domingo, 3 de março de 2013

Variações em 5/4: Django Livre


Nesta segunda edição da coluna “Variações em 5/4”, os editores comentam “Django Livre”, o mais recente filme de Quentin Tarantino.


- Dom Ângelo:

Dando continuidade a uma filmografia de sucesso como diretor e roteirista, Quentin Tarantino sem dúvida já entrou no time dos monstros sagrados da história do cinema mundial. Seguindo uma linha de trabalho que preza qualidade e não quantidade, a exemplo de Kubrick, Fellini e Scorsese para citar alguns nomes, podemos dizer que Tarantino mantém um padrão altíssimo de talento em sua obra. Fã inveterado de filmes Spaguetti Western[1], Wuxia[2], Noir[3] e de filmes Blaxploitation[4], sua arte é uma brincadeira de recortes e colagens de várias influências estéticas do mundo das artes visuais.

Vejo Tarantino mais como um artista que consegue cruzar, misturar e ao mesmo tempo harmonizar influências completamente distintas umas das outras, beirando de fato uma certa genialidade por causa disso. Porém sua característica marcante é a de trazer mais a tona sua natureza como apreciador da arte do que propriamente como criador, celebrando e homenageando padrões estéticos de sua infância (Tarantino nasceu em 1963). A prova dessas homenagens estão inclusive nos títulos de dois de seus filmes. Um seria do filme noir britânico de 1972 estrelado por Michael Caine chamado Pulp. O outro agora, Django, remete a um dos spaguetti westerns que teve muitas sequências, sendo o original estrelado pelo ator Franco Nero em 1966.

Em seu novo filme intitulado Django Unchained, Tarantino coloca o poder mais uma vez na mão dos fracos e oprimidos. Já teve mulher violentada que virou heroína (Kill Bill), negro de classe baixa que ficou rico (Jackie Brown), Judeus metralhando nazistas (Bastardos Inglórios) e agora escravo explodindo casa de aristocrata rico do sul dos Estados Unidos. Apesar de tudo, é sensacional a forma em que são usados esses clichês intencionais e metafóricos. Na verdade, Tarantino realiza pela tela do cinema os mais profundos desejos de revolta e vingança entranhados no inconsciente da raça humana, causando uma sensação de alívio e dever cumprido, apesar de toda violência visual. Por outro lado, achei importante o diretor ter se redimido do simbólico de ter colocado um bando de alemães nazista dentro de uma sala, metralhando e incêndiando a mesma (Bastardos Inglórios). Pois dessa vez um dos heróis do filme e talvez o mais importante é um alemão. Diga-se de passagem mais uma vez uma excelente atuação do ator Christoph Waltz.

Django é um filme relativamente longo (2h e 45min), mas não cansa. Pode ser considerado sim um filme de faroeste, mas com uma nova linguagem visual, novos heróis, outras trilhas sonoras (apesar da participação de Enio Morricone) e um novo tipo de violência. A dita violência explícito-cômica (relativamente parecida com as utilizadas nos Wuxia). No mais, é um bom filme (mas, não ganhou o Oscar). Me diverti muito assistindo-o. Indico a todos. Escravatura foi uma das coisas mais absurdas que aconteceram na história. Racismo é uma das maiores estupidez da mente humana.

- Fernando Lucchesi:         

Um dos cineastas mais cultuados da atualidade, Quentin Tarantino estabeleceu um novo padrão para contar estórias repletas de violência gráfica, digna dos filmes de Peckinpah, entremeadas com diálogos afiadíssimos sobre cultura pop. Seu mais novo filme “Django Livre” retoma algo próximo do seu último, “Bastardos Inglórios”, uma estória em que a vingança é o tema principal, dentro de um determinado período histórico, nesse caso a época da escravidão americana.

Mais uma vez, Tarantino acerta em cheio e produz uma galeria de personagens memoráveis, com destaque para o caçador de recompensas, King Schultz, vivido brilhantemente por Christopher Waltz. Assim como no seu filme anterior (e como há muito ele explora nos seus filmes), o tema da vingança se sobrepõe tornando os vilões cada vez mais odiosos. Junte-se isso a um tema explosivo como a escravidão, e você terá personagens únicos como Calvin Candie (Leonardo di Caprio) e seu fiel ajudante Stephen (Samuel L. Jackson). Este merecia facilmente uma indicação ao Oscar.

Muito se falou da violência do filme como o tiroteio dentro da casa grande ou a cena dos cachorros que devoram um escravo vivo. Quem conhece a obra de Tarantino, sabe que ele nunca foi adepto de sutilezas na hora de filmar violência. A intenção de Tarantino é inundar a tela de vermelho. A violência gráfica nos seus filmes, muitas vezes, ao invés de chocar, provoca risos, uma vez que o exagero é tão evidente que não tem como o espectador não colocar um sorriso (ainda que de leve) no rosto. Outra característica, o humor negro, está presente na hilariante cena em que membros da KLU-KLUX-KAN resolvem discutir se as túnicas que eles usam são apropriadas ou não.

Tarantino, como todo grande cineasta, parece ter encontrado sua fórmula de desenvolver personagens e estórias. E não hesito em dizer: cada novo filme dele, é uma experiência única, goste você do filme ou não.

- André Maranhão:

Uma das coisas mais notáveis confirmadas em Django Livre é o fato de Quentin Tarantino mostrar-se um crítico a opressões como o racismo e a escravidão sem precisar cair no drama para fazê-lo. Como disse o próprio Tarantino: “Quem não quer ver um escravo vingando-se do senhor malvado ou do capataz?”. O filme parece não superar outros êxitos do cineasta (como Pulp Fiction e Bastardos Inglórios) e sua trama às vezes aparenta ser muito longa se pensarmos que Tarantino buscou um diálogo com o gênero Spaghetti Western. É notório em Django Livre, o seu elenco, desde outra grande atuação de Christoph Waltz, como também a boa impressão causada por Jamie Foxx como um protagonista de Western e a interpretação de Leonardo di Caprio em um de seus raros momentos como vilão na história do cinema.

- Bruno Vitorino:

Um escravo alforriado por um alemão caçador de recompensas busca resgatar sua esposa de um latifúndio algodoeiro no sul dos Estados Unidos numa epopéia de sangue, violência e morte. O que poderia ser, a princípio, um leitmotiv absurdo vira uma obra-prima sob o prisma insano (no melhor dos sentidos) de Quantin Tarantino. Misturando faroeste, escravidão e mitologia nórdica; Django Livre mergulha na atmosfera tensa do Mississipi do século XIX para subverter a História e se vingar das insanidades cometidas pelos opressores de então: os coronéis das plantations.

No geral, o filme é marcado pela sanguinolência exagerada e cômica dos revólveres de balas infinitas e mocinhos de pontaria sempre certeira. Contudo, o longa perturba o espectador nas cenas de violência contra os escravos, pois a agressão ultrapassa crueldade física para alcançar os mais hediondos contornos morais. Com este artifício, Tarantino coloca o público no lugar do escravo para que ele sinta na pele os tormentos infligidos a esse Homem pela nefasta instituição – o comércio de escravos - que o esvazia de seu caráter humano e o “coisifica” como um objeto qualquer.  

Em resumo: as atuações são impecáveis, o enredo é muito bem construído, o filme é tecnicamente perfeito. Altamente recomendado!

- Giba Carvalho:

Django Livre é um filme de atuações impecáveis. Tarantino mete novamente o dedo na ferida, remoendo temas que deviam ser esquecidos na memória estadunidense. Fotografia e cenários belíssimos, excelente elenco e roteiro. “Um divertido espetáculo de violência.”



[1] Filmes italianos de tématica sobre velho-oeste norte americano, famosos na década de 60, tendo seus principais nomes o diretor Sergio Leone e o ator Clint Eastwood.
[2] Filmes orientais de artes marciais, influenciados pela milenar arte do manga.
[3] Filmes hollywoodianos de crime e gângsters, com estética fotográfica inspirada do expressionismo alemão.
[4] Filmes surgidos na década de 70 nos EUA com diretores e atores negros, tendo seu público alvo a comunidade afro-descendente.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Impressões sobre “O Som ao Redor” - por Bruno Vitorino



O som do progresso é a Makita! Essa miraculosa ferramenta da construção civil que corta pedras com uma precisão cirúrgica emite seu grito estridente por todo o Recife. Típica das grandes cidades que vivenciam o paradoxo do crescimento econômico atrelado ao subdesenvolvimento urbano, seu canto esquizofrênico envolve a nós, ouvintes compulsórios, num recital de agonias. Sem perceber, somos aos poucos enredados numa trama de agressividade que nos vai enlouquecendo paulatinamente até chegarmos ao colapso. O ruído urbano enquanto trilha sonora cotidiana é o mote que propulsiona “O Som ao Redor”, o brilhante longa-metragem do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho.

Não é um filme convencional de fluxo linear que articula tensão (desafio) e relaxamento (final feliz) com protagonistas em busca de um objetivo. Trata-se de uma película de narrativa fragmentada, dura e seca, sem direcionamento claro da história contada, cujos personagens “tocam a bola pra frente” sem muitas pretensões. Interessado em sobrepor as reminiscências da casa grande, o boom imobiliário e a paranoia nossa de cada dia, Kleber Mendonça retrata com muita acidez e clara desilusão o habitat da classe média recifense: carro do ano, apartamento com duas garagens, babás e empregadas, escapismo, ausência de utopias, violência urbana, estratificação social. Uma observação paciente e minuciosa de um microuniverso intrincado. Não há catarse.

Devo confessar que o filme me marcou profundamente não por ser uma radiografia impiedosa de um Recife aristocrático e cada vez mais embrutecido, mas por eu ter me visto nos personagens e nas situações em que eles se encontravam. Como não sentir a claustrofobia da verticalização que nos aprisiona e nos cerceia o convívio humano? Como manter a sanidade mental diante de uma realidade tão implacável que destitui a essência humana que nos caracteriza, reduzindo-nos a corpos que desempenham meros papéis sociais historicamente delimitados? A angústia da dona de casa dilacerada pela rotina e atormentada pelo cachorro do vizinho é tão nossa que o riso nervoso do reconhecimento nos escapa. “O Som ao Redor” é um espelho colocado diante de nossos olhos para que nos posicionemos. Daí o filme ser tão impactante e incômodo.

Contudo, apesar de toda familiaridade que o longa estabelece com o espectador, o que se passa na tela não é um recorte cru de uma realidade conhecida. Ao contrário. O cenário concebido por Kleber Mendonça é, na verdade, um ponto de vista e os personagens do enredo são manifestações do próprio diretor, o que fica evidente de modo emblemático em Sofia. Ela não consegue se enquadrar no modelo social proposto e não compreende os descaminhos os quais transformaram a rua em que um dia morara naquele emaranhado de insanidade. Com sua esmaecida curiosidade, Sofia – “sapiência” em grego – busca em vão as respostas. Elas não existem. É um caminho sem volta. Não há paz de espírito, porque já não existe alma. O que lhe resta? Sucumbir ou ir embora!

Ultimamente tenho pensado bastante sobre o Recife e em como transformá-lo num lugar melhor de se viver. Temo que a vida encapsulada que levamos nos conduza ao labirinto da falta de convívio e à perda da memória afetiva com a cidade. Que terminemos num admirável mundo novo de arranha-céus, relacionamentos virtuais, paraísos de consumo herméticos e entretenimento fácil. Por isso, vejo “O Som ao Redor” como um olhar necessário. Pessimista, fatalista, triste, é verdade; porém preciso, pois não há reflexão no entorpecimento. É um filme, não para ser visto, mas para ser sentido. Em uma palavra: indispensável!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Metallica - A Biografia - por Fernando Lucchesi


Confesso: Nunca fui um grande fã do Metallica. Gostava de muitas músicas do álbum preto, algumas poucas da fase Load/Reload e mais uma música ou outra. Sempre tive preconceito com a fase considerada mais pesada do Metallica, ainda mais pelo termo “Trash”, cuja simples menção já me provoca reações alérgicas. Mas todo esse preconceito foi derrubado depois de ler Metallica: A biografia, de autoria do jornalista inglês Mick Wall, responsável por outra excelente biografia de banda “Quando os gigantes caminhavam sobre a Terra”, sobre a carreira do Led Zeppelin.
O livro, de certa forma, corrobora o que já tinha sido visto antes no documentário “Some kind of monster”, mas obviamente vai mais além, pois resgata memórias do início do Metallica, antes mesmo de Cliff Burton se juntar à banda. No livro, é possível compreender como um jovem tenista europeu frustrado com a carreira (sim, Lars Ulrich, na sua adolescência, tentou se profissionalizar como tenista) e um jovem retraído, que teve uma educação religiosa rígida, conseguiram se juntar e formar os alicerces do gênero que seria conhecido como Trash Metal.
Apesar de o autor conhecer os integrantes da banda e ter uma certa proximidade com Lars Ulrich, não há condescendência do autor para com nenhum dos integrantes. Vários temas espinhosos são tratados, inclusive um que muitos poucos se aventuram a falar, que é a saída da banda de Ulrich, orquestrada por Burton-Hetfield, pois os dois acreditavam que o baterista estava estagnado tecnicamente. A saída nunca chegou a se concretizar, pois alguns dias depois Burton viria a falecer. Não há como negar que o livro está concentrado nas figuras fundadoras da banda (Hetfield/Ulrich), mas isso não impede de termos passagens bastante extensas dos outros integrantes, principalmente de Cliff Burton, pois foi ele quem deu um direcionamento musical para a banda. Os fatores que levaram à sua morte são minuciosamente analisados e a tragédia chegou a pôr em cheque a continuidade da banda.
Outro aspecto bastante relevante é a guinada dada pela banda com o “Álbum preto”. Os fãs mais fervorosos do estilo rápido e agressivo da banda ficaram espantados, negativamente, quando do lançamento do disco. O produtor Bob Rock, conseguiu extrair da banda a sonoridade que ela queria: um som mais desacelerado, mas que não deixava o peso de lado. As vendas do disco catapultaram o Metallica ao posto de maior banda de Heavy Metal, a ponto de competirem em termos de vendagem com fenômenos pop, como Madonna e Michael Jackson, mas também deu munição para os detratores da banda acusá-los de se “venderem ao sistema”. O único assunto que visivelmente irrita os integrantes da banda, principalmente Ulrich, é a batalha judicial movida pela banda contra o Napster. À época, a banda tinha plena convicção do que estava fazendo, mas o tempo mostrou que ela estava equivocada e isso provocou uma reação violenta dos próprios fãs da banda.
Por fim, mesmo que você não goste da banda, ou como eu, que tinha preconceito com o som inicial da banda, esqueça e aproveite essa excelente biografia.     

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

La Quattro Volte - Por Dom Angelo



Mais uma vez o canal portugues RTP2 me surpreende com a seleção de filmes ao longo de sua programação semanal. Sempre com espaço aberto em horário nobre (por volta das 22h) ao cinema de arte europeu, já tive oportunidade de assistir excelentes obras contemporâneas do velho mundo, longas e curtas, que no Brasil até que algumas são exibidas, porém em pouquíssimas salas e com difícil acesso.
A de hoje foi o filme de 2010 do cineasta italiano Michelangelo Frammartino, intitulado "La Quattro Volte". Uma obra sem diálogos, mas com uma profundidade espontânea acerca da existência das coisas. No caso, as "quatro voltas da vida" ao meu ver seria a fluidez do mundo mineral, vegetal, animal e humano, representados pela areia, pela árvore, pela cabra e pelo pastor. Filme de uma poética visual sensível, excelente fotografia e apesar de fugir dos padrões estéticos atuais, é de certo modo fácil de assistir.
O filme é um convite de volta as nossas origens mais primitivas, onde o ser humano não era apenas um transformador, mas uma parte intrínseca de um todo. Um convite a simplicidade da vida, a efemiridade e a leveza (ou peso) da realidade.
Assistam!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Variações em 5/4: Caetano Veloso e seu Abraçaço

Para o primeiro post de 2013, estreamos a coluna “Variações em 5/4”. Todo mês, os editores do blog comentarão algum lançamento marcante, seja disco, livro ou filme. Nesta primeira edição, a pauta é o mais novo álbum de Caetano Veloso: Abraçaço.


- Dom Ângelo:
Considero Caetano Veloso uma pessoa que carrega em si um enorme diferencial artístico e existencial perante seus colegas de geração 60, 70 e 80. Isto reside na capacidade do mesmo de se modernizar e reciclar suas ideias artísticas, colocando forte pé na contemporaneidade e não temendo trilhar caminhos estéticos inexplorados na sua carreira musical.
Desde o disco Cê, quando se juntou com músicos da nova safra do rock carioca, que a música de Caetano voltou a abranger um universo rebelde de uma forma brilhante e consciente. Considero o disco Cê um dos cinco melhores álbuns de sua carreira e a continuidade com os discos Zii e Zie e Abraçaço manteve o criativo momento artístico que o músico vive atualmente.
Fechando a trilogia, o álbum de 2012 vem, como sempre em sua obra, com excelentes letras. Apesar, dessa vez, mais racionais do que emocionais. Homem de uma musicalidade infinita, Caetano mostra-se de peito aberto aos seus impulsos criativos, vivendo no presente, atento ao agora e se desfazendo de muitas vaidades alimentadas pelo ego. Vaidades essas que travaram a mente de artistas em épocas do passado. Ele, ao contrário de muitos, vive o hoje.
Apesar de ficar claro pra mim certas limitações técnicas e de vocabulário musical dos integrantes da Banda Cê, prefiro me prender ao ótimo trabalho de arranjos minimalistas que esses músicos criaram, conseguindo eles surpreender os conservadores que acham que músico bom é músico tecnicista. Rock alternativo é bom assim.
Enfim, vou utilizar a expressão mais cansada, porém a mais eficiente para a determinada frase: - Caetano Veloso é genial!
Ah...mas não é só a Bossa-Nova que é foda. Mas Caetano!

- Giba Carvalho:                                                                           
Caetano mostra que continua sendo o mais ousado dos compositores de sua época. Isto não quer dizer absolutamente que seu “Abraçaço” mereça uma atenção mais do que especial. É um disco contemporâneo, principalmente daquilo que não só o próprio Caetano, mas todos nós somos bombardeados diariamente. Notícias sensacionalistas, vazias e sem nem “ter pra que” como inspiração. Ainda assim, é superior a grande parte das produções autorais nacionais do momento. Gosto do flerte com o rock n´roll, mais presente desde o “Cê”.
- Bruno Vitorino:
Caetano Veloso sempre foi para mim sinônimo de não conformismo estético. Sua imensa discografia traz como marca essa busca constante por veredas inexploradas numa fuga ao comodismo do mito que consequentemente leva à repetição de si. Pode-se falar o que for a respeito de Caetano, mas uma coisa é certa: ele assume riscos. E isso é muito bom, a princípio. Contudo, suas investigações em prol do desconhecido por vezes descambam na gratuidade do incipiente, e existe um abismo gigantesco que separa o vigor do novo da novidade frívola.
Atualmente no cenário indie brasileiro proliferam grupos formados por músicos desprovidos do mais elementar domínio técnico de seus instrumentos, que esbanjam uma poesia (?) sem sentido algum, apresentam cantores desafinados e constroem em torno de seus integrantes uma aura milimetricamente deliberada de artistas sérios, criativos e inovadores. Cidadão Instigado, Karina Buhr, Do Amor, dentre outros nomes da cena alternativa são exemplos dessa consagração do malfeito. Por isso, devo confessar que tenho problemas em digerir o projeto que se iniciou com o álbum “Cê” (2006), passou por “Zii e Zie” (2009) e foi concluído com “Abraçaço”. Digo problemas, porque Caetano, ligado como é ao contemporâneo, ao se juntar com Pedro Sá (guitarra), Marcelo Calado (bateria) e Ricardo Dias (baixo) acolheu justamente essa estética do tosco em voga na música pop alternativa brasileira.

“Abraçaço” é um disco simplório (Minimalismo é outra coisa). Paradoxalmente, justamente por flertar com o banal, o álbum requer do ouvinte um esforço considerável para que se revelem os lampejos de inventividade no meio de sua paisagem monocromática. O que é, vale ressaltar, muito pouco para redimir um trabalho de um artista da magnitude de Caetano Veloso. Neste projeto, a atitude experimental do baiano se revela de certa forma domesticada, forçosa e até constrangedora como na tenebrosa “Funk Melódico”, na melancolia adolescente de “Estou Triste” ou no tédio amoroso de “Gayana”. Os bons momentos ficam por conta da crua e direta “A Bossa Nova é Foda”, da balançada “Abraçaço” e do bluesy “Vinco”. Em resumo: um disco sem graça que consolida Caetano como ícone pop cult e, infelizmente, evidencia seu desgaste criativo.
- André Maranhão:
Eu julgaria que Abraçaço é um álbum importante para sustentar um fôlego na carreira de Caetano Veloso. O “risco” que Caetano corre ao buscar conexões com ritmos e temas dos mais diversificados me parece bem salutar. A começar por A Bossa Nova É Foda, onde Caetano declara mais uma vez a sua admiração por João Gilberto, a quem ele se refere como “o bruxo de Juazeiro”. Para Caetano, a voz e o violão de João Gilberto parecem ultrapassar a própria bossa nova e em seu livro Verdade Tropical ele fala da interpretação de João Gilberto: “É uma aula de como o samba pode estar inteiro mesmo nas suas formas aparentemente descaracterizadas”. Não é para menos: Caetano atribui a João Gilberto um caráter transformador, fazendo da bossa nova algo tão forte, como um Anderson Silva, um Minotauro ou um Júnior Cigano (referências também presentes na canção). 

A canção Vinco é para mim uma das mais marcantes do álbum – tanto por sua construção literária quanto por sua melodia blues e estrutura semiótica que me fez lembrar outros êxitos de Caetano como Lindeza e Luz do Sol. Eu também destacaria outras faixas como Um Abraçaço; Quero Ser Justo e Quando o Galo Cantou. Já O Império da Lei e Parabéns são canções que devemos destacar pela tentativa de Caetano de flertar com alguns ritmos do Norte do Brasil e que me parece bem sucedida. 

Minhas ressalvas maiores vão para Estou Triste; Um Comunista; Funk Melódico e Gayana. A primeira é longa, monótona e de pouco apelo literário. A segunda é uma importante homenagem a Carlos Marighella e acho de uma literalidade fantástica, mas a melodia não empolga e o compasso sobe e desce de modo redundante. A terceira me deu a impressão que o Funk ainda permanece um ritmo de difícil adaptação para uma forma mais rebuscada na música brasileira – e isso vale, sobretudo, para a literatura da canção – afinal, eu não trocaria uma paródia de Marcelo Adnet pelo refrão de Caetano: “O tijolo é gritar você me exasperou / Que você me exasperou / Você me exasperou / Você me exasperou / Você me exasperou”. Por fim, Gayana é uma canção lugar comum na letra e de uma modulação de pouco sucesso na melodia.
- Fernando Lucchesi:
Desde 2006, quando lançou o impressionante “Cê”, que Caetano Veloso deu uma guinada na sua carreira. O terceiro disco com a banda Cê, “Abraçaço”, busca seguir as diretrizes do primeiro disco, mas apenas as diretrizes! Enquanto “Cê” era um disco carregado de referências ao fim de relacionamento experimentado por Caetano, as referências usadas em “Abraçaço” são as mais variadas possíveis. Vão do filme “Eu receberias as piores notícias dos teus lábios” até homenagens à lutadores de MMA, João Gilberto (o bruxo de juazeiro), Tom Jobim e Bob Dylan (o bardo judeu romântico de Minessota). A guitarra de Pedro Sá ainda é o principal foco na sonoridade da banda - vide o excelente riff de “A bossa nova é foda” e o instigante solo na faixa de nome ao disco. “Abraçaço” se ressente do sexismo bem humorado (“Homem”) e da desolação de um fim de relacionamento (“Não me arrependo”) contidos em “Cê”, mas é um disco que mantém a intenção de revitalizar e dar mais peso ao som de um dos mais irrequietos compositores da música brasileira. Qual o próximo passo de Caetano? Para mim, a indicação está na faixa “Funk Melódico”. Um disco de Funk Pancadão em parceria com Mr. Catra. Você duvida? Eu não!



sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Complexo de Lombriga - por Bruno Vitorino



"Não tenho paz, nem descanso, nem repouso; o que me vem é agitação" – Jó 3:26


"Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado numa gigantesca lombriga." Esse bem que poderia ser o início do livro A Metamorfose se Franz Kafka fosse recifense. Imagino que ao invés de discorrer alegoricamente sobre a opressão esmagadora de um pai austero e quase sádico, o autor extrapolaria os demônios de seu núcleo familiar para retratar os tormentos que nascem de se descobrir um verme numa cidade que não passa de um amontoado de bosta.

Explico:

Obviamente que amo o Recife e que escrevo isso sob o ímpeto do desgosto e o assombro do desespero. Mas, infelizmente não há como ser de outra maneira... Aqui impera um “salve-se quem puder” generalizado de modo que uma verdade tão banal como a ideia aristotélica de que os seres humanos vivem em sociedade em busca do bem comum não passa de um devaneio. Alguns chegam mesmo a afirmar inclusive que se trata de um desejo pequeno burguês demais para ser implementado por essas terras. Síndrome de colonizado, vontade de ser americano - eles se referem aos EUA - e outras baboseiras que reverberam feito mantras nos diretórios acadêmicos dos cursos de ciências humanas (sou formado em História e já ouvi muito esse papo). Legal mesmo é socializar a miséria!

Hoje o Recife irradia um tacanho bairrismo materializado no pior dos sentidos: a cegueira crônica ante suas mazelas.

Em qualquer direção que se olhe, há uma transgressão, um desrespeito à regra, uma agressão à ideia de comunidade. Do motorista que não respeita a faixa de pedestre, passando pela construtora que desconsidera o interesse público para especular livremente com a conivência da presente gestão municipal e da sociedade civil (afinal há quem compre esses empreendimentos, não?), chegando ao prefeito recém-eleito que estranhamente nomeia um Secretário ficha-suja para compor o primeiro escalão de seu governo. É algo tão endêmico em nossa sociedade que transcende a normalidade para descambar na naturalidade. E essa diferença, meus caros, é crucial, pois o “normal” são práticas sociais de uma comunidade amalgamadas e significadas por um aparato cultural/ideológico que distingue e legitima esse grupo, ou seja, é o conjunto de símbolos que dá sentido a esse microuniverso. Já o “natural” é quando esses signos são introjetados de tal forma que são vistos como condição intrínseca ao Ser Humano. No nosso caso, é a naturalização do “jeitinho”.

Pois bem, ontem (20/12) após um dia de muito trabalho e do desgaste que é o embate com a Rua, chego à minha casa para, enfim, por os pés para cima e apenas existir.  Tudo corria bem até que, às 21h, fui violado no meu direito de descansar em minha residência. Nesse horário, deu-se início a uma festa de confraternização (eu acho) da Luni Produções que fica exatamente ao lado de minha morada. Barulho, música ensurdecedoramente alta (com banda inclusive), gritos e burburinho; toda essa combinação numa área estritamente residencial! Resultado: ninguém dormiu até as 2h da matina, quando a festa foi minguando.

Fiquei perplexo! O que faz com que essas pessoas se sintam no direito de perturbar o sossego de todos os moradores do entorno? O fato de serem artistas? A inconsequência do desinteresse pelo Outro? E logo essa turma descolada que prega o discurso de "uma cidade para todos", participa de movimentos #Ocupe(...) e outros engajamentos políticos supostamente intelectualizados. Pois é! Justamente eles, sem o menor pudor, desconsideraram esses preceitos de uma cidade mais humana para incomodar toda uma vizinhança de trabalhadores apenas para promover vernissages de "ver e ser visto" nesse teatro dos vícios em que vivemos. Afinal, uma festa na Luni Produções é sinal de, hipoteticamente, distinção artística e, quiçá, social! É como um carimbo a referendar a sua entrada numa espécie de seleto grupo de artistas alternativos locais bem sucedidos. É quase um privilégio ser convidado. Por que então esses eleitos dos deuses haveriam de se preocupar com os reles mortais que acordariam cedo no dia seguinte para pegar no batente?

“Mas, nada está tão ruim que não possa piorar”; é o que dizem. Meu filho, um bebê de 6 meses e 20 dias, acabou acordando com toda essa balbúrdia. “Fodeu! Puta que pariu! E agora?!”, pensei. No auge do desespero, liguei para a polícia. “Já existem outras reclamações iguais a sua, senhor. A viatura já partiu para o local”. Alívio... Mas, depois de esperar em vão a chegada das autoridades e experimentar a raiva, a desesperança, a angústia e, por fim, a frustração; despertei de meu estado letárgico. De Recife, a Veneza brasileira ao Hellcife, o inferno na Terra. Como num livro de Kafka, de súbito, parecia que eu tinha sido arrancado de uma paisagem onírica e me vi um verme com merda até a cabeça!

Quem quiser que veja poesia num lugar onde todas as pessoas carregam o medo perene de ter uma arma apontada para sua cabeça, onde o carro impera em detrimento do transporte público, onde prédios brotam como se fosse mato sem qualquer planejamento, onde o shopping é a redenção lúdica da população, onde não se pode sequer dormir em paz depois de um dia duro... Eu vejo apenas caos!

Enquanto situações como a que relatei ocorrerem naturalmente, o Recife que carrego no peito será apenas uma idealização e estaremos a chafurdar em nossa própria lama. Como podemos ser uma "cidade mais humana" se uma das regras mais básica da vida em sociedade – a lei do silêncio – não é respeitada?!

Um Novo Recife... Só rindo! Não conseguimos nem nos livrar do velho.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Temes o romântico? - Por Dom Angelo



Para algumas pessoas este texto será um atestado de cafonice de minha parte. Uma espécie de confissão obscura, ou mesmo uma revelação de “gostos duvidosos”.

Como muitos sabem, toco, estudo e pesquiso jazz. No mundo da música, sou fã de artistas como Miles Davis, Thelonious Monk, Bill Evans, John Coltrane, Ornette Coleman, Kenny Wheeler, ou de compositores como Stravinsky, Debussy, Bach, Liszt, Beethoven, Palestrina, e ainda de Jobim, Gismonti, Veloso, Buarque, Seixas, Ben Jor, Cartola, Science, sem esquecer de Gainsbourg, Pixies, Pistols, Floyd, Nirvana, Smiths, dentre outros.

Assim como a música desses mestres me emociona até hoje, algumas canções que fizeram parte da minha infância e pré-adolescência também me tocam de uma forma, digamos que...curiosa. Se você teve infância, pré-adolescência ou mesmo adolescência nos anos 80 e inicio de 90 sabe bem de que assunto estou falando.

Sabe aqueles momentos (quando não estava jogando Atari ou Master System) em que ficava ao lado do seu “rádio gravador” ouvindo a programação da rádio Cidade ou Transamérica, sempre com sua fita cassete a postos para gravar sua coletânea pessoal de sucessos? E aquele “clima de paquera” que rondava as discotecas dos condomínios e prédios? Quase sempre estava lá a menina que você estava afim e ficava ansioso para chegar o momento de chamar ela pra dançar uma música lenta. Com certeza você estava usando uma basqueteira M2000, um relógio Casio, calça jeans da Levis e uma t-shirt enorme quase chegando no joelho (ou você era da turma que usava dockside?).

Surpreende-me estar repetindo aquele clichê de saudosismo exacerbado para com certos momentos especiais. Mas o que psicologicamente os torna especiais? Você já deve estar cansado de ouvir do seu avô aquela frase: - no meu tempo é que era bom! Mas começo a desconfiar que nada disso está relacionado com a qualidade do que foi vivido, mas sim da sensação de novidade, do gosto pelo desconhecido, que seu ego começava a desfrutar.

A idade em que estou me referindo é justamente aquela da formação da personalidade¹ do indivíduo. São os momentos de adaptação social, intelectual e principalmente do contato e experiências com o sexo oposto. As primeiras conversas, brincadeiras e paixões. Sim! Paixões. E olhe que não era fácil. O ato de se apaixonar quando criança me remete a uma avalanche de sensações, dor e dúvidas. Pois é...o id² não perdoa!

Ao mesmo tempo, funcionando de substituição³ da vontade de voltar ao passado, aquelas situações de descoberta tiveram algum cheiro (Lapidus), algum gosto (Dipn'lik) e claro, alguma trilha sonora que embalou esses momentos mágicos. Assim, não é por uma opção RACIONAL que acabo por desfrutar de algumas músicas “cafonas” dessa época (como nos exemplos abaixo), mas sim por causa de uma ASSOCIAÇÃO psíquica e involuntária.

Ok? Tá explicado! Não tenho culpa no cartório!



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¹ Segundo Freud, nossa psique está dividida em três partes: id, ego e superego.

² Fonte instintiva do nosso ser. Funciona buscando prazer e auto-conservação a todo custo. A principal força do impulso do “id” é a libido, energia voltada para sexualidade e sensações prazerosas.

³ Mecanismo de defesa do ego.