado, aquelas situações de descoberta tiveram algum cheiro (Lapidus), algum gosto (Dipn'lik) e claro, alguma trilha sonora que embalou esses momentos mágicos. Assim, não é por uma opção RACIONAL que acabo por desfrutar de algumas músicas “cafonas” dessa época (como nos exemplos abaixo), mas sim por causa de uma ASSOCIAÇÃO psíquica e involuntária.
Ok? Tá explicado! Não tenho culpa no cartório!
e
¹ Segundo Freud, nossa psique está dividida em três partes: id, ego e superego.
² Fonte instintiva do nosso ser. Funciona buscando prazer e auto-conservação a todo custo. A principal força do impulso do “id” é a libido, energia voltada para sexualidade e sensações prazerosas.
Quando o Muse
lançou em junho a música “Survival” algo já me dizia que a vertente pop evidenciada
no último álbum da banda “The Resistance” iria prevalecer. Até aí tudo bem! Era
possível acreditar que apesar de deixarem de lado as influências hard rock/
heavy metal/música clássica dos primeiros discos que os consagraram. A
sonoridade mais pesada, de certa forma, seria preservada. Ledo engano!
A nova guinada
(para pior) do Muse se revelaria rapidamente com o lançamento do primeiro
single, “Unsustainable” do novo disco, “The second Law”. A música é uma
tentativa meio amalucada da banda de misturar a influência de música clássica
com Kraftwerk, com vocais robóticos/computadorizados sem o menor sentido. Já
foi o suficiente para esperar uma verdadeira bomba, pois “Survival” e
“Unsustainable” eram músicas muito aquém do que o Muse poderia produzir.
Com o
lançamento do disco em outubro minhas piores expectativas foram confirmadas, mas
é possível acreditar que há salvação. Se o disco for analisado faixa a faixa
será perceptível que a banda decidiu reproduzir, com muita intensidade, um som
dos anos 1980 de deixar o The killers com inveja. É um sem-fim de
sintetizadores e baterias eletrônicas! “ Madness” é um exemplo claro disso. Uma
tentativa frustrante da banda soar “pop” talvez objetivando a execução em
rádios mundo afora. “Panic Station” caberia fácil em qualquer disco no INXS e
“Follow me” deve ter sido composta com o objetivo de entrar na trilha sonora de
“Crepúsculo”. E por aí o disco segue a mesma toada com “Big Freeze” e “Save me”
(uma baladinha medonha por sinal).
Algumas
referências dos discos anteriores estão lá. “Survival”, música que foi usada
como tema das últimas olimpíadas, remete à influência visível que a banda sofre
do Queen (a estrutura operística da música lembra, muito distantemente,
“Bohemian Rhapsody). Em termos comparativos dos discos anteriores basta ouvir
“United States of Eurasia” e “Knights of Cydonia” (essa sim, utiliza o melhor
do que o Queen pode influenciar a banda). Ao escutar “Explorers” virá à cabeça
do ouvinte mais atento “Invincible”.
Mas nem tudo é
escuridão nesse disco novo. “Liquid State” é o tipo de música que mais se
aproxima da sonoridade pesada que consagrou a banda. Desta feita, os efeitos
eletrônicos são extremamente bem utilizados, ajudando a dar uma sonoridade
diferente a algo já conhecido. Em “Animals” sai o eletrônico e em uma rara
oportunidade do disco ouvimos o que o trio pode oferecer de melhor: um som
marcado pela bateria, com uma influência melódica e com uma guitarra coesa e
sem firulas. Possivelmente a melhor música do disco.
Mudanças
dentro de uma banda de rock quase sempre são bem-vindas. Quando eu digo
“quase”, cito imediatamente o exemplo do Ramones. Quando tentaram fazer algo
muito diferente no disco “End of the century” realizaram um disco detestado
pela crítica, pelos fãs e posteriormente os mesmos declarariam não ter ficado
satisfeito com o trabalho. O Muse é uma banda que possui um leque muito maior
de variação musical do que o Ramones (antes que os fãs de Ramones comecem a
chiadeira, não estou falando que por causa disso o Muse é melhor) e, portanto,
se arriscam mais e deslizes como esses podem acontecer. Mas como diriam os Mutantes
em uma de suas músicas “Não queira dar um passo mais largo do que suas pernas
podem dar”. Espero que o trio inglês tenha aprendido que eletrônico,
definitivamente não é a praia deles.
Noite de terça-feira no escaldante
calor que faz no Recife. Numa discussão sadia, entre um chopp e outro, eis que
surge por intermédio de Marcella o nome – “Vanguart”. Banda oriunda de Cuiabá,
do cerrado brasileiro e vizinha do nascedouro da cena musical mais manjada e
insuportável deste país. Este, talvez, seja o único mérito dos caras, porque
ter coragem de lançar algo diferente de sertanejo “universiotário” pra estas
bandas é de fato admirável.
Confesso ter certo receio para ouvir
muitas destas bandas novas do cenário nacional. No meio deste papo, Marcella
falou uma coisa bastante pertinente – “Você não pode falar se você não ouviu.”
É fato minha amiga! No entanto, por incrível que pareça, eu escuto cada coisa
que você nem tem noção. Jamais teci opinião sobre um trabalho se não escutei o
mesmo. E escuto na íntegra mesmo. Na noite da quarta-feira, Marcella me envia
pelo chat do facebook um link para fazer o download do disco – “Boa
parte de mim vai embora”. Disco “baixado” e posto no celular para ser
“degustado” na manhã do dia seguinte. Segue relato:
“Recife, bairro da Torre,
precisamente 05:35 da manhã. Para muitos pode parecer estranho, mas esta é a
hora que costumo ouvir música da maneira mais detalhada. Na hora em que coloco
os fones de ouvido e estou na viagem para o trabalho em Suape.Seguem as canções e alguns trechos:
1 - “Eres mi vida” – trecho da letra – “Saí
de casa a te buscar. Cruzei o país a caminhar. Desenhei nas ruas um amor. Que
já não sei se é real. Como se não existe. E se eu sou triste, a causa é você, é
só você.”
2 – Se tiver que ser na balada, vai – “O
amor não foi suficiente. Eu vou embora, não sei pra onde. Mas ainda um mundo
por dizer. Acho que tá claro. E acho da hora.”
3 – Desmentindo a despedida – “As
tuas ondas. No meu sono. E este mar. Não foi mais que a nossa cama. Sem você. Amanheceu.”
4 – Nessa cidade – “E eu não vou mais estar do teu
lado. Mesmo assim, sempre eu vou te amar. E essas coisas do teu namorado, em
silêncio, hoje eu vou falar. É uma necessidade.”
5 – Engole (Arde mais que brasa em pele
quente) – “E eu te levei até a praia. E eu me desfiz da
minha esposa. E eu joguei fora o meu dinheiro. Fechei a porta pra um amigo. Eu
só sonhei meu desengano. Eu desenhei as tuas pupilas.”
7 – Eu vou lá – “Que eu sou filho dessa
chuva. Desse calor dos teus olhos. Seja eu a tua casa,
seja eu o teu mistério, teu riso. E eu vou lá. Se me faltam caminhos pra ficar.”
8 – Onde você parou – “Quem me dera o céu pudesse
ajudar. Noites eu passei em claro. Os olhos que me apetecem. Os sonhos que se
antecedem. Pra você chegar na estrada, caminho ou lugar. Onde eu seja teu.”
9 - ...Das lágrimas – “Quando me lembro de você. De
mala e cansada de chuva. Das lágrimas na sua blusa. Tentando entender aquele
rosto. Aquela dor que trouxe você...”
10 – Amigo – “Quem te vê sorrindo? Quem te vê
chorando? Quem me vê gastando os dentes?
Em passarelas, em bares. A procurar tua figura, tão imatura. Na noite em que eu
deixei você pra trás. Pra onde é que a gente vai daqui?”
11 – Morrerão – “Que não morreria ao ver você assim, tão
bonita. O seu último olhar acabou. Nas árvores ficou. As ruas marcou. Nos olhos
levou a certeza que teu mar não morrerá em ti.”
12 – O que a gente podia
fazer – “E nas ondas do mar. Eu
vi você voltar. E nas ondas do mar, eu desapareci...(o tempo eu esperei).”
13 – Depressa – “A esperança dos dias cresceu com
a dor. De esperar por você, de bolar a flor. Entre os olhos do meu mais puro
amor. Seja o que isso for...”
Pois bem, caríssimos leitores. O que falar
depois de demonstrações de tanta “genialidade”? Notem que fiz uma pesquisa
minuciosa sobre o disco da banda. Afinal, segundo os “críticos” musicais do
nosso querido país, o “precoce” Helio Flanders é o Bob Dylan brasileiro! Minhas
“reverências” a este cara meus caros! E como estes mesmos críticos gostam desta
palavra “precoce” no ramo musical.
No entanto, eu não posso engolir este tipo de opinião desta forma.
Percebo duas coisas bastante claras nestas pessoas que escrevem sobre música
hoje em dia. A falta de realmente escutar e até mesmo pesquisar antes de falar
sobre qualquer tema. Na verdade, estes críticos, são meros leitores de
releases. Analisem estes trechos de
letras postados acima. Friamente. Quantas vezes vocês encontram a palavra
“amor”? Ou contextos sugestivos a...a...a...”amor”? Ou lágrimas
de...de...de...”amor”? E é claro que não poderia faltar a
dor...de...de...de...”amor”! Ahhhh o amor!
Analisando friamente o disco, posso afirmar com certeza que é uma garapa
com açúcar, adoçante, mais alguns leves toques de folk (Malu Magalhães faz
melhor), indie-rock (eu adoro esses jargões), suspiros de corações machucados e
lágrimas incessantes. E eu aposto que você já está com os olhos cheios de lágrimas
hein...
Musicalmente a banda não tem absolutamente nada de especial. Alguns
momentos lembram o pior do rock gaúcho, noutros se igualam a todas as outras
que estão neste mercado de “Ursinhos Carinhosos”. O Flanders (o cara ao menos
tem sobrenome de artista), ao cantar suas “poesias”, é uma tentativa muito da
ordinária de tentar se aproximar de Rodrigo Amarante. Aquele jeitinho arrastadinho e cheio de “pra
que isso” que, diga-se de passagem, o Hermano faz com o jeito que lhe é
peculiar. Sem forçar a parada!
Insisto
em voltar a falar sobre algo que escrevi acima: “Na verdade, estes críticos, são
meros leitores de releases”. Não é porque um cara diz que tem Bob Dylan
como influência e tente fazer algo parecido, que ele será um novo Bob Dylan. Comparar
o rapaz em foco com um dos maiores letristas da história da música mundial é
uma piada de péssimo gosto. É ignorar um
passado musical bastante rico. Inclusive, duvido que qualquer um destes caras e
ouvintes da referida banda saibam que as letras de Dylan são estudadas em
cursos superiores de letras nos Estados Unidos e na Inglaterra. E foram
docentes de “pequenas” instituições como Harvard e Oxford que lideraram o
processo para que tais letras entrassem na grade de estudo das mesmas. Conselho? Escutem antes de escrever e falar
algo sobre, porque até eu posso escrever – “Meu amor...segurei tuas mãos. Olhei
profundamente nos teus olhos cinzas de tristeza. Uma lágrima escorreu, nutrida
por teu rimel. E depois sorrimos tomando um picolé de acerola.”
Recordo que há alguns anos, eu dizia ao
amigo Carlos Eduardo Borba (o Animal da Porão GB): “Bicho, não posso respeitar uma
banda que tem uma música chamada – ‘Sorvete de Flocos’ e diz-se Punk!”.
Propositalmente, pulei a música 6 no desmembramento das composições. E a
explicação é bem simples:
“No dia que uma banda tiver uma música intitulada ‘A Patinha da Garça’
ganhar meu respeito, pode esquecer tudo que já escrevi, pesquisei e aprendi
sobre música em toda minha vida.”
Vai saber! Do jeito que as coisas estão hoje em dia, pode ser que Bob
Dylan enlouqueça, faça uma versão em inglês da mesma e lance no carnaval.
O cinema está
às escuras. Da tela ouve-se a voz de alguém, mas nenhuma imagem aparece. O
público começa a se inquietar, pois percebe que o filme já deveria estar com
imagens. De súbito, na tela negra surge o título do filme. A câmera então nos
transporta para dentro da O2 arena em Londres e nos convida a celebrar um das
noites mais memoráveis para novos e antigos fãs de rock n´roll, todos unidos
por uma gama variada de sentimentos como nostalgia, devoção e curiosidade.
Assim foi a
experiência de assistir “Led Zeppelin: Celebration Day” na noite doSábado (03/11/2012). Logo de início, a
bateria já denunciava o que estaria por vir: “Good times, Bad times”, primeira
música do álbum de estreia. No palco, os “jovens senhores”, Robert Plant, Jimmy
Page e John Paul Jones demonstravam que a noite seria longa. Auxiliados por
Jason Bonham (filho do falecido baterista, John Bonham), os três propiciaram,
literalmente um espetáculo. Logo a seguir, mais dois clássicos, “Ramble on” e “
Black Dog”.A essa altura a plateia já
estava ganha. Percebendo isso, eles se arriscaram com a longuíssima (porém, não
menos bela) “In my time of Dying”. Algo que deve ser ressaltado é que o set
list contemplou praticamente todas as fases da banda, o que abriu espaço para
músicas menos conhecidascomo “Nobody´s
fault but mine”e “ For your life (esta
executada pela primeira vez), ambas do disco “Presence”. O desfile de clássicos
não parava. Ia da emocionante e etérea “Since I be loving you” à épica “
Kashmir”, passando pelo maior sucesso da banda “Stairway to heaven”( esta, numa
versão muito aquém do original).
Números
clássicos do Led Zeppelin também tiveram vez. O primeiro foi o trecho em que
Jimmy Page toca a guitarra com um arco em “Dazed and confused” (em uma pirâmide
de neon de gosto bastante questionável). Felizmente, dessa vez, ele foi
econômico e não tornou uma música impactante (dentro da sua concepção original)
como “Dazed and confused” num epopeia infindável de 28 minutos como a versão do
filme “The song remains the same”. O segundo momento é quando o mesmo utiliza
uma guitarra de dois braços em “Stairway to haven”. Desta vez, a versão do show
de 1975 foi superior
Apesar de a
banda ter ensaiado por apenas seis semanas,houve mais acertos do que erros na execução das músicas. O público que
conhece minimamente as músicas da banda irá perceber que elas não são
executadas tão intensamente como em outros tempos. O andamento das músicas é
muito mais cadenciado, tanto pelas limitações físicas dos músicos, como pela
limitação vocal de Robert Plant, que obviamente não consegue executar os vocais
com a mesma precisão de outrora. O destaque dos músicos fica por conta do
baterista Jason Bonham. Assim como o pai, ele espanca “gentilmente” a bateria
em sequências intensas.
O final
catártico com “Whole lotta Love” e “Rock and Roll” nos deixa a sensação de que
o Led Zeppelin ainda tem muito a nos oferecer, mesmo que não produzam nada há
mais de trinta anos e nos dá a certeza de que eles estão, definitivamente, no
panteão dos maiores do rock n´roll.