sábado, 15 de agosto de 2015

Simpatia Pela Própria Sombra: Rock and Roll e Catarse no Imaginário Ocidental - Por Rógeres Bessoni


O guitarrista Jimmy Page e o escritor William Burroughs.


“Oh, Albion remains
Sleeping now to rise again”




A questão fundamental antes, durante e depois deste texto é uma só: ROCK AND ROLL É COISA SÉRIA. Há cerca de dois anos, me deparei com um link de internet para o resumo do que foi um dos encontros mais primorosos da música contemporânea e que entrou para os anais das entrevistas no mundo do rock. Em 1975, um dos maiores nomes da literatura beat e da chamada contracultura dos anos 50/60, William Burroughs, entrevistou Jimmy Page, para a Crawdaddy Magazine, revista até então totalmente desconhecida por mim. Até hoje, nunca peguei em um único exemplar físico, mas em algumas andanças online verifiquei tratar-se de uma revista especializada em jornalismo musical, criada em meados dos anos 60 e que se destacou pela abordagem frontal do fenômeno musical “rock and roll” - na verdade, parece que o próprio periódico se autodefinia como sendo “a primeira revista que levou o rock a sério”. Ao devorar o conteúdo dessa entrevista, mergulhei em insights profundos, despertados pelas associações de ideias que aconteceram naquela conversa. Na verdade, vários assuntos ali tratados alimentaram outros tantos insights que eu já havia tido, mas que ainda estavam crus, pedras brutas, sem elaboração. A entrevista se deu depois de Burroughs assistir a um show do Zeppelin, e as duas figuras trataram de falar de magia, de Aleister Crowley, de experiências hipnóticas com infra-sons e mantras, das experiências de indução ao transe na música sufi marroquina, dentre outras iguarias. Mas, do material compilado ali, o que me reacendeu uma ideia antiga, para mim nevrálgica, foram os questionamentos de Burroughs a respeito das possibilidades mágicas e psicológicas da música em geral, e do rock em particular. Esse escritor, que ajudou a revirar o baú escuro da alma humana pós-guerras mundiais, aponta para outra dimensão quando pergunta:

“Music, like all the arts, is magical and ceremonial in origin. Can rock music return to these ceremonial roots and take its fans with it?” (Numa tradução livre: “A música, assim como todas as artes, é mágica e cerimonial em suas origens. Pode o rock retornar a essas raízes cerimoniais, conduzindo consigo os seus fãs?”).

E mais ainda quando, ao tratar da aridez e estreiteza do pensamento ocidental contemporâneo, aponta a estreiteza de visão e de escolhas em que nos enclausuramos, a partir da cultura cristã e após o seu declínio,

“(...)when all magic became black magic; that scientists took over from the Church, and Western man has been stifled in a non-magical universe known as “the way things are.” Rock music can be seen as one attempt to break out of this dead soulless universe and reassert the universe of magic.” (...quando toda a magia foi tratada como magia negra; os cientistas substituíram as igrejas, e o homem ocidental foi enclausurado em um universo não-mágico, conhecido como “a maneira como as coisas são”. O rock pode ser visto como uma tentativa de rompimento com esse universo morto e sem alma, e recondução ao universo da magia).

E aqui chegamos a uma das sacadas mais geniais da contemporaneidade, a Chave para entender o poder catártico da música e, mais especificamente, o fogo devorador do rock and roll e como ele, o rock, insuflou a inquietação juvenil e aventureira em corações procedentes de toda parte, se apoderou de traços musicais do mundo inteiro e tocou, por assim dizer, a “Anima Mundi”, de que os alquimistas falavam. Essa Chave explica também como o rock atuou na minha própria vida, nas inúmeras vezes que me resgatou ou me conduziu pelo abismo. Foi essa saída do árido e brochante “non-magical universe”, da vida sem imaginação e sem encantamento e da recuperação da dimensão mágica que o rock operou em zilhões de pessoas – e o fez de forma incendiária, num movimento enfurecido e explosivo, sem muitas preliminares que, em suas duas primeiras décadas, nem deu tempo às pessoas para se reposicionarem ou entenderem bem o que estava acontecendo.

O fato é que o rock and roll ativou Imagens e Símbolos Primordiais poderosos que estavam encerrados no nosso escuro, sob violenta e severa vigilância das duas Grandes Inquisições – a inquisição religiosa cristã medieval, que sistematizou o medo e a submissão, e depois, sua substituta, a inquisição materialista, científico-industrial, com um igualmente severo Index Librorum Prohibitorum, que nos precipitou no paralítico “non magical universe”. O rock estremeceu sedimentos profundos de maneira tão desconcertante e imprevisível que nenhuma construção científica, antropológica, nem nada que o valha, me parece ser a maneira  apropriada de abordar esse xamã enlouquecido. O “rigor científico” não tem acesso nem à sua sacristia. Apenas alguns deslavados enxerimentos junguianos da minha parte me ajudam a vomitar uma intuição profunda que tenho há tempos: o rock foi um poderoso catalisador e agente catártico no psiquismo ocidental. Num grande festejo a um só tempo bacante, hermético e combativo, nos conduziu a um contato com a dimensão fantástica da nossa Sombra, que vínhamos de muito tempo evitando e mal conseguindo conter. E pagamos preços altíssimos por isso. Então, poderosos Arquétipos foram movimentados. Um bestiário inteiro foi acordado no nosso subterrâneo. Tido pelos prosaicos não-iniciados como uma aparição do diabo, o rock foi na verdade o exorcista mais eficaz e fiel que tivemos em atividade por cerca 30 anos. E falo no passado porque, para mim, esse ente poderoso se retirou do cenário já há bastante tempo. Na verdade, encerrou-se (ou está apenas em suspenso) sua ação mais ostensiva, frontal. Seu período de movimentação na limpeza pesada da cabeça ocidental, quando operou de forma crucial, foi mais ou menos de 1955 até cerca de 1985. Neste intervalo, a grande atuação aconteceu. Se conseguimos ler o ideograma (ou hieróglifo) desenhado pela trajetória do rock, nos deparamos com um tratado alquímico, teatralizado com peso, sensualidade e fúria, bem escancarado na nossa frente.

Com efeito, quando surge, a alma ocidental está mastigada por tudo o que foi o último milênio. Um milênio denso e intenso, que assistiu ao apogeu e declínio da Idade Média, à quase total destruição dos últimos núcleos de cultura pagã na Europa, à Inquisição, à demonização da imagem da mulher, à tentativa de recuperação da cultura clássica, à descoberta e colonização mortífera do Novo Mundo, à empreitada iluminista de elaborar um gênero humano autônomo, racionalmente situado e resolvido no mundo (mas que não conseguiu “ordenar” a vida interior desse novo homem esclarecido e laico, nem livrá-lo de suas angústias mortais), ao acontecimento de duas guerras mundiais, ao desenvolvimento das psicoterapias e às primeiras tentativas científicas de desvendar e controlar a mente e, além de tudo, ao crescimento devorador das tecnologias como nunca se viu. Esse tumulto gigantesco pós-antiguidade clássica deixou nossa sociedade com muito lixo em baixo do tapete, que se converteu numa verdadeira bomba-relógio psicoemocional, por tudo que passou a ser difícil confrontar.

Estando o mundo assim, ainda mais após a grande depressão econômica do início dos anos 30 do séc. XX e o fim da Segunda Guerra, saindo de imensos tormentos e caminhando entre o tédio e a incerteza – e, muitas vezes, desesperança -, e com a instalação da Guerra Fria, começava a crescer uma geração de jovens com todos os motivos pra não endossar e não sentir qualquer identificação com os modelos rígidos do carcomido Ocidente, prontos para escrachar e ignorar todas as falácias sobre heroísmo militar e poder econômico. Uma leva de jovens, nascidos do meio para o fim da Segunda Guerra e que foram vítimas diretas ou indiretas dela, começa a demonstrar abertamente o quanto despreza a roupagem das sociedades puritanas da Europa e dos Estados Unidos e o quanto estão sequiosos por outras histórias.

Esses jovens, predominantemente brancos, muitos de origem proletária, tendo alguns crescido nos subúrbios industriais das grandes cidades ou em zonas portuárias, ambientes onde algumas escórias sociais se misturavam inevitavelmente, não tiveram dificuldades em se aproximar dos sons hipnóticos desse submundo. Mesmo no sul agrário e racista dos Estados Unidos, a figura central de Elvis mostra como outro veio branco, distinto do racista, se esgueirava em meio ao conservadorismo mais medíocre, e absorvia o gospel, o blues e o jazz. Negros, ciganos, latinos, orientais – as bagagens sonoras desses universos proscritos vinham à tona e encontravam muita gente com olhos, ouvidos e cabeça abertos, prontos para se alimentar de tudo.

Os sons, cheiros e sabores dos referidos submundos inebriaram esses jovens branquelos que não faziam e nem queriam fazer parte dos salões de uma aristocracia velha, criminosa, militaresca e obesa; apontavam e conduziam para os locais onde acontece a farra, a mistura promíscua e alquímica de todos os elementos, as três dimensões que vieram a ser o berçário do rock: os bares, a rua e a estrada. O mitólogo Junito de Sousa Brandão diz que Hermes e Dionísio foram os deuses gregos que mais estiveram misturados aos homens e, com isso, esse grande mestre nos dá uma outra Chave para desvendarmos toda uma sorte de mensagens renegadas por nossas idiossincrasias, que não nos permitem perceber movimentações simbólicas extraordinárias, como por exemplo esta: só a combinação poderosa e explosiva de Hermes com Dionísio poderia fazer nascer o psicopompo boêmio que foi o rock and roll. Só os bares (território de Dionísio por excelência) e a estrada (domínio de Hermes, que era deus das estradas e foi o inventor da lira e da flauta) poderiam ser o laboratório mágico dessa música vulcânica e catártica. Dionísio maneja os vícios e apetites sensuais dos humanos, e Hermes é o deus que revela o que está oculto e o único com trânsito livre entre os “três mundos”: o submundo profundo, o mundo dos homens e o Olimpo - ou seja, Dionísio e Hermes combinam de forma ímpar o trânsito através dos vícios reprimidos e das possibilidades sensoriais embotadas com a elaboração musical e a revelação, propiciando uma erupção artística de escala planetária que se instalou como uma escada para o escuro, para descermos com alguma luz ao nosso mundo oculto, ou trazermos coisas de lá para a luz do dia, nos fazendo compreender isto: só uma grande convulsão cultural hermético-dionisíaca estaria habilitada a enfiar a mão na ferida puritana e simplista do que havia se tornado o Ocidente, revolvendo com sofisticação ácida (e lisérgica) e sensualidade incandescente a escuridão e as forças cegas mal contidas sob os bons modos da razão adestrada.
A carta do louco no tarô de Marselha.

Preparado o cenário e com o advento do rádio e a popularização das primeiras gravações em disco, a batida crua do blues foi subindo como fumaça de incenso. Aquelas gravações rústicas de Robert Johnson e demais pioneiros dos anos 20 e 30 apareceram enigmáticas e hipnóticas. Como fazer aquilo tudo apenas com violões de cordas de aço e batendo o pé no chão? De repente, as incríveis possibilidades da simples combinação voz humana/slide guitar abriu um horizonte sonoro totalmente novo e desconcertante para os ouvidos atentos. Porque aquela música não era apenas melancólica, como já tínhamos provado no romantismo erudito e em alguns ritmos latinos; ela também tinha uma sonoridade rasgada, cortante, e, mesmo sem ser propriamente “cigana”, sugeria as andanças. O boêmio errante, com o violão dentro do case, viajando de trem de cidade em cidade, brigando nos bares por causa de mulher ou jogo, proscrito, dormindo em muquifos e bebendo e fumando muito. Essa imagem acompanha desde o princípio o imaginário em torno do bluesman e oferecia perspectivas irresistíveis. Pegar a estrada só com a guitarra debaixo do braço e partir para o mundo, de trem ou pegando carona, com uma roupa surrada e ganhando dinheiro de bar em bar. Estava plasmado um ideal que pertenceu a todos. A carta sem número do Tarô, o Arcano “O Louco”, saiu de casa com uma mochila nas costas e um cachorro em seu encalço – rumo ao precipício, muitos diriam. O Louco provocativo, desafiador e revelador, começou uma jornada esperada há séculos, num feixe de energia oscilatória entre o goliardo e o Cavaleiro.

Essa é, no entanto, a parte mais exotérica e palpável desse novo “ideal”, porque, junto com a aventura emerge também a - igualmente fascinante – aura do maldito. O pacto com o diabo, a paisagem sombria, as entidades espectrais. Uma das lendas que li não sei onde dizia que Howlin' Wolf foi possuído pelo espectro de um lobo, para poder ter a voz que tinha. A célebre possível relação de Robert Johnson com a magia negra e a venda da própria alma em um pacto, talvez numa encruzilhada (tão conhecida da nossa macumba), não apenas nos apontam para o capeta, mas também – de novo – para o ambiente hermético. Ora, Hermes é também o senhor das encruzilhadas e também é ele quem nos leva e traz da escuridão para a luz. A tentação que temos de encarar nossa própria sombra é proporcional ao medo de fazê-lo, criando uma atração-repulsão que nos mantém confusos, numa neblina de sensações imprecisas, enquanto não inventamos de fazer a caminhada consciente.

Cartaz do filme "A Encruzilhada",

E para acender os nervos de aço desse xamã em gestação, Muddy Waters ajuda a botar uma das grandes forças cegas da vida a serviço da Opus: a eletricidade. No filme “Crossroads” (no Brasil “A Encruzilhada”), ele é mencionado como o inventor da guitarra elétrica. Ainda que não o tenha feito sozinho, foi sem dúvida um dos pioneiros na eletrificação das bandas. A energia aterradora presente no trovão é canalizada para dentro dos instrumentos, para produzir efeitos sonoros inconcebíveis antes disso. Mas, é importante ressaltar: dentre os grandes bruxos do blues, a força elétrica foi canalizada justamente pelo que carregava o pântano em seu nome. As Águas Lamacentas trazem à tona todo o vigor simbólico de outra lâmina, o Arcano XVIII do Tarô, a carta da Lua. É de “lua” (“luna”, em latim) que vem a palavra “lunático”, característica atribuída aos xamãs, oráculos e sacerdotes do transe em diversas culturas, e este é um Arcano que, por sua vez, segundo alguns intérpretes, simboliza morte e renascimento, ou “a reforma da casa”. O mestre tarólogo Pedro Camargo, por exemplo, interpretando a carta da Lua, nos fala sobre essa empreitada: “Durante as obras (de reforma da casa) haverá desconforto, sujeira, os esgotos estarão abertos e a presença de micro-organismos que ameaçam a saúde será constante”. Não poderia haver descrição mais cristalina do que foram a quebradeira e podridão promovidas pelo rock em seu apogeu. E ninguém esqueça que o Arcano “A Lua”, no Tarô de Marselha, traz em sua composição tanto lobos uivantes quanto um caranguejo que sai da lama.

Para uma imensa parcela de toda uma geração, tornava-se cada vez mais evidente que vínhamos nos movimentando dentro de uma gaveta apertada, com percepções limitadas e repetitivas. A sensação crescente de sufocamento dentro do consenso social e o tédio face à repetição de padrões, dos discursos religiosos/militares/científicos que não solucionavam nada, somados aos caminhos recém-abertos pelas psicoterapias e ao desenvolvimento da neurociência, assim como os primeiros contatos menos fantasiosos com as religiões orientais e com as práticas xamânicas norte-americanas – todos esses elementos inflamaram uma vigorosa intuição de que nossa mente abriga imensidões muito maiores do que poderíamos perceber enquanto estivéssemos bem amestrados. Havíamos engolido a sugestão (essa sim!) diabólica de soltar o Fio de Ariadne. E a raiva contra essa condição estreita explodiu, como tinha que ser. Mas ninguém tinha o mapa pra sair do labirinto.

Tudo bem, no fim dos anos 50 do séc. XX as referências às práticas meditativas do Hinduísmo e do Budismo já nos chegavam com mais facilidade e fidedignidade, ainda que muito envoltas em uma capa de mistério esotérico/ocultista. No entanto, as então encorajadoras pesquisas com LSD e a popularização de relatos detalhados sobre o uso das plantas de poder pelos índios da América do Norte pareciam mais do que um convite tentador: as substâncias psicotrópicas foram consumidas em larguíssima escala, na tentativa de derrubar rapidamente os muros do nosso consenso psicológico. Neste ponto, lembro a extraordinária e “matadora” conversa que a Monja Coen, mestra zen budista brasileira, teve com seu mestre iniciador. Ela nos relata, que em meio a toda a onda do psicodelismo, perguntou-lhe se eram válidas quelas tentativas de expandir a consciência por meio das drogas, ao que o mestre respondeu: “Para que tentar entrar pela janela se existe uma porta?”. Sim, iniciávamos uma busca pelas portas, mas é evidente que tateávamos sem rumo certo. Depois de tantos séculos de compressão da vida íntima, seja por sistemas teológicos, seja mais recentemente pelas ditaduras filosóficas, econômicas e políticas, sendo nossa alma conduzida à força a viver “do lado de fora” sob vigilância atenta, é claro que nossa civilização não desenvolveu nenhuma intimidade com o que quer que seja a mente e seus caminhos. No entanto, esse sufocamento não conhece o perdão das potências psíquicas subterrâneas. A atitude rock and roll de colocar dinamite nas portas das percepções foi o ricochete irrefreável, o comando implacável: “Vamos derrubar essa porra desse labirinto e colocar o Minotauro no trono de Creta!!!”.

Um novo trovadorismo, lisérgico e elétrico, surge a partir das novidades testemunhadas. A pseudo-confiabilidade dos nossas balizas lógicas e sensoriais é desmascarada, nosso território sempre movediço se evidencia, e o que tanto nos confunde é justamente a natureza deste jogo demiúrgico em que nos metemos. As letras passam, então, a trazer tudo. O texto incandescente do rock visita lugares recônditos dentro da nossa alma, fala das atuais guerras tecnológicas e também das batalhas ancestrais, do nosso constante e mal-disfarçado flerte com a treva, do transe esquizofrênico, da nossa insatisfação crônica e agônica e relata as angústias dos profundos sofrimentos afetivos. Mas nossa experiência fugaz é revista numa viagem de ressignifação; esse trovadorismo eletrificado surge extraindo poder da grandeza épica de Tolkien, mergulhando nos vórtices abissais de William Blake, provocando os símbolos da tradicional cristandade e conduzindo ao salto no vazio interior – desligue, relaxe e escorregue no tobogã buraco de minhoca, “it is not dying, it is not dying”...

O Turbilhão foi acionado quando folk e o blues eletrificados botaram todo mundo na estrada, libertaram a sexualidade e o gosto pelos psicotrópicos. A descoberta do formato “banda”, montado sobre a estrutura bateria, baixo, guitarra e teclado (os teclados foram vitais para a definição do som dos anos 60 e continuaram sendo vastamente utilizados por todas as experiências do progressivo) ajudou a elaborar uma nova configuração de postura no palco e de relação artista-público. O hard rock aterrou as vibrações, trazendo peso, velocidade, fúria, criando os sons energéticos de uma música a um só tempo de farra e de guerra. O peso aumentou – a velocidade também e a fúria também – e o metal, definitivamente desenhado, com suas inúmeras vertentes, como se fossem uma grande rede de cavernas subterrâneas, fez ecoar sons grandiosos e sombrios e os gritos guturais de dragões enjaulados, ansiosos por alçar voo, enquanto o vômito do punk esculhambou merecidamente a afetação da “nobreza” ocidental, com um chute na porta e um soco no estômago, como numa gloriosa briga de rua. E as odisseias sonoras das muitas vertentes do progressivo tanto reconfiguraram a herança medieval e a melancolia romântica, quanto canalizaram sonoridades siderais que pareceram desenhar a trilha sonora perfeita para a ficção científica. Seus temas épicos, gigantescos, sem refrão e sem os tempos e os ciclos melódicos simples que compõem a nossa zona de conforto, usualmente ignoram nossa linearidade lógica, num território de experiências musicais que flutua do mais encantador lirismo às raias do bizarro, até hoje abrindo portais para um sem-número de universos paralelos. E, assim, franqueando o acesso a um jardim de infinitas veredas que se bifurcam, o vastíssimo rock and roll ajudou incontáveis viajantes a se libertarem do que há de mais ordinário na mente ordinária, injetando uma qualidade de força que impulsionou milhões a se rebelarem e enfrentarem os medos, a humilhação, a desolação e o aparente absurdo de estarmos aqui.

Um processo de recomposição do tecido humano ocidental se desencadeou em amplitude inesperada. A fornalha pulsante desses novos padrões musicais, para realizar a Opus a que se propôs, se alimentou de todo o material humano que pudesse encontrar e, para tanto, fez irromperem buscas por todos os símbolos e fragmentos possíveis da nossa história conhecida, bem como da nossa história imaginária. Os ocidentais começaram por pedir a bênção ao blues e, daí por diante, a todos: foram aprender com a Índia, com o Marrocos, com os vestígios árabes na Ibéria, com os ciganos, com o Vodu. Procuraram sofregamente nutrição nos seios de suas culturas-mães, em todas as tentativas de reaprender o paganismo, aprender as cantigas medievais, recuperar todos os símbolos esquecidos da era da Cavalaria, a bruxaria, as memórias celtas e vikings, a Bíblia, a magia cerimonial. Ao longo de toda a sua história, após o fim da civilização clássica, o Ocidente só conseguia materializar sua escuridão na forma dos três flagelos do Apocalipse: a Guerra, a Fome e a Peste (e a Morte provocada pelas três). Mas quando o rock and roll estava na plenitude de sua fúria incendiária, nossa civilização conseguiu engendrar, à luz do dia, algo que nunca tinha sido visto e ninguém imaginaria antes: conseguimos fazer, em escala planetária, A REPRESENTAÇÃO LÚDICA DA NOSSA SOMBRA. Revolvendo todos os parâmetros com os quais o Ocidente via a si mesmo e se relacionava com o resto do fenômeno humano e desaguando também em terras do Leste, estava lá, tudo no palco, nas capas dos discos, no imaginário em torno de cada banda. Gemidos, grunhidos, gritos, rebolados, irreverência, sexualidade escancarada, os ritos orgiásticos com as groupies (repetidos anonimamente por milhares de fãs). O cotidiano prosaico nunca mais foi o mesmo depois dessa martelada de Thor.

Passada a fúria, ele, o rock, se encontra atualmente sem bons médiuns em atividade, mas parece estar oculto entre nós, uma entidade sem forma, num silêncio soturno, irrompendo aqui e acolá - como os deuses da antiguidade, que não são mais venerados, mas que, em sã consciência, ninguém ousa dizer que não existem. Nos segurando na borda do Grande Vulcão, nos ensina a olhar para dentro do abismo onde escorrem sete quedas de lava e de marfim, ao passo que nosso centro de poder interno se acende como um acelerador de partículas. Muitos foram devorados pela energia cáustica que foi liberada, assim como muitos antes haviam perecido de apatia. Inúmeros caíram atordoados pelos movimentos tectônicos das nossas últimas convulsões culturais, e outros tantos pareceram enlouquecer ante as visões que se descortinaram. Mas, aqueles que vão além do transe bioquímico, que escapam tanto do enrijecimento quanto dos curtos-circuitos neurais, que atravessam a espessa massa de barulho – esses, terminam desaguando num vasto espaço sem dimensões, suspensos em ondas de silêncio profundo e, turbinas acionadas, escutam o que parece ser o sussurro primordial: “Set the controls for the heart of the sun, the heart of the sun... THE HEART OF THE SUN!”.

terça-feira, 28 de julho de 2015

A Iconoclastia do Engodo - Por Bruno Vitorino

O cantor pernambucano Johnny Hooker - fonte: Google Imagens.


Acabando nós todos cegos, como parece ir suceder, para que queremos a estética? – José Saramago[1]


Se contada nos dias de hoje, a lenda de Hércules teria não doze, mas treze trabalhos heroicos. Acreditando ser possível a insanidade de reinventar o mito em nosso tempo, o semi-deus estaria a mando não de um Euristeu, rei covarde e fraco, mas de um novo rei sem rosto, hipócrita e mimado que age no invisível, nos limites entre a realidade humana e o mundo imaterial dos bytes, porém que a tudo controla e vigia: o Facebook. Para o filho de Zeus, protegido de Palas Atena, não seriam mais necessárias uma força sobre-humana ante os obstáculos, um destemor impávido frente às manifestações bestiais dos caprichos dos deuses e uma bravura rutilante de se embrenhar nos além-mundo dos homens. Tudo isso seria inútil, vão. A ele não seria exigido mais que uma paciência interminável e uma consciência profunda do gritante despropósito de suas tarefas.

Em meu delírio, exercício deliberado do anacronismo e das atribuições errôneas, imagino que, logo após enfrentar a hidra, aquela besta do mundo subterrâneo, de corpo disforme, com inúmeras cabeças mesmerizadas a esconder uma outra de contornos mais definidos, tez avermelhada e dona de um raciocínio cinicamente partidarizado dissimulado em gritos de fúria retórica, a qual ocupa os armazéns do Cais José Estelita avocando para si a exclusividade em proteger a joia do Estelita; deveria nosso Hércules contemporâneo encarar o trabalho extra que lhe imputou seu novo suserano: ir a um vernissage cult e descolado no lounge do novo Roof Tebas embalado ao som do disco de estreia do cantor pernambucano Johnny Hooker, “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!”. Pois, só na condição de semi-deus para suportar uma audição a sério desse trabalho (e por “a sério” entenda-se “de forma concentrada, minuciosa”, partindo do pressuposto que há nele algum valor estético).

Em seu disco, Hooker faz da canção a plataforma do escracho e da dor de cotovelo brega cult de maneira muito sagaz - obviamente não do ponto de vista musical ou poético -, pois, sendo a persona que incorpora um gay libertino, coloca seu trabalho artístico num campo minado moral patrulhado tanto pela sociedade descentrada da pós-modernidade quanto pelas minorias ativistas e seus seguidores. E ao fazer isso, o cantor assenta seu trabalho (e ele sabe disso, imagino) num território inacessível à crítica, a qual, sem o menor trabalho (especialmente a local, bairrista ao extremo), logo arruma meios para enaltecer o viés “performático, provocador e iconoclasta” do artista pernambucano em textos marcados pelo oba-oba laudatório, de brodagem clientelista, endossando, assim, o elogio mútuo de uma forma que só uma dispendiosa assessoria de imprensa poderia proporcionar. Jornalismo cultural domesticado que, deixando-se levar pelo complacente espírito do clubismo e pela lógica passageira das tendências, substitui a reflexão estética pela chancela de valor das estrelas de sempre e dos “queridinhos” do momento. Negócios, enfim.

Qualquer análise mais a fundo que exponha a fragilidade da condição artística do cantor periga ser desqualificada pelas armadilhas das questões minoritárias de gênero - neste caso a tag “homofóbico” logo me vem à tona - e seu autor, de ser vilipendiado publicamente nas infinitas terras do rei de hoje. Sei disso. Mas, ousarei aqui correr o risco, pois parto de um pressuposto humanista muito elementar: todo ser humano tem alma, independente de cor, credo, nacionalidade, classe sócio-econômica e opção sexual. E é essa essência que sente, chora, ri, essa coisa sem nome, única, que trazemos dentro de nós que me interessa, não o papel social que seu invólucro desempenha. O mais é puro supérfluo, e eu não cometerei o erro generalizado de substituir a essência pela carapaça. Outra coisa: até onde me consta, sou livre para pensar, e na condição de crítico musical tenho a obrigação de problematizar uma obra, gostando ou não dela, e de lançar um olhar independente que, além de qualificá-la, perceba suas relações com a realidade que a circunda.

Previamente esclarecidas algumas questões para uma eventual patrulha dos moralistas inveterados da contemporaneidade e da cavalaria da Verdade Comportamental do rei Facebook, e mirando no que importa, resta dizer que o disco de Johnny Hooker é musicalmente fraco, porque se baseia no cansativo lugar-comum da estética brega-cabeça da classe média recifense, releitura higienista da periferia apesar de se dizer o contrário, que elevada à categoria de arte tomou conta da produção musical desta pequena vila. Tudo bem que os arranjos de metais são surpreendentemente bem feitos e bem executados, e que Hooker sabe, ao menos, projetar sua voz com algum cuidado nos timbres e na afinação. Algo por si só raro dentre os cantores da “cena” recifense, supondo logicamente que não esteja o Pro Tools e outras maquiagens eletrônicas a nos fazer de tolo. No entanto, é muito pouco para salvar o disco de uma banalidade sonora que remete a uma quase modorra.

Além disso, o álbum é poeticamente vulgar - para muito além das questões de gênero - pelo simples fato de ser mal escrito e chulo, denotando um amor caricato entre indivíduos desprovido de qualquer dimensão metafísica, romântica, digamos assim, que no final reduz os amantes a uma condição animalesca de pura carne na qual se relacionam tão somente por instinto, numa espécie de fauna selvagem e exótica em eterno cio. Como fica evidente, por exemplo, na balada à trilha sonora de Tarantino Volta - “É impossível ter de escolher entre teu cheiro e nada mais” -, na “sofrência” com toques de guitarra surf music de Alma Sebosa – “Não responde meus recados, me trata feito lixo / Se não me quiser, não me procure nem mais pra foder”, na construção de óbvio duplo sentido do ska dançante Chega de Lágrimas – “Chega de lágrimas, eu vou meter... / O pé na estrada / Me livrar de você”, no carimbó Boato – “Bebo o leite quente do amor da gente / Nada me satisfaz”, no pop brega Você Ainda Pensa? – “Você ainda pensa em mim quando fode com ele?”, no pastiche de frevo canção Desbunde Geral – “A gente se pega, se bole e se morde no chão de estrelas / Que meu corpo receba o desbunde geral”. E fica nisso.

“Mas Bruno, você tem de entender que só o fato de um artista debochado como Johnny Hooker existir já é, por si só, um ato de coragem, e não reconhecer isso é, no mínimo, preconceituoso sim!”, pareço estar ouvindo a repreensão de Sua Majestade Rede Social. Aí, alteza, com toda a humildade devo dizer que discordo duplamente. Embora que não considere aqui primordial a questão de gênero, como já disse antes, claro que enxergo que o lugar da fala tem sua relevância para entendermos as questões do discurso. Bourdieu e tantos outros já discorreram sobre isso em inúmeros trabalhos. Porém, não importa aqui a sexualidade do interlocutor do discurso poético, ou seja, de onde vêm os enunciados, pois qualquer que seja ela não salva a baixeza da mensagem em si. Eis a primeira discordância.

Já em meu segundo desacordo digo que, se olharmos com cuidado para o álbum do cantor recifense como um todo, veremos que ele mais parece se situar numa butique de luxo de um estilista qualquer ou num apartamento bacana nas áreas mais exclusivas da cidade com o simples intuito da controvérsia efêmera, do que nas trincheiras cotidianas da luta da comunidade LGBT na batalha pelo respeito, dignidade e reconhecimento a que tanto faz jus. “Ah, mas é uma performance artística, Bruno! Por favor...”, grita impaciente o rei. De fato, Majestade. Mas, o que fica dela? Um choque gratuito? Uma polêmica midiática vã? Uma sedição mercantilizada? É para isso que serve a música? É esse o grande mérito artístico de Johnny Hooker? Se for, acho muito pouco. E se é para dar um exemplo de uma notável produção artística de gênero, prefiro muito mais, em termos de realização cultural e repercussão na sociedade, um filme como “O Segredo de Brokeback Mountain”: uma obra de arte com incomparável beleza plástica, conteúdo emotivo, críticas contundentes a modos e costumes arraigados na tessitura social e reflexões bastante pertinentes e fundamentais sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. O lugar da fala e o conteúdo da fala estabelecendo entre si um forte vínculo através de um trabalho de vasta densidade estética, cultural e artística.

Por estas razões, vejo em todo o frenesi promovido pela imprensa e público em torno da figura artística de Johnny Hooker como uma declaração contumaz de que estamos mal, mas muito mal mesmo, em termos de Cultura, e que “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!” é apenas mais um dentre tantos outros álbuns desnecessários provavelmente fadado a, dentro de mais alguns meses, cair no total esquecimento, substituído por um novo e lucrativo modismo transgressor de ocasião. 






[i] SARAMAGO, José; “Ensaio Sobre a Cegueira”, Companhia das Letras, São Paulo, 2014, pág. 128.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

No Passo de Caymmi - Por Giba Carvalho




O Grupo Casuarina está no mercado musical brasileiro há 13 anos e, após o lançamento comemorativo do “CD/DVD – 10 anos de Lapa”, os garotos cariocas emplacaram um trabalho de releituras da excelente obra de Dorival Caymmi. Só o fato de tal escolha já é de grande mérito, afinal, não é qualquer amontoado de “Zé Manés” que tem capacidade de pesquisar e desenvolver novos arranjos para tão grandiosa e profunda obra. O mar de Dorival Caymmi não é mar para marinheiros de primeira viagem, principalmente, porque possui gravações peculiares e imortalizadas pelo próprio compositor baiano.

O álbum é um compilado de canções lançadas entre 1939 e 1994, perfazendo um total de 16 faixas (muito embora possua 17 no disco) e uma vinheta levada apenas com dedos estalados e vocalizações, que é o que ocorre no samba “Maricotinha”. O que me deixa feliz com relação a grupos como o Casuarina é a evolução a cada novo lançamento. É perceptível o esforço dos rapazes para melhorar desde a qualidade vocal, aos belos arranjos desenvolvidos por João Fernando (Bandolim) e Daniel Montes (Violão 7 cordas).

No passo de Caymmi começa com uma versão vocal da tradicional Suíte dos Pescadores, onde fica claro o supracitado. Os rapazes trabalharam bem as vozes, mas, capricharam ainda mais ao harmonizá-las. Você já foi a Bahia? chega trazendo um molejo peculiar aos ritmos baianos mesclado com a ginga do samba carioca. Peguei um ita no norte, demonstra que o minimalismo do arranjo caiu como uma luva ao tom jocoso com o qual João Cavalcanti a interpreta (uma das minhas preferidas). Saudade da Bahia é um espetáculo à parte! Daniel Montes dá uma aula no arranjo desta canção e comove os ouvintes com seu Violão de 7 cordas. Inicia calma e depois o ritmo similar a uma marola toma conta do pedaço. Dora, inegavelmente, é uma das canções mais bonitas da carreira de Dorival Caymmi. Sua gravação original é belíssima e única e, por mais que o executado pelos garotos cariocas seja de muito valor, passa longe da gravação original. É doce morrer no mar possui os mesmos problemas da antecessora. A intensidade de Caymmi sobra no original e a ausência dela é completamente perceptível no trabalho do Casuarina. O bem do mar, que é um clássico supremo brasileiro, surge para por equilíbrio ao trabalho. Arranjo e voz, desta feita a de Gabriel Cavalcante, caminham lado a lado de modo especial. Sem sombra de dúvidas um dos destaques do disco.



O grupo Casuarina tem um trabalho próprio que, praticamente, foi todo concebido nas noites boêmias e de agitação na Lapa. Conforme dito pelos próprios integrantes, diferentemente do que é apresentado neste trabalho, eles costumam apresentar-se com uma formação maior e “da bagaceira”. Em duas canções do disco eles provaram do próprio veneno. Lá vem a baiana e O que é que a baiana tem? parecem ter sido vestidas unicamente com roupagem das músicas do repertório usual dos rapazes. Execuções corretas e de clima “festinha da night”, mas perdendo muito do charme original. Na sequência, encontramos a divertidíssima Requebre que eu dou um doce. A mesma inicia em ritmo cadenciado e explode num samba de roda de primeira. Percorrendo um caminho contrário a que a antecede, João Valentão entra em jogo partindo para cima e caindo num extraordinário clima melodioso. Para coroar tal arranjo, somos presenteados com um solo belíssimo de João Fernando e seu bandolim, ladeado pela execução pontual do 7 Cordas de Daniel. Uma riqueza! Marina e Só loucosurgem para causar imenso diferencial. A primeira é um clássico da música brasileira e a segunda é de uma beleza cativante. As versões do Casuarina superam até mesmo as gravações originais, principalmente, no esmero com que os arranjos foram concebidos. Estes dois sambas-canção também são pontos altos do trabalho. “A vizinha do lado” possui uma versão bastante animada, no entanto, penso que o grupo poderia ter ousado um pouco mais em sua execução. A conhecidíssima “Maracangalha” aparece no final apenas para dar o tom de despedida.


Ainda que com certa oscilação em alguns pontos, considero “No passo de Caymmi” um dos bons trabalhos feitos ultimamente no Brasil. E como é bom percebermos o esforço do desenvolvimento de um grupo novo, com músicos que sabem executar bem seus instrumentos e utilizar bem suas vozes. Fica a dica!

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Chasing Yesterday: Noel Gallagher´s High Flying Byrds - Por Fernando Lucchesi




Se há alguns atores que não conseguem se livrar do estigma de um papel, alguns músicos também não conseguem se livrar de alguns dos seus sucessos ou de sua antiga banda. Noel Gallagher bem que tentou no seu primeiro disco com seu novo projeto, o homônimo High Flying Byrds. O disco tinha canções ótimas e muito bem trabalhadas do ponto de vista de arranjos e melodias como “The Death of You and Me e “Wrongbeach. Após um hiato de pouco mais de três anos ele volta com o mesmo projeto e um novo disco, Chasing Yesterday. No entanto, basta ouvir a primeira música do álbum para percebermos de imediato que Noel Gallagher ainda não se livrou dos fantasmas do Oasis e de sua canção mais conhecida, “Wonderwal.

Riverman, faixa de abertura, sintetiza todos esses fantasmas que ainda circundam o músico. Tem aquele mesmíssimo violão de "Wonderwall" sem possuir a maior virtude desta que é uma irresistível levada pop. É somente mais uma música que poderia estar em qualquer um dos piores discos do Oasis. Acrescente-se a isso um solo de guitarra completamente sem sentido e teremos um péssimo exemplo de música “inspirada” em outra. A falta de originalidade não se resume apenas à “Riverman”. “In The Heat of The Moment”, “The Dying of The Light”, “While The Songs Remains The Same” e “Ballad of The Mighty I” são faixas que parecem estar no disco apenas para acrescentar tempo. São enfadonhas e sem um pingo de originalidade nos arranjos, além de terem melodias pouco cativantes.

Os melhores momentos do disco estão na segunda metade. Há algumas faixas que merecem destaque. “The Mexican” com sua levada “stoneana” e um excelente riff talvez seja o ponto alto do disco. As melhores faixas do disco, na verdade, são aquelas em que o músico arrisca colocar as músicas mais aceleradas e levar mais para um lado rock n´roll.  Funcionam bem nesse sentido “Lock All The Doors” e “You Know We Can´t Go Back”. A exceção a essas faixas mais aceleradas é “The Right Stuff”, mais próxima de uma balada, mas com um ar soturno com trechos de sax e efeitos psicodélicos. O backing vocal de Joy Rose ajuda a ressaltar esse caráter psicodélico da música.

Se há um adjetivo para classificar Chasing Yesterday é mediano. Metade das faixas têm ótimos arranjos ou melodias e outra metade carece de um mínimo de inspiração. Tomara que num próximo álbum, Mr. Gallagher retome a inspiração do primeiro disco do High Flying Byrds.

domingo, 28 de junho de 2015

Variações em 4/4: Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!



Na coluna deste mês, os editores do blog comentam o disco de estreia do cantor pernambucano Johnny Hooker, “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!”

Boa leitura!

- Giba Carvalho:

Johnny Hooker é uma mistura de Cazuza com Ney Matogrosso da Rua da Moeda. A afirmação pode parecer irônica, mas, não tem nada de ironia na mesma. Escrachado nos vocais como o ícone oitentista, performático como gigante Ney e recheando seu disco com tudo aquilo que é modinha na cena cultural recifense (quiçá brasileira), o ator-cantor pernambucano vem galgando seu espaço a passos largos dentro da carente música nacional.

“Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!” (EVFUMPTA,M!) é um animado disco de dor de cotovelo daquelas de arrombar! Lágrimas incontidas, berros e emoções aflitas são os principais fatores encontrados no disco. E o garoto não compõe mal com seu palavreado usual, cru e urbano.

Musicalmente falando, ao contrário do que se propaga por aí, o referido álbum não é a “salvação inovadora do mercado”. Mas, ressalto três pontos bastante interessantes:
Os arranjos de metais do álbum são primorosos! 
Inegavelmente, o trabalho de Hooker tem personalidade. Para mim, este é um ponto de grande valia.

E, o principal, embora muitas vezes parecendo com Cazuza, o rapaz canta bem. E isto, num meio que perpetua e idolatra “Otto`s, Trummer`s e Buhr´s” (onde o bonito é cantar mal), é uma diferença IMENSA!

“EVFUMPTA,M!” é daqueles álbuns que será bem recepcionado nas festinhas “descoladas” de Recife, passando pelos “pega-bêbo” onde cornos choram as suas lágrimas e em vários Mp4 da “tchurminha” da cidade. Se isto vai enquadrar-se no seu conceito pessoal de música popular, já é outra história. Vou mais além. Conscientemente ou não, o disco de Hooker é um trabalho lançado no momento exato para fazer sucesso e passa longe de qualquer postura “careta” e “conservadora”. Particularmente, não é o que costumo (e gosto) de ouvir, mas ainda assim, prefiro o escracho a sacarose exacerbada da MPB Cupcake, tão propagada aos quatro ventos.

Destaco no álbum: “Volta”,  “Alma Sebosa” e “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito”.


- André Maranhão:

O álbum de Johnny Hooker é bom, assim como a sua eleição de melhor cantor de canção popular, no último Prêmio da Canção Brasileira, é positiva. Há algum tempo, a música produzida em Pernambuco que propõe uma estética vinculada ao BregaCult, ou ao Pop, não apresenta em sua linha de frente tantos artistas afinados e que, ao mesmo tempo, criam trabalhos autorais bem feitos. Pelo contrário, é possível nos depararmos com performers muito mais cuidadosos com seus elementos gestuais, figurinos do que com a precisão e segurança dos seus cantos. Diferentemente, Johnny Hooker consegue se fazer um bom cantor, ao mesmo tempo em que se vale de maquiagens chamativas e traz consigo um figurino interessante, cujas influências de Secos e Molhados, David Bowie e do Tropicalismo podem ser claramente apontadas. Em seu disco, as faixas que mais chamaram a minha atenção foram “Alma Sebosa”; “Volta”; e “Você Ainda Pensa”. De modo mais amplo, as canções de Johnny Hooker trazem poucos acordes, melodias claras, bem executadas pela banda, como também letras coloquiais e bem escritas. Portanto, creio que o trabalho de Johnny Hooker consegue atrair pelo fato de nos oferecer o que há de virtude quando a forma do simples se apresenta de maneira bem executada.

- Fernando Lucchesi:         

Não é fácil categorizar “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!”. O disco de estreia do pernambucano Johnny Hooker é uma junção de tudo que há de mais popular na música brasileira. Há brega, pop, um pouco de rock e até mesmo frevo. A temática das músicas de Hooker gira em torno das relações amorosas e os sentimentos que delas derivam como tristeza, mágoa, felicidade, superação e, eventualmente, do perdão quando do fim do relacionamento.  O que chama a atenção são os arranjos “bregas” (coloco entre aspas, pois são mais baseados em gêneros caribenhos do que no brega feito e produzido no Brasil) e a voz rascante e melodiosa de Hooker que se encaixa perfeitamente na dramaticidade das letras.

Os destaques do disco são, além da faixa título, “Volta” (um bolero com roupagem moderna), “Alma Sebosa” (que segue a mesma linha das duas anteriores), “Chega de Lágrimas” e “Amor Marginal” (curiosamente as cinco primeiras músicas). O resto do álbum é interessante, mas as faixas não são tão intensas como as acima citadas, porém são bastante coerentes com a ideia central do disco. Ótima estreia de Hooker.


- Bruno Vitorino:

Um disco que mergulha no clichê da dor de cotovelo e se vale do cansativo lugar-comum da estética brega-cabeça da classe média recifense que, elevada à categoria de arte, tomou conta da produção musical desta pequena vila, com letras escrachadas sobre amores mau resolvidos e estereotipados, só que cantados por um artista jovem, performático e com forte apelo à mídia que sabe, ao menos, como projetar sua voz (o que por si só já é raro no Recife), e que eu não aguentei ouvir até o final: eis o máximo que consegui escrever com o pouco lastro que “Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!” me proporcionou.

Ouça até o fim, se for capaz.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O Fascínio da Heresia – por Bruno Vitorino


Ornette Coleman. Fonte: Google Imagens.

O mundo do jazz perdeu hoje um de seus filhos mais pródigos: morreu, aos 85 anos, o compositor e saxofonista Ornette Coleman.

Nascido no Texas, autodidata, Ornette começou no blues, tateando as formas, descobrindo no ato da performance o insondável poder da improvisação e construindo desde o início uma sonoridade única, fruto de uma necessidade premente de expressar a si mesmo, ir além da óbvia e inescapável influência de Charlie Parker, romper com as cercanias estéticas da tradição. Por conta disso, sempre foi uma figura controversa, impressionando muitos com seus fraseados aparentemente soltos e sua música livre (como o pianista Paul Bley que, reconhecendo o gênio, foi o primeiro a gravar o conjunto do saxofonista num disco em que aparece como líder); mas também colecionando inúmeros detratores que viam nele nada mais que uma fraude, um músico menor que não sabia tocar seu instrumento (como um enciumado Miles Davis que de repente não era mais o centro das atenções).

Reza a lenda que Coleman, numa das muitas jam sessions de seus anos de formação, foi interpelado pelos outros instrumentista por estar “tocando errado”. De fato! Ao ler as partituras, os músicos repararam que ele não estava transpondo as notas como se esperaria que um saxofonista o fizesse – o sax alto é afinado em mi bemol e não em dó. Era como se ele tocasse uma melodia paralela, que se chocava com o campo harmônico estabelecido pelo encadeamento de acordes. O que era ouvido pelos demais como desafinação soava aos ouvidos de Ornette como natural. Esse paralelismo melódico foi depois estruturado num método de composição e improvisação que o saxofonista chamou de “Harmolodics” – e, por sinal, esse princípio era o que dava a força do duo Ornette Coleman/Don Cherry. Em resumo, Coleman privilegiou a improvisação coletiva, a superação do centro tonal e da progressão harmônica e subverteu a concepção rítmica de swing, ou seja, “apenas” demoliu os pilares estéticos do jazz e o revolucionou ao abrir caminhos inteiramente novos. Isso em 1959, quando o Ornette Coleman Quartet chegou a Nova Iorque para uma lendária temporada no Five Spot Café, monopolizando a atenção de toda a cena jazzística de então. Um estrondo tão imenso que encobriu inclusive um certo “Kind of Blue” que fora lançado à época...

Manteve-se na ativa, produzindo, procurando, arriscando-se e refletindo sobre música e seu papel na sociedade até os últimos momentos de sua vida, conforme registra sua vasta discografia, que traz em si alguns discos obrigatórios para qualquer ser humano que manifeste o mínimo interesse por música: The Shape of Jazz to Come, Free Jazz, Change of the Century, This is Our Music. Um gênio dentre uns poucos na música contemporânea que deixa um legado inestimável para a humanidade.

Particularmente, tive a sorte de ainda conseguir tê-lo visto em ação. Foi em novembro de 2010 que assisti a um Ornette já velhinho, lânguido, é verdade, mas nem por isso menos comprometido com a comunhão espiritual que nasce da música, com seu projeto Sound Grammar a por tudo abaixo. Quanta profundidade expressiva, diálogo, riscos, beleza e complexidade. Quatro músicos respirando como um só, comandados por uma racionalidade inquieta e amparados por uma emotividade absolutamente humana.

Foi-se um mestre que se alimentava daquilo que o historiador Peter Gay chama de “fascínio da heresia”: aquele impulso atávico de se por em xeque, de manipular o proibido, de negar o cânone e de criar o novo. O mundo perde bastante com seu retorno ao éter.

R.I.P.

domingo, 10 de maio de 2015

Variações em 5/4: Vulnicura



Na coluna deste mês, os editores do blog comentam o mais novo trabalho da cantora Björk, seu recém-lançado “Vulnicura”.

Boa leitura!

- Giba Carvalho:

Em seu novo álbum, Björk tenta expor e ao mesmo tempo sarar as feridas do fim do seu casamento. Parece receita de bolo da vovó, mas até mesmo na gélida Islândia, o idoso mote afetivo serve como inspiração para novas composições. Pois bem, "Vulnicura" é um disco muito bem produzido e que possui alguns pontos interessantes.

Primeiramente, os trabalhos da "Deusa do Gelo" parecem ser feitos para transcender o espaço único da música. Talvez por conhecimento das apresentações ao vivo de Björk, insista em dizer que a artista em foco pensa sempre que seus discos são unicamente para encenações tão peculiares as suas apresentações. É como se fosse uma peça de teatro constante, intensa, lotada de diversos artefatos e que toda produção fonográfica fosse a trilha sonora para tal. Ao vivo funciona muitíssimo bem. Já para audição, “Vulnicura” torna-se enfadonho e confuso.

Os gemidos incessantes de Bjork transitam de forma eficaz numa tentativa de mesclar música erudita com tons de eletrônico. Tenho que levar em consideração, que em comparação com trabalhos anteriores, este é um dos álbuns que ela menos arriscou em termos instrumentais. Isto fez com que o disco soasse altamente estranho. A mescla supracitada é insuportável (com exceção dos arranjos de cordas que são muito bons). Voltando ao ponto de vista vocal, a cantora desfila momentos de extrema emoção e dramaticidade em vários momentos do álbum. Para que o leitor tenha idéia, as seis primeiras canções do disco são como se fosse um glossário dos períodos pré e pós-separação. Não tem como não ser de outra forma. É completamente perceptível.

“Vulnicura” é um disco passional por inspiração, chato nos arranjos e contraditório nas composições. Nada diferente das almas que sofrem por amor.

- André Maranhão:

Para mim está bem claro que Björk é um ícone da música. Seus lances performáticos, somados aos seus gestos camaleônicos deixam isso claro há mais de décadas. O álbum “Vulnicura” também faz jus a todas essas qualidades da artista islandesa. O uso de instrumentos eruditos embaralhados com sintetizadores, colagens, ruídos sampleados, além da vocalização bastante afinada de Björk, contendo, inclusive melodias nórdicas, estão presentes nas canções desse trabalho. Creio que em algumas faixas isso funciona bem. Aqui, destaco Stonemilker (para mim, a melhor do disco); History of Touches; Atom Dance e Black Lake – embora, não considere todas elas necessariamente boas por completo. As demais faixas me parecem confusas, onde Björk vagueia entre os mares de sua voz desconexa com os ritmos eletrônicos e os instrumentos acústicos que trouxe para o álbum. Apesar da importância dessa artista, confesso que em alguns momentos, foi uma tarefa bastante árdua concluir a audição de “Vulnicura”. Mas é possível que ao se combinar com as apresentações de Björk no palco, essas canções envolvam mais, pois lá estarão presentes outros recursos multimidiáticos e cênicos, tais como telões, figurino, maquiagem, expressão corporal, importantes para compor o sucesso da artista, cuja competência ela já demonstra possuir faz tempo.

- Fernando Lucchesi:         

Ainda me recordo a primeira vez que ouvi falar em Björk. Uma colega de classe me falava demais sobre a banda dela, o Sugarcubes. No entanto, como qualquer pessoa no começo dos anos 1990, a primeira vez que vi e ouvi Björk foi através da MTV no clipe de uma música chamada Human Behaviour. Clipe muito bem feito, mas quando ouvi o estilo de música que ela cantava a decepção foi grande. Aquela voz baixa, quase fraca que parece que vai desaparecer realmente não fez minha cabeça. Eis que agora foi proposto pelo blog analisar o novo álbum dela, intitulado “Vulnicura”.

Bom, quase 20 anos depois de ter escutado Björk pela primeira vez continuo achando uma das coisas mais enfadonhas da música. A voz dela aliada a alguns arranjos de teclado meio New Age transformam boa parte do álbum num excelente soporífero, mas seria injusto dizer que tudo é ruim. Os arranjos de cordas são muito bonitos e bem executados, como, por exemplo, em Stonemilker e Lionsong, só para citar dois exemplos. Outro destaque do disco é a longa e intensa Family

Enfim, se você é fã de Björk você vai se deleitar com Black Lake, uma mistureba de sons eletrônicos de dez minutos de duração e vai achar o disco uma das coisas mais revolucionárias do planeta. Mas se você, assim como eu, não tem nenhum apreço pelo som dela, passe longe desse disco.

- Bruno Vitorino:

Não sou um expert em Björk. Muito pelo contrário. Quase nada conheço da cantora, além de sua brilhante atuação no filme “Dançando no Escuro” (2000), dirigido por Lars von Trier, e da trilha sonora que a artista compôs para esta película densa e emocionalmente profunda. Lembro – e isso faz muito tempo – de ter ficado bastante impressionado com a música em si, o uso que Björk fazia de batidas eletrônicas, da sonoridade emanada do maquinário que sua personagem manipulava, das harmonizações vocais, dos timbres orquestrais, enfim com a música grandiloquente feita por alguém que sabia exatamente o que estava fazendo. Um trabalho musical primoroso que dialogava de modo muito interessante com o filme, conferindo-lhe ainda mais peso emotivo. Por sinal, nunca me esqueci do quão desnorteado fiquei ao final da sessão de cinema. O impacto do filme, potencializado pela trilha sonora, atingiu-me em cheio e saí da sala embevecido pelo prazer estético.

Para além deste trabalho, no entanto, nada conheci além do hype-diva que envolve a cantora islandesa. E, apesar de ter gostado de “Dançando no Escuro”, todo este frenesi cult me manteve afastado e absolutamente desinteressado por sua música desde então. Acabei trilhando outros caminhos sonoros que me levaram para longe de suas fronteiras estéticas. Contudo, “Vulnicura” e a necessidade de comentá-lo para a coluna fizeram com que me reencontrasse com Björk depois de todo esse tempo. Foi, confesso, uma agradável surpresa.

“Vulnicura” é um disco extremamente íntimo no qual a cantora disseca o fim de seu relacionamento com Matthew Barney e a devastação humana que isso lhe causou numa espécie de drama eletro-orquestral. É um disco fragmentado, como um coração em frangalhos, onde cada canção esmiuça resquícios de sentimentos por vezes conflitantes, pinta aquilo que poderia ter sido entre eles e medita sobre as repercussões emocionais do ocaso do amor onde, no entanto, um ainda ama. Porém, a segmentação do álbum, mais do que comprometer sua coesão narrativa, aprofunda-a, pois cada música parece estabelecer entre si um laço emocional, como se cada uma delas jogasse luz sobre um aspecto diferente do sofrimento uno. O andamento largo que perpassa todo ele, mantém, do ponto de vista musical, sua unidade e é o fio condutor que leva o ouvinte a percorrer as paisagens emocionais que  Björk constroi com o uso de belas tessituras nas cordas, de uma sólida base rítmica promovida pelas programações eletrônicas e de ricas melodias que cortam os céus desses mundos confidenciais. Destaque para Stonemilker, History of Touches e Family.   

Sim, concordo, o disco é "paradão" (embora prefira o termo “contemplativo”). Sim, as inflexões vocais de Björk são, de fato, um pouco irritantes (embora haja muita beleza expressiva e técnica em sua voz). Sim, reconheço também certa contaminação new age nos temas (embora prefira ouvir os ecos de Jean Sibelius que as cordas me trazem). Concordo com tudo isso! Mas, se levarmos em consideração que vivemos num tempo no qual os artistas se reduziram a celebridades midiáticas que fomentam estilos de vida e padrões de consumo, que a sensibilidade coletiva se vulgarizou ante o inútil e o superficial, que pouco ou quase nenhum espaço é dado à criatividade no que sobrou daquilo que a humanidade conheceu um dia por arte; somos obrigados a reconhecer a coragem de Björk em compartilhar, de modo franco e inteiramente aberto, com milhares de pessoas ao redor do mundo, o abissal e doloroso mergulho dentro de si traduzido de maneira bastante exitosa numa música tão delicada, e de certa forma resgatar, com isso, a perspectiva esquecida da arte que busca unir os indivíduos no abstrato de seu arcabouço simbólico. Particularmente, acho um feito notável neste “mundo prostituto”, para usar uma expressão de Rubem Fonseca.

Por todas essas questões, meus caros, “Vulnicura” é um disco que merece, ao menos, uma audição bastante atenta.

- Rógeres Bessoni:

Björk, usualmente, me tira da minha zona de conforto. E isso está longe de ser um demérito. Mas, por si só, também está longe de ser um mérito. “Vulnicura” me trouxe, em seu começo, elementos poderosíssimos para mim, que são os excelentes arranjos de cordas, em alguns momentos com matizes dos violinos do leste europeu, de que tanto gosto. E terminou por aí. Para todo o resto, aplica-se o que vou morrer de velho falando, sem nenhum constrangimento – ao contrário, afirmo cada vez com mais firmeza: o mundo musical da pura técnica, sem melodia e sem apresentar uma construção sólida, me interessa muito pouco ou nada. E não acho que “Vulnicura” é um exemplar de “pura técnica” musical. No máximo, pode ser uma boa experiência sonora de técnicas de estúdio. No caso específico de Björk, a simples opção pela estética do bizarro não traz para mim nenhuma experiência de acréscimo ou revelação. Digo isso porque, para que “sirva” de alguma forma, a vivência de sair da zona de conforto tem que ter caráter iniciático. Um Mestre sempre lhe conduz a perceber como era mais estreito o lugar que você ocupava antes, e como é melhor a nova visão que se abre. E estamos falando de música, 45 minutos de andamentos quebrados, praticamente sem nenhuma linearidade, ruídos tecnológicos, sussurros, ruídos humanos que parecem de agonia, a loucura, o soturno, a fronteira do horror...

Ah, eu captei exatamente o que o álbum queria? A visita aos porões de uma mente atormentada? O transe esquizofrênico? Relatos do terror noturno? Uma tarde de um domingo de chuva, em depressão profunda, num sanatório? A literatura já produziu obras-primas por esses caminhos. O cinema também. A pintura e a música também. Era isso que Björk queria passar, e eu, acertadamente, captei? Não sei, e não é o que me interessa que falo em MÚSICA. A construção musical baseada exclusivamente em desconstrução não me diz absolutamente nada. O choque pelo choque não me conduz a nenhuma experiência estética libertadora, em nenhuma vertente da arte. Por exemplo, até hoje considero que assistir ao filme “Irreversível”, com o estupro de Monica Bellucci filmado em tempo real, sem cortes, foi um dos empregos de tempo mais inúteis da minha vida. Não pensei nada mais iluminado depois de ter me submetido àquilo. Foi assim que os últimos 45 minutos de Bjork não me libertaram mais do que 5 minutos de Mutantes, nem me revelaram a alma humana mais do que meia letra do Pink Floyd. Eloquência, maestria poética e virtuosismo, domínio da plasticidade dos sons - esses elementos são manejados acertadamente e grandiosamente por poucos. Nem todo ajuntamento de elementos configura para mim uma construção, ainda que espelhe uma intenção.

Hoje em dia, por exemplo, meu querido Recife é um amontado de edificações, e discute-se se isso resultou numa cidade. A ininterrupta fratura rítmica pode até ter revelado a descontinuidade da cabeça de Björk, pode até ter sido uma realização deliberada, planejada, mas não me conduziu pelas minhas próprias quebras existenciais – se é que o álbum algum dia se propôs a isso. Aquele encadeamento de sons não produziu em mim a perplexidade, a surpresa do aprendizado. E, ademais, quando uma obra pretensamente artística nos conduz ao desconforto, é significativo que também suscite em nós o deleite do insight, sem o qual esse desconforto não pode ser contemplado e digerido. Uma  situação de tormento perene, sem alívio, não se converte em luz – no caso, não se converteu em uma “luz estética”, digamos assim.

O portentoso rock progressivo, em seus diversos matizes, já me mostrou abismos. Mas, assim como Dante atravessou o horror guiado pela poesia, personificada em Virgílio, o progressivo nos conduz também por uma riquíssima malha poética e por um território de grande virtuosismo musical, além de verdadeiras odisseias melódicas. É, pois, ante todo o assombro que grandes obras já operaram em mim, que “Vulnicura” se me apresentou verdadeiramente sofrível. Eu sinceramente acho que o universo do ruído agressivo, do torto, do bizarro, do “desconstruído”, é um abismo em que a ocidentalidade caiu, e do qual não sabe sair. Pensaria diferente se visse que transitamos de dentro para fora da melodia a nosso bel-prazer, mas não vejo isso. A criatividade da construção melódica e das sólidas construções rítmicas, que rendeu à humanidade escolas como o blues, o samba, o flamenco, a música indiana e, mais recentemente, o grande hard rock (apenas como exemplo), parece uma ciência perdida. Parece algo que não é feito porque não se sabe mais como fazer. Respeito a artista, respeito toda e qualquer intenção artística, respeito os fãs, mas parafraseando a própria Björk, “I have musical needs, oh, needs...” E vamos em frente. O garimpo continua.