domingo, 21 de setembro de 2014

Ronnie Von - Ousadia Reconhecida (Antes Tarde do que Nunca) - Por Fernando Lucchesi



Para grande maioria das pessoas, quando se fala em Ronnie Von, a primeira lembrança que vem é o cantor de músicas românticas como “Tranquei a Vida” ou “Pra Ser Só Minha Mulher” ou ainda como o cantor, erroneamente vinculado à jovem guarda, que cantava versões dos Beatles e intérprete do gigantesco hit dos anos 1960 “A Praça”, que segundo o próprio Ronnie Von vendeu mais discos que o número de aparelhos de som que havia nos lares brasileiros.

O que pouca gente sabe é que entre 1968 e 1970 ele gravou três discos da hoje chamada “fase psicodélica”. Os três discos (“Ronnie Von” - 1968, “A Misteriosa Luta do Reino do Parassempre [sic] Contra o Império do Nunca Mais” - 1969 e “Máquina Voadora” - 1970) foram produzidos em uma época em que o cantor tinha contrato com a Phillips, mas a gravadora ficou por um período de tempo sem um executivo principal no Brasil. Como ele tinha obrigações com a gravadora em entregar discos, resolveu fazer o que realmente o interessava musicalmente. Aqui é importante fazer um parêntese: Ronnie Von sempre manifestou que gravou “A Praça” por pura insistência de Carlos Imperial, pois a música em nada lhe agradava. Quando surgiu a oportunidade de gravar um disco sem interferência da gravadora, ele cercou-se de três profissionais que entenderam a vaga ideia do que ele queria fazer e a concretizaram: o compositor Arnaldo Saccomani, o maestro Damiano Cozzela e o produtor Manoel Barenbeim. Além deles deve-se crédito também a Zé Guilherme e ao grupo B-612, que acompanhou Ronnie Von durante a gravação do disco de 1968.

Os três discos foram um fracasso retumbante de vendas na época e Ronnie Von sequer conseguia fazer shows dos discos, pois o estranhamento com o novo som era tanto do público como dos produtores de shows que não viam possibilidade de lucro com um produto musical tão incompreendido. Esse, portanto, era um período fadado ao esquecimento musical que vez por outra acomete artistas importantes da música brasileira. E continuaria assim se uma revista austríaca, no começo dos anos 2000, não tivesse colocado o disco de 1968 entre os cem mais importantes da música psicodélica mundial. Houve então o revival por parte de algumas bandas brasileiras e por parte do próprio público que passou a ter conhecimento desse período.

Em 2013 o canal BIS, do Multishow, resolveu fazer um documentário sobre esse período da carreira do cantor e chamou a banda Haxixins para acompanhá-lo, a princípio, em 15 faixas. O documentário não se restringe apenas ao período psicodélico. A parte inicial é um breve resumo do começo da carreira de Ronnie Von, suas influências (marcadamente os Beatles) e como ele conseguiu reunir e dar oportunidade às primeiras bandas de rock surgidas no Brasil influenciadas pela sonoridade dos Beatles pós-Revolver. Sem dúvida, a mais conhecida foi “Os Mutantes” (que teve seu nome sugerido por Ronnie Von, que à época lia um romance chamado “O Império dos Mutantes”). 

Mas, o que realmente torna especial o documentário são as cenas da gravação em estúdio de Ronnie Von com o Haxixins. A versão deles para “Máquina Voadora” é brilhante. Bom, para aqueles que não conhecem esta é uma excelente oportunidade de se familiarizar com o som e para aqueles que já conhecem é uma chance rara de ver Ronnie Von reinterpretando as músicas de um período que trouxe para o rock/pop brasileiro o que havia de mais moderno na época.


Já a biografia “Ronnie Von - O Príncipe que Podia Ser Rei” dos jornalistas Antônio Guerreiro e Luiz Cesar Pimentel não é mais que mediana. É claro que o livro não deve ser ignorado, pois preenche uma falha do mercado editorial brasileiro e corrige uma injustiça histórica, mas não há nada de novo em suas 158 páginas que já não se saiba sobre o biografado. Sobram questionamentos. Por exemplo, entre 1973 e 1977 Ronnie Von não lançou discos, à exceção de alguns compactos. O livro resume esse período assim: “Entre 1974 e 1977, lançou três compactos e se dedicou aos shows”. Durante esse três anos, nada de relevante aconteceu artisticamente? É verdade que ele só lançou alguns compactos, mas os shows eram calcados em que repertório? Ele conseguiu fazer shows em todo Brasil ou ficava restrito a alguns poucos lugares? Que banda acompanhava-o nesse período? Outro questionamento é se durante toda sua carreira nunca houve intervenção da censura, principalmente no período psicodélico, já que os censores notadamente franziam a testa pra algo que não compreendiam.

A vida pessoal e todos os problemas de relacionamentos são bem detalhados e nesse caso, os autores não douraram a pílula. Não omitiram nada. O que decepciona mesmo é a oportunidade de ir mais a fundo no período psicodélico além dos dois discos posteriores “Cavaleiro de Aruanda”, cuja faixa título é um rock Hendrixiano, e “Ronnie Von” de 1973. Não se pode duvidar da seriedade da pesquisa, mas a biografia de Ronnie Von tem muitas lacunas para serem preenchidas.

domingo, 14 de setembro de 2014

O Que Ouvi de Interessante no Mês de Agosto: Parte II - Por Bruno Vitorino



Ell Gênio Duo. Divulgação: Leila Nunes
Ell Gênio Duo – Reflexos:

Na zona de intersecção entre o tradicional e o moderno, estão os pernambucanos do Ell Gênio Duo. Tradicionalistas por formação e vanguardistas na inquietude de suas abordagens, a dupla, formada por Luciano Emerson (clarinete) e Caio Fernando (violão de 7 cordas), mescla em suas composições as estruturas clássicas do choro, a liberdade do discurso improvisativo  do jazz e o esmero da arquitetura erudita, apontando, desta forma, tanto para o aspecto conservador do viés tradicional da cultura, quanto para o caráter libertário, por parte da vanguarda, daquilo que concerne à sedimentação rija dos símbolos inscritos nas práticas coletivas da cultura. Dessa forma, a música constante no álbum de estreia do dueto – “Reflexos” – é um encadeamento constante de teses, antíteses e sínteses. Neste disco, o duo demonstra uma comunicação telepática que estabelece suas bases no risco, na descoberta, na exploração das possibilidades melódicas, rítmicas e harmônicas, nos limites entre composição enquanto estrutura pré-concebida e a improvisação enquanto criação instantânea. Pondo de lado a burocracia estéril dos tecnocratas, ouve-se nesse trabalho um virtuosismo que vai, portanto, muito além da mera destreza técnica para descambar numa necessidade incontrolável de expressar em sons os sentimentos mais recônditos. Sem falar na ironia fina contra a banalização do termo “gênio”, que se reduziu a mero selo de qualidade tal como o ISO, já presente no nome do projeto. Certamente um dos trabalhos instrumentais mais densos já registrados em nosso estado.







Keith Jarrett / Charlie Haden – Last Dance:

Eu descobri quase por acaso que Charlie Haden havia morrido. Fiquei “fora do ar” por alguns minutos pelo inesperado da notícia. Ele era um de meus heróis do contrabaixo, e eu nutria a esperança de num futuro próximo vê-lo ao vivo... Por isso, com sua morte, morreu também, de certa forma, um pedaço de mim e de tantos outros baixistas que se inspiravam nesse ícone. Encantavam-me (e ainda me encantam) seu não-virtuosismo tácito, sua capacidade extraordinária de harmonizar absolutamente tudo, suas escolhas na construção das linhas, seu domínio pleno das formas e sua habilidade para transitar à beira das estruturas formais da composição, quando os momentos de improvisação livre e coletiva exigiam um caminho mais aberto. Cada nota que tocava, cada silêncio que enaltecia tinha um significado imenso nas suas interpretações e na maneira como ele estabelecia elos com os outros músicos envolvidos na execução do tema. Não sem razão Keith Jarrett o considerava um dos maiores improvisadores da história do jazz. “Last Dance” é o segundo álbum que o encontro desses dois mestres rendeu. É uma celebração da amizade e do reencontro musical que demorou três décadas para voltar a acontecer. A informalidade da sessão vai desde o local das gravações – o estúdio caseiro de Jarrett – à escolha dos temas. São releituras de standards estabelecidos no cânone jazzístico e, por isso mesmo, ainda mais desafiadores, pois requerem dos instrumentistas a capacidade de fazer algo novo com um material desgastado por um sem número de interpretações. Nesse sentido, a dupla engrandece as composições com a entrega plena de si em cada música, buscando a transcendência metafísica no diálogo constante, seja na execução dos temas, seja na improvisação sobre esse suporte que é o chorus. É tão magnífico, por exemplo, ouvi-los executando com tanto frescor e jovialidade uma composição como “Round Midnight”, uma tema tão violentado por músicos de churrascaria que não conhecem Thelonious Monk e muito menos vislumbram sua dimensão e importância para a música que ajudam a corromper com a frieza cadavérica que lhes é peculiar. “Last Dance”, assim como seu antecessor “Jasmine”, impõe-se como um resgate da jornada em busca do Belo na Arte. Algo que fora rechaçado pelos urubus do vanguardismo de araque, pela incapacidade dos músicos sem criatividade e ousadia, que não conseguem ir além das fronteiras de sua própria inércia e das doces recompensas da indústria do espetáculo, em compreender o seu papel ante o sagrado que é a Música e, por fim, pelo público que deseja apenas som ambiente para embalar sua futilidade. Por todas essas razões, um disco obrigatório. 

No player abaixo, é possível ouvir trechos dos temas. É bem verdade que isso é insuficiente para revelar toda a beleza do trabalho, mas serve para atiçar ainda mais a curiosidade e tornar a audição desse álbum ainda mais irresistível.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Cavalera Conspiracy no Recife - por Giba Carvalho

     


O sobrenome "Cavalera" está marcado de forma única na história da música mundial. É bem verdade que o rock n´roll nunca pegou no Brasil, mas estes dois caras foram os responsáveis (junto aos demais membros do Sepultura) pelo patamar mais alto que uma banda brasileira chegou na história da música mundial. Em virtude disto, e pela reverência e devoção dos "camisas pretas", esperava as dependências do Clube Internacional tomadas na última noite de sábado. Ledo engano. 

Acredito que no máximo mil pessoas presenciaram uma noite histórica para os fãs dos Trash Metal. Na opinião do público em geral, por dois fatores - primeiro o preço do ingresso (R$160,00 inteira - R$80,00 meia-entrada e ainda com o ingresso social a R$90,00 com 1 kg de alimento) e segundo, pela divisão de opções na noite específica da cidade (na mesma noite estava havendo show de Raimundos e de O Rappa). Quando falo sobre o preço do ingresso acima é unicamente porque foi a justificativa que mais ouvi durante a noite para um público tão pequeno. Temos que analisar outras duas causas para debater isto. Os caras tem carreira internacional, trazem todos os equipamentos e equipe com eles e isto aumenta o preço. E pelo fato do pernambucano ser o público mais pseudo-cultural que conheço. Fala aos quatro ventos que transborda cultura, mas, na hora de pagar qualquer ingresso acima de R$50,00, tudo torna-se absurdo! Já nas prévias de carnaval, onde a música não é arte e apenas entretenimento da mesmice, a situação muda sobremaneira, não é verdade?

Vamos ao que de fato é relevante. Confesso que minha mente fez uma viagem no tempo. Voltei a meados de 1991 quando um amigo de sala gravou numa fita cassete o vinil do "Arise". As audições deste disco foram de extrema importância para minha formação musical e de momentos de extremo terror para os vizinhos de prédio. Até quando fui citado na reunião de condomínio por ouvir música do demônio em volume ensurdecedor e não deixar que as pessoas ouvissem o Jornal Nacional em paz. 

O show foi um espetáculo à parte. Desde quando ouvi o primeiro disco do Cavalera Cospiracy tive a real certeza de que os irmãos Cavalera, quando juntos, são mestres na hora de compor porradas. O estilo revolucionário e provocativo de Max aliado ao vigor visceral de Igor com as baquetas é combustão pura! O setlist foi baseado nos dois álbuns da banda - Inflikted (2008) e Blunt Force Trauma (2011) e vários sucessos da carreira junto ao Sepultura como: Beneath the Remains, Desperate Cry, Innerself, Arise, Attitude, Roots Bloody Roots, dentre outros. Ainda tiveram tempo de tocar duas novas - Babylonian Pandemonium e Bonzai Kamikaze. Estas duas são um ótimo prenúncio do disco novo que será lançado ainda neste segundo semestre e que até agora tem o nome de Pandemonium. Mark Rizo, guitarrista da banda, afirmou em recente entrevista que as gravações foram ótimas e classificou o novo trabalho com rápido e brutal.


Seria muito injusto classificar o show da Cavalera Conspiracy apenas como "saudosista". Para o bem dos amantes do rock mais pesado, os irmãos Cavalera ainda estão em forma e conseguem apresentar um trabalho de qualidade. Concordo com a afirmativa do amigo Fábio Samico - "Velho, é a hora que separamos os meninos dos homens! Os caras são foda!" Infelizmente, o público do Brasil não presta mais atenção nestas bandas que foram divisores de águas. Sinto-me extremamente honrado e feliz por ter visto dos dois meus heróis juntos e ao vivo. E, ainda penso, que futuramente o Sepultura (a maior banda da história do Brasil) voltará a tocar junta com sua formação clássica. 

CLUBE INTERNACIONAL DO RECIFE - Prestem atenção na estrutura oferecida ao público presente.

Foto 1: fios que ligavam o palco e a iluminação totalmente imersos em água que escorria das infiltrações. Risco total de acidente!


     
Fotos 2 e 3: mictórios entupidos, com canos de passagem furados e um "mar de mijo e lama de mijo" no banheiro masculino.


   

Não aconselho a ninguém qualquer evento no referido clube. Uma vergonha!

Créditos da foto do Setlist - issu.com/RockMeeting

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O Que Ouvi de Interessante no Mês de Agosto: Parte I – Por Bruno Vitorino


Para mim, agosto foi um instante. Fugaz. Passou por mim esquivo como um lampejo, irrefreável como uma rajada de vento que não vê nada além de seu curso. Dele ficou apenas uma palavra: correria. Mas, no meio da tormenta que nasce da peleja entre o tempo e as obrigações inerentes a cada um, dediquei meus (poucos) momentos de calmaria e paz de espírito a ouvir alguns discos que foram lançados recentemente. Por isso, nesta primeira parte, busco aqui compartilhar com os que me leem, em comentários ligeiros (logo, denuncio, já insuficientes para abarcar a infinita grandeza da Música em seu esplendor inefável) alguns desses trabalhos que, de forma boa, chamaram-me a atenção.

Mônica Salmaso – Corpo de Baile:


Em seu mais recente trabalho, a cantora paulista resgata uma maneira quase esquecida do fazer artístico: o garimpo, o trabalho minucioso de pesquisa poética, musical e estética de obras que clamam por serem objetivadas na construção coletiva da interpretação. No caso em pauta, trata-se de pérolas geradas pela parceria entre Guinga e Paulo César Pinheiro que em sua maioria não haviam sido gravadas, e outras as quais pairavam esquecidas num passado longínquo. Gravado à moda antiga com os instrumentistas juntos no estúdio, o álbum traz 14 canções esmerilhadas pelos arranjos primorosos de Nailor Proveta, Nelson Ayres e Teco Cardoso, para citar só alguns, com instrumentação variada que nos remete a uma sonoridade camerística; base mais que adequada para acolher a voz precisa da cantora. Nos tempos em que a Música Popular Brasileira (se é que esse termo ainda faz algum sentido) nos brinda com falsas divas do sucesso comercial que de hit em hit vão se consagrando diante de um público cada vez mais inerte e homogeneizado, “Corpo de Baile” se impõe como um trabalho de resistência verdadeiramente artístico que, por teimosia e coragem, insiste em percorrer o contra fluxo do establishment. Um dos discos mais interessantes do ano até o momento. Nos vídeos abaixo, é possível ver o processo de gravação das músicas "Corpo de Baile" e "Rancho das Sete Cores", além de ouvir os comentários de Salmaso sobre elas:

- Corpo de Baile: 



- Rancho das Sete Cores: 



Rua – Limbo:


Na sequência do ótimo “Do Absurdo” (2011), os recifenses da Rua apresentam seu mais novo álbum – “Limbo” – e se estabelecem como um dos projetos mais interessantes da cidade. Subvertendo a lógica ocidental estabelecida para a canção que submete ritmo e harmonia à melodia enquanto elemento propulsor do desenvolvimento temático e suporte por excelência da palavra, a Rua se vale de padrões rítmicos assimétricos, que se sobrepõem, como forças norteadoras dos rumos da composição, gerando com isso um conflito métrico que obscurece, por vezes, as articulações da forma e a noção de pulso estável. Os acordes verticalizados são desconstruídos numa abordagem polifônica que vai tramando em torno da estrutura dos temas algum direcionamento harmônico de forte coloração modal. Não há aqui o canto das sereias dos movimentos cadenciais e das resoluções harmônicas aos moldes tradicionais que tanto seduzem nossos ouvidos viciados, e sim insinuações de ambientes sonoros, campos harmônicos subentendidos, amplos e abertos. E permeando toda essa densa estrutura está a melodia esculpida no ritmo a carregar uma poesia irreal (no melhor dos sentidos), apartada das vicissitudes cotidianas da experiência humana, que explora as margens da linguagem e o hermetismo dos significados. Um disco esteticamente ousado e musicalmente bem construído, como há muito não se via por estas bandas. Indispensável!


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O Amor Cáustico de Paolo Nutini - por Giba Carvalho

       


Nove anos após assinar seu primeiro contrato com a Atlantic Records, Paolo Nutini nos presenteia com seu terceiro álbum - “Caustic Love”. A cada passo dado, o garoto de apenas 27 anos, mostra que sabe aonde quer chegar e que toma conta de sua carreira de modo único. Primordialmente pela guinada quase total para o soul como linha de frente para sua música e, segundo, por não deixar que qualquer produtor ponha as mãos em seus trabalhos. Desta feita, Nutini pôs as mãos na massa e assinou a produção do seu terceiro álbum junto a Dani Castelar, com quem já havia trabalhado no antecessor – Sunny side Up.

Inspirando-se em clássicos de R & B e Soul, Paolo acerta seus ouvintes de modo muito mais eficaz do que com o pop-folk que predominara até então em sua carreira. A maturidade musical já demonstrada em “No other way” (melhor música do Sunny Side Up) toma formas impressionantes em Caustic Love em canções como – “Iron Sky”, “Let me Down Easy” (um tributo aos clássicos da Motown) e “Scream (Funk My Life Up). Nutini parece compreender uma frase que adoro utilizar em termos musicais – “Moderno é a tradição.” Destas supracitadas, eu destaco “Iron Sky”. De letra contundente e madura, esta balada nos remete a luta por direitos e ao confronto a nossa sociedade dividida por meio de tantos adventos tecnológicos. No meio desta canção, o trecho do discurso de Chaplin retirado de “O Grande Ditador”, faz com que tenhamos mais certeza ainda:

Para aqueles que podem me ouvir, eu digo, não se desesperem
A miséria que está sobre nós é apenas a passagem da ganância
A amargura de homens que temem o avanço do progresso humano
O ódio dos homens passará e ditadores morrem
E o poder que tomaram do povo retornará ao povo
E mesmo que os homens morram, a liberdade nunca perecerá
Não entreguem-se a estes homens artificiais
Homens-máquina, com mentes de máquina e corações de máquina
Vocês não são máquinas. Vocês não são gado, vocês são homens!
Vocês, pessoas, têm o poder de tornar esta vida livre e bela
E de fazer desta vida uma aventura maravilhosa
Vamos usar deste poder!
Vamos todos nos unir!

Apresentação espetacular no Studio Abbey Road:


Não pense você, que o peculiar lado romântico, foi esquecido por Paolo Nutini. Podemos perceber claramente desde o título do novo trabalho – “Caustic Love” (Amor Cáustico). No entanto, o modo que o artista exprime tais sentimentos nas novas canções é bem diferenciado dos trabalhos anteriores. As dolorosas desilusões amorosas adolescentes dão lugar a consolidação de um adulto que tem a capacidade de questionar e agir de outras maneiras. Sejam elas no amor que escorre em – "Diana" – Diana, she loves me, no innocence or compromise. Diana, she loves me, the only way she knows. Ou na bela "Better Man" (será que vamos ter outro hino com este mesmo nome?), onde mesmo de um modo ainda “meio garotão”, ele consegue passar grande parte do que qualquer homem deseja na sua companheira. E é impressionante como o garoto consegue fazer de uma baladinha (praticamente voz e violão) torne-se uma bela música.

Mas, neste lado específico - "One day" é a que mais se destaca pela musicalidade intensa, com uma linha de contrabaixo que permite que Nutini explore seus tons variadíssimos de voz e pelo existencialismo "platônico" contido na letra: From the corner of my eye. To the back of my mind. I recognize what you mean to me. And all the corners of our pictures. Are a long time afraid. They still symbolize what you mean to me. You ask me to remember. A kiss is but a kiss. Well I'd be a fool to want more from you. And I'm gone in a while. I'll be gone in a while. I'll be gone in a while. It's all that I do. I'll cry and you cry and we'll cry. Till the rain turns black. And the devil moves and clings to us. And for a moment there is beauty. It's not a simple yearning. Sometimes it feels like it's all I've gotten. It's all a dream.

Dentro do álbum, ainda encontramos outro diferencial. Há algum tempo atrás, ao ser questionado sobre como seria seu novo trabalho, Paolo Nutini afirmou que estava sendo meio que "punk-rock" o processo de produção. Com a elegância e talento que lhe é proveniente, o álbum não tem nada do estilo supracitado. Porém, "Cherry Blossom" e "Fashion" são  músicas onde as guitarras mais rock n´roll aparecem. Muito mais baseado pro lado de bandas de rock psicodélico e indie. Esta vertente não apareceu nos antecessores e é certo que será sucesso em suas apresentações. 

"Bus Talk" e "Supperfly" são os pontos fracos do álbum por tratarem-se apenas de duas "vinhetas" chatas entre as faixas.  

É notório que o caminho do jovem escocês vai tomando crescente e isto é extremamente importante para o mundo da música. Afinal, para uma geração muitas vezes julgada “perdida”, o Reino Unido vem provando por Paolo e outros como Amy Whinehouse (in memorian) , Adele, Joss Stone, Jake Bugg que um pouco de bom gosto e tradição, aliados a sofisticação, não fazem mal a ninguém.

domingo, 20 de julho de 2014

Variações em 4/4: Nação Zumbi


Na edição deste mês da coluna, os editores do blog comentam o mais novo trabalho da banda pernambucana Nação Zumbi.

- André Maranhão:

Embora Cicatriz apareça como o single de Nação Zumbi, outras faixas são mais destacáveis no álbum. Em Bala Perdida, NZ consegue imprimir uma melodia marcante para se referir a um tema pouco convencional: uma bala perdida. Claro que outros rappers e os Paralamas do Sucesso (em Calibre) já o fizeram. Mas o gesto de NZ é fundamental para reforçar algo importante na canção brasileira; converter o violento em poético. Na faixa O Que Te Faz Rir, a grande virada está em 1’50’’, com a entrada da simples estrofe “O que te faz rir pode te fazer chorar / O que te faz rir não vai me fazer chorar”; enriquecida pela boa conversão da guitarra e com a entrada lânguida das backing vocals e da percussão – somas que imprimem um balanço gostoso à canção.

Na faixa Defeito Perfeito, o tema principal abordado é atualíssimo. Numa época de proliferação das redes sociais e das manipulações de imagens, dos selfies e do pastiche, o ineditismo parece cada vez mais complicado. Mas na contramão do simétrico, perfeito e irretocável; a canção enfatiza num discurso claro e direto: “De perto a cor é outra / Se sente o cheiro o defeito aparece / É bem diferente / Nada é como se espera / Nada não / Eu lhe quero assim / Desse jeito”. Isto parece reivindicar a beleza ao que parece erroneamente imperfeito.

A presença de Marisa Monte entrega mais lirismo à faixa A Melhor Hora da Praia, e em Um Sonho, a presença do violão de aço e de uma guitarra marcada por drives mais leves e sweep picks, se aliam ao banjo acentuado no final da faixa e às alfaias sutilmente marcadas. No entanto, o retorno à fórmula que consagrou NZ surge, de fato, em Foi de Amor e Em Pegando Fogo. As alfaias mais fortes somam-se à bateria agressiva e à distorção ainda mais intensa na guitarra, produzindo duas das melhores faixas do álbum. Por sinal, meu destaque vai para Lúcio Maia, pois o guitarrista se estabelece como um músico coerente, alternando os recursos do seu instrumento, não apenas entre uma faixa e outra, mas dentro de uma mesma canção. Estes ingredientes pesam consideravelmente, pois não fosse tal fórmula, uma passagem como “Vem que ardente / Mais que urgente, tremulante / Toda dançante, atiçando a todo instante / E a cena ficando quente” poderia calhar muito bem num repertório de Cláudio Zoli, e não de Nação Zumbi!

- Fernando Lucchesi:         

É difícil para qualquer banda, depois de um longo tempo junta, manter um certo padrão de qualidade nos seus discos. Algumas bandas arriscam uma mudança radical no som para sair da rotina. Outras seguem a mesma fórmula infinitamente sem se preocupar se estão sendo derivativas. Nesse caso, o importante é manter-se em evidência. A mudança ou não de sonoridade, só o tempo (e o público) poderá dizer se foi acertada. A Nação Zumbi parece ter escolhido a segunda alternativa. E não hesito em dizer que a escolha foi acertada. Mas calma!  Não vá ouvir o disco procurando um novo Da lama ao Caos! A banda não repete exatamente o que fez nos discos com Chico Science. Se você quer tomar como referência algum disco da banda pegue o Nação Zumbi de 2002. Desde esse disco a banda deu uma guinada mais intensa para letras psicodélicas, melodias mais instigantes e um peso maior para a guitarra misturada às diversas influências da banda. Pois, o Nação Zumbi de 2014 vai nessa mesma direção. Não à toa, o título é o mesmo.

O disco se divide em dois tipos de canções: aquelas com uma guitarra pesada e desenfreada (estas estão mais propensas a entrar em repertórios de futuros shows) e aquelas mais calmas e elaboradas (estas, apesar da beleza melódica, serão pouco ouvidas em shows, pois quem já viu a banda ao vivo sabe que poucas partes do show são cadenciadas). No primeiro grupo estão a faixa de abertura, Cicatriz, com um riff de guitarra que poderia ser tocado por qualquer banda de brega, Bala Perdida, Foi de Amor (a melhor faixa do disco), Cuidado e Pegando Fogo. De outro lado canções como Novas Auroras (possivelmente a melhor delas, com um riff excelente), A Melhor Hora da Praia, Defeito Perfeito (esta com uma levada meio reggae), Um Sonho e Nunca te Vi.  Arrisco dizer que esse é o melhor disco da Nação Zumbi desde o de 2002 e que várias canções entrarão no repertório de shows da banda.

- Giba Carvalho:

Resumiria o disco novo da Nação Zumbi como pouco ousado, mas eficiente. Obviamente que as características básicas do grupo não foram esquecidas, no entanto, uma “certa” veia Pop aparece com mais frequência durante o trabalho. Por exemplo:  Cicatriz, música que abre o disco, é uma balada que para mim soou com fortes influências melódicas da Jovem Guarda. Isto não é nada comum na trajetória dos músicos pernambucanos.

Não sei ao certo que tipo de influências os caras devem ter tido na hora de compor o disco, mas a falta de vigor no trabalho e a mostra um lado mais “alegre”, mostra que o “meio” consegue mudar até quem não precisaria. Particularmente, prefiro quando a Nação Zumbi mostra força e peso em suas composições.

Estaria sendo hipócrita afirmando que é um disco ruim. Mas, justamente pelo momento tenebroso que vive o rock n´roll nacional, penso que uma viagem ao início seria mais interessante do que “colorir” a vigorosa personalidade combativa da banda de outras épocas.

Sem sombra de dúvidas, indico a atenção dos ouvintes para a tríade que encerra o disco – Foi de Amor, Cuidado e Pegando Fogo. O resto me parece mais uma mistura dos projetos paralelos que os membros do grupo participaram neste hiato de sete longos anos.

- Bruno Vitorino:

Após uma espera de sete anos, alardeado por toda imprensa nacional, e posto no altar das mais sacras relíquias pelos jornais deste vilarejo chamado Recife; eis que me chega aos ouvidos o mais novo trabalho da Nação Zumbi. Devo confessar que partilhei com meu conterrâneo certa ansiedade por ouvir o disco que viria na sequência do ótimo Fome de Tudo, de 2007. Ainda com aquela sonoridade na cabeça – especialmente a métrica irregular, em 7/8, da música Carnaval e as explorações poéticas do paradoxo da fome na letra da canção que intitula o álbum -, imaginava que iria me deparar com um trabalho instigante ou, ao menos, musicalmente interessante. Contudo, parece que todos os percalços internos da banda, juntamente com o envolvimento de seus membros mais criativos e fundamentais em outros projetos, e, por fim, a produção musical inorgânica de Kassin, o queridinho do pop cult brasileiro, com seus efeitos, barulhinhos e ambiência “eletro-retrô”, resultaram num disco artisticamente um tanto quanto protocolar.

Entenda: isso não quer dizer que o disco é ruim. Um passo em falso é diferente de um passo atrás. Contudo, não há como negligenciar o aspecto rotineiro, com todas as conveniências de seus lugares-comuns e a pouca, ou nenhuma, propensão ao risco, que emerge desse registro. Algo que até então o grupo, de forma brilhante, conseguiu subverter ao longo de seus trabalhos em estúdio, sempre desvelando veredas estéticas ocultadas pelas banalidades mercadológica e expressiva do mainstream nacional. Porém, pela primeira vez, a Nação Zumbi soa um pouco menos como a Nação Zumbi e mais como um grupo “comum” do cenário brasileiro. Nesse sentido, a mudança na temática das letras talvez seja o caráter mais revelador: a abordagem mais política e contestadora abre espaço para sondagens emotivas (e leves, diria) sobre experiências pessoais ou dores de amor - afinal, não faz muito sentido criticar o vazio moral da sanha capitalista e estampar a marca do patrocinador do projeto na arte gráfica do disco, não é mesmo?

A Melhor Hora da Praia é, para mim, a grande pérola a fulgurar nesse trabalho. Digo isso não pela participação de Marisa Monte, que é em si irrelevante, e sim por mostrar o quão viva é a tradição justamente por sua capacidade de se desconstruir e se reinventar nas mãos daqueles que a compreendem e ousam tê-la por matéria de seu ofício. Uma ciranda com várias camadas sonoras: uma trama de cordas a prover um pano de fundo camerístico que recebe as pinceladas rítmicas da percussão de Toca Ogã, criando assim um belo painel; a sensibilidade nas harmonizações e nos timbres de Lúcio Maia; a sublimação da batida tradicional por parte de Pupilo; a linha de baixo de Dengue a dançar em torno do pulso; e até o viés mais melódico que a inflexão vocal de Jorge Du Peixe consegue ter; o conjunto desses estratos se apresenta como uma construção imagética de uma flutuante ciranda na beira da praia, convidando ouvinte a não só vivenciar essa manifestação folclórica, mas também a experimentar o embevecimento do fazer coletivo da Cultura.

No mais, sugiro um olhar de perto em Cicatriz, que traz em suas entrelinhas a superação e o aprendizado com as feridas causadas pela desavença entre os integrantes do grupo; no balanço de O Que te Faz Rir; e, do ponto de vista instrumental, em tudo o que faz Lúcio Maia.

Pondo em perspectiva a discografia dos pernambucanos, esse é certamente o seu trabalho mais inócuo. Não obstante, sem os delírios de bairrismo tão caros ao recifense, afirmo que, ainda assim, Nação Zumbi está à frente de muito do que se tem produzido no pop brasileiro. O simples fato de ser bem tocado, algo raro em nossos tempos, já o põe na vanguarda. Só isso já vale a ouvida.

domingo, 25 de maio de 2014

Entrevista com Paulo Arruda - Por Bruno Vitorino

O compositor Paulo Arruda. Foto por: Gustavo Pimentel

Dando continuidade ao registro da produção pernambucana que passa longe do conhecimento do público local e que, de modo ainda mais enigmático, não é tratada pelos grandes veículos de comunicação do estado, publico a entrevista que fiz com o compositor, arranjador e contrabaixista Paulo Arruda. Nessa extensa - contudo, sólida - conversa, o artista fala sobre sua trajetória, perspectivas estéticas, seu trabalho composicional, dentre vários outros pontos que naturalmente foram emergindo em suas considerações.


"O músico é através de sua música." - John Coltrane 


Bruno Vitorino - Primeiramente gostaria de perguntar: por que a música? Fale-nos um pouco de sua trajetória.
Paulo Arruda - Desde criança sempre tive interesse por arte em geral. Primeiro foi o desenho; assistia aos programas do desenhista Daniel Azulay e praticava nos seus cadernos que eram vendidos em bancas de revista na época. No início da adolescência, comecei a aprender violão com amigos e a me interessar por música. Como a maioria dos jovens da minha época, ouvi muito rock e música popular, mas alguns tinham interesse em música erudita e aos poucos fui adquirindo alguns discos que eram devidamente emprestados aos colegas. Desta época, lembro-me de ouvir basicamente Beethoven, Bach, Liszt e Mozart. Os discos eram caros e praticamente só se encontravam obras até o período romântico; música de concerto moderna, só tive a oportunidade de ouvir muitos anos depois. Também ouvia e gravava em fitas os programas Clássicos Especiais da Rádio Universitária, onde tive contato com a música de alguns compositores brasileiros como Villa-Lobos e Camargo Guarnieri. Como o desenho também me fascinava, fui com o amigo Mário Robson, que já era um grande desenhista na época, ter aulas com o professor Sílvio Gomes e, alguns anos depois, com o mestre Eugenio Paxelly - que é um grande artista plástico, tanto no desenho, pintura ou escultura - em seu belíssimo estúdio então instalado na Casa da Cultura.

Mas posso dizer sem dúvidas que a música sempre foi minha grande paixão. Com a ajuda do grande amigo Dilton Monteiro, que estudava no Conservatório Pernambucano de Música, aprendi a ler um pouco de música e arriscava sozinho em casa estudar alguns exercícios do método A escola de Tarrega do Oswaldo Soares, os 12 estudos do Villa-Lobos e algumas peças de autores brasileiros; estudar teoria pelo livro da Maria Luisa Priolli, e dos raros livros que me chegavam à mão. De quando em vez, assistia de penetra algumas aulas de teoria e percepção no Conservatório.

Trabalhei durante anos como designer especializado em computação gráfica (como era chamado na época); passei por produtoras de vídeo e trabalhei em televisão também. Tinha uma vida estabilizada, mas bastante estressante, quando decidi largar tudo e me devotar à música por completo. Era a hora de dar início a uma nova vida, cheia de desafios e, como todos sabem, vinte e seis anos já é uma idade avançada para começar os estudos sérios na área, mas pude contar com professores e amigos iluminados que me ajudaram a trilhar este novo caminho.

Entrei para o Conservatório e fui estudar baixo elétrico com o professor Marcos Araújo, que foi para mim como um novo pai (o meu tinha falecido poucos anos antes); sua enorme bondade com todas as pessoas e, especialmente com seus alunos, suas aulas que não eram só de instrumento, mas principalmente harmonia, onde o Marcão (como era conhecido) simplesmente era genial, pegando músicas simples e transformando-as em obras monumentais. Grande arranjador que me ajudou a escrever arranjos e disse que trocasse o baixo elétrico pelo acústico que, aí sim, eu teria bastante trabalho. Comprei um acústico, mudei de curso e fui estudar com o professor José Chagas. Em seguida dei continuidade aos estudos com outro grande mestre, o professor Thales Silveira, com quem continuei estudando baixo acústico, e também me ensinou harmonia e arranjo durante três anos em sua escola particular (hoje, chamada Tritonis). O ensino de harmonia e arranjo aqui em Recife era praticamente nulo, quem dominava o assunto raramente passava a frente o conhecimento (segundo me contaram músicos mais velhos), e o professor Thales Silveira com seu magnífico curso vem formando ótimos profissionais e ajudando no enobrecimento da atividade musical em nosso Estado.

Ao mesmo tempo ingressei no curso de Licenciatura em Música na Universidade Federal de Pernambuco, onde também tive professores que me ajudaram bastante. Aulas maravilhosas com os professores Sérgio Dias, Nelson Almeida e, principalmente, o querido professor Dierson Torres, que leciona harmonia e estética, muito me ensinou e ainda tem para ensinar!
BV  Razão ou emoção: qual a centelha que desencadeia uma composição?
PA - Creio num intercâmbio constante entre razão e emoção. Trabalho muito improvisando ao piano e vou sempre anotando ideias e guardando para serem utilizadas em seu devido tempo. Durante este processo de busca, deparo-me às vezes com um material que não permite ser anotado e arquivado; ele (o material) quer ser trabalhado exaustivamente até sua solução e neste caso você se envolve muitas vezes de forma neurótica (auto-hipnose), quase que doentia em resolver um determinado problema composicional. Mesmo desta forma, a emoção não trabalha sozinha, embora muitas vezes ela mostre em que direção a música deve seguir. Nesta parte entra a razão para dar preenchimento aos espaços, perceber se uma boa ideia rítmica não encobre uma textura ainda em processo de maturação. Ou seja, o ato de descobrir o que não funciona, o que não tem força musical, tem sido um dos meus maiores desafios.

Vou dar um pequeno exemplo: através do material no qual estou trabalhando vou anotando as ideias em poucas pautas, para posteriormente passar à orquestração, mas posso deixar indicado que instrumento ou naipes tocarão determinado trecho; algumas vezes tenho que refazer toda a orquestração de uma parte por ter confiado demais em processos orquestrais sólidos (a razão), e não ter buscado os desafios impostos para esta etapa do trabalho, arriscando combinações e cores que fogem das estruturas comuns das texturas orquestrais. Pode funcionar ou não! Serão precisos mais alguns anos de análise e estudos aprofundados a fim de adquirir a estética sonora que busco. Se vou encontrar, ainda não sei, mas tenho me esforçado para isso.
Divulgação: Gustavo Pimentel
BV - O que é ser um compositor erudito em Recife?
PA - Acredito que é difícil para todo o mundo. Claro que em alguns países têm-se maiores oportunidades, mas que não garantem a independência do músico apenas através da arte de compor. Não se pode viver apenas de composição por aqui, mas de outros trabalhos como arranjos, tocar em orquestras, música para cinema e documentários, dar aulas ou até fazer outros trabalhos não ligados à música. Isso torna muitas vezes o tempo escasso para a produção composicional, mas o que fazer?

Escrevendo isto, lembro-me imediatamente de uma frase do compositor Mário Ficarelli: “o compositor, com raríssimas exceções, é um homem comum, ou melhor, incomum, porque além de trabalhar (e muito) para manter a si e a sua família, ainda trabalha tudo outra vez para manter e tentar elevar o nível cultural da comunidade e não ganhar nada mais por isso.” Uma definição perfeita do nosso grande compositor.

E pretendo fazer isso, continuar tocando, fazendo arranjos, dando aulas até, quem sabe um dia, poder sobreviver apenas de composição, mas já sabendo de antemão que o caminho é bastante tortuoso e complexo. Não que eu esteja reclamando do que venho fazendo, mas todos sabem que o sonho do compositor é viver de sua obra, e para sua obra.

BV Num mundo onde a arte é cada vez mais rebaixada a mero entretenimento e a experiência artística é substituída por espasmos de euforia compartilháveis nas redes sociais, como diminuir o abismo que separa a música erudita do grande público?

PA - É árdua a tarefa de fazer com que a música de concerto chegue ao grande público. A culpa não é destas pessoas, mas dos meios de produção cultural que não estão em nada preocupados com a disseminação da alta cultura, não apenas em relação à música, mas das artes em geral. Não trato apenas do caso da erudita, mas da vastíssima cultura musical pernambucana, como o frevo, maracatu, forró e caboclinhos que se encontram cada vez mais afetados pelo multiculturalismo implantado nos meios de difusão cultural.

A Orquestra Sinfônica Jovem do Conservatório Pernambucano de Música (na qual atuo como contrabaixista) cumpre bem o papel desta difusão. Através das viagens da orquestra pelo interior do Estado, a música erudita chega a milhares de pessoas que antes nunca tiveram acesso. A prova maior disto é que todos os lugares em que tocamos estão sempre lotados e, depois dos concertos, as pessoas vêm conversar conosco - emocionadas - e com um sentimento de gratidão tão sincero que sensibiliza e nos deixa sem dúvidas do quão importante é o nosso trabalho. Como podemos dizer que as pessoas não gostam, já que nunca tiveram a oportunidade de entrar em contato com este tipo de arte? Outro ponto de vasta importância deve ser citado: antes dos concertos, o maestro José Renato Accioly e a OSJ fazem um concerto-aula para crianças da rede estadual de ensino e para quem estiver disposto a assistir também; começando pela apresentação dos naipes orquestrais, depois os instrumentos individualmente e a função do regente na orquestra; ao final, trazemos uma criança para reger a orquestra, um momento belíssimo que sempre termina com muitos aplausos e onde se pode notar a felicidade dos pequeninos em contato tão próximo com a Grande Arte. Muitas crianças presentes nestas aulas estudam música em projetos sociais ou do próprio Conservatório e, ao verem e ouvirem a orquestra, tomam a decisão de que realmente vão seguir a carreira musical.

Quantos jovens temos em nossa orquestra que foram frutos de projetos como este? Inúmeros que, apesar das enormes dificuldades encontradas por quem quer fazer música com seriedade no Brasil, abraçaram o desejo de devotar suas vidas à música.

Em nosso Estado, precisamos de mais orquestras, bandas sinfônicas, grupos de frevo, e de uma atenção especial ao tipo de iniciação musical que está sendo aplicado em nossas escolas. Tenho conversado com várias pessoas que tem filhos no ensino fundamental e eles têm me relatado coisas absurdas, como se fazer pesquisa sobre o grupo Menudo ou apresentações cantando funk e brega! Onde está a culpa disto? Nas universidades? Os recém-formados professores não conseguem observar além daquilo que os foi ensinado na própria academia? Esse tipo de conduta deve ser execrado das nossas escolas, ou vocês não conseguem perceber que nossas crianças estão sendo intelectualmente estupradas.

Dois fatos recentes (na academia e na grande mídia) confirmam isto: a polêmica causada há alguns meses com o coral da USP, onde os calouros foram recepcionados com uma música das mais rasteiras possíveis. Ora, se dentro das universidades vemos coisas do tipo, o que esperar dos estudantes de iniciação musical que são formados por estas instituições? E no Jornal Nacional, da TV Globo, quando da morte do Claudio Abbado não foi citado que o maestro italiano foi aluno de um dos nossos maiores músicos, o maestro Eleazar de Carvalho.
O brasil omite o Brasil.
BV Sendo mais específico no quesito produção musical, como você enxerga a música e seus desdobramentos intrínsecos em Pernambuco?
PA - Tenho observado e analisado durante anos dois aspectos que considero fundamentais em relação às atividades musicais em nosso Estado: indivíduos que mal sabem afinar seus instrumentos fazendo ‘música’ (com o devido perdão à música, pelo uso da palavra), e críticos que são incapazes de elaborar qualquer consideração válida ou mesmo básica sobre a arte dos sons, e que defendem de forma doentia toda a encenação promovida por esses ‘músicos’ (também o devido perdão aos músicos, pela aplicação do termo), e desta forma encontram o perfeito equilíbrio da ignorância com a mediocridade – vocês fazem de conta que são artistas e nós fazemos de conta que sabemos escrever sobre o assunto.

Infelizmente, são a maioria. Existe um abismo desmesurado em Pernambuco entre as pessoas que se dedicam com real comprometimento à música e outras que tem como desígnio a banalização, transmutando-a à esfera do entretenimento vulgar.

Para analisar este ponto, gostaria de fazer uma citação sua que li aqui no blog: “grupos formados por músicos desprovidos do mais elementar domínio técnico de seus instrumentos, que esbanjam uma poesia (?) sem sentido algum, apresentam cantores desafinados e constroem em torno de seus integrantes uma aura milimetricamente deliberada de artistas sérios, criativos e inovadores.” Classificando ao final como a “consagração do mal feito”, termo que considero perfeito!

Vejamos. Em entrevista o compositor recifense Willy Corrêa de Oliveira nos traz a seguinte observação: “você só se relaciona com uma linguagem, só se exprime numa linguagem quando você a conhece”. Já ouvi até dizerem que se você estudar muito você perde o feeling! (condicionamento bastante normal num país em que o ex-presidente afirmava não ler livros, porque lhe davam dor de cabeça, e da atual presidente que não consegue lembrar o nome do livro que a emocionara tanto) Ora bolas! Ser músico significa estudo em tempo integral da linguagem e da técnica, seja você instrumentista, cantor, compositor ou regente. Se o indivíduo não tem a música como prioridade em sua vida, ele não é honesto consigo e muito menos com o seu público. A vida e o fato de se fazer música não se separam. No meu caso, por exemplo, dedico a maior parte do dia a tarefas musicais: compor, estudar contrabaixo, piano, regência, ouvir muita música e vários outros estudos e leituras relacionadas como religião, política, filosofia e história, que estão intimamente conectados ao desenvolvimento da música por séculos, mas que para estas pessoas isto passa completamente despercebido. A música se tornou, nas mãos destes, um fantoche do grotesco.

E para deixar a situação mais grave, essa aura é completamente sustentada e aumentada pela crítica “especializada” como o suprassumo da criação musical, mas não se enganem, porque praticamente não existe nos jornais e na TV alguém que possa tratar do assunto com a devida sensatez. É sempre comum ler nas matérias de música aqui em Pernambuco críticos agarrados literalmente à letra e bobagens visuais e pirotécnicas que não colaboram em nada a compreensão musical, apenas confundindo o leitor ou telespectador com termos abstratos. Tem que analisar a letra? Claro que sim! Mas e a música? Fale-me da música! Como disse o compositor russo Igor Stravinsky: “[os críticos] não estão sequer equipados para julgar nossa ‘gramática’. Não veem como é construída uma frase musical, não sabem como se escreve música; são incompetentes quanto à técnica da linguagem musical contemporânea”. Se no tempo deste grande compositor os críticos já eram falhos, imaginem hoje com o aparato da doutrina gramscista dentro das nossas universidades e da imbecilização coletiva promovida pelos meios de comunicação de massa, em comunhão com o governo?!

Mas, nem tudo é detrito! Temos ainda várias pessoas e grupos que primam pela qualidade estética da arte musical, e acreditam que desta forma podem ajudar na (re)construção de uma sociedade que se encontra esfacelada moralmente e que foi brutalmente afastada de toda manifestação artística sincera.

São poucos, mas ainda os temos.

BV Você faz parte da Orquestra Retratos, do grupo Quarto Aberto e da Orquestra Sinfônica Jovem que focam respectivamente na música regional, na improvisação jazzística e no universo erudito. Como esses três campos repercutem em sua produção?

PA - A Orquestra Retratos (que terá o seu primeiro disco “De Sol a Sol” lançado em breve) prima pela qualidade técnica e estética sonora do grupo, que é formado por instrumentos de cordas dedilhadas. O maestro e bandolinista Marco Cesar que durante vários anos está à frente do trabalho, frisa como é importante o refinamento também na música popular, trabalhando elementos musicais como fraseamento, dinâmica e cor orquestral dentro deste grupo. Trabalho maravilhoso, e que em breve poderá ser visto em algumas cidades do nordeste, através da tournée da orquestra no segundo semestre deste ano (as datas serão divulgadas em breve).

O grupo Quarto Aberto é formado por Fred Lyra e Wallace Seixas nas guitarras, Hugo Medeiros na bateria e por mim no contrabaixo. Para mim, tocar com esses grandes amigos sempre foi uma experiência de aprendizado enorme. Hugo com seus avançados estudos de polirritmia, sempre trazendo novos desafios para todos, além de um som magistral que sabe tirar do instrumento; prova de um músico que tem se dedicado durante anos no aperfeiçoamento da arte. O que dizer do meu amigo Fred Lyra? Que ama Bartok e Steve Coleman! Um músico de concepções maravilhosas, em que percebo a sutileza de Webern, ao mesmo tempo em que caminha para a violência rítmica e hipnotizante de Stravinsky. E do meu querido Wallace Seixas, que anda levando nossa música para o mundo todo. Com dois discos lançados e um livro maravilhoso com suas composições e arranjos. Saudade de tocar com os senhores!

A Orquestra Sinfônica Jovem do Conservatório Pernambucano de Música foi extremamente importante em minha formação e decisão de seguir por completo a composição. A orquestra com iniciativa do maestro José Renato Accioly vem tocando compositores pernambucanos consagrados como Capiba, Clóvis Pereira e, dando espaço para jovens compositores mostrarem suas obras como foram os casos de Mateus Alves com sua “As Duas Estações Nordestinas”, Ivan Souza com a “Suíte Norjazztina”, Sérgio Ferraz com o seu “Concerto Armorial para violino e orquestra” e a minha obra “Cangaço de Vida e Morte”.

Sobre a forma em que lido com os três campos, é que cada um desses trabalhos trazem características diversas, mas sempre se pode aproveitar matéria e elementos de um para outro. Acho esse intercâmbio precioso e bastante construtivo no que diz respeito à percepção e intuição musical. Posso dizer que continuo aprendendo muito com todos eles.

BV Apesar do título, seu poema sinfônico “Cangaço de Vida e Morte” evita o regionalismo caricato e apresenta uma construção narrativa que privilegia o inusitado. Como se deu o processo composicional dessa obra?

PA - O cangaço levou quatro anos para ficar pronto. Trabalhava nele durante os períodos de férias na universidade. Um dia perguntei ao maestro José Renato Accioly se poderia tocar com a Orquestra Jovem do Conservatório uma obra minha, e ele aceitou plenamente a ideia. Terminei a obra, que iria ser tocada pela orquestra no final de 2012. Mandei a peça para o Concurso Tinta Fresca que é realizado pela Filarmônica de Minas Gerais, e com grande felicidade soube que a peça tinha sido selecionada e seria tocada pela Filarmônica em setembro daquele ano.

No texto que escrevi para ser usado no programa do concerto digo o seguinte: nesta composição, intitulada Cangaço de Vida e Morte, busquei delinear não apenas a imagem do cangaço como fenômeno social, mas outros aspectos que o envolvem; imagens e sons característicos do sertão nordestino. A Caatinga, a seca, a fé e também a desesperança.

Como você observou, a peça foge do regionalismo estereotipado que temos aqui em Pernambuco. Ele o regionalismo existe, mas não está escancarado como em obras que seguem essa estética. Não que isso seja ruim, adoro a música Armorial, ela corre em nosso sangue, não podemos negar isto. Mas, procurei ir mais longe, trabalhando com elementos modernos e desta forma encontrando um equilíbrio entre o novo e a tradição.


BV Essa composição foi selecionada na 4ª edição do concurso Tinta Fresca promovido pela Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, uma das mais importantes do país. Como foi essa experiência?

PA - Sobre o Tinta Fresca, posso dizer que foi uma das experiências mais emocionantes da minha vida. Os dias que passei em Minas foram de imenso aprendizado com o júri, formado por Marlos Nobre, Ronaldo Miranda e Mário Ficarelli (que faleceu este mês em São Paulo) e da vivência com os colegas compositores Andersen Viana, Hermilo Santana, Rodrigo Hyppolito, Luigi Antonio Irlandini e Carlos dos Santos que foi o vencedor da edição com o seu maravilhoso Noturno.

Experiências do tipo deveriam ser obrigatoriamente repetidas com todas as orquestras do país. Tem muita gente escrevendo, mas, é sempre difícil conseguir a execução de uma peça sinfônica. Tive a chance através da Filarmônica de Minas e, espero que outras orquestras façam o mesmo, pois, mesmo com todos os esforços envolvidos, e que são muitos, a contribuição para a nossa música deve vir a ser sempre maior.

BVQuando o público recifense terá a oportunidade de ouvir essa peça?

PA - No dia 28 de maio terei a grande honra de ter o Cangaço de Vida e Morte executado pela Orquestra Sinfônica do Recife sob a regência do grande compositor Marlos Nobre. Creio que seja um novo caminho que está sendo trilhado pelo nosso maior mestre. Com a reestruturação da nossa Orquestra Sinfônica, através do Marlos Nobre, que vem tocando constantemente novas peças de jovens compositores e, inserindo a música brasileira de concerto em todos os programas, como no último concerto o ano passado, em que o repertório foi todo de compositores brasileiros. Isso nos traz uma alegria e esperança imensas, de que um novo e fértil período está se instalando no que diz respeito à música de concerto em Pernambuco.

BV - Quais os planos para o futuro?

PA - Estou finalizando uma obra comissionada pelo maestro Nilson Galvão para a Orquestra Criança Cidadã, que se chama Música para Cordas e Percussão em três movimentos: I.Quaerere, II.Via, III. Nanciscor (que significam procurar, o caminho e encontrar). Trabalho com a ideia de busca que carregamos por toda a vida, principalmente no que diz respeito a busca espiritual de cada um. Este projeto foi idealizado pelo juiz João José Rocha Targino, onde alunos da comunidade do Coque tem aulas de teoria, solfejo, percepção e instrumento. É importante destacar que muitos destes jovens já atuam em orquestras profissionais, o que evidencia a seriedade com que o trabalho é feito.

Também venho trabalhando numa nova peça para grande orquestra. Não devo citar o nome, pois vou enviá-la para concursos de composição.

Para o percussionista Emerson Coelho da Orquestra Sinfônica Jovem do CPM, venho trabalhando no Concertino para Vibrafone e Orquestra de Câmara.

Um concerto para Violão e Quinteto de Bandolins para o Guilherme Calzavara e o Quinteto de Bandolins do Recife, grupo criado pelo maestro Marco Cesar em que tocamos música popular e erudita também.

Venho trabalhando também em poemas do Joaquim Cardozo, alguns para voz e piano e outros para coro. Estou fazendo estes trabalhos com voz me preparando para escrever uma longa obra com o texto do Morte e Vida Severina do João Cabral de Melo Neto, que é um dos meus livros preferidos. Para esse trabalho pretendo usar grande orquestra, coro, solistas e narrador. Sei que uma obra desta envergadura vai me tomar alguns anos de trabalho e muito estudo!

Estou estudando agora com o professor Marcílio Onofre, no curso de extensão em composição (COMPOMUS) na Universidade Federal da Paraíba. Marcílio é um ótimo professor e tem me ajudado bastante a conhecer as novas técnicas de composição, além de pesquisar bastante sobre as novas formas de técnicas expandidas em vários instrumentos. Ao final do ano, farei a prova para tentar ingressar no mestrado em composição da UFPB.

E no próximo ano tentar gravar meu primeiro disco, que vai se chamar: Cangaço de Vida e Morte e Música de Câmara.

Sigamos com Deus!