quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Religiosa - por André Maranhão Santos





A mais recente adaptação de A Religiosa, assinada pelo diretor e roteirista Gillaume Nicloux difere da versão Nouvelle Vague de Jacques Rivette – censurada pelo governo francês dos anos sessenta. E um dos pontos diferenciadores entre ambas as versões se dá em como os ideais de liberdade e luta pelos direitos humanos aparecem na versão de Nicloux, além dos seus paralelos com a filosofia iluminista, já que tal filme deriva do roman-mémoires La Religieuse de Denis Diderot, publicado no final do século XVIII e que se baseia no caso de Margueritte Delamarre, uma jovem francesa que lutou para sair da vida monástica num período contemporâneo à vida de Diderot.

Em A Religiosa, Suzanne Simonin é a personagem principal; uma garota que entra para um convento sem o desejar, passando por humilhações, assédios morais, sexuais, além de discriminações, somados ao seu desejo de abandonar o hábito de freira. Suzanne é interpretada de maneira notável pela atriz belga Pauline Étienne, que aparece escudada pela grande Isabelle Hupert e por Martina Gedeck (bastante famosa após A Vida dos Outros e que sendo alemã protagoniza o filme em francês, mantendo a forte tradição de atrizes europeias poliglotas).

Especialmente, há uma importante contribuição para mim em A Religiosa: tal qual Ligações Perigosas – filme de 1988, adaptado do livro de Chordelos de Laclos, estrelado por Glenn Close, Michelle Pfeiffer e John Malkovich – os ambientes mais recônditos da vida privada apontam para os jogos de poder, a sedução, a manipulação em pleno cotidiano e mentalidades do mundo francês do século XVIII. A Religiosa também se articula com outros filmes tais como O Nome da Rosa (adaptado do romance de Umberto Eco, dirigido por Jean-Jacques Annaud, estrelado por Sean Connery e tendo Jacques LeGoff como consultor histórico) e Dúvida (de John Patrick Shanley) com Meryl Streep, Phillip Seymour Hoffman e Amy Adams no elenco, por se tratarem produções que explicitam os abusos recorrentes ao longo da instituição religiosa no Ocidente e apontam para a emergência das leis como instrumentos fiscais contra as arbitrariedades empreendidas em lugares sagrados e mais restritos.

Num pensamento iluminista consonante, outro filósofo como Voltaire via nas benesses que alguns governos concediam à estrutura política da Igreja uma série de perigos e violações à Humanidade. O filósofo defendia a oração não como dominação ou despotismo, mas como algo em profundo diálogo com o papel fiscalizador do Direito Civil. “O magistrado deve apoiar e conter o sacerdote, da mesma forma que o pai de família deve mostrar consideração para com o preceptor de seus filhos e impedir que abuse deles”, assim o enfatizou em seu Dicionário Filosófico.

Também é sabido do papel estratégico que a vida feminina dos conventos proporcionou à economia dos bens masculinos e às relações de poder entre os gêneros. Evitar o casamento de certas filhas para não repartir o latifúndio na forma de herança, ou se valer dos espaços clericais para efetuar um processo civilizador sobre a figura feminina – naquela que sabe os seus lugares e limites e não contraria a autoridade da figura masculina – eis aqui exemplos cruciais do interesse patriarcal por via da domesticação religiosa. Embora a Coroa de Portugal nem sempre mostrasse favorecimentos à criação de novos espaços de reclusão para a entrada de mulheres na vida monástica (já que via no aumento do número de mulheres celibatárias um risco para o crescimento populacional de uma colônia como o Brasil) a monarquia lusitana quase sempre encorajou as casas de recolhimento em solo brasileiro. No século XVII, já havia conventos na Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, tendo este número se multiplicado em outras localidades como Pernambuco, Maranhão, Minas Gerais e na Região Sul, tanto na forma de conventos quanto nas casas de recolhimento. Em Trópico dos Pecados, Ronaldo Vainfas argumenta que essas casas também estipulavam diversas restrições às mulheres, preferindo, inclusive, moças brancas e de famílias abastadas. As casas de recolhimento também atuavam enquanto recebedoras de mulheres casadas durante a ausência dos seus respectivos maridos, retiros espirituais de viúvas e correção de condutas femininas “indevidas”.

O que pretendo aqui não é desqualificar ou negar a existência da vocação na vida monástica e na reclusão, mas atentar para a importância do exercício histórico / democrático que o filme A Religiosa pode estimular em conjunto ao significativo valor que o pensamento iluminista pode elucubrar num contexto como o de Diderot. Por outro lado, a Razão não precisa atuar como a legítima redenção do Ser, já que na própria época de La Religieuse, alguém como Kant foi capaz de frisar que vivia na “era do Iluminismo” no lugar de viver numa época de pleno esclarecimento. Mas o filme que inspirou esta postagem pode reavivar o debate sobre o direito à fé, o lugar, a filiação e as formas da vida religiosa, e analogamente à personagem Suzanne - que desejou abandonar a vida monástica para professar sua fé sob outros modos - no mundo contemporâneo, a Democracia deve garantir o direito de uma islâmica usar um hijab, como também de ampará-la caso não queira usá-lo ou deseje parar de usá-lo.

Devo finalizar com uma lição sobre a fé que aprendi num livro de Walter Benjamin, intitulado A Origem do Drama Trágico Alemão, onde aquele filósofo, judeu, esotérico e fugitivo do Holocausto cita a seguinte alegoria: “Santa Teresa vê, numa alucinação, a Virgem esparzindo rosas sobre a sua cama, e conta a visão ao seu confessor ‘Eu não vejo nenhumas’, responde este. ‘Claro, a Virgem trouxe-as para mim’, é a resposta da santa”. Cada vez que eu releio, me conforto com este depoimento, pois semelhante a Benjamin, consigo acreditar que há um gesto radicalmente sensorial quando Cristo é deslocado para o plano do provisório, do cotidiano e do precário. No filme A Religiosa, a personagem Suzanne Simonin parece alimentar esta linha de raciocínio, ao ver que Deus se faz através de um prisma ético que antecede as instituições e que na fé religiosa pode residir uma via de contestação, de luta e de renovação da liberdade humana.

domingo, 29 de setembro de 2013

Revolver: A Fugacidade do Sublime - Por Bruno Vitorino


Antes de se materializar em um blog, o Variações para 4 era o encontro semanal que Ângelo, Giba, André, Fernando e eu promovíamos lá em casa. Na verdade, tratava-se de um pretexto solene que encontramos para tomar Heinekens geladas, escutar bons sons e compartilhar nossa sincera (e idealista, diria) preocupação com os rumos da Arte num mundo onde Cinquenta Tons de Cinza é o símbolo da transgressão da mulher contemporânea, Kelvis Duran é ícone cult para jovens intelectualizados de classe média e certos poetinhas cianóticos tecem loas egolombráticas ao poder do amplexo. Como de praxe em qualquer reunião de amigos, à medida que as garrafas do néctar dos deuses se acumulavam, nossas idiossincrasias pessoais se projetavam. Nos momentos de consonância, uníssonos de conformidade e aprovação. Mas, diante das discordâncias mais acirradas – que não eram poucas, ouvia-se a defesa mais acalorada de posicionamentos controversos. No que diz respeito a mim, isso sempre recaia em minha repulsa à obra de Chico Buarque e minha ojeriza à produção dos Beatles.

Não gostar desses artistas já me colocou em sérios apuros. Imagine você um estudante de História em pleno CFCH abrir a boca para dizer que “Chico Buarque é um compositor superestimado e um romancista de merda”. Ou também, em qualquer mesa de bar num papo descontraído com entendedores de rock, que “Os Beatles foram uma praga. A Grande Peste da música do século XX”. O mundo vinha abaixo, meu amigo! Na faculdade, não só minha integridade intelectual, como também a psíquica, logo eram questionadas. “Isso é coisa de alienado, de pelego. Tu tá é doido!”. Já lá na mesa de bar, as reações variavam da fúria extremista à perplexidade retumbante. Faça um teste. Experimente o senhor, como exercício sociológico, dizer quando estiver tomando uma com seus amigos: “Os Beatles foram os maiores vagabundos da história da música”. Em um segundo, meu caro, você será um herege jogado na fogueira do fanatismo dessa inquisição cultural. Reflexo condicionado, não refletido ou problematizado.

Obviamente que por trás dessas afirmações tão categóricas reside uma morbidez galhofeira que zomba da submissão plena aos cânones. E não há como ser de outro jeito, meu querido. Goste ou não, uma coisa é certa: se for para mexer em casa de marimbondo, não adianta ir alisando. Tem que descer o braço, senão você se lasca! Só dinamitando o totem (e o tabu), pode-se vislumbrar que as verdades na esfera artística são, mais do que certezas estéticas, construções sociais sedimentadas pelo tempo e pelo discurso. A memória costuma ser generosa com a pieguice, daí a tendência de visões romantizadas de um passado idealizado povoado por artistas divinos. O erro crasso das legiões de devotos mundo afora que separam o homem de sua produção simbólica, e, mais ainda, que dissociam o artista das conjunturas de seu tempo. Entenda o seguinte: o artista não existe no vácuo.

Pondo de lado toda essa cabecisse, o fato é que eu já tentei gostar dos Beatles. Sério mesmo! De todo o coração e inúmeras vezes. Como a descoberta da música se deu para mim através do rock clássico, não havia como me esquivar da obrigatória visita ao quarteto de Liverpool. Portanto, não pense o senhor que falo aqui sem conhecimento de causa. Deixo para os jornalistas dos cadernos de cultura falar daquilo que não sabem ou sequer compreendem. Ouvi minuciosamente toda a discografia dos ingleses esperando o inevitável deslumbramento que me haviam prometido. Do “Please Please Me” ao “Let It Be”. Disco a disco e nada! Absolutamente nada, para meu desespero. Seria eu um portador de alguma patologia lombrosiana? Não! Era apenas a combinação de uma pitada de senso crítico com um pouco de perspectiva histórica.

Por mais que tentasse, não conseguia entender o porquê de tanto estardalhaço. Incomodava-me a gritante tabacudice boy band – chame de Iê Iê Iê se preferir – da primeira fase da banda em músicas fofinhas sobre paixões adolescentes e corações partidos. Corri para o período de transição do grupo da euforia teen para o experimentalismo mais adulto. Legal. Encontrei músicas interessantes e extremamente bem construídas como Norwegian Wood, mas morguei totalmente com canções bestas como Drive My Car. “Baby, you can drive my car / Yes, I’m gonna be a star / Baby, you can drive my car / And maybe I’ll love you” era leseira demais para meu frágil testículo esquerdo. Por fim, procurei na última fase da banda achar a tão sonhada redenção, contudo me iludi novamente. Ao que parece, depois de ter ouvido o poder incendiário do Led Zeppelin, ficava difícil gostar do bom mocismo inofensivo dos Beatles. A verdade é de quem chega primeiro. E, no meu caso, quem chegou primeiro foi o Led Zepellin. “Melhor assim”, dizia a mim mesmo. Até que veio a verdadeira revolução em minha vida: Theo!

O advento do filho ocasionou em mim rupturas silenciosas, cuja dimensão não podia medir ao certo, em toda a constituição do meu ser. De repente, o mundo ficou de ponta cabeça, a realidade virou pelo avesso. As ilusões que guardava, os horizontes que mirava e as convicções que até então me caracterizavam o Bruno que sempre lembrei ser, já não faziam mais sentido. Eu havia mudado. Comecei então a ressignificar tudo: o valor da família, o caráter formador do trabalho, a relação com a cidade e inclusive a importância da música. E aqui eu chego aonde queria. “Se tudo mudou, não seria agora que eu finalmente iria gostar dos Beatles?”, pensei. Mais uma vez (a 4ª pelas minhas contas), revisitei a discografia do Fab Four. Não senti qualquer emoção diferente a cada disco que ouvia no Youtube, até que finalmente eu vi a luz! Algo inexplicável e totalmente inesperado aconteceu em mim quando pus no buscador “revolver full album”. Foi uma revelação!

Revolver: a obra-prima dos Beatles.
“Revolver” marca o momento mais sublime e único que os Beatles puderam alcançar. “E o Sgt. Pepper’s?”, o senhor pode estar se perguntando. Bem, o “Sgt Pepper’s” é um disco ousado, sem sombra de dúvidas, mas em contrapartida é um amontoado de referências e ideias mal resolvidas, embrulhadas num discurso musical excessivo. Em resumo: um disco gorduroso. “E o White Album?”, o senhor insiste. Esse daí é tediosamente longo e altamente irregular. Como um disco pode ter uma composição tão brilhante como “Martha, My Dear” e outra tão retardada como “Ob-La-Di, Ob-La-Da”? Nem mesmo Bhaskara pode resolver essa equação, permita-me dizer. Por isso, defendo que “Revolver” registra o equilíbrio perfeito da verve intuitiva de John Lennon com a perspectiva cerebral de Paul McCartney e, de quebra, traz o desabrochar criacional do até então sufocado George Harrison. Com esse álbum, os Beatles desbravaram um território completamente novo, tanto no que diz respeito aos métodos de composição e técnicas de arranjo quanto aos temas e enfoques poéticos. Um salto artístico estratosférico num período curtíssimo de tempo, já que apenas três anos separam o pueril “Please Plese Me” desta obra-prima.

A contagem inicial que abre o disco parece avisar ao ouvinte que uma viagem caleidoscópica em direção ao desconhecido está para começar. “Taxman”, de George, escancara uma pegada roqueira mais agressiva, cheia de balanço e uma letra de humor corrosivo sobre a voracidade inflexível da política tributária do Estado Pós-Industrial. Na sequência, em “Eleanor Rigby”, Paul derrama todo seu lirismo sobre uma trama contrapontística das cordas (destaque para o cello) e harmonizações vocais precisas. Um dos pontos mais altos de toda sua carreira, diga-se de passagem. Depois vem Lennon com a onírica “I Only Sleeping”. Seu jeito preguiçoso de delinear as melodias, a simples, e por isso mesmo, deslumbrante harmonia em Mi menor e o solo de guitarra em “loop” e “reverse” de Harrison (algo nunca antes ouvido no rock) constroem uma ambiência surrealista que remete às fronteiras do inconsciente. Até Ringo tem seu momento. Esteja certo de que “Yellow Submarine” povoa o imaginário de muitas crianças por todo o planeta com sua fanfarra marcial psicoldélica. Mais à frente, encontramos “For No One” uma das mais belas descrições narrativas sobre a indiferença (e seus danos) que já ouvi. Preste atenção na linha de fundo cromática que vai costurando o encadeamento dos acordes, representando o afastamento paulatino da pessoa amada e no lamento resignado do solo de trompa ao se deparar com o inevitável ocaso. Já em “I Want to Tell You”, minha favorita, deparamo-nos com a habilidade de George em transformar melodias flutuantes e progressões harmônicas ambíguas em algo extraordinário. Repare no piano que insistentemente toca a nota Fá “errada” (não diatônica em Lá maior) justamente nos momentos da letra em que o autor se vê aturdido pela presença invasiva da musa a quem tenta se declarar. Nada menos que genial! Para concluir essa materialização da excelência, os Beatles atacam com a enigmática “Tomorrow Never Knows” onde John recita trechos do livro tibetano da morte sobre a bateria agitada de Ringo e os efeitos eletrônicos dos ecos de rolos de fita. Reminiscências dos cursos de verão de Darmstadt e da música oriental. Uma advertência clara de que nada seria como antes e que o porvir era uma névoa de incertezas!


Lembro-me como se fosse ontem de, no calor do debate, Fernando me amaldiçoar: “Bruno, teu menino vai adorar Chico Buarque e amar os Beatles”. Bato na madeira e sinto um calafrio só de imaginar Theo ouvindo “Construção”, acreditando estar diante mais alta representação da cultura brasileira. Mas, depois de sentir o efeito “Revolver” e de ver meu filho dançando ao som de “Love You To” enquanto escrevo a conclusão dessas breves (?) linhas, devo confessar que me parece muito auspiciosa a possibilidade dele curtir os Beatles. Melhor assim.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Vivendo o Porto: Café Candelabro - Por Dom Angelo


Dando sequência as dicas de lugares para se visitar na cidade do Porto, venho desta vez falar de algo que interessa a grande maioria das pessoas: bares.
A cidade do Porto hoje tem uma das noites mais bacanas da europa, onde podemos encontrar na área que abrange o centro histórico (mais conhecido como “baixa”) centenas de bares, pubs e restaurantes com diversas temáticas gastronômicas e culturais, tudo isso num perímetro que se faz todo a pé.
Considerada Patrimônio Cultural da Humanidade em 1996, todo o centro da cidade é marcado por edifícios de diferentes estilos arquitetônicos, abrangendo construções do estilo gótico, romântico, medieval, barroco, neoclássico, dentre outros. Esse ar “cool” da cidade atrai turistas do mundo todo, favorecendo o ambiente artístico e reflectivo.
Pra quem gosta de desfrutar a noite, uma das coisas legais é sair alternando de bar em bar e curtindo os diferentes climas que estes estabelecimentos oferecem. Pessoalmente, algumas vezes gosto de começar a noitada relativamente cedo, por volta das 20h e um dos meus locais preferidos nesse aspecto é o Café Candelabro.
Ambiente descontraido, de meia-luz, com decoração de livros, revistas, cartazes antigos, máquinas fotográficas e outras coisinhas. Tem excelente cerveja de pressão e preços convidativos. Na parte da tarde a música ambiente vai de Roberto Carlos (anos 60) à Belle and Sebastian, de Tom Waits à Bjork, e à noite a coisa fica um pouco mais enérgica com a presença de DJs, onde o set vai dos Pixies, Radiohead, Pulp a cenas mais alternativas da nova música eletrônica européia.
Em época de temperaturas mais amenas, é legal sentar na esplanada e observar o movimento da cidade. Em dias mais frios, sentar dentro numa mesinha para ler um jornal ou conversar com amigos, degustando uma tábua de queijos nacionais e um bom tinto maduro.
Ah claro...isto quando a noite está só começando. Depois é “outros quinhentos”...
Abraço a todos e até a próxima!
 



segunda-feira, 1 de julho de 2013

Renato Russo Sinfônico: Um Espetáculo Para Ser Esquecido - Por Giba Carvalho


Tenho certeza de que a noite do dia 29/06/2013 deve ser esquecida. Tive a coragem de assistir à homenagem que resolveram prestar ao maior poeta do rock brasileiro. O concerto intitulado – “Renato Russo Sinfônico” foi um fiasco. Com certeza, Renato Russo revirou centenas de vezes no caixão para tentar tapar os ouvidos. Seguem comentários, música a música do que foi feito pelos “grandes nomes da música nacional”:
  • Banda de apoio  - “Fábrica” – Horrível! Certamente a banda do Faustão faz melhor;
  • Sandra de Sá – “Mais do Mesmo” –– Se alguém abriu a boca para dizer algum dia que Sandra de Sá cantava muito, irá se arrepender profundamente! Errando a letra, gritando o tempo todo e desafinado ao extremo;
  • André Gonzales – “Ainda é cedo” - Abaixo do tom. Terrível! Tentativa de cópia fajuta! Fez no palco o mesmo que faz na medíocre Móveis Coloniais de Acaju;
  • Zélia Duncan – “Eu sei” – Não inventou. Cantou com sua voz naturalmente grave. Ainda assim, com pequenos erro de execução que incomodariam qualquer pessoa que conhece a música em questão;
  • Jorge Du Peixe – “Soldados” – a execução do arranjo foi a melhor da noite. Já a execução vocal da música, eu resumo do seguinte modo: “Jorge Du Peixe, você só serve pra Nação Zumbi”;
  • Luiza Possi e Zizi Possi – “Pais e filhos” – já começou piegas. A escolha de chamar a mamãe Zizi e a filhota Luiza é mais óbvio do que água ferver no fogo. Pra variar, mais uma vez, a versão começou trágica com a “filhota” tentando chegar ao tom que Renato cantava. Depois disso, aconteceu uma das maiores tragédias já ouvidas na música nacional. Zizi Possi, você conseguiu superar aquele comercial insuportável de um disco seu em italiano! (Per amoreeeeeeeeeeeeee).  Parecia que estava cantando a música pela primeira vez.  É verdade que durante a execução, a “filhota” foi melhorando a interpretação (talvez por ver os apuros que “mamãe” estava passando), mas longe de ser algo no mínimo audível. A primeira vez que fiquei decepcionado mesmo, afinal, a letra de Pais e Filhos, tem aquela que considero a frase mais bonita do rock n´ roll nacional até hoje: “É preciso amar, as pessoas como se não houvesse amanhã.”;
  • Ann Marie Calhoun – “Por Enquanto / Quando o sol bater na janela do teu quarto” – execução normal e até o momento a interpretação mais refinada do show. O público cantou como nenhum outro. Achei estranho chamarem uma violinista americana para tocar a obra de Renato Russo. Tenho certeza de que ela jamais ouviu algo dele antes deste convite;
  • Ivete Sangalo – “Monte Castelo” – ao perceber que Ivete Sangalo seria a próxima a cantar no show, pensei: “E agora?” Claro que é complicado falar de uma artista que você simplesmente detesta tudo que ela faz. No entanto, procuro sempre ter o mínimo de bom senso com as coisas. “Ivete Sangalo sabe tudo de canto.” Quem nunca me ouviu dizer isto, atire a primeira pedra! Ela não fez nada de excepcional, não é a praia dela. Mas cantou. E cantou bem. Apenas um pequeno erro de tempo e uma coisa que acho terrível e que vários artistas fazem (principalmente nestas homenagens). Fingir que está cantando de “olhinhos fechados...sentindo aqueeeeeeeela emoção” e na verdade estar  olhando pra telinha pra saber a letra da música;
  • Lobão – “Perfeição” – sem sombra de dúvidas, a música mais atual pra realidade brasileira desde que foi composta. Um arranjo simplesmente tenebroso da Orquestra de Brasília. Uma interpretação de Lobão não pode ser algo de espetacular, mas no mínimo atina a curiosidade. O “reaça” (valeu Gustavo Paes), com seu jeitão peculiar escolheu a música certa e cantou como quis. No final, ainda tentou tirar uma “onda” de Renato Russo. Mas aí já é demais;
  • Ellen Oléria – “O Teatro dos Vampiros” - recordo que estava num barzinho chamado Espetinho Parnamirim quando na TV passava a final no famigerado programa - “The Voice Brasil”. Lembro que apenas uma única cantora chamou a minha atenção. Era uma menina da Bahia que cantava a brasilidade. No mais, todos os outros candidatos, sempre levavam consigo a influência insuportável do pior da música americana. Aquele jeitinho meio “Whitney Houston Forever”, cheio de vibratos desnecessários e tudo mais. A interpretação desta moça pra um dos maiores clássicos da Legião Urbana foi sofrível! Ah...ela que ganhou o programa?
  • Fernanda Takai – “Giz” – é verdade meus caros! Não há nada que abomine mais do que esta moça cantando. E vestida de Fred Flinstone ainda por cima... Na verdade, quem disse um dia que ela cantava alguma coisa? São estas perguntas que costumeiramente faço quando escuto suas “interpretações”.  Escolheram logo a música que Renato Russo mais gostava e deram para que um crime hediondo fosse cometido. Aqui pra nós, uma moça que precisa ser acompanhada em 90% da música pelo cantor de apoio da banda pra mim já diz tudo. “Te aposenta e vai cuidar dos teus filhos ou cantar em japonês minha filha!” 
  • Hamilton de Holanda – “Índios” – assim como os músicos da Legião tiveram o mérito de compor a canção original, o espetacular bandolinista Hamilton de Holanda teve o cuidado necessário para não desvirtuar a original e fazer o momento mais especial do show. Excelente interpretação;
  • Jerry Adriani – “Tempo Perdido” – foi o músico educado da noite. Solicitou palmas para os músicos de acompanhamento e para a “maravilhosa” Orquestra que acompanhava o “espetáculo”. No mais, foi o mesmo cantor “meia-boca” que sempre foi, desde a época da Jovem Guarda. Aquela mistura de rocker com tenor. Só pode dar numa merda de imensas proporções;
  • Alexandre Carlo – “Faroeste Caboclo” – para quem não sabe, o escolhido para cantar o maior clássico da Legião Urbana foi o vocalista da “pop-reggae” – Natiruts. Não houve mistério ou algo de especial no arranjo. Nada de muita dificuldade para a execução do rapaz, muito embora, algumas vezes parece que faltou fôlego para cantar a música. E ainda na primeira parte da canção. Meus amigos, quando entrou a parte “rock n´roll” da música o rapaz se borrou! Tenho certeza! “Fralda geriátrica nele, galera!” Como diria um amigo – “mais fraco do que choque de lanterna!”;
  • Renato Russo (em imagem) – “Há tempos” – “Disciplina é liberdade. Compaixão é fortaleza. Ter bondade é ter coragem.”
  • Medley – “Será” (com participação de Renato Rocha, ex-baixista da Legião Urbana que estava vivendo nas ruas). Um show de horrores. Sem mais!

É complicado e ao mesmo tempo fácil opinar quando se é fã. Cresci ouvindo as músicas de Renato Russo e tenho certeza de que ele merecia muito mais. No entanto, alguns fatos devem ser citados. Vivemos num país totalmente “idiotizado” em vários sentidos. No ramo musical, nem se fala. A pobreza cultural do que é vendido e divulgado é simplesmente a cara do povo. Não é à toa, que um “espetáculo” fraquíssimo como o assistido ontem, tenha lotação esgotada. Isto é carência! Daquilo que foi feito e que passou alguma coisa de importante para uma geração. Infelizmente os nomes que estiveram em cima do palco (sem generalizar) não condizem com a grandiosidade do artista. Mas, para a mídia, é o que é “vendável”. Já, já; outro CD - DVD – Blue-Ray deste show estará nas lojas. E assim segue a vida musical do Brasil. Um misto de saudade, putaria e péssimo gosto!

Observação - costumo citar que 90% dos críticos musicais do país são meros leitores de releases. Um dos maiores crimes contra a música nacional foi o idiota que afirmou: "Fernanda Takai é a nova Nara Leão". 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O retorno do Xamã - por Giba Carvalho



     Segundo os siberianos, o significado da palavra Xamã (ou Shaman) é – “aquele que enxerga no escuro.”

     Malcom John Robbenack tem 71 anos, e destes, mais de 50 dedicados a música. Notadamente, ao jazz e ao blues. No entanto, depois de tanto tempo na ativa, é normal uma certa acomodação. Aquela velha história de ficar na zona de conforto. Foi aí que entrou a pessoa de Dan Auerbach, guitarrista e vocalista da aclamada banda The Black Keys. Fã confesso do trabalho do “Doc”, o músico teve certo trabalho até convencê-lo a topar um trabalho novo em parceria. O mais interessante nesta história, é que foi necessário uma das netas de Malcolm falar bem do trabalho do The Black Keys e ainda colocar um CD dos mesmos para que fossem aceitos.

     O grande mérito do "black key" para esta excelente produção foi o modo utilizado para que a mente do Xamã fosse aberta novamente. Numa destas "sessions", o mestre ouviu um disco de um craque africano chamado Mulatu Astatke, saxofonista etíope que levou um balanço diferenciado para dentro do jazz. Sem falar de todo misticismo envolvido no experimentalismo musical que se propunha. Temos que ressaltar também, a liberdade artística e a verba necessária para que o projeto saísse. 

Mulatu Astatke - The Way to Nice:


     A bolacha foi totalmente produzida no Estúdio - Easy Eye Sound, em Nashville, mas teve seu início na mítica New Orleans, cidade que jamais foi abandonada pelo Xamã. Durante mais de dez dias, todos os membros em estúdio se entupiram de comida etíope e ouviram toda a obra do saxofonista africano. Obviamente que a idéia não era fazer uma cópia do que já foi feito, mas sim, utilizar um caminho diferenciado para as criações musicais que viriam a surgir. De imediato, as bases começaram a ser compostas e não demoraram muito a sair. No DNA de Dr. John já corre um mar de traços africanos e isto facilitou bastante o processo. Outro ponto a ser ressaltado, foi a troca do tradicional piano que sempre o acompanhou por um órgão Farfisa (especialmente utilizado para criações "funky-psicodélicas").

     As letras tornaram-se um capítulo a parte neste disco. Como é de conhecimento da maioria, mesmo sendo umas das figuras mais importantes da música estado-unidense dos últimos 40 anos, o "Doc" não é um "frontman". O Xamã gravou com inúmeros mestres de New Orleans tais como: Professor Longhair, The Meters e Alain Touissant, além de outros nomes como - The Rolling Stones, The Band, Eric Clapton, passando até por Cristina Aguillera. Memórias intermináveis e amargas foram trazidas à tona novamente. Tal como uma tentativa de exorcizar os próprios demônios que tantas vezes nós mesmos criamos. Lendo uma entrevista do mestre atentei para uma frase que explica claramente isto:

     "Vivi muito tempo na estrada, cometi muitos erros, me envolvi com pessoas e entidades estranhas e, acima de tudo, deixei minha família de lado várias vezes — reconhece ele, que escreveu para 'Locked down' músicas como 'My children my angels' (...Tell me about your desires right now. Don´t trip on this wire, I´ll show you how. My baby wish I never, made you loose. My children, my angels, talking to you.) e dedicou o disco a sua família. — Arrependimento é uma palavra forte porque ela nem sempre conserta algo. Vivi o que tinha que viver. Mas hoje tento recompensar isso dando todo o amor aos meus netos e a quem de fato me ama."

Dr. John - My Children My Angels:


     Voltando a falar do disco, é inevitável perceber sua ligação total a cidade do “Doc”. New Orleans sobra no disco. Aos ambientes burlescos do Mardi Gras, aos famosos 'medicine shows' teatrais que mais pareciam um circo disfarçado de concerto rock e à aos mistérios do 'Voodoo', ou Hoodoo como é apelidado nos estados do Luisiana.” Talvez por isto, a crítica americana considere “Locked Down” o retorno à forma. Muito embora os trabalhos de Dr. John nunca tenham sido considerados abaixo de uma linha no mínimo mediana (escutem também o “Tribals” de 2010).

     Locked Down é indiscutivelmente o melhor disco que ouvi em 2012. Rico em arranjos, com uma grande performance de guitarra, com a pimenta natural de um nativo de New Orleans e com uma “classe gangsta” que cabelos e barbas brancas ajudam a imortalizar no tempo e fazem com que enxerguemos que ainda há esperança para a música.

     Quem se aventura na revolução?

Dr. John - Revolution:

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Gigante - Por Bruno Vitorino


No íntimo, eu já sabia... Sempre soube, na verdade, que era apenas uma questão de tempo. Algo inevitável. Demorou pouco mais de um ano, mas finalmente aconteceu: ontem à noite, virei estatística. Voltando para casa depois de mais um dia de trabalho, fui reduzido da minha condição de pessoa a mero número e passei a ser mais um ciclista atingido por um carro na cidade do Recife.

O local do ocorrido foi a rua Hoel Sette – pertinho da Praça da Jaqueira. Eram 18:30. O trânsito, para variar, estava entre o caótico e apocalíptico. O fluxo, parado ou quase isso. Eu vinha calmamente à direita, com a bicicleta devidamente sinalizada, com capacete, seguindo as leis de trânsito e os protocolos da boa convivência nas ruas, quando, a uns quatro carros à minha frente, percebi que tinha um veículo há um bom tempo com a seta ligada tentando entrar na via. Nenhum carro deu a vez e logo eu, idealista que só vendo, fui inventar de ser gentil e dividir o espaço público com um cidadão igual a mim... Deixei ele passar. Foi o meu erro. O carro que vinha na minha cola não quis esperar, acelerou e me atingiu. Só me restou ficar puto!

Por sorte, tudo não passou de um susto. Não me machuquei, tive apenas prejuízo material. Contudo, experimentei a imensa frustração compartilhada por muitos que, como eu, procuram uma maneira alternativa de se locomover em sua cidade e que também foram vítimas da negligência de outrem. Nesse dia, esbarrei na velha questão do típico motorista que se julga senhor de engenho, vê as ruas como seu latifúndio e, por fim, utiliza o carro como insígnia de poder e diferenciação social. Ciclistas são apenas intrusos e estão sujeitos a uma truculência cínica que sorri silenciosamente a cada acidente. Não deveriam sequer existir. “Sai da rua, filho da puta” é a frase carinhosa que provavelmente todo ciclista urbano já deve ter ouvido. O ranço aristocrático dos tempos de colônia segue firme.

Caminhei eternos 15 minutos até minha morada, carregando minha bicicleta como se fosse um companheiro ferido de guerra - alegoria mais do que apropriada já que o trânsito brasileiro matou, só no ano passado, mais de 40.000 pessoas. Meu corpo era uma sombra esmaecida. Minh'alma, um vórtice a sorver a realidade. O Aleph... Enquanto andava, via pessoas correndo na rua, um carro a avançar o sinal vermelho, gente jogando lixo no chão. Pensamentos invasivos me assaltavam... Lembrei-me do momento que vive o país; do aparente despertar político-social; da imagem de pessoas insatisfeitas indo às ruas, cobrando das instituições e dos donos do poder ações contundentes para a solução efetiva dos problemas que há muito atingem o Brasil. A contradição latente da imagem de indivíduos transgredindo regras básicas da vida em sociedade com a ideia de pessoas que reclamavam aos governantes um país melhor se misturava em minha cabeça num turbilhão. Algo não batia. O gigante acordou! Será mesmo?

As manifestações que eclodem em todo o país são lindas (ainda mais por serem apartidárias) e enchem meu coração de orgulho e esperança, mas isso é apenas uma parte importante do processo de transformação, por uma razão simples: não é possível haver nova política e se não houver nova sociedade. Parece-me imprescindível que as pessoas repensem individualmente o seu papel enquanto cidadãos e qual sua importância na construção de uma comunidade de fato voltada para o bem comum. É preciso, antes de tudo, uma revolução particular, interna, íntima. Extirpar o "jeitinho brasileiro", o chorume aristocrático de nossa sociedade e abraçar a plenitude da igualdade democrática que delimita direitos e deveres para todos independentemente de classe social. As transformações perenes e mais efetivas precisam começar nas micro-relações, do reconhecimento do Si e do Outro como equivalentes no processo político que fundamenta a Nação, o Território e o Estado. Da base ao topo. Do lixo no lixo ao dinheiro para a educação. Do povo para as instituições e seus representantes. O gigante acordou? Não! Ele ainda está em coma e respira por aparelhos. Mas, ao menos, abriu um dos olhos.

Amanhã (20/06) será dia de ocupar as ruas do Recife. De manifestar pacificamente nossa insatisfação nos rumos que estão sendo dados ao Brasil. Gritar por hospitais públicos “padrão FIFA”, real inclusão social, educação de Primeiro Mundo, transporte coletivo barato e de qualidade, fim da corrupção e tudo mais. Motivos não faltam e eu estarei lá a ajudar a despertar esse gigante que há muito se encontra "deitado eternamente em berço esplêndido". Mas, sinceramente tenho a esperança de que alcancemos a maior das vitórias: o revolucionar-se.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Vivendo o Porto: Chocolateria Equador - Por Dom Angelo



Com este post inaugural, começo uma coluna onde darei algumas dicas de locais que acredito serem legais para se visitar aqui na cidade do Porto (Portugal). Não posso dizer que sou um guia expert, mas conversando com alguns tripeiros (pessoas nascidas no Porto), vejo que para passeios alternativos, estou mais antenado que muitos.
Inspirado na visita que fiz a Bruxelas e Bruges neste final de semana, indicarei uma chocolateria excelente aqui no Porto, que digo por experiência própria, não fica atrás das estabelecidas na Bélgica.
A Chocolateria Equador fica na rua Sá da Bandeira, 637. Pertinho do centro histórico, a idéia é aproveitar o passeio na baixa (downtown) e visitar essa lojinha. De preferência, como é óbvio, depois do almoço.
 
O que considero chocolate de verdade (que fica na margem de 70% de cacau ou mais) é muito bom e o estabelecimento ainda disponibiliza ótimos kits para se presentear. As trufas também são excelentes e o design das embalagens são belíssimos, inspirados em ilustrações do início do século.
Buscando um diferencial, ao contrário dessas lojas mais convencionais do Brasil (tipo Cacau Show, Kopenhagem, etc.) a trilha sonora da Chocolateria Equador é só Jazz! Principalmente coisas mais trad da Ella, do Armstrong, do Goodman, do Duke e coisas cool do Miles, do Chet e do Brubeck. Nada melhor do que comer um doce fabuloso, curtindo um som de primeira.
Abraços!