domingo, 10 de maio de 2015

Variações em 5/4: Vulnicura



Na coluna deste mês, os editores do blog comentam o mais novo trabalho da cantora Björk, seu recém-lançado “Vulnicura”.

Boa leitura!

- Giba Carvalho:

Em seu novo álbum, Björk tenta expor e ao mesmo tempo sarar as feridas do fim do seu casamento. Parece receita de bolo da vovó, mas até mesmo na gélida Islândia, o idoso mote afetivo serve como inspiração para novas composições. Pois bem, "Vulnicura" é um disco muito bem produzido e que possui alguns pontos interessantes.

Primeiramente, os trabalhos da "Deusa do Gelo" parecem ser feitos para transcender o espaço único da música. Talvez por conhecimento das apresentações ao vivo de Björk, insista em dizer que a artista em foco pensa sempre que seus discos são unicamente para encenações tão peculiares as suas apresentações. É como se fosse uma peça de teatro constante, intensa, lotada de diversos artefatos e que toda produção fonográfica fosse a trilha sonora para tal. Ao vivo funciona muitíssimo bem. Já para audição, “Vulnicura” torna-se enfadonho e confuso.

Os gemidos incessantes de Bjork transitam de forma eficaz numa tentativa de mesclar música erudita com tons de eletrônico. Tenho que levar em consideração, que em comparação com trabalhos anteriores, este é um dos álbuns que ela menos arriscou em termos instrumentais. Isto fez com que o disco soasse altamente estranho. A mescla supracitada é insuportável (com exceção dos arranjos de cordas que são muito bons). Voltando ao ponto de vista vocal, a cantora desfila momentos de extrema emoção e dramaticidade em vários momentos do álbum. Para que o leitor tenha idéia, as seis primeiras canções do disco são como se fosse um glossário dos períodos pré e pós-separação. Não tem como não ser de outra forma. É completamente perceptível.

“Vulnicura” é um disco passional por inspiração, chato nos arranjos e contraditório nas composições. Nada diferente das almas que sofrem por amor.

- André Maranhão:

Para mim está bem claro que Björk é um ícone da música. Seus lances performáticos, somados aos seus gestos camaleônicos deixam isso claro há mais de décadas. O álbum “Vulnicura” também faz jus a todas essas qualidades da artista islandesa. O uso de instrumentos eruditos embaralhados com sintetizadores, colagens, ruídos sampleados, além da vocalização bastante afinada de Björk, contendo, inclusive melodias nórdicas, estão presentes nas canções desse trabalho. Creio que em algumas faixas isso funciona bem. Aqui, destaco Stonemilker (para mim, a melhor do disco); History of Touches; Atom Dance e Black Lake – embora, não considere todas elas necessariamente boas por completo. As demais faixas me parecem confusas, onde Björk vagueia entre os mares de sua voz desconexa com os ritmos eletrônicos e os instrumentos acústicos que trouxe para o álbum. Apesar da importância dessa artista, confesso que em alguns momentos, foi uma tarefa bastante árdua concluir a audição de “Vulnicura”. Mas é possível que ao se combinar com as apresentações de Björk no palco, essas canções envolvam mais, pois lá estarão presentes outros recursos multimidiáticos e cênicos, tais como telões, figurino, maquiagem, expressão corporal, importantes para compor o sucesso da artista, cuja competência ela já demonstra possuir faz tempo.

- Fernando Lucchesi:         

Ainda me recordo a primeira vez que ouvi falar em Björk. Uma colega de classe me falava demais sobre a banda dela, o Sugarcubes. No entanto, como qualquer pessoa no começo dos anos 1990, a primeira vez que vi e ouvi Björk foi através da MTV no clipe de uma música chamada Human Behaviour. Clipe muito bem feito, mas quando ouvi o estilo de música que ela cantava a decepção foi grande. Aquela voz baixa, quase fraca que parece que vai desaparecer realmente não fez minha cabeça. Eis que agora foi proposto pelo blog analisar o novo álbum dela, intitulado “Vulnicura”.

Bom, quase 20 anos depois de ter escutado Björk pela primeira vez continuo achando uma das coisas mais enfadonhas da música. A voz dela aliada a alguns arranjos de teclado meio New Age transformam boa parte do álbum num excelente soporífero, mas seria injusto dizer que tudo é ruim. Os arranjos de cordas são muito bonitos e bem executados, como, por exemplo, em Stonemilker e Lionsong, só para citar dois exemplos. Outro destaque do disco é a longa e intensa Family

Enfim, se você é fã de Björk você vai se deleitar com Black Lake, uma mistureba de sons eletrônicos de dez minutos de duração e vai achar o disco uma das coisas mais revolucionárias do planeta. Mas se você, assim como eu, não tem nenhum apreço pelo som dela, passe longe desse disco.

- Bruno Vitorino:

Não sou um expert em Björk. Muito pelo contrário. Quase nada conheço da cantora, além de sua brilhante atuação no filme “Dançando no Escuro” (2000), dirigido por Lars von Trier, e da trilha sonora que a artista compôs para esta película densa e emocionalmente profunda. Lembro – e isso faz muito tempo – de ter ficado bastante impressionado com a música em si, o uso que Björk fazia de batidas eletrônicas, da sonoridade emanada do maquinário que sua personagem manipulava, das harmonizações vocais, dos timbres orquestrais, enfim com a música grandiloquente feita por alguém que sabia exatamente o que estava fazendo. Um trabalho musical primoroso que dialogava de modo muito interessante com o filme, conferindo-lhe ainda mais peso emotivo. Por sinal, nunca me esqueci do quão desnorteado fiquei ao final da sessão de cinema. O impacto do filme, potencializado pela trilha sonora, atingiu-me em cheio e saí da sala embevecido pelo prazer estético.

Para além deste trabalho, no entanto, nada conheci além do hype-diva que envolve a cantora islandesa. E, apesar de ter gostado de “Dançando no Escuro”, todo este frenesi cult me manteve afastado e absolutamente desinteressado por sua música desde então. Acabei trilhando outros caminhos sonoros que me levaram para longe de suas fronteiras estéticas. Contudo, “Vulnicura” e a necessidade de comentá-lo para a coluna fizeram com que me reencontrasse com Björk depois de todo esse tempo. Foi, confesso, uma agradável surpresa.

“Vulnicura” é um disco extremamente íntimo no qual a cantora disseca o fim de seu relacionamento com Matthew Barney e a devastação humana que isso lhe causou numa espécie de drama eletro-orquestral. É um disco fragmentado, como um coração em frangalhos, onde cada canção esmiuça resquícios de sentimentos por vezes conflitantes, pinta aquilo que poderia ter sido entre eles e medita sobre as repercussões emocionais do ocaso do amor onde, no entanto, um ainda ama. Porém, a segmentação do álbum, mais do que comprometer sua coesão narrativa, aprofunda-a, pois cada música parece estabelecer entre si um laço emocional, como se cada uma delas jogasse luz sobre um aspecto diferente do sofrimento uno. O andamento largo que perpassa todo ele, mantém, do ponto de vista musical, sua unidade e é o fio condutor que leva o ouvinte a percorrer as paisagens emocionais que  Björk constroi com o uso de belas tessituras nas cordas, de uma sólida base rítmica promovida pelas programações eletrônicas e de ricas melodias que cortam os céus desses mundos confidenciais. Destaque para Stonemilker, History of Touches e Family.   

Sim, concordo, o disco é "paradão" (embora prefira o termo “contemplativo”). Sim, as inflexões vocais de Björk são, de fato, um pouco irritantes (embora haja muita beleza expressiva e técnica em sua voz). Sim, reconheço também certa contaminação new age nos temas (embora prefira ouvir os ecos de Jean Sibelius que as cordas me trazem). Concordo com tudo isso! Mas, se levarmos em consideração que vivemos num tempo no qual os artistas se reduziram a celebridades midiáticas que fomentam estilos de vida e padrões de consumo, que a sensibilidade coletiva se vulgarizou ante o inútil e o superficial, que pouco ou quase nenhum espaço é dado à criatividade no que sobrou daquilo que a humanidade conheceu um dia por arte; somos obrigados a reconhecer a coragem de Björk em compartilhar, de modo franco e inteiramente aberto, com milhares de pessoas ao redor do mundo, o abissal e doloroso mergulho dentro de si traduzido de maneira bastante exitosa numa música tão delicada, e de certa forma resgatar, com isso, a perspectiva esquecida da arte que busca unir os indivíduos no abstrato de seu arcabouço simbólico. Particularmente, acho um feito notável neste “mundo prostituto”, para usar uma expressão de Rubem Fonseca.

Por todas essas questões, meus caros, “Vulnicura” é um disco que merece, ao menos, uma audição bastante atenta.

- Rógeres Bessoni:

Björk, usualmente, me tira da minha zona de conforto. E isso está longe de ser um demérito. Mas, por si só, também está longe de ser um mérito. “Vulnicura” me trouxe, em seu começo, elementos poderosíssimos para mim, que são os excelentes arranjos de cordas, em alguns momentos com matizes dos violinos do leste europeu, de que tanto gosto. E terminou por aí. Para todo o resto, aplica-se o que vou morrer de velho falando, sem nenhum constrangimento – ao contrário, afirmo cada vez com mais firmeza: o mundo musical da pura técnica, sem melodia e sem apresentar uma construção sólida, me interessa muito pouco ou nada. E não acho que “Vulnicura” é um exemplar de “pura técnica” musical. No máximo, pode ser uma boa experiência sonora de técnicas de estúdio. No caso específico de Björk, a simples opção pela estética do bizarro não traz para mim nenhuma experiência de acréscimo ou revelação. Digo isso porque, para que “sirva” de alguma forma, a vivência de sair da zona de conforto tem que ter caráter iniciático. Um Mestre sempre lhe conduz a perceber como era mais estreito o lugar que você ocupava antes, e como é melhor a nova visão que se abre. E estamos falando de música, 45 minutos de andamentos quebrados, praticamente sem nenhuma linearidade, ruídos tecnológicos, sussurros, ruídos humanos que parecem de agonia, a loucura, o soturno, a fronteira do horror...

Ah, eu captei exatamente o que o álbum queria? A visita aos porões de uma mente atormentada? O transe esquizofrênico? Relatos do terror noturno? Uma tarde de um domingo de chuva, em depressão profunda, num sanatório? A literatura já produziu obras-primas por esses caminhos. O cinema também. A pintura e a música também. Era isso que Björk queria passar, e eu, acertadamente, captei? Não sei, e não é o que me interessa que falo em MÚSICA. A construção musical baseada exclusivamente em desconstrução não me diz absolutamente nada. O choque pelo choque não me conduz a nenhuma experiência estética libertadora, em nenhuma vertente da arte. Por exemplo, até hoje considero que assistir ao filme “Irreversível”, com o estupro de Monica Bellucci filmado em tempo real, sem cortes, foi um dos empregos de tempo mais inúteis da minha vida. Não pensei nada mais iluminado depois de ter me submetido àquilo. Foi assim que os últimos 45 minutos de Bjork não me libertaram mais do que 5 minutos de Mutantes, nem me revelaram a alma humana mais do que meia letra do Pink Floyd. Eloquência, maestria poética e virtuosismo, domínio da plasticidade dos sons - esses elementos são manejados acertadamente e grandiosamente por poucos. Nem todo ajuntamento de elementos configura para mim uma construção, ainda que espelhe uma intenção.

Hoje em dia, por exemplo, meu querido Recife é um amontado de edificações, e discute-se se isso resultou numa cidade. A ininterrupta fratura rítmica pode até ter revelado a descontinuidade da cabeça de Björk, pode até ter sido uma realização deliberada, planejada, mas não me conduziu pelas minhas próprias quebras existenciais – se é que o álbum algum dia se propôs a isso. Aquele encadeamento de sons não produziu em mim a perplexidade, a surpresa do aprendizado. E, ademais, quando uma obra pretensamente artística nos conduz ao desconforto, é significativo que também suscite em nós o deleite do insight, sem o qual esse desconforto não pode ser contemplado e digerido. Uma  situação de tormento perene, sem alívio, não se converte em luz – no caso, não se converteu em uma “luz estética”, digamos assim.

O portentoso rock progressivo, em seus diversos matizes, já me mostrou abismos. Mas, assim como Dante atravessou o horror guiado pela poesia, personificada em Virgílio, o progressivo nos conduz também por uma riquíssima malha poética e por um território de grande virtuosismo musical, além de verdadeiras odisseias melódicas. É, pois, ante todo o assombro que grandes obras já operaram em mim, que “Vulnicura” se me apresentou verdadeiramente sofrível. Eu sinceramente acho que o universo do ruído agressivo, do torto, do bizarro, do “desconstruído”, é um abismo em que a ocidentalidade caiu, e do qual não sabe sair. Pensaria diferente se visse que transitamos de dentro para fora da melodia a nosso bel-prazer, mas não vejo isso. A criatividade da construção melódica e das sólidas construções rítmicas, que rendeu à humanidade escolas como o blues, o samba, o flamenco, a música indiana e, mais recentemente, o grande hard rock (apenas como exemplo), parece uma ciência perdida. Parece algo que não é feito porque não se sabe mais como fazer. Respeito a artista, respeito toda e qualquer intenção artística, respeito os fãs, mas parafraseando a própria Björk, “I have musical needs, oh, needs...” E vamos em frente. O garimpo continua.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Oliver Nelson e A Verdade Abstrata - Por Bruno Vitorino


O saxofonista, compositor e arranjador Oliver Nelson.

É interessante perceber como alguns discos mudam totalmente a nossos ouvidos com o passar do tempo: de uma ilha erma e isolada nos confins da sensibilidade humana, que aparentemente nada revela ou comunica, a uma imensa metrópole sonora que constrói inúmeros vínculos com nossos sentimentos mais pessoais. A depender do trabalho, é necessário que o ouvinte tenha alguma familiaridade com o artista e certo conhecimento da linguagem utilizada por ele, para que a mensagem codificada em sons, que é a música, seja transmitida, e o elo emocional seja, enfim, estabelecido entre esses dois atores da escuta, num processo que chamamos de experiência artística.

No entanto, artistas de fato criativos e compromissados tão somente com a expansão de suas fronteiras expressivas podem deixar desamparados, do ponto de vista estético, até seus fãs mais devotados e continuar a surpreender o público ao longo da história no momento que instituem nela um marco. Imaginem, por exemplo, o impacto causado pelos Beatles quando eles apresentaram ao público, que até então os tinha como um grupo de “Iêiêiê” que cantava a três vozes sobre paixões adolescentes balançando os cabelos em sincronia, o revolucionário Revolver em 1966. E mais ainda: imaginem o choque que esse disco continua a provocar naquele que descobre o quarteto inglês por estes dias. É de perder o chão! Por isso, afirmo que o tempo desempenha um papel fundamental nesses casos, pois esse estranhamento inicial só pode ser vencido pelas transformações internas que só ele, o tempo, nos proporciona, alterando inclusive a nossa compreensão de música, nosso gosto e juízo de valor.

Eu poderia escrever aqui linhas e mais linhas sobre as incontáveis vezes que isso aconteceu comigo: ouvir um disco, não entender absolutamente nada, deixá-lo de lado e, depois de um bom tempo, como numa revelação dos Céus, achá-lo espetacular numa audição despretensiosa e não compreender como eu pudera não ter gostado dele logo de primeira. No entanto, pretendo falar de minha última descoberta “tardia”, por assim dizer, que por sinal nada mais era do que um clássico absoluto: The Blues and The Abstract Truth do saxofonista, compositor e arranjador Oliver Nelson, lançado em 1961 pelo selo Impulse!.

A primeira vez que ouvi esse disco faz uns dez anos. Naquela ocasião, tinha lido bastante a seu respeito em artigos e livros que destacavam sua importância por retornar às raízes e investigar minuciosamente os pilares do blues - plataforma fundamental ao jazz -, apontando com isso novos direcionamentos na composição jazzística ao incorporar princípios da harmonia modal no blues e se valer de uma arquitetura que ia além da forma básica do gênero; na interpretação dos temas por conta do escrutínio nos arranjos e na distribuição das vozes, enfatizando cores obscuras e criando tessituras inesperadas; na improvisação devido aos solistas presentes na sessão fortemente ligados ao avant garde e às novas abordagens como o Jazz Modal e o Third Stream (a grosso modo, a junção do jazz com a música erudita). Tudo isso, diga-se de passagem, numa época em que o Free Jazz, sob a égide do grande Ornette Coleman, subvertia os alicerces tradicionais do jazz como a forma chorus, a ideia de progressão harmônica e a noção de swing e dominava a atenção da cena de então como uma novidade irresistível, uma revolução em curso. Contudo, apesar de todas essas qualidades, lembro-me muito bem de não ter ouvido “nada do outro mundo” no álbum e de tê-lo achado, devo confessar, um tanto convencional. Pus o disco num canto esquecido de minha coleção por quase uma década, e só pela ação silenciosa do acaso é que pude, finalmente, vislumbrar toda a sua dimensão e depurar sua mensagem.

Semana passada, estava folheando o primeiro volume do Real Book, uma espécie de livro sagrado do jazz que compila inúmeras composições, em busca de uma música para estudar harmonia (o modo dórico, mais especificamente) e improvisação. Do nada – se é que isso existe -, lembrei-me que Stolen Moments, tema composto por Oliver Nelson e que abre The Blues and The Abstract Truth, flerta com o modal. Toquei a introdução (claramente em C dórico - Cm7 / Dm7 / EbMaj7), dei uma olhada na melodia, conferi seu encadeamento de acordes e quando dei por mim estava longe de casa, totalmente imerso no mundo imaterial da composição. “Realmente, esse tema é massa.”, disse a mim mesmo. Tinha de reouvir a gravação original para ver o que os instrumentistas faziam, como se comportavam na transição do tema ao momento dos improvisos sobre a forma minor blues, etc.

Foi um choque! Primeiramente pelo o time magistral que Nelson escalou para a sessão: o incendiário Freddie Hubbard no trompete, a lenda Eric Dolphy tocando sax alto e flauta, o toque impressionista de Bill Evans ao piano, e uma cozinha sublime formada por Paul Chambers no baixo e Roy Haynes na bateria[1]. Depois, pela maestria na interpretação do tema que eu acabara de visitar: a ambiência profunda do estúdio, a completa atenção dos músicos às nuances e expressões que Oliver Nelson põe no arranjo, conferindo-lhe força, a atmosfera cool que envolve o tema, o quanto é dito nos silêncios e o quanto é subtendido nos fraseados. Cada improviso parece ser melhor do que o outro, e à medida que os solistas mandam seu recado inevitavelmente me lembro da perplexidade do escritor Alex Ross ante a capacidade da música de, numa breve sequência de notas ou acordes, assumir as peculiaridades de uma pessoa, traduzir num mundo abstrato a personalidade de um artista[2]. O que fica extremamente claro quando o tenor de Oliver Nelson se apresenta para improvisar neste tema. Ele dá ao todo apenas quatro giros sobre a breve estrutura minor blues, e faz uma improvisação quase motívica, com padrões baseados em arpejos de tríades e figuras rítmicas simples (tercinas) que vão criando tensão à medida que o encadeamento harmônico se desenrola – especialmente quando ele insiste na tríade de Ebm enquanto a progressão vai de Ab7 para G7, remetendo à escala aumentada -, mas que, para muito além da análise técnica e da radiografia musicológica, traz em si uma profundidade emotiva que as palavras jamais conseguirão exprimir. E é justamente neste aspecto que reside toda a sua beleza, porque seu improviso fala sem reservas a todo aquele que estiver disposto a ouvir, independente de educação formal, provando que a música não é uma esfera autossuficiente, e sim uma maneira de apreender a realidade a nossa volta e de partilhar da condição humana que nos define.

Desde essa (re)descoberta, venho ouvindo compulsivamente o disco todos os dias, faixa a faixa, com a maior atenção que consigo dar aos detalhes, como que para recuperar o tempo que perdi sem me dar conta da grandeza desse clássico, e pensando, ao final de tudo, como esse mesmo tempo que nos turva a visão pode nos ensinar lições valiosas sobre aquilo que julgamos sempre saber.





[1] Há também George Barrow no sax barítono, contudo sua participação fica restrita aos naipes.
[2] Ver ROSS, Alex; Escuta Só: Do Clássico ao Pop, Companhia das Letras, 2011, São Paulo. 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Tostão: A Perfeição Não Existe - Por Fernando Lucchesi



Estou muito longe de ser um fanático ou mesmo entendido de futebol. Admiro muito o jogo, tenho os meus times, mas estou longe de entender de esquemas táticos, escalações de jogadores, posicionamento dentro de campo, mas acompanho as notícias, as polêmicas do cotidiano dos clubes e nos dias seguintes aos jogos com mais interesse. Uma das perguntas mais recorrentes sobre futebol, feita a todo aquele que têm um mínimo de interesse pelo jogo, é “qual seu ídolo no futebol?”. A resposta de cada um leva os mais diversos fatores em consideração: as jogadas brilhantes produzidas por determinado jogador, a quantidade de títulos, uma atuação decisiva num jogo importante, a quantidade de gols marcada ou até mesmo o comportamento fora de campo. A maioria dos meus contemporâneos aponta Zico ou algum jogador do seu clube de coração.

O meu ídolo no futebol jamais o vi jogar, a não ser por alguns poucos videotapes.  Ele também não pertence a nenhum time pelo qual torço. Tostão significa algo mais do que o jogador que venceu a Copa do mundo de 70 e fez parte de um dos maiores times da história do futebol. Sua carreira foi bruscamente interrompida em virtude de uma bolada que atingiu o seu olho e provocou o descolamento da retina. Assim, em Fevereiro de 1973, Tostão, 26 anos, aconselhado pelos médicos, abandona o futebol.

Mas o “mineirinho de ouro”, como era conhecido, fez algo pouco usual para um ex-jogador de futebol. Foi aprovado na faculdade de medicina e em 1981 obtém graduação e passa a atuar como médico, deixando o futebol de lado por um bom tempo. Em 1994, Tostão é convidado para comentar a Copa dos Estados Unidos pela rede Bandeirantes e atuar como colunista de vários veículos impressos pelo Brasil.

Lançado em 2011, “A perfeição não existe” reúne algumas de suas crônicas escritas e publicadas em jornais entre 2000 e 2011. Tostão nos presenteia em cada uma dessas crônicas com seu olhar voltado para o humano, no qual o futebol é apenas uma parte. Ele discorre com desenvoltura desde esquemas táticos utilizados por treinadores ao prazer da vida quase campestre que leva junto com a família. Não tente o leitor buscar uma espécie de “padronização” nas crônicas, pois isso é algo com que Tostão não se preocupa. Escreve sobre   o que bem entende e quando quer. Abaixo vão algumas análises contidas no livro que considero pertinentes:

“Aprendo com as críticas, desde que elas não sejam apenas de torcedores parciais. Interessante é que há um grupo de torcedores que é excessivamente duro com os jogadores e com seu time, mas que não aceita as mesmas críticas de comentaristas. Acha que queremos menosprezar seu time de coração.”

“Parece que algumas pessoas acham que o comentário técnico é uma coisa chata, pouco intelectual, menor. Estranho! Como se fôssemos obrigados a escolher entre a beleza, o espetáculo e a técnica. Com raras exceções, não existe arte sem técnica.”

“O perfil ideal de um atleta seria o q associasse talento com garra, que fosse emotivo sem perder o controle de suas emoções, guerreiro e tranquilo, disciplinado e ousado , ambicioso, sem esquecer que o conjunto e a união são fundamentais no sucesso de um time. Evidentemente, esse super-homem não existe.”

“Precisaria de dezenas de crônicas para descrever tantos momentos inesquecíveis. Temos sempre de lembrar que o futebol, antes de ser uma competição, um jogo de técnica e de tática, é um esporte lúdico, belo e emocionante. Os lances espetaculares são os que ficam na história.”

“O futebol e a vida continuam prazerosos e bonitos porque mesmo em situações previsíveis, comuns e repetitivas, haverá sempre o acaso e um artista, um craque para transgredir e reinventar a história.”

Algumas chegam a surpreender como a crônica que dá título ao livro:

“Compreendo as atuais críticas (a crônica é de 2000) de que a seleção de 70 não era tão maravilhosa. Imaginaram um time perfeito. Não foi perfeito, mas foi uma equipe espetacular e irresistível para aquela época. A perfeição só existe na nossa imaginação. A seleção de 70 teve um grande defeito: seus jogos são constantemente reprisados pela TV. A imagem destrói a fantasia, que é sempre melhor que a realidade.”

Sem dúvida há ainda muitos pensamento e reflexões que mereceriam citação, mas deixo os leitores com a curiosidade conhecê-los.

domingo, 29 de março de 2015

Variações em 5/4 - Céu Ao Vivo





Na coluna deste mês, os editores do blog lançam um olhar coletivo sobre o recém-lançado disco “Ao Vivo” da cantora paulista Céu.

Boa leitura!

- Giba Carvalho:

Quando Bruno Vitorino sugeriu o trabalho novo de Céu como pauta para coluna deste mês, confesso ter sentido um frio na espinha. A dúvida permeou meus ouvidos e minha cabeça de modo intrigante: “o que falar de uma cantora que acho excelente em estúdio e que não rende o esperado ao vivo?”. Pois bem. A cantora paulista fez uma síntese dos três primeiros álbuns para comemorar os dez anos de sua carreira que continua bastante promissora. Deixou de lado os aspectos dub-ragga de “Vagarosa” (2009) e priorizou o lado mais “pop-sedução” de “Caravana Sereia Bloom” (2012). Escolheu o aconchego do Centro Cultural Rio Verde e sua capacidade de 400 pessoas para fazer uma gravação mais intimista, do que o delírio frenético das grandes plateias. Este foi o primeiro grande acerto do trabalho. O segundo ponto positivo foram as versões escolhidas por Céu. Como principais destaques do trabalho, a excelente versão de “Mil e Uma Noites de Amor” (Baby do Brasil, Pepeu Gomes e Fausto Nilo) e conhecida do público oitentista na trilha da novela “Roque Santeiro” e a espetacular versão de “Visgo de Jaca” (Rildo Hora e Sérgio Cabral) que já conhecemos desde Vagarosa. No mais, conforme citado acima, um compilado de seus maiores sucessos executados de modo bastante peculiar e competente.

Reconheço que da geração pós-Los Hermanos, Céu seja o nome de maior destaque do cenário pop nacional. Particularmente, gosto muito de sua ousadia nas composições e gravações dos seus trabalhos, mas dois pontos específicos me incomodaram sobremaneira. Primeiramente, a queda para elementos extremamente bregas nos arranjos. A versão de “Cangote” (uma das minhas preferidas do Vagarosa – 2009) é de revirar morto no caixão. Do balanço cadenciado de um reggae de categoria, para uma guitarrada sem pé nem cabeça, fruto da mentalidade “cafuçú” que permeia como “CUltura” na mentes “privadizadas” da turminha descolada. Aqueles que fingem ser alegres às custas da desgraça alheia. E segundo, as vinhetas patéticas que existem nos hiatos e introduções das músicas.

No mais, as pessoas precisam entender que mesmo sendo uma gravação de show, o trabalho foi mixado, as falhas usuais e constantes da cantora “na febre do ao vivo” foram maquiadas, e assim o CD e DVD serão um sucesso absoluto.


- André Maranhão:

Quando conheci o trabalho de Céu, a partir do seu disco de estreia em 2005, me pareceu que sua arte se encaixava muito bem numa estética glocal (uma mediação entre traços do global e local da cultura). A cantora quase sempre cruzou ritmos, artistas e idiomas diversos nos seus álbuns. Em seu novo disco (Ao Vivo) acredito que o glocal ainda persiste. Porém, em alguns momentos, Céu e os seus bons músicos (Dustan Gallás; Lucas Martins; Bruno Buarque e o DJ Marco) perderam (ou não procuraram) a possibilidade de se conectarem com a inventividade do Jazz ou da improvisação – coisa que seria bastante pertinente ao longo do disco. Senti a falta de tudo isso em “Teju na Estrada” (instrumental) e “Streets Bloom”: ambas são faixas caídas e que não me empolgaram, talvez justamente por não se improvisar mais. Em “Rainha”, um Afrobeat que por vezes Céu dedica a Fela Kuti, também seriam bem-vindas mais improvisações dos músicos, frases cheias – além, é claro, do vocalise menos tímido por parte da cantora.

Ao longo de sua carreira, Céu migrou paulatinamente dos backing vocals para o lead. Quiçá por dispor de uma voz bem favorável ao estilo de cantora crooner, que Céu consegue interpretar um estilo como o Brega com tanta finesse. Isso ocorre em “Retrovisor”; “Amor Antigo”; “Baile da Ilusão”. Mais além, a faixa “Cangote”, junta o canto de Céu com traços da música paraense, de uma linhagem Brega Cult e que se assemelha bastante aos trabalhos de Felipe Cordeiro.

“Lenda” permanece bem fiel às apresentações de Céu antes de lançar o álbum Ao Vivo. “Contra Vento” e “Comadi” conectam a música nordestina com o Indie, e “Em Piel Canela” (um clássico escrito por Bobby Capó, e gravado por outros nomes consagrados, tais como o trio Los Panchos e Nat King Cole), Céu mantém a suavidade e a leveza da sua interpretação. Em “Mil e uma Noites de Amor”, seu tom é bem próximo ao de Pepeu Gomes, e a versão é boa (ainda que eu considere a versão de Pepeu mais marcante).

Às vezes, acelerar a batida de uma canção não é garantia de que ela melhorará; principalmente em um ritmo como o Reggae. É o que acontece em “Concrete Jungle”. A versão do álbum Céu (2005), além de conter uma harmonização mais rica, com oitavadas, mais acordes e uma cadencia desacelerada, funciona bem melhor do que a do álbum Ao Vivo.

Ultimamente, alguns artistas que pretendem se aproximar de uma forma / fórmula emepebista da canção, têm cometido o seguinte equívoco: enxugar demais ou até excluir os instrumentos acústicos de suas interpretações, assim como tornar excessivo o uso de recursos eletrônicos. Bom, no disco “Ao Vivo” de Céu, isto ocorre em 10 Contados (uma vez que as versões do álbum de estreia da cantora e o dueto com Paulinho Moska no programa Zoombido, do canal Multishow são bem melhores); Malemolência (que apesar da novidade de Céu citar Mora na Filosofia, de Monsueto e Arnaldo Passos, a versão original do álbum de 2005 traz consigo a frase do cavaquinho – tão legal, porém esquecida nas posteriores apresentações da cantora). Em "Visgo de Jaca" (de Rildo Hora e Sergio Cabral), pode-se conferir na versão de estúdio anterior ao disco Ao Vivo, a diferença que fazem o pandeiro e as congas em certas canções.

- Fernando Lucchesi:         

Dentre as várias cantoras surgidas no final dos anos 2000, sem sobra de dúvida, Céu é a que mais se destaca. O CD/DVD “Céu Ao Vivo” faz um apanhado da consistente carreira da cantora, iniciada com o disco homônimo “Céu” (2005).  O disco, especificamente, tem uma mistura bem interessante das canções dos três discos lançados por ela. O início é de tirar o fôlego com três belíssimas canções. “Falta de ar” inicia com uma pegada roqueira setentista, desacelera e se enche de solos de guitarra. “Amor de Antigo” com sua levada meio brega e aquele famoso teclado de churrascaria, embalam uma linda melodia e “Contravento” parece uma cúmbia desacelerada, com inserções de guitarras psicodélicas.

Céu também não se contenta em ficar em sua zona de conforto e transforma um dos seus maiores sucessos, a balada “Cangote”, em um carimbó/guitarrada paraense. Funciona muito bem. A influência paraense/caribenha também está presente em “Baile de Ilusão”. O que não funciona bem no disco é a cover de “Mil e Uma Noites de Amor” de Pepeu Gomes. Muito similar ao original, sem nenhum toque de ousadia, algo que se espera de uma cover, principalmente ao vivo. O que falta de ousadia em “Mil e Uma Noites de Amor” é compensado na interpretação e arranjos de trip hop para lindíssima “Visgo da Jaca” de Martinho da Vila, que infelizmente está apenas no DVD.

Na segunda metade do álbum a cantora deixa um pouco de lado a influência caribenha nos arranjos das músicas abre um espaço maior para outros gêneros muito presentes na carreira de dela. Há espaço para o Hip Hop (“Malemolência” e “Lenda”), Reggae (“Concrete Jungle”, cover de Bob Marley) e até uma pouco de soul, nos arranjos de “Rainha”. A julgar pelo apanhado das músicas do CD e DVD “Ao vivo”, Céu está no caminho certo com seu caldeirão de influências musicais.

- Bruno Vitorino:

O disco “Ao Vivo” da paulista Céu chega para marcar a exitosa trajetória de dez anos de uma cantora que soube ao longo de sua carreira articular suas influências de música internacional às raízes de sua cultura numa produção autoral do seu tempo, sem saudosismos caricatos e mercadológicos, e que se materializa num formato pop urbano, mas que – eis aqui o mais importante e raro - ainda se preocupa com o conteúdo. Por essa razão, vejo a cantora com o nome mais interessante do mainstream nacional dos últimos tempos. Seu talento para a composição, suas angulosas melodias que serpenteiam por uma harmonia intuitiva, sua voz falha, roufenha - não pasteurizada pelo tecnicismo lírico ou pela artificialidade da impostação exagerada à Ana Carolina –, mas educada e de belo timbre, e sua sensível qualidade de intérprete resultam numa música que tem identidade própria e méritos estéticos, como atestam seus discos “Céu” (2005), sua obra-prima “Vagarosa” (2009) e o dançante “Caravana Sereia Bloom” (2012).

Tive a oportunidade de assistir à cantora em ação no festival Rec Beat no ano de 2013, mas creio que a dispersão do palco grande combinado à euforia de um grande público a dominaram. Sem falar que a banda no palco era bastante reduzida em relação àquela que se ouvia nos discos, sempre repleto de convidados em cada faixa. Assim, em poucas palavras, o que vi foi uma Céu desconcentrada amparada por uma banda que não conseguia preencher os espaços e atingir o nível de execução que se ouvia nos discos em estúdio. Saí antes de o show terminar. Daí meu medo que o fenômeno “brilhante em estúdio, terrível ao vivo”, algo tão comum em tempos de músicos que não sabem o que fazem e focam no hype, se repetisse com esse novo projeto da cantora. No entanto, não é o que acontece. Imagino que o ambiente controlado, com uma produção disponível e vasto background ao alcance, a responsabilidade de uma gravação de um DVD/CD, que não deixa de ser sinônimo de prestígio na carreira de qualquer artista, o caráter intimista do Centro Cultural Rio Verde, local escolhido para a gravação de sua apresentação, e, por fim, um público empolgado ma non troppo criam as condições ideais para que Céu se mostrasse focada e confiante, e sua banda, mais audível e comprometida com a execução. E o repertório é simplesmente matador! Destaque para o clima tropicalista de “Contra Vento” e samba-dub de “Malemolência”.

Recomendo!

- Rógeres Bessoni:

Por razões de cunho pessoal, o sr. Bessoni não conseguiu escutar e escrever na coluna de março. No próximo mês, o colunista está de volta com suas observações perspicazes.


domingo, 22 de março de 2015

Um Salto no Vazio: Ernesto Jodos em Recife - Por Bruno Vitorino

Ernesto Jodos. Fonte: Google Imagens

Diana Krall ecoava no sistema de som do Teatro Luiz Mendonça, embalando o ambiente com sua releitura à Spettus Steak House do clássico “Fly me to The Moon”, de Bart Howard. Sofisticação e requinte era o que sua versão industrializada desse standard consagrado por Frank Sinatra parecia derramar sobre o público. Sentado na extremidade esquerda de minha fileira, tentava entrar no clima de descontração e leveza que parecia envolver os presentes. Ainda estava um pouco agoniado, talvez por causa da meia hora que passei em pé na fila devido ao atraso de uns trinta minutos na abertura dos portões. Quando finalmente meu espírito chegou ao teatro, já ribombava, como um sinal dos deuses, o segundo gongo de advertência - aquele toque que anuncia à platéia que em breve as apresentações irão começar. “Que bom! Não vai atrasar tanto.”, pensei. Neste mesmo instante, reparei que todos, repito, todos!, os casais que estavam à minha volta, sacavam de seus celulares para tirar uma selfie e imortalizar no Instagram esse momento íntimo e fugaz que, outrora destinado a quedar esquecido nos porões da memória, convertia-se em acontecimento real, fato histórico na biografia dos enamorados, pelo seu registro e publicação nas redes sociais. “Não imaginava que éramos assim tão positivistas...”, lembro que cheguei a pensar.

Foi aí que ouvi de passagem, para meu espanto: “É o Hermeto que vai tocar agora, véi!”. Descendo as escadas, um jovem hipster de bigodes eriçados nas pontas e barba vultosa que parecia ter acabado de acordar, pois trajava uma calça de pijama, com uma camisa regata furada e um chinelo de dedo, prenunciava o que eu temia: que a ordem das apresentações fosse invertida e eu tivesse de assistir ao concerto do duo Hermeto Pascoal e Aline Morena. Justamente o único que não queria ver. Mas, calma! Antes que seu cenho ganhe rugas de desaprovação, leitor, faço questão de esclarecer o óbvio: amo a música de Hermeto Pascoal! Tive verdadeira uma epifania com o concerto de seu grupo na MIMO em 2009, com direito a torpor, perplexidade e uma noite inteira de reflexões sobre a arte, o sentido da vida e qual seria, depois de ter presenciado tamanho milagre artístico, minha relação com a música. Sempre me intrigaram a complexidade arquitetônica de suas composições, a maneira como ele conferia um novo sentido à tradição ao fazê-la dialogar com o contemporâneo, a infinidade de seu vocabulário sonoro que incorporava todos os sons possíveis em sua música, daqueles gerados pelos instrumentos convencionais aos oriundos dos objetos mais improváveis – no álbum Slaves Mass, ele usa até um porco! -, e como, por fim, dentro de todo esse universo inóspito os músicos compartilhavam tanta liberdade e exercitavam com tanto ímpeto o risco. E o Hermeto lá guiando tudo! Vê-lo ao vivo com seu grupo foi, portanto, uma experiência indescritível. No entanto, com o duo Hermeto/Aline não sinto isso. Nem de longe vislumbro toda essa dimensão. Vejo apenas um happening que prima pela espontaneidade em si mesma, sem propósito estético definido, irmã gêmea do excêntrico. De resto, sinceramente, acho que a Aline, por mais que tente e se esforce, não consegue acompanhar o “Bruxo” (e o grupo, quando presente) em suas explorações e mais atrapalha do que contribui para música que ali está sendo feita. Enfim, não pude deixar de sentir certo alívio quando veio então o terceiro e último gongo, e com ele o anúncio da primeira atração da noite: Alex Corezzi e Jean Kapsa.

O projeto do saxofonista Corezzi, mineiro radicado em Pernambuco e a mente iluminada por trás da produção do Recife Jazz Festival, com o pianista francês Jean Kapsa foca em reinterpretações mais abertas de temas clássicos da música instrumental brasileira. E por “mais abertas” deve-se entender que os instrumentistas se valem de uma célula melódica de determinada composição, apoiando-se na harmonia que lhe é implícita, para a partir desta estrutura mínima se lançarem nas improvisações e empreenderem um diálogo intenso na construção espontânea das formas. Dentro dessa perspectiva, o mais que conhecido frevo “É de Fazer Chorar” foi revisitado num andamento moderado, com os músicos a flutuar em rubato sobre o pulso estabelecido que delimitou o clima emotivo apropriado para receber um sax tenor vigoroso o qual percorria de forma assimétrica determinado trecho pinçado da melodia, enfatizando assim seus grupamentos rítmicos, ancorado num piano frenético que abusava de pontilhismos, clusters e acordes estendidos que de tão imensos desabavam sobre si. Depois disso, alternância de improvisações individuais e reexposição do motivo ad libitum. No entanto, o que à primeira vista me pareceu uma abordagem corajosa e exploratória de temas tradicionais e vastamente tocados, à maneira do que fizera, por exemplo, o grande Albert Ayler com seu mergulho no spiritual, no gospel e na creoule music, revelou-se um quê burocrática e repetitiva. Lá pela terceira música, percebi que aquilo que se pretendia free e pautado no imprevisível acabava sempre por repousar sobre uma confortável e protegida fórmula estrutural: o sax livremente tocando a melodia sobre um piano tempestuoso; aumento da tessitura sonora como ponte para os solos; seção de improvisos do tenor; solo de piano sobre um vamp que estabelecia o lugar harmônico; retorno ao tema com a mesma pegada da abertura. Ou seja, um formalismo disfarçado que ia totalmente de encontro aos preceitos da improvisação livre, que nega justamente o preconcebido ao focar no imponderável e seus desafios. Vale ressaltar, porém, que se do ponto de vista musical a apresentação do duo Corezzi/Kapsa me pareceu um tanto morna, repetitiva e carente de um diálogo mais propositivo, reconheço o grande mérito didático de apresentar a um público pouco afeito à música instrumental uma abordagem não convencional dos temas que interpretou, convidando os ouvintes a fruir a música sob um viés certamente inesperado por eles, como denunciou o calor dos aplausos ao final do set. Mas, nesse momento, eu já ansiava pelo concerto que me fizera sair de casa e encarar uma longa viagem à zona sul da cidade. Em breve, subiria o palco para escrever/declamar sua poesia em primeira pessoa o argentino Ernesto Jodos.

Formado na prestigiosa Berklee College of Music, Jodos é uma das figuras principais da rica cena jazzística argentina surgida em meados dos anos 1990, a qual fora responsável pela ampliação das fronteiras estéticas dessa música no país ao combinar a tradição dos standards a uma produção autoral que carregava em si as inquietações de uma geração de instrumentistas que investigava, inquiria e ressignificava os cânones de suas próprias raízes culturais. Desde então, o pianista vem atuando em diversos projetos como líder, co-líder e sideman, angariando inúmeros prêmios ao longo de sua trajetória e documentando numa discografia que já se avoluma sua música introspectiva e personalíssima, que se põe em xeque a todo instante, seja em contextos mais dentro da plataforma chorus ou naqueles de total desprendimento de qualquer alicerce preconcebido. Particularmente, tomei conhecimento da existência de Jodos num disco do excelente saxofonista Rodrigo Dominguez (também argentino) intitulado “Tonal” (2004). Nesse projeto, em que o tradicional combo “sax/órgão hammond/bateria” abandonava o hard bop que o consagrou, bem como sua estrutura “tema – improviso – tema”, e se lançava em voos arriscados pelas paisagens sonoras abstratas da improvisação coletiva; pude perceber a destreza técnica de Jodos e como ele a utilizava em prol de expressar o que sentia a cada momento da música executada. Estava tudo lá: seu jeito de harmonizar melodias aparentemente incompatíveis com o rigor estrutural dos acordes, o modo como ele respondia às investidas dos músicos e contribuía para a atmosfera emotiva do que estava sendo tocado, sua capacidade impressionante de criar todo um discurso improvisativo a partir do mais singelo e despretensioso motivo, o uso que fazia dos espaços, os silêncios que tocava. Tudo isso num contexto de muita incerteza, como se a música estivesse prestes a fugir do controle a qualquer instante, e de tensão a níveis elevados, com uma permanente sensação de que não houvesse qualquer zona de repouso para onde os instrumentistas pudessem levar os temas à conclusão. Por todas essas razões, ver Ernesto Jodos em ação era para mim apenas uma questão de oportunidade.


O concerto foi baseado no mais recente trabalho do pianista, o disco “Actividades Constructivas”, lançado ano passado pela label argentina BlueArt. Nesse álbum, Jodos, sozinho, propõe-se a investigar a tênue fronteira que divisa composição e improvisação, colocando essas perspectivas frente a frente em sua odisseia sonora: a primeira enquanto lugar objetivo da expressão musical, esquema previamente definido, fruto do processamento do impulso criativo pelas estruturas do pensamento, ou seja, improviso escrito; e a segunda enquanto discurso libertário, rompante criativo em estado bruto que vem dos mais recônditos confins da memória, o qual carrega em si uma peculiar carga emocional justamente por ser não refletido, e materializado no ato da execução, isto é, composição instantânea. Ao se valer da colisão desses extremos, Jodos apresentou em Recife uma música abstrata, exigente, de difícil assimilação, totalmente dissociada da sensibilidade estética banal que se entranhou em nossa cultura e do lugar comum daquilo que se consolidou Jazz no espírito coletivo fomentado pelo establishment. No entanto, uma música imensamente bela, dialógica, imaginativa e profunda que convidava o ouvinte mais curioso a abandonar o conforto de seus (pre)conceitos artísticos, daquilo que sempre conheceu por música, e celebrar na transcendência a condição humana que nos iguala, nos define e nos une. Era impressionante como a cada tema, o pianista parecia se concentrar para limpar de sua mente qualquer vestígio de estratégia na abordagem da música, que podia rutilar de uma exígua estrutura melódica ou ser iniciada da inteira negação a qualquer material prévio, e transpor a alma para a ponta dos dedos, como se escrevesse, nas palavras de Machado de Assis, “uma poesia austera e pura” que versava sobre as mais íntimas aspirações. Um mergulho desmedido dentro de si mesmo, um salto no vazio. Cada composição, cada improviso descortinava um universo novo cheio de nuances e sentido interno, como uma afirmação contundente de que na arte toda a repetição é nula. A polidez dos aplausos, contudo, fez-me suspeitar que fora mais respeitado pela condição de artista do que compreendido enquanto tal.

Não fiquei para os dois últimos concertos. Não tinha como. Depois desse recital, só me restou voltar para casa com a música que acabara de ouvir ainda reverberando em meu âmago e um sorriso de menino no rosto por ter conseguido comprar uma cópia do disco de Jodos - graças à boa vontade, vale ressaltar, de um dos membros da produção do evento.

Foi mais uma longa e agradável noite de reflexões sobre arte, vida, sentido e gratidão.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Giulio Carlo Argan e o Iluminismo Inglês - Por André Maranhão

O historiador Giulio Carlo Argan

A Itália é um estado-nacional com várias personalidades comunistas; e se algumas cidades italianas são politicamente orientadas à direita, outras são declaradamente esquerdistas. Não é à toa que em seu livro Democracia e Segredo, lançado há poucos anos, Norberto Bobbio considera a Esquerda italiana (La Sinistra) a mais expressiva da Europa. Em 1976, o Partido Comunista Italiano elegeu Giulio Carlo Argan para o cargo de prefeito da influente cidade de Roma. Porém, de modo curioso, o novo prefeito não era um político oriundo das bases sindicais ou da burocracia, mas era um dos acadêmicos e historiadores da arte mais influentes da Europa. Ao longo de sua vida, Argan colecionou aulas e textos que situaram pesquisadores durante os séculos XX / XXI, além de estudos que tratam de temas importantes para a Estética.

Dentre os escritos de Argan, suas análises sobre o Iluminismo inglês articulam habilmente as formas da arte com os conteúdos e argumentos defendidos pelos próprios artistas daquele período. Durante os séculos XVI-XVII, a Inglaterra teve uma escola filosófica e literária mais expressiva do que sua pintura. Se comparadas às da Holanda, França e Itália, as telas inglesas não preenchiam os espaços artísticos com tanto impacto; e além de importar as suas pinturas, os ingleses não prestigiavam tanto o ofício do pintor quanto os holandeses, franceses e italianos. Aliás, mais nobre e digno para uma inglês era consumir ou comprar, em vez de criar, uma pintura. Segundo Argan, tal realidade só começou a mudar no século XVIII, quando o norte da cultura artística passou das mãos da aristocracia para a burguesia. Em outros termos, pode-se dizer que os burgueses não tinham receio de “sujar as mãos” para fazer arte, como também não tiveram cerimônias em valorizar o estudo da arte em vez de apenas comprá-la. Portanto, a pintura iluminista também abriu as portas para a figura do “conhecedor” em vez de apenas prestigiar um mero “comprador” de um quadro.

O Iluminismo inglês reconheceu a importância dos cânones italianos para a composição da arte, ao mesmo tempo em que destacou os mestres holandeses e os seus temas burgueses / não religiosos na composição de seus quadros. Neste ponto, era importante imitar os mestres, mas imitar não era necessariamente copiar:


  
À esquerda temos a estátua em mármore de Apolo Belvedere, finalizada em 1511, e pertencente ao Museu do Vaticano – enquanto à direita, encontramos o Honorável Capitão Augustus Keppel; pintado por Joshua Reynolds, em 1753. Vários artistas ingleses começaram a escrever tratados sobre a arte influenciados por temas filosóficos. Reynolds argumentava que a criação artística não resultaria de uma inspiração sobrenatural, como também sustentava que o próprio exercício da crítica de arte levaria o ser humano à ação artística. Segundo esta perspectiva, embora a figura do gênio ainda existisse, as suas condições de existência pareciam bem diferentes, pois a arte se tornou um espaço tanto para gênios quanto para diletantes formados pelo gosto:

“A arte é e permanece invenção; mas, se ela não nasce do nada, é inútil tentar inventar sem antes ter recolhido uma grande quantidade de material. É verdade que a arte é produto do gênio; mas o gênio não é distinto do gosto senão por ser relacionado ao fazer, e não ao julgar; e se o gosto não tem origem sobrenatural, mas é formado pela educação, o gênio também se forma e amadurece na experiência (...). O gênio-gosto não pertence apenas ao artista, mas a todos que receberam uma determinada educação: se essa faculdade, quando assume o nome de gênio, estimula a fazer arte, não se entende por que essa permaneceria inerte quando assume o nome de gosto” (ARGAN, 2010, p. 24-34).

Muito antes do conceito de sublime, tão caro ao Romantismo e Idealismo alemão, a pintura iluminista da Inglaterra já se valera da noção de pictórico, combinada com a definição de argúcia (wit). E mesmo antes que artistas como William Hogarth e William Blake movessem esses termos em seus discursos, a ideia de argúcia já surgira na própria filosofia britânica, quando Thomas Hobbes, John Locke, George Berkeley e David Hume já a definiam como a “velocidade da imaginação”; e a “sequência rápida de uma ideia à outra”. O que a poética inglesa fez foi reconhecer a beleza dispersa na Natureza, nas paisagens, nos cenários da vida social. E neste sentido, a tarefa do artista seria a de organizar essas belezas em sua tela, mais uma vez as imitando, e não as copiando.



A tela de William Hogarth, O Pintor e Seu Pug (1745) obviamente imita algo da Natureza, mas o traço do pintor é intencionalmente embaçado, pois a pintura não significaria mais o antigo esforço em ser fidedigna aos objetos contemplados pelo artista. Analogamente, o cão está borrado na tela. A paleta do pintor contém a inscrição The Line of Beauty; mas de maneira irônica, a Linha da Beleza é uma curva. O pintor se pinta diante do espelho, e traz consigo seu traje, tão composto de curvas quanto a Linha da Beleza. Tão curioso quanto isso, é saber que as criações de Hogarth foram lançadas muito antes dos quadros impressionistas da França!

Argan demonstrou que no século XIX, a pintura iluminista da Inglaterra começou a declinar, na medida em que os Pré-Rafaelitas surgiam, advogando um retorno à pureza da vida e temas religiosos. Mesmo assim, vários artistas importantíssimos e posteriores beberiam de fontes dos iluministas ingleses: Goya teve contato com a pintura de Gainsborough; Delacroix conheceu os trabalhos de Bonington. Não menos importante, os ingleses contribuíram bastante para a renovação da estética francesa, até então bastante marcada pela influência das formas e temas de Grécia e Roma Antigas, além do Neoclássico. Um grande poeta francês como Charles Baudelaire, formou boa parte de seu repertório artístico sob a influência da pintura iluminista inglesa. Se a noção de pitoresco na Inglaterra foi capaz de aliar a beleza natural com a argúcia do pintor e o seu entorno; posteriormente a tudo isso, Baudelaire definiria a Modernidade como “o transitório, o efêmero, o contingente” (2007) – e onde o artista moderno deveria ser capaz de pintar e captar essa transitoriedade, efemeridade, contingência; imprimindo sobre ela o seu ar de eternidade.

REFERÊNCIAS

ARGAN, G. C. A arte moderna na Europa: de Hogarth a Picasso. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade: o pintor da vida moderna. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Oscar 2015 - Por Fernando Lucchesi



Sempre houve e sempre haverá questionamentos quanto aos filmes indicados e vencedores do Oscar. Como em toda competição que premia filmes, o critério, na grande maioria dos casos, é amplamente subjetivo, o que dá margem para todo tipo de crítica. Já fui de acompanhar Oscar madrugada adentro, mas hoje em dia me conformo em assistir até onde meu sono aguentar e a paciência aguentar com os números musicais e discursos pra lá de enfadonhos (reconheço que com o passar do ano a cerimônia ficou mais dinâmica, mas ainda sim demora por demais). No entanto, é impossível escapar do “Evento” (com “E” maiúsculo mesmo) Oscar, pois toda mídia de entretenimento está com os holofotes voltados para a cerimônia. Esse ano resolvi que assistiria pelo menos todos os indicados para melhor filme e faria alguns comentários sobre eles. Vamos lá então!

Boyhood- Da infância à juventude – O diretor, Richard Linklater, optou por narrar a vida do garoto Mason (o talentosíssimo Ellar Coltrane), como entrega o subtítulo em português, da infância à juventude. Ao optar por utilizar o mesmo elenco demorou 12 anos pra poder concluir as filmagens. O filme dá saltos temporais na vida de Mason de forma que personagens secundários somem sem maiores explicações e novos personagens vão surgindo à medida que o personagem cresce. O que dá força dramática ao filme são os personagens com seus dilemas existenciais, angústias, insegurança, felicidade e toda sorte de emoções às quais nós, como seres humanos estamos sujeitos durante a vida. Destaque para o diálogo na cena em que Mason deixa a casa de sua mãe para começar a faculdade. Divide com Birdman o favoritismo para levar melhor filme. Possivelmente leva o Oscar de coadjuvante para Patricia Arquette (numa interpretação magnífica). Tem boas chances também no roteiro e direção para Linklater.

BIRDMAN ou A inesperada virtude da ignorância - A probabilidade dos roteiristas terem escrito o filme pensando exatamente em Michael Keaton é gigantesca (talvez eles já tenham confirmado isso, mas não li). Os personagens pelos quais tanto Keaton quanto seu alter ego no filme, Riggan Thomson, são marcados são super-heróis (Birdman e Batman). O ano em que atuaram pela última vez em seus papéis icônicos foi 1992. E Keaton, tal qual Riggan Thomson busca aclamação da crítica com um novo projeto (Riggan com uma peça na Broadway e Keaton com o próprio Birdman). A história gira em torno das dificuldades encontradas por Riggan para conseguir montar a peça “What We Talk About When We Talk About Love” do escritor americano Raymond Carver, já que além de ator ele também é o produtor da peça. Assim como em “A noite americana” de Truffaut, o filme mostra todas as dificuldades de se produzir arte (egos elevados, insegurança, medo constante do fracasso, etc.). Para fazer uma ironia ainda maior com o fato de Keaton/ Riggan serem marcados com super-heróis o diretor confere ao personagem alguns “superpoderes”. Com uma excelente fotografia em tons escurecidos tem amplas chances de ganhar. É favorito, junto com Boyhood, à estatueta de melhor filme e Keaton é o favorito para melhor ator.

O jogo da imitação - Baseado na vida do matemático Alan Turing, o filme resgata um período sombrio durante a segunda guerra mundial, no qual os alemães conquistavam várias capitais da Europa muito em virtude de uma máquina chamada ENIGMA, a qual todos os aliados tentavam decifrar para captar as mensagens germânicas e evitar ataques inesperados. Liderados por Turing (em ótima atuação de Cumberbatch), os mais respeitados matemáticos da Inglaterra tentam de todas as formas “quebrar” a criptografia da máquina. Aparentemente a história teria tudo para ser entediante, mas o roteiro de Graham Moore e a excelente edição de William Goldenberg dão ao filme o clima de tensão necessário para fazer do filme tanto um drama (que explora a vida de Turing) com um eficiente thriller de espionagem. Tem fortes chances no prêmio de edição e Cumberbatch corre por fora como ator, mas dificilmente ganhará.

A teoria de tudo Apoiado numa excelente atuação de Eddie Redmayne como famoso físico Stephen Hawking, esse filme tenta ser uma cinebiografia de Hawking, mas é um melodrama dos mais chatos feitos nos últimos anos. É inquestionável que um personagem como Hawking, que teve uma vida realmente extraordinária, mereça uma cinebiografia, mas esse filme, absolutamente, não faz justiça ao “personagem” Hawking. O filme, literalmente, junta pedaços da vida do físico e explora ao máximo num tom cheio de auto-piedade a vida da família Hawking. Enfim, é o típico filme que a academia gosta, com uma história de superação das adversidades com uma atuação quase “espírita” do ator principal. Pelo que vi em alguns sites Eddie Redmayne tem boas chances como ator, mas o prêmio deve ficar com Michael Keaton (Birdman).  

Whiplash - Em busca da perfeição - Na busca por um lugar como um dos melhores bateristas do seu tempo, o jovem Andrew Neiman consegue uma vaga em uma das mais conceituadas escolas de música dos EUA. Lá encontrará um professor de métodos quase sádicos na busca por ser o descobridor do próximo grande músico de jazz. Com uma interpretação não mais que excepcional de J.K. Simms como o professor Fletcher, o filme tem os seus grandes momentos nos embates entre professor e aluno, cada um ao seu modo tentando extrair o melhor da bateria. O filme também pontua uma questão interessante: é preciso passar por uma espécie de “calvário musical” para se tornar um grande músico (mais especificamente de jazz, como é o caso do filme)? Barbada como ator coadjuvante, Simmons só perde se ocorreu uma lobotomização coletiva entre os membros da academia.

Sniper americano - Clint Eastwood é sem dúvida uma dos cineastas mais prolíficos em atividade. A média é de quase um filme por ano. Não é de se espantar que com uma quantidade absurda de filmes em tão pouco tempo a qualidade dos filmes caia. Foi o que aconteceu com esse filme. A história gira em torno do atirador de elite Chris Kyle (Bradley Cooper). Enviado para o Iraque após os ataques de 11/09 ele enfrenta diariamente dilemas como quem e quando deverá matar (incluindo crianças) e priorizar o exército/pátria em detrimento da família. O grande problema do filme é o roteiro, que ao intercalar os períodos “em casa” e “em campo de batalha” travam o filme de forma que nenhum deles engrena. Há também um tom ufanista demais no filme, mas nada que já não se tenha visto em outros filmes de Eastwood. O elenco tem atuações medianas. Não há realmente nenhum destaque. Acho que a academia sentiu falta de Eastwood nas últimas premiações e deu essa indicação só pra matar a saudade.

SELMA - O filme não é uma cinebiografia do líder negro Martin Luther King, mas sim captura um fato real ocorrido durante os anos de 1960, quando na cidade de Selma no Alabama, cidadãos negros eram proibidos de votar pelas autoridades locais, quando já havia uma lei federal que permitia o voto, embora fosse tão burocrática que impedia, na prática, o voto dos negros. Há uma tensão permanente mostrada nas conversas entre Luther King (David Oyetokunbo Oyelowo) e Lyndon Johnson (Tom Wilkinson). A tensão racial explode na primeira tentativa de fazer uma marcha entre Selma e Montgomery (distantes 75km). A cena do ataque das autoridades contra os negros desarmados é de um apuro visual único. Estranhamente, Tim Roth, que interpreta o governador do Alabama, George Wallace, não foi indicado a coadjuvante. Apesar do elenco muito bem entrosado deve sair de mãos vazias.

O GRANDE HOTEL BUDAPESTEÓtimo trabalho do sempre talentoso Anderson. Narrado em grande parte por flashbacks pelo antigo carregador de malas do hotel e hoje dono dele (F. Murray Abraham), a história gira em torno do Grande Hotel Budapeste (fictício) e as dificuldades e para mantê-lo ativo até hoje. O filme é narrado num tom de aventura, cheio de reviravoltas e mostra toda a astúcia utilizada pelo gerente do hotel (Ralph Finnes) para proporcionar o melhor aos clientes mesmo em tempos de guerra. Dono de um apuro visual espetacular deve levar sem maiores dificuldades o prêmio de direção de arte. Tem grandes chances também em fotografia e edição, mas dificilmente levará os prêmios principais.

Meus favoritos:

Melhor filme: Boyhood
Melhor diretor: Richard Linklater (Boyhood)
Melhor ator: Benedict  Cumberbatch (O jogo da imitação)
Melhor atriz: Não tenho favorita, pois só vi uma das indicadas.
Melhor ator coadjuvante: J. K. Simmons (Whiplash)
Melhor atriz coadjuvante: Patricia Arquette (Boyhood)
Melhor roteiro: Birdman
Melhor roteiro adaptado: O jogo da imitação


E você? Tem algum favorito? Mande sua lista nos comentários do blog.