domingo, 16 de março de 2014

O Lobo de Wall Street - por Fernando Lucchesi


É difícil discordar quando se fala que Martin Scorcese é um dos maiores diretores de cinema vivo. Mas certamente você já viu “O lobo de wall street” antes, inclusive dirigido pelo próprio Scorcese. A estrutura narrativa do jovem que começa de baixo, passa por uma ascensão meteórica na carreira e depois vê-se às voltas com a polícia, pois o crescimento profissional se dá por meio de crime, o diretor já havia usado em pelo menos dois filmes: “Os bons companheiros” e “Cassino”. Mas o que um grande diretor faz? Recicla a estrutura narrativa, mas utiliza um novo ambiente e cria personagens com perfis psicológicos diferentes.

“O lobo de Wall Street” narra a história de Jordan Belfort, um trambiqueiro de alto nível e de poder de convencimento extraordinário. Após ser demitido e desiludir-se com o esquema regular de venda de ações em Wall Street, Jordan percebe que há um nicho não explorado no mercado de pessoas de baixa renda e que estão dispostas a investir em empresas sem nenhum respaldo do mercado. A capacidade de Jordan transformar completos “losers” em brilhantes vendedores de ações faz com que a imprensa especializada o apelide de “O lobo de Wall Street”, tamanha a voracidade com que a sua empresa consegue cooptar investidores que não dispõem de recursos para investir na maior bolsa de valores do mundo. Obviamente, o enriquecimento fulminante de Jordan atrai os olhares do FBI, que começa a investigar como ele pôde enriquecer tão rápido.

Atrelado ao dinheiro vêm os excessos. A vida de Jordan e de seus sócios é de um hedonismo permanente: orgias diárias, consumo de álcool e drogas em quantidades industriais, uso de animais e anões para festejar os lucros, iate, mansões, festas, etc. Tudo isso para vermos a derrocada de Jordan e dos seus parceiros. Com um filme de três horas de duração Scorcese tem tempo de trabalhar em cima da psicologia dos personagens. Leonardo Di Caprio está, possivelmente, no papel que marcará sua carreira daqui pra frente. A cena do “lobo” tentando subornar um agente do FBI é uma das cenas mais hilárias e carregadas de cinismo dos últimos anos. Jonah Hill como Donnie Azoff, braço-direito de Jordan, também nos dá uma atuação não menos que brilhante (a prótese dentária bizarra é quase personagem do filme de tão engraçada e exagerada que é!). Dignas de nota também as hilárias aparições de Matthew McConaughey, como o mentor cheio de tiques de Jordan e Rob Reiner, um dos pais mais estressados da história do cinema.

O grande “senão” do filme reside na sua mais que longa duração de 3 horas. É perceptível que com uma hora a menos de filme a trama poderia ser desenvolvida. A colaboradora regular de Scorcese, Thelma Schoonmaker consegue mais uma excelente edição, porém, com três horas de duração, nem o talento dela consegue esconder o final arrastado. Evidentemente, isso não tira o mérito desse misto de comédia de humor negro e drama. Podem ter certeza: Scorcese, se não nos entregou sua obra-prima, certamente nos deu mais um clássico.  

Alguns breves comentários sobre o Oscar:

Originalmente, no texto sobre “O lobo de Wall Street” havia o comentário de que Leonardo di Caprio possivelmente ganharia o seu primeiro Oscar. Por razões operacionais do Blog, o texto só foi publicado após o carnaval. No entanto, continuo com a mesma opinião: Ele merecia mais do que Matthew McConaughey. O que acontece é que a Academia é aficionada por trabalhos em que o sacrifício físico também esteja presente, como foi o caso de McConaughey e do também vencedor de ator coadjuvante Jared Leto. Também como coadjuvante não achei ele melhor do que Jonah Hill (O lobo de Wall Street) e nem do que Michael Fassbender (12 anos de escravidão).

“Gravidade” mereceu muito os prêmios que ganhou na parte técnica. É um filme realmente bem produzido e uma história bem interessante. Se houvesse o prêmio de “melhor aparição” George Clooney mereceria vencer. Alfonso Cuarón teve seu mérito pelo esmero da produção, mas acho que o prêmio deveria ir para Scorcese ou David O. Russel (possivelmente o melhor diretor de elenco da atualidade). 

Acho ótimo que filmes de menor orçamento integrem a lista por conter histórias interessantes (ex: Nebraska, Philomena, Her), mas a minha sensação é que eles estão ali somente para colocar mais do que 5 candidatos a melhor filme. Tanto que, à exceção de “Her”, nenhum dos outros dois ganhou um Oscar sequer (embora sejam bons filmes).

domingo, 9 de março de 2014

Variações em 5/4 - Random Access Memories



Nesta segunda edição do ano na coluna “Variações em 5/4”, os nossos editores comentam um dos trabalhos mais premiados de 2013: “Random Access Memories” da dupla Daft Punk.

- Fernando Lucchesi:

Não conheço praticamente nada do Daft Punk.  Acho que excluindo “One More Time” não conheço mais nada deles. Dito isso, como o tema deste “Variações em 5/4” era o Daft Punk e o enorme sucesso que eles obtiveram na última edição do Grammy Awards decidi falar especificamente sobre o disco “Random Acess Memories”, álbum que está na lista de melhores do ano passado em praticamente todos os meios de comunicação.

Reconheço de início que é um disco excelente, muito acima da média do que é produzido hoje. No entanto, é um disco que pode enganar quem procura 13 músicas do calibre pop de “Get Lucky” (indiscutivelmente um dos maiores sucessos radiofônicos de 2013). O disco oscila muito entre um revisionismo da chamada disco music e um som eletrônico mais contemporâneo. E é nesse som eletrônico contemporâneo onde reside o maior problema do disco.
 
O ponto alto do disco são justamente as músicas que buscam resgatar a disco music dos anos 70.  Muito espertamente, os dois músicos franceses chamaram um dos precursores daquela guitarra suingada característica da disco, Nile Rodgers (ex-integrante do Chic). Não à toa, as faixas mais dançantes do disco contém a guitarra de Rodgers: “Give Life Back to Music”,”Lose Yourself to Dance”  e a contagiante “Get Lucky”. O resto do disco é bastante irregular. Traz uma justíssima homenagem a um dos artífices da música eletrônica, Giorgio Moroder (Giorgio by Moroder), a alucinante “Contact”, mas também tem coisas enfadonhas como “The Game of Love”, “Touch” e “Within”. Mas mesmo essas músicas mais lentas (feitas sobre encomenda pra o momento “chill out” da balada) não comprometem o resultado final desse disco, que merecidamente ganhou uma penca de Grammys. Já quanto à representatividade do prêmio Grammy para a música é outra história...

- Giba Carvalho:      

Random Access Memories trouxe de volta o romantismo à música eletrônica e me devolveu o prazer de ouvir um disco do gênero novamente. Thomas Bangalter e Guy Manoel de Homem-Cristo, inegavelmente, tiveram muito cuidado na produção deste álbum tornando-o um disco de fácil audição. Mesmo para aqueles, que assim como eu, repudiam tudo que foi produzido na música eletrônica de 15 anos para cá. O disco nada mais é do que um exercício de repetição do que já foi feito na época em que a música eletrônica era diferenciada dos “bate-estaca” e “ruídos” insuportáveis do que se toca nas raves. “Não é o puritanismo autêntico, é a forma autêntica de como se trabalhar a repetição”.

Tenho que destacar a guitarra funky de Nile Rodgers, que soma sobremaneira à concepção geral do trabalho e várias outras participações especiais – Julian Casablancas, na excelente “Instant Crush” e, principalmente, de Pharrel Williams nas pegajosas “Lose Yourself to Dance” (o preparo do estilingue) e “Get Lucky” (a pedrada do disco). “Giorgio by Moroder” é uma faixa muito interessante, porque inicia com um depoimento de um dos papas da música eletrônica e termina “grooviada” com o melhor das discotecas dos anos 80. Estas são o destaque do disco para mim. E, não pense você, que um trabalho bom não tem coisas desprezíveis. Em alguns pontos, a dupla parece perder a inspiração e o álbum cai muito de qualidade. “Touch”, “The Game of Love” e “Within” são dispensáveis. Outra coisa que percebo claramente é a duração do álbum (74 minutos). A meu ver muito longo e em alguns pontos, até cansativo.

Embora com estas ressalvas supracitadas, reconheço que o trabalho da dupla francesa é um belo trabalho POP e merece destaque!

- André Maranhão:

Quando lidamos com uma música marcada pela grande quantidade de efeitos eletrônicos, entramos num contexto onde o engenheiro de som e o DJ passam a ter a mesma ou até mais celebração do que os músicos. Isso é algo relativamente esperado, se levarmos em conta que no campo da arte, os indivíduos redefinem suas práticas por meio das convenções e dos recursos que cada estilo, gênero e expressão artística demandam. Neste sentido, o Acid Jazz, a Drumin’n’Bossa, o Brazilectro e o Tecno, presentes nos trabalhos de Jamiroquai, Kyoto Jazz Massive, Fernanda Porto & DJ Patife, Bossacucanova e Zuco 103 se fazem de grande valia.

O Daft Punk também parece reivindicar a importância de uma musica fortemente influenciada pelos recursos eletrônicos. A dupla francesa já foi capaz de nos brindar com Robot Rock, Harder, Better, Faster, Stronger e One More Time (grande hit do inicio da década de 2000) e agora parece ampliar sua lista de êxitos com RANDOM ACCESS MEMORIES, seu mais novo álbum. É interessante como este trabalho reúne tantas influencias que resultam em faixas soft, suavizadas pela mescla de sweeps de guitarras, breves presenças de overdrives, curtas citações de orquestras, camas harmônicas de teclados, solos de piano rhodes, falas ordinárias transformadas em vozes cantadas pelo sintetizador, linhas de baixo próximas do Funk e batidas mais próximas do Lounge – num som que pode nos remeter a ambientes como desfiles de moda, lojas de departamento e vernissages. De fato, Get Lucky – a faixa mais celebrada pelo mercado da música e pelo Grammy – foi a que mais me agradou no álbum do Daft Punk, mas Give Life Back to Music; The Game of Love; Beyond; Motherboard; Fragments of Time e Doin' It Right também têm qualidade. Apenas Touch me soou exaustiva e eu consideraria as demais faixas medianas.

Possivelmente, alguns críticos mais reativos a esse tipo de música, podem acusá-la de anti-arte, ou afirmarem que o Daft Punk é apenas entusiasta de todo o Show Bussiness e do capitalismo na arte. No entanto, essas condenações não invalidam seus méritos estéticos, pois qual o grande trunfo desse disco? Na minha opinião, o de mostrar que nem sempre o repetitivo é sinônimo de má qualidade!

- Bruno Vitorino:

Concordo com Keith Jarrett. “A arte está morrendo neste mundo, assim como o ouvir música, à medida que o mundo fica cada vez mais cheio de brinquedos e efeitos especiais. Com esta morte, virá a ruína das muitas possibilidades emotivas: beleza, ternura, profundidade, confiança, honestidade, tristeza; cheias de significado interno e cor”. Como os dois ou três loucos que acompanham meus textos devem ter percebido, sou um anacrônico. E com muito orgulho, diga-se! De modo obsoleto, ainda espero encontrar na música (e nas artes em geral) aquele instante transcendental em que tudo parece fazer sentido e que, de alguma forma desconhecida à racionalidade, conecta-me à completude e ao éter. Eu vivo dessa e para essa busca infindável que se torna cada vez mais difícil de alcançar, pois, como é sabido, tanto o conceito de Arte quanto seu propósito mudaram na nossa Civilização do Espetáculo. Essa discussão, inclusive, rendeu um debate interno extremamente saudável (quase um suco de laranja com clorofila) entre mim e André Maranhão que espero ver um dia publicado neste blog.

Dito isto, o desavisado leitor que passa os olhos por estas linhas deve imaginar o frio na espinha que senti quando Giba Carvalho propôs que comentássemos um dos trabalhos mais “hypados” pela Grande Mídia especializada em 2013: Random Access Memories do duo Daft Punk. De cara, digo que não sou conhecedor da banda. O pouco que tinha escutado, num passado longínquo, soou-me desagradável e o punk estampado no nome da dupla, que na minha adolescência atraiu minha atenção para eles, apenas me deixou ainda mais emputecido com a música que faziam. A única coisa que esses cabras fizeram que realmente atiçou minha curiosidade foi uma série de clipes transpassados por uma história que começava com “One More Time”. Aquele lance futurista, mangá, sci-fi, realmente fez minha cabeça. Da música, só gostava do que parecia ser um solo de guitarra bem pirotécnico - em “Aerodynamic” - que se valia de uma técnica muito utilizada por metaleiros: a digitação. O fato é até hoje não sei o que aconteceu com a galeguinha que é sequestrada por um bando de soldados mascarados no começo da saga. Era o ano de 2001. Eu tinha 18 anos, só andava de preto, bebia vinho, ouvia Sepultura, Krisiun, Slipknot, e ainda tinha minha banda punk: Nômades. Uns poucos meses à frente, como um desígnio da Fortuna, eu compraria o álbum “’Round About Midnight” de Miles Davis e teria a grande revelação da minha vida. Mas, isso é assunto para outro texto.

Hoje, do alto de minha senilidade precoce (tenho quase 31 anos), ouvir esse trabalho é tarefa hercúlea. Primeiro, por ser um disco longo. São exatos 74 minutos de pura música inorgânica e vozes sintetizadas, numa odisseia artificial por um cenário de isopor colorido, raios lasers, gelo seco e alucinações bioquímicas que parecem não ter fim. Isso inevitavelmente me levou ao tédio, à beira do desespero, onde cada segundo durava um século e cada compasso era uma masmorra asfixiante. Um exemplo disso são as músicas “Touch”, “Within”, “Beyond” e “Motherboard”. Um convite ao suicídio. Segundo, porque ele esteticamente apresenta os conhecidos lugares comuns de outrora: uma requentada atmosfera da disco music que embalou a juventude de meus pais (que, por sinal, é quando a música soa mais audível); um maroto lounge music que remete ao relaxante momento pós-coito em banheira de motel; um certo aspecto frívolo que só é encontrado nas danceterias. Terceiro, por seu conceito artístico em si. O título do álbum, em português “Memória de Acesso Aleatório”, faz clara menção à memória RAM que nada mais do que a memória volátil dos computadores, ou seja, depois que a máquina é desligada, as informações que ela processava são perdidas, dada sua natureza efêmera, transitória, precária, instantânea, superficial, passageira, inapreensível... Bem, você entendeu. E eu não posso levar a sério uma música que não repercute no âmago de quem ouve, apenas, em seus pés. Mas, há uma exceção: “Get Lucky”. Quando dei por mim, lá estava eu balançando os ombros como um autêntico metrossexual na pista de dança da Pink Elephant que, entre um gole e outro de Smirnoff Ice, lança olhares de esguelha para a gatinha com salto agulha e vestido de lantejoulas que não tira o olho do WhatsApp, torcendo para que a figura notasse que eu trajava roupas de marca. Um conjunto da Tommy Hilfiger que uma prima sacoleira me trouxe de Miami. Que música contagiante! Tão contagiante que meu alter ego, DJ Bilola, já a incorporou em seu saco escrotal (é assim que ele chama seu setlist) para despejá-la no clímax de sua próxima festinha luxuriante. Sucesso garantido!

É inegável que com “Random Access Memories” o Daft Punk vende um bom produto. Não à toa, ganhou uma caralhada de Grammys, o grande termômetro da indústria do entretenimento, com o disco em pauta. Mas, se o duo francês representa significativas conquistas estéticas para a Arte com sua música “de mentira”, então a McDonald’s também pode se orgulhar de sua contribuição para a gastronomia com os hambúrgueres “orgânicos” que comercializa. Só que não.

Gosto muito de música eletrônica. Sou fascinado pelas composições de Cage, Stockhausen, Ligeti, Berio, Nono, Boulez, mas também curto bastante outros sons eletrônicos, como o cyber punk do Atari Teenage Riot. Já ouviste?! Não?! Então escuta o insano “Delete Yourself!”. Pelo menos aqui, meu caro, encontrarás um pouco da honestidade e da urgência que o Daft Punk jamais terá.

- Dom Angelo:

A grosso modo, classifico a prática musical em três objetivos distintos: música sentimentalista, onde o propósito é despertar sensações como tristeza, alegria, fúria, revolta, paixão, etc. Música de apreciação estética, onde a arte de combinar notas, ruídos e silêncio geram um desafio analítico para nosso cérebro, impulsionando consequentemente a busca pelo conhecimento e a sensação do desenvolvimento cognitivo e, finalmente, música para dançar, no qual a linearidade rítmica induz nossos corpos a acompanhar certas marcações de tempo.

Enquadrados neste terceiro ponto, encontramos os “Punk Pateta” ou Daft Punk. Para mim fica nítido que seus integrantes (o luso-francês Guy-Manuel de Homem-Cristo e o francês Thomas Bangalter) são oriundos do universo rock, principalmente pela simplicidade harmônica e melódica de suas composições. Sem falar do ritmo, um synthpop 4/4 marcando a acentuação no segundo e quarto tempo do compasso.

Se os compositores do período Clássico (mais ou menos 1730 até 1820) declaravam haver um formato musical para algumas de suas obras (Forma Sonata), penso que deveria existir uma declaração dos praticantes da música Pop afirmando que existe uma fórmula para o “Hit”. Poderia ser algo como Forma Canção (Verso-Refrão-Verso-Refrão2X) ou, como no caso dos Daft Punk, Forma Beat Modal Dórico (sequência ii-IV-vi-V ou i-III-v-IV no modo dórico). Pode-se dizer que artistas como Michael Jackson, Prince e Black Eyed Peas fizeram uso demasiado deste padrão musical. Utilizando as mesmas vias, os Daft Punk ganham o Grammy de melhor disco do ano fazendo uso abusivo desta prática.


Ok. Também não vou deixar aqui só críticas. Até porque curti e dancei o verão europeu de 2013 ao som de “Get Lucky” nos cinco países que visitei em Agosto. Um fenômeno cultural. A música foi feita para tal finalidade e cumpriu seu objetivo. Tem mérito. Antes este tipo de mainstream na música internacional do que coisas tenebrosas que já assombraram o planeta terra outrora. Mas quer saber de uma coisa, meu amigo? Vá ouvir os Air, os New Order, os Kraftwerk, Morcheeba, Radiohead, Massive Attack, Jamiroquai, Beck e Bjork, se é música eletrônica pop o que você procura.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Variações em 5/4 - NEW


A coluna “Variações em 5/4” está de volta e para esta primeira edição do ano, os nossos editores comentam “New”, o mais novo disco de Paul McCartney.

- Fernando Lucchesi:

Depois de um disco de standards do Jazz que marcaram sua vida, Paul McCartney resolveu que agora seria vez de algo mais contemporâneo e escalou para produzir o seu novo álbum, “New”, diversos produtores novos, entre eles Mark Ronson, produtor do aclamado “Back to Black”, de Amy Winehouse e Giles Martin, filho do produtor de 90% da discografia dos Beatles, George Martin. Esse amálgama de influências resultou em um disco com faixas bastante diferentes entre si, unidas unicamente pela habilidade de McCartney em conceber músicas melodiosas e baladas no violão. “Save Us”, faixa de abertura, poderia estar tranquilamente em um disco dos Strokes, tamanha a semelhança. “New”, faixa-título do álbum, traz reminiscências de “Got to Get to Into My Life”, mas ao invés dos potentes arranjos de metais, entram sintetizadores e guitarras ao lado de uma melodia daquelas que você pode passar o dia assobiando. “On May Way to Work”, “Early Days” e “ Hosanna” resgatam o Paul de baladas das épocas de Beatles e Wings. Apesar da diversidade de produtores a temática das letras é a mesma de sempre: amores novos ou passados, estes recheados de nostalgia. Não tenhamos ilusões: Paul McCartney não produzirá sua obra-prima agora, mas obteve um ótimo resultado ao fincar um pé no passado e outro, no presente.

- Giba Carvalho:
     
A moda está fora de moda.

É citando uma das frases do excelente disco do Ronnie Von (1968), que inicio minhas palavras sobre “New”, novo álbum de inéditas de Paul McCartney. Confesso não procurar opiniões alheias para basear meus textos, no entanto, a minha sensação ao escutar o disco pela primeira vez, foi de tanta incredulidade, que fui ver o que haviam escrito. Não demorou muito e encontrei o de sempre. Tentativas viajadas e comparações aos trabalhos que Paul McCartney fez nos Beatles. Afirmo – o disco não tem nada de Beatles, além do próprio Paul. Tá, tudo bem! O cara é uma sumidade do mundo musical e qualquer produtor gostaria de produzir um disco do ex-Beatle, mas, quatro produtores é demais! Participaram do disco – Mark Ronson (produtor do excelente “Back to Black” – Amy Winehouse), Paul Epworth (nome de muito destaque na atual cena inglesa. Produtor do Bloc Party e da fantasiosa crepuscular, Florence and The Machine. Tem como trabalho mais elogiado o álbum – “21” de Adele), Ethan Johns (produtor da banda que nunca decola – Kings of Leon e de Joe Cocker) e, finalmente, por Giles Martin (filho do lendário George Martin).

Não sei ao certo a real intenção do velho McCartney ao trazer tantas mentes diferentes para a produção do seu novo álbum. Podemos questionar que foi uma jogada para chocar o ramo com tamanha miscelânea? Podemos!  E foi justamente este mistério, que ainda fez com que ouvisse o trabalho novamente. McCartney, como em diversas outras vezes, fugiu do “feijão e arroz” habitual e se aventurou por novas terras. Para um cara como ele e com a identidade musical criada com os Beatles é meio que um tiro no pé. Não sou fã dos trabalhos pós-Beatles. Gosto apenas de dois discos e uma ou outra música pontual. E, é com a maior tranquilidade possível, que afirmo que “New”, parece mais uma “forçada de barra” do que um disco com tantas novidades assim. Das 12 músicas do álbum, apenas três chamaram a minha atenção. “Save Us”, que abre o disco e é uma boa música pop (embora não goste da semelhança com o Strokes), “On My Way To Work” por ter algo melodicamente interessante e a bela “Early Days”. Também é totalmente perceptível, que o álbum soa diferente de todos os trabalhos anteriores de Paul McCartney. Por este lado, enxergo mérito pela tentativa e, por outro lado, o conformismo habitual que vive a música mundial, notadamente o rock n´roll (com bandas altamente repetitivas). O “disco de retalhos” montado por ele é um trabalho que vaga numa linha bastante mediana e que não desperta a atenção do ouvinte, principalmente, por não possuir identidade.

- Dom Ângelo:

De uma coisa não podemos discordar: Paul McCartney tem uma absurda facilidade em criar melodias que se enquadram dentro do sistema musical temperado. Foi assim na sua carreira com os Beatles, onde foi dono de algumas das mais belas melodias da música do século XX e continuará, acredito eu, enquanto o próprio estiver vivo, com essa proeza genial.

Porém, sinto que a existência daquele fator cósmico, transcendental e imaterial que habita as grandes obras de arte, não existe mais na expressão musical do Paul. Aquela “coisinha” que faz você se arrepiar, no qual os indianos chamam de “sopro divino”, nele, não existe mais. Pelo menos não lhe manifestou em toda a sua carreira solo, muito menos no seu novo álbum, o “New”.

Mas uma coisa é certa: aquela bela habilidade em combinar notas com notas, façanhas da música europeia, sempre caminhará de mãos dadas com esse gênio maior da música pop. É de seu ofício. É de seu propósito. É do seu Dharma. Nisso, o velho Paul é bom e continua colocando todo mundo pra “balançar” com suas novas composições.

- Bruno Vitorino:

Parece-me que uma das funções mais nobres da figura do veterano é estabelecimento de laços com a juventude. Se por um lado a experiência oriunda de seus anos de prática, reflexões e descobertas provoca o tino dos que começam, por outro suas ideias costumam ser estimuladas pelo ímpeto desbravador que emana dos mais jovens. E se esse veterano for um mestre, a História nos diz que esses encontros deixam, não raramente, marcas profundas. Foi assim quando o renomado Handel acolheu, ainda que brevemente, o impetuoso Mozart. Foi assim quando o metódico Rimsky-Korsakov tutorou o inquieto Stravinsky. Foi assim quando Radamés Gnattali abrigou o inseguro Tom Jobim. A Música mudou. Apontou novos caminhos, desnudou paisagens não vistas, abriu horizontes incertos.

Paul McCartney certamente figura no panteão dos grandes. Não há muito que se discutir a respeito. Com sua produção, mais especificamente à época dos Beatles, ele foi um dos responsáveis por definir o que conhecemos hoje por música pop em todos os aspectos. Justamente por isso, todo e qualquer projeto em que se envolva gere expectativa e euforia, ainda mais, quando ele é anunciado na Grande Mídia como uma fuga da zona de conforto do sucesso e uma busca pelo inédito numa odisseia musical compartilhada com novos nomes. Assim me chegou “New”, o último trabalho de Paul. No entanto, o que se propunha ser um interessante diálogo entre a serenidade clarividente da experiência com o frescor audacioso da mocidade na busca incansável pelo novo, revela-se um constrangedor exercício da Síndrome de Peter Pan. É como se McCartney, depois de uma overdose de Arcade Fire, MGMT, Florence & The Machine e todo esse lixo descerebrado e inútil, virasse um rapaz de 25 anos de nossos dias: iPod em modo random, redes sociais a todo vapor, sobreposições de estímulos, pluralidade sem objetivo, tudo e nada, aqui e lugar nenhum. E toda essa confusão do que ser e de como ser se reflete na música apresentada no álbum: uma colagem pop desordenada, um pastiche gagá de uma juventude automatizada.

O que aproveitar, então, desse disco? Os sublimes momentos de silêncio entre uma faixa e outra.

- André Maranhão:

Apesar do nome, não vi muita coisa nova em New, exceto algumas tentativas de Paul McCartney em usar programações e samplers mais do que enfatizar o piano – coisa que ficou parecida com a fase do final dos anos noventa do U2 (em “All That You Can’t Leave Behind”), a qual não me agrada muito. “Appreciate” e “Looking at Her” são alguns exemplos disso.  Em alguns momentos, o álbum pode parecer longo de ouvir, principalmente nas faixas “Queenie Eye” e “New”. “Turned Ou” e “Everybody Out There”, não considerei muito inovadoras. “Get me Out of Here”, parecendo um summer rock, não chamou minha atenção. O meu destaque vai para a bela canção “Scared” (escondida no final do álbum) com Paul só ao piano; além de “Early Days” (balada de violão aberto, bem casada com a voz, parecendo Damien Rice), além de “Save Us” e “Road”, que me lembrou a dupla francesa Air, em “Playground Love”. Num segundo pelotão, coloco “Alligator”, “On My Way To Work” (com seus leves indianismos nos solos) e “Hosanna”.

domingo, 5 de janeiro de 2014

O Rei, o Kitsch e o Conformismo - Por Bruno Vitorino



Não olhe para baixo
Não olhe para baixo
Ou a fera abissal da não conformidade
Pode incutir alguma verdade desagradável
Em sua mente insensível

Thomas Haake


Quando Reginaldo Rossi morreu, a repercussão foi imensa. Nas redes sociais, lágrimas em html, hashtags pesarosos e lamentos de internautas que se sentiam acossados por um mundo injusto que os priva dos verdadeiros artistas, deixando-os desamparados, sem referência, sem imagens sacras para cultuar. Na grande mídia pernambucana, bairrista que só ela, não se falou em outra coisa: como a Música Popular Brasileira (assim mesmo com iniciais maiúsculas) perdeu com a morte desse grande ícone. O mundo - quiçá a galáxia! - não seria mais o mesmo sem esse recifense tão ilustre e inovador. Só que ou eu enlouqueci ou sou o único são nesse “sanatório geral”. Em que momento de sua carreira Reginaldo Rossi fez arte? O que é sua obra senão a degeneração do que um dia fora a música romântica da Era de Ouro do rádio? Onde foram parar as fronteiras estéticas as quais separavam o brega, uma música popularesca que versa de maneira rudimentar sobre o amor e suas intercorrências no cotidiano da grande massa, daquilo que se convencionou chamar de MPB, gênero estritamente ligado à classe média que sempre defendeu um suposto refinamento intelectual da cultura popular? Algo não batia.

Não pense o senhor que sou um filho da puta arrogante e frio incapaz de sentir qualquer compaixão pelo próximo. Longe de mim tal postura. Honestamente, lamentei pelo ser humano Reginaldo Rossi que sucumbiu a uma doença cruel como o câncer e que certamente deixou uma lacuna em seus familiares e amigos que só o tempo tornará mais suportável. Externo aqui minhas mais sinceras condolências. Com sua morte, perdeu-se um ídolo das multidões, partiu um entertainer dos maiores. Isso é inegável! Mas, daí a querer transformá-lo numa sumidade da cultura é forçar por demais os limites do bom senso e do juízo histórico do que se definiu por Arte (com “A” maiúsculo mesmo). Recuso-me a admitir que exista experiência artística numa música simplória que faz da cafagestagem, da mesa de bar e do “chifre” seu mote. É bom não esquecer que o brega é um estilo que nasce do contexto sócio-econômico-cultural extremamente precário que marca nosso país de contrastes. É uma manifestação cultural, no sentido antropológico, de uma vasta camada da população que fora deliberadamente excluída do processo civilizador – educação, saúde, moradia, cultura – pelos Donos do Poder e está destinada a cumprir um papel social de submissão no continnum da História. Ou você acha mesmo que um jovem entregador de água mineral tem as mesmas chances de um garoto que estuda no Damas? Portanto, aceitar Reginaldo Rossi como triunfo da Arte é, de certa forma, referendar toda essa condição humana de pobreza e anuir que essas pessoas continuem onde sempre estiveram. É se conformar com a realidade tal como ela se apresenta. Além do mais, do ponto de vista estritamente estético, se o “Rei” é considerado Arte, então sou obrigado a aceitar o funk como música de protesto e de contestação do status quo, concorda? Assim, Anitta é a nova Elis Regina e a majestade pernambucana do brega é um letrista do mesmo quilate que um Aldir Blanc. Ora, sejamos francos! Reginaldo Rossi é, na melhor das hipóteses, divertido. E é fundamental separar o prazer banal do entretenimento fácil da densidade transcendental do ofício artístico.

O fato é que Arte, no sentido tradicional do termo, é algo supérfluo nos tempos da cultura de massa que homogeneíza gostos, dilui os conceitos, elimina os debates e ratifica o transitório. Não há mais espaço para a experiência única, particular e íntima da arte contemplativa, que requer do público um olhar reflexivo, feita por um artista-artesão que procura comunicar uma realidade interna. O que temos hoje é o fluxo contínuo dos estímulos sensoriais (a jukebox no café, o WhatsApp na reunião de amigos, etc.), o culto à personalidade que substitui a antes imprescindível criatividade, o vazio dos conteúdos e a pobreza das formas, a crítica acéfala que endossa o tacanho, o cultivo de esteriótipos, a intensificada estilização da vida e, o mais sintomático, o delírio fantasioso de negação da realidade cada vez mais presente nas subculturas jovens. E é exatamente esse aspecto que eu enxergo no fenômeno Cafuçu: meninos nascidos em berço esplêndido que se travestem de cobradores de ônibus tanto no linguajar quanto na indumentária para desfrutar a ilusão do bom gentil. Obviamente que o Cafuçu não quer encarar a realidade dura, de chão batido, daquele que o inspirou: trabalhar oito horas por dia num subemprego, ganhar o mínimo para sobreviver, usar um péssimo transporte público, fazer das tripas coração para criar seus filhos, morar num casebre em um bairro violento da periferia e encontrar uma breve paz de espírito num copo de conhaque de alcatrão. Não! Ele quer andar em sua bicicleta dobrável importada, chegar a seu apartamento na área nobre da cidade, ter comida na mesa servida pela empregada doméstica, usar seu iMac para acessar o facebook e que Papai lhe dê aquela tão sonhada viagem a Nova Iorque para que ele tenha o que falar na próxima ida ao Bar Central. Uma juventude chapa branca, conformista, especializada em arranhar superfície, que negligencia sua mais importante função: questionar! Algo bem distante daquela “juventude que não corre da raia a troco de nada” de outrora. Agora só o “verniz” importa.

Entendidas todas essas questões, é possível compreender como Reginaldo Rossi transpôs a condição de ídolo marginal do “povão” para se consagrar um dos sumos pontífices da alta cultura brasileira. Ele não foi reconhecido por sua grandeza e importância para essa camada da população. Ele foi cooptado pela sistemática lucrativa do kitsch, ressignificado como um ícone cult pelos setores da sociedade que definem o que é ou não digno de nota - os chamados formadores de opinião – e posto à venda como um artigo de luxo não mais para os personagens de sua música, mas para os moradores de imóveis de alto padrão. Tudo é deslocado no mundo Pós-Moderno e é fundamental enxergar todas essas camadas heterogêneas que se sobrepõem. Portanto, meu querido, não se deixe levar pelo “efeito manada” promovido pela imprensa e, ao menos, problematize o processo que criou o mito Reginaldo Rossi e pôs o brega no mais elevado patamar da manifestação humana. Cometa o mais mortal dos delitos contemporâneos: pense!

domingo, 24 de novembro de 2013

O Labirinto Polimétrico do Meshuggah - Por Bruno Vitorino


Por definição, o labirinto é uma estrutura arquitetônica feita para desnortear. Seus emaranhados caminhos levam a pessoa que se aventurou por percorrê-los a investigações minuciosas sobre a probabilidade em sua jornada na busca por um sentido. Contudo, a exposição contínua a padrões sobrepostos, assimétricos e sem a menor indicação de lugar resulta na perda absoluta do senso de direção. O indivíduo é, então, privado da noção geométrica do Espaço e lançado num limbo onde só existe a reverberação mecânica do Tempo a se desdobrar em si. Transpondo para a música esse conceito labiríntico, a banda Meshuggah urde uma complexa trama sonora combinando o peso do thrash metal com o cerebral encadeamento de angulosas séries rítmicas e letras de forte crítica aos mecanismos de controle e discursos de poder do mundo pós-moderno que impõem rédeas ao homem contemporâneo, privando-o da pluralidade do Eu. O resultado é uma música lancinante, mas de uma audácia estética singular.

Formado em Umeå, Suécia, em 1987, o Meshuggah ganhou notoriedade na cena metaleira internacional com seu segundo disco: “Destroy, Erase, Improve” (1995). Impregnado de uma agressividade corrosiva, o disco registra o trabalho do quinteto com ciclos rítmicos irregulares, ostinatos acentuando a região grave (eles tocam guitarras de 8 cordas), padrões polimétricos intrincados que, executados com uma precisão técnica virtuosística, vão envolvendo o ouvinte a cada tema com o asfixiante abraço da não-referência. À primeira audição do disco, tem-se a sensação de ser subitamente jogado num mundo desconhecido, hostil e de ar rarefeito. Não tem alisado, é porrada sem concessões! Na sequência, veio o excelente álbum “Chaosphere” (1998) que aprofundou as concepções estéticas abertas por seu antecessor e consolidou a banda como uma das mais interessantes do cenário heavy metal da atualidade, e “ObZen” (2008), a obra-prima do grupo, levou a criptografia rítmica ao ápice do rebuscamento. “Amplis, amplius! Sempre mais longe”.

O mais interessante de tudo isso é que o Meshuggah sempre gerou controvérsias dentro do universo metal. Ao subverter a trilha comum das guitarras velozes, dos compassos em 4/4 e das melodias cantaroláveis estabelecida por grupos como Iron Maiden, Metallica e Megadeth, a banda criou um universo perturbador e inteiramente novo que não soa palatável aos ouvidos mais bitolados. Justamente por renegar a cartilha da tradição, o quinteto sueco sempre enfrentou muita resistência dos puristas do gênero que viam em sua música uma mecanização inumana, robótica. No entanto, o que os detratores parecem não enxergar é que sua produção advém de muito estudo, de exaustiva reflexão e – o mais importante – da busca por novos direcionamentos expressivos, mais adequados à liquidez da realidade que hoje se apresenta. É impossível não perceber na obra do grupo reminiscências de Igor Stravinsky, que inverteu a lógica clássica da estruturação musical ao pôr o ritmo, e não a melodia, no cerne do desenvolvimento composicional, bem como da vanguarda jazzística em suas experimentações com o pulso variável. Ao insuflar essas abordagens no metal, o Meshuggah revolucionou o gênero. E, no último sábado (16/11), eu pude testemunhar ao vivo toda essa grandiosidade.

Após de anos de espera, a banda sueca finalmente aterrissou no Brasil em sua primeira turnê latino-americana que passou pelo México, enveredou pelo Chile e Argentina até, enfim, chegar a São Paulo. O foco das apresentações era o seu último disco, “Koloss” (2012), que pode ser considerado o registro mais reflexivo, digamos assim, do Meshuggah. No lugar da agressividade vocal exacerbada e da bateria a enfatizar todas as arestas dos padrões desenhados pelas cordas, surgem uma fúria contida e ciclos polimétricos maiores e contemplativos que, apesar de bastante assimétricos, não chegam a apagar a noção de tempo, apontando os vetores mais para o chão do que ao éter. Ficou mais fácil bater cabeça.

A apresentação aconteceu na casa de show Carioca Club, um espaço conhecido na cidade por abrigar eventos do chamado de “pagode romântico”, que nada mais é senão um eufemismo para o chorume produzido no processo de decomposição mercadológica do samba. Porém, contrariando a lógica, o local escolhido não poderia ser mais adequado: mediano, refrigerado, limpo, com um excelente serviço e um primoroso equipamento de som e iluminação. Organização impecável! Imediatamente lembrei-me das agruras que enfrentei num passado não tão distante nos “sábados de rock pesado” do Abril pro Rock. Senti um calafrio e um imediato alívio ao constatar que era apenas um trauma mau curado de minha adolescência. Nesse ambiente acolhedor, eu conseguiria voltar toda a minha atenção para o palco.

Uma pequena figura em tercinas, que recebia aqui e acolá chapiscos de acentuação rítmica da bateria, ecoava. Sob ela, o bombo fincava um padrão quaternário que acrescentava textura ao esquema, preparando o terreno para mais a frente acomodar a monumental edificação polirrítmica que se modificava internamente com o seu desenvolvimento, intercambiando entre si suas camadas feito engrenagens: “Swarm” abria o concerto. Em seguida, o Meshuggah emendou com a alucinante “Combustion” e seu motivo quaternário picotado apresentado pela guitarra, transpassado pela contagem enviesada da bateria que descambava, após uma seção de hard core moderado, num caleidoscópio rítmico de binários, ternários e suas combinações.

Eu estava pasmo! Era impressionante ver os cabras em ação, tão à vontade com essas estruturas extremamente complexas. A guitarra base de Mårten Hagström erguendo e mantendo os alicerces temáticos; a habilidade de Frederik Thordendal em improvisar tranquilamente nas situações rítmicas mais adversas e ainda acrescentar-lhes tensão e adornos melódicos; as inabaláveis linhas do baixo de Dick Lövgren; a segurança e a firmeza no canto gutural de Jens Kidman e, principalmente, a presença sobrenatural da bateria de Tomas Haake que tocava simultaneamente padrões independentes no bombo, caixa e pratos: tudo estava lá, acontecendo diante de meus olhos! A apresentação seguiu, e vieram outras pedradas não menos atordoantes como “The Hurt That Finds You First”, “Demiurge”, “Bleed”, “Dancers to a Discordant System”, “I Am Colossus”, “Do Not Look Down” e mais algumas outras músicas dos dois últimos trabalhos da banda. Ao final, atendendo ao pedido do público, os suecos fecharam a conta com a devastadora “Future Breed Machine” purificando a alma dos headbangers na roda de pogo, num momento de pura catarse digna de um ritual pagão de uma tribo bárbara.

Chovia. A música que acabara de ouvir reverberava em minha cabeça. Seus ciclos chocavam-se, fundiam-se, enraizavam-se em minha memória. Fitando o infinito pela janela do táxi, eu refletia sobre o cada vez mais raro fenômeno da criação artística. Pensava em como a repetição de fórmulas se mostra hoje tão lucrativa para o establishment da indústria cultural no seu sórdido negócio de vender o conformismo estético para uma massa amorfa, passiva, preocupada estritamente com o divertimento instantâneo e banal, reduzindo a arte a mero cosmético. Mas a experiência pelo qual eu acabava de passar me fez crer que há ainda os que investem contra essa lógica, atuando no subterrâneo do mercado onde habitam resquícios dos velhos ideais da construção artística: o caráter reflexivo da experiência estética, a integridade do artista ante as estruturas formais de comércio da arte, o domínio técnico dos meios de expressão simbólica, a procura pela expansão da linguagem. Nesse sentido, o Meshuggah atua como um desfibrilador que tenta reanimar um corpo em estado letárgico. Depois de pensar nisso tudo, só me restou dizer: louvados sejam os que ousam!

domingo, 3 de novembro de 2013

O Resto é Mise-en-scéne! - por Giba Carvalho

    


A música brasileira vem apresentando um fenômeno diferenciado nos últimos tempos: a capacidade de autocopiar-se. No início do ano passado, fiquei atônito ao saber que os "cultuados" rapazes do Mombojó iriam lançar um disco com releituras dos "maiores sucessos" da "grandiosa" carreira de três discos. Isto já me deixou com a famosa pulga atrás da orelha. O primeiro disco da banda, intitulado "Nadadenovo", é audível e proporcionou aos rapazes o perigoso (e agora comum) status de "inovadores da cena musical". Depois deste disco, eu questiono aos leitores deste blog - "O que virou o Mombojó?" Na minha opinião, um emaranhado de agonia ao tentar mostrar algo diferenciado, que sacramentou toda banalidade dos trabalhos pós-primeiro álbum, com este compilado de aniversário. Aquela velha história - "já que não temos Nadedenovo, vamos enganar os trouxas com Tudodovelho".

Passado algum tempo, eis que surge em 2013 "Mundo Livre S/A vs Nação Zumbi". Um duelo entre as duas bandas que foram pedra fundamental para o Movimento Mangue Beat. Esta é uma idéia utilizada nos EUA, no fim dos anos 90, por bandas de punk e hardcore. Como costumo ouvir bastante bandas do estilo, ressalto a famosa "BYO SPLIT SERIES", iniciada em 99 e dividida em 5 volumes. O formato era um disco de vinil, onde cada banda tocava 6 músicas da outra em cada lado (Álbum Split). Para aqueles que pensam que os caranguejos pernambucanos inovaram com este duelo enlameado de sucessos do passado, afirmo que já no ano passado foi lançado outro álbum intitulado "O embate do século - Ultraje a Rigor vs Raimundos". Confesso que gosto da idéia destes "álbuns split", desde que os mesmos sejam meio e não apenas mais uma tentativa de manter-se vivo no mercado. A Nação Zumbi, como única banda de primeira grandeza de Pernambuco desde que o  Movimento Mangue-Beat foi criado, não precisa disso. Ao procurar algo para ler sobre este trabalho encontro o seguinte - "O encontro no disco 'Mundo Livre S/A vs Nação Zumbi', em que um toca as músicas do outro, é mais do que uma celebração do movimento e das suas canções. É um exercício dos mais interessantes, feito por duas bandas bem diferentes, no topo de sua forma artística."

É este tipo de conveniência que não aceito. Afirmar que ambas estão no "topo da forma artística" é uma piada de pura "brodagem". A Nação Zumbi, mesmo conseguindo manter-se no primeiro escalão, jamais conseguirá chegar perto da grandeza do que foi com Chico Science. Até porque, desde o excelente álbum de 2002, alterna trabalhos irregulares e um monte de lançamentos no formato "ao vivo". Promessa de disco novo na praça em 2014, após 6 anos de ausência. Já o Mundo Livre S/A é um caso à parte. A banda vive completamente de passado e da postura "comuna-intelectual" do "ilustre caranguejo" Fred 04. (Apesar de ter lançado trabalho próprio há menos tempo que a Nação Zumbi.)

Para completar o time, eis que me deparo com a seguinte manchete nesta semana - "Mallu Magalhães é encantadora - diz jornal The New York Times". Fiquei curioso e fui ler as reportagens por inteiro. Concordo que uma crítica no jornal americano deixaria qualquer jovem com muito orgulho de seu trabalho. No entanto, percebi claramente que não passa de mais uma jogada de produtores. Estes lançaram um álbum por lá intitulado "Highly Sensitive". O álbum nada mais é do que outro compilado das músicas dos três primeiros discos da garota cantadas em inglês. Ouvi o último álbum da moça diversas vezes. "Pitanga" (2011) é um álbum muito bem produzido e extremamente bem gravado. Kassin e Marcelo Camelo acertam em cheio nos arranjos que a garota precisa para desfilar toda a infantilidade (ainda?) e sua voz extremamente semitonada. Por falar nisso, a matéria acerta em cheio quando afirma que a mocinha não se preocupa com "o tom" e erra terrivelmente quando vê isto como algo positivo. Afirmo isto, porque com os aparatos que existem hoje em dia nos estúdios, qualquer "Mané" canta e qualquer "Maria" vira fenômeno. Agora, na hora da febre do ao vivo, é que podemos perceber do que de fato um artista é capaz. Voltando a pauta principal do texto, percebemos que estas jogadas estão se tornando cada vez mais usuais dentro do mercado. Neste caso em específico, porque Mallu Magalhães tem 21 anos, três álbuns e a vida toda pela frente. Inclusive, para aprender a cantar. 

O que nós fazemos? Apostamos em talentos não tão talentosos? Perpetuamos semi-Deuses criados por nós mesmos? Regredimos a arroubos juvenis para achar qualidade e graça na música?

As respostas para estas peguntas não são nada fáceis. Ache as respostas dentro dos ouvidos, de preferência, dando a verdadeira relevância ao que merece ser ouvido. O resto é mise-en-scéne!

Versão do disco - Pitanga (2011):



Versão ao vivo no Rock in Rio (2013):


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Vivendo o Porto: A Tasca do Guedes - por Dom Angelo

 

Para quem realmente aprecia uma boa bebedeira entre amigos, não existe lugar melhor que um boteco. Se o local for antigo, modesto e barato, melhor ainda. Ao mesmo tempo em que o ambiente é envolvido pelos ares da energia instável do álcool, percebemos uma sensação relaxante e de aconchego, considerando o gole na cerveja, a comida rudimentar, a conversa afiada e a celebração da amizade como o verdadeiro e o único objetivo de ali estar.
Ok. Um fuga da realidade? Talvez sim, talvez não.
Em Portugal, esses locais levam o nome de Tasca. Segundo o dicionário Priberam (http://www.priberam.pt/dlpo/), a palavra significa “estabelecimento modesto que vende bebidas e refeições”. Por aqui encontramos tascas centenárias, muitas vezes subterrâneas, com paredes de pedra e azuleijos, mobília rústica e comida tradicional.
Às sextas ou sábados, o primeiro local que frequento antes de uma noite de diversão é a Tasca do Guedes. Ou simplesmente Casa Guedes. Localizada na praça dos Poveiros, essa tasca serve o melhor sanduíche de pernil do mundo. O estabelecimento tem apenas 4 mesas na parte de dentro, apesar de nas épocas mais “quentes” eles oferecerem mesas ao lado de fora do bar, mesmo em frente ao Jardim de São Lázaro.
Além da “sandes de pernil”, as especialidades do Guedes são as papas de sarrabulho, moelas, sopa de caldo verde e os queijos e frios regionais, tudo isso acompanhado de um bom frisante rosé, um vinho verde ou da velha cervejinha. Porém não se incomode de não arranjar uma mesa. Provavelmente vai acontecer. O Guedes vive cheio, muitas vezes com filas grandes para se fazer o pedido no balcão. Mas como a idéia é começar a farra de bucho forrado, o que vale mesmo é comer no balcão ou em pé, tomar a garrafa de vinho e sair pra noitada!