sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Variações em 5/4 - NEW


A coluna “Variações em 5/4” está de volta e para esta primeira edição do ano, os nossos editores comentam “New”, o mais novo disco de Paul McCartney.

- Fernando Lucchesi:

Depois de um disco de standards do Jazz que marcaram sua vida, Paul McCartney resolveu que agora seria vez de algo mais contemporâneo e escalou para produzir o seu novo álbum, “New”, diversos produtores novos, entre eles Mark Ronson, produtor do aclamado “Back to Black”, de Amy Winehouse e Giles Martin, filho do produtor de 90% da discografia dos Beatles, George Martin. Esse amálgama de influências resultou em um disco com faixas bastante diferentes entre si, unidas unicamente pela habilidade de McCartney em conceber músicas melodiosas e baladas no violão. “Save Us”, faixa de abertura, poderia estar tranquilamente em um disco dos Strokes, tamanha a semelhança. “New”, faixa-título do álbum, traz reminiscências de “Got to Get to Into My Life”, mas ao invés dos potentes arranjos de metais, entram sintetizadores e guitarras ao lado de uma melodia daquelas que você pode passar o dia assobiando. “On May Way to Work”, “Early Days” e “ Hosanna” resgatam o Paul de baladas das épocas de Beatles e Wings. Apesar da diversidade de produtores a temática das letras é a mesma de sempre: amores novos ou passados, estes recheados de nostalgia. Não tenhamos ilusões: Paul McCartney não produzirá sua obra-prima agora, mas obteve um ótimo resultado ao fincar um pé no passado e outro, no presente.

- Giba Carvalho:
     
A moda está fora de moda.

É citando uma das frases do excelente disco do Ronnie Von (1968), que inicio minhas palavras sobre “New”, novo álbum de inéditas de Paul McCartney. Confesso não procurar opiniões alheias para basear meus textos, no entanto, a minha sensação ao escutar o disco pela primeira vez, foi de tanta incredulidade, que fui ver o que haviam escrito. Não demorou muito e encontrei o de sempre. Tentativas viajadas e comparações aos trabalhos que Paul McCartney fez nos Beatles. Afirmo – o disco não tem nada de Beatles, além do próprio Paul. Tá, tudo bem! O cara é uma sumidade do mundo musical e qualquer produtor gostaria de produzir um disco do ex-Beatle, mas, quatro produtores é demais! Participaram do disco – Mark Ronson (produtor do excelente “Back to Black” – Amy Winehouse), Paul Epworth (nome de muito destaque na atual cena inglesa. Produtor do Bloc Party e da fantasiosa crepuscular, Florence and The Machine. Tem como trabalho mais elogiado o álbum – “21” de Adele), Ethan Johns (produtor da banda que nunca decola – Kings of Leon e de Joe Cocker) e, finalmente, por Giles Martin (filho do lendário George Martin).

Não sei ao certo a real intenção do velho McCartney ao trazer tantas mentes diferentes para a produção do seu novo álbum. Podemos questionar que foi uma jogada para chocar o ramo com tamanha miscelânea? Podemos!  E foi justamente este mistério, que ainda fez com que ouvisse o trabalho novamente. McCartney, como em diversas outras vezes, fugiu do “feijão e arroz” habitual e se aventurou por novas terras. Para um cara como ele e com a identidade musical criada com os Beatles é meio que um tiro no pé. Não sou fã dos trabalhos pós-Beatles. Gosto apenas de dois discos e uma ou outra música pontual. E, é com a maior tranquilidade possível, que afirmo que “New”, parece mais uma “forçada de barra” do que um disco com tantas novidades assim. Das 12 músicas do álbum, apenas três chamaram a minha atenção. “Save Us”, que abre o disco e é uma boa música pop (embora não goste da semelhança com o Strokes), “On My Way To Work” por ter algo melodicamente interessante e a bela “Early Days”. Também é totalmente perceptível, que o álbum soa diferente de todos os trabalhos anteriores de Paul McCartney. Por este lado, enxergo mérito pela tentativa e, por outro lado, o conformismo habitual que vive a música mundial, notadamente o rock n´roll (com bandas altamente repetitivas). O “disco de retalhos” montado por ele é um trabalho que vaga numa linha bastante mediana e que não desperta a atenção do ouvinte, principalmente, por não possuir identidade.

- Dom Ângelo:

De uma coisa não podemos discordar: Paul McCartney tem uma absurda facilidade em criar melodias que se enquadram dentro do sistema musical temperado. Foi assim na sua carreira com os Beatles, onde foi dono de algumas das mais belas melodias da música do século XX e continuará, acredito eu, enquanto o próprio estiver vivo, com essa proeza genial.

Porém, sinto que a existência daquele fator cósmico, transcendental e imaterial que habita as grandes obras de arte, não existe mais na expressão musical do Paul. Aquela “coisinha” que faz você se arrepiar, no qual os indianos chamam de “sopro divino”, nele, não existe mais. Pelo menos não lhe manifestou em toda a sua carreira solo, muito menos no seu novo álbum, o “New”.

Mas uma coisa é certa: aquela bela habilidade em combinar notas com notas, façanhas da música europeia, sempre caminhará de mãos dadas com esse gênio maior da música pop. É de seu ofício. É de seu propósito. É do seu Dharma. Nisso, o velho Paul é bom e continua colocando todo mundo pra “balançar” com suas novas composições.

- Bruno Vitorino:

Parece-me que uma das funções mais nobres da figura do veterano é estabelecimento de laços com a juventude. Se por um lado a experiência oriunda de seus anos de prática, reflexões e descobertas provoca o tino dos que começam, por outro suas ideias costumam ser estimuladas pelo ímpeto desbravador que emana dos mais jovens. E se esse veterano for um mestre, a História nos diz que esses encontros deixam, não raramente, marcas profundas. Foi assim quando o renomado Handel acolheu, ainda que brevemente, o impetuoso Mozart. Foi assim quando o metódico Rimsky-Korsakov tutorou o inquieto Stravinsky. Foi assim quando Radamés Gnattali abrigou o inseguro Tom Jobim. A Música mudou. Apontou novos caminhos, desnudou paisagens não vistas, abriu horizontes incertos.

Paul McCartney certamente figura no panteão dos grandes. Não há muito que se discutir a respeito. Com sua produção, mais especificamente à época dos Beatles, ele foi um dos responsáveis por definir o que conhecemos hoje por música pop em todos os aspectos. Justamente por isso, todo e qualquer projeto em que se envolva gere expectativa e euforia, ainda mais, quando ele é anunciado na Grande Mídia como uma fuga da zona de conforto do sucesso e uma busca pelo inédito numa odisseia musical compartilhada com novos nomes. Assim me chegou “New”, o último trabalho de Paul. No entanto, o que se propunha ser um interessante diálogo entre a serenidade clarividente da experiência com o frescor audacioso da mocidade na busca incansável pelo novo, revela-se um constrangedor exercício da Síndrome de Peter Pan. É como se McCartney, depois de uma overdose de Arcade Fire, MGMT, Florence & The Machine e todo esse lixo descerebrado e inútil, virasse um rapaz de 25 anos de nossos dias: iPod em modo random, redes sociais a todo vapor, sobreposições de estímulos, pluralidade sem objetivo, tudo e nada, aqui e lugar nenhum. E toda essa confusão do que ser e de como ser se reflete na música apresentada no álbum: uma colagem pop desordenada, um pastiche gagá de uma juventude automatizada.

O que aproveitar, então, desse disco? Os sublimes momentos de silêncio entre uma faixa e outra.

- André Maranhão:

Apesar do nome, não vi muita coisa nova em New, exceto algumas tentativas de Paul McCartney em usar programações e samplers mais do que enfatizar o piano – coisa que ficou parecida com a fase do final dos anos noventa do U2 (em “All That You Can’t Leave Behind”), a qual não me agrada muito. “Appreciate” e “Looking at Her” são alguns exemplos disso.  Em alguns momentos, o álbum pode parecer longo de ouvir, principalmente nas faixas “Queenie Eye” e “New”. “Turned Ou” e “Everybody Out There”, não considerei muito inovadoras. “Get me Out of Here”, parecendo um summer rock, não chamou minha atenção. O meu destaque vai para a bela canção “Scared” (escondida no final do álbum) com Paul só ao piano; além de “Early Days” (balada de violão aberto, bem casada com a voz, parecendo Damien Rice), além de “Save Us” e “Road”, que me lembrou a dupla francesa Air, em “Playground Love”. Num segundo pelotão, coloco “Alligator”, “On My Way To Work” (com seus leves indianismos nos solos) e “Hosanna”.

domingo, 5 de janeiro de 2014

O Rei, o Kitsch e o Conformismo - Por Bruno Vitorino



Não olhe para baixo
Não olhe para baixo
Ou a fera abissal da não conformidade
Pode incutir alguma verdade desagradável
Em sua mente insensível

Thomas Haake


Quando Reginaldo Rossi morreu, a repercussão foi imensa. Nas redes sociais, lágrimas em html, hashtags pesarosos e lamentos de internautas que se sentiam acossados por um mundo injusto que os priva dos verdadeiros artistas, deixando-os desamparados, sem referência, sem imagens sacras para cultuar. Na grande mídia pernambucana, bairrista que só ela, não se falou em outra coisa: como a Música Popular Brasileira (assim mesmo com iniciais maiúsculas) perdeu com a morte desse grande ícone. O mundo - quiçá a galáxia! - não seria mais o mesmo sem esse recifense tão ilustre e inovador. Só que ou eu enlouqueci ou sou o único são nesse “sanatório geral”. Em que momento de sua carreira Reginaldo Rossi fez arte? O que é sua obra senão a degeneração do que um dia fora a música romântica da Era de Ouro do rádio? Onde foram parar as fronteiras estéticas as quais separavam o brega, uma música popularesca que versa de maneira rudimentar sobre o amor e suas intercorrências no cotidiano da grande massa, daquilo que se convencionou chamar de MPB, gênero estritamente ligado à classe média que sempre defendeu um suposto refinamento intelectual da cultura popular? Algo não batia.

Não pense o senhor que sou um filho da puta arrogante e frio incapaz de sentir qualquer compaixão pelo próximo. Longe de mim tal postura. Honestamente, lamentei pelo ser humano Reginaldo Rossi que sucumbiu a uma doença cruel como o câncer e que certamente deixou uma lacuna em seus familiares e amigos que só o tempo tornará mais suportável. Externo aqui minhas mais sinceras condolências. Com sua morte, perdeu-se um ídolo das multidões, partiu um entertainer dos maiores. Isso é inegável! Mas, daí a querer transformá-lo numa sumidade da cultura é forçar por demais os limites do bom senso e do juízo histórico do que se definiu por Arte (com “A” maiúsculo mesmo). Recuso-me a admitir que exista experiência artística numa música simplória que faz da cafagestagem, da mesa de bar e do “chifre” seu mote. É bom não esquecer que o brega é um estilo que nasce do contexto sócio-econômico-cultural extremamente precário que marca nosso país de contrastes. É uma manifestação cultural, no sentido antropológico, de uma vasta camada da população que fora deliberadamente excluída do processo civilizador – educação, saúde, moradia, cultura – pelos Donos do Poder e está destinada a cumprir um papel social de submissão no continnum da História. Ou você acha mesmo que um jovem entregador de água mineral tem as mesmas chances de um garoto que estuda no Damas? Portanto, aceitar Reginaldo Rossi como triunfo da Arte é, de certa forma, referendar toda essa condição humana de pobreza e anuir que essas pessoas continuem onde sempre estiveram. É se conformar com a realidade tal como ela se apresenta. Além do mais, do ponto de vista estritamente estético, se o “Rei” é considerado Arte, então sou obrigado a aceitar o funk como música de protesto e de contestação do status quo, concorda? Assim, Anitta é a nova Elis Regina e a majestade pernambucana do brega é um letrista do mesmo quilate que um Aldir Blanc. Ora, sejamos francos! Reginaldo Rossi é, na melhor das hipóteses, divertido. E é fundamental separar o prazer banal do entretenimento fácil da densidade transcendental do ofício artístico.

O fato é que Arte, no sentido tradicional do termo, é algo supérfluo nos tempos da cultura de massa que homogeneíza gostos, dilui os conceitos, elimina os debates e ratifica o transitório. Não há mais espaço para a experiência única, particular e íntima da arte contemplativa, que requer do público um olhar reflexivo, feita por um artista-artesão que procura comunicar uma realidade interna. O que temos hoje é o fluxo contínuo dos estímulos sensoriais (a jukebox no café, o WhatsApp na reunião de amigos, etc.), o culto à personalidade que substitui a antes imprescindível criatividade, o vazio dos conteúdos e a pobreza das formas, a crítica acéfala que endossa o tacanho, o cultivo de esteriótipos, a intensificada estilização da vida e, o mais sintomático, o delírio fantasioso de negação da realidade cada vez mais presente nas subculturas jovens. E é exatamente esse aspecto que eu enxergo no fenômeno Cafuçu: meninos nascidos em berço esplêndido que se travestem de cobradores de ônibus tanto no linguajar quanto na indumentária para desfrutar a ilusão do bom gentil. Obviamente que o Cafuçu não quer encarar a realidade dura, de chão batido, daquele que o inspirou: trabalhar oito horas por dia num subemprego, ganhar o mínimo para sobreviver, usar um péssimo transporte público, fazer das tripas coração para criar seus filhos, morar num casebre em um bairro violento da periferia e encontrar uma breve paz de espírito num copo de conhaque de alcatrão. Não! Ele quer andar em sua bicicleta dobrável importada, chegar a seu apartamento na área nobre da cidade, ter comida na mesa servida pela empregada doméstica, usar seu iMac para acessar o facebook e que Papai lhe dê aquela tão sonhada viagem a Nova Iorque para que ele tenha o que falar na próxima ida ao Bar Central. Uma juventude chapa branca, conformista, especializada em arranhar superfície, que negligencia sua mais importante função: questionar! Algo bem distante daquela “juventude que não corre da raia a troco de nada” de outrora. Agora só o “verniz” importa.

Entendidas todas essas questões, é possível compreender como Reginaldo Rossi transpôs a condição de ídolo marginal do “povão” para se consagrar um dos sumos pontífices da alta cultura brasileira. Ele não foi reconhecido por sua grandeza e importância para essa camada da população. Ele foi cooptado pela sistemática lucrativa do kitsch, ressignificado como um ícone cult pelos setores da sociedade que definem o que é ou não digno de nota - os chamados formadores de opinião – e posto à venda como um artigo de luxo não mais para os personagens de sua música, mas para os moradores de imóveis de alto padrão. Tudo é deslocado no mundo Pós-Moderno e é fundamental enxergar todas essas camadas heterogêneas que se sobrepõem. Portanto, meu querido, não se deixe levar pelo “efeito manada” promovido pela imprensa e, ao menos, problematize o processo que criou o mito Reginaldo Rossi e pôs o brega no mais elevado patamar da manifestação humana. Cometa o mais mortal dos delitos contemporâneos: pense!

domingo, 24 de novembro de 2013

O Labirinto Polimétrico do Meshuggah - Por Bruno Vitorino


Por definição, o labirinto é uma estrutura arquitetônica feita para desnortear. Seus emaranhados caminhos levam a pessoa que se aventurou por percorrê-los a investigações minuciosas sobre a probabilidade em sua jornada na busca por um sentido. Contudo, a exposição contínua a padrões sobrepostos, assimétricos e sem a menor indicação de lugar resulta na perda absoluta do senso de direção. O indivíduo é, então, privado da noção geométrica do Espaço e lançado num limbo onde só existe a reverberação mecânica do Tempo a se desdobrar em si. Transpondo para a música esse conceito labiríntico, a banda Meshuggah urde uma complexa trama sonora combinando o peso do thrash metal com o cerebral encadeamento de angulosas séries rítmicas e letras de forte crítica aos mecanismos de controle e discursos de poder do mundo pós-moderno que impõem rédeas ao homem contemporâneo, privando-o da pluralidade do Eu. O resultado é uma música lancinante, mas de uma audácia estética singular.

Formado em Umeå, Suécia, em 1987, o Meshuggah ganhou notoriedade na cena metaleira internacional com seu segundo disco: “Destroy, Erase, Improve” (1995). Impregnado de uma agressividade corrosiva, o disco registra o trabalho do quinteto com ciclos rítmicos irregulares, ostinatos acentuando a região grave (eles tocam guitarras de 8 cordas), padrões polimétricos intrincados que, executados com uma precisão técnica virtuosística, vão envolvendo o ouvinte a cada tema com o asfixiante abraço da não-referência. À primeira audição do disco, tem-se a sensação de ser subitamente jogado num mundo desconhecido, hostil e de ar rarefeito. Não tem alisado, é porrada sem concessões! Na sequência, veio o excelente álbum “Chaosphere” (1998) que aprofundou as concepções estéticas abertas por seu antecessor e consolidou a banda como uma das mais interessantes do cenário heavy metal da atualidade, e “ObZen” (2008), a obra-prima do grupo, levou a criptografia rítmica ao ápice do rebuscamento. “Amplis, amplius! Sempre mais longe”.

O mais interessante de tudo isso é que o Meshuggah sempre gerou controvérsias dentro do universo metal. Ao subverter a trilha comum das guitarras velozes, dos compassos em 4/4 e das melodias cantaroláveis estabelecida por grupos como Iron Maiden, Metallica e Megadeth, a banda criou um universo perturbador e inteiramente novo que não soa palatável aos ouvidos mais bitolados. Justamente por renegar a cartilha da tradição, o quinteto sueco sempre enfrentou muita resistência dos puristas do gênero que viam em sua música uma mecanização inumana, robótica. No entanto, o que os detratores parecem não enxergar é que sua produção advém de muito estudo, de exaustiva reflexão e – o mais importante – da busca por novos direcionamentos expressivos, mais adequados à liquidez da realidade que hoje se apresenta. É impossível não perceber na obra do grupo reminiscências de Igor Stravinsky, que inverteu a lógica clássica da estruturação musical ao pôr o ritmo, e não a melodia, no cerne do desenvolvimento composicional, bem como da vanguarda jazzística em suas experimentações com o pulso variável. Ao insuflar essas abordagens no metal, o Meshuggah revolucionou o gênero. E, no último sábado (16/11), eu pude testemunhar ao vivo toda essa grandiosidade.

Após de anos de espera, a banda sueca finalmente aterrissou no Brasil em sua primeira turnê latino-americana que passou pelo México, enveredou pelo Chile e Argentina até, enfim, chegar a São Paulo. O foco das apresentações era o seu último disco, “Koloss” (2012), que pode ser considerado o registro mais reflexivo, digamos assim, do Meshuggah. No lugar da agressividade vocal exacerbada e da bateria a enfatizar todas as arestas dos padrões desenhados pelas cordas, surgem uma fúria contida e ciclos polimétricos maiores e contemplativos que, apesar de bastante assimétricos, não chegam a apagar a noção de tempo, apontando os vetores mais para o chão do que ao éter. Ficou mais fácil bater cabeça.

A apresentação aconteceu na casa de show Carioca Club, um espaço conhecido na cidade por abrigar eventos do chamado de “pagode romântico”, que nada mais é senão um eufemismo para o chorume produzido no processo de decomposição mercadológica do samba. Porém, contrariando a lógica, o local escolhido não poderia ser mais adequado: mediano, refrigerado, limpo, com um excelente serviço e um primoroso equipamento de som e iluminação. Organização impecável! Imediatamente lembrei-me das agruras que enfrentei num passado não tão distante nos “sábados de rock pesado” do Abril pro Rock. Senti um calafrio e um imediato alívio ao constatar que era apenas um trauma mau curado de minha adolescência. Nesse ambiente acolhedor, eu conseguiria voltar toda a minha atenção para o palco.

Uma pequena figura em tercinas, que recebia aqui e acolá chapiscos de acentuação rítmica da bateria, ecoava. Sob ela, o bombo fincava um padrão quaternário que acrescentava textura ao esquema, preparando o terreno para mais a frente acomodar a monumental edificação polirrítmica que se modificava internamente com o seu desenvolvimento, intercambiando entre si suas camadas feito engrenagens: “Swarm” abria o concerto. Em seguida, o Meshuggah emendou com a alucinante “Combustion” e seu motivo quaternário picotado apresentado pela guitarra, transpassado pela contagem enviesada da bateria que descambava, após uma seção de hard core moderado, num caleidoscópio rítmico de binários, ternários e suas combinações.

Eu estava pasmo! Era impressionante ver os cabras em ação, tão à vontade com essas estruturas extremamente complexas. A guitarra base de Mårten Hagström erguendo e mantendo os alicerces temáticos; a habilidade de Frederik Thordendal em improvisar tranquilamente nas situações rítmicas mais adversas e ainda acrescentar-lhes tensão e adornos melódicos; as inabaláveis linhas do baixo de Dick Lövgren; a segurança e a firmeza no canto gutural de Jens Kidman e, principalmente, a presença sobrenatural da bateria de Tomas Haake que tocava simultaneamente padrões independentes no bombo, caixa e pratos: tudo estava lá, acontecendo diante de meus olhos! A apresentação seguiu, e vieram outras pedradas não menos atordoantes como “The Hurt That Finds You First”, “Demiurge”, “Bleed”, “Dancers to a Discordant System”, “I Am Colossus”, “Do Not Look Down” e mais algumas outras músicas dos dois últimos trabalhos da banda. Ao final, atendendo ao pedido do público, os suecos fecharam a conta com a devastadora “Future Breed Machine” purificando a alma dos headbangers na roda de pogo, num momento de pura catarse digna de um ritual pagão de uma tribo bárbara.

Chovia. A música que acabara de ouvir reverberava em minha cabeça. Seus ciclos chocavam-se, fundiam-se, enraizavam-se em minha memória. Fitando o infinito pela janela do táxi, eu refletia sobre o cada vez mais raro fenômeno da criação artística. Pensava em como a repetição de fórmulas se mostra hoje tão lucrativa para o establishment da indústria cultural no seu sórdido negócio de vender o conformismo estético para uma massa amorfa, passiva, preocupada estritamente com o divertimento instantâneo e banal, reduzindo a arte a mero cosmético. Mas a experiência pelo qual eu acabava de passar me fez crer que há ainda os que investem contra essa lógica, atuando no subterrâneo do mercado onde habitam resquícios dos velhos ideais da construção artística: o caráter reflexivo da experiência estética, a integridade do artista ante as estruturas formais de comércio da arte, o domínio técnico dos meios de expressão simbólica, a procura pela expansão da linguagem. Nesse sentido, o Meshuggah atua como um desfibrilador que tenta reanimar um corpo em estado letárgico. Depois de pensar nisso tudo, só me restou dizer: louvados sejam os que ousam!

domingo, 3 de novembro de 2013

O Resto é Mise-en-scéne! - por Giba Carvalho

    


A música brasileira vem apresentando um fenômeno diferenciado nos últimos tempos: a capacidade de autocopiar-se. No início do ano passado, fiquei atônito ao saber que os "cultuados" rapazes do Mombojó iriam lançar um disco com releituras dos "maiores sucessos" da "grandiosa" carreira de três discos. Isto já me deixou com a famosa pulga atrás da orelha. O primeiro disco da banda, intitulado "Nadadenovo", é audível e proporcionou aos rapazes o perigoso (e agora comum) status de "inovadores da cena musical". Depois deste disco, eu questiono aos leitores deste blog - "O que virou o Mombojó?" Na minha opinião, um emaranhado de agonia ao tentar mostrar algo diferenciado, que sacramentou toda banalidade dos trabalhos pós-primeiro álbum, com este compilado de aniversário. Aquela velha história - "já que não temos Nadedenovo, vamos enganar os trouxas com Tudodovelho".

Passado algum tempo, eis que surge em 2013 "Mundo Livre S/A vs Nação Zumbi". Um duelo entre as duas bandas que foram pedra fundamental para o Movimento Mangue Beat. Esta é uma idéia utilizada nos EUA, no fim dos anos 90, por bandas de punk e hardcore. Como costumo ouvir bastante bandas do estilo, ressalto a famosa "BYO SPLIT SERIES", iniciada em 99 e dividida em 5 volumes. O formato era um disco de vinil, onde cada banda tocava 6 músicas da outra em cada lado (Álbum Split). Para aqueles que pensam que os caranguejos pernambucanos inovaram com este duelo enlameado de sucessos do passado, afirmo que já no ano passado foi lançado outro álbum intitulado "O embate do século - Ultraje a Rigor vs Raimundos". Confesso que gosto da idéia destes "álbuns split", desde que os mesmos sejam meio e não apenas mais uma tentativa de manter-se vivo no mercado. A Nação Zumbi, como única banda de primeira grandeza de Pernambuco desde que o  Movimento Mangue-Beat foi criado, não precisa disso. Ao procurar algo para ler sobre este trabalho encontro o seguinte - "O encontro no disco 'Mundo Livre S/A vs Nação Zumbi', em que um toca as músicas do outro, é mais do que uma celebração do movimento e das suas canções. É um exercício dos mais interessantes, feito por duas bandas bem diferentes, no topo de sua forma artística."

É este tipo de conveniência que não aceito. Afirmar que ambas estão no "topo da forma artística" é uma piada de pura "brodagem". A Nação Zumbi, mesmo conseguindo manter-se no primeiro escalão, jamais conseguirá chegar perto da grandeza do que foi com Chico Science. Até porque, desde o excelente álbum de 2002, alterna trabalhos irregulares e um monte de lançamentos no formato "ao vivo". Promessa de disco novo na praça em 2014, após 6 anos de ausência. Já o Mundo Livre S/A é um caso à parte. A banda vive completamente de passado e da postura "comuna-intelectual" do "ilustre caranguejo" Fred 04. (Apesar de ter lançado trabalho próprio há menos tempo que a Nação Zumbi.)

Para completar o time, eis que me deparo com a seguinte manchete nesta semana - "Mallu Magalhães é encantadora - diz jornal The New York Times". Fiquei curioso e fui ler as reportagens por inteiro. Concordo que uma crítica no jornal americano deixaria qualquer jovem com muito orgulho de seu trabalho. No entanto, percebi claramente que não passa de mais uma jogada de produtores. Estes lançaram um álbum por lá intitulado "Highly Sensitive". O álbum nada mais é do que outro compilado das músicas dos três primeiros discos da garota cantadas em inglês. Ouvi o último álbum da moça diversas vezes. "Pitanga" (2011) é um álbum muito bem produzido e extremamente bem gravado. Kassin e Marcelo Camelo acertam em cheio nos arranjos que a garota precisa para desfilar toda a infantilidade (ainda?) e sua voz extremamente semitonada. Por falar nisso, a matéria acerta em cheio quando afirma que a mocinha não se preocupa com "o tom" e erra terrivelmente quando vê isto como algo positivo. Afirmo isto, porque com os aparatos que existem hoje em dia nos estúdios, qualquer "Mané" canta e qualquer "Maria" vira fenômeno. Agora, na hora da febre do ao vivo, é que podemos perceber do que de fato um artista é capaz. Voltando a pauta principal do texto, percebemos que estas jogadas estão se tornando cada vez mais usuais dentro do mercado. Neste caso em específico, porque Mallu Magalhães tem 21 anos, três álbuns e a vida toda pela frente. Inclusive, para aprender a cantar. 

O que nós fazemos? Apostamos em talentos não tão talentosos? Perpetuamos semi-Deuses criados por nós mesmos? Regredimos a arroubos juvenis para achar qualidade e graça na música?

As respostas para estas peguntas não são nada fáceis. Ache as respostas dentro dos ouvidos, de preferência, dando a verdadeira relevância ao que merece ser ouvido. O resto é mise-en-scéne!

Versão do disco - Pitanga (2011):



Versão ao vivo no Rock in Rio (2013):


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Vivendo o Porto: A Tasca do Guedes - por Dom Angelo

 

Para quem realmente aprecia uma boa bebedeira entre amigos, não existe lugar melhor que um boteco. Se o local for antigo, modesto e barato, melhor ainda. Ao mesmo tempo em que o ambiente é envolvido pelos ares da energia instável do álcool, percebemos uma sensação relaxante e de aconchego, considerando o gole na cerveja, a comida rudimentar, a conversa afiada e a celebração da amizade como o verdadeiro e o único objetivo de ali estar.
Ok. Um fuga da realidade? Talvez sim, talvez não.
Em Portugal, esses locais levam o nome de Tasca. Segundo o dicionário Priberam (http://www.priberam.pt/dlpo/), a palavra significa “estabelecimento modesto que vende bebidas e refeições”. Por aqui encontramos tascas centenárias, muitas vezes subterrâneas, com paredes de pedra e azuleijos, mobília rústica e comida tradicional.
Às sextas ou sábados, o primeiro local que frequento antes de uma noite de diversão é a Tasca do Guedes. Ou simplesmente Casa Guedes. Localizada na praça dos Poveiros, essa tasca serve o melhor sanduíche de pernil do mundo. O estabelecimento tem apenas 4 mesas na parte de dentro, apesar de nas épocas mais “quentes” eles oferecerem mesas ao lado de fora do bar, mesmo em frente ao Jardim de São Lázaro.
Além da “sandes de pernil”, as especialidades do Guedes são as papas de sarrabulho, moelas, sopa de caldo verde e os queijos e frios regionais, tudo isso acompanhado de um bom frisante rosé, um vinho verde ou da velha cervejinha. Porém não se incomode de não arranjar uma mesa. Provavelmente vai acontecer. O Guedes vive cheio, muitas vezes com filas grandes para se fazer o pedido no balcão. Mas como a idéia é começar a farra de bucho forrado, o que vale mesmo é comer no balcão ou em pé, tomar a garrafa de vinho e sair pra noitada!
 

sábado, 26 de outubro de 2013

Black Sabbath: Tradição e Reverência - Por Fernando Lucchesi






Sempre que me lembro de algo relacionado com Heavy Metal, a primeira cena que me vem à cabeça é um diálogo que tive com um primo mais velho, fã do gênero. Tinha por volta de 7 anos quando comecei a prestar atenção nos seus discos de vinil, a grande maioria de bandas de metal com capas e mais capas de fotos de demônios e de cenas sombrias e assustadoras. Virei-me para ele e perguntei: “Como tu pode gostar dessa doideira toda?”. Ele pensou um pouco e me respondeu: “Daqui a alguns anos você é quem estará gostando e você saberá o porquê”. Fiquei com aquilo na cabeça achando que meu primo era mais doido do que imaginava.

Meu primo estava certo em parte. Não sou o maior entusiasta, mas sempre tive admiração pelas bandas responsáveis pelos alicerces do estilo. Das três bandas consideradas as mais influentes (junto com Led Zeppelin e Deep Purple), o Black Sabbath foi a última que capturou minha atenção. Hoje posso falar que, sem dúvida, ela é a que mais influenciou e moldou o Metal como o conhecemos hoje.
          
Exatamente no dia 13/10/2013 tive a oportunidade de confirmar a razão da veneração de muitos (inclusive a minha) pelo Sabbath. A apoteose, normalmente lembrada pelo desfile de escolas de samba, estava tomada por um mar de camisetas pretas. Gente de várias idades, cidades e sotaques diferentes. Todas ali para observar e reverenciar aqueles senhores, mas que quando jovens ousaram e criaram um som novo, sombrio e por vezes macabro. Em sua primeira passagem pelo Brasil com a formação 75% original (a única ausência foi o baterista Bill Ward) a banda despejou clássicos e músicas do seu mais recente disco “13” (um disco que possui muitos elementos dos primeiros discos da banda).

A banda abriu o show com a clássica “War Pigs” do álbum “Paranoid”. A música não podia ser mais atual, uma vez que os “senhores da guerra” continuam enviando jovens para um verdadeiro abatedouro chamado de “guerra” sempre com a desculpa da preservação da paz. Em seguida, Ozzy e companhia convidam os espectadores a imergir no seu som característico com a sinistra e pesada “Into the void”. Tentando entremear os clássicos do início da banda com músicas do mais recente disco, a banda provocou reações adversas no público. Os clássicos como “Snowblind” e a tríade do primeiro disco (“Black Sabbath”, “N.I.B”. e “Behind the wall of sleep”) causaram empolgação e reverência. Entre elas, uma deslocada “Age of reason” do disco novo causou mais letargia do que excitação e o público apenas “observou” a música. Analisando a reação do público às músicas novas, a única que a platéia contou em uníssono foi o primeiro single do álbum “13”, “Gos is dead”. A já citada “Age of reason” e “End of the beginning” (uma variação em cima da música “Black Sabbath”, do disco homônimo) serviram apenas para serem apresentadas ao público.

Seguiram-se então mais três músicas de um mesmo disco (“Fairies wear boots”, “Rat salad” e “Iron man”) do clássico “Paranoid” (o maior sucesso comercial da banda). O ato final do show reservaria mais dois clássicos do Sabbath: “Children of the grave” e “Paranoid”. Essa última, talvez numa sutil ironia, inicia-se com o riff de outro grande sucesso do Sabbath, “Sabbath bloody Sabbath”, do álbum homônimo. A ironia deve-se ao fato da referida música não ser executada em sua totalidade, pois é evidente que Ozzy não tem mais condições de, sequer, cantar razoavelmente a música.       

Espero, sinceramente, que tenhamos mais uma oportunidade de vermos esses senhores aqui no Brasil, pois cada apresentação deles é uma verdadeira aula de Rock n´roll/ Heavy Metal.

Sobre os músicos:

Ozzy: Compensou perfeitamente a notória desafinação com um carisma/simpatia invejável. Concordo com muitos amigos, que entendem muito mais de Heavy metal do que eu, que Ronnie James Dio era melhor vocalista que Ozzy (pelo menos no aspecto técnico). Mas, para mim, o som do Sabbath está intrinsecamente ligado à voz de Ozzy.

Tony Iommi: A despeito do tratamento que vem fazendo contra um linfoma, estava seguro e aparentava tranquilidade enquanto desfilava sua inesgotável quantidade de riffs geniais. Definitivamente o maior responsável pela sonoridade do heavy metal.

Gezzer Buttler: Excelente na execução do seu instrumento. Teve seu grande momento, como não poderia deixar de ser, na execução da abertura de “N.I.B” com seu solo de baixo.

Tommy Clufetos: “Soltou a mão” sem pena. Substituiu com sobras Bill Ward.


Observações sobre o show:

  • Como pude assistir ao show atrás da área reservadas aos deficientes, pude constatar o respeito àqueles que realmente necessitam daquela área. A utilização do banheiro reservado a eles não era permitida nem mesmo à produção do show.
  • Apesar do preço extorsivo por uma lata de cerveja (R$ 8,00) a infra-estrutura estava muito boa.
  • O som estava literalmente “no talo”. Altíssimo e de excelente qualidade. Soube que em SP houve problemas para quem estava mais distante do palco, pois o local do show era um campo aberto.
  • Continuo sem entender muito bem porque alguns fãs continuam achando que o Black Sabbath faz uma ode ao capeta (a despeito de algumas poucas letras falarem abertamente em Lúcifer). Estava eu lá tranqüilo na minha, quando se aproximou um elemento tocando “air guitar” e nos intervalos do seu “show” particular, ele gritava “Viva Satanás”! Atribuí isso a três fatores: o nível etílico, o desconhecimento da língua inglesa ou a algum problema de audição. Ozzy passou a noite INTEIRA falando “God Bless you” (Deus os abençoe). Portanto, gritar “Viva Satanás” parece tão coerente quanto gritar “Viva Xuxa” durante o show.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Religiosa - por André Maranhão Santos





A mais recente adaptação de A Religiosa, assinada pelo diretor e roteirista Gillaume Nicloux difere da versão Nouvelle Vague de Jacques Rivette – censurada pelo governo francês dos anos sessenta. E um dos pontos diferenciadores entre ambas as versões se dá em como os ideais de liberdade e luta pelos direitos humanos aparecem na versão de Nicloux, além dos seus paralelos com a filosofia iluminista, já que tal filme deriva do roman-mémoires La Religieuse de Denis Diderot, publicado no final do século XVIII e que se baseia no caso de Margueritte Delamarre, uma jovem francesa que lutou para sair da vida monástica num período contemporâneo à vida de Diderot.

Em A Religiosa, Suzanne Simonin é a personagem principal; uma garota que entra para um convento sem o desejar, passando por humilhações, assédios morais, sexuais, além de discriminações, somados ao seu desejo de abandonar o hábito de freira. Suzanne é interpretada de maneira notável pela atriz belga Pauline Étienne, que aparece escudada pela grande Isabelle Hupert e por Martina Gedeck (bastante famosa após A Vida dos Outros e que sendo alemã protagoniza o filme em francês, mantendo a forte tradição de atrizes europeias poliglotas).

Especialmente, há uma importante contribuição para mim em A Religiosa: tal qual Ligações Perigosas – filme de 1988, adaptado do livro de Chordelos de Laclos, estrelado por Glenn Close, Michelle Pfeiffer e John Malkovich – os ambientes mais recônditos da vida privada apontam para os jogos de poder, a sedução, a manipulação em pleno cotidiano e mentalidades do mundo francês do século XVIII. A Religiosa também se articula com outros filmes tais como O Nome da Rosa (adaptado do romance de Umberto Eco, dirigido por Jean-Jacques Annaud, estrelado por Sean Connery e tendo Jacques LeGoff como consultor histórico) e Dúvida (de John Patrick Shanley) com Meryl Streep, Phillip Seymour Hoffman e Amy Adams no elenco, por se tratarem produções que explicitam os abusos recorrentes ao longo da instituição religiosa no Ocidente e apontam para a emergência das leis como instrumentos fiscais contra as arbitrariedades empreendidas em lugares sagrados e mais restritos.

Num pensamento iluminista consonante, outro filósofo como Voltaire via nas benesses que alguns governos concediam à estrutura política da Igreja uma série de perigos e violações à Humanidade. O filósofo defendia a oração não como dominação ou despotismo, mas como algo em profundo diálogo com o papel fiscalizador do Direito Civil. “O magistrado deve apoiar e conter o sacerdote, da mesma forma que o pai de família deve mostrar consideração para com o preceptor de seus filhos e impedir que abuse deles”, assim o enfatizou em seu Dicionário Filosófico.

Também é sabido do papel estratégico que a vida feminina dos conventos proporcionou à economia dos bens masculinos e às relações de poder entre os gêneros. Evitar o casamento de certas filhas para não repartir o latifúndio na forma de herança, ou se valer dos espaços clericais para efetuar um processo civilizador sobre a figura feminina – naquela que sabe os seus lugares e limites e não contraria a autoridade da figura masculina – eis aqui exemplos cruciais do interesse patriarcal por via da domesticação religiosa. Embora a Coroa de Portugal nem sempre mostrasse favorecimentos à criação de novos espaços de reclusão para a entrada de mulheres na vida monástica (já que via no aumento do número de mulheres celibatárias um risco para o crescimento populacional de uma colônia como o Brasil) a monarquia lusitana quase sempre encorajou as casas de recolhimento em solo brasileiro. No século XVII, já havia conventos na Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, tendo este número se multiplicado em outras localidades como Pernambuco, Maranhão, Minas Gerais e na Região Sul, tanto na forma de conventos quanto nas casas de recolhimento. Em Trópico dos Pecados, Ronaldo Vainfas argumenta que essas casas também estipulavam diversas restrições às mulheres, preferindo, inclusive, moças brancas e de famílias abastadas. As casas de recolhimento também atuavam enquanto recebedoras de mulheres casadas durante a ausência dos seus respectivos maridos, retiros espirituais de viúvas e correção de condutas femininas “indevidas”.

O que pretendo aqui não é desqualificar ou negar a existência da vocação na vida monástica e na reclusão, mas atentar para a importância do exercício histórico / democrático que o filme A Religiosa pode estimular em conjunto ao significativo valor que o pensamento iluminista pode elucubrar num contexto como o de Diderot. Por outro lado, a Razão não precisa atuar como a legítima redenção do Ser, já que na própria época de La Religieuse, alguém como Kant foi capaz de frisar que vivia na “era do Iluminismo” no lugar de viver numa época de pleno esclarecimento. Mas o filme que inspirou esta postagem pode reavivar o debate sobre o direito à fé, o lugar, a filiação e as formas da vida religiosa, e analogamente à personagem Suzanne - que desejou abandonar a vida monástica para professar sua fé sob outros modos - no mundo contemporâneo, a Democracia deve garantir o direito de uma islâmica usar um hijab, como também de ampará-la caso não queira usá-lo ou deseje parar de usá-lo.

Devo finalizar com uma lição sobre a fé que aprendi num livro de Walter Benjamin, intitulado A Origem do Drama Trágico Alemão, onde aquele filósofo, judeu, esotérico e fugitivo do Holocausto cita a seguinte alegoria: “Santa Teresa vê, numa alucinação, a Virgem esparzindo rosas sobre a sua cama, e conta a visão ao seu confessor ‘Eu não vejo nenhumas’, responde este. ‘Claro, a Virgem trouxe-as para mim’, é a resposta da santa”. Cada vez que eu releio, me conforto com este depoimento, pois semelhante a Benjamin, consigo acreditar que há um gesto radicalmente sensorial quando Cristo é deslocado para o plano do provisório, do cotidiano e do precário. No filme A Religiosa, a personagem Suzanne Simonin parece alimentar esta linha de raciocínio, ao ver que Deus se faz através de um prisma ético que antecede as instituições e que na fé religiosa pode residir uma via de contestação, de luta e de renovação da liberdade humana.