O saxofonista, compositor e arranjador Oliver Nelson.
É interessante perceber como alguns discos mudam
totalmente a nossos ouvidos com o passar do tempo: de uma ilha erma e isolada
nos confins da sensibilidade humana, que aparentemente nada revela ou comunica,
a uma imensa metrópole sonora que constrói inúmeros vínculos com nossos
sentimentos mais pessoais. A depender do trabalho, é necessário que o ouvinte
tenha alguma familiaridade com o artista e certo conhecimento da linguagem
utilizada por ele, para que a mensagem codificada em sons, que é a música, seja
transmitida, e o elo emocional seja, enfim, estabelecido entre esses dois
atores da escuta, num processo que chamamos de experiência artística.
No entanto, artistas de fato criativos e
compromissados tão somente com a expansão de suas fronteiras expressivas podem
deixar desamparados, do ponto de vista estético, até seus fãs mais devotados e
continuar a surpreender o público ao longo da história no momento que instituem
nela um marco. Imaginem, por exemplo, o impacto causado pelos Beatles quando
eles apresentaram ao público, que até então os tinha como um grupo de “Iêiêiê”
que cantava a três vozes sobre paixões adolescentes balançando os cabelos em
sincronia, o revolucionário Revolver
em 1966. E mais ainda: imaginem o choque que esse disco continua a provocar
naquele que descobre o quarteto inglês por estes dias. É de perder o chão! Por
isso, afirmo que o tempo desempenha um papel fundamental nesses casos, pois
esse estranhamento inicial só pode ser vencido pelas transformações internas
que só ele, o tempo, nos proporciona, alterando inclusive a nossa compreensão
de música, nosso gosto e juízo de valor.
Eu poderia escrever aqui linhas e mais linhas sobre
as incontáveis vezes que isso aconteceu comigo: ouvir um disco, não entender
absolutamente nada, deixá-lo de lado e, depois de um bom tempo, como numa
revelação dos Céus, achá-lo espetacular numa audição despretensiosa e não
compreender como eu pudera não ter gostado dele logo de primeira. No entanto,
pretendo falar de minha última descoberta “tardia”, por assim dizer, que por
sinal nada mais era do que um clássico absoluto: The Blues and The Abstract Truth do saxofonista, compositor e
arranjador Oliver Nelson, lançado em 1961 pelo selo Impulse!.
A primeira vez que ouvi esse disco faz uns dez
anos. Naquela ocasião, tinha lido bastante a seu respeito em artigos e livros
que destacavam sua importância por retornar às raízes e investigar
minuciosamente os pilares do blues-
plataforma fundamental ao jazz -, apontando com isso novos direcionamentos na
composição jazzística ao incorporar princípios da harmonia modal no blues e se
valer de uma arquitetura que ia além da forma básica do gênero; na
interpretação dos temas por conta do escrutínio nos arranjos e na distribuição
das vozes, enfatizando cores obscuras e criando tessituras inesperadas; na
improvisação devido aos solistas presentes na sessão fortemente ligados ao avant garde e às novas abordagens como o
Jazz Modal e o Third Stream (a grosso
modo, a junção do jazz com a música erudita). Tudo isso, diga-se de passagem,
numa época em que o Free Jazz,sob a égide do grande Ornette Coleman,
subvertia os alicerces tradicionais do jazz como a forma chorus, a ideia de progressão harmônica e a noção de swing e dominava a atenção da cena de
então como uma novidade irresistível, uma revolução em curso. Contudo, apesar
de todas essas qualidades, lembro-me muito bem de não ter ouvido “nada do outro
mundo” no álbum e de tê-lo achado, devo confessar, um tanto convencional. Pus o
disco num canto esquecido de minha coleção por quase uma década, e só pela ação
silenciosa do acaso é que pude, finalmente, vislumbrar toda a sua dimensão e depurar
sua mensagem.
Semana passada, estava folheando o primeiro volume
do Real Book, uma espécie de livro
sagrado do jazz que compila inúmeras composições, em busca de uma música para
estudar harmonia (o modo dórico, mais especificamente) e improvisação. Do nada
– se é que isso existe -, lembrei-me que Stolen
Moments, tema composto por Oliver Nelson e que abre The Blues and The Abstract Truth, flerta com o modal. Toquei a introdução
(claramente em C dórico - Cm7 / Dm7 / EbMaj7), dei uma olhada na melodia, conferi
seu encadeamento de acordes e quando dei por mim estava longe de casa,
totalmente imerso no mundo imaterial da composição. “Realmente, esse tema é
massa.”, disse a mim mesmo. Tinha de reouvir a gravação original para ver o que
os instrumentistas faziam, como se comportavam na transição do tema ao momento
dos improvisos sobre a forma minor blues,
etc.
Foi um choque! Primeiramente pelo o time magistral
que Nelson escalou para a sessão: o incendiário Freddie Hubbard no trompete, a
lenda Eric Dolphy tocando sax alto e flauta, o toque impressionista de Bill
Evans ao piano, e uma cozinha sublime formada por Paul Chambers no baixo e Roy
Haynes na bateria[1].
Depois, pela maestria na interpretação do tema que eu acabara de visitar: a
ambiência profunda do estúdio, a completa atenção dos músicos às nuances e
expressões que Oliver Nelson põe no arranjo, conferindo-lhe força, a atmosfera cool que envolve o tema, o quanto é dito
nos silêncios e o quanto é subtendido nos fraseados. Cada improviso parece ser
melhor do que o outro, e à medida que os solistas mandam seu recado
inevitavelmente me lembro da perplexidade do escritor Alex Ross ante a
capacidade da música de, numa breve sequência de notas ou acordes, assumir as
peculiaridades de uma pessoa, traduzir num mundo abstrato a personalidade de um
artista[2]. O que
fica extremamente claro quando o tenor de Oliver Nelson se apresenta para
improvisar neste tema. Ele dá ao todo apenas quatro giros sobre a breve
estrutura minor blues, e faz uma
improvisação quase motívica, com padrões baseados em arpejos de tríades e figuras
rítmicas simples (tercinas) que vão criando tensão à medida que o encadeamento
harmônico se desenrola – especialmente quando ele insiste na tríade de Ebm
enquanto a progressão vai de Ab7 para G7, remetendo à escala aumentada -, mas
que, para muito além da análise técnica e da radiografia musicológica, traz em
si uma profundidade emotiva que as palavras jamais conseguirão exprimir. E é
justamente neste aspecto que reside toda a sua beleza, porque seu improviso
fala sem reservas a todo aquele que estiver disposto a ouvir, independente de
educação formal, provando que a música não é uma esfera autossuficiente, e sim uma
maneira de apreender a realidade a nossa volta e de partilhar da condição
humana que nos define.
Desde essa (re)descoberta, venho ouvindo compulsivamente
o disco todos os dias, faixa a faixa, com a maior atenção que consigo dar aos
detalhes, como que para recuperar o tempo que perdi sem me dar conta da
grandeza desse clássico, e pensando, ao final de tudo, como esse mesmo tempo que
nos turva a visão pode nos ensinar lições valiosas sobre aquilo que julgamos sempre
saber.
[1]
Há também George Barrow no sax barítono, contudo sua participação fica restrita
aos naipes.
[2]
Ver ROSS, Alex; Escuta Só: Do Clássico ao Pop, Companhia das Letras, 2011, São
Paulo.
Estou muito longe de ser um
fanático ou mesmo entendido de futebol. Admiro muito o jogo, tenho os meus
times, mas estou longe de entender de esquemas táticos, escalações de jogadores,
posicionamento dentro de campo, mas acompanho as notícias, as polêmicas do
cotidiano dos clubes e nos dias seguintes aos jogos com mais interesse. Uma das
perguntas mais recorrentes sobre futebol, feita a todo aquele que têm um mínimo
de interesse pelo jogo, é “qual seu ídolo no futebol?”. A resposta de cada um
leva os mais diversos fatores em consideração: as jogadas brilhantes produzidas
por determinado jogador, a quantidade de títulos, uma atuação decisiva num jogo
importante, a quantidade de gols marcada ou até mesmo o comportamento fora de
campo. A maioria dos meus contemporâneos aponta Zico ou algum jogador do seu
clube de coração.
O meu ídolo no futebol jamais o
vi jogar, a não ser por alguns poucos videotapes. Ele também não pertence a nenhum time pelo
qual torço. Tostão significa algo mais do que o jogador que venceu a Copa do
mundo de 70 e fez parte de um dos maiores times da história do futebol. Sua
carreira foi bruscamente interrompida em virtude de uma bolada que atingiu o seu olho e provocou o descolamento da retina. Assim, em Fevereiro
de 1973, Tostão, 26 anos, aconselhado pelos médicos, abandona o futebol.
Mas o “mineirinho de ouro”, como
era conhecido, fez algo pouco usual para um ex-jogador de futebol. Foi aprovado
na faculdade de medicina e em 1981 obtém graduação e passa a atuar como médico,
deixando o futebol de lado por um bom tempo. Em 1994, Tostão é convidado para
comentar a Copa dos Estados Unidos pela rede Bandeirantes e atuar como colunista
de vários veículos impressos pelo Brasil.
Lançado em 2011, “A perfeição não
existe” reúne algumas de suas crônicas escritas e publicadas em jornais entre
2000 e 2011. Tostão nos presenteia em cada uma dessas crônicas com seu olhar
voltado para o humano, no qual o futebol é apenas uma parte. Ele discorre com
desenvoltura desde esquemas táticos utilizados por treinadores ao prazer da
vida quase campestre que leva junto com a família. Não tente o leitor buscar
uma espécie de “padronização” nas crônicas, pois isso é algo com que Tostão não
se preocupa. Escreve sobre o que bem
entende e quando quer. Abaixo vão algumas análises contidas no livro que
considero pertinentes:
“Aprendo com as críticas, desde
que elas não sejam apenas de torcedores parciais. Interessante é que há um
grupo de torcedores que é excessivamente duro com os jogadores e com seu time,
mas que não aceita as mesmas críticas de comentaristas. Acha que queremos
menosprezar seu time de coração.”
“Parece que algumas pessoas acham
que o comentário técnico é uma coisa chata, pouco intelectual, menor. Estranho!
Como se fôssemos obrigados a escolher entre a beleza, o espetáculo e a técnica.
Com raras exceções, não existe arte sem técnica.”
“O perfil ideal de um atleta
seria o q associasse talento com garra, que fosse emotivo sem perder o controle
de suas emoções, guerreiro e tranquilo, disciplinado e ousado , ambicioso, sem
esquecer que o conjunto e a união são fundamentais no sucesso de um time.
Evidentemente, esse super-homem não existe.”
“Precisaria de dezenas de
crônicas para descrever tantos momentos inesquecíveis. Temos sempre de lembrar
que o futebol, antes de ser uma competição, um jogo de técnica e de tática, é
um esporte lúdico, belo e emocionante. Os lances espetaculares são os que ficam
na história.”
“O futebol e a vida continuam
prazerosos e bonitos porque mesmo em situações previsíveis, comuns e
repetitivas, haverá sempre o acaso e um artista, um craque para transgredir e
reinventar a história.”
Algumas chegam a surpreender como
a crônica que dá título ao livro:
“Compreendo as atuais críticas (a
crônica é de 2000) de que a seleção de 70 não era tão maravilhosa. Imaginaram
um time perfeito. Não foi perfeito, mas foi uma equipe espetacular e
irresistível para aquela época. A perfeição só existe na nossa imaginação. A
seleção de 70 teve um grande defeito: seus jogos são constantemente reprisados pela
TV. A imagem destrói a fantasia, que é sempre melhor que a realidade.”
Sem dúvida há ainda muitos
pensamento e reflexões que mereceriam citação, mas deixo os leitores com a
curiosidade conhecê-los.
Na coluna deste mês, os editores do
blog lançam um olhar coletivo sobre o recém-lançado disco “Ao Vivo” da cantora
paulista Céu.
Boa leitura!
- Giba Carvalho:
Quando
Bruno Vitorino sugeriu o trabalho novo de Céu como pauta para coluna deste mês,
confesso ter sentido um frio na espinha. A dúvida permeou meus ouvidos e minha
cabeça de modo intrigante: “o que falar de uma cantora que acho excelente em estúdio
e que não rende o esperado ao vivo?”. Pois bem. A cantora paulista fez uma
síntese dos três primeiros álbuns para comemorar os dez anos de sua carreira
que continua bastante promissora. Deixou de lado os aspectos dub-ragga de “Vagarosa” (2009) e
priorizou o lado mais “pop-sedução” de “Caravana Sereia Bloom” (2012). Escolheu
o aconchego do Centro Cultural Rio Verde e sua capacidade de 400 pessoas para
fazer uma gravação mais intimista, do que o delírio frenético das grandes
plateias. Este foi o primeiro grande acerto do trabalho. O segundo ponto
positivo foram as versões escolhidas por Céu. Como principais destaques do
trabalho, a excelente versão de “Mil e Uma Noites de Amor” (Baby do Brasil,
Pepeu Gomes e Fausto Nilo) e conhecida do público oitentista na trilha da
novela “Roque Santeiro” e a espetacular versão de “Visgo de Jaca” (Rildo Hora e
Sérgio Cabral) que já conhecemos desde Vagarosa. No mais, conforme citado
acima, um compilado de seus maiores sucessos executados de modo bastante
peculiar e competente.
Reconheço
que da geração pós-Los Hermanos, Céu seja o nome de maior destaque do cenário
pop nacional. Particularmente, gosto muito de sua ousadia nas composições e gravações
dos seus trabalhos, mas dois pontos específicos me incomodaram sobremaneira.
Primeiramente, a queda para elementos extremamente bregas nos arranjos. A
versão de “Cangote” (uma das minhas preferidas do Vagarosa – 2009) é de revirar
morto no caixão. Do balanço cadenciado de um reggae de categoria, para uma
guitarrada sem pé nem cabeça, fruto da mentalidade “cafuçú” que permeia como
“CUltura” na mentes “privadizadas” da turminha descolada. Aqueles que fingem
ser alegres às custas da desgraça alheia. E segundo, as vinhetas patéticas que
existem nos hiatos e introduções das músicas.
No
mais, as pessoas precisam entender que mesmo sendo uma gravação de show, o
trabalho foi mixado, as falhas usuais e constantes da cantora “na febre do ao
vivo” foram maquiadas, e assim o CD e DVD serão um sucesso absoluto.
- André Maranhão:
Quando
conheci o trabalho de Céu, a partir do seu disco de estreia em 2005, me pareceu
que sua arte se encaixava muito bem numa estética glocal (uma mediação entre
traços do global e local da cultura). A cantora quase sempre cruzou ritmos,
artistas e idiomas diversos nos seus álbuns. Em seu novo disco (Ao Vivo)
acredito que o glocal ainda persiste. Porém, em alguns momentos, Céu e os seus
bons músicos (Dustan Gallás; Lucas Martins; Bruno Buarque e o DJ Marco)
perderam (ou não procuraram) a possibilidade de se conectarem com a
inventividade do Jazz ou da improvisação – coisa que seria bastante pertinente
ao longo do disco. Senti a falta de tudo isso em “Teju na Estrada”
(instrumental) e “Streets Bloom”: ambas são faixas caídas e que não me
empolgaram, talvez justamente por não se improvisar mais. Em “Rainha”, um
Afrobeat que por vezes Céu dedica a Fela Kuti, também seriam bem-vindas mais
improvisações dos músicos, frases cheias – além, é claro, do vocalise menos tímido
por parte da cantora.
Ao
longo de sua carreira, Céu migrou paulatinamente dos backing vocals para o lead.
Quiçá por dispor de uma voz bem favorável ao estilo de cantora crooner, que Céu consegue interpretar um
estilo como o Brega com tanta finesse. Isso ocorre em “Retrovisor”; “Amor
Antigo”; “Baile da Ilusão”. Mais além, a faixa “Cangote”, junta o canto de Céu
com traços da música paraense, de uma linhagem Brega Cult e que se assemelha
bastante aos trabalhos de Felipe Cordeiro.
“Lenda”
permanece bem fiel às apresentações de Céu antes de lançar o álbum Ao Vivo. “Contra
Vento” e “Comadi” conectam a música nordestina com o Indie, e “Em Piel Canela”
(um clássico escrito por Bobby Capó, e gravado por outros nomes consagrados,
tais como o trio Los Panchos e Nat King Cole), Céu mantém a suavidade e a
leveza da sua interpretação. Em “Mil e uma Noites de Amor”, seu tom é bem
próximo ao de Pepeu Gomes, e a versão é boa (ainda que eu considere a versão de
Pepeu mais marcante).
Às
vezes, acelerar a batida de uma canção não é garantia de que ela melhorará;
principalmente em um ritmo como o Reggae. É o que acontece em “Concrete Jungle”.
A versão do álbum Céu (2005), além de conter uma harmonização mais rica, com
oitavadas, mais acordes e uma cadencia desacelerada, funciona bem melhor do que
a do álbum Ao Vivo.
Ultimamente,
alguns artistas que pretendem se aproximar de uma forma / fórmula emepebista da
canção, têm cometido o seguinte equívoco: enxugar demais ou até excluir os
instrumentos acústicos de suas interpretações, assim como tornar excessivo o
uso de recursos eletrônicos. Bom, no disco “Ao Vivo” de Céu, isto ocorre em 10
Contados (uma vez que as versões do álbum de estreia da cantora e o dueto com
Paulinho Moska no programa Zoombido, do canal Multishow são bem melhores); Malemolência
(que apesar da novidade de Céu citar Mora na Filosofia, de Monsueto e Arnaldo
Passos, a versão original do álbum de 2005 traz consigo a frase do cavaquinho –
tão legal, porém esquecida nas posteriores apresentações da cantora). Em "Visgo
de Jaca" (de Rildo Hora e Sergio Cabral), pode-se conferir na versão de estúdio
anterior ao disco Ao Vivo, a diferença que fazem o pandeiro e as congas em
certas canções.
- Fernando Lucchesi:
Dentre
as várias cantoras surgidas no final dos anos 2000, sem sobra de dúvida, Céu é
a que mais se destaca. O CD/DVD “Céu Ao Vivo” faz um apanhado da consistente
carreira da cantora, iniciada com o disco homônimo “Céu” (2005). O disco, especificamente, tem uma mistura bem
interessante das canções dos três discos lançados por ela. O início é de tirar
o fôlego com três belíssimas canções. “Falta de ar” inicia com uma pegada
roqueira setentista, desacelera e se enche de solos de guitarra. “Amor de Antigo”
com sua levada meio brega e aquele famoso teclado de churrascaria, embalam uma
linda melodia e “Contravento” parece uma cúmbia desacelerada, com inserções de
guitarras psicodélicas.
Céu
também não se contenta em ficar em sua zona de conforto e transforma um dos
seus maiores sucessos, a balada “Cangote”, em um carimbó/guitarrada paraense.
Funciona muito bem. A influência paraense/caribenha também está presente em
“Baile de Ilusão”. O que não funciona bem no disco é a cover de “Mil e Uma Noites
de Amor” de Pepeu Gomes. Muito similar ao original, sem nenhum toque de
ousadia, algo que se espera de uma cover,
principalmente ao vivo. O que falta de ousadia em “Mil e Uma Noites de Amor” é
compensado na interpretação e arranjos de trip
hop para lindíssima “Visgo da Jaca” de Martinho da Vila, que infelizmente
está apenas no DVD.
Na
segunda metade do álbum a cantora deixa um pouco de lado a influência caribenha
nos arranjos das músicas abre um espaço maior para outros gêneros muito
presentes na carreira de dela. Há espaço para o Hip Hop (“Malemolência” e
“Lenda”), Reggae (“Concrete Jungle”, cover
de Bob Marley) e até uma pouco de soul, nos arranjos de “Rainha”. A julgar pelo
apanhado das músicas do CD e DVD “Ao vivo”, Céu está no caminho certo com seu
caldeirão de influências musicais.
- Bruno Vitorino:
O
disco “Ao Vivo” da paulista Céu chega para marcar a exitosa trajetória de dez
anos de uma cantora que soube ao longo de sua carreira articular suas influências
de música internacional às raízes de sua cultura numa produção autoral do seu
tempo, sem saudosismos caricatos e mercadológicos, e que se materializa num formato
pop urbano, mas que – eis aqui o mais importante e raro - ainda se preocupa com
o conteúdo. Por essa razão, vejo a cantora com o nome mais interessante do mainstream nacional dos últimos tempos. Seu
talento para a composição, suas angulosas melodias que serpenteiam por uma
harmonia intuitiva, sua voz falha, roufenha - não pasteurizada pelo tecnicismo
lírico ou pela artificialidade da impostação exagerada à Ana Carolina –, mas educada
e de belo timbre, e sua sensível qualidade de intérprete resultam numa música que
tem identidade própria e méritos estéticos, como atestam seus discos “Céu”
(2005), sua obra-prima “Vagarosa” (2009) e o dançante “Caravana Sereia Bloom”
(2012).
Tive
a oportunidade de assistir à cantora em ação no festival Rec Beat no ano de
2013, mas creio que a dispersão do palco grande combinado à euforia de um
grande público a dominaram. Sem falar que a banda no palco era bastante
reduzida em relação àquela que se ouvia nos discos, sempre repleto de
convidados em cada faixa. Assim, em poucas palavras, o que vi foi uma Céu desconcentrada
amparada por uma banda que não conseguia preencher os espaços e atingir o nível
de execução que se ouvia nos discos em estúdio. Saí antes de o show terminar. Daí
meu medo que o fenômeno “brilhante em estúdio, terrível ao vivo”, algo tão
comum em tempos de músicos que não sabem o que fazem e focam no hype, se repetisse com esse novo projeto
da cantora. No entanto, não é o que acontece. Imagino que o ambiente controlado,
com uma produção disponível e vasto background
ao alcance, a responsabilidade de uma gravação de um DVD/CD, que não deixa
de ser sinônimo de prestígio na carreira de qualquer artista, o caráter
intimista do Centro Cultural Rio Verde, local escolhido para a gravação de sua
apresentação, e, por fim, um público empolgado ma non troppo criam as condições ideais para que Céu se mostrasse focada
e confiante, e sua banda, mais audível e comprometida com a execução. E o
repertório é simplesmente matador! Destaque para o clima tropicalista de “Contra
Vento” e samba-dub de “Malemolência”.
Recomendo!
- Rógeres Bessoni:
Por razões de cunho pessoal, o sr. Bessoni não
conseguiu escutar e escrever na coluna de março. No próximo mês, o colunista
está de volta com suas observações perspicazes.
Diana
Krall ecoava no sistema de som do Teatro Luiz Mendonça, embalando o ambiente
com sua releitura à Spettus Steak House
do clássico “Fly me to The Moon”, de Bart Howard. Sofisticação e requinte era o
que sua versão industrializada desse standard
consagrado por Frank Sinatra parecia derramar sobre o público. Sentado na
extremidade esquerda de minha fileira, tentava entrar no clima de descontração
e leveza que parecia envolver os presentes. Ainda estava um pouco agoniado,
talvez por causa da meia hora que passei em pé na fila devido ao atraso de uns
trinta minutos na abertura dos portões. Quando finalmente meu espírito chegou
ao teatro, já ribombava, como um sinal dos deuses, o segundo gongo de
advertência - aquele toque que anuncia à platéia que em breve as apresentações
irão começar. “Que bom! Não vai atrasar tanto.”, pensei. Neste mesmo instante,
reparei que todos, repito, todos!, os casais que estavam à minha volta, sacavam
de seus celulares para tirar uma selfie
e imortalizar no Instagram esse
momento íntimo e fugaz que, outrora destinado a quedar esquecido nos porões da
memória, convertia-se em acontecimento real, fato histórico na biografia dos
enamorados, pelo seu registro e publicação nas redes sociais. “Não imaginava
que éramos assim tão positivistas...”, lembro que cheguei a pensar.
Foi
aí que ouvi de passagem, para meu espanto: “É o Hermeto que vai tocar agora,
véi!”. Descendo as escadas, um jovem hipster
de bigodes eriçados nas pontas e barba vultosa que parecia ter acabado de
acordar, pois trajava uma calça de pijama, com uma camisa regata furada e um
chinelo de dedo, prenunciava o que eu temia: que a ordem das apresentações
fosse invertida e eu tivesse de assistir ao concerto do duo Hermeto Pascoal e
Aline Morena. Justamente o único que não queria ver. Mas, calma! Antes que seu
cenho ganhe rugas de desaprovação, leitor, faço questão de esclarecer o óbvio:
amo a música de Hermeto Pascoal! Tive verdadeira uma epifania com o concerto de
seu grupo na MIMO em 2009, com direito a torpor, perplexidade e uma noite
inteira de reflexões sobre a arte, o sentido da vida e qual seria, depois de
ter presenciado tamanho milagre artístico, minha relação com a música. Sempre
me intrigaram a complexidade arquitetônica de suas composições, a maneira como
ele conferia um novo sentido à tradição ao fazê-la dialogar com o
contemporâneo, a infinidade de seu vocabulário sonoro que incorporava todos os
sons possíveis em sua música, daqueles gerados pelos instrumentos convencionais
aos oriundos dos objetos mais improváveis – no álbum Slaves Mass, ele usa até um porco! -, e como, por fim, dentro de
todo esse universo inóspito os músicos compartilhavam tanta liberdade e
exercitavam com tanto ímpeto o risco. E o Hermeto lá guiando tudo! Vê-lo ao
vivo com seu grupo foi, portanto, uma experiência indescritível. No entanto,
com o duo Hermeto/Aline não sinto isso. Nem de longe vislumbro toda essa
dimensão. Vejo apenas um happening
que prima pela espontaneidade em si mesma, sem propósito estético definido,
irmã gêmea do excêntrico. De resto, sinceramente, acho que a Aline, por mais
que tente e se esforce, não consegue acompanhar o “Bruxo” (e o grupo, quando
presente) em suas explorações e mais atrapalha do que contribui para música que
ali está sendo feita. Enfim, não pude deixar de sentir certo alívio quando veio
então o terceiro e último gongo, e com ele o anúncio da primeira atração da
noite: Alex Corezzi e Jean Kapsa.
O
projeto do saxofonista Corezzi, mineiro radicado em Pernambuco e a mente iluminada
por trás da produção do Recife Jazz Festival, com o pianista francês Jean Kapsa
foca em reinterpretações mais abertas de temas clássicos da música instrumental
brasileira. E por “mais abertas” deve-se entender que os instrumentistas se
valem de uma célula melódica de determinada composição, apoiando-se na harmonia
que lhe é implícita, para a partir desta estrutura mínima se lançarem nas
improvisações e empreenderem um diálogo intenso na construção espontânea das
formas. Dentro dessa perspectiva, o mais que conhecido frevo “É de Fazer
Chorar” foi revisitado num andamento moderado, com os músicos a flutuar em rubato sobre o pulso estabelecido que
delimitou o clima emotivo apropriado para receber um sax tenor vigoroso o qual
percorria de forma assimétrica determinado trecho pinçado da melodia,
enfatizando assim seus grupamentos rítmicos, ancorado num piano frenético que
abusava de pontilhismos, clusters e
acordes estendidos que de tão imensos desabavam sobre si. Depois disso,
alternância de improvisações individuais e reexposição do motivo ad libitum. No entanto, o que à primeira
vista me pareceu uma abordagem corajosa e exploratória de temas tradicionais e
vastamente tocados, à maneira do que fizera, por exemplo, o grande Albert Ayler
com seu mergulho no spiritual, no gospel e na creoule music, revelou-se um quê burocrática e repetitiva. Lá pela
terceira música, percebi que aquilo que se pretendia free e pautado no imprevisível acabava sempre por repousar sobre
uma confortável e protegida fórmula estrutural: o sax livremente tocando a
melodia sobre um piano tempestuoso; aumento da tessitura sonora como ponte para
os solos; seção de improvisos do tenor; solo de piano sobre um vamp que estabelecia o lugar harmônico;
retorno ao tema com a mesma pegada da abertura. Ou seja, um formalismo
disfarçado que ia totalmente de encontro aos preceitos da improvisação livre,
que nega justamente o preconcebido ao focar no imponderável e seus desafios.
Vale ressaltar, porém, que se do ponto de vista musical a apresentação do duo Corezzi/Kapsa
me pareceu um tanto morna, repetitiva e carente de um diálogo mais propositivo,
reconheço o grande mérito didático de apresentar a um público pouco afeito à
música instrumental uma abordagem não convencional dos temas que interpretou,
convidando os ouvintes a fruir a música sob um viés certamente inesperado por
eles, como denunciou o calor dos aplausos ao final do set. Mas, nesse momento, eu já ansiava pelo concerto que me fizera
sair de casa e encarar uma longa viagem à zona sul da cidade. Em breve, subiria
o palco para escrever/declamar sua poesia em primeira pessoa o argentino
Ernesto Jodos.
Formado
na prestigiosa Berklee College of Music,
Jodos é uma das figuras principais da rica cena jazzística argentina surgida em meados dos anos 1990, a qual fora responsável
pela ampliação das fronteiras estéticas dessa música no país ao combinar a
tradição dos standards a uma produção
autoral que carregava em si as inquietações de uma geração de instrumentistas que
investigava, inquiria e ressignificava os cânones de suas próprias raízes
culturais. Desde então, o pianista vem atuando em diversos projetos como líder,
co-líder e sideman, angariando inúmeros
prêmios ao longo de sua trajetória e documentando numa discografia que já se
avoluma sua música introspectiva e personalíssima, que se põe em xeque a todo instante,
seja em contextos mais dentro da plataforma chorus
ou naqueles de total desprendimento de qualquer alicerce preconcebido. Particularmente,
tomei conhecimento da existência de Jodos num disco do excelente saxofonista
Rodrigo Dominguez (também argentino) intitulado “Tonal” (2004). Nesse projeto,
em que o tradicional combo “sax/órgão hammond/bateria” abandonava o hard bop que o consagrou, bem como sua
estrutura “tema – improviso – tema”, e se lançava em voos arriscados pelas
paisagens sonoras abstratas da improvisação coletiva; pude perceber a destreza técnica
de Jodos e como ele a utilizava em prol de expressar o que sentia a cada
momento da música executada. Estava tudo lá: seu jeito de harmonizar melodias
aparentemente incompatíveis com o rigor estrutural dos acordes, o modo como ele
respondia às investidas dos músicos e contribuía para a atmosfera emotiva do
que estava sendo tocado, sua capacidade impressionante de criar todo um
discurso improvisativo a partir do mais singelo e despretensioso motivo, o uso que
fazia dos espaços, os silêncios que tocava. Tudo isso num contexto de muita
incerteza, como se a música estivesse prestes a fugir do controle a qualquer
instante, e de tensão a níveis elevados, com uma permanente sensação de que não
houvesse qualquer zona de repouso para onde os instrumentistas pudessem levar os
temas à conclusão. Por todas essas razões, ver Ernesto Jodos em ação era para
mim apenas uma questão de oportunidade.
O concerto
foi baseado no mais recente trabalho do pianista, o disco “Actividades
Constructivas”, lançado ano passado pela label
argentina BlueArt. Nesse álbum, Jodos, sozinho, propõe-se a investigar a
tênue fronteira que divisa composição e improvisação, colocando essas perspectivas
frente a frente em sua odisseia sonora: a primeira enquanto lugar objetivo da
expressão musical, esquema previamente definido, fruto do processamento do
impulso criativo pelas estruturas do pensamento, ou seja, improviso escrito; e a
segunda enquanto discurso libertário, rompante criativo em estado bruto que vem
dos mais recônditos confins da memória, o qual carrega em si uma peculiar carga
emocional justamente por ser não refletido, e materializado no ato da execução,
isto é, composição instantânea. Ao se valer da colisão desses extremos, Jodos apresentou
em Recife uma música abstrata, exigente, de difícil assimilação, totalmente dissociada
da sensibilidade estética banal que se entranhou em nossa cultura e do lugar
comum daquilo que se consolidou Jazz no
espírito coletivo fomentado pelo establishment.
No entanto, uma música imensamente bela, dialógica, imaginativa e profunda que convidava
o ouvinte mais curioso a abandonar o conforto de seus (pre)conceitos artísticos,
daquilo que sempre conheceu por música, e celebrar na transcendência a condição
humana que nos iguala, nos define e nos une. Era impressionante como a cada
tema, o pianista parecia se concentrar para limpar de sua mente qualquer vestígio
de estratégia na abordagem da música, que podia rutilar de uma exígua estrutura
melódica ou ser iniciada da inteira negação a qualquer material prévio, e
transpor a alma para a ponta dos dedos, como se escrevesse, nas palavras de
Machado de Assis, “uma poesia austera e pura” que versava sobre as mais íntimas
aspirações. Um mergulho desmedido dentro de si mesmo, um salto no vazio. Cada
composição, cada improviso descortinava um universo novo cheio de nuances e
sentido interno, como uma afirmação contundente de que na arte toda a repetição
é nula. A polidez dos aplausos, contudo, fez-me suspeitar que fora mais
respeitado pela condição de artista do que compreendido enquanto tal.
Não
fiquei para os dois últimos concertos. Não tinha como. Depois desse recital, só
me restou voltar para casa com a música que acabara de ouvir ainda reverberando
em meu âmago e um sorriso de menino no rosto por ter conseguido comprar uma cópia
do disco de Jodos - graças à boa vontade, vale ressaltar, de um dos membros da produção do evento.
Foi
mais uma longa e agradável noite de reflexões sobre arte, vida, sentido e
gratidão.
A Itália é um estado-nacional com várias
personalidades comunistas; e se algumas cidades italianas são politicamente
orientadas à direita, outras são declaradamente esquerdistas. Não é à toa que
em seu livro Democracia e Segredo,
lançado há poucos anos, Norberto Bobbio considera a Esquerda italiana (La Sinistra) a mais expressiva da
Europa. Em 1976, o Partido Comunista Italiano elegeu Giulio Carlo Argan para o
cargo de prefeito da influente cidade de Roma. Porém, de modo curioso, o novo
prefeito não era um político oriundo das bases sindicais ou da burocracia, mas era
um dos acadêmicos e historiadores da arte mais influentes da Europa. Ao longo
de sua vida, Argan colecionou aulas e textos que situaram pesquisadores durante
os séculos XX / XXI, além de estudos que tratam de temas importantes para a
Estética.
Dentre os escritos de Argan, suas análises sobre
o Iluminismo inglês articulam habilmente as formas da arte com os conteúdos e
argumentos defendidos pelos próprios artistas daquele período. Durante os
séculos XVI-XVII, a Inglaterra teve uma escola filosófica e literária mais
expressiva do que sua pintura. Se comparadas às da Holanda, França e Itália, as
telas inglesas não preenchiam os espaços artísticos com tanto impacto; e além
de importar as suas pinturas, os ingleses não prestigiavam tanto o ofício do
pintor quanto os holandeses, franceses e italianos. Aliás, mais nobre e digno
para uma inglês era consumir ou comprar, em vez de criar, uma pintura. Segundo Argan, tal realidade só começou a mudar
no século XVIII, quando o norte da cultura artística passou das mãos da
aristocracia para a burguesia. Em outros termos, pode-se dizer que os burgueses
não tinham receio de “sujar as mãos” para fazer arte, como também não tiveram
cerimônias em valorizar o estudo da arte em vez de apenas comprá-la. Portanto,
a pintura iluminista também abriu as portas para a figura do “conhecedor” em
vez de apenas prestigiar um mero “comprador” de um quadro.
O Iluminismo inglês reconheceu a importância dos
cânones italianos para a composição da arte, ao mesmo tempo em que destacou os
mestres holandeses e os seus temas burgueses / não religiosos na composição de
seus quadros. Neste ponto, era importante imitar
os mestres, mas imitar não era necessariamente copiar:
À esquerda temos a estátua em mármore de Apolo Belvedere, finalizada em 1511, e pertencente
ao Museu do Vaticano – enquanto à direita, encontramos o Honorável Capitão Augustus Keppel; pintado por Joshua Reynolds, em
1753. Vários artistas ingleses começaram a escrever tratados sobre a arte influenciados
por temas filosóficos. Reynolds argumentava que a criação artística não resultaria
de uma inspiração sobrenatural, como também sustentava que o próprio exercício
da crítica de arte levaria o ser humano à ação artística. Segundo esta
perspectiva, embora a figura do gênio ainda existisse, as suas condições de
existência pareciam bem diferentes, pois a arte se tornou um espaço tanto para
gênios quanto para diletantes
formados pelo gosto:
“A arte
é e permanece invenção; mas, se ela não nasce do nada, é inútil tentar inventar
sem antes ter recolhido uma grande quantidade de material. É verdade que a arte
é produto do gênio; mas o gênio não é distinto do gosto senão por ser
relacionado ao fazer, e não ao julgar; e se o gosto não tem origem sobrenatural,
mas é formado pela educação, o gênio também se forma e amadurece na experiência
(...). O gênio-gosto não pertence apenas ao artista, mas a todos que receberam
uma determinada educação: se essa faculdade, quando assume o nome de gênio,
estimula a fazer arte, não se entende por que essa permaneceria inerte quando
assume o nome de gosto” (ARGAN, 2010, p. 24-34).
Muito antes do conceito de sublime, tão caro ao Romantismo e Idealismo alemão, a pintura
iluminista da Inglaterra já se valera da noção de pictórico, combinada com a definição de argúcia (wit). E mesmo
antes que artistas como William Hogarth e William Blake movessem esses termos
em seus discursos, a ideia de argúcia já surgira na própria filosofia
britânica, quando Thomas Hobbes, John Locke, George Berkeley e David Hume já a
definiam como a “velocidade da imaginação”; e a “sequência rápida de uma ideia
à outra”. O que a poética inglesa fez foi reconhecer a beleza dispersa na Natureza, nas paisagens, nos cenários da vida social. E neste
sentido, a tarefa do artista seria a de organizar essas belezas em sua tela,
mais uma vez as imitando, e não as copiando.
A tela de William Hogarth, O Pintor e Seu Pug (1745) obviamente imita algo da Natureza, mas o
traço do pintor é intencionalmente embaçado, pois a pintura não significaria
mais o antigo esforço em ser fidedigna aos objetos contemplados pelo artista.
Analogamente, o cão está borrado na tela. A paleta do pintor contém a inscrição
The Line of Beauty; mas de maneira
irônica, a Linha da Beleza é uma
curva. O pintor se pinta diante do espelho, e traz consigo seu traje, tão
composto de curvas quanto a Linha da Beleza. Tão curioso quanto isso, é saber que
as criações de Hogarth foram lançadas muito antes dos quadros impressionistas
da França!
Argan demonstrou que no século XIX, a pintura
iluminista da Inglaterra começou a declinar, na medida em que os Pré-Rafaelitas
surgiam, advogando um retorno à pureza da vida e temas religiosos. Mesmo assim,
vários artistas importantíssimos e posteriores beberiam de fontes dos
iluministas ingleses: Goya teve contato com a pintura de Gainsborough;
Delacroix conheceu os trabalhos de Bonington. Não menos importante, os ingleses
contribuíram bastante para a renovação da estética francesa, até então bastante
marcada pela influência das formas e temas de Grécia e Roma Antigas, além do Neoclássico.
Um grande poeta francês como Charles Baudelaire, formou boa parte de seu
repertório artístico sob a influência da pintura iluminista inglesa. Se a noção
de pitoresco na Inglaterra foi capaz de aliar a beleza natural com a argúcia do
pintor e o seu entorno; posteriormente a tudo isso, Baudelaire definiria a Modernidade como “o transitório, o
efêmero, o contingente” (2007) – e onde o artista moderno deveria ser capaz de
pintar e captar essa transitoriedade,
efemeridade, contingência; imprimindo sobre ela o seu ar de eternidade.
REFERÊNCIAS
ARGAN,
G. C. A arte moderna na Europa: de
Hogarth a Picasso. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade: o pintor da vida moderna. São Paulo: Paz e
Terra, 2007.
Sempre houve e
sempre haverá questionamentos quanto aos filmes indicados e vencedores do
Oscar. Como em toda competição que premia filmes, o critério, na grande maioria
dos casos, é amplamente subjetivo, o que dá margem para todo tipo de crítica.
Já fui de acompanhar Oscar madrugada adentro, mas hoje em dia me conformo em
assistir até onde meu sono aguentar e a paciência aguentar com os números
musicais e discursos pra lá de enfadonhos (reconheço que com o passar do ano a
cerimônia ficou mais dinâmica, mas ainda sim demora por demais). No entanto, é
impossível escapar do “Evento” (com “E” maiúsculo mesmo) Oscar, pois toda mídia
de entretenimento está com os holofotes voltados para a cerimônia. Esse ano
resolvi que assistiria pelo menos todos os indicados para melhor filme e faria
alguns comentários sobre eles. Vamos lá então!
Boyhood- Da infância à
juventude – O diretor, Richard Linklater, optou por narrar a vida do
garoto Mason (o talentosíssimo Ellar Coltrane), como entrega o subtítulo em
português, da infância à juventude. Ao optar por utilizar o mesmo elenco
demorou 12 anos pra poder concluir as filmagens. O filme dá saltos temporais na
vida de Mason de forma que personagens secundários somem sem maiores
explicações e novos personagens vão surgindo à medida que o personagem cresce.
O que dá força dramática ao filme são os personagens com seus dilemas
existenciais, angústias, insegurança, felicidade e toda sorte de emoções às
quais nós, como seres humanos estamos sujeitos durante a vida. Destaque para o
diálogo na cena em que Mason deixa a casa de sua mãe para começar a faculdade.
Divide com Birdman o favoritismo para levar melhor filme. Possivelmente leva o
Oscar de coadjuvante para Patricia Arquette (numa interpretação magnífica). Tem
boas chances também no roteiro e direção para Linklater.
BIRDMAN ou A inesperada
virtude da ignorância - A probabilidade dos roteiristas terem escrito
o filme pensando exatamente em Michael Keaton é gigantesca (talvez eles já
tenham confirmado isso, mas não li). Os personagens pelos quais tanto Keaton
quanto seu alter ego no filme, Riggan Thomson, são marcados são super-heróis
(Birdman e Batman). O ano em que atuaram pela última vez em seus papéis
icônicos foi 1992. E Keaton, tal qual Riggan Thomson busca aclamação da crítica
com um novo projeto (Riggan com uma peça na Broadway e Keaton com o próprio Birdman).
A história gira em torno das dificuldades encontradas por Riggan para conseguir
montar a peça “What We Talk About When We Talk About Love” do escritor
americano Raymond Carver, já que além de ator ele também é o produtor da peça.
Assim como em “A noite americana” de Truffaut, o filme mostra todas as
dificuldades de se produzir arte (egos elevados, insegurança, medo constante do
fracasso, etc.). Para fazer uma ironia ainda maior com o fato de Keaton/ Riggan
serem marcados com super-heróis o diretor confere ao personagem alguns
“superpoderes”. Com uma excelente fotografia em tons escurecidos tem amplas
chances de ganhar. É favorito, junto com Boyhood, à estatueta de melhor filme e
Keaton é o favorito para melhor ator.
O jogo da imitação -
Baseado na vida do matemático Alan Turing, o filme resgata um período sombrio
durante a segunda guerra mundial, no qual os alemães conquistavam várias
capitais da Europa muito em virtude de uma máquina chamada ENIGMA, a qual todos
os aliados tentavam decifrar para captar as mensagens germânicas e evitar ataques
inesperados. Liderados por Turing (em ótima atuação de Cumberbatch), os mais
respeitados matemáticos da Inglaterra tentam de todas as formas “quebrar” a
criptografia da máquina. Aparentemente a história teria tudo para ser
entediante, mas o roteiro de Graham Moore e a excelente edição de William
Goldenberg dão ao filme o clima de tensão necessário para fazer do filme tanto
um drama (que explora a vida de Turing) com um eficiente thriller de espionagem. Tem fortes chances no prêmio de edição e
Cumberbatch corre por fora como ator, mas dificilmente ganhará.
A teoria de tudo– Apoiado numa excelente
atuação deEddie
Redmayne como famoso físico Stephen Hawking, esse filme tenta ser uma
cinebiografia de Hawking, mas é um melodrama dos mais chatos feitos nos últimos
anos. É inquestionável que um personagem como Hawking, que teve uma vida
realmente extraordinária, mereça uma cinebiografia, mas esse filme,
absolutamente, não faz justiça ao “personagem” Hawking. O filme, literalmente,
junta pedaços da vida do físico e explora ao máximo num tom cheio de
auto-piedade a vida da família Hawking. Enfim, é o típico filme que a academia
gosta, com uma história de superação das adversidades com uma atuação quase
“espírita” do ator principal. Pelo que vi em alguns sites Eddie Redmayne tem
boas chances como ator, mas o prêmio deve ficar com Michael Keaton
(Birdman).
Whiplash - Em busca da
perfeição - Na busca por um lugar como um dos melhores bateristas do
seu tempo, o jovem Andrew Neiman consegue uma vaga em uma das mais conceituadas
escolas de música dos EUA. Lá encontrará um professor de métodos quase sádicos
na busca por ser o descobridor do próximo grande músico de jazz. Com uma
interpretação não mais que excepcional de J.K. Simms como o professor Fletcher,
o filme tem os seus grandes momentos nos embates entre professor e aluno, cada
um ao seu modo tentando extrair o melhor da bateria. O filme também pontua uma
questão interessante: é preciso passar por uma espécie de “calvário musical”
para se tornar um grande músico (mais especificamente de jazz, como é o caso do
filme)? Barbada como ator coadjuvante, Simmons só perde se ocorreu uma
lobotomização coletiva entre os membros da academia.
Sniper americano - Clint
Eastwood é sem dúvida uma dos cineastas mais prolíficos em atividade. A média é
de quase um filme por ano. Não é de se espantar que com uma quantidade absurda
de filmes em tão pouco tempo a qualidade dos filmes caia. Foi o que aconteceu
com esse filme. A história gira em torno do atirador de elite Chris Kyle
(Bradley Cooper). Enviado para o Iraque após os ataques de 11/09 ele enfrenta
diariamente dilemas como quem e quando deverá matar (incluindo crianças) e
priorizar o exército/pátria em detrimento da família. O grande problema do
filme é o roteiro, que ao intercalar os períodos “em casa” e “em campo de
batalha” travam o filme de forma que nenhum deles engrena. Há também um tom
ufanista demais no filme, mas nada que já não se tenha visto em outros filmes
de Eastwood. O elenco tem atuações medianas. Não há realmente nenhum destaque.
Acho que a academia sentiu falta de Eastwood nas últimas premiações e deu essa
indicação só pra matar a saudade.
SELMA - O
filme não é uma cinebiografia do líder negro Martin Luther King, mas sim captura
um fato real ocorrido durante os anos de 1960, quando na cidade de Selma no
Alabama, cidadãos negros eram proibidos de votar pelas autoridades locais,
quando já havia uma lei federal que permitia o voto, embora fosse tão burocrática
que impedia, na prática, o voto dos negros. Há uma tensão permanente mostrada
nas conversas entre Luther King (David Oyetokunbo Oyelowo) e Lyndon Johnson
(Tom Wilkinson). A tensão racial explode na primeira tentativa de fazer uma
marcha entre Selma e Montgomery (distantes 75km). A cena do ataque das
autoridades contra os negros desarmados é de um apuro visual único.
Estranhamente, Tim Roth, que interpreta o governador do Alabama, George Wallace,
não foi indicado a coadjuvante. Apesar do elenco muito bem entrosado deve sair
de mãos vazias.
O GRANDE HOTEL BUDAPESTE – Ótimo trabalho do sempre talentoso
Anderson. Narrado em grande parte por flashbacks pelo antigo carregador de
malas do hotel e hoje dono dele (F. Murray Abraham), a história gira em torno do
Grande Hotel Budapeste (fictício) e as dificuldades e para mantê-lo ativo até
hoje. O filme é narrado num tom de aventura, cheio de reviravoltas e mostra
toda a astúcia utilizada pelo gerente do hotel (Ralph Finnes) para proporcionar
o melhor aos clientes mesmo em tempos de guerra. Dono de um apuro visual
espetacular deve levar sem maiores dificuldades o prêmio de direção de arte.
Tem grandes chances também em fotografia e edição, mas dificilmente levará os
prêmios principais.
Meus favoritos:
Melhor filme: Boyhood
Melhor diretor: Richard Linklater
(Boyhood)
Melhor ator: Benedict Cumberbatch (O
jogo da imitação)
Melhor atriz: Não tenho favorita,
pois só vi uma das indicadas.
Melhor ator coadjuvante: J. K.
Simmons (Whiplash)
Melhor atriz coadjuvante: Patricia
Arquette (Boyhood)
Melhor roteiro: Birdman
Melhor roteiro adaptado: O jogo
da imitação
E você? Tem algum favorito? Mande
sua lista nos comentários do blog.
Na primeira coluna do ano, os editores
do blog comentam Great Western Valkyrie,
o último trabalho da banda californiana Rival Sons.
Boa leitura!
- Fernando Lucchesi:
O
ano de 2014 trouxe duas grandes surpresas, uma de cada lado do Atlântico.
Primeiro os ingleses do duo The Royal Blood, o qual foi objeto de análise por
mim no blog e em segundo a banda californiana Rival Sons e o seu Great Wester Valkyrie. Ambas possuem uma
gama de referências que têm sua base no Blues, embora não necessariamente
fossem bandas de blues puro, mas que o usavam como mais um ingrediente. Outra
característica comum a ambas é a capacidade de compor músicas pesadas sem esquecer a importância da melodia.
Em
Great Wester Valkyrie, a banda
utiliza como referência musical primeira o Led Zeppelin. Secret remete a How Many More
Times com seu riff hipnótico
conduzido pelo baixo e a voz cheia de efeitos vocais para lembrar o Plant dos
primórdios do Zeppelin. Além de Open My Eyes
ter sua abertura tirada descaradamente de When
the Levee Breaks mais uma vez o vocalista, Jay Buchanan, soa por demais com
Robert Plant. Embora o Led Zeppelin seja a mais notória referência há várias
outras perceptíveis em outras faixas do disco como The Who em Belle Star e até mesmo Suzy Quatro em Play The Fool. O disco se mantém
consistente até a faixa oito. As duas últimas músicas são as quase inevitáveis
baladas que qualquer banda de rock insiste em colocar em seus discos. Ambas, Where I´ve Been e Destination On Course, têm ótimas melodia, no entanto, a banda as
trata como épicos de seis ou mais minutos sem a menor necessidade. Excluindo
esse pequeno deslize, não tenho dúvida em afirmar que o disco é um dos melhores
lançamentos do ano de 2014.
- Giba Carvalho:
Great Western Valkyrie veio para firmar o Rival Sons no
patamar de bandas relevantes da atualidade. Forjado em rock setentista, o
quarto álbum dos californianos é um convite dos mais agradáveis e instigantes
aos fãs do bom e velho rock n´roll. Vocês podem pensar – “Ah, isto soa datado!”
É verdade! Afinal, todos sabemos que existem bandas que apenas copiam um
determinado estilo e outras (cada vez mais raras), que utilizam os mesmos como
base para desenvolver seu trabalho. Com letras contundentes e desempenho seguro
dos músicos envolvidos, o quarteto impressiona exercendo todo seu glossário
“old school”.
Neste
novo álbum, encontramos doses cavalares daquilo que todo apreciador do estilo
gostaria de encontrar: a “cozinha” robusta formada pelas baquetas furiosas de
Mike Miley e as frases de contrabaixo do estreante David Beste. O espetacular
Scott Holiday, guitarrista extremamente impetuoso, de riffs marcantes e solos
lisérgicos. E Jay Buchanan, frontman
que não possui receio de cantar. Um “monstro” da nova geração! No faixa a
faixa, temos:
Eletric
Man - que abre o
disco explodindo com vigor! Um hard-rock clássico em potencial e elegância!
Good
Luck – é a música
onde o RS sai um pouco do rock setentista e viaja a fase antecessora a ele. Com
uma verdadeira aula de canto de Jay Buchanan e ritmo espetacular. Este é um
rock n´roll em sua mais pura concepção.
Secret – lembrando bastante a época áurea do
Deep Purple. Vocais explosivos, rasgados e muitíssimo bem-postados. E uma
performance avassaladora de Mike Miley nas baquetas. Uma pedrada para nossos
ouvidos!
Play
the Fool – esta é
a música do disco onde os instrumentos reinam. A junção entre os riffs
espetaculares de Holiday e a versatilidade Miley são um espetáculo a parte.
Arrisco até afirmar que pode ser considerado um tributo a John Bonham, dada a
quantidade de variações e vigor na execução.
Good
Things – é onde o
estreante da banda mais aparece. David Beste guia a primeira canção não-usual
do álbum, marcando com seu contrabaixo. Neste caminho, ele é ladeado por um
Hammond e pela variedade “infindável” de frases de Holiday e sua Gibson Firebird.
Open
My Eyes – 98% dos
ouvintes dirão: “parece com o Led Zeppelin.” Eu digo – “pode até parecer, mas
parece mais com Audioslave.” Bateria marcada, riff garage pegajoso, vocal sem nenhuma modéstia. Isto já resumiria
bem esta canção, não faltasse um detalhe. É nela que encontramos o melhor solo
do espetacular Scott Holiday.
Rich
and The Poor –
imagine uma pausa para respirar. É exatamente isto que pensei em todas as
audições do disco. Mas, não pense você, que estamos falando de um momento
menor. A banda entra no primeiro momento sombrio do disco. Guitarra pesada,
acompanhada de execução psicodélica de teclado e o restante do conjunto (voz,
baixo e bateria) tecendo frases em cima desta cama.
Belle
Starr – esta foi a canção onde mais identifiquei a “presença”
Zepelliniana. Notadamente, mais parecida com a fase do álbum “Presence”. Inicia
exuberante, acelerada, furiosa e, repentinamente, mergulha nas nuances de um
céu giz. E o ciclo é formado nas idas e vindas desta performance grandiosa da
tríade – bateria, voz e guitarra.
Where
I´ve Been –
senhoras e senhores, estamos falando de um Blues! Consequentemente, a dupla
Holiday e Buchanan volta à supremacia. Primeiro, pelo destaque das linhas de
guitarras presentes em todos os espaços da gravação e, segundo, por todas as
variáveis apresentadas por Jay.
Destination
on Course –
Intensidade! Para finalizar um grande disco, nada mais justo do que uma
execução épica. São 7 minutos de uma composição mais lenta que trás a tona toda
criatividade do quarteto. Além disto, é nesta canção, que encontramos um
trabalho de voz oriundo de um coral feminino, que causa mistério e nos remete
ao canto das “Valquírias” num campo de batalha e presente no nome do disco.
De
acordo com a mitologia nórdica, as “Valquírias” eram belas mulheres loiras que,
montadas nos seus corcéis alados, escolheriam os guerreiros para vida e morte.
Os que fossem escolhidos teriam o direito de entrar em Valhala (a morada de
Odin). E, voltando para o ramo musical, tenho certeza de que elas escolheram o
quarteto estadunidense. Não estou falando de um álbum comum. Estou falando do
melhor disco de rock n´roll de 2014.
Se
você quer ouvir uma banda que possui as melhores referências, que procura
renovar-se, que experimenta e tem tesão em tocar, estás no caminho certo!
- Rógeres Bessoni:
Que
alívio e que injeção de combustível nas veias saber que o rock and roll ainda
reverbera na face da terra! Eu ainda estou agradecidamente sem palavras para o
trabalho do Rival Sons – notadamente, seu álbum mais recente, GREAT WESTERN VALKYRIE, o quarteto da
banda e ao qual se dedica esta coluna. Porque é muito bom ouvir um trabalho
novo trazendo de volta à tona o rock and roll velho e bom. Uma banda surgida
após o ano 2000 que finalmente não soa como uma ressaca do grunge nem uma tentativa
de fazer “hip hop and roll”. Não. Até que emfim, rock and roll visceral novinho
em folha. Já tomei umas cervejas pra comemorar, mas ainda merece outras. Isso
por muitos motivos, mas, sobretudo, por uma coisa fantástica de se ver e de se
passar para as novas gerações, criadas em apartamento, tomando toddynho e
comendo pera com leite: Great Western
Valkyre é uma enciclopédia de rock and roll, meus caros. Um apanhado
fantástico que mostra uma maturidade ímpar em bandas da atualidade. Nada de
sons histéricos de adolescentes quarentões dando “piti” no palco, nada de
melodramas pseudo-engajados, nada de saudosismo estéril, fazendo covers de
músicas já executadas 45 bilhões de vezes no planeta. Nada disso. Os caras
conseguiram encher o matulão com toda a substância do que houve de melhor em 50
anos de rock e CRIARAM a partir disso. O disco é realmente autoral e apresenta
toda essa bagagem em uma característica genial: o trânsito por praticamente
todos os estilos do rock – excetuando o universo do metal. Está tudo lá, do
psicodelismo californiano até o hard rock; do blues pesado ao progressivo. O
som dos caras mostra uma banda realmente adulta, que ouviu muito rock and roll,
assimilou tudo E SOUBE O QUE FAZER com toda essa informação. Em alguns
momentos, há trechos que se aproximam demais de canções conhecidas, mas eu,
particularmente, não vi nenhuma “ameaça” de plágio ou sequer imitação. Ouvi foi
referências sólidas e embasadas, mesmo, em que os caras demonstram que sabem o
que ouviram e sabem o que estão fazendo. Um rápido passeio pelas faixas do
álbum nos leva por esse banquete gordo, e assim começamos, ressaltando os
principais traços, assim como saltaram aos meus ouvidos. Deixo claro que não
pretendo fazer uma radiografia detalhada e “exata” das músicas; vou falar como
se conhecesse a formação musical dos integrantes da banda (coisa que não
conheço), mas apenas como recurso literário pra indicar, numa primeira vista, a
que estilos para os quais as canções me levaram e tudo o que entendi como
material processado e recriado, e aqui vai:
1 – Em Eletric Man temos de cara uma porrada de
levada totalmente zeppeliniana, no melhor estilo Nobody's Fault but Mine” e The
Ocean, com Jay Buchanan soltando o berro com um swing chegado a Robert
Plant, mas também com a pegada feroz de Ian Guilan;
2 - Good Luck nos traz uma introdução e
refrão com o balanço dos Stones, pra descansar e uma linha melódica macia, mais
suave, com textura, pra mim, dos domínios de David Bowie;
3 - Secret, uma das mais fuderosas pra mim,
traz uma mistura perfeita, perfeita, de Canned Heat e The Doors, num blues
psicodélico pesado, com a inesquecível e irresistível levada anos 60, vocais
furiosos, na medida certa entre Bob “The Bear” Hit e Jim Morrison, guitarra e
baixo unidos num riff detonador, à la Roadhouse
Blues e um solo totalmente digno da apresentação do Canned Heat no
Woodstock;
4 - Play the Fool, com um riffs simples que gruda na cabeça, reúne
uma gama de sons típicos do fim dos anos 70 e começo dos 80, se aproximando do
punk em alguns momentos, e, em outros, do pop rock mais juvenil do começo dos
anos 80;
5 - Good Things, outro ponto alto do disco
pra mim, volta à batida da transição dos 60 para os 70, com arranjos de
teclados mais uma vez lembrando The Doors, e os vocais, pontuados com a
guitarra, ficam bem próximos de Alvin Lee e da vibe Ten Years After;
6 - Open My Eyes, começando com uma batida
também zeppeliniana, com Mike Miley trazendo a sonoridade de “When the levee
breaks” à tona, apresenta ainda um riff com todo o traçado de Tom Morello,
fazendo a música explodir no melhor estilo Audioslave;
7 - Rich and the Poor (talvez a minha
preferida), com uma melodia séria, meio down, uma levada firme, vocais com eco
e a guitarra, também com eco nos arranjos (além de suas características
melódicas), nos jogam de volta às referências sessentistas. Mesmo numa voz
masculina, é das veia interpretativa e dos traços melódicos que falo: várias
vezes me pareceu ouvir Grace Slick! Um Jefferson Airplane mais pesado, com as
possibilidades tecnológicas de hoje, mas com a mesma vibe do começo do
psicodelismo californiano. Levei com isso uma porrada, fiquei aturdido e
atônito: é mais que uma joia rara esses sons voltarem a explodir, com todo
vigor, em um trabalho autoral, em pleno ano 2014!
8 – Ainda
no fim dos anos 60, Belle Star não só
continua trazendo elementos do rock psicodélico como, mais uma vez, trouxe
outra grande surpresa. No trecho mais lento, até o Fairport Convention parece
ser lembrado;
9 - Where I've Been, com andamento de blues
e linha melódica mais country, revive momentos do The Eagles e da tradição das
grandes baladas do gênero;
10 – E,
para terminar um grande álbum numa obra vigorosa, apropriadamente um grande
final, os caras, depois disso tudo, entram numa súbita e competentíssima viagem
progressiva! Aqui, Buchanan se supera. Os vocais, num tom cinzento e
melancólico, vão às raias de Peter Hammil, e não apenas. À grandiosidade da interpretação
vocal, se segue a das melodias de guitarra, crescendo com vigor até desaguar
num momento “Echoes”, mostrando direitinho o que Scott Holliday aprendeu com
Gilmour.
E
isso são apenas as minhas primeiras impressões. Caberia uma análise para a performance
de cada integrante, assim como uma viajada pelas letras, mas não é o objetivo e
nem o espaço para tanto. As associações que fiz foram totalmente livres e quero
deixar assim, em aberto, para que cada um faça as suas. Mas fica, sobretudo, a
dica para que curtam esse trabalho raro no mundo rock contemporâneo. Como
falei, numa boa, vou abrir outra cerveja e degustar esse alento.
- Bruno Vitorino:
O rock ‘n roll está em crise. Parece
clichê, não? E, de fato, é! Admito o lugar comum de minha sentença, mas o que é
o rock hoje senão uma mescla de um amontoado de obviedades embaladas pelo
discurso do “novo”, velhas referências musicais datadas e explosões mercadológicas
de efemeridade inútil? Vemos, meus caros, aos montes bandas que se valem dessa
tríade do conformismo estético para se apresentar diante de um público inocente
que ainda acredita no caráter redentor do rock ‘n roll e o enxerga vivo e producente.
Isso para não falar dos “dinossauros” fossilizados pela mesmice que, há muito desprovidos
de suas fontes criativas, circulam o mundo requentando repertório, brindando assim
a humanidade com o tão precioso culto ao espetáculo.
Nesse sentido, parece-me cada vez mais
clara uma espécie de dicotomia patológica que assola o gênero em nosso tempo: por
um lado, deparamo-nos com inúmeras bandas adolescentes que pululam no mainstream com seu rock à High School Music com sua rebeldia de shopping center e letras vazias sobre os
dilemas da adolescência contemporânea – namoricos, redes sociais, carência
afetiva e aquele desejo enorme de chamar a atenção para si; do outro,
encontramo-nos com as incontáveis “viúvas de Woodstock” que tentam emular, do
figurino ao discurso, passando pelo jeito de empunhar os instrumentos, até
finalmente chegar à sonoridade da banda, aquela atmosfera perdida do rock clássico
dos anos 1960/70. Em ambos os casos, o resultado musical é idêntico: o desnecessário.
Contudo (e sei que isso pode me levar a ser mal compreendido), pelo menos com
os adolescentes temos alguma verdade, pois, sem perceber, sua música denuncia a
grande alienação que se apoderou do ideário de uma juventude inteiramente desvinculada
de sua realidade, ou seja, a sua música, verdadeiramente, diz nada sobre lugar
algum. “E isso é bom desde quando?”, vocês se perguntam. Claro que não o é!,
mas é exatamente isso que estamos vivendo agora: o completo esvaziamento das
manifestações humanas de suas dimensões Culturais em prol do modismo transitório.
As bandas juvenis ao estetizarem essa perspectiva, pelo menos, tornam-na um
testemunho inconteste de seu tempo, ainda que sombrio. Já os saudosistas, ao
simplesmente se embrenhar no passado, nada o fazem além de rescender a mofo. E é
justamente nessa segunda categoria que a banda californiana Rival Sons se
enquadra.
Por
essas razões, poderia resumir brevemente Great
Western Valkyrie, último trabalho do quarteto, dessa forma: uma base sonora
formada pela justaposição de Jefferson Airplaine, Ten Years After e The
Yardbirds, que recebe uma estrutura musical inteira e descaradamente copiada do
Led Zeppelin, finalizada com figuras decorativas extraídas de Pink Floyd e,
quem sabe, também do Moody Blues. Electric
Man e, especialmente, Secret, com
seu riff sugado de How Many More Times do Zeppelin, e Open My Eyes, que parece ter nascido do
solfejo de Robert Plant no meio de The
Ocean, são ótimos exemplos dessa miscelânea artificial que, mais do que
reverenciar as tradições do rock e consagrar-se panegírico, expõem o elevado
desgaste do estilo em nossos dias. Os bons momentos do disco ficam por conta de
Play The Fool e sua inesperada mudança
de andamento que dá o clima perfeito para o solo da guitarra e a balada Good Things; justamente, vale ressaltar,
as canções em que a banda não se ocupa tanto em imitar o Zeppelin e reviver o
passado, valendo-se das raízes do rock enquanto ponto de partida e não no fim
em si. Imagino que se a Rival Sons tivesse feito isso ao longo do disco - obviamente levando em consideração também suas qualidades enquanto instrumentistas -, este teria sido bem mais interessante.
De resto, parafraseando Fernando Pessoa, como "estou farto de embusteiros", diria que é um disco para ser ouvido com parcimônia da
lucidez, sem o ouvido deslumbrado e impressionável da carência musical.
- André Maranhão:
Great Western Valkyrie é um bom disco. Não é um álbum
concentrado em um só artista. Toda a banda parece bastante entrosada e nenhum
instrumento monopoliza faixas. Jay Buchanan (vocal); Scott Holiday (guitarra);
Dave Beste (baixo); Michael Miley (bateria) – todos estão bem no mais novo
projeto dos Rival Sons. Logo de cara, a escolha de Electric Man e Good Luck
para abrirem o disco foi muito feliz. Na primeira, há um rock incisivo, com
personalidade; enquanto a segunda é uma balada animada, repleta de drives, solos legais e com um refrão
daqueles que grudam. Play the Fool
traz uma conversão de ritmos entre 1’50’’ e 2’42’’ sensacional. Good Things me remeteu a canções legais
dos anos 1960 com a presença de Ikey Owens frente aos teclados. Em Where I’ve Been, muita coisa boa da
música norte-americana parece estar condensada na faixa: Blues, Rock, Country,
Gospel, Rhythm and Blues... Os teclados reaparecem bem encaixados, dessa vez
através de Mike Webb. Há outras canções que não chamaram tanto minha
atenção: Secret; Open My Eyes; Rich and The
Poor; Belle Star e Destination On Course. Os motivos
variam: ou pelo vocalista exagerar nos gritos, ou pelas faixas soarem longas,
ou simplesmente pelas linhas melódicas e harmonias não me empolgarem. Apesar de
estas cinco faixas corresponderem a 50% do disco, ainda assim, insisto em
considerar a boa qualidade de Great
Western Valkyrie, visto que os outros 50% que me chamaram a atenção
compensam por demais!