A Itália é um estado-nacional com várias
personalidades comunistas; e se algumas cidades italianas são politicamente
orientadas à direita, outras são declaradamente esquerdistas. Não é à toa que
em seu livro Democracia e Segredo,
lançado há poucos anos, Norberto Bobbio considera a Esquerda italiana (La Sinistra) a mais expressiva da
Europa. Em 1976, o Partido Comunista Italiano elegeu Giulio Carlo Argan para o
cargo de prefeito da influente cidade de Roma. Porém, de modo curioso, o novo
prefeito não era um político oriundo das bases sindicais ou da burocracia, mas era
um dos acadêmicos e historiadores da arte mais influentes da Europa. Ao longo
de sua vida, Argan colecionou aulas e textos que situaram pesquisadores durante
os séculos XX / XXI, além de estudos que tratam de temas importantes para a
Estética.
Dentre os escritos de Argan, suas análises sobre
o Iluminismo inglês articulam habilmente as formas da arte com os conteúdos e
argumentos defendidos pelos próprios artistas daquele período. Durante os
séculos XVI-XVII, a Inglaterra teve uma escola filosófica e literária mais
expressiva do que sua pintura. Se comparadas às da Holanda, França e Itália, as
telas inglesas não preenchiam os espaços artísticos com tanto impacto; e além
de importar as suas pinturas, os ingleses não prestigiavam tanto o ofício do
pintor quanto os holandeses, franceses e italianos. Aliás, mais nobre e digno
para uma inglês era consumir ou comprar, em vez de criar, uma pintura. Segundo Argan, tal realidade só começou a mudar
no século XVIII, quando o norte da cultura artística passou das mãos da
aristocracia para a burguesia. Em outros termos, pode-se dizer que os burgueses
não tinham receio de “sujar as mãos” para fazer arte, como também não tiveram
cerimônias em valorizar o estudo da arte em vez de apenas comprá-la. Portanto,
a pintura iluminista também abriu as portas para a figura do “conhecedor” em
vez de apenas prestigiar um mero “comprador” de um quadro.
O Iluminismo inglês reconheceu a importância dos
cânones italianos para a composição da arte, ao mesmo tempo em que destacou os
mestres holandeses e os seus temas burgueses / não religiosos na composição de
seus quadros. Neste ponto, era importante imitar
os mestres, mas imitar não era necessariamente copiar:
À esquerda temos a estátua em mármore de Apolo Belvedere, finalizada em 1511, e pertencente
ao Museu do Vaticano – enquanto à direita, encontramos o Honorável Capitão Augustus Keppel; pintado por Joshua Reynolds, em
1753. Vários artistas ingleses começaram a escrever tratados sobre a arte influenciados
por temas filosóficos. Reynolds argumentava que a criação artística não resultaria
de uma inspiração sobrenatural, como também sustentava que o próprio exercício
da crítica de arte levaria o ser humano à ação artística. Segundo esta
perspectiva, embora a figura do gênio ainda existisse, as suas condições de
existência pareciam bem diferentes, pois a arte se tornou um espaço tanto para
gênios quanto para diletantes
formados pelo gosto:
“A arte
é e permanece invenção; mas, se ela não nasce do nada, é inútil tentar inventar
sem antes ter recolhido uma grande quantidade de material. É verdade que a arte
é produto do gênio; mas o gênio não é distinto do gosto senão por ser
relacionado ao fazer, e não ao julgar; e se o gosto não tem origem sobrenatural,
mas é formado pela educação, o gênio também se forma e amadurece na experiência
(...). O gênio-gosto não pertence apenas ao artista, mas a todos que receberam
uma determinada educação: se essa faculdade, quando assume o nome de gênio,
estimula a fazer arte, não se entende por que essa permaneceria inerte quando
assume o nome de gosto” (ARGAN, 2010, p. 24-34).
Muito antes do conceito de sublime, tão caro ao Romantismo e Idealismo alemão, a pintura
iluminista da Inglaterra já se valera da noção de pictórico, combinada com a definição de argúcia (wit). E mesmo
antes que artistas como William Hogarth e William Blake movessem esses termos
em seus discursos, a ideia de argúcia já surgira na própria filosofia
britânica, quando Thomas Hobbes, John Locke, George Berkeley e David Hume já a
definiam como a “velocidade da imaginação”; e a “sequência rápida de uma ideia
à outra”. O que a poética inglesa fez foi reconhecer a beleza dispersa na Natureza, nas paisagens, nos cenários da vida social. E neste
sentido, a tarefa do artista seria a de organizar essas belezas em sua tela,
mais uma vez as imitando, e não as copiando.
A tela de William Hogarth, O Pintor e Seu Pug (1745) obviamente imita algo da Natureza, mas o
traço do pintor é intencionalmente embaçado, pois a pintura não significaria
mais o antigo esforço em ser fidedigna aos objetos contemplados pelo artista.
Analogamente, o cão está borrado na tela. A paleta do pintor contém a inscrição
The Line of Beauty; mas de maneira
irônica, a Linha da Beleza é uma
curva. O pintor se pinta diante do espelho, e traz consigo seu traje, tão
composto de curvas quanto a Linha da Beleza. Tão curioso quanto isso, é saber que
as criações de Hogarth foram lançadas muito antes dos quadros impressionistas
da França!
Argan demonstrou que no século XIX, a pintura
iluminista da Inglaterra começou a declinar, na medida em que os Pré-Rafaelitas
surgiam, advogando um retorno à pureza da vida e temas religiosos. Mesmo assim,
vários artistas importantíssimos e posteriores beberiam de fontes dos
iluministas ingleses: Goya teve contato com a pintura de Gainsborough;
Delacroix conheceu os trabalhos de Bonington. Não menos importante, os ingleses
contribuíram bastante para a renovação da estética francesa, até então bastante
marcada pela influência das formas e temas de Grécia e Roma Antigas, além do Neoclássico.
Um grande poeta francês como Charles Baudelaire, formou boa parte de seu
repertório artístico sob a influência da pintura iluminista inglesa. Se a noção
de pitoresco na Inglaterra foi capaz de aliar a beleza natural com a argúcia do
pintor e o seu entorno; posteriormente a tudo isso, Baudelaire definiria a Modernidade como “o transitório, o
efêmero, o contingente” (2007) – e onde o artista moderno deveria ser capaz de
pintar e captar essa transitoriedade,
efemeridade, contingência; imprimindo sobre ela o seu ar de eternidade.
REFERÊNCIAS
ARGAN,
G. C. A arte moderna na Europa: de
Hogarth a Picasso. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade: o pintor da vida moderna. São Paulo: Paz e
Terra, 2007.
Sempre houve e
sempre haverá questionamentos quanto aos filmes indicados e vencedores do
Oscar. Como em toda competição que premia filmes, o critério, na grande maioria
dos casos, é amplamente subjetivo, o que dá margem para todo tipo de crítica.
Já fui de acompanhar Oscar madrugada adentro, mas hoje em dia me conformo em
assistir até onde meu sono aguentar e a paciência aguentar com os números
musicais e discursos pra lá de enfadonhos (reconheço que com o passar do ano a
cerimônia ficou mais dinâmica, mas ainda sim demora por demais). No entanto, é
impossível escapar do “Evento” (com “E” maiúsculo mesmo) Oscar, pois toda mídia
de entretenimento está com os holofotes voltados para a cerimônia. Esse ano
resolvi que assistiria pelo menos todos os indicados para melhor filme e faria
alguns comentários sobre eles. Vamos lá então!
Boyhood- Da infância à
juventude – O diretor, Richard Linklater, optou por narrar a vida do
garoto Mason (o talentosíssimo Ellar Coltrane), como entrega o subtítulo em
português, da infância à juventude. Ao optar por utilizar o mesmo elenco
demorou 12 anos pra poder concluir as filmagens. O filme dá saltos temporais na
vida de Mason de forma que personagens secundários somem sem maiores
explicações e novos personagens vão surgindo à medida que o personagem cresce.
O que dá força dramática ao filme são os personagens com seus dilemas
existenciais, angústias, insegurança, felicidade e toda sorte de emoções às
quais nós, como seres humanos estamos sujeitos durante a vida. Destaque para o
diálogo na cena em que Mason deixa a casa de sua mãe para começar a faculdade.
Divide com Birdman o favoritismo para levar melhor filme. Possivelmente leva o
Oscar de coadjuvante para Patricia Arquette (numa interpretação magnífica). Tem
boas chances também no roteiro e direção para Linklater.
BIRDMAN ou A inesperada
virtude da ignorância - A probabilidade dos roteiristas terem escrito
o filme pensando exatamente em Michael Keaton é gigantesca (talvez eles já
tenham confirmado isso, mas não li). Os personagens pelos quais tanto Keaton
quanto seu alter ego no filme, Riggan Thomson, são marcados são super-heróis
(Birdman e Batman). O ano em que atuaram pela última vez em seus papéis
icônicos foi 1992. E Keaton, tal qual Riggan Thomson busca aclamação da crítica
com um novo projeto (Riggan com uma peça na Broadway e Keaton com o próprio Birdman).
A história gira em torno das dificuldades encontradas por Riggan para conseguir
montar a peça “What We Talk About When We Talk About Love” do escritor
americano Raymond Carver, já que além de ator ele também é o produtor da peça.
Assim como em “A noite americana” de Truffaut, o filme mostra todas as
dificuldades de se produzir arte (egos elevados, insegurança, medo constante do
fracasso, etc.). Para fazer uma ironia ainda maior com o fato de Keaton/ Riggan
serem marcados com super-heróis o diretor confere ao personagem alguns
“superpoderes”. Com uma excelente fotografia em tons escurecidos tem amplas
chances de ganhar. É favorito, junto com Boyhood, à estatueta de melhor filme e
Keaton é o favorito para melhor ator.
O jogo da imitação -
Baseado na vida do matemático Alan Turing, o filme resgata um período sombrio
durante a segunda guerra mundial, no qual os alemães conquistavam várias
capitais da Europa muito em virtude de uma máquina chamada ENIGMA, a qual todos
os aliados tentavam decifrar para captar as mensagens germânicas e evitar ataques
inesperados. Liderados por Turing (em ótima atuação de Cumberbatch), os mais
respeitados matemáticos da Inglaterra tentam de todas as formas “quebrar” a
criptografia da máquina. Aparentemente a história teria tudo para ser
entediante, mas o roteiro de Graham Moore e a excelente edição de William
Goldenberg dão ao filme o clima de tensão necessário para fazer do filme tanto
um drama (que explora a vida de Turing) com um eficiente thriller de espionagem. Tem fortes chances no prêmio de edição e
Cumberbatch corre por fora como ator, mas dificilmente ganhará.
A teoria de tudo– Apoiado numa excelente
atuação deEddie
Redmayne como famoso físico Stephen Hawking, esse filme tenta ser uma
cinebiografia de Hawking, mas é um melodrama dos mais chatos feitos nos últimos
anos. É inquestionável que um personagem como Hawking, que teve uma vida
realmente extraordinária, mereça uma cinebiografia, mas esse filme,
absolutamente, não faz justiça ao “personagem” Hawking. O filme, literalmente,
junta pedaços da vida do físico e explora ao máximo num tom cheio de
auto-piedade a vida da família Hawking. Enfim, é o típico filme que a academia
gosta, com uma história de superação das adversidades com uma atuação quase
“espírita” do ator principal. Pelo que vi em alguns sites Eddie Redmayne tem
boas chances como ator, mas o prêmio deve ficar com Michael Keaton
(Birdman).
Whiplash - Em busca da
perfeição - Na busca por um lugar como um dos melhores bateristas do
seu tempo, o jovem Andrew Neiman consegue uma vaga em uma das mais conceituadas
escolas de música dos EUA. Lá encontrará um professor de métodos quase sádicos
na busca por ser o descobridor do próximo grande músico de jazz. Com uma
interpretação não mais que excepcional de J.K. Simms como o professor Fletcher,
o filme tem os seus grandes momentos nos embates entre professor e aluno, cada
um ao seu modo tentando extrair o melhor da bateria. O filme também pontua uma
questão interessante: é preciso passar por uma espécie de “calvário musical”
para se tornar um grande músico (mais especificamente de jazz, como é o caso do
filme)? Barbada como ator coadjuvante, Simmons só perde se ocorreu uma
lobotomização coletiva entre os membros da academia.
Sniper americano - Clint
Eastwood é sem dúvida uma dos cineastas mais prolíficos em atividade. A média é
de quase um filme por ano. Não é de se espantar que com uma quantidade absurda
de filmes em tão pouco tempo a qualidade dos filmes caia. Foi o que aconteceu
com esse filme. A história gira em torno do atirador de elite Chris Kyle
(Bradley Cooper). Enviado para o Iraque após os ataques de 11/09 ele enfrenta
diariamente dilemas como quem e quando deverá matar (incluindo crianças) e
priorizar o exército/pátria em detrimento da família. O grande problema do
filme é o roteiro, que ao intercalar os períodos “em casa” e “em campo de
batalha” travam o filme de forma que nenhum deles engrena. Há também um tom
ufanista demais no filme, mas nada que já não se tenha visto em outros filmes
de Eastwood. O elenco tem atuações medianas. Não há realmente nenhum destaque.
Acho que a academia sentiu falta de Eastwood nas últimas premiações e deu essa
indicação só pra matar a saudade.
SELMA - O
filme não é uma cinebiografia do líder negro Martin Luther King, mas sim captura
um fato real ocorrido durante os anos de 1960, quando na cidade de Selma no
Alabama, cidadãos negros eram proibidos de votar pelas autoridades locais,
quando já havia uma lei federal que permitia o voto, embora fosse tão burocrática
que impedia, na prática, o voto dos negros. Há uma tensão permanente mostrada
nas conversas entre Luther King (David Oyetokunbo Oyelowo) e Lyndon Johnson
(Tom Wilkinson). A tensão racial explode na primeira tentativa de fazer uma
marcha entre Selma e Montgomery (distantes 75km). A cena do ataque das
autoridades contra os negros desarmados é de um apuro visual único.
Estranhamente, Tim Roth, que interpreta o governador do Alabama, George Wallace,
não foi indicado a coadjuvante. Apesar do elenco muito bem entrosado deve sair
de mãos vazias.
O GRANDE HOTEL BUDAPESTE – Ótimo trabalho do sempre talentoso
Anderson. Narrado em grande parte por flashbacks pelo antigo carregador de
malas do hotel e hoje dono dele (F. Murray Abraham), a história gira em torno do
Grande Hotel Budapeste (fictício) e as dificuldades e para mantê-lo ativo até
hoje. O filme é narrado num tom de aventura, cheio de reviravoltas e mostra
toda a astúcia utilizada pelo gerente do hotel (Ralph Finnes) para proporcionar
o melhor aos clientes mesmo em tempos de guerra. Dono de um apuro visual
espetacular deve levar sem maiores dificuldades o prêmio de direção de arte.
Tem grandes chances também em fotografia e edição, mas dificilmente levará os
prêmios principais.
Meus favoritos:
Melhor filme: Boyhood
Melhor diretor: Richard Linklater
(Boyhood)
Melhor ator: Benedict Cumberbatch (O
jogo da imitação)
Melhor atriz: Não tenho favorita,
pois só vi uma das indicadas.
Melhor ator coadjuvante: J. K.
Simmons (Whiplash)
Melhor atriz coadjuvante: Patricia
Arquette (Boyhood)
Melhor roteiro: Birdman
Melhor roteiro adaptado: O jogo
da imitação
E você? Tem algum favorito? Mande
sua lista nos comentários do blog.
Na primeira coluna do ano, os editores
do blog comentam Great Western Valkyrie,
o último trabalho da banda californiana Rival Sons.
Boa leitura!
- Fernando Lucchesi:
O
ano de 2014 trouxe duas grandes surpresas, uma de cada lado do Atlântico.
Primeiro os ingleses do duo The Royal Blood, o qual foi objeto de análise por
mim no blog e em segundo a banda californiana Rival Sons e o seu Great Wester Valkyrie. Ambas possuem uma
gama de referências que têm sua base no Blues, embora não necessariamente
fossem bandas de blues puro, mas que o usavam como mais um ingrediente. Outra
característica comum a ambas é a capacidade de compor músicas pesadas sem esquecer a importância da melodia.
Em
Great Wester Valkyrie, a banda
utiliza como referência musical primeira o Led Zeppelin. Secret remete a How Many More
Times com seu riff hipnótico
conduzido pelo baixo e a voz cheia de efeitos vocais para lembrar o Plant dos
primórdios do Zeppelin. Além de Open My Eyes
ter sua abertura tirada descaradamente de When
the Levee Breaks mais uma vez o vocalista, Jay Buchanan, soa por demais com
Robert Plant. Embora o Led Zeppelin seja a mais notória referência há várias
outras perceptíveis em outras faixas do disco como The Who em Belle Star e até mesmo Suzy Quatro em Play The Fool. O disco se mantém
consistente até a faixa oito. As duas últimas músicas são as quase inevitáveis
baladas que qualquer banda de rock insiste em colocar em seus discos. Ambas, Where I´ve Been e Destination On Course, têm ótimas melodia, no entanto, a banda as
trata como épicos de seis ou mais minutos sem a menor necessidade. Excluindo
esse pequeno deslize, não tenho dúvida em afirmar que o disco é um dos melhores
lançamentos do ano de 2014.
- Giba Carvalho:
Great Western Valkyrie veio para firmar o Rival Sons no
patamar de bandas relevantes da atualidade. Forjado em rock setentista, o
quarto álbum dos californianos é um convite dos mais agradáveis e instigantes
aos fãs do bom e velho rock n´roll. Vocês podem pensar – “Ah, isto soa datado!”
É verdade! Afinal, todos sabemos que existem bandas que apenas copiam um
determinado estilo e outras (cada vez mais raras), que utilizam os mesmos como
base para desenvolver seu trabalho. Com letras contundentes e desempenho seguro
dos músicos envolvidos, o quarteto impressiona exercendo todo seu glossário
“old school”.
Neste
novo álbum, encontramos doses cavalares daquilo que todo apreciador do estilo
gostaria de encontrar: a “cozinha” robusta formada pelas baquetas furiosas de
Mike Miley e as frases de contrabaixo do estreante David Beste. O espetacular
Scott Holiday, guitarrista extremamente impetuoso, de riffs marcantes e solos
lisérgicos. E Jay Buchanan, frontman
que não possui receio de cantar. Um “monstro” da nova geração! No faixa a
faixa, temos:
Eletric
Man - que abre o
disco explodindo com vigor! Um hard-rock clássico em potencial e elegância!
Good
Luck – é a música
onde o RS sai um pouco do rock setentista e viaja a fase antecessora a ele. Com
uma verdadeira aula de canto de Jay Buchanan e ritmo espetacular. Este é um
rock n´roll em sua mais pura concepção.
Secret – lembrando bastante a época áurea do
Deep Purple. Vocais explosivos, rasgados e muitíssimo bem-postados. E uma
performance avassaladora de Mike Miley nas baquetas. Uma pedrada para nossos
ouvidos!
Play
the Fool – esta é
a música do disco onde os instrumentos reinam. A junção entre os riffs
espetaculares de Holiday e a versatilidade Miley são um espetáculo a parte.
Arrisco até afirmar que pode ser considerado um tributo a John Bonham, dada a
quantidade de variações e vigor na execução.
Good
Things – é onde o
estreante da banda mais aparece. David Beste guia a primeira canção não-usual
do álbum, marcando com seu contrabaixo. Neste caminho, ele é ladeado por um
Hammond e pela variedade “infindável” de frases de Holiday e sua Gibson Firebird.
Open
My Eyes – 98% dos
ouvintes dirão: “parece com o Led Zeppelin.” Eu digo – “pode até parecer, mas
parece mais com Audioslave.” Bateria marcada, riff garage pegajoso, vocal sem nenhuma modéstia. Isto já resumiria
bem esta canção, não faltasse um detalhe. É nela que encontramos o melhor solo
do espetacular Scott Holiday.
Rich
and The Poor –
imagine uma pausa para respirar. É exatamente isto que pensei em todas as
audições do disco. Mas, não pense você, que estamos falando de um momento
menor. A banda entra no primeiro momento sombrio do disco. Guitarra pesada,
acompanhada de execução psicodélica de teclado e o restante do conjunto (voz,
baixo e bateria) tecendo frases em cima desta cama.
Belle
Starr – esta foi a canção onde mais identifiquei a “presença”
Zepelliniana. Notadamente, mais parecida com a fase do álbum “Presence”. Inicia
exuberante, acelerada, furiosa e, repentinamente, mergulha nas nuances de um
céu giz. E o ciclo é formado nas idas e vindas desta performance grandiosa da
tríade – bateria, voz e guitarra.
Where
I´ve Been –
senhoras e senhores, estamos falando de um Blues! Consequentemente, a dupla
Holiday e Buchanan volta à supremacia. Primeiro, pelo destaque das linhas de
guitarras presentes em todos os espaços da gravação e, segundo, por todas as
variáveis apresentadas por Jay.
Destination
on Course –
Intensidade! Para finalizar um grande disco, nada mais justo do que uma
execução épica. São 7 minutos de uma composição mais lenta que trás a tona toda
criatividade do quarteto. Além disto, é nesta canção, que encontramos um
trabalho de voz oriundo de um coral feminino, que causa mistério e nos remete
ao canto das “Valquírias” num campo de batalha e presente no nome do disco.
De
acordo com a mitologia nórdica, as “Valquírias” eram belas mulheres loiras que,
montadas nos seus corcéis alados, escolheriam os guerreiros para vida e morte.
Os que fossem escolhidos teriam o direito de entrar em Valhala (a morada de
Odin). E, voltando para o ramo musical, tenho certeza de que elas escolheram o
quarteto estadunidense. Não estou falando de um álbum comum. Estou falando do
melhor disco de rock n´roll de 2014.
Se
você quer ouvir uma banda que possui as melhores referências, que procura
renovar-se, que experimenta e tem tesão em tocar, estás no caminho certo!
- Rógeres Bessoni:
Que
alívio e que injeção de combustível nas veias saber que o rock and roll ainda
reverbera na face da terra! Eu ainda estou agradecidamente sem palavras para o
trabalho do Rival Sons – notadamente, seu álbum mais recente, GREAT WESTERN VALKYRIE, o quarteto da
banda e ao qual se dedica esta coluna. Porque é muito bom ouvir um trabalho
novo trazendo de volta à tona o rock and roll velho e bom. Uma banda surgida
após o ano 2000 que finalmente não soa como uma ressaca do grunge nem uma tentativa
de fazer “hip hop and roll”. Não. Até que emfim, rock and roll visceral novinho
em folha. Já tomei umas cervejas pra comemorar, mas ainda merece outras. Isso
por muitos motivos, mas, sobretudo, por uma coisa fantástica de se ver e de se
passar para as novas gerações, criadas em apartamento, tomando toddynho e
comendo pera com leite: Great Western
Valkyre é uma enciclopédia de rock and roll, meus caros. Um apanhado
fantástico que mostra uma maturidade ímpar em bandas da atualidade. Nada de
sons histéricos de adolescentes quarentões dando “piti” no palco, nada de
melodramas pseudo-engajados, nada de saudosismo estéril, fazendo covers de
músicas já executadas 45 bilhões de vezes no planeta. Nada disso. Os caras
conseguiram encher o matulão com toda a substância do que houve de melhor em 50
anos de rock e CRIARAM a partir disso. O disco é realmente autoral e apresenta
toda essa bagagem em uma característica genial: o trânsito por praticamente
todos os estilos do rock – excetuando o universo do metal. Está tudo lá, do
psicodelismo californiano até o hard rock; do blues pesado ao progressivo. O
som dos caras mostra uma banda realmente adulta, que ouviu muito rock and roll,
assimilou tudo E SOUBE O QUE FAZER com toda essa informação. Em alguns
momentos, há trechos que se aproximam demais de canções conhecidas, mas eu,
particularmente, não vi nenhuma “ameaça” de plágio ou sequer imitação. Ouvi foi
referências sólidas e embasadas, mesmo, em que os caras demonstram que sabem o
que ouviram e sabem o que estão fazendo. Um rápido passeio pelas faixas do
álbum nos leva por esse banquete gordo, e assim começamos, ressaltando os
principais traços, assim como saltaram aos meus ouvidos. Deixo claro que não
pretendo fazer uma radiografia detalhada e “exata” das músicas; vou falar como
se conhecesse a formação musical dos integrantes da banda (coisa que não
conheço), mas apenas como recurso literário pra indicar, numa primeira vista, a
que estilos para os quais as canções me levaram e tudo o que entendi como
material processado e recriado, e aqui vai:
1 – Em Eletric Man temos de cara uma porrada de
levada totalmente zeppeliniana, no melhor estilo Nobody's Fault but Mine” e The
Ocean, com Jay Buchanan soltando o berro com um swing chegado a Robert
Plant, mas também com a pegada feroz de Ian Guilan;
2 - Good Luck nos traz uma introdução e
refrão com o balanço dos Stones, pra descansar e uma linha melódica macia, mais
suave, com textura, pra mim, dos domínios de David Bowie;
3 - Secret, uma das mais fuderosas pra mim,
traz uma mistura perfeita, perfeita, de Canned Heat e The Doors, num blues
psicodélico pesado, com a inesquecível e irresistível levada anos 60, vocais
furiosos, na medida certa entre Bob “The Bear” Hit e Jim Morrison, guitarra e
baixo unidos num riff detonador, à la Roadhouse
Blues e um solo totalmente digno da apresentação do Canned Heat no
Woodstock;
4 - Play the Fool, com um riffs simples que gruda na cabeça, reúne
uma gama de sons típicos do fim dos anos 70 e começo dos 80, se aproximando do
punk em alguns momentos, e, em outros, do pop rock mais juvenil do começo dos
anos 80;
5 - Good Things, outro ponto alto do disco
pra mim, volta à batida da transição dos 60 para os 70, com arranjos de
teclados mais uma vez lembrando The Doors, e os vocais, pontuados com a
guitarra, ficam bem próximos de Alvin Lee e da vibe Ten Years After;
6 - Open My Eyes, começando com uma batida
também zeppeliniana, com Mike Miley trazendo a sonoridade de “When the levee
breaks” à tona, apresenta ainda um riff com todo o traçado de Tom Morello,
fazendo a música explodir no melhor estilo Audioslave;
7 - Rich and the Poor (talvez a minha
preferida), com uma melodia séria, meio down, uma levada firme, vocais com eco
e a guitarra, também com eco nos arranjos (além de suas características
melódicas), nos jogam de volta às referências sessentistas. Mesmo numa voz
masculina, é das veia interpretativa e dos traços melódicos que falo: várias
vezes me pareceu ouvir Grace Slick! Um Jefferson Airplane mais pesado, com as
possibilidades tecnológicas de hoje, mas com a mesma vibe do começo do
psicodelismo californiano. Levei com isso uma porrada, fiquei aturdido e
atônito: é mais que uma joia rara esses sons voltarem a explodir, com todo
vigor, em um trabalho autoral, em pleno ano 2014!
8 – Ainda
no fim dos anos 60, Belle Star não só
continua trazendo elementos do rock psicodélico como, mais uma vez, trouxe
outra grande surpresa. No trecho mais lento, até o Fairport Convention parece
ser lembrado;
9 - Where I've Been, com andamento de blues
e linha melódica mais country, revive momentos do The Eagles e da tradição das
grandes baladas do gênero;
10 – E,
para terminar um grande álbum numa obra vigorosa, apropriadamente um grande
final, os caras, depois disso tudo, entram numa súbita e competentíssima viagem
progressiva! Aqui, Buchanan se supera. Os vocais, num tom cinzento e
melancólico, vão às raias de Peter Hammil, e não apenas. À grandiosidade da interpretação
vocal, se segue a das melodias de guitarra, crescendo com vigor até desaguar
num momento “Echoes”, mostrando direitinho o que Scott Holliday aprendeu com
Gilmour.
E
isso são apenas as minhas primeiras impressões. Caberia uma análise para a performance
de cada integrante, assim como uma viajada pelas letras, mas não é o objetivo e
nem o espaço para tanto. As associações que fiz foram totalmente livres e quero
deixar assim, em aberto, para que cada um faça as suas. Mas fica, sobretudo, a
dica para que curtam esse trabalho raro no mundo rock contemporâneo. Como
falei, numa boa, vou abrir outra cerveja e degustar esse alento.
- Bruno Vitorino:
O rock ‘n roll está em crise. Parece
clichê, não? E, de fato, é! Admito o lugar comum de minha sentença, mas o que é
o rock hoje senão uma mescla de um amontoado de obviedades embaladas pelo
discurso do “novo”, velhas referências musicais datadas e explosões mercadológicas
de efemeridade inútil? Vemos, meus caros, aos montes bandas que se valem dessa
tríade do conformismo estético para se apresentar diante de um público inocente
que ainda acredita no caráter redentor do rock ‘n roll e o enxerga vivo e producente.
Isso para não falar dos “dinossauros” fossilizados pela mesmice que, há muito desprovidos
de suas fontes criativas, circulam o mundo requentando repertório, brindando assim
a humanidade com o tão precioso culto ao espetáculo.
Nesse sentido, parece-me cada vez mais
clara uma espécie de dicotomia patológica que assola o gênero em nosso tempo: por
um lado, deparamo-nos com inúmeras bandas adolescentes que pululam no mainstream com seu rock à High School Music com sua rebeldia de shopping center e letras vazias sobre os
dilemas da adolescência contemporânea – namoricos, redes sociais, carência
afetiva e aquele desejo enorme de chamar a atenção para si; do outro,
encontramo-nos com as incontáveis “viúvas de Woodstock” que tentam emular, do
figurino ao discurso, passando pelo jeito de empunhar os instrumentos, até
finalmente chegar à sonoridade da banda, aquela atmosfera perdida do rock clássico
dos anos 1960/70. Em ambos os casos, o resultado musical é idêntico: o desnecessário.
Contudo (e sei que isso pode me levar a ser mal compreendido), pelo menos com
os adolescentes temos alguma verdade, pois, sem perceber, sua música denuncia a
grande alienação que se apoderou do ideário de uma juventude inteiramente desvinculada
de sua realidade, ou seja, a sua música, verdadeiramente, diz nada sobre lugar
algum. “E isso é bom desde quando?”, vocês se perguntam. Claro que não o é!,
mas é exatamente isso que estamos vivendo agora: o completo esvaziamento das
manifestações humanas de suas dimensões Culturais em prol do modismo transitório.
As bandas juvenis ao estetizarem essa perspectiva, pelo menos, tornam-na um
testemunho inconteste de seu tempo, ainda que sombrio. Já os saudosistas, ao
simplesmente se embrenhar no passado, nada o fazem além de rescender a mofo. E é
justamente nessa segunda categoria que a banda californiana Rival Sons se
enquadra.
Por
essas razões, poderia resumir brevemente Great
Western Valkyrie, último trabalho do quarteto, dessa forma: uma base sonora
formada pela justaposição de Jefferson Airplaine, Ten Years After e The
Yardbirds, que recebe uma estrutura musical inteira e descaradamente copiada do
Led Zeppelin, finalizada com figuras decorativas extraídas de Pink Floyd e,
quem sabe, também do Moody Blues. Electric
Man e, especialmente, Secret, com
seu riff sugado de How Many More Times do Zeppelin, e Open My Eyes, que parece ter nascido do
solfejo de Robert Plant no meio de The
Ocean, são ótimos exemplos dessa miscelânea artificial que, mais do que
reverenciar as tradições do rock e consagrar-se panegírico, expõem o elevado
desgaste do estilo em nossos dias. Os bons momentos do disco ficam por conta de
Play The Fool e sua inesperada mudança
de andamento que dá o clima perfeito para o solo da guitarra e a balada Good Things; justamente, vale ressaltar,
as canções em que a banda não se ocupa tanto em imitar o Zeppelin e reviver o
passado, valendo-se das raízes do rock enquanto ponto de partida e não no fim
em si. Imagino que se a Rival Sons tivesse feito isso ao longo do disco - obviamente levando em consideração também suas qualidades enquanto instrumentistas -, este teria sido bem mais interessante.
De resto, parafraseando Fernando Pessoa, como "estou farto de embusteiros", diria que é um disco para ser ouvido com parcimônia da
lucidez, sem o ouvido deslumbrado e impressionável da carência musical.
- André Maranhão:
Great Western Valkyrie é um bom disco. Não é um álbum
concentrado em um só artista. Toda a banda parece bastante entrosada e nenhum
instrumento monopoliza faixas. Jay Buchanan (vocal); Scott Holiday (guitarra);
Dave Beste (baixo); Michael Miley (bateria) – todos estão bem no mais novo
projeto dos Rival Sons. Logo de cara, a escolha de Electric Man e Good Luck
para abrirem o disco foi muito feliz. Na primeira, há um rock incisivo, com
personalidade; enquanto a segunda é uma balada animada, repleta de drives, solos legais e com um refrão
daqueles que grudam. Play the Fool
traz uma conversão de ritmos entre 1’50’’ e 2’42’’ sensacional. Good Things me remeteu a canções legais
dos anos 1960 com a presença de Ikey Owens frente aos teclados. Em Where I’ve Been, muita coisa boa da
música norte-americana parece estar condensada na faixa: Blues, Rock, Country,
Gospel, Rhythm and Blues... Os teclados reaparecem bem encaixados, dessa vez
através de Mike Webb. Há outras canções que não chamaram tanto minha
atenção: Secret; Open My Eyes; Rich and The
Poor; Belle Star e Destination On Course. Os motivos
variam: ou pelo vocalista exagerar nos gritos, ou pelas faixas soarem longas,
ou simplesmente pelas linhas melódicas e harmonias não me empolgarem. Apesar de
estas cinco faixas corresponderem a 50% do disco, ainda assim, insisto em
considerar a boa qualidade de Great
Western Valkyrie, visto que os outros 50% que me chamaram a atenção
compensam por demais!
Há muito tempo que uma parte da
Filosofia se esforça em definir as coisas do Mundo a partir da Lógica. Se um
pensador como Aristóteles (384-322 a.C) já se ocupara em explicar logicamente “o
que é o Homem”; outros nomes como Avicena (980-1037) e Tomás de Aquino (1225-1274)
foram capazes de escrever alguns tratados para provar que toda substância do
Universo provém de uma causa: Deus; por sua vez, o único ser perfeito que não
necessita de uma causa para existir. De lá pra cá, a Lógica se estabeleceu como
uma forte tradição filosófica capaz de abordar diversos temas, e, portanto, era
mais do que esperado que a Arte se tornasse um objeto de debate entre os
pensadores lógicos.
O pensamento lógico se
fortaleceu amplamente numa tradição anglo-americana da Filosofia (sobretudo no
Reino Unido e Estados Unidos) conhecida como Positivismo Lógico ou Filosofia
Analítica. Já no século XX, um dos autores mais preocupados em problematizar a Arte
a partir de algumas bases lógicas foi Nelson Goodman (1906-1998), cujos estudos
abordaram várias linguagens da arte e símbolos diferentes – letras, palavras, textos, imagens,
diagramas, mapas, modelos e muito mais (GOODMAN, 2006, p. 9). Obviamente, Goodman
reconhecia que nem tudo que é simbolizado está fora do símbolo. Porém, não
apenas as obras que representam a natureza ou que remetam a algo pitoresco e
figurativo são simbólicas. Uma pintura abstrata, por exemplo, pode expressar e
simbolizar sentimentos, emoções ou ideias esteticamente válidos. Ora, tal
afirmação levou Goodman a perceber que a própria tentativa de separar o que
interno do que é externo em uma obra de arte é algo notoriamente confuso; tão
confuso como tentar separar os ingredientes de um bolo depois que este bolo já
está pronto!
Mas talvez, uma dos problemas
mais polêmicos (e não menos interessantes) levantados por Goodman diz respeito
à definição de Arte, afinal, o que é Arte? Seria a simples definição daquilo
que o artista diz ter criado; do que alguns doutos mais elitistas julgam ser
uma “boa arte”; ou o fato de algum objeto ser exposto numa galeria? De acordo
com Goodman, nenhuma dessas justificativas é suficientemente forte para definir
o que é Arte porque, logicamente, qualquer definição de arte é incompleta. Neste
sentido, a pergunta mais proveitosa a ser feita não é “o que é arte?”, mas
“quando há arte?” – em outros termos – quando um objeto é ou está sob a
condição de obra de arte?
Para estimular ainda mais
algumas reflexões sobre o tema, gostaria de encerrar com alguns fragmentos e exemplos
escritos de Goodman:
“A
pedra normalmente não é uma obra de arte quando está no caminho, mas pode sê-lo
quando é exibida num museu de arte (...). Por outro lado, uma pintura de
Rembrandt pode deixar de funcionar como uma obra de arte quando é usada para
substituir uma janela partida ou como uma cobertura (...). As coisas funcionam
como obras de arte apenas quando o seu funcionamento simbólico tem certas
características (...). A pintura de Rembrandt permanece uma obra de arte, tal
como permanece uma pintura, quando funciona apenas como cobertura; e a pedra do
caminho pode não se tornar estritamente arte por funcionar como arte.
Analogamente, uma cadeira continua a ser uma cadeira ainda que ninguém se sente
nela, e um caixote continua a ser um caixote ainda que nunca seja usado senão
para nos sentarmos em cima dele. Dizer o que a arte faz não é dizer o que a
arte é, mas considero que o primeiro aspecto é que tem importância primária e
peculiar (...) passei a dar atenção ao que a arte faz, em detrimento da questão
de saber o que é arte (...). Um objeto pode simbolizar coisas diferentes em
momentos diferentes, e nada noutros momentos (...). Em vez de a arte ser perene
e a vida curta, talvez ambas sejam transitórias” (2007,
p. 130-133).
REFERÊNCIAS
GOODMAN, N (2006). Linguagens da arte: uma abordagem a uma
teoria dos símbolos. Lisboa: Gradiva.
_____ (2007). Quando há
arte? In D’OREY, C (org). O que é arte?: a perspectiva analítica. Lisboa: Dinalivro,
pp. 119-133.
Desculpem, pessoal, não percebi que precisava tanto de vocês
Eu achei que conseguiria atingir um novo público
Esqueci que música disco é um saco
Acabei sem ninguém e comecei a me sentir mal
Talvez eu deva tocar a guitarra solo
E Pat tocar bateria
Me leve de volta, de volta para a cabana
De volta para a Stratocaster com correia de raio
Chutar a porta, mais hardcore
Fazendo rock como se fosse 1994
É
com este pedido de desculpas aos fãs, que o Weezer ressurge após 13 anos de
experiências de irrelevância absoluta com sua própria música. Obviamente que
não podemos esperar um “milagre” dos “rock-nerds”, mas “Everything Will Be Alright
in the End” traz o grupo de volta aos bons discos. E isto é de suma importância
num mundo onde as famigeradas “playlists” e os “singles” reinam em absoluto.
Parecendo
compreender o rumo que a carreira da banda estava tomando, Rivers Cuomo (líder,
guitarrista e principal compositor da banda) não poupou nomes em parceria para
o processo de composição do novo trabalho. E, por mais que estes nomes soem
estranhos para os fãs de qualquer vertente rock, o resultado foi bastante
satisfatório. Em “Back to the Shack” (primeiro single do álbum) temos a mão de
Jacob Kasher, parceiro de Kylie Minogue. É logo no primeiro single do disco que
percebemos claramente que os bons tempos voltaram. Guitarras pesadas e marcadas
relembram o “Green Album” (2001) e temos a explicação: o novo trabalho é
produzido por Ric Ocasek que trabalhou com o Weezer no álbum supracitado e no
“Blue Album” (1994). Parceiro de artistas deletérios tais como – t.A.t.U, Demi
Lovato e Paris Hilton (existem adjetivos mais apropriados do que artista para
defini-la), Josh Alexander aparece em duas canções do disco – “Lonely Girl” –
que é praticamente uma volta ao início do grupo (mais do mesmo) e “Da Vinci” –
que possui um arranjo extremamente confuso, muito embora grude “terrivelmente”
na cabeça.
Dando
continuidade as parcerias, faço uma pergunta aos leitores do blog: “alguém
lembra aqui daquela banda pavorosa de ‘metal arriação’ chamada The Darkness?”
Pois bem, a música que tem tudo para cair nas graças do público é – “I´ve Had It
Up to Here”, justamente a parceria com Justin Hawkins, vocalista e guitarrista
deste falecido grupo. Esta canção traz novamente à tona a competência que o
Weezer possui de mesclar aquele rock “farofinha” com indie pop “algodão doce”.
Na busca por diversificação ou inspiração em outrora, encontramos mais duas
parcerias de qualidade neste trabalho. “Go Away” que foi composta e cantada por
Bethany Cosentino do duo californiano - Best Coast, é o clássico indie pop de
qualidade, com nível de sacarose elevado e sem firulinhas. Além do pop vigoroso
de “Eulogy for a Rock Band” (a minha preferida) em parceria com a banda OZMA.
O
lado compositor solitário de Cuomo também foi explorado. “Ain´t Got Nobody”,
que abre o disco, inicia misteriosa, contida e termina numa explosão imensa
(nada de novo se analisarmos vários outros álbuns lançados no decorrer de
2014), “Foolish Father” que é o acerto de contas entre o vocalista e o pai e a
trilogia final – “The Waste Land”, “Anonymous” e “Return to Ithaka”. Esta, não
passa de uma “chupação” bastante usual que várias bandas contemporâneas andam
fazendo. Juntam três músicas instrumentais (com raros momentos cantados) como
se as mesmas fossem movimentos de um Concerto de Música Clássica e proporcionam
aos fãs orgasmos múltiplos com tais “brincadeiras” pseudo-eruditas.
O
Weezer, quando estava no auge, sempre foi uma banda de segundo escalão, mas,
pelo momento vivido pelo rock mundial, temos que vangloriar e apoiar todo
trabalho novo de valia. “Everything Will Be Alright in the End” é um álbum coeso, rico em melodias simples
(marca registrada da banda) e merece destaque dentre os lançamentos de 2014
mesmo mostrando um Rivers Cuomo levando a banda praticamente só.
O Jornal do Commercio publicou ontem (04/01) no Caderno C
uma extensa matéria sobre a recém-lançada caixa do Miles Davis Quintet, “All of
You: The Last Tour 1960”. Realmente, este lançamento é importante, já que
documenta um período histórico muito interessante do combo, em que se ouve um
Coltrane alucinado (e incompreendido) com suas frases incendiárias - as
chamadas "sheets of sounds" -, experimentando progressões harmônicas
intrincadas em plena improvisação e tendo total liberdade para transitar pela
forma dos temas o quanto quisesse; e um Miles Davis que, se por um lado rompia
com a tradição do hard bop estabelecendo os alicerces do jazz modal com sua
linearidade e uso dos espaços, por outro não abria mão de standards conhecidos
em seu repertório, sempre focando, contudo, no risco e na espontaneidade
durante as performances.
É realmente incomum se deparar com um jornal pernambucano
dando espaço ao jazz, essa música, via de regra, tão incompreendida e desprestigiada
pelos grandes veículos de comunicação, e ter elaborado comentários a respeito
de um lançamento notável e de artistas fundamentais para a música popular do
século XX. Eis o mérito do artigo. Para isso digo: bravo!
No entanto,
deparei-me com algumas inconsistências ao longo da matéria, de modo que tomei a
liberdade de fazer algumas considerações que me parecem necessárias:
1) O autor do texto
cita o caso em que Miles agride Coltrane nos bastidores e diz que "o
saxofonista simplesmente foi embora". Não foi bem assim. Essa agressão
famosa, digamos assim, no mundo do jazz aconteceu no "Café Bohemia"
em outubro de 1956. O fato é que Miles ficou irritado com Coltrane, pois ele
estava chapado de heroína, moribundo em pleno palco (em alguns momentos,
cochilando) e errando as músicas. No intervalo entre os sets dessa gig, Miles
perdeu a paciência e bateu em Coltrane, que estava ainda sob os efeitos da
droga. No instante em que essa cena ocorreu, Thelonious Monk, que teve uma
rusga séria com o trompetista logo após o Newport Jazz Festival de 1955, estava
no camarim, viu tudo e disse para o saxofonista: "Você não precisa passar
por isso. Venha tocar comigo". Mas, isso só aconteceu em abril de 1957,
quando Miles finalmente demitiu Coltrane por conta dos problemas com a heroína,
e este se juntou ao quarteto do pianista. Miles fala desse episódio em sua
autobiografia "Miles Davis: A Autobiografia", escrita em parceria com
o jornalista/poeta Quincy Troupe; o texto no encarte do disco "Thelonious
Monk Quartet with John Coltrane at Carnegie Hall" também menciona o
acontecimento; e, por fim, a biografia de Monk, "Thelonious Monk: The Life
and Times of an American Original", também discorre sobre o caso.
2) O texto diz que
"era evidente que Coltrane já havia criado seu próprio tipo de
blues". Ao que parece, a intenção do jornalista neste trecho era promover
uma espécie de trocadilho ou referência implícita entre “seu próprio tipo de
blues” e “Kind of Blue” (e não Blues como está escrito em duas ocasiões), o
icônico disco do Miles; mas dizendo, no fim das contas, que o saxofonista já
encontrara sua identidade artística. Certo. Porém, em termos estritamente
musicais, no que diz respeito ao gênero, Coltrane era tradicionalista,
respeitando muito a "forma blues" - seus 12 compassos, seus pontos de
apoio harmônicos, sua estrutura melódica na construção temática -, portanto, a
rigor, ele não "criou seu próprio blues". A única exceção a essa
rigidez na arquitetura sonora talvez seja um tema dele chamado "Locomotion" -
que por sinal é de 1957, do obrigatório álbum "Blue Train" -, em que
ele sobrepõe à forma blues clássica o turnaround disfarçado da estrutura
"rhythm changes" no “B” (ou seja, insere uma seção de dominantes
estendidas em movimento cromático descendente - Ab7 / G7 / Gb7 / F7), e termina
a música sem resolver na tônica (Bb7), aterrissando na V (F7) após um giro
harmônico descendente. Todavia, ainda assim ele não inventa uma nova estrutura
blues, e sim acrescenta-lhe outra.
3) Num outro
momento, o texto traz: "antes de partir para a turnê, o saxofonista lançou
o álbum Giant Steps, em que muda de tenor para sax alto". Nada mais
absurdo! Coltrane não muda para o alto nesse trabalho! Na realidade, este fora
o seu instrumento de aprendizado quando muito jovem e tocava em bandas de
rhythm’ n’ blues nos anos 1940. Mudou para o tenor influenciado por Lester
Young. No entanto, Coltrane passou a tocar sax soprano na virada dos anos
1950/60 por conta do impacto que lhe causou Steve Lacy, que tocava
exclusivamente o soprano, alternando-o eventualmente com o sax tenor. O disco
"Avant-Garde", gravado em 1960, mas só lançado posteriormente, traz o
primeiro registro desse instrumento por parte de Coltrane na música "The
Blessing".
Além do mais, a
relevância histórica de "Giant Steps" se dá pelo inédito horizonte
harmônico que Coltrane abre ao inserir no jazz o sistema de tônicas
desenvolvido por Nicolas Slonimsky, que, a grosso modo, tratava-se de dividir
matematicamente a oitava de uma tonalidade em partes iguais (2, 3, 4, 6 ou 12
partes), estabelecendo "centros tonais" interdependentes (com o mesmo
peso de "fundamental" na progressão), interligados por acordes
cadenciais. O tema "Giant Steps", por exemplo, é dividido em três
partes com os centros sendo Sol Maior, Si Maior e Mi Bemol Maior, num ciclo que
se poderia repetir ad infinitum.
4) Ao final da
matéria, encontra-se: "...enquanto Coltrane começaria sua revolução que,
infelizmente, não se sabe até onde chegaria. Foi interrompida em 1967 pela
heroína que quase termina a carreira de Miles nos anos 50." Errado!
Coltrane se livra do vício no entorpecente durante o ano de 1957 (justamente
quando começa a tocar com Monk) depois de ter quase chegado ao fundo do poço.
Ele fala sobre a epifania que foi se livrar da dependência da droga inspirado,
segundo ele, pela força divina no texto que escreve para sua obra-prima "A
Love Supreme". Coltrane morre em 1967, dez anos depois de estar livre da
heroína, em decorrência de um câncer de fígado. Há quem atribua a doença a
abusos de álcool e narcóticos, enquanto outros chegam a mencionar inclusive o
esforço sobre-humano que Coltrane fazia durante seus longos e intensos
improvisos, mas são apenas ilações.
5) Por fim, sendo
um tanto quanto detalhista, é "Bitches Brew", e não Biches, sem o
“t”, como está escrito no artigo.
No mais, a matéria é bastante oportuna. Só acho,
humildemente, que um pouco de acuidade tanto na pesquisa quanto na escrita não
faz mal a ninguém.
Arte de capa de Sonic Highways, novo álbum da banda Foo Fighters.
A última postagem do ano marca, além do
retorno da coluna Variações em 5/4, a primeira colaboração de nosso novo
integrante, o senhor Rógeres Bessoni. Nesta edição da coluna, os editores do
blog lançam um olhar coletivo sobre Sonic
Highways, o mais recente disco da banda Foo Fighters.
Aproveitando o ensejo, desejamos a todos
os que nos acompanham um 2015 excepcional, repleto de saúde, alegrias e
conquistas, pautado sempre na plenitude humana que dá sentido a essa breve
marcha ante ao desconhecido que chamamos de vida.
Boa leitura!
- Giba Carvalho:
Expectativa.
Sem sombra de dúvidas, esta foi a palavra que mais permeou a minha mente com
relação a Sonic Highways, novo
trabalho do Foo Fighters. E isto é completamente compreensível visto que, ele é
o sucessor de Wasting Light, melhor
disco de rock n´roll da década até o momento.
Grohl
e seus companheiros caíram na estrada num mergulho em busca de influências
históricas para a concepção do novo trabalho. De fato uma ideia
interessantíssima! Aproveitaram a oportunidade e, além do disco, gravaram um
documentário de oito capítulos para o canal HBO, que mostra toda a criação do
novo álbum e as passagens por – Chicago, Washington DC, Nashville, Austin,
Seattle, Los Angeles, Nova Iorque e Nova Orleans. Este é um ponto específico
que pode tornar-se negativo no novo trabalho. Caso as pessoas não venham a
assistir ao documentário, não saberão ao certo sobre a passagem por estes
estados e todo processo de gravação desenvolvido e executado. E tem
explicação. Mesmo flertando com o hard-rock, punk, grunge e algumas pitadas de
progressivo, Sonic Highways soa como
“apenas” mais um trabalho do Foo Fighters. É a velha “armadilha” inerente às
bandas de grande identificação e eficácia com um estilo de fazer sua música.
Ousaram, mas não mudaram a fórmula (talvez não precisem fazer) e isto é uma
faca de dois gumes. Tudo vai depender das expectativas pessoais de cada um.
Para
mim, Sonic Highways é um disco
bom e tem seus pontos fortes na sequência. – Congregation
– que é uma homenagem aos artistas e raízes da música country, embora soe como
o mais tradicional do grupo, What did I Go?
/ God as My Witness – que é a canção
onde percebemos com maior facilidade o ambiente (tão aclamado por Grohl) que
foi gravado e Outside – um grunge
cheio de contratempos e agressividade peculiar. E, mais para frente, encontramos
a excelente In The Clear (melhor
música do disco) – melódica, com refrão consistente e com a presença da
Preservation Hall Jazz Band de Nova Orleans.
No
mais, o Foo Fighters é a mesma banda coerente de sempre.
- Fernando Lucchesi:
Quando
uma banda como o Foo Fighters, lança um algo do nível de Wasting Light, sucesso comercial incontestável e elogiado pela
maioria da crítica, ela chega a uma encruzilhada em relação ao disco seguinte
(acredito já ter falado algo a respeito no blog anteriormente): repetir a fórmula
de sucesso, mesclar algo novo com toques do sucesso anterior ou mudar
radicalmente em relação à “fórmula do sucesso” previamente utilizada e
conhecida.
O
Foo Fighters, ao que parece, optou pela mescla entre coisas novas (entenda-se:
fora da fórmula anterior) e resquícios do bem sucedido disco anterior. O
resultado foi um dos discos mais entediantes do ano. A despeito de o álbum
conter algumas faixas bem interessantes com Something
for Nothing (inicia com um andamento lento para depois explodir nos gritos
insanos de Grohl) e de Congregation (pop/rock
da melhor qualidade, com AQUELE riff pegajoso), a impressão é de que a maior
parte das outras faixas está lá esperando entrar na trilha sonora de um novo
filme da franquia American Pie.
Músicas datadas, com um apelo pop sem nenhuma inspiração e uma sensação de
preguiça inacreditável.
Para
a chatice ficar completa nada mais apropriado do que encerrar o disco com a longa
e chatíssima I Am a River. Um chororô
que dura infindáveis sete minutos, com direito a arranjos de cordas para dar
uma falsa impressão de magnitude da música. Como diria um dos componentes do
blog: esse disco é mais fraco do que choque de lanterna!
- André Maranhão:
O
fato de todas as faixas do álbum Sonic
Highways terem sido gravadas em locações diferentes chamou a minha atenção,
embora confesse não saber até que ponto esta postura dos Foo Fighters seria
fruto de uma exigência técnica em vez de uma jogada de marketing.
Em
se tratando das canções, achei interessante a presença da guitarra barítono de
Rick Nielsen em Something From Nothing
já que tal instrumento não é tão popular no pop rock ou no rock alternativo,
mas tem sido de suma importância em outros gêneros musicais como o surf music, country
e jazz. The Feast and the Famine
segue uma linha mais próxima de um rock de verão, embora não rivalize com uma
canção aos moldes de Breakout –
lançada pelos próprios Foo Fighters ao final dos anos noventa.
A
faixa que eu mais gostei foi Congregation,
pois nela a banda parece perfeitamente entrosada: há uma ótima cobertura de
guitarras-base e o solista Chris Shiflett se coloca muito bem, juntamente com o
baixo de Nate Mendel. Por fim, vale destacar a performance de Taylor Hawkins à
frente da bateria. A segunda melhor faixa sob o meu crivo é I Am a River; uma balada que cresce aos
poucos e fica boa no refrão.
Subterranean, a única canção com a presença
marcante do violão de aço, cairia muito bem numa trilha de 007... What Did I Do, God as My Witness, em
certos momentos me soou longa demais, e só se tornou interessante a partir de
sua metade. Em Outside, a introdução
e as pausas para os solos de guitarra imprimem um tom mais dinâmico, mas nada
em especial. Também não vejo (e ouço) nada de novo em In the Clear.
Eu
li que em algumas páginas anglo-americanas, Sonic
Highways recebeu avaliações em torno de “regular”. Desta vez, me
aproximarei dos conceitos de Metacritic,
The Guardian, Entertainment Weekly, dentre outros, e darei um “C”, para o mais
novo trabalho dos Foo Fighters. Acho que eles já produziram hits melhores...
- Rógeres Bessoni:
É
com todo o respeito que paro para ouvir um novo trabalho de uma banda como o
Foo Fighters, levando em consideração a trajetória de uma das poucas bandas
que, nas últimas duas décadas, têm significativamente ajudado a manter de
alguma forma pulsante o tão maltratado – e, atualmente estéril – rock and roll.
Talvez isso me leve mesmo a aumentar minhas exigências e expectativas quando me
deparo com um trabalho que sei que é sério. Mas o Budismo nos alerta que as
expectativas elevadas acarretam decepções consideráveis, e foi justamente o
caso. Ouvindo o Sonic Highways, só me
convenço mais veementemente de que esse senhor de idade, o rock, precisa
urgentemente passar por uma nova demolição/revolução, como a que os próprios
integrantes do Foo Fighters ajudaram a realizar no começo dos anos 90. No
entanto, de lá para cá, as placas tectônicas do rock têm se mantido numa imobilidade
soporífera. E aqui chegamos ao desapontamento com o Sonic Highways.
Em
primeiro lugar, quero frisar uma coisa: o disco NÃO É RUIM, mas também não
instiga. É bom, sólido, bem tocado, mas só isso. “Só isso”? É. Porque é a repetição de padrões sonoros que
já estão ecoando há mais de 20 anos e, para mim, não acrescentam mais nada.
Neste sentido, o disco ficou morno, alternando entre alguns momentos bons e
outros realmente chatos, sem ter apresentado nenhuma faixa impactante ou
poderosa – com exceção, para mim, de Something
From Nothing, que começa com uma melodia também morna, com uma linha de
guitarra mais que repisada, mas que cresce para uma explosão vigorosa, ficando
realmente muito boa. Uma das músicas que mais me agradaram recentemente e que,
na verdade, me pareceu mais Audioslave que qualquer outra coisa. Tive a
impressão de ouvir Tom Morello no trecho mais pesado. Mas o resto do disco,
infelizmente, não se manteve nesse nível.
Em
vários, vários momentos, tive aquela sensação: “já ouvi isso”. São os mesmos
vocais, indo do “grunhido” ao mais “meloso”, com alguns momentos de explosão na
medida certa. As guitarras fortes, em bases barulhentas, eventualmente com
notas esticadas ou ponteadas com notas soltas, mas sem nenhum riff marcante, de
pegada e, para mim, o que é pior e incompreensível: a continuação de uma escola
de guitarra praticamente sem solos. Da mesma forma, a cozinha, com baixo e
bateria precisos, firmes, não traz nenhuma levada inovadora, nenhuma
quebradeira surpreendente. Talvez por serem sons da saída da minha
adolescência, isso sempre me passa a impressão de que, mesmo com músicos
maduros, a banda se manteve de certa forma adolescente. Estamos falando da
personalidade de uma banda consagrada, eu sei disso. Sei que a manutenção de
algumas estruturas também tem sua importância, principalmente para os cultores
de um estilo, e o Foo Fighters não é de maneira alguma formado por integrantes
amadores ou imaturos. Entretanto, o grande perigo é o criador ficar escravo da
criatura. No caso da concepção musical, arriscado é os autores de um dado nicho
não saberem mais inovar dentro dos padrões que estabeleceram, ou reconhecer que
pode ser a hora de romper com tais padrões, que podem ter sido bons e
necessários parâmetros no começo, mas que depois se converteram, em maior ou
menor escala, em uma zona de conforto - a simples aplicação de uma fórmula, que
não desafia mais nem a banda, nem o público. Sei também que o ponto deste
comentário é o Foo Fighters e não seria tão adequado terminar com comparações explícitas,
e minha intenção não é comparar A com B e decidir sobre que é “melhor”. Não é
nada disso, mas acontece que só reforço cada vez mais uma percepção que já
tenho há alguns anos e venho repetindo: de fato, pouquíssimas bandas
“envelhecem” como o Pearl Jam.
- Bruno Vitorino:
Eu
não gosto do Foo Fighters. Na verdade, nunca gostei. Por mais que tenha tentado
reverter esse quadro em ocasiões passadas, acabava sempre a cada empreitada por
não me identificar com a sonoridade da banda. E, para agravar ainda mais minha
repulsa, irritava-me profundamente as malfadadas tentativas de Dave Grohl e companhia
em serem engraçadinhos, debochados, fingindo-se comediantes em seus clipes – Breakout, Learn to Fly, Long Road to Ruin, Low, The One -,
vinculando, dessa forma, o rock a uma espécie de oligofrenia juvenil coletiva,
que se espalhava com uma virulência gigantesca via MTV, e não mais à urgência
expressiva e ao caráter subversivo com os quais o estilo sempre dialogou.
Assiste a esses vídeos que menciono e me diz nos comentários se estou enganado.
No
quesito “a nova salvação do rock”, devo confessar que prefiro muito mais a
pegada crua do Queens of the Stone Age, suas melodias instigantes, o cuidado na
montagem das estruturas sonoras, a ironia fina de suas letras e, o mais
importante, o fato de sua música trazer sempre algo de inesperado, rico, contrariando
os detratores do gênero que vêm nele apenas uma forma primitiva de articular os
sons, abrindo-lhe, com isso, infinitas possibilidades estéticas – ouve
atentamente A Song for the Deade
na sequência Mosquito Song; tenho
certeza que pensarás estar ouvindo duas bandas distintas. A razão disso tudo se
deve à consciência criativa de Josh Homme e seu profundo conhecimento do que é
o rock and roll, dos timbres que manipula e dos inesgotáveis recursos que um
estúdio de gravação pode prover a mentes criativas. Qualidades que, por
exemplo, o senhor Dave Grohl não tem; ou se as tem, não desenvolve. “Ah, mas em
Songs for the Deaf, Dave Grohl
participa tocando bateria. Esqueceu, foi?!”, alfineta meu querido leitor. Certamente.
Tens razão. Mas, o êxito de sua participação se deve muito mais ao encaminhamento
dado ao projeto por Homme, e, verdade seja dita, em alguma parte a Nick
Olivieri, do que ao baterista, que não passou de um convidado ilustre. Não
esqueça o senhor que o disco musicalmente mais bem sucedido do Foo Fighters, Wasting Light, carrega escancarada influência
de Josh Homme, como já denuncia as guitarras na introdução da faixa de abertura
Bridge Burning. Também não me parece
fruto do acaso que quando a ideia desse ótimo disco nascera em seu peito, Grohl
estivesse em turnê com o Them Crooked Vultures, ou seja, trabalhando com a
entidade John Paul Jones, mas inteiramente submerso no universo estilístico de
Homme. Não há que se negar os fatos, e os fatos são tudo.
Não
obstante a digressão acima, particularmente guardo solene respeito a Dave Grohl
pelo que fora outrora com o Nirvana, e pela sua integridade enquanto band leader da maior banda de rock de
sua geração – e que só não é a maior do mundo hoje, porque o U2 e os Stones ainda
estão em atividade. Pode-se falar o que quiser dele, mas ao menos ele tenta
novas possibilidades sonoras e não se deixa cooptar pelo doce mel da glória
midiática. Ao contrário, usa-a a seu favor, propondo, em certa medida, um
remodelamento interno dessa estrutura que foca no efêmero das estrelas de
ocasião. Não se pode desprezar, só a título de ilustração, o colossal trabalho
de pesquisa encabeçado pelo músico que originou o disco Sonic Highways e resultou num seriado homônimo, produzido em
parceria com a HBO (que no Brasil está sendo transmitido pelo Canal Bis aos
domingos às 19:30, horário local), no qual Grohl, percorrendo os grandes
centros urbanos de seu país, procurou de uma só vez: redescobrir as raízes da
música popular norte-americana; traçar um mapa da cena underground dos Estados Unidos; buscar as origens do rock; ensinar às novas
gerações um pouco da história da cultura do século XX; e, de lambuja, ainda se
inspirar para um novo trabalho com sua banda. Por isso tudo, escutei o mais
novo trabalho do Foo Fighters cheio de esperança e com muita cerimônia. E o
começo do álbum me pareceu muito promissor. Aquela guitarra de timbres
brilhantes abrindo Something From Nothing,
tocada de modo simples, enfatizando as suas três primeiras cordas (mi, si e
sol), estabelecendo assim a estrutura básica do acorde de mi menor, e delegando
ao movimento cromático descendente do baixo (sou wagneriano, quedas de meio tom me agradam) o sentido harmônico,
deu-me a falsa impressão de que eu iria gostar do disco. Na metade da música,
já estava entediado.
O
grande drama deste trabalho reside justamente na contradição entre o imenso
projeto de pesquisa que o precedeu, o qual estudou diversos matizes sonoros e
culturais, e a contundente monocromia do álbum. Pois, Sonic Highways é carregado de lugares-comuns do rock enfadado: mão
pesada nas guitarras, vocais rasgados e letras adolescentes (ouça What Did I Do). Muita atitude, alguma
pretensão intelectual, e pouco - ou quase nenhum – conteúdo. A impressão que se
tem ao final da audição é que se trata de um disco com apenas uma faixa de pouco
mais de quarenta minutos, não fossem os espaços propositais separando um tema do
outro a nos dizer o contrário. Apenas Subterranean
quebra a mesmice do disco, mudando os timbres das cordas (os violões de corda
de aço fulguram aqui); brincando com a métrica ao intercalar sessões rítmicas em
6/8 a outras em 4/4; trazendo, de início, um singular encadeamento harmônico não
funcional, em estrutura constante (F#m/Am/Em/Gm), costurado por uma bela
linha de fundo, que depois descamba num enigmático lá maior o qual incorpora em
si um bocado de seu modo paralelo, o menor natural – há nesse momento um acorde “Em” tão sublime e
inesperado que confere a essa parte da composição toda sua beleza melancólica. Música
realmente tocante e a tenho escutado repetidamente. Contudo, é o único exemplo
de brilhantismo que existe no trabalho, o que por si só não é capaz de salvar o
disco.
Imagino
que a experiência do “ao vivo” em estádios grandes, com um público eufórico que
urra de delírio até para roadie em
passagem de som, Sonic Highways
funcione. Mas, enquanto disco, soa enfadonho. No entanto, meu caro leitor - e
espero sinceramente que não me ojerizes pelo que escrevi até então -, tudo não
passa de uma questão pessoal, pois a música reverbera no interior de cada um
das mais infinitas maneiras. Escuta e vede o que diz teu espírito.