terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Quando Há Arte (Segundo Nelson Goodman)? - Por André Maranhão



Há muito tempo que uma parte da Filosofia se esforça em definir as coisas do Mundo a partir da Lógica. Se um pensador como Aristóteles (384-322 a.C) já se ocupara em explicar logicamente “o que é o Homem”; outros nomes como Avicena (980-1037) e Tomás de Aquino (1225-1274) foram capazes de escrever alguns tratados para provar que toda substância do Universo provém de uma causa: Deus; por sua vez, o único ser perfeito que não necessita de uma causa para existir. De lá pra cá, a Lógica se estabeleceu como uma forte tradição filosófica capaz de abordar diversos temas, e, portanto, era mais do que esperado que a Arte se tornasse um objeto de debate entre os pensadores lógicos.

O pensamento lógico se fortaleceu amplamente numa tradição anglo-americana da Filosofia (sobretudo no Reino Unido e Estados Unidos) conhecida como Positivismo Lógico ou Filosofia Analítica. Já no século XX, um dos autores mais preocupados em problematizar a Arte a partir de algumas bases lógicas foi Nelson Goodman (1906-1998), cujos estudos abordaram várias linguagens da arte e símbolos diferentes – letras, palavras, textos, imagens, diagramas, mapas, modelos e muito mais (GOODMAN, 2006, p. 9). Obviamente, Goodman reconhecia que nem tudo que é simbolizado está fora do símbolo. Porém, não apenas as obras que representam a natureza ou que remetam a algo pitoresco e figurativo são simbólicas. Uma pintura abstrata, por exemplo, pode expressar e simbolizar sentimentos, emoções ou ideias esteticamente válidos. Ora, tal afirmação levou Goodman a perceber que a própria tentativa de separar o que interno do que é externo em uma obra de arte é algo notoriamente confuso; tão confuso como tentar separar os ingredientes de um bolo depois que este bolo já está pronto!

Mas talvez, uma dos problemas mais polêmicos (e não menos interessantes) levantados por Goodman diz respeito à definição de Arte, afinal, o que é Arte? Seria a simples definição daquilo que o artista diz ter criado; do que alguns doutos mais elitistas julgam ser uma “boa arte”; ou o fato de algum objeto ser exposto numa galeria? De acordo com Goodman, nenhuma dessas justificativas é suficientemente forte para definir o que é Arte porque, logicamente, qualquer definição de arte é incompleta. Neste sentido, a pergunta mais proveitosa a ser feita não é “o que é arte?”, mas “quando há arte?” – em outros termos – quando um objeto é ou está sob a condição de obra de arte?

Para estimular ainda mais algumas reflexões sobre o tema, gostaria de encerrar com alguns fragmentos e exemplos escritos de Goodman:

“A pedra normalmente não é uma obra de arte quando está no caminho, mas pode sê-lo quando é exibida num museu de arte (...). Por outro lado, uma pintura de Rembrandt pode deixar de funcionar como uma obra de arte quando é usada para substituir uma janela partida ou como uma cobertura (...). As coisas funcionam como obras de arte apenas quando o seu funcionamento simbólico tem certas características (...). A pintura de Rembrandt permanece uma obra de arte, tal como permanece uma pintura, quando funciona apenas como cobertura; e a pedra do caminho pode não se tornar estritamente arte por funcionar como arte. Analogamente, uma cadeira continua a ser uma cadeira ainda que ninguém se sente nela, e um caixote continua a ser um caixote ainda que nunca seja usado senão para nos sentarmos em cima dele. Dizer o que a arte faz não é dizer o que a arte é, mas considero que o primeiro aspecto é que tem importância primária e peculiar (...) passei a dar atenção ao que a arte faz, em detrimento da questão de saber o que é arte (...). Um objeto pode simbolizar coisas diferentes em momentos diferentes, e nada noutros momentos (...). Em vez de a arte ser perene e a vida curta, talvez ambas sejam transitórias” (2007, p. 130-133).

REFERÊNCIAS

GOODMAN, N (2006). Linguagens da arte: uma abordagem a uma teoria dos símbolos. Lisboa: Gradiva.

_____ (2007). Quando há arte? In D’OREY, C (org). O que é arte?: a perspectiva analítica. Lisboa: Dinalivro, pp. 119-133.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Everything Will Be Alright in the End - Por Giba Carvalho




Desculpem, pessoal, não percebi que precisava tanto de vocês
Eu achei que conseguiria atingir um novo público
Esqueci que música disco é um saco
Acabei sem ninguém e comecei a me sentir mal
Talvez eu deva tocar a guitarra solo
E Pat tocar bateria

Me leve de volta, de volta para a cabana
De volta para a Stratocaster com correia de raio
Chutar a porta, mais hardcore
Fazendo rock como se fosse 1994


É com este pedido de desculpas aos fãs, que o Weezer ressurge após 13 anos de experiências de irrelevância absoluta com sua própria música. Obviamente que não podemos esperar um “milagre” dos “rock-nerds”, mas “Everything Will Be Alright in the End” traz o grupo de volta aos bons discos. E isto é de suma importância num mundo onde as famigeradas “playlists” e os “singles” reinam em absoluto.

Parecendo compreender o rumo que a carreira da banda estava tomando, Rivers Cuomo (líder, guitarrista e principal compositor da banda) não poupou nomes em parceria para o processo de composição do novo trabalho. E, por mais que estes nomes soem estranhos para os fãs de qualquer vertente rock, o resultado foi bastante satisfatório. Em “Back to the Shack” (primeiro single do álbum) temos a mão de Jacob Kasher, parceiro de Kylie Minogue. É logo no primeiro single do disco que percebemos claramente que os bons tempos voltaram. Guitarras pesadas e marcadas relembram o “Green Album” (2001) e temos a explicação: o novo trabalho é produzido por Ric Ocasek que trabalhou com o Weezer no álbum supracitado e no “Blue Album” (1994). Parceiro de artistas deletérios tais como – t.A.t.U, Demi Lovato e Paris Hilton (existem adjetivos mais apropriados do que artista para defini-la), Josh Alexander aparece em duas canções do disco – “Lonely Girl” – que é praticamente uma volta ao início do grupo (mais do mesmo) e “Da Vinci” – que possui um arranjo extremamente confuso, muito embora grude “terrivelmente” na cabeça.

Dando continuidade as parcerias, faço uma pergunta aos leitores do blog: “alguém lembra aqui daquela banda pavorosa de ‘metal arriação’ chamada The Darkness?” Pois bem, a música que tem tudo para cair nas graças do público é – “I´ve Had It Up to Here”, justamente a parceria com Justin Hawkins, vocalista e guitarrista deste falecido grupo. Esta canção traz novamente à tona a competência que o Weezer possui de mesclar aquele rock “farofinha” com indie pop “algodão doce”. Na busca por diversificação ou inspiração em outrora, encontramos mais duas parcerias de qualidade neste trabalho. “Go Away” que foi composta e cantada por Bethany Cosentino do duo californiano - Best Coast, é o clássico indie pop de qualidade, com nível de sacarose elevado e sem firulinhas. Além do pop vigoroso de “Eulogy for a Rock Band” (a minha preferida) em parceria com a banda OZMA.

O lado compositor solitário de Cuomo também foi explorado. “Ain´t Got Nobody”, que abre o disco, inicia misteriosa, contida e termina numa explosão imensa (nada de novo se analisarmos vários outros álbuns lançados no decorrer de 2014), “Foolish Father” que é o acerto de contas entre o vocalista e o pai e a trilogia final – “The Waste Land”, “Anonymous” e “Return to Ithaka”. Esta, não passa de uma “chupação” bastante usual que várias bandas contemporâneas andam fazendo. Juntam três músicas instrumentais (com raros momentos cantados) como se as mesmas fossem movimentos de um Concerto de Música Clássica e proporcionam aos fãs orgasmos múltiplos com tais “brincadeiras” pseudo-eruditas.

O Weezer, quando estava no auge, sempre foi uma banda de segundo escalão, mas, pelo momento vivido pelo rock mundial, temos que vangloriar e apoiar todo trabalho novo de valia. “Everything Will Be Alright in the End”  é um álbum coeso, rico em melodias simples (marca registrada da banda) e merece destaque dentre os lançamentos de 2014 mesmo mostrando um Rivers Cuomo levando a banda praticamente só.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Pondo Os Pingos nos Is – Por Bruno Vitorino



O Jornal do Commercio publicou ontem (04/01) no Caderno C uma extensa matéria sobre a recém-lançada caixa do Miles Davis Quintet, “All of You: The Last Tour 1960”. Realmente, este lançamento é importante, já que documenta um período histórico muito interessante do combo, em que se ouve um Coltrane alucinado (e incompreendido) com suas frases incendiárias - as chamadas "sheets of sounds" -, experimentando progressões harmônicas intrincadas em plena improvisação e tendo total liberdade para transitar pela forma dos temas o quanto quisesse; e um Miles Davis que, se por um lado rompia com a tradição do hard bop estabelecendo os alicerces do jazz modal com sua linearidade e uso dos espaços, por outro não abria mão de standards conhecidos em seu repertório, sempre focando, contudo, no risco e na espontaneidade durante as performances.

É realmente incomum se deparar com um jornal pernambucano dando espaço ao jazz, essa música, via de regra, tão incompreendida e desprestigiada pelos grandes veículos de comunicação, e ter elaborado comentários a respeito de um lançamento notável e de artistas fundamentais para a música popular do século XX. Eis o mérito do artigo. Para isso digo: bravo!

No entanto, deparei-me com algumas inconsistências ao longo da matéria, de modo que tomei a liberdade de fazer algumas considerações que me parecem necessárias:

1) O autor do texto cita o caso em que Miles agride Coltrane nos bastidores e diz que "o saxofonista simplesmente foi embora". Não foi bem assim. Essa agressão famosa, digamos assim, no mundo do jazz aconteceu no "Café Bohemia" em outubro de 1956. O fato é que Miles ficou irritado com Coltrane, pois ele estava chapado de heroína, moribundo em pleno palco (em alguns momentos, cochilando) e errando as músicas. No intervalo entre os sets dessa gig, Miles perdeu a paciência e bateu em Coltrane, que estava ainda sob os efeitos da droga. No instante em que essa cena ocorreu, Thelonious Monk, que teve uma rusga séria com o trompetista logo após o Newport Jazz Festival de 1955, estava no camarim, viu tudo e disse para o saxofonista: "Você não precisa passar por isso. Venha tocar comigo". Mas, isso só aconteceu em abril de 1957, quando Miles finalmente demitiu Coltrane por conta dos problemas com a heroína, e este se juntou ao quarteto do pianista. Miles fala desse episódio em sua autobiografia "Miles Davis: A Autobiografia", escrita em parceria com o jornalista/poeta Quincy Troupe; o texto no encarte do disco "Thelonious Monk Quartet with John Coltrane at Carnegie Hall" também menciona o acontecimento; e, por fim, a biografia de Monk, "Thelonious Monk: The Life and Times of an American Original", também discorre sobre o caso.

2) O texto diz que "era evidente que Coltrane já havia criado seu próprio tipo de blues". Ao que parece, a intenção do jornalista neste trecho era promover uma espécie de trocadilho ou referência implícita entre “seu próprio tipo de blues” e “Kind of Blue” (e não Blues como está escrito em duas ocasiões), o icônico disco do Miles; mas dizendo, no fim das contas, que o saxofonista já encontrara sua identidade artística. Certo. Porém, em termos estritamente musicais, no que diz respeito ao gênero, Coltrane era tradicionalista, respeitando muito a "forma blues" - seus 12 compassos, seus pontos de apoio harmônicos, sua estrutura melódica na construção temática -, portanto, a rigor, ele não "criou seu próprio blues". A única exceção a essa rigidez na arquitetura sonora talvez seja um tema dele chamado "Locomotion" - que por sinal é de 1957, do obrigatório álbum "Blue Train" -, em que ele sobrepõe à forma blues clássica o turnaround disfarçado da estrutura "rhythm changes" no “B” (ou seja, insere uma seção de dominantes estendidas em movimento cromático descendente - Ab7 / G7 / Gb7 / F7), e termina a música sem resolver na tônica (Bb7), aterrissando na V (F7) após um giro harmônico descendente. Todavia, ainda assim ele não inventa uma nova estrutura blues, e sim acrescenta-lhe outra.

3) Num outro momento, o texto traz: "antes de partir para a turnê, o saxofonista lançou o álbum Giant Steps, em que muda de tenor para sax alto". Nada mais absurdo! Coltrane não muda para o alto nesse trabalho! Na realidade, este fora o seu instrumento de aprendizado quando muito jovem e tocava em bandas de rhythm’ n’ blues nos anos 1940. Mudou para o tenor influenciado por Lester Young. No entanto, Coltrane passou a tocar sax soprano na virada dos anos 1950/60 por conta do impacto que lhe causou Steve Lacy, que tocava exclusivamente o soprano, alternando-o eventualmente com o sax tenor. O disco "Avant-Garde", gravado em 1960, mas só lançado posteriormente, traz o primeiro registro desse instrumento por parte de Coltrane na música "The Blessing".

Além do mais, a relevância histórica de "Giant Steps" se dá pelo inédito horizonte harmônico que Coltrane abre ao inserir no jazz o sistema de tônicas desenvolvido por Nicolas Slonimsky, que, a grosso modo, tratava-se de dividir matematicamente a oitava de uma tonalidade em partes iguais (2, 3, 4, 6 ou 12 partes), estabelecendo "centros tonais" interdependentes (com o mesmo peso de "fundamental" na progressão), interligados por acordes cadenciais. O tema "Giant Steps", por exemplo, é dividido em três partes com os centros sendo Sol Maior, Si Maior e Mi Bemol Maior, num ciclo que se poderia repetir ad infinitum.

4) Ao final da matéria, encontra-se: "...enquanto Coltrane começaria sua revolução que, infelizmente, não se sabe até onde chegaria. Foi interrompida em 1967 pela heroína que quase termina a carreira de Miles nos anos 50." Errado! Coltrane se livra do vício no entorpecente durante o ano de 1957 (justamente quando começa a tocar com Monk) depois de ter quase chegado ao fundo do poço. Ele fala sobre a epifania que foi se livrar da dependência da droga inspirado, segundo ele, pela força divina no texto que escreve para sua obra-prima "A Love Supreme". Coltrane morre em 1967, dez anos depois de estar livre da heroína, em decorrência de um câncer de fígado. Há quem atribua a doença a abusos de álcool e narcóticos, enquanto outros chegam a mencionar inclusive o esforço sobre-humano que Coltrane fazia durante seus longos e intensos improvisos, mas são apenas ilações.

5) Por fim, sendo um tanto quanto detalhista, é "Bitches Brew", e não Biches, sem o “t”, como está escrito no artigo.

No mais, a matéria é bastante oportuna. Só acho, humildemente, que um pouco de acuidade tanto na pesquisa quanto na escrita não faz mal a ninguém.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Variações em 5/4: Sonic Highways

Arte de capa de Sonic Highways, novo álbum da banda Foo Fighters.

A última postagem do ano marca, além do retorno da coluna Variações em 5/4, a primeira colaboração de nosso novo integrante, o senhor Rógeres Bessoni. Nesta edição da coluna, os editores do blog lançam um olhar coletivo sobre Sonic Highways, o mais recente disco da banda Foo Fighters.
 
Aproveitando o ensejo, desejamos a todos os que nos acompanham um 2015 excepcional, repleto de saúde, alegrias e conquistas, pautado sempre na plenitude humana que dá sentido a essa breve marcha ante ao desconhecido que chamamos de vida.

Boa leitura!

- Giba Carvalho:

Expectativa. Sem sombra de dúvidas, esta foi a palavra que mais permeou a minha mente com relação a Sonic Highways, novo trabalho do Foo Fighters. E isto é completamente compreensível visto que, ele é o sucessor de Wasting Light, melhor disco de rock n´roll da década até o momento.

Grohl e seus companheiros caíram na estrada num mergulho em busca de influências históricas para a concepção do novo trabalho. De fato uma ideia interessantíssima! Aproveitaram a oportunidade e, além do disco, gravaram um documentário de oito capítulos para o canal HBO, que mostra toda a criação do novo álbum e as passagens por – Chicago, Washington DC, Nashville, Austin, Seattle, Los Angeles, Nova Iorque e Nova Orleans. Este é um ponto específico que pode tornar-se negativo no novo trabalho. Caso as pessoas não venham a assistir ao documentário, não saberão ao certo sobre a passagem por estes estados e todo processo de gravação desenvolvido e executado. E tem explicação. Mesmo flertando com o hard-rock, punk, grunge e algumas pitadas de progressivo, Sonic Highways soa como “apenas” mais um trabalho do Foo Fighters. É a velha “armadilha” inerente às bandas de grande identificação e eficácia com um estilo de fazer sua música. Ousaram, mas não mudaram a fórmula (talvez não precisem fazer) e isto é uma faca de dois gumes. Tudo vai depender das expectativas pessoais de cada um.

Para mim, Sonic Highways é um disco bom e tem seus pontos fortes na sequência. – Congregation – que é uma homenagem aos artistas e raízes da música country, embora soe como o mais tradicional do grupo, What did I Go? / God as My Witness – que é a canção onde percebemos com maior facilidade o ambiente (tão aclamado por Grohl) que foi gravado e Outside – um grunge cheio de contratempos e agressividade peculiar. E, mais para frente, encontramos a excelente In The Clear (melhor música do disco) – melódica, com refrão consistente e com a presença da Preservation Hall Jazz Band de Nova Orleans.

No mais, o Foo Fighters é a mesma banda coerente de sempre.

- Fernando Lucchesi:
   
Quando uma banda como o Foo Fighters, lança um algo do nível de Wasting Light, sucesso comercial incontestável e elogiado pela maioria da crítica, ela chega a uma encruzilhada em relação ao disco seguinte (acredito já ter falado algo a respeito no blog anteriormente): repetir a fórmula de sucesso, mesclar algo novo com toques do sucesso anterior ou mudar radicalmente em relação à “fórmula do sucesso” previamente utilizada e conhecida.

O Foo Fighters, ao que parece, optou pela mescla entre coisas novas (entenda-se: fora da fórmula anterior) e resquícios do bem sucedido disco anterior. O resultado foi um dos discos mais entediantes do ano. A despeito de o álbum conter algumas faixas bem interessantes com Something for Nothing (inicia com um andamento lento para depois explodir nos gritos insanos de Grohl) e de Congregation (pop/rock da melhor qualidade, com AQUELE riff pegajoso), a impressão é de que a maior parte das outras faixas está lá esperando entrar na trilha sonora de um novo filme da franquia American Pie. Músicas datadas, com um apelo pop sem nenhuma inspiração e uma sensação de preguiça inacreditável.

Para a chatice ficar completa nada mais apropriado do que encerrar o disco com a longa e chatíssima I Am a River. Um chororô que dura infindáveis sete minutos, com direito a arranjos de cordas para dar uma falsa impressão de magnitude da música. Como diria um dos componentes do blog: esse disco é mais fraco do que choque de lanterna!

- André Maranhão:

O fato de todas as faixas do álbum Sonic Highways terem sido gravadas em locações diferentes chamou a minha atenção, embora confesse não saber até que ponto esta postura dos Foo Fighters seria fruto de uma exigência técnica em vez de uma jogada de marketing.

Em se tratando das canções, achei interessante a presença da guitarra barítono de Rick Nielsen em Something From Nothing já que tal instrumento não é tão popular no pop rock ou no rock alternativo, mas tem sido de suma importância em outros gêneros musicais como o surf music, country e jazz. The Feast and the Famine segue uma linha mais próxima de um rock de verão, embora não rivalize com uma canção aos moldes de Breakout – lançada pelos próprios Foo Fighters ao final dos anos noventa.

A faixa que eu mais gostei foi Congregation, pois nela a banda parece perfeitamente entrosada: há uma ótima cobertura de guitarras-base e o solista Chris Shiflett se coloca muito bem, juntamente com o baixo de Nate Mendel. Por fim, vale destacar a performance de Taylor Hawkins à frente da bateria. A segunda melhor faixa sob o meu crivo é I Am a River; uma balada que cresce aos poucos e fica boa no refrão.

Subterranean, a única canção com a presença marcante do violão de aço, cairia muito bem numa trilha de 007... What Did I Do, God as My Witness, em certos momentos me soou longa demais, e só se tornou interessante a partir de sua metade. Em Outside, a introdução e as pausas para os solos de guitarra imprimem um tom mais dinâmico, mas nada em especial. Também não vejo (e ouço) nada de novo em In the Clear.

Eu li que em algumas páginas anglo-americanas, Sonic Highways recebeu avaliações em torno de “regular”. Desta vez, me aproximarei dos conceitos de Metacritic, The Guardian, Entertainment Weekly, dentre outros, e darei um “C”, para o mais novo trabalho dos Foo Fighters. Acho que eles já produziram hits melhores...

- Rógeres Bessoni:

É com todo o respeito que paro para ouvir um novo trabalho de uma banda como o Foo Fighters, levando em consideração a trajetória de uma das poucas bandas que, nas últimas duas décadas, têm significativamente ajudado a manter de alguma forma pulsante o tão maltratado – e, atualmente estéril – rock and roll. Talvez isso me leve mesmo a aumentar minhas exigências e expectativas quando me deparo com um trabalho que sei que é sério. Mas o Budismo nos alerta que as expectativas elevadas acarretam decepções consideráveis, e foi justamente o caso. Ouvindo o Sonic Highways, só me convenço mais veementemente de que esse senhor de idade, o rock, precisa urgentemente passar por uma nova demolição/revolução, como a que os próprios integrantes do Foo Fighters ajudaram a realizar no começo dos anos 90. No entanto, de lá para cá, as placas tectônicas do rock têm se mantido numa imobilidade soporífera. E aqui chegamos ao desapontamento com o Sonic Highways.

Em primeiro lugar, quero frisar uma coisa: o disco NÃO É RUIM, mas também não instiga. É bom, sólido, bem tocado, mas só isso. “Só isso”?  É. Porque é a repetição de padrões sonoros que já estão ecoando há mais de 20 anos e, para mim, não acrescentam mais nada. Neste sentido, o disco ficou morno, alternando entre alguns momentos bons e outros realmente chatos, sem ter apresentado nenhuma faixa impactante ou poderosa – com exceção, para mim, de Something From Nothing, que começa com uma melodia também morna, com uma linha de guitarra mais que repisada, mas que cresce para uma explosão vigorosa, ficando realmente muito boa. Uma das músicas que mais me agradaram recentemente e que, na verdade, me pareceu mais Audioslave que qualquer outra coisa. Tive a impressão de ouvir Tom Morello no trecho mais pesado. Mas o resto do disco, infelizmente, não se manteve nesse nível.

Em vários, vários momentos, tive aquela sensação: “já ouvi isso”. São os mesmos vocais, indo do “grunhido” ao mais “meloso”, com alguns momentos de explosão na medida certa. As guitarras fortes, em bases barulhentas, eventualmente com notas esticadas ou ponteadas com notas soltas, mas sem nenhum riff marcante, de pegada e, para mim, o que é pior e incompreensível: a continuação de uma escola de guitarra praticamente sem solos. Da mesma forma, a cozinha, com baixo e bateria precisos, firmes, não traz nenhuma levada inovadora, nenhuma quebradeira surpreendente. Talvez por serem sons da saída da minha adolescência, isso sempre me passa a impressão de que, mesmo com músicos maduros, a banda se manteve de certa forma adolescente. Estamos falando da personalidade de uma banda consagrada, eu sei disso. Sei que a manutenção de algumas estruturas também tem sua importância, principalmente para os cultores de um estilo, e o Foo Fighters não é de maneira alguma formado por integrantes amadores ou imaturos. Entretanto, o grande perigo é o criador ficar escravo da criatura. No caso da concepção musical, arriscado é os autores de um dado nicho não saberem mais inovar dentro dos padrões que estabeleceram, ou reconhecer que pode ser a hora de romper com tais padrões, que podem ter sido bons e necessários parâmetros no começo, mas que depois se converteram, em maior ou menor escala, em uma zona de conforto - a simples aplicação de uma fórmula, que não desafia mais nem a banda, nem o público. Sei também que o ponto deste comentário é o Foo Fighters e não seria tão adequado terminar com comparações explícitas, e minha intenção não é comparar A com B e decidir sobre que é “melhor”. Não é nada disso, mas acontece que só reforço cada vez mais uma percepção que já tenho há alguns anos e venho repetindo: de fato, pouquíssimas bandas “envelhecem” como o Pearl Jam.

- Bruno Vitorino:

Eu não gosto do Foo Fighters. Na verdade, nunca gostei. Por mais que tenha tentado reverter esse quadro em ocasiões passadas, acabava sempre a cada empreitada por não me identificar com a sonoridade da banda. E, para agravar ainda mais minha repulsa, irritava-me profundamente as malfadadas tentativas de Dave Grohl e companhia em serem engraçadinhos, debochados, fingindo-se comediantes em seus clipes – Breakout, Learn to Fly, Long Road to Ruin, Low, The One -, vinculando, dessa forma, o rock a uma espécie de oligofrenia juvenil coletiva, que se espalhava com uma virulência gigantesca via MTV, e não mais à urgência expressiva e ao caráter subversivo com os quais o estilo sempre dialogou. Assiste a esses vídeos que menciono e me diz nos comentários se estou enganado.

No quesito “a nova salvação do rock”, devo confessar que prefiro muito mais a pegada crua do Queens of the Stone Age, suas melodias instigantes, o cuidado na montagem das estruturas sonoras, a ironia fina de suas letras e, o mais importante, o fato de sua música trazer sempre algo de inesperado, rico, contrariando os detratores do gênero que vêm nele apenas uma forma primitiva de articular os sons, abrindo-lhe, com isso, infinitas possibilidades estéticas – ouve atentamente A Song for the Dead e na sequência Mosquito Song; tenho certeza que pensarás estar ouvindo duas bandas distintas. A razão disso tudo se deve à consciência criativa de Josh Homme e seu profundo conhecimento do que é o rock and roll, dos timbres que manipula e dos inesgotáveis recursos que um estúdio de gravação pode prover a mentes criativas. Qualidades que, por exemplo, o senhor Dave Grohl não tem; ou se as tem, não desenvolve. “Ah, mas em Songs for the Deaf, Dave Grohl participa tocando bateria. Esqueceu, foi?!”, alfineta meu querido leitor. Certamente. Tens razão. Mas, o êxito de sua participação se deve muito mais ao encaminhamento dado ao projeto por Homme, e, verdade seja dita, em alguma parte a Nick Olivieri, do que ao baterista, que não passou de um convidado ilustre. Não esqueça o senhor que o disco musicalmente mais bem sucedido do Foo Fighters, Wasting Light, carrega escancarada influência de Josh Homme, como já denuncia as guitarras na introdução da faixa de abertura Bridge Burning. Também não me parece fruto do acaso que quando a ideia desse ótimo disco nascera em seu peito, Grohl estivesse em turnê com o Them Crooked Vultures, ou seja, trabalhando com a entidade John Paul Jones, mas inteiramente submerso no universo estilístico de Homme. Não há que se negar os fatos, e os fatos são tudo.

Não obstante a digressão acima, particularmente guardo solene respeito a Dave Grohl pelo que fora outrora com o Nirvana, e pela sua integridade enquanto band leader da maior banda de rock de sua geração – e que só não é a maior do mundo hoje, porque o U2 e os Stones ainda estão em atividade. Pode-se falar o que quiser dele, mas ao menos ele tenta novas possibilidades sonoras e não se deixa cooptar pelo doce mel da glória midiática. Ao contrário, usa-a a seu favor, propondo, em certa medida, um remodelamento interno dessa estrutura que foca no efêmero das estrelas de ocasião. Não se pode desprezar, só a título de ilustração, o colossal trabalho de pesquisa encabeçado pelo músico que originou o disco Sonic Highways e resultou num seriado homônimo, produzido em parceria com a HBO (que no Brasil está sendo transmitido pelo Canal Bis aos domingos às 19:30, horário local), no qual Grohl, percorrendo os grandes centros urbanos de seu país, procurou de uma só vez: redescobrir as raízes da música popular norte-americana; traçar um mapa da cena underground dos Estados Unidos; buscar as origens do rock; ensinar às novas gerações um pouco da história da cultura do século XX; e, de lambuja, ainda se inspirar para um novo trabalho com sua banda. Por isso tudo, escutei o mais novo trabalho do Foo Fighters cheio de esperança e com muita cerimônia. E o começo do álbum me pareceu muito promissor. Aquela guitarra de timbres brilhantes abrindo Something From Nothing, tocada de modo simples, enfatizando as suas três primeiras cordas (mi, si e sol), estabelecendo assim a estrutura básica do acorde de mi menor, e delegando ao movimento cromático descendente do baixo (sou wagneriano, quedas de meio tom me agradam) o sentido harmônico, deu-me a falsa impressão de que eu iria gostar do disco. Na metade da música, já estava entediado.

O grande drama deste trabalho reside justamente na contradição entre o imenso projeto de pesquisa que o precedeu, o qual estudou diversos matizes sonoros e culturais, e a contundente monocromia do álbum. Pois, Sonic Highways é carregado de lugares-comuns do rock enfadado: mão pesada nas guitarras, vocais rasgados e letras adolescentes (ouça What Did I Do). Muita atitude, alguma pretensão intelectual, e pouco - ou quase nenhum – conteúdo. A impressão que se tem ao final da audição é que se trata de um disco com apenas uma faixa de pouco mais de quarenta minutos, não fossem os espaços propositais separando um tema do outro a nos dizer o contrário. Apenas Subterranean quebra a mesmice do disco, mudando os timbres das cordas (os violões de corda de aço fulguram aqui); brincando com a métrica ao intercalar sessões rítmicas em 6/8 a outras em 4/4; trazendo, de início, um singular encadeamento harmônico não funcional, em estrutura constante (F#m/Am/Em/Gm), costurado por uma bela linha de fundo, que depois descamba num enigmático lá maior o qual incorpora em si um bocado de seu modo paralelo, o menor natural – há nesse momento um acorde “Em” tão sublime e inesperado que confere a essa parte da composição toda sua beleza melancólica. Música realmente tocante e a tenho escutado repetidamente. Contudo, é o único exemplo de brilhantismo que existe no trabalho, o que por si só não é capaz de salvar o disco.

Imagino que a experiência do “ao vivo” em estádios grandes, com um público eufórico que urra de delírio até para roadie em passagem de som, Sonic Highways funcione. Mas, enquanto disco, soa enfadonho. No entanto, meu caro leitor - e espero sinceramente que não me ojerizes pelo que escrevi até então -, tudo não passa de uma questão pessoal, pois a música reverbera no interior de cada um das mais infinitas maneiras. Escuta e vede o que diz teu espírito.

domingo, 14 de dezembro de 2014

O Pau Metafísico - Por Bruno Vitorino

O primeiro conto ficcional da série "Animais Sociais" que pretendo escrever ao longo de 2015. Trata-se de literatura fantástica, logo irreal, fruto dos desvarios de minha mente insana que se põe a fantasiar sobre lugares e personagens absurdos. Portanto, uma eventual semelhança com a realidade material de nossos dias terá sido obra do acaso. Acredito ser impossível a existência dos personagens que crio, ainda mais numa cidade tão avançada sócio-culturalmente como Recife, vanguardista que só ela. Boa leitura! 

O Homem de Vitrúvio Pós-Moderno: O Homem sem Falo. Edição de imagem por Eládio Ferreira. 

Sou um idiota e tudo o que faço é querer e precisar de coisas. – Chuck Palahniuk


Ah, o espelho... Essa tênue lâmina e seu raro poder de nos por diante de nós mesmos, como se saíssemos de nossos corpos para que, num breve instante, percebêssemos em terceira pessoa a realidade imutável das coisas que nos cercam e a nossa existência objetiva no mundo dos homens. Sua sinceridade implacável desnuda as ilusões que cultivamos. Assim, inteiramente nu diante do espelho do quarto, nosso herói experimentava novamente a angústia da verdade. Depois de vasculhar minuciosamente os objetos de seus aposentos e de sentir orgulho de possuí-los, numa espécie de ritual de autocomiseração, sua atenção se voltava para seu corpo. Como lhe envaidecia sua forma física, fruto de anos de malhação e Whey Protein. As pernas finas, mas definidas, seus braços musculosos, seu abdômen firme, seu peitoral trabalhado; todas essas qualidades que julgava possuir, e que considerava dignas dos mais elevados valores humanos, muito lhe agradavam. Mas, ao final da sondagem, havia sempre a dura realidade que o espelho não escamoteava em cerimônias e eufemismos: um pau pequeno, ínfimo, ridículo que lhe roubava toda a paz de espírito. Ao contrário das outras vezes, porém, o desespero levou-o à aventura que irei contar agora.

Saiu de seu quarto e foi ter com seu pai na sala. Ressentido e incomodado com a vergonha de não ser o varão que fantasiava, foi direto: “Pai, sou um completo idiota e tenho um pau pequeno! O que devo fazer?!”. A gravidade da denúncia foi tamanha que fez com que o pai deixasse de assistir ao Manhattan Connection – e logo na fala do Mainardi – para voltar seus ouvidos para o filho. Advogado bem sucedido, frequentador dos circuitos sociais mais exclusivos da cidade, o pai era um homem fino e benfazejo que gostava de ostentar aquilo que seus pares acreditavam ser insígnias de refinamento cultural e poder econômico. Era leitor voraz das tramas intricadas de Dan Brown, dos romances profundos de Chico Buarque e dos enredos cósmicos de Paulo Coelho. Ouvia com muita frequência os expoentes da MPB contemporânea: Maria Gadú, Vander Lee, Ana Carolina e, especialmente, Marisa Monte, a qual considerava a última grande diva da música brasileira. Só andava de SUV importada e dividia a humanidade entre os que iam uma vez por ano a Miami se entregar ao delírio consumista dos outlets e os que não podiam fazê-lo. Era, como se pode perceber, um ser de alma rasa, mas, imensamente rico.

“Por que tanto desespero, meu filho?! O que houve?!” Pela primeira vez em muito tempo, estabelecia-se entre esses dois homens a solidez que toda relação paterno-filial exige. A aflição do filho transformou uma relação de conveniência e pouco comprometimento mútuo em algo profundo, ainda que efêmero e indefinido. “Pai, não sei mais o que fazer. Tenho tudo o que preciso para o sucesso: tenho grana, sou bonito, frequento os lugares da moda, uso roupas de marca, pego um monte de mulher, mas...”. “Mas, o quê, filho?”. “Meu pau é tão pequeno...”, disse o nosso herói embargando a voz e olhando para baixo a imprecar o destino que o fez tão bem nascido, mas desprovido da virilidade que se exigia de um jovem em seu papel social. O constrangimento era tanto que se poderia respirá-lo. “Calma, meu rapaz. Para tudo na vida se dá um jeito. Ainda mais para nós que temos dinheiro. Saiba de uma coisa: não se deixe abater por um detalhe, meu filho, porque, na verdade, o tamanho do pau não importa. O que realmente conta é o que você agrega a ele.” Disse o pai em tom conciliador e com um cínico riso de superioridade que a vida talhara em seu rosto, dando-lhe um falso ar de sábio calejado pelo tempo. “Agregar? Como uma prótese? Não, pai. Isso não.” “Relaxe.”, disse o pai voltando-se para a televisão. “Deixe que eu resolva isso para você. Confie em mim, que já sei do que você precisa.”, arrematou para, aproveitando-se da confusão do filho, sacramentar-se aos olhos deste como o dono da conversa e senhor das circunstâncias. A contundência do pai deixou nosso herói encucado, contudo não mais agoniado com a revelação que o espelho há pouco lhe obrigara a encarar. Preferia a anestesia do não saber à dor da verdade. Aquietou-se.

No outro dia, ainda de manhã, o pai batia à porta. “Filho, acorda! Tenho um negócio para te mostrar. Venha logo!” Aturdido, o jovem rebento olhou para o relógio. 11:33. “Já vou!”, disse ainda bocejando. “Certo. Espero você lá embaixo”. Ainda sem entender muito bem quais os intentos do patriarca, nosso herói entrou desprovido de expectativas no elevador, imbuído tão somente da banalidade que só a rotina pode proporcionar ao ser humano. Só que, desta vez, a viagem lhe levaria ao encontro do inesperado. Lá chegando, viu o pai, numa das vagas de garagem, com os trajes que a advocacia lhe exigia e com um sorriso de político em época de campanha. “Venha, meu filho! Venha logo!”, disse-lhe, abraçando-o. “Aqui está a solução que lhe prometi!”, apontando para algo encoberto com uma capa preta. “Não vou fazer suspense. Você sabe que não gosto dessas coisas.”, falou, puxando a coberta e revelando uma moto alaranjada novinha em folha. Mas, não era qualquer moto, vale ressaltar. Era uma moto esportiva de luxo Honda CBR 1000RR, muito conhecida pelos entendidos no assunto como “Repsol”! Uma máquina feroz de velocidade e de design arrojado que corta o vento como uma lâmina. Acossado feito bicho do mato, o filho foi se aproximando do presente, olhando com atenção cada componente seu com uma expressão insondável no rosto. O genitor apenas contemplava a cena, já certo do sucesso de sua empreitada. “Sente nela.”, comandou docemente ao que o filho prontamente atendeu, não sem certo estranhamento. “Isso. Agora ligue a moto.”, disse com seu riso triunfal de canto de boca. O ronco grave do motor desencadeou no filho uma estranha sensação de poder que lhe agradava. O som de seu brinquedo novo reverberava a masculinidade que ele mesmo não tinha, e, por ser agora sua propriedade, sentia-a parte de si. Parecia mais macho em cima dela, infinitamente poderoso, como um iluminado detentor de um artefato forjado pelos deuses ou coisa que o valha. Um Prometeu roubando o fogo do Olimpo. “Perfeito. Agora acelere!”. “Vruuuuuuuuuuuuuuuuum!”. Transe. O filho não mais sentia o corpo. O vigor do barulho da moto abriu-lhe as portas da percepção numa experiência transcendental. De repente, e de modo absolutamente imprevisto, viu-se muito além de si mesmo e existencialmente conectado ao cosmo. E conectado pelo pau! Pois, o ruído ensurdecedor que a moto emitia ao mais singelo gesto de sua mão direita assumia contornos fálicos impetuosos e viris que a diminuta genitália que a Natureza lhe proveu jamais sequer insinuou. No fim das contas, não era uma moto que ganhava do pai, e sim um pau metafísico para, finalmente, chamar de seu. Mas, estúpido que era para avaliar toda a, digamos, dimensão espiritual que essa liturgia mecânica desencadeava, contentou-se em gozar da sensibilidade epidérmica que o momento lhe brindava. A simbiose estava completa. “Bem, o tanque está cheio. Divirta-se.”, disse o pai como se nada houvesse acontecido que não a entrega de um simples regalo. O nosso herói, entretanto, encontrava sua vocação.

Ir à faculdade tornou-se um evento. Aluno do quinto período do curso de Direito, o nosso herói era pouco afeito aos estudos. Na verdade, ingressara na vida acadêmica mais para dar alguma satisfação ao pai, que bancava sua faculdade e esperava vê-lo seguir carreira jurídica, do que por vontade própria. Na superficialidade de seu íntimo, tinha a vaga consciência de que não sabia exatamente o que queria da vida. Orbitava entre a inércia, os paparicos típicos de filho único e a falta de perspectiva, de modo que, intuitivamente, seguir os caminhos já pavimentados pelo pai lhe pareciam suficientes. Não necessitavam esforço. Além do mais, justiça seja feita, gostava do clima de azaração que permeava as turmas pelas quais passava e dos fins de noite nos barezinhos das redondezas para conversar as trivialidades inúteis de sua existência. Logo, não tinha do que reclamar. Só que agora com a “Repsol”, ir às aulas deixou de ser uma mera rotina para alcançar um novo patamar. Passava agora pela rua da faculdade não mais ocultado pela obscuridade do comum que a civilidade impõe aos homens, mas sob as luzes da posição de destaque, acelerando pausada e levemente sua moto para insinuar aos demais a potência que esta lhe delegava, tal como um animal selvagem que busca impor-se líder e reprodutor de um grupo através da combinação da força bruta com o exibicionismo coreografado de seus atributos. Queria ver e ser visto. Mais ainda, queria ser admirado por aqueles desprovidos desse maquinário possante que tinha à mercê de suas vontades. Os olhares que lançava de esguelha captavam o assombro dos desconhecidos, enchendo-lhe o peito de glória e prestígio. Ainda que apenas para si mesmo. Ainda que o barulho incomodasse os outros. Não importava! É uma capacidade premente dos tolos ver realidade em suas fantasias. De toda forma, chegando ao estacionamento, deu de cara com um colega de classe. “Porra, véi! Uma ‘Repsol’, doido! Botou pra fuder!”, disse o colega num dialeto rudimentar que derivava do português de outrora. “É, véi! Arretada, né não?!”, redarguiu. “E então! Berra muito na alta! Eu tinha uma Hornet, mas essa daí é bem mais foda. Óa, tu tá ligado que nas quintas tem um grupo de moto que roda pela cidade?!”. “Tô não. É sério?!”. “É, pô. E só tem moto foda! Desse naipe aí. Os caras se encontram pra exibir suas máquinas, curtir e dar um rolé por aí, tá ligado? Acho que tu devia sacar.” Epifania. O que mais poderia almejar um jovem castrado do ponto de vista freudiano, à deriva no mundo contemporâneo da aparência desprovido de paradigmas ou quadros coletivos que lhe servissem de norte para a Cultura, vagando de modismo em modismo em busca de um sentido? A ideia de um grupo de eleitos rasgando licenciosamente as ruas da cidade, espíritos livres a preencher a paisagem urbana com o grito selvagem do ronco de suas motos, guiados apenas pelo desejo inconsequente por adrenalina, era uma anunciação dos anjos, uma profecia sendo revelada. O nosso herói encontrava um propósito.

Chegou com antecedência ao ponto de concentração do encontro. Não conhecia ninguém, por isso achou prudente ser discreto. Tentou se aproximar sem fazer alarde, mas, nesse ambiente de entusiastas das motos de alto desempenho, uma “Repsol” atrai instantaneamente os olhares e agrega a seu proprietário todos os adjetivos de um sujeito excepcional. “E aí, parceiro? Tranquilo?”, falou amistosamente um dos participantes do grupo. Rapaz jovem, vestindo-se segundo os últimos catálogos das lojas de moda masculina, e um tanto mofino, pilotava uma Kawasaki Ninja verde que só por milagre parecia ficar de pé. “Tudo certo, véi.”, falou meio acanhado o nosso herói, ainda sentindo o ambiente e se aclimatando. “É a primeira vez que venho aqui, tá ligado? Um brother me falou desse grupo, aí vim sacar qual é.”, justificando-se. “Bem que achei que nunca tinha te visto por aqui. Bem-vindo! Aqui é sem stress. Ainda mais com uma máquina dessa aí, véi...”, disse o estranho lançando um olhar de desejo para a “Repsol”. “Ela berra muito, véi?”, perguntou o rapaz com um misto de timidez e empolgação. “Vruuuuuuuuuuuum!”, ao mais leve giro da maçaneta. “Caralho! É foda! Que berro da porra!”, disse-lhe o garoto cheio de entusiasmo. “Mostra a tua agora, véi.” “Vruuuuuuuuuuum!”. E essa jogatina de demonstração de poderio motorizado logo se transfigurou numa demonstração de virilidade, num teatro primitivo onde os machos mensuram seu poder através da comparação dos falos. Depois de algum tempo nessa folgança de acelerar as motos para medir qual era a mais potente, nosso herói sentiu uma excitação que se alastrava por seus nervos descambando no êxtase. Do mecânico ao fisiológico. Neste momento, quando o êxtase se arrefeceu em euforia, percebeu que todos estrangulavam suas máquinas, produzindo um cânone ensurdecedor de ruído. Os cavaleiros da noite urravam aos ventos um grito de guerra que celebrava seu poderio másculo artificial. De repente, lá no meio de tantas pessoas que nunca tinha visto, nosso herói sentiu-se entre os seus, parte integrante de um movimento e defensor de uma causa. Ao se tornar um membro padronizado dos caçadores de emoções efêmeras, sacrificou o pouco da individualidade que possuía para absorver o ethos que regia aquele microuniverso, sentir-se efetivamente incluído no grupo e reconhecido por seus companheiros como um igual. Essa era toda a dimensão coletiva que conseguia vislumbrar. Algo novo. Para que mais? Estava pronto para pegar a pista, confiante entre seus irmãos. “Tô instigado! A galera vai sair! Vamos nessa!”, falou celebrando seu entusiasmo e seguindo os outros membros da turba para pegar a pista. Assim, entre arrancadas bruscas, manobras arriscadas e muito barulho, a noite sucumbiu rapidamente ante a voracidade do tempo. Nosso herói encontrava seu destino.

De volta a seu quarto após essa epopeia de transgressão e velocidade, o nosso Aquiles se sentia pleno. Refestelava-se na lembrança do que vivera há pouco, ainda com a adrenalina percorrendo-lhe as veias. Novamente diante do espelho, nu, rememorava as cenas de triunfo heroico de seu passeio noturno, dignas de serem imortalizadas nas mais belas postagens nas redes sociais, os anais da fama de seu tempo. O modo como costurava os carros que lhe atrapalhavam o caminho, superando-os facilmente com o mínimo esforço de um giro de mão, as interjeições de euforia que bradava a cada acelerada aguda que dava, a cada empinada que conseguia, as emoções do perigo imanente à campanha, os gritos lancinantes de sua moto a violentar o véu da noite que encobria a cidade; toda essa experiência amplificava aquela dimensão cósmica que vivenciara quando ganhou a “Repsol”. Embora fosse incapaz de vasculhar a imensidão dos sentimentos que lhe povoavam, nosso herói se contentava em enaltecer a sensação de poder másculo que essa cruzada lhe proporcionou. A ostentação de uma precariedade moral profunda virava a seus olhos uma projeção fálica. Ele e sua moto, num só, penetrando o universo. Refez o costumeiro ritual de vasculhar os pertences materiais que lhe adornavam os aposentos e apreciar longamente o próprio corpo. Como de praxe, contemplou suas pernas, peitoral, abdômen e braços. Encarou seu pênis diminuto. Riu! Não um riso de escárnio, mas um riso de glória heroica, de aclamação narcisista, de orgulho másculo, pois agora tinha-lhe agregado algo infinito. Recompôs-se. Fitando seu reflexo, beijou o bíceps direito e se lançou à cama, exausto. Dormiu o sono tranquilo dos imbecis. 

domingo, 16 de novembro de 2014

Royal Blood - Mais uma Grata Salvação do Rock - Por Fernando Lucchesi

Royal Blood Band

A imprensa britânica busca insistentemente e em bases quase semanais encontrar uma banda que seja a dita “a salvação do rock” (como se o rock fosse um gênero moribundo que necessitasse de um salvador para voltar a dominar as paradas de sucesso). Em 90% dos casos, essas “melhores bandas de todos os tempos da última semana”, como diriam os Titãs, pegam a via expressa para o ostracismo.  

O Royal Blood faz parte dos benvindos 10% restantes. O duo britânico irá lembrar num primeiro momento White Stripe e The Black Keys, bandas que eram compostas por apenas dois componentes. Mas não se engane! O Royal Blood não chega perto do Blues/ Soul do Black Keys, tampouco do Blues/country evidenciado no White Stripes. O que diferencia o Royal Blood das outras duas bandas é primordialmente a ausência do instrumento mais característico do Rock: a guitarra. Isso mesmo: Não há guitarras no som da banda. Há apenas um baixo (que ao ouvir você irá jurar que é uma guitarra) e bateria.

O Royal blood é em termos sonoros um filhote tardio do Grunge e de bandas pioneiras do Heavy metal como Black Sabbath e Led Zepelin. É possível ainda perceber riffs inspirados em Queens of the Stone Age e referências ao Wolfmother (escute ”Blood Hands” e você verá como a voz lembra intencionalmente Andrew Stockdale). O som, extremamente pesado, muito também pelo uso isolado do baixo, pontua o álbum do começo ao fim.

Não me recordo de recentemente ter ouvido um disco tão coeso de uma banda estreante como o disco desse duo britânico. Não há uma única música que não valha a pena escutar no disco. Se você ainda não conhece o trabalho da banda recomendo o primeiro single da banda “Little Monster”. É possível que a banda se torne derivativa? Sem dúvida. Afinal de contas, ninguém grava um disco tão espetacular como esse na sua estreia e sai incólume.




terça-feira, 4 de novembro de 2014

Banda do Mar - Por Giba Carvalho

Arte do primeiro disco da Banda do Mar

Poderia resumir o disco de estréia da Banda do Mar como um prolongamento da fraca carreira solo de Marcelo Camelo. Mas, não seria justo com as pessoas que acompanham nossos textos e para aqueles que no mínimo gostam de ler uma opinião diferente. Tal qual Benjamin Button nas telas de cinema, Camelo nasceu velho e regride a arroubos juvenis a cada passo dado. É exatamente isto que sinto nos seus trabalhos posteriores ao Los Hermanos e não é diferente neste novo projeto.  Parece-me uma busca de fragmentos do que o ex-hermano foi um dia.  Um mar de repetições de formatos e de uma fórmula que caiu na mesmice há tempos. Some-se a Banda do Mar a infantilidade tardia (ainda?) e a emissão de sons provenientes das frágeis cordas vocais de sua companheira Mallu Magalhães e atuação meramente coadjuvante do baterista português Fred Ferreira.

Nesta estréia, especificamente, chamo a atenção dos leitores justamente para a “tríade-ilusão”. É, meus caros, apenas 3 canções merecem atenção neste trabalho e sempre com alguma ressalva (daí a tríade-ilusão). “Cidade Nova” que abre o disco com personalidade e lembra a fase mais legal da carreira de Camelo, embora possua aquela velha história manjada do “tá ruim, mas tá bom”. “Hey Nana” que na minha opinião é a grande música do disco, principalmente por conta da linha de guitarra sessentista (repetidíssima, enfadonha, mas que sempre funciona bem) e “Mais ninguém” que é a maior e melhor música pop do casal, embora “cantada” por Mallu. Outros grandes méritos, são a qualidade da produção e da gravação do mesmo.

O exercício de compor está sendo extremamente improdutivo para Marcelo Camelo. É o mal de quem foi nivelado por cima o tempo todo. O “messianismo” que atingiu seus trabalhos com o Los Hermanos é cada vez mais prejudicial para seus projetos posteriores. Logo ele que foi ícone para tantos outros. Estes não procuraram espelhar-se no caminho percorrido anteriormente pelo artista em foco para desenvolver sua identidade musical e ficaram apenas tentando cópias medíocres. Camelo tornou-se pai para um monte de filhos que não são donos nem do próprio nariz e agora vai nivelando-se a eles.

Banda do Mar. Divulgação. Fonte: Google Imagens.
A Banda do Mar é um trabalho “alto astral” sem graça. Nada além de um compartilhamento de gostos adolescentes de senso extremamente usual. O álbum não evolui em nenhum momento, não oferece outros caminhos além do mundo adulto infantilizado em bobagens e numa pieguice única. Confesso que fico muito triste em referir-me as composições de Marcelo Camelo que tanto me emocionaram outrora desta forma, mas não tem como ser diferente. Na minha concepção, é um desperdício imenso de talento de um dos raros jovens diferenciados, de fato, nos últimos 15 anos na música nacional.  É o brilho de uma carreira que iniciou e se manteve de modo enriquecedor jogado no chão.  

A propósito, aguardo ansiosamente o Box com os vinis do Los Hermanos que encomendei para a minha coleção. Preferencialmente, ouvirei tomando uma cerveja gelada ou um bom vinho com uma tábua de queijos especiais. Feeling por feeling eu prefiro a levada melódica do que “Fez-se Mar” em outros tempos, do que os “muitos chocolates” de agora. Estes, eu deixo para o casal sacarose e para Fred Ferreira, que apenas “segura vela” na bateria.


Observação - não estranhem o porquê da ausência de comentários sobre as composições de Mallu Magalhães, com exceção de “Mais ninguém” por um lado indie-pop cool e de “MIA”, que não passa de um Indie-axé e que certamente é uma das piores coisas que já ouvi em toda minha vida. Para Mallu, insisto no que disse em outro texto – “Mallu Magalhães tem 21 anos, três álbuns e a vida toda pela frente. Inclusive, para aprender a cantar”.