domingo, 27 de abril de 2014

Os Beatles Enquanto Fenômeno - por Bruno Vitorino

Edição de abril/2014 da Rolling Stone Brasil.

Saía eu do Parque da Jaqueira sábado passado para comer uma tapioca com meu filho Theo, após uma tarde de farra e brincadeiras, quando, ao cruzar a banca de jornal, deparei-me com a edição de abril da Rolling Stone que estampava na capa uma foto dos Beatles chegando a Los Angeles em 1964 com a manchete: “como os Beatles conquistaram o mundo”. Como venho há algum tempo me lançando em pesquisas sobre o que viabilizou o Fab Four enquanto fenômeno de massa de proporções globais, fiquei curioso por saber a que conclusões haviam chegado. Como era de se esperar, no entanto, o que encontrei foi um texto bastante descritivo do ponto de vista factual e destituído de análises sobre o contexto histórico em que a banda inglesa estava inserida e as estruturas sócio-econômico-culturais que possibilitaram seu estrondoso sucesso. Na verdade, o artigo do jornalista Mikal Gilmore nada mais é do que um resumo descarado, e um quê sensacionalista, dos fatos narrados no indispensável livro “The Beatles: A Biografia”, de Bob Spitz, sobre o tsunami que foi a chegada do quarteto de Liverpool aos Estados Unidos.

Mas, e o antes? Como quatro garotos oriundos da classe operária de uma cidade portuária e desimportante - do ponto de vista cultural - feito Liverpool, fadados a cumprir um papel proletário na engrenagem social, subverteram o destino histórico que lhes cabia? O que era o rock n’roll para a juventude urbana da época? O que desencadeou a beatlemania? De que modo eles conseguiram revolucionar a produção cultural do século XX e formatar o rock como lucrativo negócio na indústria do entretenimento de larga escala? Que fronteiras estilísticas delimitaram e que conquistas estéticas alcançaram? Finalmente, como e por que viraram deuses? Eram perguntas que ficavam no ar. Não pretendo aqui, antecipo, respondê-las. Isto não é uma dissertação de mestrado em Cultura e Sociedade ou artigo acadêmico cheio de dureza literária e rigor metodológico, é um texto para um blog. Porém, procuro mais compartilhar com os que, pelo prazer da leitura ou desvario do acaso, leem essas linhas as conclusões a que cheguei e, de repente, lançar luz sobre certos aspectos do fenômeno Beatles que passam despercebidos ante a louvação fervorosa do fanatismo e o jornalismo de superfície.

Primeiramente é fundamental ter em mente que as revoluções tecnológicas empreendidas na Era da Indústria se desdobraram para além das macro-esferas da política e da economia e transformaram radicalmente os campos da cultura e a própria organização social do mundo ocidental na passagem do século XIX para o XX, e que foram essas mudanças que forneceram as bases para o surgimento da sociedade do consumo de massa que possibilitou a eclosão do fenômeno Beatles. Do ponto de vista social, o estabelecimento da jornada de trabalho e seu, a princípio mínimo, contraponto lúdico na vida cotidiana do trabalhador da Grande Fábrica propiciou o surgimento de todo um mercado da diversão com o aparecimento de um público disposto a pagar por espetáculos de entretenimento em seu escasso tempo livre e um setor especializado da sociedade que lhes fornecia os produtos culturais adequados para tanto: o futebol, o teatro de variedades, o cinema, as orquestras de baile, as casas de ousadia (por que não considerá-las?); tudo isso surge e/ou se consolida nessa época na vida pública da sociedade pós-industrial.

Especificamente no que diz respeito à música, as inovações tecnológicas proporcionaram sua gravação e reprodução, pondo em segundo plano a até então obrigatória comunicação direta entre o instrumento e o ouvido humano. Com a revolução da reprodutibilidade técnica da arte de organizar os sons, o seu consumo passou a ser indireto e virtual, ou seja, desumanizado, pois a fruição estética da música não mais requeria a experiência ao vivo. Agora era possível chegar em casa e por a vitrola (no princípio era o fonógrafo) para tocar e se deleitar com o som “real” e “miraculoso” que preenchia o lar. Isso permitiu não somente que artistas passassem a atingir públicos antes inimaginados, como também ampliou significativamente o escopo mercadológico da música, exigindo da nascente indústria cultural a instrumentalização de toda essa vasta cadeia produtiva que se configurava, de modo a melhor explorá-la – do luthier ao produtor executivo, do compositor à equipe de marketing. Como bem disse o historiador Eric Hobsbawn, foi a lógica combinada da tecnologia e do mercado de massa que promoveu a verdadeira revolução das artes no século XX, promovendo a democratização do consumo estético[1]. Algo que indubitavelmente beneficiou a eclosão de uma banda como os Beatles.

O mundo que surgiu após a Segunda Guerra Mundial aprofundou e desenvolveu ainda mais essas estruturas na trama das relações humanas. Superados o terror e as privações do conflito, sobreveio um grande desenvolvimento econômico para as democracias liberais da Europa Ocidental e os Estados Unidos – os vencedores da guerra, obviamente – e uma intensificação das relações comerciais entre esses Estados que gerou o aumento da sua classe média e uma maior irrigação financeira de sua tessitura social. Com isso, o bem-estar foi colocado no cerne da vida público-privada dessas sociedades e institucionalizado como política pelos governos. E nesse sentido, vale destacar o crescente espaço ocupado pelo ócio na vida do cidadão urbano comum. Assim, com mais dinheiro na carteira e o aumento do tempo livre no dia-a-dia do trabalhador médio dos centros urbanos, a indústria da diversão, atrelada à publicidade e às conquistas tecnológicas do pós-guerra[2], encontrou terreno fértil para se multiplicar e se estabelecer como fonte primária do fornecimento da Cultura. Dessa forma, os valores tradicionais que ligavam a Arte a um caráter artesanal, pessoal, reflexivo e transcendental (e que soavam elitistas e esnobes), foram substituídos pela massificação, pelo espetáculo e pelo mais puro e simples viés lúdico. Nascia o establishment pop que acolheu os Beatles.

Nesse contexto, é possível entender como o rock n’roll se consagrou como o universo simbólico do jovem urbano, indo muito além da música em si. A abertura dos parâmetros morais da sociedade (a começar pela vida sexual), a necessidade de um novo arcabouço ideológico para alicerçar a compreensão do mundo tal como se apresentava e certa rebeldia que se instalava no âmago da juventude por conta de uma angústia existencial e um tédio crescentes - bem como uma tendência clara à fuga da realidade – exigiam uma nova forma de ser e se expressar. O jazz, até então música urbana por excelência e que trazia em seu público uma maioria jovem, não atendia a essas demandas. O swing, com suas grandes orquestras, crooners e toda a pompa e circunstância dos ballrooms, soava enfadado e exalava uma morbidez senil; era afinal uma música do passado, do tempo de seus pais. Por sua vez, o jazz moderno – bebop, cool, hard bop – com sua linguagem rebuscada, seu ar intelectualizado e sua perspectiva contemplativa da apreciação estética que escavava um abismo profundo entre artista e público, denotando um distanciamento e frieza impenetrável à tietagem e veneração, afastou de vez a juventude de seus domínios. Algo que se tornou ainda mais grave nos anos 1960 com a eclosão do free jazz que trazia severas rupturas musicais e engajamento político mais incisivo. Era necessário algo mais simples, direto, visceral, redentor, um tanto desaforado e que combinasse com o showbiz. O rock caía como uma luva.

Isso esclarece o porquê da proliferação, nessa época, de tantas bandas de rock ao redor do globo e o crescente interesse das gravadoras em encontrar no meio delas sua mina de ouro. Se Elvis Presley com sua voz grave e seu requebrado “obsceno” deu o pontapé inicial à disseminação do rock enquanto cultura jovem urbana (e lucrativa sob ótica da indústria cultural), foram os Beatles e seu Iê Iê Iê que conseguiram, contudo, captar o clamor juvenil por uma identidade e condensar imenso talento artístico, pitadas de insolência, boa dose de carisma e uma capacidade incrível de pôr a mídia a seus pés e de se conectar com o público; requisitos necessários para se tornarem um fenômeno de proporções planetárias. “Please, Please Me”, segundo single dos ingleses lançado no início de 1963, foi um estouro e a fagulha que acendeu a chama da beatlemania. “Ela (a canção) concentra os principais elementos do som emergente do grupo: melodias cativantes, letras inteligentes, harmonias fluidas com três vozes, instrumentação ágil e acordes dinâmicos estruturados em padrões que transformaram um estilo já cansado.”[3] O sucesso desse compacto retira o quarteto da periferia do rock britânico e os coloca no epicentro do cenário inglês. Conquistar os Estados Unidos seria o “próximo passo” mais natural a ser dado.

O que se segue a partir daí é bastante conhecido: histeria, multidões e delírio. Mas, duas coisas me chamam a atenção no tocante à invasão aos EUA e seus desdobramentos. Primeiro é que os Beatles conseguiram reverter o sentido do fluxo cultural do establishment. Até então eram os norte-americanos que ditavam as regras do manancial da música pop, mas isso fora mudado com o interesse estético e mercadológico, desencadeado pelo Fab Four, quanto à produção inglesa e que abriu as portas para que proeminentes grupos britânicos inundassem o mercado estadunidense, naquilo que se convencionou chamar de British Invasion. Inicialmente, Dusty Springfield, Yardbirds, The Rolling Stones e, um pouco depois, The Mood Blues, The Who, Cream, Led Zeppelin, Pink Floyd, Black Sabbath, para citar só alguns. (Vale lembrar que um tal Jimi Hendrix teve de se refugiar em Londres para que pudesse ser descoberto e ouvido em seu próprio país). O outro ponto que me salta aos olhos é a discussão sobre o caráter transitório do grupo. “Seriam os Beatles uma moda passageira?” era uma pergunta que frequentemente ecoava nos meios de comunicação. Ninguém entendia ao certo o que se passava, e a pouca perspectiva histórica que a trama dos fatos revela enquanto acontece levava muitos (inclusive os Beatles) a se questionar sobre a durabilidade de seu sucesso. Até quando quatro rapazes de terninho, com cabelos atrevidamente grandes, cantando sobre segurar a mão da garota amada ou o segredo de uma paixão adolescente, a distribuir sorrisos e piscadelas à plateia eufórica iriam durar? Jack Gould, o redator de televisão do New York Times, foi categórico: a banda (e todo o gigantesco furor a sua volta) “parecia ser um belo placebo para as massas”[4]. E ele estava certo! Naquele momento... Mas aí veio o grande salto que consagrou os Beatles à História.

Não obstante o sucesso da banda, o descontentamento se apossava de seus integrantes. Estavam fartos de ser o baluarte da verve adolescente, da irracionalidade da beatlemania e, principalmente, do viés mercadológico e artificial que sua música havia assumido. Existia uma imanente necessidade de se lançar a voos estéticos mais ousados, acolher os pensamentos interiores mais recônditos e expressar os sentimentos que paulatinamente brotavam no âmago de cada um. John queria mergulhar em sua faceta mais política e discorrer sobre suas emoções reprimidas; Paul gostaria de explorar mais detalhadamente a construção narrativa de suas letras e libertar de vez sua incansável curiosidade musical; George desejava materializar em canções sua consciência cósmica; e Ringo queria simplesmente acabar com toda aquela loucura. Não fazia mais sentido, portanto, continuar escrevendo músicas ingênuas em terceira pessoa, com poucos acordes e estrutura simples para o entorpecimento frenético de uma juventude vã, como “She Loves You”, por exemplo. Os Beatles amadureciam, entravam na vida adulta, e, logo, mudavam a maneira de enxergar as circunstâncias que os rodeavam e os caminhos que haviam trilhado até então. Buscavam-se agora letras de caráter confessional, reflexivas e profundas do ponto de vista poético, progressões harmônicas mais complexas, experimentar novas técnicas de gravação, instrumentação e arranjo; enfim, dar livre vazão a sua imaginação criativa. “In My Life”, faixa do disco “Rubber Soul” de 1965, parece-me ser a primeira grande prova dessa mudança de sentido estético/estilístico. Com essa guinada, os Beatles deixaram de ser meros entertainers para se tornarem artistas propriamente ditos, subvertendo a lógica de mercado e insuflando no establishment pop, diga-se, alguns preceitos modernistas da Arte até então ignorados, como a integridade estética do artista, a elaboração temática de um trabalho, a preocupação com o conteúdo e a densidade expressiva da obra. Deixaram de ser uma banda de palco, devido às limitações físicas das apresentações, para se tornarem uma banda-conceito nas infinitas possibilidades do estúdio, tendo o disco como o suporte de seu fazer artístico. “Revolver”, “Sgt. Peppers”, “White Album”, “Abbey Road”; disco após disco, eles apontavam novas direções. De habilidosos compositores de sucesso a gênios criadores de um universo artístico cheio de significado interno e dinâmica; de ídolos de uma geração a deuses transformadores dos rumos da História.

Após refletir sobre tudo isso, e ouvir “Because” pela enésima, só me resta perguntar: como ignorá-los depois de tudo isso?!




[1] HOBSBAWN, Eric; “Tempos Fraturados: Cultura e Sociedade no Século XX”, Companhia das Letras, 1ª edição, São Paulo, pág. 290.
[2] No tocante ao salto tecnológico no ramo musical, só para citar algumas inovações, temos surgimento do disco de 45 rotações, as gravações em high-fidelity, os primeiros instrumentos elétricos, sofisticação dos equipamentos de som.
[3] SPITZ, Bob; “The Beatles: A Biografia”, Editora Lafonte, 2ª edição, São Paulo, pág.357.
[4] Idem; pág 468.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Guns n´ Roses - Saudosismo e Perpetuação por Giba Carvalho.





Certamente, você já ouviu a frase - "Quando você menos espera, algo acontece." Pois é, terça-feira, 15 de abril de 2014. Adentro um Chevrolet Hall por volta de 21:30, já repleto de fãs do Guns n´ Roses tomados de expectativa para assistir o "arremedo de banda" montado por Axl Rose. Desta vez, com a surpresa da presença diferencial de Duff McKagan, baixista da formação original. Confesso que nem a presença de Duff fez com que minha opinião mudasse. E vou mais além. Só fui ao show, porque consegui o ingresso a preço bem melhor do que foi cobrado nas bilheterias da casa, fruto de uma desistência.
     
O show teve início às 23:50, com o atraso bastante peculiar desde os tempos áureos da banda e cultivado por Axl Rose com uma perfeição admirável. O problema nisso tudo é a questão paciência. Até o lançamento dos álbuns Use Your Illusion 1 e 2 (1992), tenho certeza que esperaria até dias para assistir à banda. Hoje, tenho 34 anos e carregava um mar de desconfianças do que seria apresentado ao público. Bem, a apresentação começou gélida com Chinese Democracy, canção que nomeia o último disco da banda (2008) e que ficou conhecido como o disco "eternamente adiado" (foi lançado 12 anos após começar a ser produzido). Daí pra frente as coisas mudaram vertiginosamente. Ao soar dos acordes iniciais de Welcome to the Jungle, eu vi o ambiente pegar fogo e quase vir abaixo. Comecei a observar a reação das pessoas ao meu lado - vi coroas chorando, meninas de 13/14 anos aos berros e cantando todas as letras, vi comentários de um garoto de, no máximo, 16 anos  do tipo - "esse cara é um frontman de verdade!" (E eu pensando - "Meu velho, se você tivesse visto esse cara há 25 anos atrás...") e também vi um rapaz empolgadíssimo querendo ver o show e sua namorada querendo bater o recorde mundial de duração de beijo (sem falar que o mesmo teve o par de orelhas lavadas pela língua da mocinha ao menos umas três vezes). Prova que o rock n´roll é inigualável para atiçar sentimentos impuros e vontades várias vezes reprimidas! Graças a Deus ou ao Demo? Amém!

Daí pra frente um mar de clássicos fizeram uma noite inesperada tornar-se histórica. (Volto a falar sobre mar de clássicos mais abaixo). Axl Rose numa performance totalmente diferenciada do que vimos nas outras vezes em que esteve no Brasil. Honestamente, torço para que as apresentações dos outros estados tenham sido do mesmo nível. Ouvi de um amigo bairrista - "Ah, certamente foi o clima de Recife que fez com que ele cantasse o que cantou." Sorri e respondi - "Certamente! Ele passou no Caldinho da Codorna do Amigo Rogério, tomou um litro de Pau do Índio, 3 caldinhos de feijoada, 5 garrafas de Schincariol quente (pra lavar) sentiu o cheiro de bosta recifense do Canal da Agamenon Magalhães, ficou puto com o assalto da mulher do guitarrista na Avenida Boa Viagem e cantou como nunca em Recife." Eu adoro esse bairrismo daqui, dá pra notar? Pois bem, esqueçam este diálogo de show e entendam que as pessoas envelhecem. Axl Rose jamais será o mesmo. Os anos passaram, milhares de litros de bebidas e centenas de quilos de drogas também foram ingeridos (ele nunca foi algo perto de careta). Ao menos desta vez, ele fez de maneira bastante aceitável. Claro que com pausas excessivas em número e não em duração no decorrer  da apresentação. Dividiu solos para os 3 guitarristas (que juntos não chegam perto de Slash), para Deeze Reed (tecladista que entrou na banda em 91, nas gravações do UYI 1 e 2), Jam Session de todos os músicos e alguns raros diálogos.

Já na metade do show, eu lembrava da época que conheci o Guns n´Roses e o que isto representava. Afirmo sem titubear que tirando os Beatles (7 anos do primeiro ao derradeiro álbum) e o Led Zeppelin (6 anos do primeiro álbum até o Physical Graffiti), nenhuma outra banda teve um desenvolvimento tão avassalador num espaço tão curto de tempo. Do Appetite for Destruction (1987), passando pelo GNR´s - LIES (1988) e na chegada do Use Your Illusion 1 e 2 (1991), ninguém chegou perto do patamar alcançado pelos californianos. Foram cinco anos de absoluto domínio de venda de discos, shows e platéia ao redor de todo mundo. Embora mereça um texto à parte, Appetite for Destruction foi o grande causador disto. O rock mundial vivia um momento muito nebuloso com o pós-punk, com as novidades dos sintetizadores oitentistas e com as pavorosas bandas de Glam-Metal. Mesmo admirando e respeitando bem mais as bandas inglesas e a banda australiana, reconheço que o disco de estréia do Guns n´ Roses é o melhor disco de hard-rock da história. Como uma banda consegue fazer com que 11 músicas (de 12 do disco) virassem clássicos? Esta é uma pergunta sem resposta até hoje, quase trinta anos após o lançamento. Muitas bandas, durante anos e anos de carreira, não conseguem imortalizar este número de canções. E estou falando apenas do primeiro disco dos caras.

É justamente pelos comentários acima, que afirmo ter a certeza de que com uma banda de acompanhamento de bom nível de execução e Axl Rose num dia "inspirado", o show vai embora numa boa e o delírio é geral. Delírio! É exatamente esta a palavra. O mundo da música está carente de postura "rocker" e, arrisco dizer, de bandas que surjam de modo avassalador como o Guns n´ Roses surgiu. E, por estas e por outras, ainda vejo que Axl Rose é necessário no mundo da música. Parafraseando Miguel Sokol - "Hoje achamos que a postura de bad-boy é a do retardado canadense que mastiga de boca aberta e pixa muro no Rio de Janeiro." Aí enxergamos o que o envelhecido Axl Rose ainda apronta. Todos estes atrasos costumeiros nos shows? (E foda-se o resto!) O episódio que ocorreu ano passado na edição de um dos mais cultuados festivais ingleses (Reading Festival), onde Guns n´Roses teve o som cortado com pouco mais de uma hora de show, porque nenhum membro da equipe quis acordar Axl Rose? (Detalhe - eles são proibidos de acordá-lo.) Todos foram sumariamente demitidos por ele e recontratados no outro dia. E, para completar, em meados de 1986, nas gravações de Appetite for Destruction a ex-namorada do baterista Steven Adler chegou no estúdio em que a banda gravava revoltada por uma traição. E, como forma de vingança, pediu que Axl Rose fizesse o que quisesse com ela. Ele não só fez, como ligou os microfones do estúdio e gravou os gemidos da santa-menina. Posteriormente usou os mesmos em Rocket Queen, música que encerra este clássico. E eu os questiono: "Você ainda acha Justin Bieber um mal elemento?"

Fiquei feliz de ter visto Axl Rose mesmo com mais de vinte anos de atraso. E o mais impressionante nisso tudo, é que não foi apenas um encontro saudosista. Foi um encontro de perpetuação de um dos mais grandiosos períodos do rock n´roll e da banda responsável pela minha devoção pelo estilo mais pesado. Ah, você não concorda com o termo - "perpetuação"? Diz isso pros garotos e pras garotas de 12 anos que estavam lá, mesmo influenciados pelos pais e que não estão ouvindo os "meninos mimados de hoje em dia" e todo este lixo comercial.


Dedicado a - Carlos Eduardo Montenegro, Rafael Lucchesi, Rógeres Bessoni e para que o pós-show do rapaz que estava no concurso de beijo e lambida nas orelhas tenha sido muito mais rock n´roll.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Trummer SSA - por Giba Carvalho

   
Foto - Bruno Guerra / Divulgação

Ao ler a matéria de que Fábio Trummer esqueceu por um tempo os "pseudo-frevos" e o som "enche-linguiça" que a Banda Eddie insiste (com sua aclamada fórmula do sucesso) desde o trabalho posterior ao diferenciado Original Olinda Style, fiquei alarmado e curioso, até porque, na minha opinião pessoal, Sonic Mambo é o melhor disco dos olindenses. Justamente o disco mais rock n´roll.

Bem, de fato o disco inicia tentando fazer algo diferente (apenas leves lampejos). No entanto, é pessimamente cantado pelo intérprete (como sempre) e cai exatamente no que o Eddie faz: aquela "guitarrinha" metida a samba-rock de riffs repetitivos, com a diferença de não possuir os metais costumeiros.

"Ah, mas é um disco de punk-rock!" Não meu amigo! É uma ofensa ao punk-rock que se preze e mais uma enrolada histórica da música pernambucana.

Pensei que iria voltar a meados de 1993, quando assisti pela primeira vez a Eddie (rock n´roll) na quadra do Colégio São Bento de Olinda, e deparei-me com algo acostumado a mesmice, apenas com efeitos diferentes. No entanto, como é olindense e da "brodagem", tem tudo para fazer sucesso.

Tirem suas conclusões:

domingo, 16 de março de 2014

O Lobo de Wall Street - por Fernando Lucchesi


É difícil discordar quando se fala que Martin Scorcese é um dos maiores diretores de cinema vivo. Mas certamente você já viu “O lobo de wall street” antes, inclusive dirigido pelo próprio Scorcese. A estrutura narrativa do jovem que começa de baixo, passa por uma ascensão meteórica na carreira e depois vê-se às voltas com a polícia, pois o crescimento profissional se dá por meio de crime, o diretor já havia usado em pelo menos dois filmes: “Os bons companheiros” e “Cassino”. Mas o que um grande diretor faz? Recicla a estrutura narrativa, mas utiliza um novo ambiente e cria personagens com perfis psicológicos diferentes.

“O lobo de Wall Street” narra a história de Jordan Belfort, um trambiqueiro de alto nível e de poder de convencimento extraordinário. Após ser demitido e desiludir-se com o esquema regular de venda de ações em Wall Street, Jordan percebe que há um nicho não explorado no mercado de pessoas de baixa renda e que estão dispostas a investir em empresas sem nenhum respaldo do mercado. A capacidade de Jordan transformar completos “losers” em brilhantes vendedores de ações faz com que a imprensa especializada o apelide de “O lobo de Wall Street”, tamanha a voracidade com que a sua empresa consegue cooptar investidores que não dispõem de recursos para investir na maior bolsa de valores do mundo. Obviamente, o enriquecimento fulminante de Jordan atrai os olhares do FBI, que começa a investigar como ele pôde enriquecer tão rápido.

Atrelado ao dinheiro vêm os excessos. A vida de Jordan e de seus sócios é de um hedonismo permanente: orgias diárias, consumo de álcool e drogas em quantidades industriais, uso de animais e anões para festejar os lucros, iate, mansões, festas, etc. Tudo isso para vermos a derrocada de Jordan e dos seus parceiros. Com um filme de três horas de duração Scorcese tem tempo de trabalhar em cima da psicologia dos personagens. Leonardo Di Caprio está, possivelmente, no papel que marcará sua carreira daqui pra frente. A cena do “lobo” tentando subornar um agente do FBI é uma das cenas mais hilárias e carregadas de cinismo dos últimos anos. Jonah Hill como Donnie Azoff, braço-direito de Jordan, também nos dá uma atuação não menos que brilhante (a prótese dentária bizarra é quase personagem do filme de tão engraçada e exagerada que é!). Dignas de nota também as hilárias aparições de Matthew McConaughey, como o mentor cheio de tiques de Jordan e Rob Reiner, um dos pais mais estressados da história do cinema.

O grande “senão” do filme reside na sua mais que longa duração de 3 horas. É perceptível que com uma hora a menos de filme a trama poderia ser desenvolvida. A colaboradora regular de Scorcese, Thelma Schoonmaker consegue mais uma excelente edição, porém, com três horas de duração, nem o talento dela consegue esconder o final arrastado. Evidentemente, isso não tira o mérito desse misto de comédia de humor negro e drama. Podem ter certeza: Scorcese, se não nos entregou sua obra-prima, certamente nos deu mais um clássico.  

Alguns breves comentários sobre o Oscar:

Originalmente, no texto sobre “O lobo de Wall Street” havia o comentário de que Leonardo di Caprio possivelmente ganharia o seu primeiro Oscar. Por razões operacionais do Blog, o texto só foi publicado após o carnaval. No entanto, continuo com a mesma opinião: Ele merecia mais do que Matthew McConaughey. O que acontece é que a Academia é aficionada por trabalhos em que o sacrifício físico também esteja presente, como foi o caso de McConaughey e do também vencedor de ator coadjuvante Jared Leto. Também como coadjuvante não achei ele melhor do que Jonah Hill (O lobo de Wall Street) e nem do que Michael Fassbender (12 anos de escravidão).

“Gravidade” mereceu muito os prêmios que ganhou na parte técnica. É um filme realmente bem produzido e uma história bem interessante. Se houvesse o prêmio de “melhor aparição” George Clooney mereceria vencer. Alfonso Cuarón teve seu mérito pelo esmero da produção, mas acho que o prêmio deveria ir para Scorcese ou David O. Russel (possivelmente o melhor diretor de elenco da atualidade). 

Acho ótimo que filmes de menor orçamento integrem a lista por conter histórias interessantes (ex: Nebraska, Philomena, Her), mas a minha sensação é que eles estão ali somente para colocar mais do que 5 candidatos a melhor filme. Tanto que, à exceção de “Her”, nenhum dos outros dois ganhou um Oscar sequer (embora sejam bons filmes).

domingo, 9 de março de 2014

Variações em 5/4 - Random Access Memories



Nesta segunda edição do ano na coluna “Variações em 5/4”, os nossos editores comentam um dos trabalhos mais premiados de 2013: “Random Access Memories” da dupla Daft Punk.

- Fernando Lucchesi:

Não conheço praticamente nada do Daft Punk.  Acho que excluindo “One More Time” não conheço mais nada deles. Dito isso, como o tema deste “Variações em 5/4” era o Daft Punk e o enorme sucesso que eles obtiveram na última edição do Grammy Awards decidi falar especificamente sobre o disco “Random Acess Memories”, álbum que está na lista de melhores do ano passado em praticamente todos os meios de comunicação.

Reconheço de início que é um disco excelente, muito acima da média do que é produzido hoje. No entanto, é um disco que pode enganar quem procura 13 músicas do calibre pop de “Get Lucky” (indiscutivelmente um dos maiores sucessos radiofônicos de 2013). O disco oscila muito entre um revisionismo da chamada disco music e um som eletrônico mais contemporâneo. E é nesse som eletrônico contemporâneo onde reside o maior problema do disco.
 
O ponto alto do disco são justamente as músicas que buscam resgatar a disco music dos anos 70.  Muito espertamente, os dois músicos franceses chamaram um dos precursores daquela guitarra suingada característica da disco, Nile Rodgers (ex-integrante do Chic). Não à toa, as faixas mais dançantes do disco contém a guitarra de Rodgers: “Give Life Back to Music”,”Lose Yourself to Dance”  e a contagiante “Get Lucky”. O resto do disco é bastante irregular. Traz uma justíssima homenagem a um dos artífices da música eletrônica, Giorgio Moroder (Giorgio by Moroder), a alucinante “Contact”, mas também tem coisas enfadonhas como “The Game of Love”, “Touch” e “Within”. Mas mesmo essas músicas mais lentas (feitas sobre encomenda pra o momento “chill out” da balada) não comprometem o resultado final desse disco, que merecidamente ganhou uma penca de Grammys. Já quanto à representatividade do prêmio Grammy para a música é outra história...

- Giba Carvalho:      

Random Access Memories trouxe de volta o romantismo à música eletrônica e me devolveu o prazer de ouvir um disco do gênero novamente. Thomas Bangalter e Guy Manoel de Homem-Cristo, inegavelmente, tiveram muito cuidado na produção deste álbum tornando-o um disco de fácil audição. Mesmo para aqueles, que assim como eu, repudiam tudo que foi produzido na música eletrônica de 15 anos para cá. O disco nada mais é do que um exercício de repetição do que já foi feito na época em que a música eletrônica era diferenciada dos “bate-estaca” e “ruídos” insuportáveis do que se toca nas raves. “Não é o puritanismo autêntico, é a forma autêntica de como se trabalhar a repetição”.

Tenho que destacar a guitarra funky de Nile Rodgers, que soma sobremaneira à concepção geral do trabalho e várias outras participações especiais – Julian Casablancas, na excelente “Instant Crush” e, principalmente, de Pharrel Williams nas pegajosas “Lose Yourself to Dance” (o preparo do estilingue) e “Get Lucky” (a pedrada do disco). “Giorgio by Moroder” é uma faixa muito interessante, porque inicia com um depoimento de um dos papas da música eletrônica e termina “grooviada” com o melhor das discotecas dos anos 80. Estas são o destaque do disco para mim. E, não pense você, que um trabalho bom não tem coisas desprezíveis. Em alguns pontos, a dupla parece perder a inspiração e o álbum cai muito de qualidade. “Touch”, “The Game of Love” e “Within” são dispensáveis. Outra coisa que percebo claramente é a duração do álbum (74 minutos). A meu ver muito longo e em alguns pontos, até cansativo.

Embora com estas ressalvas supracitadas, reconheço que o trabalho da dupla francesa é um belo trabalho POP e merece destaque!

- André Maranhão:

Quando lidamos com uma música marcada pela grande quantidade de efeitos eletrônicos, entramos num contexto onde o engenheiro de som e o DJ passam a ter a mesma ou até mais celebração do que os músicos. Isso é algo relativamente esperado, se levarmos em conta que no campo da arte, os indivíduos redefinem suas práticas por meio das convenções e dos recursos que cada estilo, gênero e expressão artística demandam. Neste sentido, o Acid Jazz, a Drumin’n’Bossa, o Brazilectro e o Tecno, presentes nos trabalhos de Jamiroquai, Kyoto Jazz Massive, Fernanda Porto & DJ Patife, Bossacucanova e Zuco 103 se fazem de grande valia.

O Daft Punk também parece reivindicar a importância de uma musica fortemente influenciada pelos recursos eletrônicos. A dupla francesa já foi capaz de nos brindar com Robot Rock, Harder, Better, Faster, Stronger e One More Time (grande hit do inicio da década de 2000) e agora parece ampliar sua lista de êxitos com RANDOM ACCESS MEMORIES, seu mais novo álbum. É interessante como este trabalho reúne tantas influencias que resultam em faixas soft, suavizadas pela mescla de sweeps de guitarras, breves presenças de overdrives, curtas citações de orquestras, camas harmônicas de teclados, solos de piano rhodes, falas ordinárias transformadas em vozes cantadas pelo sintetizador, linhas de baixo próximas do Funk e batidas mais próximas do Lounge – num som que pode nos remeter a ambientes como desfiles de moda, lojas de departamento e vernissages. De fato, Get Lucky – a faixa mais celebrada pelo mercado da música e pelo Grammy – foi a que mais me agradou no álbum do Daft Punk, mas Give Life Back to Music; The Game of Love; Beyond; Motherboard; Fragments of Time e Doin' It Right também têm qualidade. Apenas Touch me soou exaustiva e eu consideraria as demais faixas medianas.

Possivelmente, alguns críticos mais reativos a esse tipo de música, podem acusá-la de anti-arte, ou afirmarem que o Daft Punk é apenas entusiasta de todo o Show Bussiness e do capitalismo na arte. No entanto, essas condenações não invalidam seus méritos estéticos, pois qual o grande trunfo desse disco? Na minha opinião, o de mostrar que nem sempre o repetitivo é sinônimo de má qualidade!

- Bruno Vitorino:

Concordo com Keith Jarrett. “A arte está morrendo neste mundo, assim como o ouvir música, à medida que o mundo fica cada vez mais cheio de brinquedos e efeitos especiais. Com esta morte, virá a ruína das muitas possibilidades emotivas: beleza, ternura, profundidade, confiança, honestidade, tristeza; cheias de significado interno e cor”. Como os dois ou três loucos que acompanham meus textos devem ter percebido, sou um anacrônico. E com muito orgulho, diga-se! De modo obsoleto, ainda espero encontrar na música (e nas artes em geral) aquele instante transcendental em que tudo parece fazer sentido e que, de alguma forma desconhecida à racionalidade, conecta-me à completude e ao éter. Eu vivo dessa e para essa busca infindável que se torna cada vez mais difícil de alcançar, pois, como é sabido, tanto o conceito de Arte quanto seu propósito mudaram na nossa Civilização do Espetáculo. Essa discussão, inclusive, rendeu um debate interno extremamente saudável (quase um suco de laranja com clorofila) entre mim e André Maranhão que espero ver um dia publicado neste blog.

Dito isto, o desavisado leitor que passa os olhos por estas linhas deve imaginar o frio na espinha que senti quando Giba Carvalho propôs que comentássemos um dos trabalhos mais “hypados” pela Grande Mídia especializada em 2013: Random Access Memories do duo Daft Punk. De cara, digo que não sou conhecedor da banda. O pouco que tinha escutado, num passado longínquo, soou-me desagradável e o punk estampado no nome da dupla, que na minha adolescência atraiu minha atenção para eles, apenas me deixou ainda mais emputecido com a música que faziam. A única coisa que esses cabras fizeram que realmente atiçou minha curiosidade foi uma série de clipes transpassados por uma história que começava com “One More Time”. Aquele lance futurista, mangá, sci-fi, realmente fez minha cabeça. Da música, só gostava do que parecia ser um solo de guitarra bem pirotécnico - em “Aerodynamic” - que se valia de uma técnica muito utilizada por metaleiros: a digitação. O fato é até hoje não sei o que aconteceu com a galeguinha que é sequestrada por um bando de soldados mascarados no começo da saga. Era o ano de 2001. Eu tinha 18 anos, só andava de preto, bebia vinho, ouvia Sepultura, Krisiun, Slipknot, e ainda tinha minha banda punk: Nômades. Uns poucos meses à frente, como um desígnio da Fortuna, eu compraria o álbum “’Round About Midnight” de Miles Davis e teria a grande revelação da minha vida. Mas, isso é assunto para outro texto.

Hoje, do alto de minha senilidade precoce (tenho quase 31 anos), ouvir esse trabalho é tarefa hercúlea. Primeiro, por ser um disco longo. São exatos 74 minutos de pura música inorgânica e vozes sintetizadas, numa odisseia artificial por um cenário de isopor colorido, raios lasers, gelo seco e alucinações bioquímicas que parecem não ter fim. Isso inevitavelmente me levou ao tédio, à beira do desespero, onde cada segundo durava um século e cada compasso era uma masmorra asfixiante. Um exemplo disso são as músicas “Touch”, “Within”, “Beyond” e “Motherboard”. Um convite ao suicídio. Segundo, porque ele esteticamente apresenta os conhecidos lugares comuns de outrora: uma requentada atmosfera da disco music que embalou a juventude de meus pais (que, por sinal, é quando a música soa mais audível); um maroto lounge music que remete ao relaxante momento pós-coito em banheira de motel; um certo aspecto frívolo que só é encontrado nas danceterias. Terceiro, por seu conceito artístico em si. O título do álbum, em português “Memória de Acesso Aleatório”, faz clara menção à memória RAM que nada mais do que a memória volátil dos computadores, ou seja, depois que a máquina é desligada, as informações que ela processava são perdidas, dada sua natureza efêmera, transitória, precária, instantânea, superficial, passageira, inapreensível... Bem, você entendeu. E eu não posso levar a sério uma música que não repercute no âmago de quem ouve, apenas, em seus pés. Mas, há uma exceção: “Get Lucky”. Quando dei por mim, lá estava eu balançando os ombros como um autêntico metrossexual na pista de dança da Pink Elephant que, entre um gole e outro de Smirnoff Ice, lança olhares de esguelha para a gatinha com salto agulha e vestido de lantejoulas que não tira o olho do WhatsApp, torcendo para que a figura notasse que eu trajava roupas de marca. Um conjunto da Tommy Hilfiger que uma prima sacoleira me trouxe de Miami. Que música contagiante! Tão contagiante que meu alter ego, DJ Bilola, já a incorporou em seu saco escrotal (é assim que ele chama seu setlist) para despejá-la no clímax de sua próxima festinha luxuriante. Sucesso garantido!

É inegável que com “Random Access Memories” o Daft Punk vende um bom produto. Não à toa, ganhou uma caralhada de Grammys, o grande termômetro da indústria do entretenimento, com o disco em pauta. Mas, se o duo francês representa significativas conquistas estéticas para a Arte com sua música “de mentira”, então a McDonald’s também pode se orgulhar de sua contribuição para a gastronomia com os hambúrgueres “orgânicos” que comercializa. Só que não.

Gosto muito de música eletrônica. Sou fascinado pelas composições de Cage, Stockhausen, Ligeti, Berio, Nono, Boulez, mas também curto bastante outros sons eletrônicos, como o cyber punk do Atari Teenage Riot. Já ouviste?! Não?! Então escuta o insano “Delete Yourself!”. Pelo menos aqui, meu caro, encontrarás um pouco da honestidade e da urgência que o Daft Punk jamais terá.

- Dom Angelo:

A grosso modo, classifico a prática musical em três objetivos distintos: música sentimentalista, onde o propósito é despertar sensações como tristeza, alegria, fúria, revolta, paixão, etc. Música de apreciação estética, onde a arte de combinar notas, ruídos e silêncio geram um desafio analítico para nosso cérebro, impulsionando consequentemente a busca pelo conhecimento e a sensação do desenvolvimento cognitivo e, finalmente, música para dançar, no qual a linearidade rítmica induz nossos corpos a acompanhar certas marcações de tempo.

Enquadrados neste terceiro ponto, encontramos os “Punk Pateta” ou Daft Punk. Para mim fica nítido que seus integrantes (o luso-francês Guy-Manuel de Homem-Cristo e o francês Thomas Bangalter) são oriundos do universo rock, principalmente pela simplicidade harmônica e melódica de suas composições. Sem falar do ritmo, um synthpop 4/4 marcando a acentuação no segundo e quarto tempo do compasso.

Se os compositores do período Clássico (mais ou menos 1730 até 1820) declaravam haver um formato musical para algumas de suas obras (Forma Sonata), penso que deveria existir uma declaração dos praticantes da música Pop afirmando que existe uma fórmula para o “Hit”. Poderia ser algo como Forma Canção (Verso-Refrão-Verso-Refrão2X) ou, como no caso dos Daft Punk, Forma Beat Modal Dórico (sequência ii-IV-vi-V ou i-III-v-IV no modo dórico). Pode-se dizer que artistas como Michael Jackson, Prince e Black Eyed Peas fizeram uso demasiado deste padrão musical. Utilizando as mesmas vias, os Daft Punk ganham o Grammy de melhor disco do ano fazendo uso abusivo desta prática.


Ok. Também não vou deixar aqui só críticas. Até porque curti e dancei o verão europeu de 2013 ao som de “Get Lucky” nos cinco países que visitei em Agosto. Um fenômeno cultural. A música foi feita para tal finalidade e cumpriu seu objetivo. Tem mérito. Antes este tipo de mainstream na música internacional do que coisas tenebrosas que já assombraram o planeta terra outrora. Mas quer saber de uma coisa, meu amigo? Vá ouvir os Air, os New Order, os Kraftwerk, Morcheeba, Radiohead, Massive Attack, Jamiroquai, Beck e Bjork, se é música eletrônica pop o que você procura.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Variações em 5/4 - NEW


A coluna “Variações em 5/4” está de volta e para esta primeira edição do ano, os nossos editores comentam “New”, o mais novo disco de Paul McCartney.

- Fernando Lucchesi:

Depois de um disco de standards do Jazz que marcaram sua vida, Paul McCartney resolveu que agora seria vez de algo mais contemporâneo e escalou para produzir o seu novo álbum, “New”, diversos produtores novos, entre eles Mark Ronson, produtor do aclamado “Back to Black”, de Amy Winehouse e Giles Martin, filho do produtor de 90% da discografia dos Beatles, George Martin. Esse amálgama de influências resultou em um disco com faixas bastante diferentes entre si, unidas unicamente pela habilidade de McCartney em conceber músicas melodiosas e baladas no violão. “Save Us”, faixa de abertura, poderia estar tranquilamente em um disco dos Strokes, tamanha a semelhança. “New”, faixa-título do álbum, traz reminiscências de “Got to Get to Into My Life”, mas ao invés dos potentes arranjos de metais, entram sintetizadores e guitarras ao lado de uma melodia daquelas que você pode passar o dia assobiando. “On May Way to Work”, “Early Days” e “ Hosanna” resgatam o Paul de baladas das épocas de Beatles e Wings. Apesar da diversidade de produtores a temática das letras é a mesma de sempre: amores novos ou passados, estes recheados de nostalgia. Não tenhamos ilusões: Paul McCartney não produzirá sua obra-prima agora, mas obteve um ótimo resultado ao fincar um pé no passado e outro, no presente.

- Giba Carvalho:
     
A moda está fora de moda.

É citando uma das frases do excelente disco do Ronnie Von (1968), que inicio minhas palavras sobre “New”, novo álbum de inéditas de Paul McCartney. Confesso não procurar opiniões alheias para basear meus textos, no entanto, a minha sensação ao escutar o disco pela primeira vez, foi de tanta incredulidade, que fui ver o que haviam escrito. Não demorou muito e encontrei o de sempre. Tentativas viajadas e comparações aos trabalhos que Paul McCartney fez nos Beatles. Afirmo – o disco não tem nada de Beatles, além do próprio Paul. Tá, tudo bem! O cara é uma sumidade do mundo musical e qualquer produtor gostaria de produzir um disco do ex-Beatle, mas, quatro produtores é demais! Participaram do disco – Mark Ronson (produtor do excelente “Back to Black” – Amy Winehouse), Paul Epworth (nome de muito destaque na atual cena inglesa. Produtor do Bloc Party e da fantasiosa crepuscular, Florence and The Machine. Tem como trabalho mais elogiado o álbum – “21” de Adele), Ethan Johns (produtor da banda que nunca decola – Kings of Leon e de Joe Cocker) e, finalmente, por Giles Martin (filho do lendário George Martin).

Não sei ao certo a real intenção do velho McCartney ao trazer tantas mentes diferentes para a produção do seu novo álbum. Podemos questionar que foi uma jogada para chocar o ramo com tamanha miscelânea? Podemos!  E foi justamente este mistério, que ainda fez com que ouvisse o trabalho novamente. McCartney, como em diversas outras vezes, fugiu do “feijão e arroz” habitual e se aventurou por novas terras. Para um cara como ele e com a identidade musical criada com os Beatles é meio que um tiro no pé. Não sou fã dos trabalhos pós-Beatles. Gosto apenas de dois discos e uma ou outra música pontual. E, é com a maior tranquilidade possível, que afirmo que “New”, parece mais uma “forçada de barra” do que um disco com tantas novidades assim. Das 12 músicas do álbum, apenas três chamaram a minha atenção. “Save Us”, que abre o disco e é uma boa música pop (embora não goste da semelhança com o Strokes), “On My Way To Work” por ter algo melodicamente interessante e a bela “Early Days”. Também é totalmente perceptível, que o álbum soa diferente de todos os trabalhos anteriores de Paul McCartney. Por este lado, enxergo mérito pela tentativa e, por outro lado, o conformismo habitual que vive a música mundial, notadamente o rock n´roll (com bandas altamente repetitivas). O “disco de retalhos” montado por ele é um trabalho que vaga numa linha bastante mediana e que não desperta a atenção do ouvinte, principalmente, por não possuir identidade.

- Dom Ângelo:

De uma coisa não podemos discordar: Paul McCartney tem uma absurda facilidade em criar melodias que se enquadram dentro do sistema musical temperado. Foi assim na sua carreira com os Beatles, onde foi dono de algumas das mais belas melodias da música do século XX e continuará, acredito eu, enquanto o próprio estiver vivo, com essa proeza genial.

Porém, sinto que a existência daquele fator cósmico, transcendental e imaterial que habita as grandes obras de arte, não existe mais na expressão musical do Paul. Aquela “coisinha” que faz você se arrepiar, no qual os indianos chamam de “sopro divino”, nele, não existe mais. Pelo menos não lhe manifestou em toda a sua carreira solo, muito menos no seu novo álbum, o “New”.

Mas uma coisa é certa: aquela bela habilidade em combinar notas com notas, façanhas da música europeia, sempre caminhará de mãos dadas com esse gênio maior da música pop. É de seu ofício. É de seu propósito. É do seu Dharma. Nisso, o velho Paul é bom e continua colocando todo mundo pra “balançar” com suas novas composições.

- Bruno Vitorino:

Parece-me que uma das funções mais nobres da figura do veterano é estabelecimento de laços com a juventude. Se por um lado a experiência oriunda de seus anos de prática, reflexões e descobertas provoca o tino dos que começam, por outro suas ideias costumam ser estimuladas pelo ímpeto desbravador que emana dos mais jovens. E se esse veterano for um mestre, a História nos diz que esses encontros deixam, não raramente, marcas profundas. Foi assim quando o renomado Handel acolheu, ainda que brevemente, o impetuoso Mozart. Foi assim quando o metódico Rimsky-Korsakov tutorou o inquieto Stravinsky. Foi assim quando Radamés Gnattali abrigou o inseguro Tom Jobim. A Música mudou. Apontou novos caminhos, desnudou paisagens não vistas, abriu horizontes incertos.

Paul McCartney certamente figura no panteão dos grandes. Não há muito que se discutir a respeito. Com sua produção, mais especificamente à época dos Beatles, ele foi um dos responsáveis por definir o que conhecemos hoje por música pop em todos os aspectos. Justamente por isso, todo e qualquer projeto em que se envolva gere expectativa e euforia, ainda mais, quando ele é anunciado na Grande Mídia como uma fuga da zona de conforto do sucesso e uma busca pelo inédito numa odisseia musical compartilhada com novos nomes. Assim me chegou “New”, o último trabalho de Paul. No entanto, o que se propunha ser um interessante diálogo entre a serenidade clarividente da experiência com o frescor audacioso da mocidade na busca incansável pelo novo, revela-se um constrangedor exercício da Síndrome de Peter Pan. É como se McCartney, depois de uma overdose de Arcade Fire, MGMT, Florence & The Machine e todo esse lixo descerebrado e inútil, virasse um rapaz de 25 anos de nossos dias: iPod em modo random, redes sociais a todo vapor, sobreposições de estímulos, pluralidade sem objetivo, tudo e nada, aqui e lugar nenhum. E toda essa confusão do que ser e de como ser se reflete na música apresentada no álbum: uma colagem pop desordenada, um pastiche gagá de uma juventude automatizada.

O que aproveitar, então, desse disco? Os sublimes momentos de silêncio entre uma faixa e outra.

- André Maranhão:

Apesar do nome, não vi muita coisa nova em New, exceto algumas tentativas de Paul McCartney em usar programações e samplers mais do que enfatizar o piano – coisa que ficou parecida com a fase do final dos anos noventa do U2 (em “All That You Can’t Leave Behind”), a qual não me agrada muito. “Appreciate” e “Looking at Her” são alguns exemplos disso.  Em alguns momentos, o álbum pode parecer longo de ouvir, principalmente nas faixas “Queenie Eye” e “New”. “Turned Ou” e “Everybody Out There”, não considerei muito inovadoras. “Get me Out of Here”, parecendo um summer rock, não chamou minha atenção. O meu destaque vai para a bela canção “Scared” (escondida no final do álbum) com Paul só ao piano; além de “Early Days” (balada de violão aberto, bem casada com a voz, parecendo Damien Rice), além de “Save Us” e “Road”, que me lembrou a dupla francesa Air, em “Playground Love”. Num segundo pelotão, coloco “Alligator”, “On My Way To Work” (com seus leves indianismos nos solos) e “Hosanna”.

domingo, 5 de janeiro de 2014

O Rei, o Kitsch e o Conformismo - Por Bruno Vitorino



Não olhe para baixo
Não olhe para baixo
Ou a fera abissal da não conformidade
Pode incutir alguma verdade desagradável
Em sua mente insensível

Thomas Haake


Quando Reginaldo Rossi morreu, a repercussão foi imensa. Nas redes sociais, lágrimas em html, hashtags pesarosos e lamentos de internautas que se sentiam acossados por um mundo injusto que os priva dos verdadeiros artistas, deixando-os desamparados, sem referência, sem imagens sacras para cultuar. Na grande mídia pernambucana, bairrista que só ela, não se falou em outra coisa: como a Música Popular Brasileira (assim mesmo com iniciais maiúsculas) perdeu com a morte desse grande ícone. O mundo - quiçá a galáxia! - não seria mais o mesmo sem esse recifense tão ilustre e inovador. Só que ou eu enlouqueci ou sou o único são nesse “sanatório geral”. Em que momento de sua carreira Reginaldo Rossi fez arte? O que é sua obra senão a degeneração do que um dia fora a música romântica da Era de Ouro do rádio? Onde foram parar as fronteiras estéticas as quais separavam o brega, uma música popularesca que versa de maneira rudimentar sobre o amor e suas intercorrências no cotidiano da grande massa, daquilo que se convencionou chamar de MPB, gênero estritamente ligado à classe média que sempre defendeu um suposto refinamento intelectual da cultura popular? Algo não batia.

Não pense o senhor que sou um filho da puta arrogante e frio incapaz de sentir qualquer compaixão pelo próximo. Longe de mim tal postura. Honestamente, lamentei pelo ser humano Reginaldo Rossi que sucumbiu a uma doença cruel como o câncer e que certamente deixou uma lacuna em seus familiares e amigos que só o tempo tornará mais suportável. Externo aqui minhas mais sinceras condolências. Com sua morte, perdeu-se um ídolo das multidões, partiu um entertainer dos maiores. Isso é inegável! Mas, daí a querer transformá-lo numa sumidade da cultura é forçar por demais os limites do bom senso e do juízo histórico do que se definiu por Arte (com “A” maiúsculo mesmo). Recuso-me a admitir que exista experiência artística numa música simplória que faz da cafagestagem, da mesa de bar e do “chifre” seu mote. É bom não esquecer que o brega é um estilo que nasce do contexto sócio-econômico-cultural extremamente precário que marca nosso país de contrastes. É uma manifestação cultural, no sentido antropológico, de uma vasta camada da população que fora deliberadamente excluída do processo civilizador – educação, saúde, moradia, cultura – pelos Donos do Poder e está destinada a cumprir um papel social de submissão no continnum da História. Ou você acha mesmo que um jovem entregador de água mineral tem as mesmas chances de um garoto que estuda no Damas? Portanto, aceitar Reginaldo Rossi como triunfo da Arte é, de certa forma, referendar toda essa condição humana de pobreza e anuir que essas pessoas continuem onde sempre estiveram. É se conformar com a realidade tal como ela se apresenta. Além do mais, do ponto de vista estritamente estético, se o “Rei” é considerado Arte, então sou obrigado a aceitar o funk como música de protesto e de contestação do status quo, concorda? Assim, Anitta é a nova Elis Regina e a majestade pernambucana do brega é um letrista do mesmo quilate que um Aldir Blanc. Ora, sejamos francos! Reginaldo Rossi é, na melhor das hipóteses, divertido. E é fundamental separar o prazer banal do entretenimento fácil da densidade transcendental do ofício artístico.

O fato é que Arte, no sentido tradicional do termo, é algo supérfluo nos tempos da cultura de massa que homogeneíza gostos, dilui os conceitos, elimina os debates e ratifica o transitório. Não há mais espaço para a experiência única, particular e íntima da arte contemplativa, que requer do público um olhar reflexivo, feita por um artista-artesão que procura comunicar uma realidade interna. O que temos hoje é o fluxo contínuo dos estímulos sensoriais (a jukebox no café, o WhatsApp na reunião de amigos, etc.), o culto à personalidade que substitui a antes imprescindível criatividade, o vazio dos conteúdos e a pobreza das formas, a crítica acéfala que endossa o tacanho, o cultivo de esteriótipos, a intensificada estilização da vida e, o mais sintomático, o delírio fantasioso de negação da realidade cada vez mais presente nas subculturas jovens. E é exatamente esse aspecto que eu enxergo no fenômeno Cafuçu: meninos nascidos em berço esplêndido que se travestem de cobradores de ônibus tanto no linguajar quanto na indumentária para desfrutar a ilusão do bom gentil. Obviamente que o Cafuçu não quer encarar a realidade dura, de chão batido, daquele que o inspirou: trabalhar oito horas por dia num subemprego, ganhar o mínimo para sobreviver, usar um péssimo transporte público, fazer das tripas coração para criar seus filhos, morar num casebre em um bairro violento da periferia e encontrar uma breve paz de espírito num copo de conhaque de alcatrão. Não! Ele quer andar em sua bicicleta dobrável importada, chegar a seu apartamento na área nobre da cidade, ter comida na mesa servida pela empregada doméstica, usar seu iMac para acessar o facebook e que Papai lhe dê aquela tão sonhada viagem a Nova Iorque para que ele tenha o que falar na próxima ida ao Bar Central. Uma juventude chapa branca, conformista, especializada em arranhar superfície, que negligencia sua mais importante função: questionar! Algo bem distante daquela “juventude que não corre da raia a troco de nada” de outrora. Agora só o “verniz” importa.

Entendidas todas essas questões, é possível compreender como Reginaldo Rossi transpôs a condição de ídolo marginal do “povão” para se consagrar um dos sumos pontífices da alta cultura brasileira. Ele não foi reconhecido por sua grandeza e importância para essa camada da população. Ele foi cooptado pela sistemática lucrativa do kitsch, ressignificado como um ícone cult pelos setores da sociedade que definem o que é ou não digno de nota - os chamados formadores de opinião – e posto à venda como um artigo de luxo não mais para os personagens de sua música, mas para os moradores de imóveis de alto padrão. Tudo é deslocado no mundo Pós-Moderno e é fundamental enxergar todas essas camadas heterogêneas que se sobrepõem. Portanto, meu querido, não se deixe levar pelo “efeito manada” promovido pela imprensa e, ao menos, problematize o processo que criou o mito Reginaldo Rossi e pôs o brega no mais elevado patamar da manifestação humana. Cometa o mais mortal dos delitos contemporâneos: pense!